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Sábado, 3 de Dezembro de 2016

Cimo de Vila da Castanheira

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Hoje vamos fazer mais uma breve passagem por terras altas do planalto da Castanheira que surge na sequência do planalto de Monforte, ou melhor, um mesmo planalto e que abrange que abrange algumas freguesias e muitas aldeias. Aliás, querendo ser mais abrangente, podemos mesmo falar do grande planalto que se inicia na freguesia de Nogueira da Montanha e se prolonga até à freguesia de Travancas, com uma cota a rondar os 800 m de altitude.

 

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Mas hoje vamos só até uma dessas aldeias do grande planalto, até Cimo de Vila da Castanheira, também uma aldeia da rota do Românico com a Igreja de S.João Baptista a dar as boas vindas a quem visita aldeia. Por sinal uma das nossas Igrejas Românicas com mais visibilidade, graças à sua localização e implantação isolada na croa de uma pequena elevação.

 

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Igreja de S.João Baptista mencionada nos diários de Torga, então com o lamento de a igreja se encontrar em ruínas, mas que felizmente a sensatez acabou por reconstruir e dar-lhe a dignidade que a Igreja merece.

 

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Cimo de Vila por onde às vezes passamos, pois também é aldeia de passagem para outros destinos, mas também por onde às vezes paramos para mais um registo e por onde continuaremos a parar, mesmo porque ainda há alguns registos agendados que nunca tivemos oportunidade de fazer.

 

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Mas para hoje ficam cinco momentos que escaparam nas últimas escolhas em que este blog visitou esta aldeia.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:50
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Ocasionais

ocasionais

 

 

Falsídia

 

 

Chegou, às portas da aldeia, cheio de sede.

Vinda da missa, uma beata cruzou-se com ele.

Olhou-o com pena.

Perguntou-lhe se precisava de alguma coisa.

- Água! – respondeu o viajor.

Ela mandou-o entrar em casa.

Pegou numa caneca meada de água e pô-la na mesa, dizendo:

- Aqui tem água. A caneca já está meio vazia. Veja lá a que bebe!

Morto de sede, o viageiro queria era matar a sede.

Levou a caneca à boca.

Molhou os lábios.

Agradeceu.

E saiu.

A caridade cristã falseia o amor.

 

M., Quatro de Novembro de 2016

Luís Henrique Fernandes

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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016

Exposições do "Outono Fotográfico" em Chaves

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A partir de hoje e até ao final deste mês estarão patentes ao público duas exposições de fotografia integradas no Festival Galego de Fotografia – Outono Fotográfico, este ano com a tema “Dentro-Fora / In-Out”.

 

Uma exposição Individual de Fernando DC Ribeiro, na Adega do Faustino intitulada “Um mundo que acaba”

 

Um mundo que acaba

Por dentro e por fora do que resta de um mundo rural e de artes que acabam sem retorno possível. Um mundo de resistentes que por amor ao berço disseram não aos convites da partida.

 

Uma exposição que tenta ir de encontro à temática da 34ª edição do Festival Galego de Fotografia – Dentro/Fora, In/Out - com uma mostra de momentos captados no mais puro que há dentro do mundo rural, de um mundo de artes e saberes, de uma cultura singular, interior, telúrica, hoje feita de resistentes,  a contrastar com a provocação/sedução do glamour, dos neons, num ruído de culturas onde o multiculturalismo dos que partiram se globaliza e acultura, onde as berças ficaram para sempre sepultadas ou fazem doer a memória sobrevivendo apenas na saudade.   

 

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Cumplicidades

A outra exposição, coletiva, é da Associação de Fotografia – LUMBUDUS e depois de ter estado patente ao público durante o mês de novembro em Verin, chega agora à cidade de Chaves, onde estará patente ao público na Biblioteca Municipal até ao dia 30 de dezembro.

 

Nesta coletiva participam os fotógrafos Lumbudus António Souza e Silva, Fernando DC Ribeiro, Humberto Ferreira, João Madureira, Lamartine Dias, Paula Dias e Sergio Crespo. Intitulada “Cumplicidades” mostram o quotidiano, enquanto unidade de espaço e tempo, onde nos permite apreender as heterogeneidades do espaço vivido, concebendo novos sentidos e significados às experiências que vivenciamos, que envolvem e elaboram relações contraditórias entre o dentro e o fora, o antes e depois, mudança e permanência, espaço e tempo, apreendidas por distintos meios como os olhares dos fotógrafos.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:30
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Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

DA ORGANIZAÇÃO URBANA (OU PLANEAMENTO URBANO)

AO DISPARATE DA NOVA INTERVENÇÃO NO LARGO DAS FREIRAS

 

Não nascemos em Chaves. Optámos, contudo, por fazer dela a nossa cidade, a nossa terra.

 

Tendo família já aqui a viver, e estudante na capital do distrito, quando adolescente, costumávamos vir, pelo período do Natal, Páscoa e Férias Grandes, a Chaves. E, com efeito, deliciávamo-nos o palpitar que, naquela altura, no designado Largo das Freiras, se vivia. Era uma mistura interessante de estudantes, professores, tropa, forasteiros e flavienses comuns que, circulando entre o Bar Aurora e o Café Sport, tendo como linha de articulação a Rua de Santo António, davam movimento, cor e vida àquele local. Por ali, tudo quanto a Chaves dissesse respeito, acontecia.

 

Hoje, está tudo completamente mudado. E temos pena, nostalgia, saudade de um lugar que antes era a imagem de marca da sua cidade e atualmente se encontra despido e sem vida. Alguns apontam o dedo aos que, na sua opinião, são os causadores deste tamanho assassinato urbanístico – os senhores do poder local.

 

Gostaríamos, aqui de participar nesta discussão à volta do Largo das Freiras e do verdadeiro disparate das obras que, neste momento, estão ali a ser feitas, ou seja, um arranjo cosmético, dizemos nós, que não vai trazer mais vida ao local. Enfim... Como o dinheiro é de todos nós, que infelizmente não o controlámos efetivamente, displicentemente passamos aos nossos autarcas um cheque em branco para, na nossa cidade, fazerem o que muito bem entendem.

 

Da nossa parte desejamos acarear e trazer a este já longo debate a nossa perspetiva. Por duas ordens de razões: a primeira, porque sempre nos interessaram as questões ligadas à geografia, urbanismo e planeamento, por gosto e também por razões profissionais; a segunda, porque reputamos de importância fundamental que discutamos a nossa cidade e opinemos sobre a sua evolução, o que dela queremos. Todos.

 

Segundo supomos saber, a intervenção feita naquele local foi no âmbito do Programa Polis. Temos para nós que, salvo raras e honrosas exceções, a grande maioria das intervenções deste Programa visa(ra)m aquilo a que designamos como a obtenção da cidade espetacular ou monumental. Mas, muitas vezes, estas intervenções levam à perda da noção de lugar ou, como diz Carla Narciso, na sua obra Espaço Público – Desenho, Organização e Poder, do genius locci, provocando a dispersão de grupos sociais que até ali exerciam as suas atividades, quer profissionais, quer de lazer.

 

Ou seja, não nos pareceu ter ali havido uma intervenção urbana equilibrada, no pressuposto da “compreensão das diferentes escalas territoriais de inserção, nos processos de reestruturação, nos elementos arquitetónicos, na morfologia urbana existente e nas tradições” (Carla Narciso, ob. cit.).

 

Estamos de acordo ainda com aquela autora quando, no mesmo passo, diz que as intervenções urbanas não devem significar uma perda da cidade, mas sim uma melhoria social e estética. Mas frisa. Na obtenção deste desiderato é igualmente necessário a participação das comunidades locais nas discussões e intervenções a serem implementadas.

