GLOSSÁRIO TRANSMONTANO
Registo, significado padrão e referência em uso
dos falares diversos dos povos da VEIGA do TÂMEGA e
zonas limítrofes da TERRA-QUENTE e do BARROSO
P
pachouchadas - histórias e ditos
pães - searas de centeio “Em Março, tanto durmo como faço, iguala a noite com o dia e os pães com o sargaço”
padecer - sofrer
padecimento - sofrimento
palhas-alhas - palha do alho para curar a sarna
palmeiro - do tamanho de um palmo “caçou um cesto de trutas, todas palmeiras”
palóio - espécie de fumeiro tradicional feito de tripa grossa
Pães no Planalto de Travancas
palouço - tolo, parvo
pamonha - indivíduo pouco expedito
panasca - homosexual, paneleiro
paranheira - pedra da porta do forno
parecenças – semelhanças
parede - muro de pedra solta “as crias esbarrondaram as paredes do lameiro”
A poula pode ser pequena ou no meio do monte, mas tem de ficar entre paredes.
pariu a galega! - faz um frio de rachar; diz-se também quando se junta muita gente “O que há? Parece que pariu a galega!”
parolice – coisa própria de parolo, “essa roupa é uma parolice”
parolo – rústico, grosseiro
parpalhaça - codorniz (coturnix)
parrana - baixote
parreco - pato
Parrecos do Tâmega (do tempo em que os havia)
parrogueira - local da cozinha onde se guarda a cinza
parva - pequena refeição no intervalo dos trabalhos
passar ao estreito - engolir, comer “trazia uma larica tão grande, que depressa passou tudo ao estreito”
passar pelas brasas - dormitar “deitei-me no escano, depois de merendar, e passei um cibo pelas brasas”
patamal - patamar, soleira
patorra - cotovia
pau de virar tripas - magricela, franzino
pavia – pêssego duro no tempo das vindimas
peçonha - veneno
pede - merendas (despede-merendas) - flor roxa sem folhas (primavera e outono), (pulsatilla vulgaris) (os trabalhadores agrícolas tinham direito a merenda só na primavera e verão)
pelar – escaldar para retirar pelos ou penas
peles (péis) - emigrantes passados clandestinamente “a salto”
peliqueiro - careto do entrudo, ambulante que compra e vende peles de coelho e outras, passador de emigrantes clandestinos
penca - couve
pensar - alimentar os animais
permisso - consentimento, licença
pernada - tronco lateral de uma árvore “tive que deitar abaixo uma pernada do castanheiro, que me estorvava a passagem”
perpianho - pedra de granito aparelhado
Um molho de lenha pitada
perseguida - órgão genital feminino
pestina (peste) - cheirete, mau cheiro
peto (ê) - mealheiro, caixa das esmolas
pia (dos recos) - recipiente de pedra ou madeira de onde os porcos comem
píbeda - pevide
piça - órgão genital masculino, picha, pénis, (do latim spissa ?)
pica-peixe - guarda rios, (alcedo attis)
picheleiro - canalizador
picho - carrapito no cabelo
pichorra - púcaro de barro com bico
pico - espécie de martelo de ferro, afiado nas duas pontas, com que se picam as pedras das mós
pieira (peeira) - doença dos pés nos animais “as ovelhas, o mais delas anda a mancar à conta da pieira”
pingo - unto, gordura do porco para cozinhar
pincha-carneira - salto com agilidade, jogo infantil
pinchar - dar saltos, dar pinchos
pinheira – espécie de cogumelo, sancha (lactarius)
piorno - tronco grosso da giesta
pirraça - birra “está a fazer pirraça, que não gosta da comida”
pírtigo - peça móvel, de madeira de carvalho, do malho que se usa nas malhadas de centeio
pisadura - hematoma, nódoa negra
pisão - engenho mecânico, movido a água, onde se amaciava e tornava resistente o tecido, mediante batimentos constantes e aquecimento a água
pisoar (apisoar)- bater no pisão “mandei apisoar uns quantos panos de burel”
Pitas carecas
pita - galinha
pitalho - bocado que os pássaros levam aos filhos, cibo
pitar - partir lenha, partir pedaços miúdos de pão
piteiro - negociante de galinhas, guarda redes pouco seguro, frangueiro
pitilho - cigarro “tens um pitilho que me dês?”
pitos - frangos “Quem olha a milho não bota pitos”
pito verdeal - pica-pau verde (picus viridis)
poalha - poeira fina
pobre de quem nas ouve, quem nas diz fica aliviado! - alusão a pessoa mentirosa ou caliniadora
pocho (ô) - cão
poio - monte de fezes, cagalhão, cagada de pássaro
poldras (pondras) - pedras alinhadas sobre as quais se atravessa o rio
pondoar - floração do centeio, “os pães já começam a pondoar”
porretas(porrelas)-despido “andava no rio em porretas”
por-se nas putas - fugir, desandar, desaparecer
Dois portelos, um para pessoas outro para animais e viaturas rurais
portelo (ê)- entrada de um campo, cancela
por via disso - por causa disso “por via disso é que eu fiquei assim”
porvorinho - remoinho
pôr tento - dar atenção
porto - lugar fundo do rio que se passa a pulo
pote - utensílio de cozinha, em ferro, com três pés, tampa e asa redonda “vê se já fervem as batatas no pote”
poula - terreno em pousio
pousada - conjunto de cinco molhos de centeio
povo - povoação, aldeia “atravessou o povo todo com ela pela mão”
praino - planície
prática - homília do padre na missa
pregar uma partida - ter uma atitude ou comportamento inesperado
prenhada - grávida
prenóstica - presunçosa
Pucaros de barro preto - Vilar de Nantes
presa - açude, represa
proa - vaidade
prosmeirice - impostorice
prosmeiro - impostor amável “tu não vás na conversa dele, que é um prosmeiro”
puado - com puas, com picos
púcaro – espécie de copo com asa, em barro preto de Vilar
puche - restos de palha moída que a máquina limpadora separa do grão
pular - saltar “os lobos não se astrevem a pular a cerca”
Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html
Foto de Arquivo - Montalegre - 2003
E nas voltas que prometemos dar pela região, hoje, é obrigatório passar por Montalegre, pois por lá está a decorrer uma das feiras do fumeiro mais importantes do país, senão a mais importante, pelo menos, com o gosto barrosão de qualidade que já conhecemos, é única.
