Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Leituras de um olhar

 


 

 

A vida como um jogo

 

Neste jogo da vida,

Como eu jogo, como eu vivo,

E assim de descontraído

O tempo foi e vai escrevendo na pele

A minha idade.

 

Já não penso no tempo ido,

Que saudade,

Nem imagino o tempo que virá,

Qual esperança,

Como as cartas recolhidas

E aquelas que vou jogar

Estou aqui no meio descontraído

A ver o tempo passar



Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves



publicado por Fer.Ribeiro às 03:09
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Terça-feira, 18 de Junho de 2013

Intermitências

 

O Nada

 

“Não és nada”. Foi assim que ela lhe disse adeus para sempre.


Na altura, ele não reagiu. Tudo aceitou e tudo passou sem constar, sem marca, sem estudo. Nas semanas seguintes, andou com o pensamento nas nuvens, sem reagir a “nada”, sem medir consequências de “nada”, sem atribuir importância a “nada”, nem mesmo ao arrependimento.


Um dia, viu-a de novo. Ela estava acompanhada. Ele estava só. Ressoaram as últimas palavras dela. “Não és nada…”. Chorou.

 

“Não és nada”. Nisso pensava todos os dias. Estava a morrer.


Na altura, ele reagiu. Nada aceitou e nada passou sem constar, sem marca, sem estudo. Sem dor. Nas semanas seguintes, andou com o pensamento nas nuvens, analisando e medindo os dias, as semanas, ou com alguma sorte, o ano em que estaria junto delas. Duas décadas de excesso e insensatez caíam-lhe agora em cima. Porque não caíam em cima de outro mais irrefletido?


Madeira, Abril 2006 - Fotografia de Sandra Pereira


Um dia, deixou de lamentar a injustiça. Ressoaram os últimos pensamentos dele. “Não és nada…”. Chorou.

 

“Não és nada”. Sabia que apenas seria feliz com dinheiro. Por isso partiu só.


Na altura, ele não reagiu. Tudo aceitou e tudo passou sem constar, sem marca, sem estudo. Tinha apenas um objectivo: alcançar as suas vontades. Nas semanas seguintes, andou com o pensamento nas nuvens, tinha o que queria para ser feliz, mas continuava incompleto, com os apetites insaciados, sempre desejando e somando algo mais à sua vida.


Um dia, regressou ao seu ponto de partida. Ressoaram os últimos sentimentos dele. “Não és nada…”. Chorou.

 

“Não és nada”. Somente filosofia antiga.


Nesta altura, ele chora por tudo e por “nada”, triste, alegre ou emocionado. A melhor recordação que guarda de alguém que ama assenta sempre no momento mais doloroso dos dois. Pois, já disseram os sábios antigos, não é “quando não sou mais nada que me torno verdadeiramente um homem”?

 

Sandra Pereira


publicado por Fer.Ribeiro às 01:13
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Segunda-feira, 17 de Junho de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (43): objetos políticos em movimento

 

 

Pacheco Pereira tem razão: “Estamos a chegar a uma situação em que tudo é melhor do que isto.” E nós queremos referir-nos tanto ao que se passa no país como ao que se passa no nosso concelho.

 

Sim. Tudo é melhor do que a situação atual.

 

A situação é tão grave que está mesmo posto em causa o próprio sistema democrático. Então na província, o clima que se vive é de cortar à faca. Está instalado nos partidos políticos, e na sociedade em geral, o medo do confronto de ideias, do debate, da discussão livre e séria.

 

Será que todos somos bons? Os que gerem mal e os que gerem bem, os que intimidam e as vítimas da intimidação, os que falam e os que calam, os que mentem e os que dizem a verdade, os que perseguem e os perseguidos? Será?

 

Nestes tempos de triunfo da nulidade e do incremento da arbitrariedade, Ruy Barbosa está mais atual do que nunca. Foi ele que escreveu uma frase tremenda em tudo, até na sua atualidade: “Um homem chega a ter vergonha de ser honesto.”

 

Pregar a honestidade, comportar-se com um mínimo de dignidade, apelar à alternância, parece ser uma atitude quase insultuosa. E todos os que se indignam com este estado de coisas acabam por passar por estúpidos, ou por radicais.

 

Mas tem de existir lugar para a decência, sobretudo na política e, especialmente, na gestão autárquica.

 

Os partidos políticos tradicionais, sobretudo os que se alternam no poder, capturaram o sistema político democrático. A nível nacional, ficando reféns dos grandes interesses económicos, sobretudo da banca. A nível autárquico deixando-se encurralar entre as clientelas partidárias e os interesses das denominadas forças vivas, que muita das vezes são “vivas” apenas de nome, pois todos as sabemos defuntas há muito tempo. 

 

A gente que se sucede no poder é sempre a mesma. Sentam-se na mesa do partido e esperam que a sorte lhes venha bater à porta. Não discutem uma ideia, não se interessam pelos outros, não discutem nada, apenas se limitam a apregoar a putativa cartilha ideológica, a obedecer ao chefe e a conspirar por grupos de amigos ou de interesses instalados.

 

Se pensarmos bem, em Chaves, desde há muito tempo a esta parte, não há Câmara, nem existe presidente. Há apenas um grupo de pessoas que se fecha nos seus gabinetes no edifício da Praça de Camões e se entretém a tratar da sua carreira política.

 

Esta gente anda literalmente a gozar connosco. Trata-nos como se fossemos seus súbditos. E isso é uma afronta a todos nós.

 

Pelo que vamos assistindo, tudo nos leva a concluir que os partidos políticos são incapazes de produzir, ou de chamar para as suas fileiras, pessoas capazes. Ou, quando elas aparecem, afastam-nas rapidamente, não vão elas contaminar a militância apática e subserviente.

