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Sábado, 31 de Janeiro de 2015

Castelões - Chaves - Portugal

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Hoje a porta abre-se mais uma vez para Castelões, uma aldeia à qual gostamos sempre de ir e de deixar aqui no blog.

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E gostamos de ir por lá porque há sempre motivos de interesse a registar e pormenores que sempre vamos encontrando e nos escaparam nas visitas anteriores.

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Tal como me referia há dias a Seara Velha, Castelões é também uma das aldeias que tenho como trunfo para quando não há muito tempo para procurar imagens no arquivo do nosso mundo rural, o tal que é obrigatório ficar por aqui todos os fins-de-semana.

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 13:00
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Pedra de Toque - Uma Carta

pedra de toque copy

 

UMA CARTA

 

Algures, 30/01/2015

 

Meu caro António:


Ao receberes esta, ficarás certamente surpreendido!...


Estamos tantas vezes juntos, porque raio te deu pra me escreveres!?...


Hoje é um dia especial, e eu senti necessidade de falar contigo.


Já passaram tantos anos meu amigo…


As marcas do tempo vão aparecendo inexoráveis por fora, mas sobretudo por dentro e não só no corpo…


A vida até ao presente vai suportando estoicamente as tempestades e fruindo gostosamente os períodos de bonança.


Só o trabalho dignifica, dizias-me tu sempre que me abatia face aos obstáculos que fui ultrapassando.


Agora sei que, mais sereno, te vais enamorando das palavras e das frases que com elas compões.


E deves continuar a fazê-lo inspirado na tua vida rica e cheia, moldada pelos sentimentos que estão colados à tua pele.


Continua a proporcionar-nos textos que, como diz a tua amiga Zezinha, vão tocando na sensibilidade de quem como tu, ama a linda cidade de Chaves, as suas gentes, os seus monumentos (um sortilégio… como muitas vezes a referes).


Ah, e não deixes de prezar os teus amigos de sempre. Sei que te dói o desaparecimento de alguns.


Normalmente os que nos deixam são os melhores. Quem comanda (se existe alguém que comanda?!...), erra por vezes em demasia.


Sei que como eu, és um homem empenhado politicamente.


E como dói vermos ruir os castelos que erguemos na juventude e que por eles tanto demos corajosamente, generosamente!...


Fico feliz porque sei que hoje e sempre tu não prescindes dos valores que foram teus alicerces de vida.


Comigo sei-te disposto ainda a lutar (sempre de pé, como as árvores, até ao fim!) pela liberdade, pela justiça, pela fraternidade, pelo sonho de um mundo melhor que vai chegar numa manhã clara e limpa.


Deixo-te um abraço do Zé Firmino, da Mizé Guimarães, do Jorge Medeiros, do Jorge Comboio, do João Artur e de todos os amigos do peito que são muitos mas cujos nomes não me ocorrem.


Goza o amor incondicional que tens pelos teus filhos, que sei correspondido, e também pelos teus jovens netos, troncos da mesma raíz cuja foto transportas sempre.


Os teus irmãos e sobrinhos sei que os estimas e que te admiram.


Não percas a recordação dos que te antecederam e que deram um contributo inestimável para fazerem de ti, aquilo que és.


Sei que deles és devoto e que veneras, especialmente a tua mãe e a tua avó, de cuja varanda vias o mundo…


Eu gostava de pôr mais emoção nesta carta, como tu fazes com os teus textos, mas não sou capaz, não tenho esse dom…


Termino para te pedir encarecidamente que nunca esqueças que “só a cultura salva” como tantas vezes te ouvi dizer.


Os poetas gostam de ser cantados na tua voz. Projeta os seus versos por muitos e muitos anos.


Uma amiga comum entregou-me um ramo de jasmins para te oferecer.


Deixo-te aqui um abraço muito sincero.

 

Um amigo enorme.

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:51
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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2015

Um café e um bagaço

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Penso que gosto pelo café curto também é um dos traços da cultura portuguesa. Depois há que lhe acrescente um cheirinho ou mesmo o bagaço inteiro. São gostos e já se sabe que gostos não se discutem, mas às vezes, mesmo não gostando do gosto, um bagacito até dá jeito, principalmente quando a dieta e a mesa é transmontana, e depois, claro, também há o frio. Pessoalmente sou mais adepto do café “solo”, bem curtinho de preferência, mas confesso que uma vez por festa um bagacito também marcha e até cai bem.

 

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Já que falamos em cheirinhos, hoje fica também uma imagem com cheirinho a HDR, que tal como o café e o bagaço de vez em quando também sabe bem.

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:00
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Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

O VALENTE MILITAR, O REPUBLICANO INDEFETÍVEL E O FIEL CAMARADA

ANTÓNIO GERMANO GUEDES RIBEIRO DE CARVALHO

 

I

 

Faz exatamente amanhã 100 anos que, de Chaves, o 3º Batalhão do RI 19, partiu para o sul de Angola, no âmbito da 2ª Expedição, comandada pelo general Pereira d’Eça, para, a partir de Moçâmedes, se dirigir para o Baixo Cunene, e combater os alemães da antiga Darmalândia (atual Namíbia), depois do incidente fronteiriço de Naulila, e a sublevação dos nativos, que os alemães implementaram, contra a soberania portuguesa.

Em meados de 1917, parte para a Frente Ocidental, Flandres francesa, um outro batalhão do RI 19 (o 1º), depois de a Alemanha ter declarado guerra a Portugal em março de 1916, constituindo o 2º Depósito de Infantaria do Corpo Expedicionário Português (CEP).

Não atuando este 1º Batalhão do RI 19 como uma unidade autónoma na Frente, a sua função, no teatro de operações da Frente Ocidental, era fornecer, às unidades em primeira linha, os militares que tivessem dado baixa naquelas unidades - nomeadamente, ou por licença, ou por doença ou morte.

Em muito pouco tempo, após a sua chegada a Flandres, praticamente todos os militares do 1º Batalhão do RI 19 estão nas linhas da Frente, integrados nas diversas unidades que combatiam - a sua grande maioria nos batalhões da 1ª, 2ª e 3ª Brigadas, da 1ª Divisão.