 

Não sabemos se os meios de consulta pública, para além dos que a lei estipula e prescreve, foram implementados e levados a cabo de uma forma verdadeiramente participativa. Circunstâncias várias da nossa vida impediram-nos a presença em Chaves naquela altura.

 

Hoje em dia é frequente vermos uma cidade, e os seus espaços públicos, como se fossem uma simples mercadoria. Que é de todos, mas usufruído por muitos poucos. É uma lógica de produção e reprodução do sistema económico que aí está em vigor.

 

Os espaços públicos que antes eram destinados à sociabilização, o verdadeiro espaço vivenciado, como define Henri Lefebvre, convertem-se na representação de um espaço artificial, desligado dos residentes e usuários, onde não se considera as tradições e as identidades locais, onde a escala do projeto não corresponde à escala do ser humano.

 

As atuais estratégias de desenvolvimento compreendem a cidade como uma comunidade onde existe uma vida local e lugares requalificados.

 

Infelizmente, o conceito utilizado tem sido o da requalificação através da arquitetura/espetáculo para ser exibida, gerando uma verdadeira teatralização e/ou turistização do espaço público.

 

O que importa, nesta forma de fazer cidade,  é a diferenciação e a capacidade de ilusão que as obras provocam na sua passagem, desprendidas da  vivência e do quotidiana das pessoas que aí vivem, traduzindo-se, assim, num aniquilamento do lugar.

 

É certo, como dizem Borja & Forn, em Políticas da Europa e dos Estados para as Cidades, que o maior desafio do planeamento urbano contemporâneo é aumentar o potencial competitivo das cidades no sentido de responder às procuras globais e atrair recursos humanos e financeiros internacionais. Mas, de acordo com vários exemplos que temos assistido, o planeamento tem sido feito à margem da cidade, com total esquecimento das pessoas que ocupam e vivem nesses espaços.

 

O que, infelizmente, se pretende é construir uma cidade cujos seus espaços cativem o olhar do forasteiro ou turista ou que, em termos mais gerais, propicie uma atratividade em termos económicos, no conserto de uma sociedade totalmente rendida ao mercado, transformada em verdadeira mercadoria, em que as pessoas que a habitam, na grande maioria dos casos, são esquecidas.

 

E é bem certo que muito políticos e técnicos se esquecem que o espaço público tem como objetivo principal a apropriação pelo ser humano, seu habitante habitual.

 

O projeto de arquitetura deve dirigir-se aos anseios e aspirações da população que dele vai usufruir, otimizando características fundamentais à sua apropriação. Estes devem possuir características próprias e identitárias que mantenham relações de proximidade e até mesmo de afeto com os mesmos.

 

Desta forma, no que à intervenção do arranjo do Largo das Freiras diz respeito, somos a considerar que poderemos, eventualmente, estar não em presença da ativação ou da (re) construção de um património dos flavienses. Pelo contrário, assistimos à  morte de um legado patrimonial, com fortes poderes de identificação simbólica. Que não lhe conferiu nova vitalidade, como seria de esperar. E presumimos que aquela intervenção tenha sido feita com base, quase exclusiva, na representação meramente económico-turístico, baseada na moda, e na redução dos espaços públicos a mera mercadoria, numa lógica neoliberal.

 

Mas, na nossa modesta opinião, não se pode apenas apontar o dedo aos autarcas, apesar de termos de debater e por em causa a visão que o poder político tem sobre o território sobre o qual exerce poder.

 

O poder municipal é o principal impulsionador do espaço público e, em particular, ao nível das cidades pequenas e médias. Pela forte concentração do poder e/ou pela maior visibilidade que ele pode ter”, o resultado destas intervenções podem induzir a persuasão do voto. Basta considerarmos as sucessivas inaugurações de parques, praças e jardins em plena época eleitoral.

 

Desta forma, o espaço público reflete a corporificação da preocupação e da capacidade especial da autoridade e, deste ponto de vista, surge como um produto personalizado que compromete o voto. A pressão ao nível dos técnicos é claramente elevada ao conceito de arranjo e assim destitui o espaço de uma forma que o deve caracterizar e individualizar. (Sobarzo, em A Produção do Espaço Público: da dominação à apropriação). É, positivamente, nesta altura, é o que estamos a observar pela nossa cidade, com especial incidência no dito Largo das Freiras.

 

Mas também temos de entender a dinâmica das cidades e dos seus ocupantes. E de refletir sobre a(s) nossa(s) identidade(s) e apropriação (ões) dos lugares feita pelos cidadãos pertencentes a uma determinada comunidade.

 

As cidades não são estáticas. Têm espaços que desempenham funções. Funções que servem os seus habitantes e os quais delas se apropriam. A forma como as vivem, e delas se apropriam, distingue-as dos demais. E tornam-se, assim, elementos identificadores específicos de uma determinada comunidade. Que querem preservar, pois são o seu selo, a sua marca distintiva. Mas a circunstância dos constantes gritos ou desta revolta que, ao longo do tempo, temos visto espelhado à volta deste assunto relacionado com o Largo das Freiras, não reflete esta dinâmica, ou seja, o ir às razões porque aqui chegámos. Parece-nos mais um saudosismo, que não atende e entende a dinâmica dos lugares, em particular das cidades.

 

E, chegado aqui, algumas perguntas deixamos no ar:

  • Será que houve novas centralidades que desempenharam esta função?
  • Até que ponto o Largo das Freiras era efetivamente um verdadeiro espaço público de convívio, partilha, e porque não dizê-lo, de exercício efetivo de cidadania, a partir de determinado momento da história da nossa cidade?
  • Porque os flavienses deixaram de se identificar com aquele lugar como património da sua cidade ao ponto de permitirem este estado de coisas?
  • Será que o novo arranjo, que, em nosso entendimento, não passa de um verdadeiro disparate, onerando mais o erário público, irá restituir ao flaviense do século XXI, a função identitária que tinha? O que verdadeiramente se pretende com este novo arranjo? O que os flavienses querem, desejam? Foram ouvidos para o efeito?
  • Será que Chaves tem massa crítica suficiente para fazer face aos senhores todos poderosos do poder político-partidário autárquico, imbuídos de uma mentalidade mercantilizada da coisa pública, quiçá, não raras vezes, pela nossa passividade, senhores do quero, posso e mando, fazendo, na prática, o que lhes dá na real gana?

 

Nas discussões, e em particular quando está em causa o bem público, não podemos ser redutores: temos de abrir o enfoque da nossa visão para ver as coisas. Não há apenas o eu e os outros. Há também o nós.

 

E nós, flavienses, discutimos e opinamos pouco sobre o nosso espaço público. Pouco nos preocupamos com a criação e preservação dos lugares de convívio, partilha, socialização e identidade local.

 

Narcisicamente é-nos mais cómodo partilhar e conviver através das redes sociais!

 

Mas todos sabemos - e está provado -, que estas redes são lugares pobres de efetiva partilha, de criação de socialização e convívio e nulo na construção de identidades genuínas.

 

Aproximam-se aí as eleições autárquicas. Vemos algumas forças políticas - e muito bem - movimentarem-se e discutirem o futuro da nossa cidade e do nosso mundo rural. Mas esta preocupação e discussão deve ser genuína, ou seja, não deve ser feita apenas na aproximação dos períodos eleitorais. Tem de ser assumida pelos flavienses - instituições e pessoas - como uma prática quotidiana, fundamental para uma verdadeira construção e desenvolvimento do nosso território concelhio, em que a nossa qualidade de vida, de acordo com uma nova visão e de um novo modelo de desenvolvimento dos nossos territórios para o século XXI.

