11 anos-500
Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

Intermitências

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O Arquipélago

 

 

Existe uma ilha onde devo chegar, mas desconheço-lhe o paradeiro. Sei da sua existência, mas nunca ninguém lá esteve para me indicar a direcção que devo seguir para encontrá-la. Desde que desconfio que ela seja o meu lugar neste mundo, procuro incessantemente o caminho para lá chegar.

 

Por enquanto, continuo a percorrer o arquipélago. Navego sem fim à vista, enfrento tempestades, sigo rotas erradas, por vezes naufrago e devo reconstruir outro barco, mas sei que não posso abandonar esta viagem e regressar ao porto seguro. À chegada, está o meu destino e a minha razão de ser.

 

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  Ilha Terceira, Açores, Janeiro 2016 - Foto de Sandra Pereira

Esta ilha está dentro de mim mesmo. Esta ilha sou eu. Esse território é um mundo, o meu mundo, aquele onde sou. Alguns chegaram muito longe nas suas explorações, muitos ficaram às suas portas, a maioria desconhece que existe um território assim. Eu vagueio pelo arquipélago, sulcando cada onda com paciência. Em cada naufrágio, a minha fé é a minha única tábua de salvação. Desconheço o paradeiro da ilha onde devo chegar, nem sei se algum dia a alcançarei, mas já ter chegado a este arquipélago é a minha bonança.

 

Sandra Pereira

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 19:51
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Chaves D'Aurora

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 9 - GÉNESE.

 

Acabara de fazer quinze anos. Como era de costume na época, sua boa Mamã, cuja bondade se refletia nos olhos azuis, dos quais Aurora também herdara os seus, estivera a lhe falar apenas (e, tão somente, um migalho de conselhos e frases feitas) sobre o amor cristão e os deveres conjugais. Não muito mais, entretanto, do que a solene lengalenga dos curas aos noivos, nas cerimónias de casamento. Também lhe dissera de alguns cuidados de mulher para quando, sob as bênçãos da Santa Sé, a menina deixasse de ser donzela (o que, em muitos casos, ocorria sob a forma de um abençoado e sacrossanto estupro físico, psicológico e moral).

 

O que mais sabia Aurora de sexo e dos homens era apenas o que colhia em suas fugidas ao borralho, nas conversas com a sua ama Zefa de Pitões, ou com os chistes e as risadas safadinhas de Maria de Tourém, a volumosa cozinheira com peito de pombo. Isso causava horror a Aldenora, sua irmã, que se punha a tentar fazer intrigas com a mãe – Reparas, Mamã, que a Aurita não se dá ao respeito com pessoas de outra classe? Que ela vive a se meter entre graçolas com as criadas? Que ela e ela e ela...? – mas a mui generosa Florinda só fazia responder – Ora deixa estar, menina, tua irmã sabe muito bem o que faz. Cuida de ti, que dela cuidamos nós, eu, o Reis e – apontou para o alto – o Grande Pai de todos nós.

 

Aurora era só nem te ouço, nem te vejo, nem te sei, ante a língua ferina da irmã, cuja implicância ela de pronto esquecia, a plantar amores-perfeitos no jardim da Quinta.

 

De várias cores.

 

Apetecia-lhe mesmo era estar na cozinha, ao calor do braseiro, entre caçarolas, tachos de cobre, alguidares e utensílios da conhecida cerâmica negra de Vilar de Nantes. Lá ficava a ouvir as inesgotáveis histórias das aldeias do Barrosão. Agradava-lhe saber da festa de Mordomos, em Salto, ou das figuras de Fulipeiros no carnaval de Tourém. Punha-se a rir, com falso pejo e discreta excitação, mas também com alguma ingenuidade, dos ditos e provérbios da Zefa ou das adivinhas de Maria – “A pele da moça é dura, mais duro é quem n’a fura, entra o teso lá no mole, ficam os dois na dependura” – ou – “Maria Branca está estendida, Zé Bernardo anda por cima, enquanto Zé Bernardo bai e bem, Maria Branca aberto lo tem” – ou ainda – “Qual, é a coisa, qual é ela, sejam grandes ou miudinhos, é pelinho com pelinho e um peladinho no meio?” – respostas que, afinal, eram dadas entre rubores da menina e os risos lúbricos das criadas: o brinco na orelha, o tear, os olhos entre os cílios...

 

 

Foi justamente em companhia dessas bobas e atrapalhadas fadas-madrinhas, que a princesinha do Raio X conheceu o seu sapo, digo, seu príncipe encantado.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:04
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2016

Quem conta um ponto...

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304 - Pérolas e diamantes: o trabalho e a filantropia

 

Entardece devagar, devagarinho. Como quem se refresca em pleno verão com uma brisa vinda do Brunheiro, leio no jornal que o João Teixeira, o João Freitas e o João Alves, os três alunos do Agrupamento de Escolas António Granjo, tiraram vinte valores no exame nacional de matemática.

 

O segredo reside, segundo estes jovens, no muito trabalho que fazem ao longo do ano, no esforço e na dedicação. No entanto, continuaram a fazer o que faziam nos seus tempos livres.

 

Como se isto não fosse proeza bastante, leio noutra edição d’A Voz de Chaves que a Bruna, a Célia e a Laura, também alunas do Agrupamento de Escolas António Granjo, conseguiram a mesma proeza: alcançaram nota 20 no exame nacional de matemática.

 

Por vezes as coisas fazem sentido. Os mitos também se abatem e os preconceitos também se desfazem.

 

O sol esconde-se por detrás dos pinheiros e dos carvalhos. As sombras nos bosques estendem-se pelos caminhos. Por fim param e desaparecem. Os raios de luz penetram no arvoredo e são filtrados através da folhagem, inundando os troncos com uma luz morna. Por cima de nós ergue-se o céu azul já pálido do crepúsculo. Algumas aves voam alto. O vento parou por completo.