As imagens não são da feira, pois infelizmente já há alguns anos que não vou por lá (pela feira) e tenho pena, mas como é uma feira que já tem tradição, a minha visita e o registo fotográfico fica adiado para o próximo ano, mas recomendo uma visita, pois sei que a feira de ano para ano tem vindo a melhorar e se antes já era uma boa feira, agora está pela certa muito melhor.
Quanto às fotos, a primeira é uma vista geral de Montalegre com alguma neve, mas não se iluda com esta, pois a neve não é de hoje, a foto já tem uns anitos. A segunda foto é de Vilarinho de Negrões, no Concelho de Montalegre.
Vilarinho de Negrões - Montalegre - 2012
Se é por aqui da região e ler estas palavras ainda hoje, ainda está a tempo de dar lá um pulo, pois a feira só encerra hoje, Domingo 29. Para quem não pode lá ir, deixo o vídeo do hino oficial da feira. Ah pois é, a rapaziada de Montalegre não faz a coisa por menos e quando trata a promover a terrinha e os seus produtos faz das tripas tradição e do fumeiro uma canção e festa.
POR FAVOR, PARA VER E OUVIR O VÍDEO, DESLIGUE O RÁDIO NA BARRA LATERAL DESTE BLOG.
O senhor fugiu com o olhar como quem evita um mal maior, incrédulo e com sentimento de culpa por ter visto (…), O frio lembrou-lhe que estava especado e era tempo de andar como se houvesse necessidade de movimento, os passos saíram-lhe emotivos e quase gagos de surpresa, instintivamente olhou de novo e confirmou, era mesmo.
Lembrou o primeiro postulado, é a vida, e sentiu o embargo sem saliva misturado de angústia e vazio, engoliu o nada e tentou o retrocesso do tempo…
O casal alheado dentro do carro prolongava o beijo pelo entardecer como quem se prova e degusta num manjar de direitos adquiridos por atração.
Os miúdos riram encolhendo os ombros com caretas matreiras de quem adquiriu a ocasião de ver o imprevisto, o mais velho fez o gesto obsceno que arrancou gargalhadas abafadas na correria.
Um lusco-fusco de perícia protegia agora o casal que usando as liberdades de expressão corporal continuava numa troca de afagos, sem pressa, como quem ativa a mais ínfima sensação e sensibilidade adormecida num despertar em valsa lenta de acordes repetidos.
A mulher despachada para ir fazer o jantar acenou com a cabeça, num parece impossível até num sitio de passagem, bem quis ver quem eram mas um crepúsculo discreto delineava perfis de sombras em movimentos de audaciosa arte para ela de poucas vergonhas .
Fizeram crescer água na boca às sonhadoras que passaram, capturando para os seus desejos recônditos o cenário idílico com sabor a tudo sem precisar de mais, oh que sorte sorriram de inveja pela sobremesa de disputada receita.
Nem o miar de gatos em canções de cio, nem o fenecer da tarde em embrião da noite perturbou o ritmo da dança dos corpos num encontro anunciado de harmonia e reciprocidade, cobertos um pelo outro ,como muralhas na defensiva conquistaram o poder de comunicar a linguagem do entendimento cálido ,sinergia do entusiasmo secreto de vitalidade que faz criar e mudar mundos e fundos.
Um vulto com olhares automáticos para trás, numa marcha insegura de perplexidade percorria as ruas num andar por andar.
Surgia indelével a estrela cupido dos necessitados de amor correspondido quando menos se espera…
E a tarde corria para os braços da noite afundando a cidade num fim de dia igual e diferente para o homem, que não queria acreditar que tinha perdido…
Isabel Seixas
(In Espólio)
Cemitérios vivos …
Olá Pai
Agora as saudades são mesmo imagens esculpidas em neblina
As tristezas são frias cobertas de um mutismo impotente, imagina!
As certezas não deviam ser serenas, talvez seguras e ou firmes…
E a cidade observa num horizonte de voltas em rotundas e crises
As pessoas fogem apressadas do tempo, faz de verdade tanto frio
Que todas as vontades têm direção e caminham com ou sem brio
Sentidos aproximam gerações afastadas por serem sempre melhores
Finalmente e envergonhadas, percebem um orgulho pálido com livores
Até os paços do concelho esmorecem da sua insegura e ténue altivez
Dando razão à Romana que se congrega com outras pontes em sensatez
Há noites de tão sozinhas se despem pelos jardins e sem se esconder nas ruas
Vagueiam ébrias sem perigo de má fama ou mau olhado de quem as veja posar nuas
Esperam-se amanhãs nem sempre em nascimentos e casamentos bem sucedidos
Mas damos as boas horas na forma protocolar habitual a pensar que estamos vivos
Deixamos o valor da paisagem bela de cinzenta às fugas sem apelação
Bancos de jardim que descansam agora pousados no chão da solidão
E do âmago deste inverno ansiamos por joviais e amenas primaveras
Onde possamos estar todos juntos as vidas com as memórias eternas.