 

A paranoia, tal, como o barro, é moldável.

 

Os nossos chefes autárquicos, quando se aproximam os ciclos eleitorais, fazem-nos sempre lembrar aqueles jovens a tentarem parecer mais velhos, ou os pobres a tentarem parecer ricos, ou aqueles mentirosos a tentarem passar por gente que apenas diz a verdade. 

 

Imaginam-se indiferentes às opiniões dos outros. Tentam zombar dos movimentos políticos de base independente. Só que não é possível desvirtuar um objeto em movimento. Cada um leva consigo o seu próprio caminho. Isso é o que engrandece os homens e as mulheres livres.

 

João Madureira

publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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XIX Encontro de Fotógrafos e Blogues nos Três Reinos


Vamos então à breve reportagem (em palavras) sobre o XIX Encontro de Fotógrafos e Blogues que aconteceu sábado passado nos “Três Reinos”.




Encontro que desta vez contou com a organização conjunta da Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura, com a ONG galega – Centro de Desenvolvimento Rural Portas Abertas e com a Associação também galega – Associación Cultural Os Tres Reinos e com o apoio do Concelho de A Mezquita (em todo o encontro), da Puertas de Galicia Verin-Viana (transporte) e Câmara Municipal de Chaves (brindes de representação e prémios de fotografia).




Aconteceu assim durante todo o dia de sábado mais um encontro de Blogues e Fotógrafos mas que foi muito mais além dos blogers e fotógrafos, pois simultaneamente era um encontro internacional que tinha como territórios a visitar os dos antigos Reinos de Castela, Galiza e Portugal. Internacional também porque entre os participantes havia pelo menos 4 nacionalidades - galegos/espanhóis, portugueses, cubanos e italianos. Encontro também de gerações com a participante mais nova de 8 anos de idade e os mais velhos já a caminhar para os oitenta.





Um encontro de culturas também, que algumas embora próximas (como a galega e a transmontana), têm as suas especificidades, algumas delas até foram saboreadas neste encontro quando ao pequeno-almoço a empanada galega fazia companhia aos pastéis de Chaves. Um encontro também de diferentes línguas faladas (galego, castelhano, português e às vezes tudo junto), mas sem necessidade de tradutores não fosse a maioria povo da raia. Por último, acabou por ser também um encontro de associações. Mas deixemos as palavras e privilegiemos as imagens, tanto mais que o ambiente que se vive nestes encontros é difícil de o traduzir em palavreado.  

 

 

O marco 350 é o que divide os "Três Reinos" que alguém quis gravar na rocha…

 

 

Enquanto uns pisavam terras portuguesas, outros punham a conversa em dia em terras de Castela/Leão, outros em terras galegas enquanto outros não perdiam o olhar do momento…

 

 

Também houve quem servisse de modelo às melhores fotógrafas ou seria quem recorresse a elas para levar uma recordação para o Reino dos Mouros? Havemos de esclarecer isso…

 

 

Mas há fotógrafas e fotógrafas. Esta era mais de pormenores… e de pagar almoços...

 

 

Já outras são mais caminhos…

 

 

A meio da manhã, elas e eles resolveram dar um descanso às câmaras fotográficas – foi o momento do encontro de empanadas, bica e pastéis de Chaves, quanto à bebida, era mais minis e a terra dava pelo nome de Moimenta (Vinhais), ali ao lado do penedo dos Três Reinos.

 

 

Depois do encontro à mesa a visita a Moimenta. De guias o Presidente da Junta e a esposa. Para quem não conhece, Moimenta é obrigatório conhecer. O Casario tradicional, o solarengo, os moinhos, a forja, a Igreja de origem quinhentista, as fontes de água cristalina, fresca e saborosa, a simpatia da gente. Assentem no vosso roteiro de viagens. Moimenta pertence ao concelho de Vinhais e está em pleno parque natural de Montesinhos.

 

 

Fonte e Igreja.

 

 

Entre as imagens anteriores e a última há um lapso prolongado de tempo que não foi muito dado a registos por falta de luz… pois eram imagens de interior, mais propriamente do Restaurante em Pereiro (havemos de lá ir outra vez…) onde as tais especificidades de culturas gastronómicas se fazem sentir, mas igualmente a seguir a boa tradição de bem servir transmontana. 

 

 

Parque em La Mezquita, num dos projetos da Asociación Cultural Los Três Reinos, onde graúdos e pequenos passaram uns momentos de diversão e aventura. Lamenta-se uma queda por falta de jeito, mas esteve pouco tempo no chão e nem sequer arranhões para recordar provocou...

 

 

Um cubano, um italiano e uma galega. Ao fundo, meio escondido, um sportinguista português…


 

 

Castromil, foi a última povoação galega a ser visitada. Recebidos pelo Alcaide que nos serviu de guia, mais tarde também nos pôs a “Cruz da Touza” à disposição para a entrega de prémios, unas copas e a sempre bem-vinda empanada galega.

 

 

 

A Igreja, a ponte que também divide "reinos" e o conjunto do casario tipico galego mereceu a atenção dos visitantes.

 

 

Rafa, el Alcaide de La Mezquita, acompanhou-nos sempre desde o primeiro ao último momento. Um velho conhecido e amigo nosso que já tinha sido companheiro no encontro à nascente do Rio Tâmega, onde aliás nasceu o convite para este encontro. Pela certa que no próximo encontro em terras galegas queremos de novo o Alcaide de La Mezquita por companhia. À boa maneira de Alfred Hitchcock também quisemos disfarçadamente ficar na imagem.

