Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Crónicas Estrambólicas

Suponho que hoje ainda vamos ter por aqui mais uns “Estratos” da Rita, mas enquanto eles não chegam e como por aqui, ultimamente, o que é ocasional virou a moda, inauguramos hoje mais uma crónica de um autor que há muito vem colaborando com o blog, precisamente em “Crónicas Ocasionais” mas às quais decidimos dar nome numa rubrica própria, que acontecerá ocasionalmente. A crónica passará a ser intitulada por “Cronicas Estrambólicas” e a autoria é do Luís de Boticas. Fica então a primeira, desta nova série:

 

 

As Intermitências Do Pimba

 

Em 2040, Portugal era o país mais intelectual do mundo. A aplicação de políticas de excelência com uma aposta muito forte na educação e o regresso em massa dos cérebros que tinham emigrado, transformou Portugal num país extremamente refinado. A população era composta por 95% de licenciados (80% deles tinham também um doutoramento) em universidades locais, que estavam classificadas como as melhores do mundo, ultrapassando as americanas e inglesas. A população vivia um estilo de vida intelectual com dedicação fanática. Os livros esgotavam rapidamente, os jornais de qualidade nunca eram suficientes e os espectáculos de artes eram muito procurados. As televisões abriam de manhã com concertos de ópera ou jazz e as tardes eram preenchidas por debates profundos sobre artes ou ciências, sempre com grande sucesso de audiências e muita competição entre os canais (aos Domingos à tarde, quando a SIC passava uma ópera do Mozart, a TVI não se ficava atrás e passava outra do Vivaldi). Apesar disso, os resquícios da cultura pimba dos anos 10’s preenchiam completamente a programação da RTP 2, que tinha a pior audiência de todos os canais. Nesse canal (altamente subsidiado pelo estado) podiam ver-se coisas como concursos de música pimba, noticiários de 2 horas com bastante coscuvilhice, 7 novelas diárias, etc. Este era o canal dos pimbalectuais, gente que adorava o pimba, mas que estranhamente se apresentava como os antigos intelectuais, com óculos redondinhos e aparências cuidadosamente descuidadas. A classe intelectual, para contrastar, vestia-se como as donas de casa do antigamente. O estado subsidiava fortemente a cultura desta minoria pimbalectual. Enquanto os espectáculos de ópera e jazz esgotavam rapidamente, os concertos de música pimba sobreviviam apenas porque eram subsidiados. O teatro de revista também vivia à custa do estado, ao contrário dos teatros que passavam peças de Shakespeare ou Becket, tão concorridos que as pessoas passavam noites nas filas para as bilheteiras enquanto se entretinham a ler coisas como o Guerra e Paz ou o Quixote. O futebol também perdera toda a popularidade e os estádios tinham sido vendidos a companhias que os enchiam com multidões fanáticas que assistiam aos espectáculos do campeonato nacional de dança contemporânea, onde actuavam dançarinos idolatrados, pagos em milhões, que faziam vender três jornais diários dedicados exclusivamente à dança contemporânea e ao ballet, com mais um ou outro artigo sobre valsas. Os pimbalectuais detestavam toda esta cultura popular intelectual que era fortemente publicitada por todos os meios de comunicação social. Durante o verão, acontecia o descalabro, todas as vilas e aldeias tinham festas e festivais de jazz e clássica onde os intelectuais dançavam elegantemente e com entusiasmo. Do outro lado, os pimbalectuais zurziam e desdenhavam (em crónicas na revista Maria e em debates no canal 2) de todo este mainstream das multidões intelectuais, com um desprezo especial pelos dançarinos pagos em milhões. No meio desta confusão intelectopimbactual, havia um pequeno grupo completamente desorientado: os hipsters. Estes já não sabiam o que fazer e apareciam nos bares da moda com tangas de pele de leopardo, lanças na mão, etc. Não sabendo já onde se posicionar, pelo sim e pelo assim-assado, passavam exclusivamente música obscura chinesa nos seus bares fora de moda.

Luís de Boticas

 

publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Quem conta um ponto...

 

207 - Pérolas e diamantes: Rui Veloso e Arquimedes

 

Ainda em pleno verão deparei-me com uma notícia que me deixou triste e ainda mais apreensivo. Rui Veloso, o rosto mais conhecido da música popular portuguesa, em entrevista ao DN, decidiu anunciar que vai parar de cantar e tocar.

 

Por vezes, parar até pode ser uma boa decisão, se o objetivo for, por exemplo, refletir, descansar ou até mudar de rumo. Ou de ramo. Mas não foi este o caso.

 

Rui Veloso apontou como principias razões desta sua travagem a fundo, a desilusão com o país, a falta de respeito pela cultura e o desprezo pelos profissionais do setor, em detrimento dos milhares de candidatos à fama enaltecidos e promovidos pelos concursos televisivos.

 

Também na música as pessoas começam a preferir as imitações ao original.

 

Apesar de atualmente termos muito mais acesso à informação do que no passado, é preocupante que, como cogumelos venenosos, seja a desinformação a proliferar nos meios de comunicação social.

 

Nos dias de hoje, tudo se nivela por baixo: a governação do país, a gestão das autarquias, o debate político.

 

A semelhança entre os principais atores políticos, especialmente entre os do apelidado arco da governação, é intrigante.

 

Aos portugueses custa-lhes entender as trocas azedas de palavras, pensando que correspondem a ideias e sentimentos divergentes, e depois vê-los a jantar e a passar férias juntos.

 

Rui Veloso confessou que há um caldeirão em que os mestres estão misturados com os analfabetos e que não gosta dessa sensação. Nem ele, nem nós. Verdade seja dita.  

 

Convém no entanto lembrar que, certa manhã, quando estava a tomar banho, o matemático Arquimedes descobriu o princípio da impulsão.

 

No entanto, apesar da sua excecionalidade, ainda hoje lamentamos o facto de ter sido assassinado posteriormente por um soldado.

 

Cada um tire daí as suas conclusões, se for capaz.

 

Por hoje termino com o sábio conselho do mordomo Jeeves, um personagem dos melhores livros de P. G. Wodehouse: “Se me permite a sugestão, senhor, e embora isto não venha constituir mais que um paliativo, tem-se verificado que o vestir de um fato de soirée costuma trazer um efeito estimulante para a moral.”

João Madureira

 


 

PS – O livro Poder e Mudar, de Gustavo Cardoso, começa com o seguinte facto histórico: Na época da Grande Depressão, um sociólogo vai entrevistar um conjunto de pensadores europeus. Embora o mundo esteja à beira de uma guerra mundial e à beira da catástrofe, quase nenhum percebe que vive o momento antes do passo para o abismo.