 

A cidadania não tem lugar apenas nos dias em que somos chamados a votar. Exerce-se todos os dias, ao nível das mais diversas formas de organizações dos cidadãos, que compõem e habitam um determinado espaço.

 

António de Souza e Silva

 

 

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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2016

Palavras colhidas do vento...

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Há algum tempo que vejo trabalhos no Jardim das Freiras, naquilo que chamam uma remodelação do dito. Coisa que agradou a quem sempre contestou a obra de antes e a indiferença perante outros tantos. A unanimidade é sempre difícil e nos dias que correm, quase tanto como a razoabilidade.

 

Aqueles a quem a notícia encheu de júbilo, por certo, não esperam que o Largo das Freiras regresse ao postal antigo que já foi. Assim como também não volte a ser frequentado como o foi no passado.

 

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Depois da conversa nos cafés próximos e eram quatro, as pessoas retomavam-na no jardim, aproveitando para esticar as pernas e as tertúlias prolongavam-se a desoras. Nas estações do ano mais amenas, o interior dos cafés repleto de frequentadores na maior parte do tempo, despovoava-se e trasladava-se para as esplanadas. Os estudantes mais velhos do Liceu marcavam a diferença em relação aos mais novos e nos intervalos das aulas davam voltas ao rectângulo irregular do jardim, pois o pátio da escola já não era para eles, assim como os calções.

 

Eu sei que a remodelação tem mais finalidades do que um simples jardim e também é certo que, parte dessas finalidades eram já asseguradas por outros locais, como o Jardim Público – o coreto ainda lá está e espaço não falta – ou o Largo do Arrabalde, para a intervenção pública.

 

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Chaves, cidade, não é o que anteriormente foi e por mais que isso pese aos saudosistas, não poderia ser. Seria mau que assim fosse. Mas, em abono daqueles que suspiram pelo passado, devo dizer que também sinto nostalgia pelo centro da urbe habitado, com um comércio pujante, policiado, tranquilo e limpo. E nesse sentido, o Jardim das Freiras contribuía… em muito.

 

Agora, o que também não pode deixar de ser dito, é a repetição das causas a que está por trás desta remodelação. Exige-se mais sensatez, estudo e estabilidade nas decisões públicas. Apenas, deixar de “começar a casa pelo telhado”…

 

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Encerram-se as termas para obras. Obras que demoram mais de dois anos, excedendo todos os prazos da empreitada… inaugura-se o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso. Depois de concluída a obra do edifício das Termas Romanas, detectam-se problemas… remodela-se o Jardim das Freiras…

 

 

Numa destas noites sonhei com a minha avó materna, Luísa, de seu nome. Foi um sonho bonito… como se costuma dizer. Curiosamente na manhã que se seguiu, li uma publicação de Xavier Alcalá, escritor galego que muito prezo e de quem sou amigo desde as primeiras horas no “facebook”.

 

Xavier é escritor de nomeada e desconheço se por passatempo ou coisa mais séria, recolhe obituários, normalmente, por causa da castelhanização dos nomes e apelidos galegos. Na maior parte das vezes, os nomes vêm seguidos do apodo pelo qual o defunto era conhecido.

 

Isto é, vem o nome em castelhano e depois a nomeada em galego, do qual resultam notas pícaras de Xavier Alcalá, que é um defensor à outrance do idioma galego.

 

Pois bem, nesse obituário identificava-se o falecido e por baixo vinha o que segue:

 

- “que a avó (…), te cuide, como gostava, das feridas desta vida”

 

Faço votos que assim suceda… aliás, como Xavier Alcalá comentou, e a mim, que a minha avó Luísa sare as minhas feridas, de preferência, nesta vida.

 

Mário Esteves

 

 

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Terça-feira, 29 de Novembro de 2016

Três olhares de Chaves com Névoa

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Já o disse aqui várias vezes que no sangue de um flaviense também corre um bocadinho de nevoeiro, daí, nunca resistir a tomar umas imagens onde ele também seja protagonista e se lhe pudermos juntar um pouquinho da magia das cores de outono, tanto melhor.

 

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Foi assim que ontem os fui espreitar ao Tabolado com o Tâmega por companhia, boa companhia por sinal, e é sempre com prazer que gostamos de sentir a sua proximidade.

 

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E no meio da contemplação da névoa e do outono,  surge o momento mágico em que o sol começa a vencer o nevoeiro, para ele também brilhar na vida flaviense.

 

 

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Chaves D'Aurora

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  1. VEIGA.

 

Na época dos Bernardes, a vida em Chaves era muito influenciada pelas condições ambientais, a localização entre montanhas íngremes, frias, escabrosas, ainda que envolvidas por uma vegetação verdejante, mas castigada pela neve, com o seu manto branco de “noiva transmontana”. Conforme nos diz António Lourenço Fontes, em sua “Etnografia Transmontana”, não era como hoje, “uma terra por onde transitam viajantes destinados ou de passagem, mas sim um final de linha onde se vivia isolado, sem influências externas que fossem contrárias aos modos daquela gente viver, após séculos a sós, esquecida do mundo”.

 

Os sítios da veiga, à margem esquerda do Tâmega e à direita da Madalena, um pouco depois do Jardim Público e do ribeiro do Caneiro, ainda que muito perto do entorno histórico e comercial da vila, eram então muito desertos, rurais, com apenas algumas casas e quintas esparsas nos caminhos que iam dar logo ali, na Galiza. Os moradores em geral viviam entregues à horticultura, às atividades pecuárias ou ao específico comércio de aluguel e venda de equinos.

 

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Até alguns anos antes das primeiras décadas do século XX, viviam os flavienses sem luz, sem estradas, sem telefone, além de um índice bem acentuado de analfabetismo entre as camadas mais pobres, as quais constituíam, ao cabo das contas, a maior parte da população. Dormia-se bem cedo, pois o frio ali era mais intenso que alhures, ainda mais pelos ventos que, às vezes, pareciam não se entender quanto ao rumo e, assim, provinham de toda parte. O silêncio era quebrado apenas por eventuais latidos de cães vadios, o trotar de cavalos ao longe, ou, ainda, pelos incómodos ruídos da pequena fauna local, com os seus raros insetos noctívagos.

 

Ainda conforme Fontes, os habitantes da região viviam “amorrinhados pelos longos dias invernais”, chuvosos ou enevoados. Tal modus vivendis levava muitos nativos a “um temperamento amolecido, indeciso, propenso à melancolia, à reação lenta, à reserva natural de um caráter introvertido e desconfiado, tendendo à concentração no interior de si mesmo, no seu lar, na sua aldeia, no seu país”.

 

Todas essas influências devem ter sido absorvidas por João Reis Bernardes, a se refletirem no estilo de vida que impunha a si mesmo e aos seus.

 

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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2016

Quem conta um ponto...

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317 - Pérolas e diamantes: elogio da vaidade ou a necessidade de entrar no espírito da coisa

 

N’As Farpas, Eça de Queirós apelava a que devíamos rir, ora pois, já que o riso é uma filosofia. Ou, talvez ainda mais do que isso, “o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião”.

 

Afinal, na Web, por muito que isso custe a uns poucos, os dichotes de um patusco valem tanto como as ideias de um génio.

 

De facto houve uma mudança de paradigma: a cultura é cada vez mais a cultura da informação, como muito bem diz o poeta árabe Adonis.

 

Não conhecemos a estrada a não ser no fim de a termos percorrido.