 

Beberrico o meu gim tónico Nordés (versão leve) com água tónica Nordic, muito gelo, bagas de zimbro, casca de lima e um pedaço de folha de louro.

 

Tudo isto é bonito. Eu continuo entregue aos meus devaneios, ora amargos e por vezes doces (daí eu apreciar gim), próprios, segundo os escritores românticos, dos espíritos solitários.

 

Por vezes gosto de sonhar com a vida no campo. Lembro-me bem de um tio meu que parecia saído de um romance de Ivan Turguéniev, pois possuía um olhar doce, tinha os lábios enrugados, amava a natureza, especialmente de verão, pois era muito friorento, e era homem para expressar-se com toda a vulgaridade do mundo, dizendo coisas como esta: “Adoro ver cada abelhinha a transportar no seu corpinho, de flor em flor, o seu grãozinho de pólen…”

 

Conhecia quase todas as frases bempostas com que se socializava na época. Por isso acompanhava, com alguma perseverança, a evolução da literatura. Quase toda de cordel, por certo.

 

Gostava, no entanto, de se mostrar um leitor prático. Ouvi-lhe muitas vezes dizer que não se consegue alimentar um pintassilgo com cançonetas.

 

Também eu, qual Vassíli Ivánovitch, me vejo a trabalhar no meu jardinzinho, com árvores plantadas por mim, com frutos e bagas e flores e ervas medicinais.

 

Não me hei de despedir por hoje sem vos citar o velho médico militar russo reformado que, virando-se para os senhores jovens, lhes dá conta das suas cogitações.

 

“Como sabeis, deixei a prática, mas duas vezes por semana tenho que recordar os velhos tempos. Vêm-me consultar e eu não os posso pôr na rua. Acontece que os pobres me vêm pedir ajuda. E por aqui não há médicos. Há um vizinho, um major reformado, imagina, que também dá consultas. Eu pergunto: estudou medicina? Respondem-me: não estudou, não, ele é mais por filantropia… Ah-ah, por filantropia! Hem? Vejam só. Ah-ah! Ah-ah!”

 

Para homenagear quem devo, aqui fica a expressão latina suum cuique, que em português de lei podemos traduzir por a cada um o seu. E voilà tout.

 João Madureira

publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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De regresso à cidade com gravuras...

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De regresso à cidade com uma sugestão – Visitar a 8ª Bienal Internacional de Gravura do Douro,  que nesta edição também tem sala em Chaves, mais propriamente no Sala Multiusos do Centro Cultural e uma pequena mostra na Biblioteca Municipal.

 

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Se não puder nos próximos dias, não há problema, pois a exposição estará patente ao público até 31 de outubro deste ano.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:26
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Domingo, 28 de Agosto de 2016

O Barroso aqui tão perto... Fervidelas

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Hoje vamos até à aldeia de Fervidelas, localizada na encosta do Monte Oural, quase no topo, implantando-se a aldeia entre os 900 e os 1000 de altitude, e entre os Rios Cávado e Rabagão, ou se preferirem, entre a albufeira do Rabagão (Pisões) e a albufeira de Paradela, mas apenas com vistas lançadas para a primeira. Fervidelas dista da sede de concelho, Montalegre, 19 quilómetros.

 

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Trata-se de uma pequena aldeia, sede de freguesia até 2013 e que hoje faz parte da União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas. A antiga freguesia até 1981 manteve a sua população acima dos 200 habitantes, tendo atingido o seu pico máximo de população em 1911 com 312 habitantes. A partir de 1981 verifica-se uma acentuada perda de população, com 152 habitantes em 1991, 116 habitantes em 2001 e apenas 87 habitantes em 2011. Os dados são do INE – CENSOS e refletem um pouco daquilo que se passa em todas as aldeias do Barroso, acontecendo o mesmo no concelho de Chaves e um pouco por todo o mundo rural de Trás-os-Montes.

 

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O Orago da aldeia é o S.Tiago  onde existe uma pequena e interessante aldeia levando-nos a crer que a aldeia fazia parte de um dos Caminhos de Santiago. Aliás a concha de Santiago era reproduzida no antigo brasão da freguesia  onde também constavam duas armações de moinhos de vento e um conjunto de rochas que é visível no monte junto à aldeia, cuja imagem fica na foto seguinte:

 

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Dio livro “Montalegre” sobre a aldeia retirámos os seguintes dados:

“Ao redor do altar onde veneram o Santinho que foi peregrino de bordão, chapéu e cabacinha, Fervidelas abriga-se por trás do Oural, do frígido vento castelhano. A par de Cambeses é a freguesia mais alta de toda a montanha inter-fluvial. Apesar de se ter tornado independente há vários séculos, andou sempre anexada à sua vizinha Santa Maria de Viade por ser demasiado pequena em território e populações. Vale a pena percorrer os seus caminhos de montanha para admirar a cascata e o “castelo” de penedos empoleirados bem como o Monte Oural que traz com ele o nome quanto à riqueza de paisagens que dali se vislumbram.”

 

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Não vimos a cascata mas acreditamos que exista na proximidade da aldeia. Também não vimos o “castelo” de penedos empoleirados mas também aqui acreditamos que sejam os mesmos que constam do brasão e da foto que atrás deixamos. Já no mapa turístico que se pode consultar na WEB na página oficial do Município de Montalegre aponta como único ponto de interesse a Igreja de S.Tiago.

 

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Da nossa parte encontrámos mais alguns pontos de interesse, tal como a paisagem que desde a aldeia se pode apreciar, o forno do povo e as fontes, os canastros, o casario em geral, os troços de rua cobertos por latadas de videiras e o conjunto das três cruzes localizadas na croa de uma pequena elevação. Cruzes que pensava eu serem do alto do Calvário mas que segundo informações recolhidas na aldeia, eram cruzes que existiam dispersas na aldeia e que a população decidiu colocá-las junta na atual localização.