Isabel Seixas
A Árvore que Há em Nós
Acordei no meio deste trilho descalço sobre uma terra húmida e escura a contrastar com um céu azul, limpo e sem nuvens que se sobrepunha às árvores que o ladeavam. A cada passo, a terra mantinha-se escura e húmida contrastando com o céu, ora azul ora a principiar o que parecia ser o início de uma nuvem, provocando-me uma sensação de conforto misturado com uma inquietação insegura.
Observei ao pormenor o que me rodeava e confirmei que os aglomerados de árvores reinavam naquele vale, cada árvore era ela própria; umas de tronco forte, altas, com as ramificações repletas de folhas vivas e macias com a palete de cores a passear-se desde o verde musgo ao castanho escuro; outras de troncos finos e frágeis, quase nuas com ramificações fracas e carentes de folhas, ou mesmo sem uma única folha. Continuei a caminhar, a terra permanecia húmida, escura e fértil, a cada passo o céu mantinha-se na alternância entre os espaços limpos e os nublados, num degradê desde o branco até ao cinzento. A terra começava a chamar por mim, como se estivéssemos ligados por um elo, caminhei até parar num espaço vazio como se me estivesse destinado, agachei-me e sentia terna, delicada e aveludada, o seu cheiro entrou em mim com uma sensação de conforto, a cada minuto que passava estávamos mais ligados.
Havia em mim uma sensação de dever para com ela, mas não conseguia perceber o quê. Ainda que não tivesse uma bússola, algo me encaminhou até aquele lugar, primeiro pelo trilho principal, depois por uma ramificação que esperava por mim. À medida que o tempo passava naquele lugar mágico, percebia que aquele preciso metro quadrado de terra húmida, escura e fértil me estava destinado e, nesse preciso momento em que tudo se tornou mais claro, senti nas minhas mãos uma semente. Com as minhas próprias mãos, abri um buraco e enterrei-a cuidadosamente no meu chão. Depois de garantir que ficou bem plantada, vi-a crescer, primeiro uns ramos finos culminando numa árvore corpulenta e vigorosa. A cada momento do seu crescimento, o meu corpo começava a ficar translúcido, sem perder a sua forma, apenas a vivacidade da sua cor. A árvore continuava a crescer e eu continuava a perder a minha opacidade, cada vez mais sincronizados enquanto um ganhava forma o outro desvanecia, até ao momento em que a ligação se torna mais forte e, lentamente, o meu corpo foi sugado pela árvore, onde, num momento natural, os dois se tornam num só corpo.
Naquele momento, fui humano e fui uma árvore. Observei em detalhe o meu novo estado, olhei para o tronco que de uma pequena raiz se tornou forte e robusto, para os meus ramos principais que se bifurcaram em pequenas ramificações, umas preenchidas de folhas com cores vivas, outras vazias à espera que se abrisse um orifício que possibilitasse o desabrochar de folhas, flores...de vida. A cada auscultação desta carapaça vi uma passagem da minha vida. Nos ramos cobertos de folhas cheias de vivacidade, como um trailer de um filme, vivi na lembrança passagens alegres, momentos felizes, rodeado da família, amigos e todos aqueles com quem vivenciei passagens venturosas. Olhei para cima e percebi que, onde havia mais folhas, o céu era mais limpo, mais azul, mais cristalino, mais quente, não havendo espaço para as nuvens cinzentas. O combustível que alimentava o meu novo corpo, que fazia crescer as folhas vivas retirando as nuvens cinzentas que cobre o meu céu era tudo aquilo que caminhou, até então, na minha vida ao meu lado. Nesse momento, em que tudo se tornou claro, algo mudou na minha nova fisionomia, houve uma agitação interna, queria perceber o que se passava, mas não podia chamar ninguém, não tinha voz, não tinha como o fazer, não sabia se o queria fazer. Após uns minutos de alguma turbulência, a serenidade voltou e a minha também...só que agora estava de novo fora da árvore.
Era de novo só humano, na forma, porque era também árvore. Do mesmo modo que algo me encaminhara até aquele local, fui de novo direcionado pelo mesmo caminho, mas em sentido inverso, voltando ao trilho principal. Passo a passo reparei nas muitas árvores repletas de folhas, troncos fortes cobertas por um céu limpo e quente transmitindo uma sensação de conforto. Queria ficar ali, mas tinha que caminhar, ainda faltava muito para o meu destino final. As árvores nuas estão cobertas de nuvens cinzentas pautando-se por uma sensação de desconforto.
Continuei a caminhar até chegar ao ponto inicial, vi as marcas dos meus pés bem vincada no início desta incursão. Coloquei os pés sobre elas, olhei para o céu e vi-o repartido entre o limpo azul celeste e o cinzento. Fechei os olhos e sorri ao mesmo tempo que abria os ramos para os frondescer.
Fotografia - António Tedim - http://www.antoniotedim.blogspot.com
Texto - Rui Santos - http://www.cognitare.blogspot.com
O Homem Sem Memória
Texto de João Madureira
Blog terçOLHO
Ficção
86 – Como dissemos anteriormente, nas quentes noites de estio, o filho do guarda Ferreira, se não tivesse algum bailarico a que ir, estacionava em casa do Fernando e só de lá saía de madrugada. Estimava muito o seu amigo Fernando, mas admirava ainda mais a verve culta do seu ilustrado pai. Então se tivesse já a sua dose de vinho e sandes de vitela, o senhor Carvalho tornava-se um mestre à moda antiga.