De muitos militares que do RI 19 se distinguiram na Flandres, vou hoje falar de um em especial.

Face à leitura que fazemos da História e das suas fontes, cada autor tem a sua preferência. A minha vai para António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho.

António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho foi mobilizado no RI 19, em 1917, para a Frente Ocidental, Flandres.

Integrava a 4ª Companhia, daquele 1º Batalhão, como comandante da mesma.

Logo que chega a Flandres, cedo teve de substituir um seu colega no Batalhão de Infantaria nº 21 (BI 21), da Covilhã, como comandante de Companhia. Naquele Batalhão e na companhia que comandava foi encontrar conterrâneos seus, de Chaves.

Deve-se à sua inteligência, valentia e ardor patriótica a iniciativa do maior - e com mais sucesso -, combate de infantaria (raid) levado a cabo pelas tropas do CEP durante a campanha na Flandres na Grande Guerra.

 

II

O Raid de 8 para 9 de maço de 1918 (*)

Peguemos nas palavras de um antigo combatente flaviense, também oficial do BI 21, e da companhia do capitão António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, alferes Alípio José da Cruz Oliveira, ator/interveniente neste raid, quando, em 1955, trinta e sete anos depois, nos descreve aquele cenário de guerra e os momentos vividos neste raid.

Sobre a nossa participação, no teatro de operações, começa por dizer: “Foi a 2 de Abril de 1917 que os primeiros infantes de Portugal penetraram no sistema defensivo [as trincheiras]. Dois meses depois, a 4 de junho, aguentaram, magnificamente, o primeiro embate a sério do inimigo. E o coração da guerra continuou batendo, ora com relativa calma, ora com violência, por vezes, brutalíssima, até que, ao declinar o rigorosíssimo inverno que, para os Portugueses, foi espantoso flagelo, as artilharias e morteiros de trincheira, de parceria com as metralhadoras, deram em não mais se calarem. O infante não podia dormir uns momentos porque a sua vigilância era permanente; passava seis dias consecutivos naquele inferno! Toda a sua capacidade de resistência, moral e física, estava ali posta à prova. O alemão, incansável e persistente, bombardeava, minuto a minuto, o sistema de trincheiras, à retaguarda, quaisquer pontos, ainda os mais recônditos. A sarabanda era contínua e, para cúmulo, as Linhas portuguesas, eram frequentemente investidas com raids enérgicos, de audácia sem limites”.

Quanto à figura do militar, alferes de infantaria, deixa-nos esta bem impressiva imagem: “O Alferes de infantaria, na 1ª linha, tinha, pois, de estar na plenitude do espírito ofensivo, da coragem, da audácia, da intrepidez, em suma, do arrojo e da valentia, com absoluta ausência de fatuidade, para ser o espelho das máximas virtudes militares - abnegação de santo e fulguração de herói”.

E, face a um Corpo de exército depressivo e amedrontado com a mastodôntica força huna, pequenos laivos da antiga e brava fama lusitana se levantam, inconformados pelo torpor provocado por uma vida de toupeira, querendo mostrar a valentia da raça de um povo pequeno, de alma grande, e, inconformado, desabafa: “Havia que pôr cobro a tal estado de cousas. O brio militar nacional impunha-nos uma desforra dura, mais enérgica ainda, um castigo severo em que ficassem vincadas, duma maneira que não oferecesse dúvidas a ninguém, as qualidades de valentia dos nossos soldados que, no dizer de Napoleão, são dos melhores do Mundo. E assim aconteceu. O General Gomes da Costa [...] interpretando fielmente o anseio de todos os que no CEP prezavam a sua farda, escolheu a 1ª Companhia do Batalhão de Infantaria 21 [...] para dar execução a um desforço sensacional”.

Determinados para a ação, relata-nos os seus preparativos: “A 7 de Março, desse ano de 1918, tivemos pessoalmente a honra de, com o comandante António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho - um oficial de panache, ilustrado e de méritos invulgares - ouvirmos do prestigioso general o seu plano, que era de um ataque em forma a esse inimigo teimoso, que nos agredia sem tréguas [...] Mas que eram os «raids»? Eram operações que consistiam no assalto às linhas adversas, na mira de destruir, causar baixas, colher identificações. Na sua preparação, cuidadosa e metódica, realizavam-se vários trabalhos: escolhia-se o objetivo, fixava-se o efetivo atacante, elaborava-se o projeto, estudava-se a colaboração de artilharia, procedia-se a ensaios. À aviação competia a recolha de fotografias pormenorizadas da área que sofreria o «raid». Os oficiais que tomaram parte na ação de 9 de Março de 1918 puderam constatar o bom serviço produzido por fotógrafos da aviação britânica sobre comunicações nas trincheiras inimigas, bifurcações, cruzamentos, minas, postos de snipers, abrigos. Sabido que depois do alvorecer - do A postos - havia já condições menos favoráveis para a realização de operações desta natureza, escolheu-se a hora zero para noite cerrada ainda. Foi tomada, também, em linha de conta a situação atmosférica”.

O objetivo fixado era: “(...) dada ordem à Companhia de Assalto para, na madrugada do citado dia 9, executar um raid sobre as linhas alemãs com o fim principal de fazer prisioneiros e destruir um «decauville»”.

O ataque foi efetuado a partir do setor de Ferme-du-Bois em direção às trincheiras alemãs, conhecidas pelos nomes de «Sally Trench» e «Mitzi Trench». A companhia era constituída por um efetivo de 154 homens, divididos em quatro pelotões:

  • 1º Pelotão (esquerda), comandado pelo tenente Henrique Augusto;
  • 2º Pelotão (centro), comandado pelo alferes Vitorino Rodrigues Corvo;
  • 3º Pelotão (direita), comandado pelo tenente Luís de Souza Gonzaga;
  • 4º Pelotão (reserva), comandado pelo alferes Alípio Cruz de Oliveira.
  • Uma seção de Engenharia, da 3ª companhia de Sapadores Mineiros, comandados pelo alferes Costa Alemão, com a missão de transporte e emprego de explosivos.