 

 

Por fim um encontro que registamos em imagem. Um encontro de espécies de fauna e flora que correu à margem deste XIX Encontro de Fotógafos e Blogues.

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:00
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Domingo, 16 de Junho de 2013

Pecados e Picardias

 

Seria pecado passar em branco a data de nascimento Do meu poeta …

 

1888 Nasce em Lisboa no dia 13 de junho
Fernando António Nogueira Pessoa

III

O perene mistério, que atravessa
Como um suspiro céus e corações...


IV

O mistério ruiu sobre a minha alma
E soterrou-a... Morro consciente!


V

Acorda, eis o mistério ao pé de ti!
E assim pensando riu amargamente,
Dentro em mim riu como se chorasse!


 VI

Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria,
São outra coisa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.

Tudo o que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.

Tudo o que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento,
São sombras de mãos, cujos gestos são
A ilusão madre desta ilusão.


Isabel Seixas

publicado por Fer.Ribeiro às 18:46
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Sábado, 15 de Junho de 2013

Lumbudus, hoje nas terras galegas e nos Três Reinos

 O cavalo é de S.Vicente da Raia

O olhar sereno dos cavalos sempre me impressionou, parece cheio de sabedoria, de olhar atento que só vê aquilo que realmente merece ser visto. Seletivo, sem distrações, interessado e ao mesmo tempo distante. Não sei se o olhar lhe está ligado ao cérebro, mas se estiver como penso que está olha para muito além daquilo que vê….

 

O olhar de um fotógrafo é um pouco daquilo que imagino no olhar de um cavalo e, o dos fotógrafos Lumbudus também é esse interesse que procuram na fotografia, também interessado e curioso partilhado com convívio amigo e salutar que não tem fronteiras. Hoje os Lumbudus vão andar por terras galegas e pela certa vão fazer o exercício de num momento estarem simultaneamente em Três Reinos, para além dos moinhos que agora são mecânicos  mas que povoam as mesmas paisagens que Quixote avistava, vamo-nos valendo do Pança para nos trazer de volta à realidade e que mesmo em cima do seu burro, tem um olhar mais atento e sereno que o de um cavalo.

 

 As últimas terras portuguesas e as primeiras galegas vistas desde Roriz

Hoje durante todo o dia Lumbudus portugueses e galegos, mais os amigos que sempre os acompanham, vão voltar a ser o mesmo povo que as fronteiras e nacionalidades durante séculos quiseram separar mas nunca conseguiram.  

 

publicado por Fer.Ribeiro às 01:46
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Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

Chaves e o Centro

 

O “Discurso Sobre a Cidade” que hoje deveria acontecer, fica adiado para a próxima semana, entretanto aproveito e deixo eu aqui um pequeno discurso, que também é sobre a cidade.  


Penso que já o contei aqui uma vez, mas nunca é demais. Nos primeiros tempos em que a  autoestrada A24 nos servia, ou seja antes dela se servir de nós ou de nos cobrar as passagens e, também antes desta crise se sentir nos bolsos, começaram-se a ver por aí caras diferentes em visitas de fim-de-semana, sobretudo casais mais jovens sempre munidos de câmara fotográfica não mão. Numa das vezes cruzei-me com um desses casais que me perguntou onde ficava o centro da cidade, pois já tinham dado várias voltas pela zona histórica e não o conseguiram encontrar. Estávamos nós na Rua do Correio Velho (ou Rua Gen. Sousa Machado – se preferirem). Penso que lhes respondi: - “estamos no centro da cidade!” e eles argumentaram novamente – “ sim, mas há sempre uma praça, ou um largo onde as pessoas da cidade se juntam, é esse centro que procuramos” . Depois de eu pensar com a brevidade que o momento exigia, acabei por lhes responder: “Pois, é uma boa pergunta. Sabem, se fosse há uns anos atrás sabia-lhes responder, hoje lamento, mas não sei, temos vários lugares desses que procuram”.

 



Na realidade com o crescimento da cidade e o abandono residencial do centro histórico a cidade tornou-se policêntrica, com vários pontos onde aglomera pessoas conforme as horas do dia ou os interesses (comerciais, de diversão, etc.). O antigo ponto de encontro dos flavienses que sempre era o Jardim das Freiras e os cafés mais próximos, morreu, no entanto há um ou outro lugar que continua a ser ponto de encontro habitual, principalmente para quem não é da cidade e nos visita aos dias de feira, como o são ainda a Madalena e o Largo do Arrabalde, mas não o suficiente para poderem ser considerados o centro da cidade.

 

Prometi a algumas pessoas que um destes dias vinha aqui novamente com o tema da “Reabilitação Urbana” e a promessa mantém-se , talvez nessa altura volte aos “centros da cidade”, mas isso fica para breve, pois quero-o fazer como deve ser para que não haja dúvidas ou seja mal interpretado com aquilo que quero dizer. Para já, ficam duas imagens do Arrabalde que é sem dúvida uns dos centros de Chaves e, esperemos que com o “Museu das Termas Romanas” se torne mais atrativo, só temo mesmo é saber qual o impacto que a nova construção poderá ter no largo, mas vamos esperar que seja positiva, ou pelo menos que, mesmo que não se destaque pela positiva  se integre no ambiente do largo ou passe despercebida, que para mamarrachos, já nos bastam os da era ACIOP.

publicado por Fer.Ribeiro às 02:44
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Quinta-feira, 13 de Junho de 2013

O Homem Sem Memória - 157

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

157 – Como teve de deixar de filmar por falta de financiamento – e não por escassez de talento, pois talento possuía o nosso personagem principal em quantidade mais que suficiente para dar e vender –, o José teve de se voltar para outros géneros de arte que lhe ocupassem o espaço mental disponível, ou melhor, o seu espaço vital, pois a arte está para os verdadeiros artistas como o ar está para os animais terrestres e a água para os peixes. Não sei se nos fazemos entender.