 

Existe uma coisa esquisita denominada criptomnésia, que é, no fundo, a crença de que um pensamento é novo quando na verdade é uma memória, ou seja, pensamos que por vezes criamos uma coisa muito interessante mas que, afinal, não passa de um plágio.

 

Quando se acaba um curso e se pensa que agora é que se vai viver, que finalmente se vai pôr a circular esse capital de conhecimentos adquiridos com muito custo, acabamos por chegar à triste conclusão de que a maior parte não nos servirá para nada na vida.

 

Todos sabemos que, por exemplo, a economia política afinal apenas serve para iludir e mentir às pessoas. E que a geometria é boa para desenhar rotundas com que os autarcas enxameiam as vias das nossas cidades, esquecendo-se dos buracos que se vulgarizam pelas estradas como se fossem uma praga daninha.

 

E para que raio serve a História? Para nos deprimir, com toda a certeza.

 

Estudamos que numa determinada época houve terríveis calamidades e que o homem foi infeliz. E que mais à frente no tempo a situação se repetiu. Estudamos que o homem reuniu forças, que trabalhou, que labutou e sofreu imenso, para melhorar a sua sorte.

 

E quando as calamidades descansam um pouco e a história faz uma pausa, eis que surgem novamente as nuvens negras, que os homens morrem de novo como as moscas no inverno, que as casas são todas destruídas, que a guerra se impõe outra vez.

 

Afinal, dizem-nos, a vida continua, sempre a correr, sempre a acontecer, e depois ocorre nova destruição a que se segue mais destruição. 

 

A intervalos regulares aparecem os poetas, com a sua mensagem feliz, enaltecendo o florescimento das novas forças do progresso e da liberdade. Urge, dizem eles, ter esperança na existência, desejar o bem, ter coragem, ser ativo, discursar corretamente e escutar com paciência as prédicas dos outros. E deixar correr, por vezes, algumas lágrimas de felicidade.

 

No fundo enchem-nos a cabeça com um complicado arquivo de coisas e pessoas mortas, com épocas já idas, com datas e números justificativos do triunfo da razão, com o devir das religiões e com todas as problemáticas subsequentes.

 

Resumem-nos a vida a uma tríade: nascimento, casamento e funerais.

 

Depois subdividem de novo a argumentação, distinguindo a alegria da tristeza. E toca-nos então preencher os espaços vazios com os batizados, os aniversários, as festas familiares, os jejuns, as almoçaradas pantagruélicas, as reuniões de amigos, os cumprimentos, as felicitações, as lágrimas e os sorrisos.

 

Por vezes bocejamos por iniciativa própria e outras vezes por ver bocejar os outros. Por vezes rimos para não chorar e outras choramos para não rir. Uns limpam as lágrimas, outros assoam-se, outros tossem e os mais finos espirram, mesmo que seja a custo.

 

Viver em sociedade depende do estado de espírito. Nós a tudo nos acostumamos. Por vezes uma melodia cantada por um cantor roufenho tem até mais encanto do que o próprio Sinatra. Por vezes emocionamo-nos com Marco Paulo e tapamos os ouvidos quando soa uma peça relevante de Mozart. Depende do estado de espírito. De entrar no espírito da coisa.

 

Toda a gente tem vaidade. E muita. Dizem os mais avisados que se calhar é ela o único motor da vontade.

 

É dos vaidosos que reza a História.

 

João Madureira

 

 

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Domingo, 27 de Novembro de 2016

Pecados e Picardias

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Mãe

 

Lavei a cara com as lágrimas de mágoa

 de mim e do meu corpo  só, cansado sem tempo,

Sepultei orgulhos afogados sem água

ergui-me pela força do hábito sem qualquer alento,

 

já não olho sequer à volta nem sequer me importo

perdi-me no caldo dos outros primeiro tu,

venci-me pelos epitáfios todos de revolta

apeei-me na cova do egoísmo como qualquer urubu

 

de repente todos os espelhos mostram quem sou

esgares de repulsa puxam-me de um mim que eu achava que era

era só uma casa que já nasceu velha onde ninguém morou

arrebunham-me unhas jamais cortadas pela espera

 

gargalhadas de gozo nas tuas costas à passagem

gotas torturantes caem compassadamente

numa alma com espirito de sonhos roubados por miragem

num sono atroz por desistências e mordaças do adeus pra sempre

 

e tu mãe não desistes nunca de me afagar

 e dizer que está tudo bem ,…

e morro de remorsos

por não ser capaz

de pegar em ti ao colo…

AMO_TE , tua filha Isabel

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O Barroso aqui tão perto... Com neve

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Serra do Larouco com a aldeia de Gralhas nas suas faldas

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Hoje temos neve fresquinha, de ontem, que daqui tão perto só poderia ser do Barroso. Não tanta como há dois dias (sexta-feira), pois a chuva apagou-a das cotas mais baixas, mas não com força suficiente para a apagar da Serra do Larouco e das aldeias mais altas, como Padornelos e Sendim.

 

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 Serra do Larouco

 

Deveríamos ter ido  pela manhã, mas não deu, assim ficou para a tarde e mal chegámos a Soutelinho da Raia, de onde se começa a avistar o Larouco, deu logo para ver qual era o nosso destino, se tal fosse possível, pois as notícias cá em casa recebidas pela televisão, eram as de que o Larouco estava fechado ao trânsito, mas mesmo assim arriscamos a ida.

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Serra do Larouco

 

Pelo caminho deu ainda para mais uma vez apreciar a aldeia de Gralhas vista desde a estrada, com o Larouco a servir-lhe de fundo, que na hora apenas deixava ver as partes mais baixas.

 

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Padornelos

E lá fomos, pelo menos tínhamos a garantia de que até Padornelos iriamos conseguir chegar, e chegámos. Dada que a estrada ainda não era aí interrompida, continuámos por ela acima, até onde pudéssemos ir.

 

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 Padornelos

 

Mas tal como se adivinhava desde Gralhas, o Larouco a partir do meio estava encoberto de névoa cerrada, pelo que decidimos aproveitar o pouco que restava de luz para a aldeia de Padornelos e um pouco mais se pudesse ser.

 

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 Padornelos

Em Padornelos repetimos alguns motivos que tínhamos tomado nas últimas visitas e que até já deixámos aqui no seu post, mas as imagens de hoje são a versão de Padornelos com neve, e aí sim, era também novidade para nós.

 

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 Padornelos

 

Gente na rua havia alguma, pouca, pois embora até nem estivesse muito frio, acredito que à lareira se estaria bem melhor, mas mesmo assim ainda tivemos oportunidade de retribuir o cumprimento a quem nos recebia, e que mesmo descalços nas suas quatro patas, não aparentavam terem frio.

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 Padornelos

 

Não nos quisemos demorar por lá, pois a tarde já ia adiantada, o céu estava cerrado e a luz começava a escassear, pelo menos para a fotografia e ainda tínhamos em mente Sendim. E foi para lá que nos dirigimos.

 

1600-padornelos (265)

 Padornelos

 

Chegados ao desvio para Sendim, optámos por ir até à fronteira com a Galiza como quem vai ver se os marcos estão no sítio, e estavam, bem como a receção à Galiza onde a tradicional placa azul rodeada das estrelas da União Europeia colocadas na fronteira entre estados, em vez de anunciar Espanha, anuncia Galiza.

1600-padornelos (244)

 Padornelos

Não chegámos a entrar na Galiza pois antes, nas proximidades de Sendim,  tínhamos visto cavalos na sua liberdade possível, que pela certa davam um bom motivo para fotografar e deram, embora a luz aí já estivesse mesmo na hora da despedida, obrigando-nos já a elevar os ISOS e as aberturas da câmara, ainda para mais com a brancura da neve a enganar os fotómetros.