Se ouvia uma música dos Beatles, por muito medíocre que fosse, adivinhava-lhe a melodia e trauteava-a com poderes adivinhatórios. Ou seja, depois do primeiro ou segundo acordes, era capaz de alinhar a música como se ela ainda não tivesse sido escrita pelos quatro rapazes de Liverpool. Punha-a logo sobre uma pauta imaginária e solfejava-a como se ele fosse John Lennon ou Paul McCartney em plena composição.
De pé, fazendo tremer a voz e a papada, o senhor Carvalho conduzia a orquestra imaginária com a sua batuta mágica, agitando as grossas mãos, ora lentamente, ora em frenesim, acompanhando permanentemente o compasso da melodia. E chorava.
Quando combinava a pinga e a música, o senhor Carvalho permanecia sempre emocionado. Os seus olhos ficavam rasos de água. E gaguejava e interrompia os seus gestos para afirmar que a música tem o poder de amansar os homens, de ir ao mais profundo de cada indivíduo e o colocar em paz com o mundo e com o seu semelhante. “A música tem o poder divino. A crer em Deus, imagino-o maestro da humanidade, com uma batuta feita de um raio de sol, chefiando uma orquestra de músicos sábios acompanhada por um coro de anjos entoando uma cantata universal, onde as notas musicais são como estrelas candentes. Eu acredito no poder da música. A música inebria os sentidos, exalta o amor, celebra a paz, louva a beleza, proclama a liberdade, diviniza o ser humano, aclama o progresso e apregoa o socialismo.”
Os filhos admiravam-no. Era raro encontrar um homem mediano com a sensibilidade do senhor Carvalho. No entanto, quando estava com um grão na asa, emocionava-se e deixava-se ir das palavras.
Ao contrário da quase totalidade dos bebedores, que têm mau beber, o pai do Fernando tinha bom vinho. Com um copo a mais, transformava-se num poço de melifluidade e cultura. Mas tinha o inconveniente de não conseguir calar o que tinha de calar: a sua paixão política.
Era o senhor Carvalho um republicano laico e socialista, um terno seguidor de Antero e de António Sérgio, um defensor da autogestão e do cooperativismo. Um combatente pela democracia e pela liberdade.
Com um copo de vinho a mais, e uma que outra sandes de vitela assada, o senhor Carvalho ia-se da língua e trazia sempre à liça o socialismo, que era o “nosso futuro”, e o seu “amor à liberdade”, que era a “nossa batalha” mais próxima. Dava muitos vivas à democracia e outros tantos morras a Salazar e ao fascismo. O problema é que no rés-do-chão vivia um engraxador que tinha a fama, e o proveito, de ser bufo da Pide. E com a Pide não era bom brincar.
Mas o senhor Carvalho, mesmo avisado pelos filhos, e pela santa da sua mulher, deixava-se entusiasmar e lá se ia das palavras. Os filhos, para disfarçarem o discurso, aumentavam ao som do aparelhómetro musical e tentavam desviá-lo da obstinação.
Uma das estratégias era arredá-lo da música e puxá-lo para a literatura. O homem gostava de poesia e recitava-a com muito esmero e ilustração. Por mor da azáfama, às vezes chegava a salivar em demasia, aspergindo perdigotos, o que fazia com que os que assistiam à récita e fossem conhecedores do seu comportamento, se colocassem a uma distância estratégica.
O senhor Carvalho recitava Fernando Pessoa, José Régio, Camões, Miguel Torga e outros que tais, como se fosse o próprio João Villaret. E tremendo a papada e elevando a voz, para consolo de todos, dizia gemendo de paixão: “Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: "vem por aqui!” (…) Não, não vou por aí! Só vou por onde / Me levam meus próprios passos… (…) Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, / E vós amais o que é fácil! / Eu amo o Longe e a Miragem, / Amo os abismos, as torrentes, os desertos... (…) Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / Sei que não vou por aí! E a assistência, que era pouca, mas entusiástica, gritava e chorava de emoção.
Era frequente, a meio do recital, pedir à mulher que lhe trouxesse um copo de vinho. Ela, que amava e respeitava o seu marido, para quem os desejos eram ordens, trazia-lhe sempre um copo de tinto servido no mais pequeno dos copos que havia no mercado. E dizia-lhe com carinho: “Não o bebas todo de uma só vez que te podes engasgar.” Ele sorria e lá puxava de outro poema. Por vezes facilitava e pegava num ou noutro texto de Vitorino Nemésio e recitava-o. Evitava fazê-lo na voz anasalada, modorrenta e convencida do poeta açoriano. Dava-lhe ou um registo próprio ou, então, tentava encaixá-lo no estilo de João Villaret.
Mas a verdade tem que ser dita, por muito que gostemos de Vitorino Nemésio, o seu registo poético e declamatório foi sempre muito soturno, pouco entusiasmante. Quase tão incompleto como o seu toque de guitarra. O senhor Carvalho, porque era um homem culto e respeitador, prestava-lhe homenagem, mas a plateia não se conseguia entusiasmar. Ali todos eram fãs do ardente e telúrico declamar do João Villaret.
Os recitais de poesia tendiam a ser curtos, muito por obra e graça da sua estimada esposa, pois o senhor Carvalho, quando se entusiasmava, sobretudo aos fins de semana, tendia a beber um copo por cada poema declamado e, lá para o meio da récita, já as palavras tendiam a sair mais entarameladas. Era nesta altura que se socorria do tal Nemésio, que a todos provocava sono e arrelias. Mas o senhor Carvalho, porque era um homem culto, repetimos, tendia a recitá-lo como se o linguajar do poeta insular se adequasse mais ao registo notívago e vagabundo das tabernas.