Como ouvia sobretudo cantores de intervenção, meteu-se-lhe na cabeça que devia aprender a tocar viola para dar vazão à sua veia artística. Perdido por cem, perdido por mil. Lembrou-se então de pedir ao seu querido amigo Fernando que lhe ensinasse algumas posições no instrumento de cordas que lhe permitissem atamancar algumas cantigas do José Afonso. O Fernando disse-lhe que devia começar por algo mais simples. Mas ele teimou no Zeca e foi o que teve: músicas tocadas pelo Fernando mas que ele não conseguia seguir, nem de perto, nem de longe. Colocava os dedos nas posições certas, mas à custa de muito porfiar, e tangia as cordas muito devagarinho para não as assustar. Por vezes conseguia alcançar um dó a soar a dó, mas o problema era quando tinha de mudar os dedos para, por exemplo o fá, aí atrapalhava-se e demorava tanto tempo que o dó já se tinha ido embora da canção enquanto o fá chegava a passo de tartaruga. E isto passava-se com todas as notas que se lhe seguiam. Enquanto as notas musicais eram breves e rápidas, os intervalos eram enormes e lentos. Chateou-se imenso logo no primeiro dia de ensaio. E no segundo. E no terceiro. E no sétimo. No décimo desistiu, para grande alívio do Fernando. Estava provado que para a viola não servia.


Nesse mesmo dia, olhou para o Fernando com cara de caso e perguntou-lhe se tinha alguma sugestão para dar vazão à sua inquietação artística. Ele, muito a modinho, lembrou-lhe que a banda desenhada era uma via possível. O José, apesar de gostar de BD, como todos bem sabemos, perguntou-lhe se não seria uma espécie de recuo artístico passar do cinema para os quadradinhos, assim de repente. Se não seria passar de cavalo a burro. O Fernando respondeu-lhe que não sabia se era um retrocesso ou não. O que sim sabia era que a BD, por alguma razão, já se designava como a nona arte. O José perguntou-lhe então qual era a oitava, ele respondeu-lhe que era a fotografia.


“Talvez deva então tentar a oitava antes de passar à nona, pois não é bom queimar etapas. Os comunistas chineses que o digam”, lembrou o José com a sabedoria que todos lhe reconhecemos. No entanto, o Fernando lembrou-lhe que para se fazer fotografia era necessário uma máquina, rolos de película fotográfica e um estúdio de revelação, ampliador, revelador e fixador, objetos e materiais que eram caros e difíceis de arranjar. “Então, talvez seja boa ideia dedicar-me à BD”, admitiu o José, imbuído da sua inteligência prática.


Pediu então ao Fernando o último Pilote que tinha recebido e pôs-se a copiar desenhos do Astérix e do Tenente Blueberry. Saíram-lhe mal, como era de esperar. Mais uma vez o Fernando lhe disse que tinha de começar por algo mais simples. Uderzo e Jean Giraud não estão ao alcance de qualquer um.


Mas o José lembrou-lhe que quem reproduz os melhores pode vir a ser como eles e quem plagia os maus só pode conseguir ser pior do que eles. Fernando gostou daquilo que ouviu, por isso disse-lhe que devia, quiçá, tentar a Filosofia, que na Grécia antiga era uma grande arte. O José respondeu-lhe que se dava mal com a Filosofia. O Fernando lembrou-lhe então, e bem, que com quem se dava mal era com a professora de Filosofia e não propriamente com a Filosofia. Ele até concordou com o comentário, pois correspondia à verdade, mas recusou liminarmente dedicar-se à “arte da treta”, que era como ele definia o mester de Sócrates. O Fernando, sabendo da sua inclinação para a escrita, sugeriu-lhe que talvez fosse boa ideia tentar o conto ou o romance, pois para essa arte já possuía as ferramentas necessárias: a caneta e o papel, e dominava a arte da caligrafia com razoável mestria. O José disse que não era bem assim. Além disso faltava-lhe a máquina de escrever, para dar aos escritos a sua versão final. O Fernando disponibilizou-se a emprestar-lhe a do seu pai que pouco uso tinha tido até ao momento.


“E as ideias?, inquiriu o José com toda a pertinácia que lhe reconhecemos. “As ideias?”, perguntou intrigado o Fernando. “Pois, as ideias”, insistiu o José. E o Fernando: “As ideias são como as cerejas, a seguir a umas veem outras e assim por aí fora até acabares o livro. Além disso, ideias tens tu de sobra.” “E as palavras? Como escolho e decido as palavras para concretizar as ideias?”, perguntou o José. E o Fernando: “Essa arte vem com o tempo e com o treino. Mais com o treino do que com o tempo. Com o tempo surgem mais as ideias, com o treino aparece mais a forma. E a forma aprende-se sobretudo lendo e escrevendo, escrevendo e lendo, lendo e escrevendo, escrevendo e…” “Sim, já percebi. Mas como sei que tenho jeito para a escrita. Existe algum teste específico para ficarmos a saber se temos queda para as letras?”, perguntou o José. E o Fernando: “Que eu saiba não. Mas como o meu pai é um bom leitor, podemos pedir-lhe que leia algo que tu escrevas e que imita a sua opinião. Se ele gostar, podes ter a certeza de que o que tu escreves tem qualidade. Nessas coisas não se engana. Nem na qualidade da escrita, nem na qualidade da música, nem na qualidade do vinho.” “Mas ele é meu amigo”, lembrou o José. E o Fernando: “Damos a ler-lhe um conto sem lhe dizermos de quem é, como se ele fosse o elemento do júri de um prémio literário.” “E se ele disser que não presta aquilo que escrevo, o que vou tentar a seguir?”, perguntou com cara de caso o José. E o Fernando: “Pior do que o teu jeito para a música e para a BD com certeza que não será.” “Obrigado pelo elogio”, melindrou-se o José. Para a seguir perguntar: “E quanto ao cinema? O que é que achas da minha arte cinematográfica?” E o Fernando: “Como tu bem sabes, eu de cinema percebo pouco e também pouco vejo. Mas digo-te desde já que detesto o Godard”, e calou-se fazendo-se desentendido, enquanto abordava uma canção do Leonard Cohen na sua viola de cordas metálicas.