1600-sendim (46)

 

Mas mesmo assim ainda não seria a nossa última imagem do dia, pois ainda tínhamos de fotografar a vista geral de Padornelos com o Larouco de fundo.

 

1600-larouco (194)

 

E já sem luz fiável ainda deu para mais duas imagens. Uma já no regresso a Chaves, antes de Solveira, com uma vista para o Larouco, que continuava semi-coberto de névoa ou nuvens baixas, que lá em cima é a mesma coisa, e por último um entardecer que nos chamou a atenção, esta já em Meixide e que acabou por seu a última imagem do dia, com a cereja em cima do bolo.

 

1600-meixide (37)

 

 

E como de costume ficam os Links para anteriores abordagens do Blog Chaves a localidades e temas do Barroso, hoje sem bibliografia para mencionar, pois não foi necessária:

 

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Amiar - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-amiar-1395724

Cepeda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cepeda-1406958

Donões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-donoes-1446125

Fervidelas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fervidelas-1429294

Fiães do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fiaes-do-1432619

Frades do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-frades-do-1440288

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Lapela   - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-lapela-1435209

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

O colorido selvagem da primavera http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-o-colorido-1390557

Olhando para e desde o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-olhando-1426886

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Padroso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padroso-1384428

Paio Afonso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-paio-afonso-1451464

Parafita: http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-parafita-1443308

Paredes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-paredes-1448799

Pedrário - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pedrario-1398344

Pomar da Rainha - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pomar-da-1415405

São Ane - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-ane-1461677

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Tabuadela - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-tabuadela-1424376

Telhado - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-telhado-1403979

Travassos da Chã - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-travassos-1418417

Um olhar sobre o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/2016/06/19/

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

São Pedro - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-pedro-1411974

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

Xertelo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-xertelo-1458784

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Sábado, 26 de Novembro de 2016

Podia ser verdade, mas não é...

1600-s-juliao (285)

 

Podia ser verdade, mas não é, pelo menos uma verdade de hoje ou de ontem, ou mesmo deste ano. Esta neve, a que hoje fica em imagens,  já há muito derreteu, pois segundo o meu arquivo é de uma nevada de 23 de dezembro de 2009.

 

1600-23-12-09 (59)

 

Mas lembrei-me de a trazer aqui, pois ontem, nos lugares do costume (Montalegre e Alvão) houve neve a sério. A do Alvão vi-a, mas só isso, nem sequer a registei em imagem e muito menos a desfrutei, pois andar na autoestrada tem esse inconveniente de não ser lugar de paragens para desfrute do que quer que seja.

 

1600-23-12-09 (39)

 

Pois a neve que vos deixo, que tomou em cheio o Brunheiro e as suas terras altas, são registos de uma voltinha que dei por ela desde Chaves a S.Julião e vice-versa.

 

1600-23-12-09 (40)

 

Pela ordem de publicação, a primeira é da entrada no concelho de Chaves em S.Julião, a segunda é da aldeia de S.Lourenço vista desde a Cela e as duas últimas são da Ribeira das Avelãs, em que a última, no meu imaginário, é uma obra de arte, uma tela  lavrada na terra de autoria de um lavrador artista que está farto da geometria do rego certinho, paralelo. Pura arte… ou então seria outra coisa.

 

 

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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

A COVA DO LADRÃO

 

A gente do Planalto é amiga do vinho, não porque tivesse aprendido, na doutrina, que representa o sangue de um Cristo que todos amam, mas, sobretudo, porque aquece o corpo nos dias de vento galego e dá ânimo nos trabalhos mais pesados da labuta.

 

Honra lhe seja feita que tem gosto!

 

Todavia, nem todos têm bom bober!

 

Se nuns, a pinga, aflora a boa disposição, noutros faz emergir o mau feitio, a ruindade e os maus fígados. Era o caso do Belardo Manca Mulas, Abelardo Terebentino de batismo. Lavrador remediado não se abalançava a assucar uma lavoura ou a aricar uma leira de pão, sem escoucar uma remeia. Depois, quem nas pagava era a Androsinda, uma mula nascida do cruzamento, improvável, do cavalo do Paranhos com a burra do Beiças, nas touças do Corgo. A coitada não só tinha de puxar pela relha do arado para escacholar a terra dura, como ainda de arrastar o pingueiro do bandalho. Como se não bastasse, ainda lhe arreava forte e feio com a aguilhada a cada virada de rego. A infeliz, tornava sempre ao escontra e, por isso, a vara zunia-lhe, cruelmente, riba lombo, quando não era o ferrão a rasgar-lhe os quartos de cima a baixo! Porrada de criar bicho!| Tanto assim que numa ocasião, escamado com a besta, assentou-lhe labrestada tamanha com um estadulho, numa pata traseira, que a deixou derreadinha para o resto da vida!

 

Em tempo algum o conheci sóbrio!

 

Dizia-se, à boca cheia, que bondava uma golada de água do Prado para que ficasse como uma poça! Espetava os queixos na bica, indejava o bojo e das borras de tresontonte ficava como havia de ir! O sacripanta gabava-se de aviar uma remeia por dia, não estando quente, no estio tchimpava duas!

 

1600-seixo (187)

 

O vinho sempre foi a melhor pomada para muitas das maleitas das gentes do Planalto. Porém, em terra tão madrasta, não se colhem uvas. Por isso, quem pudesse, tinha uma vinha nos fundões de Cobladrão, como se dizia, cujos socalcos, soalheiros, ajudavam a criar fruto de alto gabarito. Quem não tivesse rincão que o produzisse, tinha de se desembrulhar, pois sem vinho é que não se podia viver! E nem que faltasse o pão para a ceia, para tintol haveria de se ajeitar dinheiro! Alguns faziam das tripas coração para que o generoso lhes alumiasse o serão ao borralho, nas noites escuras da meseta, bem como os sonhos ao recolher com as galinhas. Nalguns tugúrios, estou que, alumiaria mais o vinho do que a luzes mortiças das candeias a petróleo, ou as labaredas das fronças da giesta branca crepitando nas lareiras!

 

O Ti Moreiras do Carregal tinha uns socalcos em Cova do Ladrão. Eram a menina dos seus olhos, autênticos altares marianos, de cuja Virgem era aturado devoto por tê-lo poupado à morte, quase certa, na Grande Guerra. Gastava mais tempo na vinha, do que em todas as touças, poulas ou soitos que tinha à porta de casa. Esta fazenda era a sua salvação e a do povo do Carregal. Quase todos os vizinhos se desunhavam para o ajudar nos trabalhos da vinha. Sabiam que para além da frequência com que o pipo lhes passava pelos queixos, nas podas e nas cavas, também avezavam generosos canecos ao longo do resto do ano.

 

O catano era o míldio, quando atacava a desatempo deixava o Carregal na penúria!

 

Quase não havia semana em que o Ti Moreiras não visitasse Cova do Ladrão, apesar de distar mais de duas léguas. Montado na Feiticeira, lá ia do Carregal à Torre, daí ao termo de Moreiras, chegando à Costeira, a parte mais penosa da jornada. Encosta ingreme do Brunheiro, a Costeira, ligava o Planalto ao vale do Seixo que recebendo os benditos raios austrais, estava protegido de norte pela portela do Peto.

 

1600-escariz (136)

 

Da vinha colhiam-se raros frutos: pavias, amêndoas e figos, mas principalmente uvas que fazia um vinho que em anos bons até alumiava numa candeia, não falando dos cachos de mesa que perduravam o ano todo, pendurados às cambalhotas, com barbantes, nos caibros da sala de jantar.