Os pelotões de infantaria estavam organizados em grupos de corta-arame, metralhadoras, fuzileiros, granadeiros e limpadores de trincheiras.

A execução do raid é-nos assim descrita pelo nosso antigo combatente: “A ordem de operações, para a madrugada de 9 de Março de 1918, foi rigorosamente cumprida. O comandante Ribeiro de Carvalho começou por distinguir em quatro fases a sua execução: 1) - Estabelecimento em posição de espera, fora das nossas trincheiras; 2) - Avanço sobre a 1ª linha do adversário; 3) - Luta dentro da trincheira inimiga; 4) - Regresso às nossas trincheiras. [...] Foi de Ferme-du-Bois II que o «raid» se executou. Pelas 4 horas, debaixo de mil precauções, saltámos os parapeitos, atravessámos as defesas acessórias e, de rastos, pela terra-de-ninguém fora, fomos ocupar as covas donde, na hora zero, largaríamos para o assalto. [...] Meia hora antes os pelotões estabelecer-se-iam à saída dos arames, abrigados nas covas dos morteiros, evitando despertar a atenção adversa. Iniciada a operação, cada pelotão, precedido dum grupo de praças das mais resolutas, munidas de tesouras corta-arames, avançaria em duas vagas, seguindo na primeira os limpadores de trincheiras [...]. A nossa artilharia, sempre duma precisão matemática admirável, à medida que se avizinhava o momento decisivo, aumentava gradualmente a velocidade de tiro, alvejando as linhas alemãs em toda a extensão do setor português. Silvavam sem interrupção as balas das metralhadoras dos dois campos. Roncavam fortemente os morteiros [...]. Chegadas as quatro horas e cinquenta e cinco minutos, toda a artilharia do CEP, fez fogo de barragem sobre a frente a assaltar e sobre os pontos donde poderia surgir o contra-ataque. As armas automáticas varriam os entrincheiramentos. A potente artilharia pesada inglesa, deixando rastos rutilantes no espaço, batia a retaguarda alemã. Bem colados ao terreno, víamos o inimigo a vinte e cinco metros de nós, de pé, nos parapeitos, sondando o negrume da noite. Retínhamos o respirar como se fosse possível o inimigo ouvir o tic-tac do nosso coração. Os cinco minutos de barragem foram terríveis. Das trincheiras alemãs saíam, de toda a parte, projéteis iluminantes, enquanto saraivadas de balas vinham doidamente cair à nossa volta em uivos temerosos. O fogo saído das linhas aliadas passava uns centímetros acima das nossas cabeças, em lufadas ciclónicas, indo estoirar com fragor estupendo, uns metros adiante. Nesses minutos infernais, que Dante não imaginou, consultávamos os relógios de pulso,

 

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e certificar-nos da marcha acelerada para a hora zero e cosíamo-nos à terra, ainda mais, na impressão de que, se os monstros destruidores baixassem um milímetro, ficaríamos reduzidos a cisco [...]. A hora zero do ataque seria às cinco horas. [...] Chegou a hora grande. A artilharia portuguesa acalmou-se durante segundos para alongar o tiro [...]. Nesse instante supremo erguemo-nos de chofre e, feitos demónios, carregamos sobre o adversário. Os cento e vinte infantes lançaram-se ao assalto com denodo e galhardia, cobrindo os vinte e cinco metros, que os separava da linha alemã, desesperada, frenética e raivosamente, na ânsia de rapidamente vencerem. Depressa se precipitaram nas misteriosas trincheiras. Ato contínuo fez-se ouvir o concerto das granadas de mão a praguejarem maldições, o matraquear arrepiante das metralhadoras ligeiras e o rugir antipático dos tiros de espingarda e de pistola, disparados à queima-roupa. O feroz ambiente, realçado pela escuridão, aumentou até ao infinito o nosso furor, a nossa sanha de destruição, de aniquilamento, de morte. Lutámos como pudemos, à coronhada, à baioneta, a tiro, à granada, a murro, a pontapé. Transformámo-nos em feras selváticas. O soldado só é digno desse nome quando vende cara a vida porque ela pertence inteiramente à Pátria. A luta corpo a corpo dá instintos maus e desumanos. Aos portugueses de 9 de Março, não faltou arrojo, audácia, bravura e valentia. Aquele punhado de militares, pundonorosos, encarnou a alma de Viriato [...] O inimigo, valente e duro, nunca sonhara que tirássemos a desforra num ataque inopinado e impetuoso. Parecia desconhecer que o soldado português de hoje, quando devidamente comandado, opera os mesmos prodígios que os doutras épocas [...] O soldado alemão, incorruptível, dinâmico, de antes quebrar que torcer, bateu-se encarniçadamente contra os que, nessa madrugada heroica o arremeteram com cóleras leoninas. Preferiu morrer no seu posto a render-se. Foi devido à resistência sem par, desses soldados, nossos inimigos, que não pudemos regressar às nossas linhas com tantos prisioneiros quantos eram os defensores das trincheiras que atacamos. Singelamente prestamos aqui a homenagem do nosso respeito e da nossa maior admiração à memória dos alemães que souberam morrer”.

A força alemã opositora era o 260º regimento de Infantaria alemã.

Cumprido o objetivo do raid, há que dar execução à 4ª parte da operação traçada pelo comandante da força - o regresso às trincheiras - e avaliar-se do impacto da ação do inimigo atacante: “Devemos salientar que, quanto à nossa gente, não houve, na operação, mortos ou desaparecidos, facto este que se pode considerar milagroso. Todos regressamos a salvo, contando o ativo de vinte e cinco feridos, alguns de gravidade, estando entre estes o tenente Gonzaga e o autor destas descoloridas palavras, que era alferes”.