 

Descontadas as necessárias diferenças, é bem possível que estejamos num momento de rutura e que precisemos de meditar.

 

Mais uma vez, e para que os flavienses não fiquem com a impressão, incorreta por certo, de que o acordo estabelecido entre o PSD de António Cabeleira e o vereador eleito em nome do MAI, não foi a derradeira tentativa para que a prometida, e devida, auditoria externa às contas da CMC não vingasse, aqui fica mais uma vez o nosso apelo ao senhor presidente da autarquia flaviense, e aos seus distintos vereadores, incluindo necessariamente João Neves e João Moutinho, para que, em nome da transparência e do bom nome da Câmara de Chaves, aprovem uma auditoria externa às contas da CMC.

 

Passaríamos todos, com certeza, a dormir um pouquinho mais tranquilos.

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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De regresso à cidade trazendo de arrasto o dia de ontem

 

De regresso à cidade trazendo de arrasto o dia de ontem em que a fé e as freguesias desceram à cidade com os seus oragos.

 

 

 

Missa campal no Jardim Público seguida de procissão pela Madalena, Ponte Romana, Rua de Santos António acima, Rua Primeiro de Dezembro, Largo do Anjo, Rua Direita Abaixo, Praça da República para terminar na Praça do Duque em frente das nossas mais imponentes igrejas com a singularidade dos seus estilos.

 

 

 

Também o Bispo de Vila Real marcou presença, bem como as Bandas Musicais do concelho, o povo das freguesias e algum da cidade, o suficiente para encher quase por completo a Praça do Duque.

 

 

Como festa religiosa, parece-me estar completa, sendo notório o trabalho decorativo que cada freguesia dedica ao seu orago para a cidade viver a festa em apenas duas a três horas, o tempo suficiente para a missa campal e a procissão. E tão depressa se faz como se desfaz. Para a festa ser completa, falta-lhe o lado pagão, do bailarico, a banda no coreto, o foguete no ar e as barracas do costume. Assim, fora do religioso, só mesmo a Marcha de Chaves tocada pelas bandas e cantada por todos os presentes, pelo menos por aqueles que lhe conhecem a letra.

 

 

 

Com ou sem festa completa, é notório que a fé ainda move multidões  e que o povo continua a ajoelhar ao passar da procissão. E assim se passou mais um dia dedicado à Nossa Senhora das Graças.   

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:31
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Domingo, 21 de Setembro de 2014

Pecados e picardias

 

Sem sombra de pecado

 

Vulgar  original

Seguimos a passo com passado

Indiferentes

A quem nos faz sinal

 

Há instantes

Compadeceu-se o velho do jornal,

Lembrou-se do que era antes

Arrependido sem ter feito nenhum mal

 

Envelheceu no tempo,  ficou escondido

À mostra, no monte dos vendavais

Sente que sobra , que já  pesa, sem obra

Sem saber como aguentar mais

 

Pior só nas noticias

Em que há mortos de repente

Talvez as últimas caricias

Sejam frio que não se sente

 

Sem sombra de pecado

Não haverá trevas

Nem um Deus que seja invocado

Nem o inferno

Precisa de chamas…

 

Isabel Seixas

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 23:59
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Lamadarcos - Chaves - Portugal

 

Hoje fazemos mais uma passagem pelas nossas aldeias da raia, no presente caso vamos até Lamadarcos, antiga aldeia promíscua traçada a meio pela linha de fronteira entre Portugal e a Galiza, pelo menos até 1864 assim foi, ou seja a data em que no tratado de Lisboa se fixaram as fronteiras  entre Portugal e Espanha, data a partir da qual Lamadarcos passou na totalidade para Portugal, conjuntamente com o Cambedo e Soutelinho da Raia, em troca das aldeias do Couto Misto que passaram para e Espanha.

 

 

Lamadarcos tem na sua história esta promiscuidade de dividir a aldeia de um mesmo povo entre duas nacionalidades, mas todas as aldeias da raia têm na sua história esta proximidade com os povos vizinhos do outro lado da fronteira, não só a proximidade física mas também a proximidade de relações (de todos os géneros) entre as aldeias de ambos os lados da raia, como se esta (a raia) nunca tivesse existido, ou que apenas existia quando as autoridades estivessem por perto, e mesmo assim, só e quase quando se transportava contrabando, Mas isto, claro, apenas se aplicava aos povos residentes nessas aldeias, que no geral eram conhecidos pelas autoridades.

 

 

 

Até à abolição das fronteiras na Europa, esta proximidade da raia foi de extrema importância na vida e economia destas aldeias, pois direta ou indiretamente o contrabando e outras atividades clandestinas como a passagem de “peles”[i] fazia parte do dia-a-dia destas aldeias. Claro que onde havia contrabandistas também havia Guarda-Fiscal e a maioria das aldeias da raia tinham postos da GF que no mínimo tinham sempre meia dúzia de guardas, que residiam nessas aldeias com as suas famílias, contribuindo também eles para a vida e economia da aldeia.

 

 

 

Aldeias da raia mas também aldeias do interior e da montanha e daí também elas afetadas pelas maleitas do despovoamento e do envelhecimento das suas populações, mas que nestes casos de aldeias da raia, abolição das fronteiras foi um duro golpe que contribuiu em muito para o agravamento dessa maleita do despovoamento, principalmente nas aldeias mais isoladas e mais distantes da cidade, que não é o caso da nossa aldeia convidada de hoje – Lamadarcos.

 

 

 

Mas tudo isto é história que se repete em todas as aldeias da raia, mas todas elas têm também as suas singularidades e pormenores que as distinguem das outras aldeias. Lamadarcos, graças ao seu passado, tem algumas dessas singularidades, uma delas, nas suas duas igrejas que herdou do tempo da sua promiscuidade, ou seja a igreja portuguesa e a espanhola, que ainda hoje é conhecida por este nome.

 

 

Mas também o seu casario, os campos agrícolas  e caminhos envolventes da aldeia lhe dão um toque diferente ao das outras aldeias. A poente da Cota de Mairos, abrigada por esta, a aldeia desenvolve-se junto a campos planos e férteis o que dá sempre um toque saudável e de verdura à aldeia.

 

 

Pois hoje ficam mais algumas imagens que escaparam às anteriores seleções e seleções, pois também na fotografia, algumas ganham mais interesse com o passar dos anos, tal como o vinho do Porto. Isto para vos dizer também que todas as imagens de hoje são de arquivo e já passaram por elas pelo menos cinco anitos.

 

 



[i] Nome dado à passagem clandestina de pessoas para a emigração, que conheceu os seus dias áureos nos finais dos anos 50 e durante todos os anos 60 do século passado.