 

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Hoje a aldeia está rodeada do verde das pastagens, e dissemos hoje porque supomos que em tempos, aquando a população era acima dos 200 habitantes, as mesmas pastagens eram terras de cultivo e pela certa fértil, pois tudo indica que as terras sejam férteis não só pela abundância de água mas também pelo testemunho da existência dos canastros para recolha e secagem do milho.   

 

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E por hoje é tudo, ficam as referências às consultas para a feitura deste post:

 

Bibliografia consultada: “Montalegre” de José Dias Baptista, edição do Município de Montalegre, 2006

Dados da população: INE/Censos

WEB consultada: www.cm-montalegre.pt/

 

E ficam também os links para as anterior abordagens deste blog ao Barroso e suas aldeias:

 

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Amiar - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-amiar-1395724

Cepeda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cepeda-1406958

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

O colorido selvagem da primavera http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-o-colorido-1390557

Olhando para e desde o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-olhando-1426886

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Padroso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padroso-1384428

Pedrário - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pedrario-1398344

Pomar da Rainha - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pomar-da-1415405

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Tabuadela - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-tabuadela-1424376

Telhado - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-telhado-1403979

Travassos da Chã - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-travassos-1418417

Um olhar sobre o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/2016/06/19/

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

São Pedro - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-pedro-1411974

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

publicado por Fer.Ribeiro às 04:38
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Sábado, 27 de Agosto de 2016

A Galiza aqui ao lado - Aldeias da Raia vizinhas de Soutelino da Raia

cabecalho

 

Há dias iniciava aqui esta crónica de “A Galiza Aqui ao Lado”. Embora fosse o início da crónica já não era o início de algumas aldeias galegas e outras localidades virem aqui ao blog, principalmente as aldeias da raia.

 

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Em tempo anunciei também por aqui que um dia traria aqui todas as aldeias da raia portuguesa (do nosso concelho de Chaves) e a(s) suas congéneres galegas, mais propriamente a aldeias ou aldeias galegas mais próximas da nossa(s) aldeia(s) da raia. Um projeto que iniciei em tempos, iniciando a recolha de imagens do lado galego, com a ajuda de um amigo do outro lado da raia (o Pablo). Entretanto outras prioridades se impuseram e fui obrigado a suspender a recolha de imagens, contudo vai sendo tempo de retomar o projeto ou de, para já, ir trazendo aqui algumas das aldeias já fotografadas.

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 Soutelinho da raia

 

Iniciamos então hoje, conjugando o antigo projeto com a nova rúbrica de “A Galiza Aqui ao Lado”, esse tema das aldeias mais próximas de ambos os lados da raia,  com a nossa aldeia de Soutelinho da Raia e o Santuário do S.Caetano com as aldeias galegas da sua proximidade, e que são três, a saber: Videferre, Espiño e Bousés, de pouco importando ou sem ter em conta as fronteiras administrativas da raia ou das freguesias, pois o que interessa mesmo é a proximidades destes lugares, que no caso ficam todas dentro de um circulo cujo raio da circunferência é de apenas 1.500 metros (aproximadamente).

 

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 S.Caetano

 

Inicia-se assim também, aqui no blog, um relacionamento entre estas aldeias e lugares que na realidade sempre existiu e que nem mesmo a fronteira (desde que passou a existir) nunca conseguiu separar. O espirito da velha Galaécia nunca morreu e perdura ainda hoje na proximidade e identidade de uma cultura reforçada pela língua galega e portuguesa que acaba por ser uma só, com mais ou menos evoluções.

 

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 Videferre

 

Mas também no contexto da identidade da cultura e língua as aldeias da proximidade da raia aprofundam mais o relacionamento, a cumplicidade e até a promiscuidade que nenhuma lei ou fronteira algum dia conseguiria enfraquecer ou separar, com Soutelinho da Raia a ser um exemplo e uma referência na História da raia como aldeia promíscua que o foi até ao tratado das fronteiras entre o Reino de Portugal e de Espanha,  de 1864, ou seja, uma aldeia que até essa data era metade portuguesa e metade espanhola, dividida a meio pela fronteira.

 

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 Espiño

 

Claro que aqui no blog,  além da realidade atual e da História, também haveria lugar para as estórias, também elas reais, de contrabando e outros trabalhos partilhados, incluindo os do campo, de partilha de serviços quando eram necessários, de amores e desamores e tudo o mais que é possível passar-se entre vizinhos, sem esquecer os tempos da guerra civil espanhola .

 

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 Bousés

 

Estórias e muitas que existem, mas isso já é outra loiça que dariam muitas páginas e que nem todas se querem contadas, mas a principal razão é mesmo não termos tempo para esse trabalho que se quer sério e cuidado. Pode ser que um dia, no futuro, também caibam aqui as estórias da raia. Não quer isto dizer que não venham aqui algumas estórias, mas para já a prioridade é mesmo mostrar em imagem as aldeias da raia da nossa proximidade.

 

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 Soutelinho

 

Para já ficam pouco mais que duas imagens de cada uma desta aldeias, mas num futuro próximo das uma das aldeias galegas de hoje terá aqui um post mais alargado nesta rubrica de “A Galiza Aqui ao Lado”. Até já.

publicado por Fer.Ribeiro às 05:07
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Ocasionais - ... ao lado do coração

ocasionais

 

“… ao lado do coração!”

 

“A salvação ou a ruína de uma REGIÂO

(um império)

depende da maneira de ser

daqueles que o administram”.

- «Rafal Hitlodeu»-TH. Morus

 

 

Ai o que eu ando a perder da Vida!

 

Por mais que calcorreie a (MINHA) NORMANDIA TAMEGANA fico sempre a dever-lhe imensos reconhecimentos, inúmeras composições de hinos de louvor, mil agradecimentos.