E o epílogo da ação é descrito pelo então alferes Alípio de Oliveira da seguinte forma: “A infantaria acabava de escrever a página mais brilhante do Corpo Expedicionário Português em França”. E, quanto ao comandante da força do raid, escreve: “ O capitão António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, verdadeiro «Gentleman», muito culto, demostrara as suas brilhantíssimas e excecionais qualidades de chefe. Os seus oficiais, sargentos e praças depositavam nele ilimitada confiança, seguindo-o contentes porque o seu talento, a sua grandeza de alma, o seu caráter nobilíssimo e imaculado, o seu maravilhoso espírito de camaradagem e a sua calma e refletida heroicidade, se lhe impunham absolutamente”. E quanto aos seus restantes camaradas: “O tenente Luís de Sousa Gonzaga, o saudosíssimo e já lendário Gonzaga, sans peur et sans réproche, fora sublime. O tenente Henrique Augusto de Lacerda batera-se com bravura e intrepidez. O soldado Baltazar jogara a sua baioneta com tanta gana que erguera com ela um dos antagonistas de ocasião, como se tratasse de uma rês. O «Montanhaque» correra sobre um alemão, que ostentava a Cruz de Ferro, esmurrando-o e trazendo-o às costas para as nossas linhas. O «Correcional», audazmente se apoderara duma metralhadora, cuja guarnição fora dizimada. Tantos e tantos episódios de bravura se deram a atestar o vigoroso impulso do ataque dos portugueses!”.

Obviamente que se trata do relato de uma pessoa que foi ator/combatente na ação. Tantos anos depois volvidos, o coração, os afetos e as memórias, em relação a um meio em que a morte estava sempre presente e a recordação dos camaradas que com ele viveram aquele dantesco mundo, constantemente a cheirar a morte, «pesam» mais e não são para esquecer nunca. E a razão, muitas vezes, pode sofrer da falta de objetividade que, nestas coisas, sempre se exige. Mas na guerra devemos essencialmente falar de quem a faz e a sofre - que foram estes homens. Se atentarmos no relatório, que superiormente, e normalmente se faziam, para enviar ao ministério da Guerra, o essencial dos factos, relatados pelo antigo combatente, aqui estão. O que está a mais é o coração de um combatente, que fala.

E a testar o feito estão as palavras do marechal Sir Douglas Haig, comandante superior dos exércitos britânicos, quando escreve aos representantes superiores do CEP: “Queira aceitar as minhas calorosas congratulações pelo excelente resultado do raid executado na manhã do dia 9 do corrente pelas tropas portuguesas ao Sul de Neuve-Chapelle”.

Luís Alves de Fraga, um historiador da Grande Guerra, refere-nos que o objetivo da ação teve como finalidade perfeitamente expressa “manter elevado o moral das tropas da 1ª divisão e obrigar o inimigo a temê-las”. Embora o objetivo que este autor expressa não seja aquele que vem transcrito no relato que acabámos de citar por Alípio de Oliveira, não nos parece, de todo, que haja aqui qualquer divergência ou contradição. Na verdade, para além dos objetivos específicos de cada raid - os que Alípio de Oliveira referiu - o objetivo geral de todos eles era o de manter o moral elevado das tropas, intimando o inimigo. E isto quanto mais se tratava de uma ofensiva de iniciativa portuguesa.

Diz ainda Luís Alves de Fraga, quando fala deste raid, que “é através da análise das recompensas que se dão aos militares que se pode avaliar a importância de uma operação e o comportamento da tropa nessa ação”. Este raid foi o que teve o maior número de louvores, promoções por distinção e distribuição de medalhas de Cruz de Guerra, sendo, pelo comandante da 1ª divisão do CEP, propostos 12 louvores, e atribuição de medalhas de Cruz de Guerra, e 10 promoções por distinção a militares, levadas ao comandante do Corpo do exército para que fosse este a fazê-lo, dando mais importância ao feito.

E, no dizer de Carlos Palmeira, um antigo combatente e expedicionário a Flandres do RI 19, “do épico raid de 9 de Março de 1918, cabe ainda mais glória a Infantaria 19”. Na verdade, o comandante que liderou a força do raid - António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, capitão do BI 21 do CEP, era flaviense, filho do então coronel Ribeiro de Carvalho. Por esta sua ação, o capitão Ribeiro de Carvalho é promovido a major por distinção, promoção publicada na Ordem do Exército nº 5 (2ª Série), de 30 de março de 1918. Além da promoção por distinção e condecoração com a Cruz de Guerra de 1ª classe e Cavaleiro da Legião de Honra, ao major António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, pelo comando do batalhão de Infantaria nº 21, foi-lhe concedida a Torre e Espada, por Ordem do Exército nº 15, (2ª Série), de 1920.

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Integrando o BI 21, e a força do raid português, estavam mais dois militares do RI 19:

  • Albano Joaquim Couto - louvado, promovido a 1º sargento por distinção; condecorado com a Cruz de Guerra de 3ª classe e a Military Medal inglesa;
  • Joaquim Estorga Salgado, 2º sargento - louvado; condecorado com a Cruz de Guerra de 4ª classe e com a Military Medal inglesa.

 

III

O republicano indefetível e o fiel camarada

Um outro militar do RI 19, e ardoroso republicano, mobilizado para Flandres no mesmo Batalhão e na mesma Companhia de António Germano Ribeiro de Carvalho, foi o tenente Porfírio da Silva. Sendo comandante da 1ª Companhia do Batalhão de Infantaria nº 34, de Mangualde, e 2º comandante daquele Batalhão, um raid de iniciativa alemã, a 14 de março de 1918, uma granada traiçoeira tira-lhe a vida.

Porfírio da Silva, natural da vila de Montalegre, era um fiel e convicto republicano. Hernâni António Cidade, na História de Portugal, Vol. VII, Edição Monumental, a propósito na incursão monárquica, por Chaves, dirigida por Paiva Couceiro, no dia 8 de Julho de 1912, a certa altura, diz: “Um destacamento avançou pelo norte do espaldão da carreira do tiro, com o tenente Ornelas de Vasconcelos. Logo se travou vivo tiroteio entre os atacantes e a companhia do tenente Barreira (Infantaria 19), distinguindo-se no combate, da parte dos fiéis, um contramestre, e o sargento Porfírio da Silva”.