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:37
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Sábado, 20 de Setembro de 2014

Junta de Freguesia de S.Pedro de Agostém e os Direitos de Autor Sobre a Fotografia

Desde o início deste blog que a fotografia marca aqui presença obrigatória, tanta, que neste preciso momento já são mais de 9.000 fotografias aqui publicadas.

 

Desde início que tive consciência de que a partir do momento em que as publicava e entravam na internet, qualquer pessoa tinha acesso a elas, para as ver mas também para as copiar, tanto mais que as ferramentas de cópia disponíveis facilitam o processo, basta dois cliques e a foto está no nosso computador, no entanto, este simples gesto pode não ser legal, pois sobre a obra fotográfica também existem direitos de autor.

 

Se pesquisarem na Internet quanto aos direitos de autor sobre as fotografias não falta informação e inclusive legislação, não só nacional como internacional, pois pode haver diferenças. Mas fiquemo-nos pela nacional, por exemplo o que consta na SPA- Sociedade Portuguesa de Autores a este respeito (o negrito e sublinhado são meus):

 

 

"Quais os direitos do autor da obra fotográfica?

 

O autor da obra fotográfica tem o direito exclusivo de a reproduzir, difundir e pôr à venda com as restrições referentes à exposição, reprodução e venda de retratos e sem prejuízo dos direitos do autor da obra reproduzida, no que respeita às fotografias de obras de artes plásticas. (…)

Disposição legal relevante: 164º e 165º do CDADC"

 

Quanto à disposição legal revelante mencionada temos:

 

CÓDIGO DO DIREITO DE AUTOR E DOS DIREITOS CONEXOS

 

Secção VIII

 

DA OBRA FOTOGRÁFICA

 

ARTIGO 164º

Condições de protecção

 

1- Para que a fotografia seja protegida é necessário que pela escolha do seu objecto ou pelas condições da sua execução possa considerar-se como criação artística pessoal do seu autor.

 

2- Não se aplica o disposto nesta secção às fotografias de escritos, de documentos, de papéis de negócios, de desenhos técnicos e de coisas semelhantes.

 

3- Consideram-se fotografias os fotogramas das películas cinematográficas.

 

ARTIGO 165º

Direitos do autor de obra fotográfica

 

1- O autor da obra fotográfica tem o direito exclusivo de a reproduzir, difundir e pôr à venda com as restrições referentes à exposição, reprodução e venda de retratos e sem prejuízo dos direitos de autor sobre a obra reproduzida, no que respeita às fotografias de obras de artes plásticas.

 

2- Se a fotografia for efectuada em execução de um contrato de trabalho ou por encomenda, presume-se que o direito previsto neste artigo pertence à entidade patronal ou à pessoa que fez a encomenda.

 

3- Aquele que utilizar para fins comerciais a reprodução fotográfica deve pagar ao autor uma remuneração equitativa.

 

ARTIGO 166º

Alienação do negativo

 

A alienação do negativo de uma obra fotográfica importa, salvo convenção em contrário, a transmissão dos direitos referidos nos artigos precedentes.

 

ARTIGO 167º

Indicações obrigatórias

 

1- Os exemplares de obra fotográfica devem conter as seguintes indicações:

 

a) Nome do fotógrafo;

 

b) Em fotografias de obras de artes plásticas, o nome do autor da obra fotografada.

 

2- Só pode ser reprimida como abusiva a reprodução irregular das fotografias em que figurem as indicações referidas, não podendo o autor, na falta destas indicações, exigir as retribuições previstas no presente Código, salvo se o fotógrafo provar má fé de quem fez a reprodução.

 

ARTIGO 168º

Reprodução de fotografia encomendada

 

1- Salvo convenção em contrário, a fotografia de uma pessoa, quando essa fotografia seja executada por encomenda, pode ser publicada, reproduzida ou mandada reproduzir pela pessoa fotografada ou por seus herdeiros ou transmissários sem consentimento do fotógrafo seu autor.

 

2- Se o nome do fotógrafo figurar na fotografia original, deve também ser indicado nas reproduções.

 

 

Independentemente destas regras, existe a nível internacional o licenciamento do CREATIVE COMMONS (CC) em que o autor das fotografias atribui regras e permissões, ou não, às suas fotos.

 

 

Pessoalmente quando publico uma fotografia na internet (flickr, olhares, reflexos, no blog ou noutro qualquer sítio que aloje informação) sei que corre o risco de ser copiada, e se o for, até me sinto lisonjeado com isso, pois é sinal (em principio) que a pessoa que copia gosta da imagem ou a imagem lhe diz alguma coisa. Sabendo que não posso impedir cópias eu próprio facilitei e legitimei que as cópias das minhas fotos pudessem ser legais, registando as imagens mas também todo o conteúdo deste blog com uma Licença Crative Commons, pelo menos com os conteúdos deste blog e do Flickr essa licença é válida, no entanto há alojadores que não permitem cópias e reproduções, regras que eu aceitei e que não posso alterar.

 

Se repararem na barra lateral direita do blog está lá o símbolo e as condições de cópia Crative Commons:

 

 

Se clicarem em cima da licença, aparecem as permissões, no entanto eu reproduzo-as aqui:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No Flickr acontece o mesmo, por baixo de cada fotografia aparece o licenciamento CC da mesma, que no meu caso tem permissões idênticas às do blog.

 

 

Em suma, as regras são simples – Todos podem copiar as minhas fotografias, no entanto para utilização publica (publicações na net, em livros, cartazes, powerpoints,  etc)  têm de mencionar o autor e o blog, não podem ser utilizadas para fins comerciais e não podem ser alteradas. Penso que são condições justas.

 

E a verdade seja dita, a maioria das pessoas que querem utilizar as minhas fotografias, além de seguirem as regras do Creative Commons, comunicam-me pessoalmente ou por mail, mas há quem não o faça, principalmente quando se trata de entidades, que até deveriam dar o exemplo, e acabou de acontecer outra vez, com a agravante de não seguirem nenhuma das regras do Creative Commons, além de os responsáveis por essas entidade serem pessoas do meu conhecimento e que se cruzam comigo quase todos os dias. Ser junta de Freguesia ou Associação, que no caso desta última até se diz Promotora para o Ensino e Divulgação das Artes e Ofícios da Região Flaviense, não lhes dá direitos acima da lei.

 

 

 

 

Bastava seguir as regras ou darem-me uma palavrinha, mesmo assim, o mal já está feito e o abuso consumado. Contudo, como suponho não ter havido má fé, congratulo-me que tivessem escolhido uma foto minha, embora não goste dos bonecos em cima dela e era escusado terem raspado a minha assinatura da fotografia, tal como consta no original.