 

Este BLOGUE lá me vai dando (aos pouquinhos, bem o sinto, mas todos somadinhos já fazem uma boa meda, tão altinha como o Larouco, tão viçosa como o Brunheiro, tão gostosa como um carolinho de FOLAR de CHAVES; uma fatia de BOLA de LASA; uma truta do Bessa, uma «pinga» dos MORTOS, de BOTICAS; uma cebola rilhada, de VILA POUCA; um cibo de cabrito, da serra de Macieira, de RIBEIRA de PENA; ou uma mancheia de Figos, de VALPASSOS!) momentos de consolação e de vaidoso orgulho por eu ser dessa NOSSA TERRA.

 

É assim que eu vejo a (MINHA) NORMANDIA TAMEGANA: CHAVES, MONTALEGRE, BOTICAS, VILA POUCA de AGUIAR, VALPASSOS e VERIN.

 

Se ZEUS, aquele meu amigo de peito de quem vos tenho contado algumas “CONVERSAS”, desse mais atenção ao que lhe digo, até já me tinha feito a vontade: inventava um tremor de terra, separava a NORMANDIA TAMEGANA, rodeando-a de rios e lagos com as águas mais límpidas e cristalinas, ligando-a com pontes de cristal às Terras Amigas, e, assim, deixaria instalada a República da Utopia!

 

Não, é verdade, não vi mais mundo que Ulisses. Mas o que já vi chega e sobra para ser perdido como sou pela NOSSA TERRA!

 

E, se de mim desconfiais, «atão» dizei-me como ficais diante daquilo que este BLOGUE vos vai mostrando semanalmente.

 

Hoje, com o “NANDO RIBEIRO”, até o Rafael Hitlodeu fica a perder no conto de tantas histórias!

 

E também eu, tal como Pedro Gilles por Rafael, tenho por intento que “Don Fernando, defensor de Chaves” continue a servir A NOSSA TERRA como ministro.

 

A dignidade real não consiste em reinar sobre mendigos, mas sobre homens livres e felizes”, apetece-me lembrar, aqui e agora, aos eventuais leitores dos meus “Pitigramas”, e, especialmente, aos «lalões», «lalõezinhos» e «poneyzinhos-de-Tróia» que se passeiam por aí!

 

Estou contente por este novo “Canto”:

 

- ‘A GALIZA aqui ao lado’!

 

Sim, bem sei! “Celebrar os merecimentos» de “Don Fernando da Casa Azul” e os encantos da GALIZA será como «abrir uma porta aberta».

 

Mas eu sou assim: mesmo que trateis os meus textos como «tolices», acabareis por reconhecer que sempre terminei «por dizer alguma coisa de bom»!

 

M., dezassete de Agosto de 2016

Luís Henrique Fernandes

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:27
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Sexta-feira, 26 de Agosto de 2016

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Barbos de escabeche

 

Rais te parta o peixe que está cheio de arganas – queixava-se o pequeno Tibério muito zangado.

– Come d’amodinho mou filho, não se te entrasgue algua espinha e te afogue! – aconselhava a mãe com o mesmo carinho com que tratava o Pécora, o outro mais velho, depois que ficou manquinho de uma perna.

Comiam barbos de escabeche. Foram apanhados nas cordas que o Tibúrcio estendera à socapa no Tâmega. Ele bem sabia que era proibido e que se fosse apanhado iria parar à choldra de S. Neutel a ver o sol aos quadradinhos e com umas arrochadas no lombo. Mas que fosse por Deus e pelos filhos da amásia. A lazeira superava o medo e valia a pena prevaricar só para ter os enteados de tripa forra.

Não havia pai para o Tibúrcio nesta arte de apanhar peixe à corda. Mas só no inverno, porque no verão praticava outra das suas especialidades o peixe ao buraco! Madrugada, ainda o sol se espreguiçava para lá das encostas do Brunheiro e já ele metia pés a caminho para a primeira presa. Chegava, lia o rio que quase sempre corria fraco por estre penedos e ougas floridas. Despia-se até ao pescoço, atava uma saca de rede à cinta, pegava numa vergasta de amieiro e rio acima fustigava a tona da água. Os peixes, ainda endorminhados, encafuavam-se nas luras por baixo das pedras. O Tibúrcio mergulhava, metia a mão e quase sempre apanhava peixe graúdo. Por vezes lá lhe calhava uma cobra de água taluda cuja cabeça esmagava contra um penedo. Outras, algum leiranco de água, perdurado pelas cavilhas no polegar. Mas, tirando isso, era peixe à farta.

A arte da pesca à corda, mais usada no inverno e de preferência quando o rio fosse grosso, era mais cómoda. Ajeitava um decâmetro de corda fina, de braçada em braçada atava-lhe umas pontas de metro de sediela forte. Em cada uma dessas extensões empatava um anzol bico de papagaio. Iscava com minhocas que apanhava na estrumeira do Maneta. Pela noitinha levava o arcanho para o Poço do Leite, um fundão a jusante da Ponte Nova. Atava um calhau na ponta da corda, arrimava-o para a outra margem em diagonal. Esperava que a corrente a esticasse e quando a topasse tensa, atava a outra ponta nas raízes de uma figueira que abraçava a parede sobranceira ao dito poço. Despois, era só esperar que a noite e a voracidade dos ciprinídeos fizesse o resto. Pela matina, antes mesmo que o galo da Pônas acordasse, ia recolher o aparelho. Rara era a vez que não tirasse pelo menos meia dúzia de barbos. Uma farturinha preciosa em tempo de racionamento!