É em honra deste patriota e republicano, decorridos quatro anos do seu passamento, precisamente a 14 de março de 1922, que se dá lugar a uma «Sessão Solene, na Sala da Biblioteca do RI 19, em memória do tenente Porfírio da Silva, que foi daquele regimento, morto gloriosamente em combate com os alemães na Flandres em 14 de Março de 1918», assim reza o frontispício da Ata da Sessão Solene daquele dia 14 de março de 1922, seguida do descerramento de um quadro com o seu busto.

 

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Naquela Sessão Solene, tomaram da palavra o general Ribeiro de Carvalho, entretanto Presidente da Câmara Municipal de Chaves, seu filho, o major António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, o capitão Souza Dias, o tenente António J. Granjo, o sargento-ajudante Fernandes, o 1º sargento Silva Pereira e o 2º sargento Varela. Dos discursos entretanto proferidos, vamos citar dois pequenos extratos dos mesmos, precisamente do general Ribeiro de Carvalho e de seu filho, major António G. G. Ribeiro de Carvalho.

Diz o general Ribeiro de Carvalho, a certa altura: “(...) estamos aqui reunidos para prestar homenagem ao tenente Porfírio da Silva que morreu, honrando a Pátria, pelo seu grande amor à Liberdade. É bem merecida esta homenagem: o tenente Porfírio da Silva era ativo, zeloso e valente, era um bom chefe de família, era um bom republicano. Conheci Porfírio da Silva como 1º sargento deste regimento e recordo bem que, quando da organização da defesa de Chaves no combate de 8 de Julho de 1912, não lhe tendo pertencido fazer parte da companhia que se opôs ao avanço dos rebeldes monárquicos, Porfírio da Silva dirigiu-se-me com lágrimas nos olhos solicitando-me que o deixasse incorporar na referida companhia. Queria bater-se pelo seu ideal: e, por esta forma, foi um dos bons elementos para alcançarmos a vitória daquele dia, que se encontra estampada na bandeira deste regimento”.

Por sua vez, seu filho, major António G.G. Ribeiro de Carvalho, a dado passo, afirma: “É necessário decorar os vivos com as honrarias que ganharam, é necessário sobretudo cercar os mortos da auréola que merecem [...] Não ficaria bem com a minha consciência senão tomasse parte nesta homenagem tão grata ao meu coração de português e de republicano. Nela se faz a exaltação do amigo, do companheiro que comigo comungou do mesmo ensejo idealista, que viveu as duras horas de incerteza, os arrebatamentos da esperança, as próprias cegueiras da fé! [...] Porfírio da Silva soube sempre distinguir nas escalas das afeições qual a que merecia os seus sacrifícios: e assim, sendo amantíssimo da família, por mais de uma vez sacrificou esta ao seu ideal político e definitivamente ao supremo ideal da honra portuguesa. As suas últimas palavras «Morro como um português!» falam eloquentemente acerca do conceito em que a sua alma tinha a nobreza de Portugal. São palavras de orgulho e íntima satisfação, perante a morte, definindo a têmpera de uma alma. «Morro como um Português!». [...] Propositadamente trouxe aqui os meus filhos. Quis dar-lhes um exemplo educativo pelo qual, na sua alma infantil, ficassem para sempre gravados dois factos: primeiro, o sacrifício da vida feito à Pátria por um herói; segundo, a exaltação desse herói feita pelos camaradas que com ele combateram e serviram. Qualquer deles contem em si uma lição e é das lições fornecidas pelos homens e pela natureza que se formam as almas e definem os caracteres. Aquele que ides ver foi um homem que morreu pela Pátria; aqueles que o cercam são a garantia mais sólida da sua integridade e por ela queimarão em qualquer momento o sangue, a vida, a família e todos os bens do Mundo!”.

Muitos flavienses conhecem mais e devotam mais atenção ao velho general Ribeiro de Carvalho e a figura do seu filho - um bravo soldado, um indefetível republicano e a humanidade e nobreza deste caráter - ficou na penumbra da História, «esquecida», quem sabe se de propósito, nos «arquivos» com que a História se tece, mas para sempre «morto»!

E, daqui, faço um apelo e manifesto um pesar: procuram-se homens desta fibra nos novos e velhos recantos desta antiquíssima urbe flaviense que, de tão «empertigada» dos feitos dos seus antanhos, tão esquecida anda das suas memórias e pouco valor já dá aos exemplos de vida que nos legaram.

 

IV

Síntese biográfica de António G. G. Ribeiro de Carvalho

Nasceu em Chaves a 30 de Outubro de 1889. Estudou no Colégio Militar, na Escola Politécnica e na Escola do Exército onde cursou Infantaria que concluiu em 1909. Serviu em Moçambique e depois em França, integrado no Corpo Expedicionário Português (CEP), onde se distinguiu por feitos em combate, o que lhe valeu a promoção por distinção ao posto de major e a obtenção de altas condecorações, nacionais e estrangeiras. No regresso a Portugal, em 1919, tomou parte nas operações em Trás-os-Montes contra os revoltosos monárquicos onde uma vez mais se destacou e foi ferido.

A par da carreira de oficial do Exército desenvolveu intensa atividade política. Primeiro, ainda no período denominado de Nova República Velha, como ministro da Guerra entre 18 de Dezembro de 1923 e 26 de Fevereiro de 1924, depois como deputado em 1925 pela Ação Republicana e mais tarde contra a Ditadura Militar e o Estado Novo, conspirando, em diversas ocasiões, para os derrubar.

Foi por isso preso em 1930 e 1933, abatido ao efetivo do Exército em 1931 por ter sido considerado desertor e dele demitido em Março de 1933. Exilou-se para fugir à perseguição que lhe foi movida pelas autoridades e evitar o cumprimento de uma pena de seis anos de desterro a que foi condenado. Porém, em 1939, regressou a Portugal e entregou-se, tendo nessa altura sido novamente julgado e condenado a dois anos de prisão correcional, suspensa por igual período. Posteriormente, em 31 de Outubro de 1959, pediu para ser reintegrado no Exército, o que lhe foi concedido no ano seguinte com o posto de coronel, ao abrigo de uma amnistia concedida, em 1950, pelo Governo.