Depois da música, e logo após o recital, de novo o senhor Carvalho teimava em dissertar sobre a música e daí a nada estava outra vez aos gritos de “viva a república, viva a liberdade, abaixo o fascismo”. O José quase que sentia no rés do chão o cão bufo a rosnar de raiva e a espumar de ódio.
De novo os filhos e a esposa do senhor Carvalho ficavam em pânico e, por isso mesmo, tentavam levá-lo à razão. O Fernando, que era o estratega da família, puxava então da guitarra e começava a tocar enquanto a mãe trazia mais um copo de vinho dos pequeninos, misturado com muita água. O senhor Carvalho, com o entusiasmo e com a pouca luz da sala, nem dava pela marosca. Ou se dava disfarçava muito bem, como é apanágio dos rapazes bons e dos homens sábios.
87 - Era certo e sabido que se o Fernando começasse a dedilhar o fado da Samaritana, o pai, no seu curioso sotaque minhoto, começava a cantar. E cantava tão bem, ou tão mal, como o João Braga, e isso pela singela razão de que ...
(Continua)
Há dias prometi quem nem só Chaves iria passar por aqui, pois a região também teria aqui lugar e como as promessas aqui no blog são para cumprir, hoje vamos dar uma voltinha por aí, mais propriamente por Montalegre, a capital do barroso por excelência.
Graças à minha costela barrosã, já conheço Montalegre desde que nasci e tenho de lá muitas imagens de marca, mas há duas que desde sempre me fascinam. Uma, como não poderia deixar de ser, é a Serra do Larouco e então se está coberta de neve como no caso da imagem que vos deixo, o fascínio aumenta e, sempre que os ares de Barroso me anunciam a neve na serra, não resisto a ir por lá, nem que apenas seja para me ficar pelas suas faldas, o passeio vale sempre a pena.
A outra imagem de marca é o Castelo que, para além de anunciar Montalegre à distância, posso ainda acrescentar, e sem qualquer pudor, que é o castelo mais bonito de Portugal, e penso conhece-los a todos. A sua localização e conjunto de torres fazem dele um exemplar único digno de ser apreciado. Nem que seja só pelo castelo, já vale a pena ir a Montalegre, mas por lá há muito mais.
Fiquei sem internet e os caros leitores sem crónicas.
No final, um dos motivos deveu-se a uma questão de deslocalização da empresa a quem pago a serventia, que apesar do motivo indicado, continua a pagar impostos à Fazenda Nacional e manteve alguns serviços, nomeadamente o número telefónico de atendimento ao cliente, que marcado, surge uma gravação, que repete:
- “ Chegou à linha de atendimento ao cliente de (…), para problemas com a facturação, marque um, para novos serviços, marque dois (…), para falar com um assistente, marque sete, neste caso a chamanda custar-lhe-á …”
Outro dos motivos seria a relação tormentosa que essa empresa mantém com um parceiro contratual - desconheço se legítima, de facto ou puro concubinato… e bem estava eu para me preocupar pela vida privada de pessoas ou outras entidades…-, a quem era atribuída grande parte da responsabilidade da avaria.
De tal modo, que cheguei a sonhar ter contratado umas calças a um alfaiate, e quando as ia levantar, o prestimoso costureiro respondia:
- Caro amigo e cliente, a parte correspondente à perna esquerda está concluída, a outra é obra doutro colega, e não sei quando a terminará …!
Enfim, como o meu estado estivesse à beira de uma síncope fulminante, lá apareceu uma alma caridosa, que condoída do meu triste penar, me resolveu o problema em vinte e quatro horas.
Daqui, a minha gratidão eterna, à benemérita!
Mas, não serei eu só a ter problemas no quotidiano, embora tal não me sirva de refrigério.
Aliás a minha desventura com a internet não se compara por forma alguma às dificuldades que grassam indistintamente por todo o lado.
Fotografia de Màrio Esteves
Um alto dignitário de um estado europeu fez uma visita a um país africano, onde parece existir uma grande colónia de compatriotas, a maior parte professores e jovens desempregados, aliciados a emigrarem por vários representantes governamentais dessa mesma nação.
Aguardava-o no aeroporto, o mais elevado plenipotenciário, que usava as vestes tradicionais da região, rodeado pelos ministros e altas autoridades, estas vestidas mais formalmente.
Logo que desceu da aeronave, que, segundo os jornalistas foi obrigada a fazer várias escalas noutros aeroportos, a fim de serem reparadas pequenas avarias, o ilustre visitante, vendo as vestimentas do seu homónimo, de chofre, espetou-lhe:
- Não me diga que também lhe sucede. O que ganha não chega para pagar as despesas das funções que desempenha?
Um ministro desse país, no início duma reunião do Conselho Europeu, distribuiu um embrulhinho contendo pastéis de nata, a todos os seus confrades e delegações, acompanhado dum bilhetinho que dizia:
- Saborosos, não?
Agradeço os vossos bons ofícios, no sentido de encontrarem entre o vosso dinâmico sector empresarial, interessados em comercializarem em grande dimensão (tipo McDonald`s) este excelente produto da minha terra.
Com os melhores cumprimentos,
O ministro (…)
No final dessas reuniões, refiro-me ao Conselho Europeu, ignoro se a vossa disposição será a mesma que a minha ao ver pela televisão aquelas imagens solenes que nos são transmitidas. O descer dos flamantes automóveis, os motoristas a abrir as portas, as caras sorridentes e taciturnas, os assessores carregados de pastas e dossiers, todos apressados como se fossem para o trabalho.