O Tibúrcio era viúvo e sem descendência. Uma tuberculose galopante tirou-lhe a Carminda aos trinta anos, antes mesmo que pudesse conceber. Como soi dizer-se, rei morto rei posto. Não perdeu tempo, aos trinta e um aputou-se com a Chambra, mãe solteira, com dois filhos já espigadotes, o Tibério e o Pécora.

A relação alimentava-se de uma paixão forte, quotidiana. Contudo, a coisa começou a esfriar e veio um tempo em que o Tibúrcio ralas vezes visitava a sua amante. A Chambra estava cada vez menos disponível para o amante no tugúrio onde vivia, após a desgraça de que foi vítima o seu filho mais velho. A infelicidade do Pécora conta-se em duas penadas.

Teria uns seis anos quando numa manhã de janeiro o Chico da Soutília, seu padrinho de batismo, aricava uma campina de centeio, contígua à linha do comboio, ali para a Fonte Nova. Fazia-o com um arado de relha de ferro que uma mula, assustadiça, puxava aos repelões. O rapazeco, que fosse com o cheiro na merenda do padrinho, ou em andar emplouricado no arado, foi atrás dele para a lavra. Gostava que o sentasse abaixo da rabiça, com os pés sobre o timón para andar de landó rego fora. Assim estava a acontecer quando o comboio, na aproximação ao apeadeiro da Fonte Nova, abriu a goelas num estridente silvo. A mula, apavorada, desinvestiu campo afora. O Chico não teve mão nela e o mocinho caiu, entalando a perna esquerda entre a abieca e a lavrada. No movimento tresloucado, um rebo mais aguçado apanhou-lhe a pernita e amputou-a redondinha pelo tornozelo deixando-o manco para o resto da vida.

O que haveria de ser da vida desse rapaz sem uma gâmbia, num tempo em que mesmo com as duas sabe Deus?

Em ordem ao futuro do filho manco, a Chambra, precisava de trocar a paixão do Tibúrcio por alguma outra coisa que desse mais do que barbos de escabeche!

Ora, um amanhado dia do mês dos cucos, quando atravessava a linha do caminho-de-ferro com um jiga de labrestos à cabeça, colhidos na mesma leira onde o seu Pécora perdera o pé, a Chambra ia sendo apanhada pelo comboio. Não fora a mão amiga de um guarda-linha a tê-la salvo e seria morte certa. Ficou-lhe tão reconhecida que no dia seguinte, o tal, já merendava em sua casa. Dali avezaria um dinheirinho certo. Com ele poderia atenuar as dores da família, particularmente assegurar um futuro para o filho manco.

Não esteve com meias medidas, comassim! Deu-lhe a provar o licor de Vénus e fisgou-o pelo beicinho como o outro fazia aos barbos!

Tratava-se de um homem de meia-idade, solteirão, vindo do Douro. Por desgosto, quiçá de amor, pediu para vir trabalhar na linha do Tâmega, aqui para Chaves. Roupa lavada e cama quente levaram-no a viver de porta cerrada com a Chambra e os seus dois filhos.

Com aquele desgosto não pôde o Tibúrcio. Na primeira oportunidade contratou os serviços do Neves o Passador e emigrou a salto para a França. Teve tanta sorte que em pouco mais de cinco anos fez fortuna capaz de lhe alimentar uma velhice sem sobressaltos.

Durante esse tempo a Chambra vivia na fresca ribeira com o duriense e não mais se lembrou do Tibúrcio. Contudo, uma bela manhã do primeiro de agosto, o guarda-linha avisou que entrava de férias no dia seguinte, tomaria o comboio para a sua terra. Visita aos familiares. Assim foi. Evidentemente que se esqueceu de voltar no final das ditas.

Adivinhando a mandingança e achando-se de novo desamparada, a Chambra não perdeu tempo, foi pedir ao Beiças que lhe redigisse uma carta para a França.

Rezaria mais ou menos assim:

 

Crido Tibúrcio:

Espero qestas duas letras te bão topar de boa saúde. Nós por cá estemos bem graças a Nosso Senhor.

Escrebo-te esta p’ra te dezer que não me astrebo a aturar o Tibério e o Pécora. Desde que fostes p’rá França que me relam os dias a pedir barbinhos de escabeche. Eu bem los fazia mas num tenho quem nos pesque. Faltasme tu qeras o pitroil da minha candeia e o luzeiro dos meu olhos. Nunca na bida heide ter home tão asado qemo tu. Dabasme carinho, açaramoabasme os rapazes quando mijavam fora do penico, afagabasme a palha do xaragão quando oupava e olhabasme a pita todos os santos dias para que não pusesse fora. Fostes e hades ser sempre o home da minha bida e o pai que os meus filhos nunca tiberam.

Bolta Tibúrcio da minha peituga, serei o teu aconchego na belhice.

Sem mais que te diga, recebe o afago deste coração empedernido e a promessa de um cibo ardente que te deseja!

Por ti anseio.

Desta que muito to quer!

Chambra

 

A missiva lá seguiu para terras de Bonaparte.

Ainda não era Natal e já à sua porta, na canelha das Caldas, parava um carro de praça a descarregar duas malas de cartão anchas e um pimpão de fato e gravata. Era o Tibúrcio que retornava, agora carregadinho de francos, aos braços da sua amada.

Daí em diante nunca mais faltou o escabeche de barbos naquela mesa. Bem entendido que já não era acompanhado apenas com carolos recessos de centeio escuro, mas com cantos de trigo e outras iguarias que a Chambra trazia, vaidosa, da praça todas os dias de feira.

Viveram felizes. Tão felizes, que até o Pécora teve direito a um pé novo, suponho que de pau de amieiro, que o doutor Fernandes mandou vir de Barcelona. Mancava um pouquinho, mas foi apenas enquanto não se habituou.

O Pécora passou o resto dos seus dias rua Direita acima, rua de Santo António abaixo, a vender cautelas para seu sustento. Não sei se algum dia teria vendido a sorte grande, mas merecia que isso tivesse acontecido.