Morreu a 17 de Fevereiro de 1967.

 

***

 

(*) As citações foram extraídas das seguintes obras:

  • Afonso, Aniceto; Gomes, Carlos de Matos (Coordenadores) (2013). Portugal e a Grande Guerra - 1914-1918. Vila do Conde: Quidnovi;
  • Arquivo Particular dos Familiares do Tenente Porfírio da Silva - Ata da Sessão Solene realizada no dia 14 de março de 1922, na sala da Biblioteca do R. I. 19 em memória do Tenente Porfírio da Silva, morto no combate com os alemães, na Flandres, em 14 de março de 1918;
  • Oliveira, Alípio de (1955). “O «Raid de 9 de Março de 1918 na Flandres”, in: Anuário de Chaves nº 6, pp. 27 a 31;
  • Palmeira, Carlos (1935). A Acção de Infantaria nº 19 na Grande Guerra. Chaves: Tipografia Mesquita;
  • Peres, Damião (Dir.) (1935). História de Portuga, Volume VII. Barcelos: Edição Monumental/Portucalense Editora;
  • Síntese biográfica de António G.G. Ribeiro de Carvalho http://ihc.fcsh.unl.pt/pt/recursos/biografias/item/4449-carvalho-ant%C3%B3nio-germano-guedes-ribeiro-de-1889-1967

António de Souza e Silva

 

 

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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2015

Mais um olhar sobre Chaves

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:54
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Gil Santos (pai e filho) apresentam livro em Chaves

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Já aqui foi anunciado em jeito de nota de rodapé no último “Discurso Sobre a Cidade” de Gil Santos, mas agora que se aproxima o dia fica mais uma vez o lembrete e o convite para a apresentação do livro « A Saga de um Combatente na I Guerra Mundial – De Chaves a Copenhaga» de autoria de Gil Santos (pai) e Gil Santos (filho).

 

CONVITE GIL SANTOS.png

A apresentação do livro estará a cargo do Prof. José Machado e dos respetivos autores, alternando com a atuação do Grupo Coral Allegretus.

Allegretus4.jpgA apresentação do livro e atuação do Grupo Coral está previsto acontecer a partir das 15H00 do próximo sábado, dia 31, no Auditório Engº Luíz Coutinho (GATAT), em Chaves.

 

Neste primeiro centenário da Grande Guerra, os autores contam a história do praça-de-pré António Pereira dos Santos, o “avô António”, 1.º Cabo do Batalhão de Infantaria n.º 19 de Chaves, feito prisioneiro dos alemães na Batalha de La Lys. Este foi um dos combatentes que, há 100 anos, foram desarraigados e enviados para o terror da Flandres. A I Guerra Mundial haveria de mudar as suas vidas para sempre. A ferro e fogo, fustigados pelo frio, pela fome e pela doença, mas sobretudo pela metralha dos boches, viveram momentos únicos – terríveis − no abrigo, no hospital, no cativeiro e na trincha. Este livro constitui, assim, uma homenagem a todos os que tombaram no campo de batalha e aos que, heroicamente, conseguiram salvar-se.

 

Gil Manuel Morgado dos Santos nasceu em Santa Leocádia, Chaves, a 19 de Maio de 1957.

Frequentou o Seminário de Vila Real. Mais tarde ingressou na Escola do Magistério Primário de Chaves, tendo concluído o curso em 1980. Licenciou-se em Administração Pública na Universidade do Minho, em 1993, onde adquiriu o grau de Mestre, na mesma área, em 2003.

Actualmente é professor de Economia e Contabilidade do quadro da Escola Secundária de Caldas das Taipas, em Guimarães.

 

Gil Filipe Calvão Santos nasceu em São José de São Lázaro, Braga, a 25 de Setembro de 1982.

Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 2000, tendo concluído a licenciatura em 2006. Frequentou o “Ano Comum” no Hospital de S. João, no Porto. Especializou-se em Oftalmologia em 2012. Actualmente trabalha no Hospital de Braga.

 

 

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Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2015

Chaves, uma imagem dos nossos dias

1600-(41099)

 

publicado por Fer.Ribeiro às 01:13
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Chá de Urze com Flores de Torga - 65

1600-torga

 

Coimbra, 16 de Junho de 1947

 

Sobretudo, não desesperar. Não cair no ódio, nem na renúncia. Ser homem no meio de carneiros, ter lógica no meio de sofismas, amar o povo no meio da retórica.

 

Miguel Torga, in Diário IV

publicado por Fer.Ribeiro às 00:40
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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2015

Estratos

800-rita

 

Na palma da mão

 

Gosto de viver aqui, neste lugar que o agora.

 

Antes de adormecer penso no além, para que o sono e  os sonhos me encontrem mais rápido.

 

Acordo, mais das vezes, a pensar no ali. As manhãs que coneçam antes do Sol trazem-me pessoas que deixei ali. Perseguem-me.

 

Entre o leite e as torradas, o agora chega. Mas há dias em que queria estar ali. Quando o além dá medo, o agora não apetece.

 

Há pedidos que não podem pedir-se. Volto à Escola da Estação onde tudo se pede. Tudo se perde.

 

Ainda bem que já não és Escola. Trazes-me mais depressa aqui.

 

Quando não há pedidos, há fé. Quando há nada, há mãos. Não pedem mas podem. Podem tudo.

 

Rita

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:37
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Rua de Stº António - Chaves - Portugal

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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

224 - Pérolas e diamantes: temos de perder o medo

 

Aparentemente possuímos mais liberdade individual, mas a sociedade onde vivemos está cada vez mais fora do nosso controlo e alcance. A partidocracia e os interesses económicos e financeiros sobrepõem-se aos interesses dos cidadãos. Manobram tudo e tudo e corrompem.

 

Vivemos neste neoliberalismo inspirado em Bernie Madoff, que por um lado nos rouba e por outro se dá ares de altruísta.

 

Tudo isto nos deve dar que pensar. Chegamos a uma fase da História em que o capitalismo assimilou a filantropia e a caridade, não apenas como idiossincrasia, mas como uma circunstância inerente ao próprio sistema.