 

A colheita era uma festa para toda a aldeia.

 

Preparava-se durante semanas: cestos vindimos lavados, tesouras da poda afiadas, dornas empertigadas, tonéis escarolidos e lagares e lagaretas esfregados para receberem o mosto.

 

No dia aprazado, posto com muita antecedência, o povo juntava-se na estrada de Carrazedo pela madrugada. Chegava o trator do Jaime das Malhadeiras, da Amoinha Nova, irmão do Ti Moreiras, carregavam-se as dornas, os cestos a merenda e o povo.

 

Para muitos, era a única viagem que faziam durante todo o ano.

 

Dali partiam para France, passavam Lagarelhos e no Peto arrouçavam para o Seixo. Aí deixavam a nacional enveredando por um caminho manhoso de terra e buracos que conduzia à capela de Cova do Ladrão onde se estacionava. O atrelado, com as dornas, receberia os cestos de uvas alombados pelos homens por carreiros e portelos.

 

Pelo número de dornas cheias adivinhava-se a produção do ano. À noitinha, finda a saga, regressava-se em festa. E por cada lugar que se passava, a canalha juntava-se na estrada pedindo uvas. Os trabalhadores atiravam-nas à rebatina para gáudio da pequenada. Chegava-se ao Carregal, quase sempre noite escura. À luz da candeia vazavam-se as uvas no lagar de perpianho. Depois, até alta madrugada, pisava-se o vinho. Os homens descalçavam socos e carpins, tiravam as calças e de ciroulas arregaçadas lavavam as pernas em água fria, numa bacia de folha com uma lisca de sabão macaco. Depois entravam no lagar. Era uma noite espetacular. Cantavam, bebiam vinho velho e punham ao léu a vida alheia. A noite e o trabalho só terminavam quando ao Ti Moreiras lhe parecesse. Nos dias seguintes e enquanto o vinho fervia, baixava-se a cortiça com um arcanho próprio para que fervesse no bagaço e ganhasse cor. Muitas vezes andei para cair ao lagar, atordoado pelos vapores do mosto. E quantas outras, às escondidas do paizinho, ia beber vinho doce por uma palhinha de centeio!

 

Lembro-me de um ano em que um incidente, estúpido, estragou o vinho, sem que, apesar de tudo, se cometesse o sacrilégio de o botar fora! Conto:

 

O trabalho de mastragar as uvas com os pés ia a meio e os pisadores, já estavam bêbados como cágados! Numa das bordas do lagar, sobre uma prateleira manhosa de pinho, pousava a candeia a petróleo que alumiava a noite de trabalho. Num exacerbar de entusiasmo, o Marcolino Tresmundes, enquanto fingia virar uma chula minhota, estou que sem querer, pinou a candeia para dentro do lagar. O Ti Moreiras ficou em pânico.

 

Tirou a candeia o mais depressa que pôde mas não evitou, ainda assim, que se derramasse parte do petróleo. Para aquela gente desprezar o vinho era um pecado mortal mais expressivo do que quantos adultérios se cometessem numa vida! Por isso, todo o ano, bebeu-se a pisorga a saber ao petróleo, mas ninguém se queixou!

 

Enquanto rapazote, fiz muitas viagens, com o meu avô António, a Cova do Ladrão. Ele gostava de me levar com ele, dizia que o distraía. E eu gostava de o acompanhar, não só porque me sentava à garupa da Feiticeira, agarrado à crina, como tinha oportunidade de ouvir muitas das suas vivências na Grande Guerra, coisa que me fascinava.

 

E então puxava por ele:

 

− Ó paizinho, o sítio da guerra, na Flandres, era como este aqui, com penedos, caminhos e montes?

 

− Não mou filho, lá o terreno era praino e alagadiço. A lamice chegava a dar-nos pelo joelho. Às vezes, quando fazia muito frio, o pingo do nariz ficava em carambelo. E quando íamos mijar, antes do serritcho chegar ao chão, já estava em pedra. A miséria era tanta que os piolhos do corpo eram brancos e tamanhos como tchicharros!..

 

− Então não tomavam banho?

 

− Ó se tomávamos, quase todos os dias e de chuveiro, era um luxo, mas só quando chovia!..

 

− E como dormiam?

 

− Quase não dormíamos e se algum passasse pelas brasas, tinha de proteger as orelhas porque os leirancos eram tantos que, se pudessem, ratavam-no-las! Mas um dia, quando cresceres, deixo-te ler um livro que eu escrevi sobre a minha vida na guerra. Aí saberás muitas outras coisas.

 

Mal eu sabia que anos mais tarde, teria a feliz dita, não só, de a conhecer, como de a estudar e, ainda, de a dar a conhecer a tantos outros em sua honra e em honra de tantos que, como ele, sofreram as sevícias de uma beligerância inexplicada e injusta!

 

1600-seixo (181)-1

 

E lá íamos felizes acavalo, um porque tinha ouvinte para as suas estórias e outro porque as ouvia e construía imagens fascinantes e curiosas que haveriam um dia de frutificar.

 

Ao chegar à Costeira apeávamos. Temia meu avô que a égua tropeçasse e nos botasse de cangalhas, o que era perigoso. A meio da ladeira parava, sempre no mesmo lugar, não só para descanso da besta como para me contar a mesma estória, mil vezes repetida. Naquele sítio havia uma laje de granito no meio da rodeira, no centro tinha uma concavidade em forma de ferradura da qual saia um veio de granito escarlate. Assim me contava:

 

− Vês Gilinho, esta cova em forma de ferradura neste penedo? Foi a marca deixada pela burrinha de Nossa Senhora quando andava a dar a volta ao mundo pelos pecadores. Chegou aqui muito cansada. A burra pôs a pata da frente sobre esta laje e escorregou. Para não pregar com a Virgem no chão, enfincou a ferradura com tanta força que a enterrou na pedra, partindo a pata redondinha. Da bouba escorreu algum sangue que ainda se pode ver naquela mancha vermelha. A Virgem Nossa Senhora, para premiar a burrinha e para não ter de continuar a pé, guiou-lhe milagrosamente a pata. Passando por Loivos, a burrinha, pediu ao povo que construísse, em Cova do Ladrão, uma capelinha em honra do milagre. Sim, porque nesse tempo os animais falavam!

 

Assim foi!

 

Encantava-me aquela história, repetida tantas vezes. Parecia-me sempre nova com inventados pormenores. E quando olhava para a singela capelinha de Cova do Ladrão, imaginava o quadro de Nossa Senhora e da burrinha descendo a Costeira e conversando sabe-se lá de quê.

 

− Como é importante a minha terra − pensava eu − que até mereceu uma visita da Virgem Mãe muito antes da Cova da Iria!..

 

Depois chegávamos à vinha, o mais das vezes, apenas para a inspecionar.

 

1600-uvas

 

No tempo em que o bago já pintasse, o paizinho fazia questão de que comêssemos, antes da volta, um cacho das uvas sem grainha que colhia de uma latada à porta do pardieiro que servia de abrigo nos dias em que os trabalhos não permitissem regressar a casa. E que uvas aquelas!.. Curioso é que nunca deixava de cortar um generoso cacho para a Feiticeira. Sobre uma manjedoura, a égua, até fazia lume com os dentes!

 

− Apesar do bitcho não ter alma e não poder beber um copo, sequer ao menos, que larpe uma uva de Cova do Ladrão antes que ela faça o binho. Bitcho que é bitcho também gosta de coisas boas! Além do mais como é que alombaria connosco Costeira acima sem comer nada?..