 

 

 

 

Enfim, só me resta lamentar, mas como sou bom rapaz, além de publicitar aqui o evento, desejo uma boa caminhada:

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 19:14
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Fugas

 

Madrid

 

Abril de 2012. Em conjunto com um casal amigo, também com duas filhas, saímos de Leiria rumo a Madrid. Esperam-nos quase 600 km de viagem e, por isso mesmo, e por causa das limitações próprias de viajar com crianças, o primeiro dia está destinado para a viagem. Após várias paragens combinadas por walkie-talkie entre os dois carros chegamos ao nosso aparthotel em Barajas, nos arredores de Madrid, ao final da tarde.

 

No dia seguinte apanhamos o metro nas imediações do aparthotel (já havíamos estudado a zona com o Google Maps e o Street View…) e saímos na estação de Gran Via. Daqui descemos a pé até à Puerta del Sol, a praça mais movimentada de Madrid, onde nos surpreende a quantidade de gente, principalmente turistas. Caminhamos mais um pouco e chegamos à Plaza Mayor. Aqui compramos os bilhetes para o autocarro turístico, sem dúvida a melhor forma de conhecer a cidade, pois permite-nos entrar e sair sempre que quisermos ao longo do circuito, ao mesmo tempo que pelos auriculares que recebemos vamos ouvindo as descrições dos locais por onde passamos. Em dois dias temos a oportunidade de visitar vários locais de interesse: o Palácio Real, a Catedral de Almudena, a Gran Via, a Puerta de Alcalá, a Fuente de Cibeles, o Mercado de San Miguel, o Parque del Retiro…

 

Fotografias de Luís dos Anjos

 

No terceiro dia em Madrid saímos da cidade e vamos visitar o Real Sitio de San Lorenzo de El Escorial, um imponente complexo classificado como Património da Humanidade. Após o almoço, no exterior de um restaurante com vista para o monumento, seguimos para o Vale dos Caídos, a poucos quilómetros. Aqui, mandada construir pelo ditador Franco, encontramos uma gigantesca basílica escavada na rocha onde estão sepultados os restos mortais dos mais de 30 000 combatentes de ambos os lados da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e ainda o próprio Franco, apesar de não ter sido vítima daquela guerra.

 

No dia seguinte regressamos a casa, mas já com vontade de um dia voltar, pois ainda há muito por descobrir…

 

Luís dos Anjos

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 12:30
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Outros olhares

 

Hoje inaugura aqui uma nova crónica que irá acontecer ocasionalmente, sem dia marcado. Acontecerão ocasionalmente tal como ocasionalmente surgiram os olhares que vos quero deixar aqui.

 

Olhares que vão além de Chaves, cidade e concelho. Olhares de lugares, coisas, acontecimentos, pormenores, também eles olhares ocasionais, que por uma ou outra razão, despertaram o clique. Olhares que deu gozo registar, quase sempre pela beleza do momento, às vezes irrepetível,  e pela certeza de que ficou congelado para todo o sempre.

 

 

 

E entram aqui estes novos olhares, além dos habituais sobre Chaves e a região, com o Barroso ocasionalmente a ter um destaque especial, não porque os olhares sobre o que é nosso tenham esgotado, mas antes porque a fotografia não se esgota com o que é nosso, e outros olhares são sempre possíveis, em parte, é o retomar ocasional de um outro blog (o Devaneios) que por falta de tempo deixei de alimentar.

 

 

 

Hoje excecionalmente com três olhares, pois de futuro será apenas um. Duas paisagens sobre o Rio Sil e as suas margens, aqui bem próximo na Galiza, e uma terceira imagem que capta o olhar também ele congelado numa escultura em exposição no Mosteiro do Poio, também na Galiza, esta, porque são precisamente desse mosteiro as imagem que servem de suporte ao cabeçalho desta crónica.

 

 

Mais logo, teremos por aqui uma crónica que também acontece ocasionalmente aos sábados – As “Fugas” de Luís dos Anjos e as nossas aldeias também continuarão, sempre,  a marcar aqui presença aos fins de semana. Até lá!  

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 04:20
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Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

NA GALINHEIRA

 

A primavera daquele ano caiu no vale do Tâmega, como se do inverno se tivesse passado diretamente para o verão. O sincelo sumiu-se com rapidez inusitada e o céu de março brilhava num azul-turquesa resplandecente. Nenhum velho tinha memória de um tempo assim!

 

Quem sabe se não seriam os deuses a premiar Portugal pela mudança dos cravos?

 

No adágio em abril águas mil, quantas mais puderem vir, coadinhas por um mandil, vai a velha onde há-se ir e a sua casa vem dormir, só não mentia a viagem da velha. Chuva era coisa que não se se avezava. Apenas um merujito de vez em quando. As árvores puxaram folha mês e meio mais cedo, e os lavradores temiam uma geada a desatempo que lhes tolhesse o renovo.

 

Que nada, o ano parecia abençoado!

 

Mesmo o Tâmega, empertigado outros anos pelas zerbadas de abril, corria agora escanzelado. Nem em setembro que diziam arderem os montes e secarem as fontes se vira tal coisa! Até a nascente das Caldas, que vem das parafundas, estava tísica, já quase não prestava para depenar as pitas, quanto mais para pelar leitões!

 

Fenómeno estranho aquele!

 

As noites da nossa cidade sempre foram muito animadas. Então imagine-se naquela ocasião! A passerelle das Freiras nunca experimentara movimento tamanho. E dos Quadradinhos ao Bacalhau o povo fervilhava, parecia o S. João em Braga. Em abril, o Sport botou a esplanada. As mesas repletas, em tertúlias sonoras, enchiam-se de finos e de pires de tremoços. Recolhia-se tarde. As noites prometiam!

 

E se para a maioria dos fregueses da anosa escola das Feiras, nunca apetecia queimar as pestanas, então por aquela ocasião, os livros iam para o Liceu tão virgens como o haviam deixado. O que interessava era catrapiscar as moças, porque o pólen já deixava amarelas as águas das raríssimas orvalheiras e a cabeça da rapaziada em buliço, portanto não se queriam fêmeas de poulo!

 

Sim, a primavera está para a gente, como o janeiro para os gatos, ou o maio para os burros, acelera os corações e o resto!..

 

As moças botavam decote rasgado e punham ao léu as gâmbias leitosas do inverno. Os moços botavam camisa justa de colarinho à teta-de-cabra, calça boca-de-sino e jaqueta de cabedal! As repas pelos ombros, o bigode mal semeado e o cigarro ao canto da boca remedavam a moda. O ar impregnava-se do fluído gasoso da lavanda, vertido do perfume de Feces. E toda a minha gente namorava à tripa-forra. O Jardim Público, o Castelo e o Tabolado enchiam-se de casais no roço. Os mais afoitos aventuravam-se nas margens recônditas do Tâmega, desde a Galinheira à Presa do Agapito.