O Tibério foi chauffer de praça no Arrabalde.

A Chambra e o seu Tibério morreram velhinhos.

Do guarda-linha nunca mais ninguém ouviu falar.

 

Gil Santos

publicado por Fer.Ribeiro às 02:39
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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016

Flavienses por outras terras - Firmino Vital

Banner Flavienses por outras terras

 

Firmino Vital

 

Nesta crónica do espaço “Flavienses por outras terras” vamos até ao Entroncamento, uma cidade fortemente associada aos caminhos-de-ferro, pelo facto de ali se entroncarem, em direção a Lisboa, a Linha do Norte e a Linha da Beira Baixa.

 

É lá que vamos encontrar o Firmino Vital.

 

Mapa Google + foto - Firmino Vital.png

 

Onde nasceu, concretamente?

Nasci em Chaves, no Raio X.

 

Nos tempos de estudante, em Chaves, que escolas frequentou?

Frequentei a Escola Primária do Caneiro e a Escola Secundária Dr. Júlio Martins.

 

Em que ano e por que motivo saiu de Chaves?

Saí em 1995, por questões profissionais.

 

Em que locais já viveu ou trabalhou?

Já vivi nos Açores, em Angola, no Porto, em Valpaços, em Vila Real e agora no Entroncamento.

 

Diga-nos duas recordações dos tempos passados em Chaves:

Existem várias, mas as mais marcantes são as das pessoas que demonstram hospitalidade e são verdadeiras, e os grandes amigos que ficaram e não sei por onde andam alguns.

 

Proponha duas sugestões para um turista de visita a Chaves:

A beleza da cidade, a gastronomia e principalmente as pessoas Flavienses.

 

Estando longe de Chaves, do que é que sente mais saudades?

Da nossa gastronomia, desde o fumeiro aos pastéis de Chaves.

 

Com que frequência regressa a Chaves?

Uma a duas vezes por ano.

 

Gostaria de voltar para Chaves para viver?

Gostaria sim, mas na situação atual da minha vida penso que não será possível, mas o futuro a Deus pertence.

 

 

O espaço “Flavienses por outras terras” é feito por todos aqueles que um dia deixaram a sua cidade para prosseguir vida noutras terras, mas que não esqueceram as suas raízes.

 

Se está interessado em apresentar o seu testemunho ou contar a sua história envie um e-mail para flavienses@outlook.pt e será contactado.

 

Rostos até Firmino Vital.png

 

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 00:10
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Quarta-feira, 24 de Agosto de 2016

Rua do Correio Velho

1600-(45123)

 

Como já muitas vezes o disse por aqui, sou um flaviense da veiga e até aos meus dez anos de idade eram raras as vezes que atravessava a ponte romana para pôr os pés na cidade, só mesmo em circunstâncias excecionais é que pisava a margem direita do Tâmega, como ter de ir às vacinas da Rua Direita, a uma ou outra consulta do Dr. Alcino quando uma gripe se apresentava mais teimosa e pronunciada ou, com a minha mãe, de visita a ex-vizinhos que se mudaram para a cidade, sem esquecer o exame da 4ª classe na Escola da Estação e inúmeras vezes que ia até à estação para “apanhar” o comboio para a terra do meu pai, mas para o comboio era como se não fosse à cidade, pois a breve passagem fazia-se pela Rua das Longras finda a qual pouco mais havia para além da Quinta dos Machados e da Escola Industrial.

 

Pela certa que todas as ruas das cidades têm montes de estórias para contar, mas uma coisa são as estórias contadas e outras aquelas em que nós fazemos parte dessas estórias, Pois se há rua da cidade com estórias vividas por mim, desde a infância, esta da imagem, a Rua do Correio Velho,  é uma delas, desde o ramos de flores de grelos que levei à Mimi, às brincadeiras com barco “elétrico” do Manel que não parava de dar voltas ao tanque do Baluarte, aos bons tempos do FAOJ, às primeiras vezes que pisei um palco nos Canários, aos petiscos do “Minhoto” na companhia do meu tio minhoto, e às sopas de cebola em finais de noites de farras memoráveis… é por todos estes registos que eternamente ficarão na memória que nutro um carinho especial por esta rua.

 

       

publicado por Fer.Ribeiro às 03:04
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Quente e Frio!

quente-frio-cabec

 

(...)

Aguardo com muita impaciência a sua resposta, e com toda a ilusão do mundo o seu «sim» de me aceitar como seu namorado.

Apaixonadamente e eternamente seu

Celestino”

 

VII

 

O Celestino queria fazer o 7º ano e seguir o Curso de Medicina, em Coimbra.

 

O Clementino queria fazer o 7º ano, seguir para a Academia Militar e especializar-se em Engenharia.

 

O Clementino tinha uma ligeira dificuldade na dissecação das «primas» rãs.

 

O Celestino tinha uma dificuldade ligeira com a Regra de Ruffini.

 

Na elaboração do relatório das Pesagens Simples ou Dupla o Celestino era mais «literário».

 

O Clementino exultou com a carta que acaba de ler e reler.

 

Disse:

 

- Vou fazer uma igual. Deixa-me copiar.

 

E, nas folhas do meio da Sebenta, donde as podia arrancar melhor, o Clementino copiou a carta do Celestino.

 

Na Segunda-feira, passaram pela ”Papelaria BRANCO” e compraram papel de carta, de quatro páginas por folha e envelopes, três conjuntos cada um.

 

Depois da ceia, reuniram-se na casa da “Rua do Rossio”, e cada um copiou a sua carta.

 

Na 3ª fª, assim como nem quer coisa, à saída da Aula de Filosofia, chamaram pela Adília e a Adélia, o que não foi assim tão difícil, pois eram inseparáveis.