Depois, o ambiente distendido no interior da sala de reuniões, os lugares devidamente assinalados, as inevitáveis garrafas de água mineral, sorrisos cúmplices entre ministros e secretários, saudações efusivas ou discretas, ajuntamentos vários, e cerram-se as portas. Reabrem-se e escutam-se quase sempre as declarações que se repetem de anteriores concílios, sempre a bem da unidade europeia e dos povos felizes que somos em termos aderido ao Tratado Europeu e a cornucópia de vantagens que daí vem, apesar de algumas pequenas questões que seguramente serão superadas no futuro e que não põem em causa a unidade europeia face algumas políticas pouco prudentes e à hostilidade de alguns mercados.
A fim de dar uma maior autenticidade à coisa, não seria melhor que essas reuniões fossem um pouco como a Oktoberfest ou a Tomada da Bastilha, amenizadas pela presença e a música do Quim Barreiros?
Numa cidade do interior norte do País, no seu centro histórico e numa das artérias com algum movimento, às quatro da manhã, um laborioso cidadão esmera-se em bater com um paralelo de granito no vidro de uma montra.
Apesar do barulho, tenta uma e outra vez, aguardando um intervalo de cerca de quinze minutos entre as pancadas.
Em vão, o vidro é mais resistente que a sua obstinada persistência.
Desanimado, abandona a pedra no local e afasta-se.
Mais um no desemprego…
Toneladas, milhares e um ror de gente …
Nessa mesma cidade, anuncia-se uma feira, à semelhança de outras em vilas e cidades próximas.
Passados uns dias, a feira é cancelada.
As toneladas e os milhares de produtos típicos a comerciar na feira, já foram vendidos antes da abertura!
No domingo passado, depois de almoço, fomos a pé, eu e o meu irmão, a Vila Verde da Raia, por um dos caminhos da Veiga e pelas margens do rio Tâmega. Depois regressamos a Chaves, do mesmo modo, agora pela estrada de Vila Verde a Outeiro Seco.
As extracções de areia deram um aspecto singular ao rio, havendo sítios de uma rara beleza e paisagem idílica.
Pena que os empreiteiros e outros … estejam a desfazer-se do entulho em vários locais do trajecto.
Doloroso foi regressar, também, o meu irmão a queixar-se do calcanhar - mazela antiga -, e eu duma bolha na planta do pé, a partir da Senhora da Azinheira.
Por pouco, não parecíamos dois estropiados, um amparado no outro, a caminho de Santiago.
Mário Esteves
Há dois dias atrás alguém me alertava para as extensas manchas de óleo que flutuavam sobre as águas do Tâmega junto à Ponte Romana. Sei que tanto a Câmara Municipal como a Brigada do Ambiente da GNR têm vindo a notificar e multar a empresa responsável por esses derrames para o rio, aliás um problema já bem antigo que eu me lembro de estar referenciado pelo menos de há 20 anos para cá. Sei que é muito fácil atirar com umas pedradas a quem tinha obrigação de resolver o problema, mas às vezes também sei como é que a lei funciona nestes casos, principalmente quando se trata de empresas que tem um certo poder económico e com os tribunais atafulhados de casos bem mais graves, como um que ontem vinha no JN a respeito de um roubo de feijão verde numa grande superfície, no valor de 77 cêntimos. Claro que com roubos e crimes tão graves como este, depois não há tempo para tratar dos crimes ambientais e, como nestes os danos não são contabilizados no bolso de nenhuma grande superfície ou grande empresa e apenas danificam o ambiente que sendo de todos, não é de ninguém, o ambiente que se lixe, para além do crime compensar.
Mas voltemos às manchas de óleo e à empresa que as produz, que é uma empresa flaviense que até presta serviços à população e aos flavienses, claro que devidamente pagos e como tal, deveria ser a própria empresa a ter a preocupação de resolver o problema e não poluir aquilo que é de todos – o Rio Tâmega. Além de ser sua obrigação, ficava-lhe bem e demonstraria que não está apenas preocupada em sacar dinheiro aos flavienses pelos serviços que lhes presta, mas que também se preocupa com o ambiente, mas não, assim não acontece, pois para isso a sua preocupação deveria ir para além do negócio. Mas como a resolução dos problemas do ambiente e da sociedade também passam pela cultura e formação de todos, principalmente dos mais poderosos, não podemos exigir mais.
As fotografias não são do óleo (essas não me foi possível resgistá-las) mas dos lixos que se vão deixando ao longo das margens do rio, principalmente a montante da ponte de S.Roque na zonas dos lagos das antigas extrações de areia, mas sobre isso, a crónica que vem já aí a seguir também dá uma achega.
O A F E C T O
É um sentimento, numa definição simplista, de dicionário, que se traduz em uma inclinação para alguém.
Parece-me muito mais do que isso.
O afecto conjuga-se com amizade, simpatia., amor, quiçá, paixão.
É inadiável fazer a pedagogia do afecto. Para que a sensibilidade nas relações humanas lavre nos peitos e para que as pessoas sofridas pela separação inevitável pasmem de saudade.
Coloque o afecto em todas coisas mesmo nas impossíveis e até na confecção do doce. predilecto para ele comemorar, como diz a canção brasileira.
E não seja mesquinho a partilhar o afecto.
Lembre-se que no amor não há austeridade.
Simplesmente porque ou há ou não há amor.
Ele, quando existe, dá-se, prodigaliza-se, não se guarda.
Se for menos que isso não presta.
O afecto está no sorriso, nas mãos, nas palavras, na boca, na ternura que desagua serena no carinho.
Como o verde dos campos, o azul das águas transparentes de todos os mares, como o viço das camélias no dealbar da primavera,
Neste mundo que dói,
O AFECTO É LENITIVO, O AFECTO É URGENTE.