 

A desigualdade cresce um pouco mais todos os dias. No entanto, para que o sistema não se desfaça, os mais ricos distribuem um quinhão aos mais desprotegidos, sabendo que essa é a melhor forma de reproduzir a situação que gerou esta brutal desigualdade.

 

O logro é esse. As elites criaram, e difundem, a ideia de que não existem alternativas ao poder que temos hoje.

 

Claro que para a crise que vivemos atualmente não existem respostas fáceis. Mas veja-se o que se passa na nossa cidade, em Portugal e no resto da Europa: os amblíopes lideram os cegos. Para esta gente, as políticas de austeridade são como uma superstição.

 

Todos sabemos que a austeridade apregoada, e praticada, é uma forma de evitar que possamos ir à raiz do problema da crise.

 

Incitam-nos com a pressa da atuação. No entanto, essa é a forma perversa de nos impedir que pensemos.

 

Os partidos no poder utilizam o argumento da crise para meter medo. Mas o que hoje todos percebemos é que eles foram o motor da crise. A sua principal razão.

 

Apesar dos mecanismos democráticos estarem a ser colocados em causa, não podemos desistir de ter esperança no futuro. Temos de perder o medo da mudança.

 

Mas, confesso, começo a ficar um pouco saturado da esquerda marginal que sabe que nunca atingirá o poder, mas, o que é ainda pior, secretamente nem sequer o deseja ocupar.

 

Os marxistas-leninistas e afins são os melhores teóricos do seu próprio falhanço.

Por incrível que pareça, e como muito bem referiu Slavoj Zizek, os neoliberais rejubilam com os comunistas. De facto, o caso da China é paradigmático e irónico. Os comunistas tornaram-se os agentes mais capazes do desenvolvimento do capitalismo.

 

Atualmente, o capitalismo asiático é mais dinâmico e produtivo do que o ocidental.

 

Os neoliberais deliciam-se com o feito. Afinal, quanto menos democracia melhor funciona o sistema. Com salários mais baixos e com menos direitos sociais, a economia desenvolve-se melhor.

 

Apesar de estar na moda ser antieuropeu, continuo a acreditar na Europa. As suas ideias de igualdade, liberdade, democracia e direitos humanos são a visão correta de uma sociedade livre e justa.

 

Os valores democráticos e republicanos são a sua matriz mais consistente.

 

Se a Europa se desvanecer e claudicar, quais são os princípios que os substituirão?

 

PS – Porque todos sabemos que quando se quebra madeira saltam lascas, renovamos o apelo ao senhor presidente António Cabeleira, e aos seus distintos vereadores, João Neves incluído por inteiro, para que aprovem uma auditoria externa às contas da autarquia. É que o buraco da dívida camarária é de tal dimensão que tememos que nos arraste a todos para dentro dele e nos devore. Além disso quem não deve…

 

PS 2 – E, também em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior, da qual foi insigne presidente, até 2013, o risonho vereador João Neves (ex-MAI e atualmente do PSD), pois quem não deve não teme; certos de que aquele que tão insistentemente reivindicou, durante toda a campanha eleitoral, uma auditoria às contas da CMC, com toda a certeza verá com bons olhos e até enaltecerá fervorosamente, uma auditoria realizada às contas do seu íntegro mandato.

 

publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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De regresso à cidade

1600-(41057)

 

 

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Domingo, 25 de Janeiro de 2015

Pecados e picardias

pecados e picardias copy

 

Oh…

Vou por matagais de desejo

Sem tesouras de podar remorso

Desço margens

Deixo para trás precipícios

Corro nas abertas da chuva miudinha

Levo-te sem te levar

Nem quero mais sonhos, os que tinha sentiram-se realizados e foram-se

Não guardo arrependimentos, nem sei que lhes fiz,

Já só vejo dignidade nas riquezas que são pobres,

Metem-me nervos:

as lutas redundantes de faz de conta

As omissões da dor da fome pelo mundo fazem-me queimaduras na alma

As multidões dos fenómenos coletivos para parecerem muitos a ficar tudo na mesma,

Continuo a gostar de telhados de quatro águas

Amo as sombras do luar sei que és tu a espelhar-te

Escrevo o que ninguém lê

Sei a dor de ser velho

Não coro de vergonha pelas artes de amar

Só Leio livros que não se vendam mesmo esses deixo de os ler

Invejo os amantes

Sento-me e admiro o vazio num horizonte de névoas e brumas de silêncios

Não posso poupar afetos já sou fortuna não quero ser avareza

Deixei morrer o deslumbramento, não fazia sentido, os heróis verdadeiros não o quiseram

Respiro a liberdade de todos os voos mais ainda dos teus

Amo-nos, amo-Nos e até por acaso nem Nos acho melhores que os outros

Até logo…

 

Isabel Seixas in Espólio

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 23:30
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O S.Sebastião do Couto de Dornelas e Alturas do Barroso - 2

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Apresentamos em duas partes o S.Sebastião do Barroso porque de facto é assim que acontece por lá, ou seja, a primeira parte em Couto de Dornelas e a segunda em Alturas do Barroso, mas entre as duas aldeias há ainda a paragem obrigatória em Vilarinho Seco onde sem festa, a festa continua.

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Do Couto de Dornelas às Alturas do Barroso pouco mais são de 10 quilómetros e Vilarinho Seco fica sensivelmente a meio do trajeto, assim a paragem obrigatória nesta aldeia não se deve à distância, mas antes pela necessária hidratação ou mesmo um simples café, mas também pela festa que sempre acontece e pela beleza da aldeia.

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Toda esta região do Barroso tem uma beleza singular devido a ainda ir mantendo a sua integridade de um núcleo de construções que mantém as características das construções típicas do Barroso. A não ser um ou outro caso isolado as coberturas de colmo já fazem parte da história, apenas a estrutura dos beirais testemunham que um dia existiram. Penso que poderia e ainda pode haver uma solução interessante uma sobrecoberta, mas isso ao S.Sebastião até pouco interessa. Resumindo, queria eu dizer que é sempre interessante parar em Vilarinho Seco nem que seja para tomar meia-dúzia de imagens que são sempre interessantes.