O José continuou a olhar para o Fernando à espera de resposta, mas o seu amigo não lhe dava troco. No entanto, o nosso herói insistiu: “O que é que achas da minha arte cinematográfica? Viste os meus filmes, não viste?” “Vi”, respondeu lacónico o Fernando entre o trauteio de passagem de um verso para outro da canção do canadiano. “E?”, perguntou o José. “Pois!”, disse o Fernando enquanto acompanhava com o seu assobio a canção do Leonard. “Então não dizes nada sobre os meus filmes? Não tens opinião acerca deles. Lá por não simpatizares com o Godard não implica que não gostes das minhas curtas-metragens”, declarou o José já um pouco enfadado, até porque sabia que o Fernando não era rapaz para esconder aquilo que pensava. Mas também sabia que era incapaz de ferir os sentimentos de um amigo. E o José era o seu maior amigo. E o Fernando: “Pois, de facto são curtas, as tuas metragens.” (Assobio de acompanhamento musical). “E?”, insistiu o José. (Assobio de acompanhamento musical). “E são a cores…” (Mais assobio de acompanhamento musical). “E?” “E têm planos interessantes…” “E?” (Ainda mais assobio de acompanhamento musical). “E não têm som, o que lhe dá um toque especial…” (Um pouco menos de assobio de acompanhamento musical). “Especial em quê?” (Um pouco mais de assobio de acompanhamento musical). “É que estamos habituados a que os filmes mudos sejam a preto e branco e os teus são mudos, mas a cores…” “E?” “Olha, se calhar, era boa ideia acompanhá-los com músicas do Leonard Cohen tocadas por mim, um pouco à semelhança dos acompanhamentos ao piano das películas a preto e branco que passavam antigamente nas salas de cinema.”


O José então riu-se e olhando bem nos olhos o seu amigo questionou-o decididamente: “Diz lá de uma vez o que pensas dos meus filmes?” E o Fernando: “Pois ou que são uma valente merda ou então são duas obras-primas. Mas eu inclino-me mais para a primeira hipótese. No entanto isso não invalida a segunda. Pelo menos é ponto assente que medíocre não é, o que é um adianto. Ambos detestamos a mediocridade.”

 

“Obrigado pela tua sinceridade,” disse o José antes de sair porta fora com a determinação dos génios (demónios?) incompreendidos.

 

(continua)

publicado por Fer.Ribeiro às 02:52
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Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

Duas imagens do passado que não voltam mais

 

Para já ficam duas imagens do ano de 2007. Imagens que hoje já não são mais possíveis. A construção que se vê  primeira imagem, na Rua da Ordem Terceira , foi vitima de um incêndio e ruiu. Continua em ruínas. A segunda imagem, na Ladeira da Trindade,  foi demolida para dar lugar a uma nova construção ainda por concluir e,  o “volto já” que estava sempre à porta do sapateiro passou a um “ Até um destes dias, ou anos”.




publicado por Fer.Ribeiro às 03:09
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Terça-feira, 11 de Junho de 2013

Montalegre

Já sei que este blog diz no seu cabeçalho - Chaves, Olhares sobre a cidade, pois diz, mas também já o disse aqui várias vezes que gosto de andar pelas terras dos nossos vizinhos, onde nalgumas até tenho as minhas origens familiares, como é o caso de hoje, com Montalegre, aqui ao lado.  Assim, já sabem que de vez em quando vou por aí e deixo aqui alguns olhares. Hoje deixo três de Montalegre, ou do Barroso se preferirem.


Torre sineira da Igreja do Cemitério


Palácio da Justiça e Edifício da Câmara Municipal ( O Castelo espreita ao fundo)


Um olhar "diferente" sobre o Castelo



publicado por Fer.Ribeiro às 05:00
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Segunda-feira, 10 de Junho de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (41): Jogos e disfarces

 

Nós vamos descobrindo aquilo que sentimos através daquilo que fazemos. Ao longo da vida, a empatia vai assentando permanentemente em sítios e em situações renovadas e também em outras pessoas. É isso o que nos permite reavivar, e reafirmar, a confiança nos outros e em nós próprios. Eu sei que o que acabo de afirmar não é linear, nem simples. Mas é assim a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco.

 

E quando as circunstâncias em que nos encontramos são adversas temos que nos considerar melhor do que elas para podermos erguer a cabeça.

 

Por exemplo, o poder autárquico da nossa terra diz que nos está a conduzir por um caminho de progresso, quando, efetivamente, o que pretende é livrar-se das suas promessas mal passem as eleições.  Vai-nos enchendo os ouvidos com a necessidade de críticas aceitáveis, feitas por pessoas aceitáveis, sabendo nós, que os conhecemos de ginjeira, que esses cavalheiros apenas aceitam as criaturas que concordam com eles. Essa é a base do fundamentalismo.