António Roque
O crime não pode compensar
O meu amigo R., sub-repticiamente, e mesmo antes que eu consiga começar a minha inevitável preleção, tenta estabelecer uma relação, que ele diz dialética (pudera!), entre o jazz e o marxismo. Eu lembro-lhe das tentativas falhadas de comparar o freudismo com o marxismo e da barraca que deu quando o verdadeiro marxismo (o leninismo) foi experimentado em diversos países. Ele põe cara de caso e atira-me com o argumento de que eu não acredito em nada, que contesto tudo, que até ponho o universo em causa. Digo-lhe que, por favor, não exagere. Explico-lhe que sou a modos como um cozinheiro que consegue, ou pelo menos tenta, transformar os sentimentos em sopas e as evidências em palavras. O que, convenhamos, nem sempre é fácil.
Ele, desviando o olhar e a conversa, lembra que cada vez mais Portugal cheira a tragédia. E a aventura e a extravagância. Eu contraponho que é tudo isso o que nos vai arrastar para o tédio. O tédio, e a estagnação, em que se transformou a nossa cidade. O que, inevitavelmente, nos irá arrastar para a extravagância e para o desespero. Isto se não conseguirmos deitar-lhe uma mão a tempo. Ou mesmo as duas, pois a nossa cidade bem necessitada está de uma barrela.
Ele mostra-me uma fotografia antiga e aponta-me o seu rosto no meio do grupo. Não o reconheço. De facto, as crianças nas fotografias são iguais umas às outras. Então vestidas de escuteiros são quase impossíveis de distinguir.
Ali onde o veem, o R. ensinou-me muita coisa. Foi sempre um homem de bastidores. Honra lhe seja feita. Uma vez atirou-me com esta: “Já algum dia viste as traseiras de uma tribuna? Agora que tens a mania de que queres dedicar-te à política, é bom que te vás familiarizando com as traseiras das tribunas antes de seres arrebanhado pelo frenesim do pedestal. É aí onde está o poder. Quem, como eu, já viu a parte de trás de uma tribuna, com olhos de ver, claro está, fica marcado, ou melhor, fica imunizado contra todo o género de bruxedo que, de uma forma ou de outra, é celebrado em tribunas. É muito semelhante com o que se vê das traseiras de um altar de igreja, mas isso são outras histórias.
Está bom de ver que o meu amigo R. é um cético que abandonou o seu partido porque nunca lhe deram a atenção que ele considerava merecer. E olhem que foi um militante ativo e responsável. Claro que era um homem iminentemente de bastidores, mas, de certa forma, um fazedor de estratégias vitoriosas.
No início apenas dedicava ao partido as manhãs de domingo. Enquanto os outros abalavam para a missa, o R. ia para a sede fazer aquilo que tinha de ser feito: telefonar, agrafar documentos, pôr a contabilidade em dia, receber cotas, agrupar colantes, limpar o pó às fotos dos dirigentes, tornar a telefonar, substituir bandeiras, agrafar mais documentos, organizar os dossiês com recortes dos jornais, fazer ainda mais alguns telefonemas, colocar em pastas os documentos agrafados, colocar o dossiês nas respetivas prateleiras e fazer os últimos telefonemas.
Nos seus anos de árdua militância aprendeu a acenar sempre que os outros lhe acenavam, berrar quando os outros berravam, especialmente em desfiles e comícios, rir e bater palmas quando os outros riam e batiam palmas. E a obedecer ao dirigente (ou dirigentes), concordar com o dirigente (ou dirigentes), e nunca discordar do dirigente (ou dirigentes), mesmo que ele (ou eles) estivesse (ou estivessem) longe da vista. Pois podiam estar longe da vista mas estavam sempre perto do coração. Nisso, o seu partido contrariava a sabedoria (e um que outro anexim) popular. Era a regra que confirmava a exceção.
O seu partido anunciava-lhe a felicidade. A felicidade tocada a ritmo de tambor e temperada com a melopeia do hino do partido. Mas acho que foi no tema da felicidade que a sua fé no partido começou a soçobrar. Ele procurava a felicidade no partido, ou com o partido, mas quedava apenas com o sabor da sua substituição. Disseram-lhe que a felicidade também pode ser de substituição. Disseram-lhe ainda mais: que a felicidade substitui a própria felicidade. E que essa é a felicidade sedimentada. Desistiu.
Fomos apanhar ar e tentar agarrar um pouco de sol. Passámos na Eira (antigo Jardim das Freiras) mas lá ninguém se conseguiu sentar porque os bancos estavam a ser utilizados, e vandalizados, por jovens que com os seus skates fazem deles rampas de lançamento ou plataformas de aterragem. O repuxo continuava a lembrar-nos, como se fosse preciso, que os dias estão cada vez mais húmidos. O R. não se conteve: “Quem destruiu o jardim merecia ser julgado em praça pública. Um atentado destes merecia ser severamente punido. Isto não se faz.” Eu tentei temporizar: “Lá chegará a hora dos flavienses porem essa gente no olho da rua.”
Eu ainda sugeri que nos sentássemos nos bancos da rua de Santo António. Ele apenas disse: “Cruz, credo! Trânsito pelas costas? Nem pensar. Os carros são como os touros, devemos lidá-los sempre de frente.”
Fomos até ao Tabolado, sentámo-nos, abrimos as pernas e pusemo-nos a olhar o Tâmega enquanto o sol nos batia em cheio no corpo. Mas, mesmo assim, aquilo era mais luz que calor. Pelos vistos, até o astro rei está em crise.
Ficámos sentados um bom bocado. Por isso nos começámos a sentir também de madeira e com necessidade de comunicar. Todos os que ali estavam eram gente idosa, dependentes das condições atmosféricas. Sobretudo as mulheres, voltaram a ser raparigas tagarelas. E os homens também fizeram questão em lembrar as suas brincadeiras de criança, quando corriam uns atrás dos outros, quando perseguiam os casais de namorados.