 

Disseram às colegas que tinham «muita urgência» em falar com elas, e se, logo à tarde ou amanhã à tarde, podiam ir lanchar com eles à “GOMES VELHA”   -   sempre era um lugar mais sossegado e menos indiscreto que a “GOMES NOVA” ou a “ROSAS”, sublinharam.

 

À Adília, de “Românicas”, e à Adélia, de “Germânicas”, fartinhas de respirar o ar da «Bila», cheirou-lhes a romance, até porque «a vergonha faz corar a face», e, tratando-se de dois «bons rapazes», a Psicologia alertou-as mais para uma confissão de acanhamento do que uma confissão de culpa.

 

Ficou combinado para 5ª feira.

 

Às cinco da tarde, “TINO da Terra Quente” e o “TINO da Terra Fria” já estavam a guardar a mesa.

 

Desempoeiradas e sorridentes, A Adília de Vilarinho de Freires e a Adélia de Vilarinho do Tanha entraram na “GOMES VELHA” e sentaram-se junto dos colegas.

 

Um «jesuíta» para uma, um «mil-folhas» para a outra, dois «covilhetes» para os Rapazes; um «galão» para cada Menina, e uma “Laranjinha C” para um, e uma “Canada Dry” para outro.

 

A conversa já ia a mais que meio do «mil-folhas» quando a Adília disse em tom imperativo, mas com um risinho maroto:

 

- Bem, mas afinal qual é o segredo que quereis contar-nos!

 

A cara do “Rapaz da Terra Quente” e a cara do “Rapaz da Terra Fria” ficaram da cor da «Laranjinha C» e logo mudaram para a cor da tampa da “Canada Dry”.

 

                -Queríamos, cada um de nós, pedir-vos um favor, a cada uma de vós  - começou o Celestino.

 

E continuou:

 

- No domingo, conforme vós as duas destes conta (então porque é que nos piscastes os olhos e nos «mostrastes os dentes»?!), eu e o Clementino seguimos-vos desde a saída da missa.

 

Acontece que, no princípio das Aulas, estávamos «ambos dois» na “Real” quando demos de caras com as vossas amigas. Ficámos presos pelo beicinho, por elas. Só que não sabíamos quem eram, onde moravam, nem em que Escola andavam.

 

Descobrimos onde moravam.

 

Um dia, junto ao “S.Pedro”, ouvimos a uns gandulos da Escola Comercial e Industrial dizer, referindo-se a elas, que se chamavam “Lindas”. O galferro-mor até disse:

 

- Como são lindas as Lindas!  

 

Ficámos a saber que se chamavam “Lindas”.

 

O Clementino está tão apaixonado pela que usa o «lencinho de azul mais claro» que acorda muitas vezes de noite em sobressalto.

 

Eu estou tão perdido de amor pela que usa o «lencinho de azul mais escuro» que mal consigo dormir e fazer uma divisão de polinómios logo à primeira.

 

Ora, como sois duas colegas amigas e de confiança, queríamos que nos dissésseis o nome das vossas amigas e se podíeis fazer o favor de lhes entregar, a cada uma, uma carta de cada um de nós.

 

A Adília e a Adélia taparam a boca para sufocar as gargalhadas que estavam prestes a soar, e logo se recompuseram.

 

A Adélia serenou mais depressa e falou:

 

- Olhai, nós não somos nenhumas moças de recados, está bem?!

 

Bom, mas como tendes sido bons camaradas, gentis e educados, eu digo-vos o nome dessas «NORMALISTAS».

 

A do «lencinho de azul mais claro» chama-se Ermelinda; a do «lencinho de azul mais escuro», Carmelinda.

 

São irmãs gémeas. Vieram estudar para o Colégio “S. JOSÉ”, mais conhecido porCOLÉGIO das MENINAS”, em contraponto ao “Colégio da Boavista”, na Estação, mais conhecido como oCOLÉGIO DOS RAPAZES”!

 

Fizeram connosco o Exame do 2º Ano e depois o do 5º Ano. Agora andam na ESCOLA NORMAL.

 

Feita a pausa, todos aproveitaram para «molhar a palavra», com o «galão», a «Laranjinha C» e a «Canada Dry».

 

Com ar caridoso e tom de condescendência, a Adília, de Vilarinho de Freires, falou:

 

- ‘stá bem!

 

Eu levo a carta do «doutor» para a «lencinho de azul mais escuro», a Carmelinda!

 

- E eu entrego a carta do «tenente» à do «lencinho de azul mais claro», à Ermelinda, assegurou a Adélia.

 

Nas canetas de tinta permanente, “Pelikan”, compradas na “Papelaria BRANCO”, juntamente com tinteiro e tinta da mesma marca, depois de uma declaração de amor escrita em letra caligrafada, ainda restava tinta suficiente para se escrever o nome da amada na frente do envelope.

 

Comovidos, por dentro; coradinhos, que nem pimentos de Lebução, por fora; o “Rapaz da Terra Quente” e o “Rapaz da Terra Fria” escreveram o nome da do «lencinho de azul mais escuro», Carmelinda, e a do «lencinho de azul mais claro», Ermelinda, respectivamente.

 

Para não dar assim tanto nas vistas, A Adília e a Adélia combinaram fazer a entrega no Domingo, depois da Missa, e após uma introdução filosófica sobre a Teoria dos Sentimentos.

 

Um dos «TINOS» pagou a conta.

 

E os dois lá seguiram pela Rua Direita, a caminho de casa, com o coração mais amansado, mas as fontes ainda a latejarem.

 

VIII

 

As lições foram preparadas com mais serenidade e com mais entusiasmo.

Ambos se propuseram acrescentar...

 

(continua)

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:00
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Terça-feira, 23 de Agosto de 2016

Chaves, uma imagem com rio e poldras

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:45
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Chaves D'Aurora

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8.TOTONHA DE MURÇA.