 

Os muçulmanos acreditam que não faz mal mentirem para converterem as pessoas à sua verdade.

 

Há por aí alguma gente que nos acusa de pretensiosos, mas eu respondo-lhes que escarnecer da pretensão também pode ser pretensioso. As pessoas de fé são tolerantes. Alguns dizem que são estúpidas por causa disso. Mas o preconceito é que é estúpido.

 

Explicam que é a sorte o que leva as pessoas ao poder. Para nós, a sorte é algo que se conquista, ou se cria por meio da força de caráter. Ao poder tem que se chegar de forma honesta e não através de estratagemas e intrujices.

 

O último parágrafo que escrevi está baseado numa passagem do interessante livro de Patrick De Witt, Os Irmãos Sisters, um romance com todos os bons ingredientes de um western à boa moda antiga, que nos conta uma história irresistivelmente picaresca, fundamentada num retrato mordaz e acutilante da delicada e perversa condição humana.

 

Ao lê-lo senti-me muitas vezes como se estivesse na enorme sala do Cineteatro de Chaves a assistir a uma coboiada das antigas. E senti saudades, muitas saudades, desse tempo, das coboiadas e do Cineteatro.

 

Foi a partir daí que me chegou a vontade de partilhar convosco mais uma trapalhada protagonizada pela Câmara Municipal de Chaves.

 

Foi há mais de uma década que a CMC, então presidida por Altamiro Claro, resolveu adquirir, por umas boas dezenas de milhares de contos, o Cineteatro ao seu proprietário para ali instalar um espaço cultural que trouxesse de novo o cinema, o teatro, e outras atividades culturais, ao coração da cidade.

 

Outra equipa autárquica, entretanto, ganhou as eleições. Apesar do espaço, apesar das múltiplas carências de atividade cultural e, apesar, também, das promessas sucessivas de intervenção e requalificação do imóvel para funcionar como sala multiusos destinada a mostrar cinema, teatro e exposições de pintura, escultura e fotografia ao público, ali só se reproduziram, e continuam a reproduzir, ratos e se acumulou, e acumula, poeira, humidade, frustração e desalento.

 

Eis senão quando, a meia dúzia de meses das eleições autárquicas, a CMC abre concurso para atribuição de arrendamento do citado imóvel. E a regra principal foi que a adjudicação fosse feita segundo o critério da proposta mais vantajosa. Houve um único concorrente. Parece de propósito.

 

A renda proposta, e aceite, pois a autarquia não estabeleceu aluguer mínimo, foi de 150 euros mensais. Que, estamos em crer, deve ser menos do que o aluguer de um aviário de pavões de média dimensão numa qualquer aldeia do concelho.

 

A empresa vencedora, que, afirmamos desde já, não tem culpa nenhuma no cartório, comprometeu-se a fazer obras no imóvel no valor de centenas de milhares de euros (os números em Portugal valem o que valem), num prazo de 18 meses e a criar alguns postos de trabalho: 3 de início e 22 no prazo de dez anos (as promessas de emprego em Portugal valem aquilo que valem).

 

As atividades previstas para o edifício “deverão enquadrar-se nas áreas da cultura, lazer e… restauração e bebidas”. Na área da cultura está previsto um “Piano Bar”, na área do lazer está previsto um “Parque Temático e de Diversões”. Nas atividades complementares está previsto… um “Piano Bar”, não sabemos se é o mesmo se é um outro, e ainda uma loja para comercialização de artigos relacionados com… o Parque de Diversões.

 

A empresa que venceu o concurso chama-se “Jogos e Disfarces”. Não, não é ironia. É mesmo verdade.

 

De facto, o centro da nossa cidade pode muito bem prescindir de um centro cultural multiusos, pois não tem nenhum. Mas o que não pode dispensar é ter mais um bar, no meio de dezenas, e de outra discoteca, ou coisa do género. Era mesmo disso que estávamos necessitados como de pão para a boca.

 

Dizem que cada povo tem o que merece. Será que nós merecemos esta gente?

 

João Madureira

 

publicado por Fer.Ribeiro às 14:00
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Dia de Portugal

 


Pelo menos este não nos foi roubado, refiro-me claro, ao feriado do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, ou será Dia de Portugal, de Camões, de Pessoa, de Saramago, de Torga, das Comunidades Portuguesas, da Madeira, Açores e Algarves?, mas já lá vamos...

 

Pois sobre este dia quero deixar aqui um breve apontamento para reflexão, ficando prometido que para o próximo ano aprofundo o tema, mas antes, vamos ao orgulho flaviense neste dia, pois ia jurar que um dos condecorados de hoje pelo Presidente da República era flaviense de nascimento, mas afinal não o é, pois teve Coimbra como berço de nascimento, mas pela certa tem Chaves no coração, pois é de cá a sua família e foi no Liceu Nacional de Chaves que fez os seus estudos do secundário. Trata-se do Reitor da Universidade Técnica de Lisboa, o Professor Doutor António Manuel da Cruz Serra, que vai ser (ou já foi – depende da hora da leitura deste post) agraciado com a Ordem da Instrução Pública (Grã-Cruz).

 

Então para refletir neste dia que também é dum poeta, vou começar intencionalmente por Miguel Torga, com três poemas  da sua imensa obra sobre Portugal e os Portugueses, precisamente com poemas de “Portugal” e dos “Poemas Ibéricos”:

 

PÁTRIA

 

Soube a definição na minha infância.

Mas o tempo apagou

As linhas que no mapa da memória

A mestra palmatória

Desenhou.