1600-vil-seco (24-25)

Mas o nosso destino é mesmo Alturas do Barroso. A saída de Couto de Dornelas acaba por acontecer quase sempre depois das duas da tarde, pelo caminho além da paragem obrigatória em Vilarinho Seco há sempre outras paragens ocasionais. Ora aqui porque há que tomar umas fotos às vacas a pastar, ora ali porque há neve, ora acoli por outra coisa qualquer, às vezes até por um chichi dum mais apertado é preciso parar e assim, quando se chega a Alturas do Barroso já a tarde está mais pra lá do que pra cá, então se o céu está encoberto com nuvens a tarde chega mesmo a cheirar a anoitecer.

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Claro que nós vamos lá pela festa da festa, pela festa da fotografia , mas também pela feijoada do S.Sebastião. às vezes é complicado conciliar tudo mas descomplica-se, pois a missão tem de ser cumprida e cumpre-se.

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Claro está que com tantos afazeres o regresso à terrinha já é feito noite escura, via Montalegre. Éh! É aquela tal noia de nunca regressar pelo mesmo caminho ou então apenas o pretexto para passar por Montalegre, para ver se o castelo está no sítio e se a Vila e a Portela continuam no seu lugar.

 

E assim vai sendo o cumprir da promessa do 20 de janeiro.

Até pró ano.

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:30
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Sábado, 24 de Janeiro de 2015

O S.Sebastião do Couto de Dornelas e Alturas do Barroso - 1

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Ora vamos lá até ao S.Sebastião, hoje o do Couto de Dornelas, pois não é a única povoação que celebra o 20 de janeiro com uma festa comunitária.

 

Então para apanhar tudo desta festa convém ir cedo. Para mim se chegar lá por volta das 8h30 ou 9 horas, já está bem, pois ainda se apanham as ruas despidas de gente e podemos apreciar a verdadeira dimensão da mesinha de S.Sebastião ao longo da rua principal da aldeia.

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De seguida há a visita obrigatória aos potes e ao pão. A entrada para a zona de trabalho, onde durante toda a noite os potes cozinharam o manjar a servir, não é de visita livre, e compreende-se, pois só incomodam quem trabalha, mas depois de negociar a reportagem com o “porteiro”, a porta abre-se. Claro que depois de tanta foto ao pão e aos potes, o “porteiro” acha por bem que também deve sair em uma e, como o prometido é devido, cá fica ela.

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Os potes são muitos, pão ainda mais, mas a gente é tanta que não há outro remédio e depois há que precaver, pois mais vale sobrar do que faltar.

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Depois há que esperar pela missa. É tempo de dar uma voltinha pela aldeia, e assistir à chegada dos peregrinos. Uns mais carregados que outros, mais ou menos abrigados, vão marcando lugar à mesa e enchendo a rua principal da aldeia.

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Neste tempo livre uma ou mais passagens pelo largo do Cruzeiro são sempre obrigatórias, mesmo porque é por ele que se vai até à igreja, quer se vá a missa ou não.

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Entretanto poucas são as ombreiras das portas que ficam livres. Abrigam um pouco do ar de neve e parecendo que não dão sempre um certo descanso ao corpo para além de ser um sítio sempre privilegiado para ver quem passa.

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À missa nem todos vão e ainda bem, pois embora a igreja até nem seja das mais pequenas, seria impossível comportar todos os peregrinos, mas há sempre os mais devotos que mesmo que não tenham lugar dentro, ficam à porta ou no adro.

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Terminada a missa há que seguir a cruz, o S.Sebastião e o Padre que partem em procissão até à bênção do pão.

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Acabada a bênção a cruz e o Padre regressam à igreja mas o S.Sebastião fica. Juntam-se a ele o homem das esmolas, o homem da vara (medida) e os homens das toalhas de linho e começando a desenrolar-se estas em cima da mesa, logo vai a vara medir onde cairá um pão, um caçoilo de arroz e um pedaço de carne , com vossa licença, de porco.

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Logo de seguida aí vai mais uma vara para medir onde cairá outro pão, mais um caçoilo de arroz e um pedaço de carne , com vossa licença, também de porco. E assim sucessivamente durante umas centenas de metros quase mil, entre as esmolas que vão caindo na cestinha e o beijar o S.Sebastião.

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Passada a procissão da distribuição do comer, há que lançar a mão à navalha, cortar o pão e a carne e bora lá, há que comer, pois o frio e a espera já se tinham encarregue de abrir o apetite e a barriguinha já agradece.

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Comida do pote e pão do forno a lenha. A comida não tem pela certa a apresentação ou os enfeites de “la fine cuisine”, então o arroz… mas garanto-vos que é uma iguaria, um autêntico manjar dos deuses.

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Se alguém duvidar das minhas palavras que vá lá, este ano já não vai a tempo mas para o ano há mais, ou então perguntem a quem lá foi ou tem promessa de lá ir, mas já se sabe que por mais deliciosas que as palavras sejam, vão-lhe faltar sempre o sabor, o momento, a companhia.

1600-sebastiao-15 (469)

E merenda comida companhia desfeita, mas em festa, sempre em festa, pois embora pareça que a festa acabou e que o S.Sebastião regressou ao seu altar, é pura ilusão. Em Couto de Dornelas é um até para o ano que vem, mas uns quilómetros mais à frente e uns bons metros mais acima, há mais S.Sebastião, mais festa comunitária, mais manjar, é para lá que ruma agora a procissão de peregrinos, mas essa fica para amanhã, hoje o tempo de antena deste blog vai inteirinho para o Couto de Dornelas, sito no concelho de Boticas, em Barroso, Terra Fria de Trás-os-Montes, apenas um cantinho deste Reino Maravilhoso.

1600-sebastiao-15 (438)

Ah!, já ia esquecendo a promessa feita às meninas da Universidade Sénior, aquelas que também queriam sair na televisão. Pois embora por aqui a imagem seja estática não é tão efémera como na TV, e cá ficam.

E quanto ao S.Sebastião do Couto de Dornelas fica um – até para o ano!

 

 

 

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