 

Quando tinha apenas dez anos, a uma das idas à missa dominical, afastara-se um pouco dos seus, à altura do Largo da Madalena. Eis que, de pronto, como se estivesse a descer do céu em uma vassoura voejante, ou a surgir do nada, tal fosse uma alma penada em diurna aparição, deu-se por diante dela uma velha caolha e de horrenda carantonha. Suas unhas enormes causavam pânico, especialmente aos miúdos. Seus trajos, com muitos panos jogados sobre si, eram rotos, puídos, mas denotavam ter sido de boas e ricas origens. Mais tarde, informaram-lhe ser a afamada Totonha de Murça que, se vivesse nos tempos da Inquisição, morreria ao crepitar da fogueira pelo simples pecado de ser mulher e ter a sapiência de coisas que até a Ciência dos machos estava proibida de alcançar. Ou mais: ter a ousadia de transgredir os sagrados princípios da então superpoderosa Santa Madre Igreja.

 

1600-(44693)

 

Aurora emudeceu, além de tão pálida se fizera. A anciã, todavia – Não tenhas medo de mim, loira pirralha! Beleza não põe mesa e feiura não mata ninguém – e não lhe veio à pequena, de imediato, se deveria gritar ou correr, quando o estereótipo de bruxa segurou-lhe as mãos – Formosa menina! – e se pôs a grunhir, em uma saraivada de imprecações – Se muito de muito ainda viverás muito mais e demais é o quanto de quanto os teus olhos ainda vão por tantas e tantas mágoas muitas águas derramar e nos teus ombros os fardos serão pesados como as dores d’alma por causa de um amor que te saberá mal tal e qual uma açorda que parece boa de comer mas há muito de muito já começa a estragar.

 

A miúda retirou suas mãos das garras de Totonha e fugiu.

 

 

Agora, no entanto, vários anos depois, punha-se a refletir no que a velha de Murça lhe dissera e logo se pôs a recordar como, há um tempo feliz de sua vida, aquilo tudo houvera por bem (ou por mal) começar.

 

fim-de-post

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:38
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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2016

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

336 - Pérolas e diamantes: lugares-comuns e portas giratórias

 

Eu costumo dizer que os lugares-comuns ganham o estatuto de lugares-comuns por serem tão evidentemente verdadeiros.

 

A Geringonça cada vez se parece mais com uma rosa mecânica feita e comemorada por céticos, cínicos, celebrados, celerados e alguns alucinados. Por vezes desorganiza-se mas volta a reorganizar-se segundo outros moldes.

 

Atualmente assemelha-se a um carro de bois onde as rodas rangem porque lhe falta o sebo e começa a estalar como um móvel construído com madeira húmida.

 

Todos começamos a sentir que sem dinheiro as coisas não avançam e quase todo o dinheiro disponível já se gastou. Quando não se é suficientemente prático, o mais normal é enganarem-nos.

 

Por vezes também nos enganamos a nós próprios.

 

É muito difícil haver liberdade de escolha se não se aprendeu a escolher.

 

Os portugueses assemelham-se a tentilhões que não se cansam de piar, enclausurados em gaiolas presas ao teto por longos cordões que baloiçam e estremecem continuamente com os seus saltos.

 

Temos de ser sóbrios depois da bebedeira experimentada durante os anos repletos de subsídios comunitários. A sobriedade tem de nos centrar de novo num discurso político justo e verbalmente honesto, sem nos preocuparmos em demasia com a maneira como a Europa nos ouve ou como vai reagir perante o que se lhe está a dizer. E isso é bem mais difícil de fazer do que parece à primeira vista.

 

Convém no entanto saber que atribuições ocasionais como, por exemplo, a ironia, resultam na morte da linguagem do compromisso. E a parvoíce também costuma não render grandes benefícios.  

 

Dizem os filósofos que gostam do desporto que a vida é como o ténis, os que servem melhor normalmente ganham.

 

Dizem os céticos que a verdade é aquilo que nos torna livres, depois de ter acabado connosco.

 

A realidade costuma ser incómoda e motivadora de desconforto. É como se existisse uma regra que afirma que as coisas reais só podem ser referidas se todas as pessoas se puserem a piscar os olhos e a sorrir sem estarem felizes.

 

Os ratos também se costumam enfiar nas searas de trigo para fugirem à perseguição de que costumam ser alvo.

 

Sente-se que os distintos executivos nacionais, mais do que nos governarem, entretêm-nos.

 

Não há melhor música para a infelicidade do que o fado e não existe melhor melodia para o engano do que os hinos partidários.

 

A política em Portugal, por muito que nos custe, faz-se em passeios de iate, em encontros realizados às escondidas, onde se abatem bancos, empresas e postos de trabalho. E onde se financiam as campanhas dos que têm de ganhar.

 

Os políticos são animais anfíbios.

 

Eles sabem que o ontem já se foi e que o amanhã tem que tardar a chegar.

 

Em cada início de ciclo governativo, os primeiros-ministros procedem como os imperadores incas que matavam os cronistas do seu predecessor, para dessa maneira cada novo imperador escrever a história segundo as suas conveniências.

 

No topo das estruturas partidárias já quase só encontramos gente sem escrúpulos. São aqueles que tiveram de trepar para subir e se revelam estranhamente maus quando se veem lá no cimo.

 

São os mesmos que vemos dirigirem-se para as entradas envidraçadas das instituições que tutelam, com um vago sentimento de culpa e uma certa perplexidade que os assalta, ignorando um antigo amigo ou colega mal vestido, ou com aspeto de necessitado, ou doente, ou infeliz. Ou…

 

A todos eles devemos lembrar que as portas do poder são giratórias.

 

João Madureira

publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Regresso à cidade com "romanos"

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O regresso à cidade com cinco imagens dos romanos do fim-de-semana, sem comentários.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:11
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