 

Hoje

Sei apenas gostar

Duma nesga de terra

Debruada de mar.

 

E no Diário X temos o poema “Portugal”

 

Portugal

 

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.


Nos “Poemas Ibéricos” temos o nosso “fado” e o “Mar”

 

FADO

 

Tem cada povo o seu fado

Já talhado

No livro da natureza.

Um destino reservado,

De riqueza

Ou de pobreza,

Consoante o chão lavrado.

 

E nada pode mudar

A fatal condenação,

No solo que lhe calhar,

Humana vegetação

Tem de viver, vegetar,

A cantar

Ou a chorar

Às grades dessa prisão.

 

 

 

MAR

 

Mar!

Tinha um nome que ninguém temia:

Era um campo macio de lavrar

Ou qualquer sugestão que apetecia…

 

Mar!

Tinhas um choro de quem sofre tanto

Que não pode calar-se, nem gritar,

Nem aumentar nem sufocar o pranto…

 

Mar!

Fomos então a ti cheios de amor!

E o fingido lameiro, a soluçar,

Afogava o arado e o lavrador!

 

Mar!

Enganosa sereia rouca e triste!

Foste tu quem nos veio namorar,

E foste tu depois que nos traíste!

 

Mar!

Quando terá fim o sofrimento!

E quando deixará de nos tentar

O teu encantamento!”

 

Ou como dizia Pessoa,  “Ó mar salgado, Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!”

 

Voltemos ao 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas,  mas regressemos ao ano de 1997 em cujas comemorações que se realizaram aqui na nossa cidade de Chaves, Alçada Batista contestava a letra belicista do nosso Hino Nacional, Pois pessoalmente penso que Alçada Batista tinha toda a razão, uma música tão bonita merecia outra letra, não só porque a atual é belicista, que nasceu  como a de uma marcha num estado de revolta contra a monarquia e o Ultimato Inglês de 1890, mas também por ser sebastianista e desvirtuada do seu original, porque na sua versão inicial era composta de três partes das quais lhe amputaram as duas últimas (em 1957). Então se Salazar logrou amputá-la, porquê a democracia ( que aconteceu para acabar com as nossas guerras ultramarinas) não acabou de vez com uma letra belicista que apela à guerra na marcha contra os canhões? Esta fica para refletir ou talvez pra o próximo ano, mas desde já posso adiantar, e esta é a minha opinião pessoal, a razão porque se manteve o hino é a mesma que mantém Camões associado ao Dia de Portugal. Mas para quem não sabia, aqui fica a versão completa da letra do Hino/Marcha nacional:


I

Heróis do mar, nobre Povo,
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

 

II

Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

 

III

Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

 

Bem, então agora vamos a Camões, o nosso grande poeta épico das navegações, dos descobrimentos e da língua portuguesa. Alguém me sabe responder porque está associado ao Dia de Portugal? Esta também fica para reflexão.

 

Portugal  é terra de poetas e escritores maiores, desde Gil Vicente, o pai do teatro português, aos mais recentes  Fernando Pessoa o grande poeta universal português (o “Supra-Camões” dizem alguns), a Saramago Prémio Nobel da Literatura, a Miguel Torga, o maior poeta de Portugal a cantar Portugal e os Portugueses, e muitos mais. E ainda há outro – Fernão Mendes Pinto, do tempo e conhecido de Camões, igualmente embarcado nos mares das descobertas, alguém o conhece? Isto também fica para reflexão, entretanto, Camões lá está, entalado entre o Dia de Portugal e as Comunidades Portuguesas.


Por último vamos às Comunidades Portuguesas, pois também fazem parte do dia de Portugal( como não poderia deixar de ser), porque se são comunidades portuguesas são portugueses de Portugal, só que estão fora de Portugal, e pelas mais variadas, mas pela certa todas válidas razões (mesmo para aqueles que o Passos Coelho agora convida a emigrar), nem que seja a de Portugal não lhe ter permitido uma vida digna a que cá tinham direito. Assim sendo os portugueses que estão fora de Portugal são igualzinhos e com a mesma portugalidade que os portugueses que estão cá, são capazes é de ter mais saudades da sua terra, de resto, gostam de sardinhas e bacalhau como nós gostamos, adoram Fátima como nós adoramos, são do Benfica, do Porto ou do Sporting e do club da terra como nós somos, gostam de ouvir cantar o fado como nós gostamos, em suma, são portugueses com iguais direitos e deveres (culturalmente falando) como nós, os que estamos cá,  Parece-me que a inclusão das “Comunidades Portuguesas” junto ao Dia de Portugal e de Camões é bem intencionada e por uma causa nobre, mas simultaneamente, e pelas razões que atrás deixei, é discriminatória, pois pode parecer que há os portugueses de Portugal e os portugueses lá de fora, é assim como a língua portuguesa quando se fala de português de Portugal (língua) e português do Brasil, em que a língua é a mesma mas quem a fala tem nacionalidades diferentes e são diferentes de nós. Pois para rematar, cá por mim, o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, passava a ser apenas DIA DE PORTUGAL, e mais nada, senão um dia destes vamos ter de acrescentar ao Camões, também o Pessoa, o Saramago, o Torga e deixar espaço para outros que ainda possam aparecer com igual valor e, às Comunidades Portuguesas, ainda alguém se vai lembrar de acrescentar a Madeira, os Açores e o Algarve. Os de Lisboa são meninos para isso. Lá isso são

 

Então VIVA PORTUGAL!



 

publicado por Fer.Ribeiro às 01:19
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Domingo, 9 de Junho de 2013

Pecados e Picardias

 


 

Ao desconcerto do Mundo

 

Os bons vi sempre passar

No Mundo graves tormentos;

E pera mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado.