Eu olhei para o R. e o R., olhou para mim. De súbito tivemos saudades. Uma saudade imensa da nossa velha cidade, onde aos sábados e domingos os jardins se enchiam de casais de namorados, onde nos conhecíamos uns aos outros, onde o convívio era são e pacífico, onde a vida se sentia nas ruas, nos comércios, nos cafés, nas praças, nos jardins. Actualmente a cidade ao sábado e, especialmente, ao domingo é um deserto de pedra e um cemitério de memórias. Basta olhar para os flavienses mais idosos para repararmos como choram por dentro. Ninguém passeia nos jardins, enquanto a rapaziada grita e pula em trejeitos de ameaça. Os idosos são motivo de chacota, as tradições foram dizimadas, o respeito e a educação deram lugar à indiferença e à provocação.
O coração da nossa cidade morreu. Dizem por aí que os flavienses a tudo se acomodam, que tudo perdoam, que tudo lhes serve. Nós sabemos que não. Por isso acreditamos que urge castigar os responsáveis pelo assassinato do coração da nossa urbe. O crime não pode compensar.
João Madureira
Parte da minha formação e vida laboral passou pela geometria e pelos traços. Desde que a aprendi, sempre fui amante do rigor da geometria. Ver atentados à lógica da geometria e ao seu rigor fazem-me arrepiar, mas pior que isso tudo é a falta de gosto e de profissionalismo e, não há outra justificação, pois desta vez informei-me devidamente perante um dos responsáveis pela obra e a resposta foi tão sem nexo e estúpida que nem a quero reproduzir aqui.
Desta vez a descoberta também não foi do repórter de serviço, pois foi chamado ao local por seguidores deste blog que mesmo não tendo a nóia da geometria como eu tenho se aperceberam, como qualquer um se apercebe, que na reposição daquele pavimento havia qualquer coisa que não batia certo.
Mas este não é caso único, pois outros atentados se estão a cometer pela cidade fora, mas o que mais irrita é que os pavimentos do centro histórico quase que acabaram de ser remodelados e agora com o pretexto da modernização foram todos esventrados e aqui põe-se a questão: Sabendo que as cidades estão sujeitas a constantes modernizações não seria de se terem previsto negativos para futuras infraestruturas? Ainda se ao menos soubessem remendar…
Para já fica uma imagem da noite de hoje, mas já a seguir vem aí mais um repórter de serviço.
até já.
LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO
Registo, significado padrão e referência em uso dos falares diversos dos povos da
VEIGA do TÂMEGA e zonas limítrofes da TERRA-QUENTE e do BARROSO
N
nacho - nariz achatado
naifa - faca, navalha
nainho (anainho) - anão
nanja - não, negação “nanja que o tivesse sabido por mim”
não achar pão cozido - não encontar o que se esperava, sair desiludido “esteve uns tempos para o Brasil, mas não achou por lá pão cozido”
não cagas sem mecha - mesmo para fazer coisas simples é preciso reforço “se não te dou um doce, não me fazias o recado; tu não cagas sem mecha!”
não dar a ida pela vinda - não ter sossego, não descansar
não dá pelo pau nem pela pedra - não dá qualquer resposta, fica absolutamente calado
não disse nem xis nem mis - ficou calado, não deu resposta
não é bom de assoar - não é fácil de levar
não estou crente - nem quero acreditar, desconfio “não estou crente que isso seja como dizes”
não lhe cabia um chícharro no cu - estava todo inchado de contente, estava orgulhoso, vaidoso
não meteu prego nem estopa - manteve-se alheado, não quis entrar na conversa
não tardou um credo - não demorou nada
não te caem os parentes na lama - não é vergonha nenhuma
não tinha outra coisa na ideia! - não sei como me esqueci, não me lembrei
não tinhas tu a culpa! - não querias mais nada! Nem penses nisso!
não vás no engodo! - não te eixes enganar
nassa - aparelho de pesca feito de vime, bebedeira
negacear - provocar
negra - pisadura, hematoma “fiquei com duas negras de roda dos olhos”
negrilho - ôlmo, ulmeiro (ulmus procera)
nem por uma nota de sete c’roas! - não o vendo nem o dou
nem que o digas, não mentes - é verdade, é indesmentível
nevasqueira - neve e vento
A cidade de Chaves mergulhada na névoa
névoa - cataratas dos olhos, nevoeiro
nico - pedacinho, pequena porção
niquento - miudinho, quezilento
níscaro (míscaro) - cogumelo comestível (boletus edulis)
nomeada - alcunha, nome
núbio - nublado “amanheceu bonito, mas ficou núbio de repente”
O
odrada - pancada com o corpo no chão “conforme caíu abaixo da burra, deu uma odrada no chão e ofenderam-se-lhe duas costelas”
odre - vasilha de pele de cabra para vinho ou azeite “Quem troca odre por odre,algum deles está podre”, indivíduo gordo ou inchado “a comer assim, vais-te pôr como um odre”
olvidar - esquecer “o que tu sabes, já a mim há muito que se me olvidou”
o melhor estrume é o que vai agarrado às botas do dono - clara alusão à necessidade de ser o proprietário a tratar das suas próprias terras
onde a mim - ao pé de mim “chega-te aqui onde a mim”
onde quer - em qualquer lugar
A orelheira de porco
orelheira - orelha do porco afumada
ougado - babado de desejo
ougar - apetecer, desejar
ougas - limos do rio, algas “estas maçãs estão verdes como as ougas do rio”
Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html

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