 

A cidade vivia a efervescência de um tempo raro!..

 

Comigo não havia exceção. Cresciam-me os sonhos, os amores e a irreverência! O mundo era romântico e irrealista. Tudo parecia cor-de-rosa!

 

Eu andava, há tempos, de olho na Leonor, uma quintanista da turma A. Era primorosa, porém, segundo diziam, difícil de conquistar. Eu fazia o que podia e o que sabia para a impressionar. Pavoneava-me pelos corredores conventuais da velha escola, com os meus Sanjo, e sempre que podia fuzilava-a com os melhores olhinhos que sabia! Não me passava bola! Andava descorçoado, porque a Leonor era uma miúda, exatamente, à minha medida. Ela tinha tudinho no sítio! Era simpática, bonita, bem torneada, morena e vestia bem! Ostentava o charme das artistas do cinema que eu via no salão do Peregrino e isso punha-me doido! Tentei aproximar-me pelas amigas, em vão! Tentei meter conversa, nada! Ansiei encontrá-la nos bailes dos Bombeiros de Cima, aos fins-de-semana, mas nem no de finalista da Escola Industrial, que toda a estudantada fazia questão em não perder, a pude encontrar. Já nem dormia! A Leonor andava comigo acordado e não me deixava dormir! Estava a ser obsessivo. E quanto mais eu projetasse o discurso e os gestos, mais torpes eles me saiam. Eu ensaiava, em silêncio, as palavras que proferiria em lhe chegando à fala, mas raramente acertava com um fio escorreito e conveniente. Aconselhava-me com os mais experientes, mas não topava remédio!

 

 

 

 

Naquele ano de calor temporão, as verbenas do Jardim público começaram em abril. Na esperança de me cruzar com ela, tratei de não falhar à primeira. O dinheiro era coisa rara por essa altura e a nota do Santo António que custava o bilhete estava no bolso alheio! Contudo, isso não era problema, pois sempre conheci as entradas secretas do Jardim Público! O rio deixava uma margem seca e muito segura e o muro gradeado do fundo, facilmente se galgava. Para além do mais, o guarda Chicharro estava sempre mais interessado na cerveja do que na vigia. Entrámos cinco de borla. Na esperança de encontrar a minha diva, pus-me todo gerigoto!

 

E não é que a encontrei mesmo! Ainda melhor, estava acompanhada por gente das minhas relações, o que facilitava a aproximação. Misturei-me, sorrateiramente, no grupo, sem coragem para lhe dirigir a palavra. A minha cabeça rodopiava! Estava ganzado de todo! Ceguinho!

 

No coreto tocavam os Pardais, no palco do ringue o Aquæ Flaviæ. Enquanto a filarmónica sanfonava, fora da nossa onda, gozávamos o prato da Landainas a virar tangos, valsas e passos dobles. Aquilo é que ela dançava!.. Quando tocava o conjunto, botávamos sheik num abanar de capacete quase louco! Porém, eu estava mortinho por um slow. Seria a minha oportunidade. Ou sim ou sopas!

 

Meu dito meu feito! Por fim, o Agostinho anunciou o Je t’aime, tema proibido em Portugal durante tantos anos. Vinha mesmo a preceito. Era a oportunidade da minha vida! Mal soaram os primeiros acordes, atirei-me de cabeça. Aceitou! Tremiam-me tanto as pernas que mal acertava os passos com o ritmo! Se fosse com outra qualquer, sondava-lhe a disponibilidade para o roço, com um ligeiro aperto nas costas. Com ela não me atrevi, com receio que desse para o torto! Palavras, também não precisava, bastava que o tema falasse por si. Degustei aquele slow nas nuvens, Era como se viajasse com ela num yellow submarine ou com a Lucy num sky with diamonds! E correu tão bem que mal terminou, vislumbrei-lhe no rosto, trigueiro, aquele sorriso que me encantava. Não precisei de revisitar qualquer dos discursos decorados! As coisas estavam a acontecer com uma naturalidade que até me confundia!

 

 

De seguida, os Pardais afinaram numa rapsódia e eu convidei a Leonor para uma cigarrada à beira rio. Que ia! Lábia, graças a Deus, nunca me faltou e ultrapassada a emoção que ma podia tolher, deixassem a rapariga comigo!.. Com o melhor coro que a inspiração conseguiu, arranquei-lhe o clássico: vou pensar!

 

O arraial acabou em beleza. Mal preguei olho naquela noite, tal a emoção! Nunca mais chegava a segunda-feira para a resposta que eu adivinhava favorável. Chegou por fim. No primeiro intervalo procurei-a.

 

Que não, que não podia aceitar o namoro porque se dera conta que era do Cagigal que gostava.

 

Passei-me!..

 

O Cagigal era um índio da minha turma. Uma espécie de gigolo, respeitada a amizade e a conveniente escala. Tinha a mania que era galã e que levava ao rego todas as garinas que lhe aprouvesse. Justiça seja feita, nunca conheci ninguém com tanta facilidade no engate! Aquilo era cada tiro cada melro, como diriam no Brunheiro: cada cabalhão, sua mioca! E, por isso, todos nutríamos pelo Cagigal uma certa inveja, embora fosse um bom amigo.

 

Fiquei triste como a noite com aquela resposta não esperada, mas não me conformei. Tinha de o pôr em ridículo, porque se conseguisse afastá-lo, eu estaria na calha!

 

Ora, o mês de maio começara como o de julho costuma acabar. E no Dia do Trabalhador, um sábado, organizei, com um grupo de amigos, uma tarde de banhos e merenda na Galinheira.

 

Já que falamos na Galinheira permita-se-me um breve interlúdio:

 

A propósito de uma das minhas últimas leituras[1] e como também agora o calor aperta, mergulhemos na Galinheira. Foram muitas as tardes de canícula que o fresco deste lugar idílico amainou. Na sombra dos amieiros das margens do nosso Tâmega, faziam-se piqueniques com lautas merendas, escaroliam-se as carpetes, os tapetes e os cobertores de papa, lavava-se a roupa suja dos trabalhos da Veiga e as catotas. A Galinheira era aquele lugar mítico que fazia acontecer as coisas boas!

 

Na minha cabeça e estou que na da maioria dos flavienses, o topónimo haveria de ter alguma coisa a ver com as galinhas, e nunca o questionei. Contudo, aprendi agora que a Galinheira nada tem, afinal, a ver com aqueles animais de churrasco, mas com uma outra coisa bem mais interessante.

 

Isso mesmo quero partilhar.