 

− Belas palavras as do paizinho e generosas!

 

Coisas do vinho e da vinha!

 

Gil Santos

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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2016

Ocasionais

ocasionais

 

“Natalices”

 

Por aqui, neste Novembro já a meio, menos fresco que o costume, vendedores, feirantes e comerciantes, videirinhos e tratantes, simplórios, gabarolas e «ingénuos úteis», passado o «S. Martinho», e com uma castanha ainda a rilharem numa boca vazia de palavras sérias e decentes, apressam-se desalmadamente a anunciar o «Natal».

 

O Novembro ainda tem pra durar, e já flamejam luzes e luzinhas em janelas e vidraças, desde o rés-do-chão até ao último andar das gaiolas urbanas, pintaroladas com nevadas figuras e figurinhas a representar os motivos de vaidade dos habitantes-figurões destes casulos; nas varandas estão pendurados uns farrapos avermelhados nos quais se percebe um cabeçudo sisudo, com barbas à «pai-do-céu» antigo; e as caixas-do-correio estão entupidas com folhetos dos «Hiper», dos «Super», dos «Mini» Mercados; das Lojas de pneus e de electrodomésticos; dos agentes de Seguros e dos «Institutos» ópticos e de beleza garantindo que «este ano, o Natal chegou mais cedo».

 

E todos falam, e prometem, «preços baixos», produtos milagrosos, serviços «personalizados», prazeres exuberantes, gostos sublimes, consolações «derretidas», alegrias transbordantes, saúde «até dar c’um pau», felicidades supremas!

 

Nas Rotundas, nos Cruzamentos, e nas pontas das pontes, bandos de «voluntários» esforçam-se heroicamente para que os condutores de automóveis, de carrinhas, de camionetas e de camiões, e transeuntes, a pé ou a cavalo, aceitem os seus «certificados de generosidade de bondade, de solidariedade» com a correspondente … côngrua, oblata, dízimo, contribuição, retribuição, oferta retirada da carteira do assarapantado «cruzado»!

 

Nas Ruas, bandos de «legionários» tocam às campainhas de todos os cubículos, de todos os apartamentos, de todas as moradias e de todas as vivendas, e entram pelos “Cafés”, Pastelarias e “Pão-Quente”; Lavandarias, Talhos e Lojas de «pronto-a-vestir»; Drogarias, Papelarias e Mercearias; Sapateiros - Rápidos e Cabeleireiros-de-homens a lembrar a importância dos Bombeiros Voluntários, nos incêndios; a lembrar a importância da PSP e, ou, da GNR e da Brigada de Trânsito, na passagem de multas; a do Rancho Folclórico, a da Tuna, a do Clube de Futebol, a dos Tocadores de Bombo, para a nomeada da Freguesia!

 

Só não tocam nem entram (Credo! Cruzes! Canhoto!) nas «Dependências Bancárias»!

 

Nas Rotundas, nos Cruzamentos, nas pontas das pontes; nas Ruas; nas Caixas-do-correio e nas Caixas-de-mensagens dos telemóveis; e, a toda a hora, a fazerem tocar o telefone fixo pelotões, companhias, batalhões regimentos, exércitos; frotas, comboios, e esquadrões, esquadrilhas e quadrilhas de figurões, impostores, aldrabões, trampolineiros emboscam, cercam, atacam, intimidam, intimam os cidadãos de boa-fé, bondosos, piedosos, solidários a conceder às instituições, que essa cambada tão interesseiramente serve ou diz servir, um imensamente mais ruidoso que glorioso pretexto para aliviarem a sua consciência com tão publicitadas, quão insignificantes e inautênticas, obras beneficentes!

 

O descaramento é tanto que, todos os anos, os publicitários usam sempre a mesma paragangona-chavão: - «Este ano o Natal chegou mais cedo»!

 

E, em nome das boas acções, de benevolências e, ou, favores feitos ou a fazer; em nome das «criancinhas», dos «doentes», dos «velhinhos»,  -   que durante o ano foram esquecidos, ou explorados, ou maltratados, ou abandonados à sua sorte   -    o Natal aparece como o milagre dos milagres, a dar saúde, consolo, fartura, prazer, bem-estar, alegria aos tristes, aos desgraçados, aos oprimidos, aos injustiçados, aos excluídos! Aos infelizes!

 

E isso, graças aos «Preços Baixos», aos Saldos, às Promoções dos Comerciantes; e, mais ainda, graças à dádiva imensa de inúmeros «voluntários» e «legionários» que, de manhã à noite, (e até pela noite dentro!) abordam, de todas as maneiras e feitios, todos quantos, no seu entender, nunca, durante o ano, se lembraram do «Próximo» e não o amaram «como a si mesmos»!

 

Kant espantava-se que no mundo houvesse tanta bondade e tão pouca justiça!...

 

Natal!

 

Estação do ano em que a hipocrisia, a burla, a vigarice, a mentira, a chantagem saem à rua, com vistosas (e ronhosas, também!) roupagens; coloridos (e aberrantes) discursos de bondade e de «bondadeza»; e artísticos (e insultuosos) arremedos de visitas de arcanjos celestiais!

 

Natalices!

 

M., vinte e três de Novembro de 2016

Luís Henrique Fernandes

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:15
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Flavienses por outras terras - Madalena Silva

Banner Flavienses por outras terras

 

Madalena Silva

 

Nesta crónica do espaço “Flavienses por outras terras” vamos até à região de Entre Douro e Vouga. Em Santa Maria da Feira, terra dominada pelo seu altaneiro castelo (considerado uma das obras mais emblemáticas da arquitetura medieval portuguesa), vamos encontrar a Madalena Silva.

 

Mapa Google + foto - Madalena Silva.png

 

Onde nasceu, concretamente?

Nasci na Rua Direita, em Chaves.

 

Nos tempos de estudante, em Chaves, que escolas frequentou?

Frequentei a Escola Primária, em Santa Cruz, a Escola Secundária Dr. Júlio Martins e a UTAD.

 

Em que ano e por que motivo saiu de Chaves?

Saí de Chaves em 1989, por razões profissionais.

 

Em que locais já viveu ou trabalhou?

Já vivi em Avis, no distrito de Portalegre, e em vários locais no concelho de Santa Maria da Feira.

 

Diga-nos duas recordações dos tempos passados em Chaves:

A família, a escola e os amigos.

 

Proponha duas sugestões para um turista de visita a Chaves:

Conhecer a nossa gastronomia e os nossos monumentos.

 

Estando longe de Chaves, do que é que sente mais saudades?

Não sou uma pessoa saudosa.

 

Com que frequência regressa a Chaves?

Depois do falecimento da minha mãe vou a Chaves com mais frequência, habitualmente uma vez por mês para poder estar com o meu pai.

 

Gostaria de voltar para Chaves para viver?

Para viver não, mas é um bom lugar para passar férias.

 

 

 

O espaço “Flavienses por outras terras” é feito por todos aqueles que um dia deixaram a sua cidade para prosseguir vida noutras terras, mas que não esqueceram as suas raízes.

 

Se está interessado em apresentar o seu testemunho ou contar a sua história envie um e-mail para flavienses@outlook.pt e será contactado.

 

Rostos até Madalena.png

 

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:57
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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2016

Cartas ao Comendador - 1

cartas-comenda

 

Meu caro Comendador (1)

 

 

Foi como se tivesse tido um cancro: tive de voltar a aprender a viver. Estou agora nos primeiros passos, a andar ainda, em parte, desequilibrado, mas a atingir já algum fim.