Assim que, só pera mim,

Anda o Mundo concertado.

 

                  Luís de Camões

 

 

Tempestade verbal

 

Gostava de ler o que escreveria Camões

Se viesse cá no dia de Portugal

E ouvisse o que aí vem de funestos sermões

 Discursos umbilicais de tempestade verbal

 

Nada se fez , nada foi feito até agora

Vêm agora todos juntos novos  salvadores

Mandatados por quem pelo poder ri e chora

Tempestade verbal, de verdades de rumores…

 

Gostava de ver o espanto da inspiração

A naufragar na decadência da moral

Tal a libertinagem sem respeito ou razão

Do mau tempo que aí vem de tempestade verbal

 

Quem sabe  que rumo toma a arte de falar

Trova, má língua devassa, vernáculo no ar…

 

Isabel Seixas



publicado por Fer.Ribeiro às 16:28
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Sábado, 8 de Junho de 2013

Loivos - Chaves - Portugal

 

Mais tarde que o costume, mas cá estamos. Vamos lá então abrir mais um janeluco sobre o nosso concelho rural. Vamos mais uma vez fazer uma breve passagem por Loivos.




Com imagens de arquivo, mas que algumas poderiam ser de hoje, pelo menos esta última que dá ares de um dia feio, chuvoso de inverno. Pois é, estamos a um passo do verão, já deveríamos estar com a toalhinha estendida no areal da praia, mas não estamos, e desta vez a culpa não é da crise nem daquela gentalha de Lisboa que nos anda a desgovernar, mas é mesmo do frio e do mau tempo, pelo menos do frio de hoje que se não fosse por vergonha, já tinha acendido a lareira.




Mas deixemos as instabilidades do clima de parte, pois já nos chega a outra bem mais séria para nos ralar e incomodar, ou até já é mais que isso, muito mais, penso que a situação já é mesmo de revolta generalizada que, embora ainda pacífica, já se começam a ouvir os murmúrios ao passar da procissão e até já há quem não ajoelhe à sua passagem.




Mas se por um lado a instabilidade incomoda e as más políticas revoltam, por outro lado a nossa enraizada cultura secular manda que dos problemas se façam anedotas e que nos entretenhamos com o espetáculo da desgraça – Estamos em plena pré-campanha autárquica e anedotas já não faltam por aí e, temos garantido o espetáculo a partir do fim do verão.   

 

publicado por Fer.Ribeiro às 22:34
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Sexta-feira, 7 de Junho de 2013

Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

 

Um verdadeiro “paisagista”.

 

A qualificação estética e ambiental dos espaços ribeirinhos do Tâmega, pode afirmar-se hoje, foi o maior legado que o Presidente da Câmara, Altamiro Claro, ofereceu à cidade de Chaves e aos seus moradores. Felizmente, durante o Governo de José Sócrates, foi possível ver a Cidade engalanar-se como nunca. Na altura, recuperar a urbanidade com intervenções estruturantes no tecido urbano consolidado mostrou-se um caminho que hoje os cidadãos não se cansam de percorrer.


Tinha-se na altura a perfeita consciência de que a gestão do PPD, que antecedeu a Câmara socialista, não ligava aos aspectos essenciais como a qualidade de vida dos flavienses, nomeadamente, a valorização de percursos pedonais e a implementação de espaços verdes para descanso e defesa ambiental adequadas à exigente população de Chaves. Sem dúvida que este investimento contribuiu para um engrandecimento da Cidade, pois, para além da valorização estética, não deixou de ter em atenção a articulação funcional do conjunto das estruturas da cidade.


Está agora à vista de todos que a dinâmica daqueles tempos foi sendo consecutivamente desbaratada pela nova gestão camarária. Esta, sabemos agora, foi perdulária com a herança recebida, gastou, voltou a gastar e, hoje, pode dizer-se, como o povo diz “passaram tudo a tabaco”.


O resultado está à vista: o centro histórico caminha para o esvaziamento e a degradação; o já romano “centro cívico” está a perder conteúdo urbano, o cineteatro, alvo de promessa política fantástica na última campanha eleitoral do PPD, não arrancou. Como o povo diz, gastaram em projetos, mas não conseguiram arranjar um cêntimo para iniciar a obra. É caso para dizer que a mentira tem as pernas curtas. Contudo, como todos sabemos, ela regressa! Claro que travestida!


Afirma-se “ a Verdade”! E praticar, pratica-se?


Ninguém consegue agora negar que o centro tradicional perdeu importância (e os comerciantes o seu ganha pão), o que sob o ponto de vista económico e social é uma catástrofe para a cidade.


Falta à gestão autárquica projecto, visão de futuro, arrojo, capacidade negocial, no sentido de reforçar a nossa Cidade como espaço de vida comercial, lúdica e cultural. Estão, ou não, os dirigentes autárquicos parados no tempo, fora da realidade?


Trata-se agora de preconizar intervenções prioritárias de requalificação do tecido comercial da cidade, de dotar o espaço público de atratividade para os negócios e a criação de emprego associada.

Se assim não for, mais vale que a Câmara se prepare para o contínuo decréscimo de residentes. Isso sim, será motivo de preocupação para todos pois. Com as despesas que acumularam, com os juros e as amortizações das várias dívidas, os poucos que cá ficarem que se preparem pois, o preço da água, do IMI, da recolha dos lixos, entre outros, será um inferno. Mas sobre isso, que não é “paisagismo”, não dizem nada.

 

 

Francisco Chaves de Melo

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 00:30
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