 

A cidade das Aquas, foi desde tempos recuados um lugar estratégico importante na geografia da Europa Ocidental e particularmente da Ibéria. Não só pelas suas águas termais, cálidas, a que já os Celtas davam valor, mas também porque, como atesta a Velha Coluna dos Povos - X civitates, sobre a Ponte de Flávio, a celebração do culto do Município a consagrou como capital regional com uma área geográfica integrando a parte central e meridional da atual província de Ourense, as terras de Barroso e do Larouco, Padrela e Brunheiro, toda a bacia do Tâmega até Verin e, a nascente, até ao Tua. A velha urbe foi também importante porque nela passava a Via Romana XVII que ligava o acampamento militar de Bracara a Asturica. Para além do mais, no dizer de Martins[2], Aquas Flavias é considerada um ponto-chave, nó vial e comercial do ouro, ligando, decisiva e estrategicamente, a parte meridional do Noroeste, com a parte oriental ibérica.

 

É precisamente o traçado daquela Via XVII que dá nome à nossa Galinheira. Vejamos:

 

O traçado da Via, admitido por aquele autor, era o seguinte: Braga, Padrões, Vila da Ponte, Venda Nova, Gralhas (Caladunum), (Montalegre), Vilar de Perdizes (a sul do santuário rupestre de Penascrita), S. Caetano do Oso descia a encosta do Laspedo para Sanjurge (onde há restos bem nítidos de calçada), passava o Tâmega pela Galinheira (Chaves) para Faiões, Monforte, Vilartão (Lebução) Quinte de Picões, Vinhais, Soeira, Cova da Lua, entrando em Espanha para Astorga (Asturica).[3]

 

A Via atravessava o Tâmega na Galinheira, o que pressupunha portanto que a Ponte de Flávio não estaria ainda construída.

 

A origem do topónimo Galinheira é a palavra latina - calinaria, que é derivada do radical celta - cale, que significa - passagem e o sufixo latino – arius, que significa – relativo a. Nesta derivação latina, processou-se o fenómeno normal do abrandamento da consoante - c para g – Galinaria < calinaria. A composição da palavra obriga-nos a admitir ser este local – relativo à passagem da via.

 

Retomemos o fio da nossa meada:

 

Combinei aquela tarde com cinco amigos de raça, entre eles o Cagigal. Cada um comprometia-se a levar uma garina e uma merenda. Alguém levaria também um leitor de cassetes a pilhas e música de constituir família!

 

 

Por mim, convidei a Ursília, uma moçoila com predicados raros. Ela tinha uma paixão assolapada pelo Cagigal e um ódio fero à Leonor, porque lhe conhecer a queda por ele. Além do mais era uma jovem que alinhava fácil e entusiasticamente nas borgas, mas tinha uma língua de palmo. Uma intriguista que enterrava o mais pintado! Era uma prosmeira, como diria a minha amiga Seixas! Ora, era precisamente isso que convinha ao meu propósito de afastar o Cagigal da mira da Leonor. Faria tudo para que naquela tarde acontecesse o inimaginável, pois sabia que chegaria ao Liceu elevado à enésima potência. Para isso, estava a Ursília por ali! É claro que os restantes parceiros sacaram as gajas mais fáceis que havia na ocasião, autênticas peças da Feira dos Santos! O Cagigal levou a Sabrina. Ela conhecia-lhe corpo e feitio e comia a vergonha com a sopa. O Chico Peixinho, a Laura que tinha fama de fazer as curvas sempre em duas rodas! O Ernesto, a Serena que conhecia os cantos do Castelo e do rio como ninguém e se alabariava com facilidade e o Marcelino, a Helena que todos conheciam ser quente como uma falmega!

 

Tudo preparado, encontrámo-nos pelas duas horas da tarde junto à Ponte Romana. Não falhou ninguém. Veio a merenda, os calções, os biquínis, o leitor de cassetes, a música e a vontade da desbunda, que era o que mais interessava!.. Bota e bira para a Galinheira!..

 

Uma tarde de caixão à cova!..

 

Isente-me o leitor dos pormenores. Para eles não teria palheta! Goze da sua imaginação. É quanto basta!..

 

Nos dias seguintes, no Liceu, não se falava de outra coisa que não fosse daquela tarde na Galinheira. A Ursília conseguiu mesmo fazer constar, daí a umas semanas, que a Sabrina estaria de ganho do Cagigal, por mor do forrobodó daquela tarde! É claro que uma coisa aconteceu imediatamente, a Leonor nunca mais olhou para as fuças do Cagigal!

 

Tiro e queda, a primeira parte do meu plano estava conseguida!

 

Quanto à segunda, estou há quarenta anos à espera que aconteça!..

 

Foi-me bem feito para não ser guloso!

 

Salvou-se a Galinheira e aquela tarde memorável! Memorável, podem crer!..

 

Tardes quentes na Galinheira!

 

Gil Santos



[1]Martins, Manuel José Carvalho, Chaves Romana, A via romana XVII, Apoteose Municipal, Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2013

[2]Cf. op. cit. p. 25

[3]Cf. op. cit. p. 41

 

 

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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Factor Humano, por Manuel Cunha (Pité)

 

Como já alguém disse de forma parecida: “Não é para me gabar, mas a cabana do meu compadre Zé Pires é um sítio maravilhoso”.

 

Já demasiada gente sabe onde é, mas por puro egoísmo, não vou precisar aqui a sua localização.

 

Posso garantir que lá vivi dos momentos mais felizes da minha vida. Talvez um dia vos faça aqui uma descrição da sua arquitectura, simples mas bem enquadrada; da sua exposição aos movimentos solares e lunares, ou de como lá se ouvem as águas do rio a correr.

 

Eu gosto muito, mas admito que possa haver outras cabanas, noutras paisagens, que se aproximem desta, do meu compadre Zé Pires.

 

O que tenho mais dúvidas é que exista outro local onde tanta gente tenha sido tão feliz em tão poucos metros quadrados.

 

Esta cabana será, seguramente um dia, classificada como património da Amizade.

 

Hoje queria aqui falar apenas de um grupo fundado na Pascoela de Abril de 1987 por quatro amigos, que ainda hoje vivem, são amigos e se encontram regularmente nesta cabana.

 

O grupo não começou na cabana, mas sim no rio que à beira dela passa. Com o passar dos anos, alargou-se e adoptou a cabana como a sua casa.

 

Falo desse grupo, porque acho que o seu nascimento e o seu desenvolvimento ao longo destes 27 anos, poderia ser objecto de um estudo sobre a amizade, sobre a dinâmica dos grupos humanos, de como eles crescem incorporando novos e diversos elementos, numa matriz inicial imutável de respeito pelas diferenças, de equilíbrio entre prazer e discussão, entre pesca e cartas, entre cozinhados e comezainas.