 

Comecei por pequenas caminhadas. Quando se aprende a andar em adulto, temos de ter mais cuidado porque sendo a massa maior, é também maior a gravidade e a haver queda, ela doerá certamente mais e com consequências piores!

 

Comprei uma cama mais alta de forma a poder dizer: levanto-me e fico logo de pé, às vezes o que custa é o elevar sem alavanca e assim tenho o trabalho facilitado.

 

E à medida que vou desenvolvendo o andar, passo a passo, comecei também a aprender a falar. Claro que, motivado pela doença, alguns dos músculos, refiro-me em particular aos que auxiliam a fala, estão em parte atrofiados, o que exige de mim um esforço maior para conseguir as mesmas coisas.

 

Já articulo algumas frases, sem que se note nada. Claro que ainda tenho muito trabalho pela frente, vale-me o não ter pressa. Agora tenho tempo!

 

O evoluir tem, nessa palavra exacta, evoluído. Mesmo aquelas tarefas domésticas como o vestir, o pendurar a roupa, o calçar-me, apesar de básicas são fundamentais por nos darem uma autonomia, ainda que primária, possamos dizer, libertadora.

 

 

As sequelas são cada vez mais, menos perceptíveis e às vezes perco algum tempo a analisar isto. Tem duas vertentes:

 

Por um lado, ao a doença sair do corpo, ele deixou a submissão de que era escravo, naturalmente.

 

Mas não é só isso, há em simultâneo ou paralelo, agora aqui também não sei bem ou se há diferença significativa nisto, a menor importância que dou às mesmas coisas. Por exemplo: quando me apercebia do aparecimento de uma metástase, ficava logo com receio porque via nisso um índice de evolução ou progressão da doença e incutia-se em mim a consciência do caminhar para a morte ou do aproximar-me mais dela.

 

Agora, quando a mesma coisa irrompe, já não acho que seja uma metástase, porque já não tenho a doença e penso: é apenas um sinal!

 

E é estranho, como apesar da metáfora, a doença teve realidade em mim durante anos e como a evolução para a cura foi tão demorada!

 

Gostava, por pura nostalgia ou saudosismo, de determinar ou identificar o momento exacto em que isso aconteceu, mas não sou capaz de, a esta distância, precisar os factos. E também gostava de conhecer a razão disso ter acontecido agora e não antes porque poderia no futuro, digo a consciência disso, evitar uma recaída.

 

Por agora, não penso nisso. Neste momento aprecio os pequenos progressos do dia-a-dia e as metas que tenho conseguido atingir por ter estabelecido os objectivos à minha medida, ao tamanho da minha capacidade, adequados ou ajustados, se isso fizer diferença para si, a ela. E não vejo nisto, concorde ou não o senhor, qualquer limitação nem acho ou simplesmente penso que é menor o que faço agora comparado com o que fiz no passado, porque o que faço agora é uma realidade e o que fiz no passado é, neste preciso momento, pura ficção!

 

Claro que não tem sido fácil, repare o senhor, o que é nesta idade a felicidade de levar sozinho um copo de água à boca! O segurar nos talheres sem tremer e sem eles caírem. E, parece-me às vezes, que agora a felicidade, se se pudesse medir, é ainda maior porque quando foi da primeira vez, toda a gente à minha volta esperava por isso, era o normal naquela altura, as crianças aprendem tudo mas agora, na minha idade, já não se espera nada ou grande coisa e, no entanto, eu consigo! Consigo por mim e consigo para mim!

 

Confesso, a si tenho de confessá-lo, que às vezes de noite ainda tenho medo! Mas não é nada comparado ao que sentia. Dantes, tinha aquela crença infundada de que se morre, quase sempre, de noite e por isso ansiava o nascer do dia como um sinal de sobrevivência. Agora isso passou, consigo distrair-me dessa realidade tão precária: leio, escrevo, durmo, ... independentemente da cor do céu. O preto deixou de me assustar. Ainda que o senhor mo tivesse dito inúmeras vezes, só agora acredito, com carácter de efectividade, que está tudo dentro da nossa cabeça! Exactamente onde eu tinha o cancro, ao menos o primário porque depois, como se viu, espalhou-se pelo corpo todo!

 

Gostava de lhe poder dizer, seria a melhor forma de lhe agradecer, como descobri, inventei ou consegui, a cura para esta terrível e terminal doença, que me atingiu a mim e a tantos outros numa fase tão precoce da nossa vida. Para a dor, é sempre cedo, mas não sei como é que aconteceu! Aliás, acho até que foi só isso: aconteceu. Nem todo o efeito tem uma causa, há coisas que aparecem do nada, mesmo não acreditando em milagres, acredito nisto porque já vi e acontece muito mais vezes do que pensamos. Quando estamos despertos ou atentos, acontece tudo muito mais e a sensação com que ficamos ao ver isso acontecer, relega-nos para segundo plano a causa disso.

 

Sabe que nunca fui de dizer coisas que não sinto e o que lhe agradeço é, não o ter-me curado porque me curei sozinho, mas o facto de me ter acompanhado na doença. Repare que não é ingratidão, é justiça! Acho que fez o papel mais difícil porque é quando estamos débeis que mais precisamos dos outros e não quando estamos saudáveis.

 

Mesmo que ainda seja cedo para me sentir um ser humano, sinto-me a ser humano e isso é um grande avanço porque muitas vezes o que me sentia era um verme. Um verme que se revoltava com a sua natureza ou condição mas que não fazia nada para a  mudar porque achava que um castigo me tinha caído em cima, sido rogada uma praga ou o diabo que o valha!

 

É preciso libertarmo-nos da crença infundada para podermos ser razoáveis no acreditar.

 

E isto, que parece difícil, é tão fácil como o andar! Hoje mesmo dupliquei em caminhada a distância percorrida ontem. Ajuda agir sem pensar. Não, quero dizer, ajuda no que estamos a fazer não pensar no sentido de ficarmos obstinados com a realização disso, deixar as coisas fluírem, deslizarem, para o bem e para o mal!

 

Ver, em pequenos passos, grandes vitórias porque a sensação boa que nos fica disso faz-nos encarar mais facilmente o que temos ainda por ou para fazer. Que na realidade não é nada porque somos nós que nos impomos as nossas metas, nós é que decidimos o que queremos e como o fazer, de forma que essa ideia da frustração parece-me hoje obsoleta: quando não atingimos um objectivo é porque o estabelecemos mal. Houve um erro qualquer de planeamento, não era para nós!

 

E, perdoe-me o senhor, se me sinto ridículo a escrever isto, mas não posso deixar de me lembrar do nosso nobre poeta e dizer: ridículo é quem nunca passou por isto, mais, passou e não teve consciência disso!

 

Abreviando, o que não é de todo uma qualidade minha e o senhor bem o sabe, escrevo-lhe hoje para dizer que me sinto curado. Não porque me tenham dado alta, mas porque deixou de fazer sentido em mim pensar em realidades inexistentes! E interiorizei que o tempo, essa grandeza impalpável em termos afectivos é, não direi escassa, mas soberanamente insubstituível para que a gastemos em vão.

 

Desculpe, meu caro Comendador, se fiz neste meu acto, considerações abusivas a respeito de realidades e sentimentos que lhe são caros, mas conhece-me o suficiente para perceber que nada do que eu digo tem como fim desassossegá-lo, mas tão só o, de forma assumidamente egoísta, tranquilizar-me! Bem-haja!

 

Um abraço

 

deste seu, para sempre, tanto quanto a falsa eternidade mo permite,

 

amigo

 

José Francisco

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 22:00
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