 

É espantoso que um grupo tão heterogéneo na idade, na profissão, na forma de pensar, se desenvolva e estruture ao longo de um período tão longo e que seja sempre tão grande o prazer com que, de diversos pontos do país, se converge para a cabana do meu compadre Zé Pires.

 

De uma forma pouco organizada, pontualmente conflituosa, mas sempre eficaz, distribuem-se tarefas, organizam-se refeições e resolvem-se as inevitáveis necessidades de limpeza que elas desencadeiam.

 

Embora a descrição detalhada das comidas e das bebidas, nos seus múltiplos componentes pudesse ser matéria para um tratado de gastronomia, esta não é a questão essencial.

 

Nem sequer a questão essencial passa por saber qual é o melhor pescador, sempre o mano velho, nem quem são os verdadeiros campeões das cartas, que todos sabemos são o Tora e o Fernando (do PC). Todos sabemos que o campeão dos contos, dos poemas e das minis é sempre o Zé Carlos, que a guitarra é com o Zé Pires e que quem manda é o Sbou, embora o presidente seja mesmo o Luís Filipe, actor principal das histórias que ficam para memória futura. Mas que sempre os “Maneis” serão o núcleo duro e irredutível que tudo iniciou.

 

A questão essencial é a da importância de ter amigos de sempre e para sempre, amigos no mundo real, que comem, bebem, riem, discutem, sabem ouvir, respeitar, mas também roncam, dão peidos e conseguem jogar às cartas há tantos anos sem nunca se zangarem. Tudo isto, sem normas escritas e sem estarmos certificados por nenhuma “ISO”.

 

É só saber para os que estão (e de alguns não falei aqui) e para os que cheguem de novo, que só há intolerância completa para a falta de respeito pelo outro, para a tentativa de pensarmos que somos mais do que os outros. Foi sentindo isto, que cada um de nós se foi incorporando e retorna com um prazer infinito aos muitos encontros que vamos continuar a fazer, mesmo quando o rol de remédios para as maleitas vai ganhando terreno a uma lista de garrafas cada vez mais comedida e com menos graduação.

Manuel Cunha (Pité)

 

publicado por Fer.Ribeiro às 00:57
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Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Chá de Urze com Flores de Torga - 52

 

Chaves, 28 de Agosto de 1992

 

Sem forças para cumprir o costumado ritual de banhos e massagens, espero pelos companheiros, que o levam a cabo compenetradamente, entretido a ver-me espelhado nos ímpetos e desânimos dum repuxo no jardinzinho envidraçado do balneário. Entretanto, o formigueiro de aquistas movimenta-se afanosamente. É uma procissão infinda de doentes frenéticos, alguns já meus conhecidos doutros anos, que caminham curvados, a mancar, de bengala, de muletas, obesos, esqueléticos, ictéricos, cirróticos, tolhidos do reumatismo, apostados em viver, como eu, que os observo em silêncio, a perguntar porquê e para quê semelhante freima, tão obcecada e inútil repetição de curas sem cura, tanta vontade de continuar no mundo contra os ditames da natureza, quando todos sabemos que nada vale a pena, que apenas nos espera a boa aberta da sepultura. Mas somos incorrigíveis. E persistimos no absurdo, mesmo a verificar que decoramos as flores ao passar, que ridicularizamos o amor a imaginá-lo, que estreitamos de cada mirante a largueza dos panoramas.

 

Pobres humanos! Nem sequer temos a justificação dos bichos, que existem sem o saber e sofrem sem consciência. Dantes, ainda nos valia a convicção de que éramos criaturas de Deus, cumpríamos na terra os seus altos designe-os, e havia um Paraíso para os mais bem-comportados. Desgraçadamente, até essa ilusão se nos foi. Agora, é por nossa própria conta que respiramos o ar empestado do ambiente, que exibimos as mazelas, a decadência e a covardia de nos escravizarmos resignadamente ao desespero.

Miguel Torga, in Diário XVI

 

 

 

Chaves, 1 de Setembro de 1992

 

Hospitalizado de urgência. Arrefeceu, comecei a sentir falta de ar, e, às tantas, esganado, tive de me render. E aqui estou a respirar oxigénio engarrafado e a bendizer todos quantos abnegadamente procuram valer-me. A secura afectiva que estiola a nossa civilização não chegou felizmente a estas benditas terras transmontanas. Médicos, enfermeiras e simples serventes são feitos do mesmo barro quente fraterno. É no sofrimento que testamos o quilate da nossa solidão. Somos nele capazes de dispensar o amor dos outros? Eu, não. Fui sempre um homem referenciado, atido ao meu próximo. Não tenho fronteiras espirituais, mas trago gravados nos cromossomas os marcos da minha freguesia e a fisionomia dos meus conterrâneos. Criei-me a pedir a Deus no seio da família que nos livrasse dos maus vizinhos à porta, e nunca deixei de acudir aos que fui tendo pela vida fora quando os vi necessitados dos meus préstimos. E recebo a paga agora de almas irmãs, que sabem apenas de mim que tive a dita de nascer, como elas, neste mesmo chão generoso, que em todas as horas e latitudes, e de todas as maneiras, por palavras e obras, exaltei como pude, rendido à lição que desde menino aprendi, a calcorreá-lo e a meditá-lo: que nele até a própria violência é cristã.

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 

 

 

 

Chaves, 6 de Setembro de 1992

 

Necessitava de continuar hospitalizado mais algum tempo, convalescer. Mas tenho de me pôr a caminho. Cabra manca não tem sesta, ensina o povo. E eu sou precisamente essa cabra manca, com horas marcadas de aflição. E lá vou ao encontro da festa da agonia que me espera em Coimbra.

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 01:42
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Terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Intermitências

 

Surreais

 

 

Nesta vida, nada do que poderia acontecer, acontece nunca.

 

Olha-se para uma pedra e não se lhe encontra interesse. É preciso imaginação!

 

Olha-se para uma pedra e não se agarra nela. É preciso curiosidade!

 

Olha-se para uma pedra e não se a atira para o mais longe possível, para o infinito! É preciso ousadia!

 

 Barcelona, Setembro 2014 - Fotografia de Sandra Pereira

 

Olha-se para uma pedra e não se lhe vê outra cor nunca vista antes, mas linda, brilhante! É preciso bom gosto!

 

Olha-se para uma pedra e não se lhe vê um sorriso. É preciso loucura!

 

Nesta vida, nada do que poderia acontecer, acontece nunca. Sejamos mais do que os objectos, do que a razão, do que o palpável. Sejamos surreais!

 

Sandra Pereira

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 01:45
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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Quem conta um ponto...

 

206 - Pérolas e diamantes: De onde veio esta gente?

 

Aescritora Luísa Costa Gomes escreveu que o nosso sistema político, aparentemente, é uma democracia.

 

Mesmo a digníssima oposição é da confiança do governo.

 

Parece que até havia por aí alguns comunistas, mas comeram-se uns aos outros.

 

O povo, em geral, também é da confiança do governo.

 

Existe mesmo um processo formal de eleições de vez em quando.

 

A população é mansa e gosta muito de ditadores magros, austeros e do tipo paternal.

 

Defendem que a eficiência advém da ideia de que o chefe deve sobretudo propagandear para convencer.

 

O Português admira a propaganda acima de tudo, porque sabe que é um valor mítico que está fora do seu alcance.

 

Esta gente que está atualmente no poder conseguiu transformar a cultura em beberete de festarolas e futilidades.

 

Arranjaram maneira de que as denominadas feiras antigas, as passagens de modelos e os cozinhados sejam tidos como cultura.

 

Estão sempre a manipular.

 

No tempo de Salazar faziam-no através da ditadura ideológica, da censura, do silêncio e da violência.

 

Em tempo de democracia, violentam-nos com o chinfrim das gaitadas e com a sedução pueril da encenação do circo romano.

 

Está visto, o 25 de Abril não foi conduzido por gente preocupada em pensar, e repensar, Portugal, como era urgente fazer.

 

O Portugal profundo foi trocado pela Europa light e sedutora. Ninguém deu conta que os bolos e o champanhe custam muito dinheiro e são alimento de festas.

 

Os pilares da nossa sustentabilidade – agricultura, pecuária, silvicultura, têxteis, pescas, conservas, minérios e construção naval – foram destruídos pelo afã liberal, imposto de fora, que nos colocou nesta humilhante posição de estarmos sujeitos aos espirros da Alemanha e às constipações da França.

 

A visão deste governo, e dos seus apaniguados dispersos pelas cadeiras do poder autárquico, sobre o país e os seus quadros superiores, fazem-me lembrar a governanta de Alexandre Herculano, que uma vez disse a um jornalista: “O meu patrão não trabalha, passa o tempo sozinho a ler e a escrever. É um grande preguiçoso!”

 

Numa leitura profana, estamos em crer que o seu ícone de referência, pelo exemplo, será Jesus Cristo, pois não andou na escola, não cumpriu a tropa, não arranjou emprego, não teve filhos, nem constituiu família. Vivia até na casa de seus pais.

 

Foi crucificado dias antes de poder emigrar.

 

Deixem que, antes de terminar este escrito, vos lembre as palavras de Natália Correia, grande amiga e defensora de Sá Carneiro e Snu Abecassis: “De onde veio esta gente minúscula que nos quer comandar, feita não de sangue mas de números, não de nervos mas de fórmulas? São todos iguais, saídos de forma única, bonitos, apetecíveis por fora, medonhos, repelentes, por dentro. Cimentados a egoísmo, habita-os o gelo, impele-os a implacabilidade…»

João Madureira

 

PS – Diz o filósofo que o irresponsável também trabalha contra si mesmo.

 

Porque sabemos que nem o senhor presidente da Câmara de Chaves, nem os 3 vereadores do PSD, e muito menos o trio de vereadores do PS, trabalham para aquecer, e muito menos contra si mesmos, vimos mais uma vez solicitar a vossas excelências a aprovação de uma auditoria externa às contas da nossa autarquia, pois quem não deve não teme e à mulher de César… etc.

 

 

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De regresso à cidade - Rua de Stº António

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 00:35
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Domingo, 14 de Setembro de 2014

Chips, novas tecnologias e Curral de Vacas

 

Não sei o que irá ser deste século que já leva 14 anos e também, quando ele terminar, não vou estar cá para fazer o seu balanço, mas pela certa irá ser muito diferente do século XX, que olhando aos acontecimentos que acolheu e as transformações que testemunhou, é um século que ficará para sempre na história: Duas guerras mundiais, o fenómeno da televisão, a ida à lua e a exploração do espaço, os movimentos sociais como os hippies, o desenvolvimentos da aviação, o inicio da globalização, etc, etc, etc, mas há uma descoberta de meados do século passado que iniciaria a transformação  do mundo no último quartel do século e que ainda hoje continua. Refiro-me à descoberta do circuito integrado (vulgarmente conhecido por chip ou microchip) e que viria a dar lugar às novas tecnologias (computadores pessoais, telemóveis, tablets, smartphones, satélites, etc.) sem as quais hoje em dia o mundo pararia.

 

 

Tive a sorte de ter nascido em 60 e ter assistido a quase todas estas transformações e revoluções. De importante penso mesmo que só perdi as duas guerras mundiais (e não lamento a perda) e no âmbito nacional a implantação da República e a I República, pois a segunda (a ditadura) ainda a vivi e ao 25 de abril de 74 (início da III República)  tive o grato prazer de assistir e viver, mas, pelas implicações na alteração das vidas das pessoas e famílias   o que mais me foi surpreendendo, numa primeira fase com início nos finais dos anos 60,  foi mesmo o aparecimento dos primeiros eletrodomésticos nas casas (frigorifico, televisão e mais tarde as máquinas de lavar roupa e loiça e mais recente o micro-ondas) e, numa segunda fase, nos inícios dos anos 80, com os computadores pessoais, mais tarde os telemóveis e hoje, tudo que temos ao dispor graças ao tal chip.

 

 

 

Mas como hoje é dia de dedicar o blog às aldeias, tal como as fotografias o documentam, perguntarão o que é que as novas tecnologias e toda esta revolução da eletrónica e informática têm a ver com o nosso mundo rural? – Pois a resposta é simples – Tem tudo a ver, e o atual despovoamento rural é, indiretamente, uma consequência desta nova revolução, e as aldeias as suas vitimas, tudo porque as políticas e economias atuais estão viradas para as grandes massas/grandes consumos, ou seja, esta revolução eletrónica e informática veio agravar ainda mais a disparidade que sempre houve entre o litoral e o interior, e quanto mais interior for, mais aprofundada será a disparidade e a decadência do nosso mundo rural, e ainda mais, quando todas as políticas e políticos estão alinhados com os grandes interesses económicos.

 

 

Assim não admira que as nossas aldeias fiquem despovoadas e o que resta nelas, sejam testemunhos de um passado recente que não resistiu aos novos tempos, e com esta perda, perde-se todo o romantismo das aldeias, os seus valores, as tradições, os costumes, os sabores da genuinidade das coisas.

 

 

 

 

As fotografias de hoje são de Curral de Vacas, mas poderiam ser de outra aldeia qualquer, ou melhor, de outra que sofre bem mais as consequências da modernidade, pois Curral de Vacas graças à proximidade e bons acessos à cidade, ainda não é das que mais sofre das maleitas atuais do mundo rural.  

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 04:40
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