12 anos
Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

Discursos Sobre a Cidade



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Texto de Fe Alvarez

 

 

 

HISTÓRIAS PASADAS DE UN CHAVES PERDIDO

 

Allá por la época de los cincuenta, en una ciudad, provinciana,del Norte de Portugal, tranquila y diferente, creo que era en la primavera, o primordios del verano, la noche se presentaba joven todabía, las golondrinas ya callaran sus algarabias, los otros seres alados zumbaban, intentando entrar por alguna rendija de las ventanas o balcones,atraidos y fascinados por la luz, reinaba la calma, como siempre. Algunos moradores entregados  al descanso, ya estaban arrullados en los brazos de  Morfeo; mañana el día sería de trabajo y es necesario y saludable un merecido descanso.

 

A lo lejos, se oyeron unos murmullos, conversaciones animadas, algunas risas, aunque todo muy comedido; ya salieron del cine, piensa la Sra. P...., se preparaba para retirarse a descansar, cuando presintió más que oyó, muy cerca, unas voces airadas, aunque proferidas en sordina, curiosa, se asomó a la ventana del primer piso, y vió que su hija y el marido de esta, que habían ido al cine, estaban arrimados a la puerta, amenazados por cuatro individuos, después le pareció que algo brillaba, intuyó el filo de una navaja, y como dicen que a grandes males, grandes remedios, sin pensarselo dos veces, corrió escaleras abajo, cogió una "Bengala galega" que su marido tenía trás la  puerta, y cual Quijote defensor de necesitados y oprimidos blandiendo su lanza, ella enarboló la suya y empezó a repartir bastonazos a diestro y siniestro, casi se podría decir que eran palos de ciego, el bastón silbaba en el  aire, por momentos pareció haber tomado vida própia, debo aclarar que la Sra. P.... era una mujer alta  y bien constituida, más alta que alguno de los agredidos, alertado por tamaño jaleo nocturna, el Sr. P.... se despierta y baja a la calle para  ayudar a su esposa, si esto fuese necesario, en su preocupación por la situación, sale en trajes menores. También se acerca al balcón, un vecino, el Sr. B.... que de aquella ostentaba un puesto en el Ayuntamiento y por tanto una autoridad, llama a la policía, baja a la calle y llegados los refuerzos, andando!!! todos al  Puesto de Policía. Son recibidos por un sub-jefe que les toma declaración, primero expuso el caso el Sr. B....

 

-Estando yo, tranquilamente en mi casa, situada en la Rua Direita, oí algo que interrumpía el sosiego nocturno, me acerqué a la "varanda" y pude ver, con mucha claridad desde mi atalaya los hechos que le narro.............. 

 

 

El sub-jefe, levantando la cabeza, pregunta:

 

- Cómo Sr. P.... ustéd también andaba metido en líos, es agresor o víctima? presupongo que agresor.

 

- Pues no Sr. sub-jefe, estaba durmiendo, me despertaron unos gritos, reconocí la  voz de mi esposa y bajé; nada más salir a la calle, me tocó un bastonazo de muy padre y señor mío, en la mano.

 

Y enseña la mano, que presentaba sobre la zona del dedo pulgar una inflamación coloreada, casi parecía que por allí pugnase por salir un sexto dedo.

 

El Sr. sub-jefe, sonrió socarronamente, mandó callar enérgicamente, haciendo valer su autoridad, a los demás agredidos, que querían enseñar como prueba sus dolorosas inflamaciones, repartidas por todo el cuerpo. Despues de obtener datos y detalles en número suficiente, se dirigió a la Sra. P....

 

- Sra. corrobora todo lo que aquí se manifestó?

 

- Sí señor

 

- En ningún momento, estos caballeros, la ofendieron o lastimaron?

 

- No Sr. no me tocaron ni un pelo, no los dejé acercarse a mí, quién repartió leña fuí yo, y como pudo comprobar, estaba tan ciega, que ni ví a mi marido.

 

- Bien.... bien..... creo que le tendríamos que hacer un monumento, nunca supe que una señora, (Exceptuando a la panadera de Aljubarrota) consiguiese, ella sola poner fuera de combate a cinco hombres. Pueden retirarse,vayanse a sus casas, muchas gracias Sr. B.... por su valiosa colaboración al bien estar ciudadano y ahora ustedes, dijo dirigiendose a los doloridos y maltrechos agredidos, tendrán que hacer efectiva la multa de 1 escudo, por alteración del orden público, despues se retirarán a sus respectivas moradas y no vuelvan a aparecer por aquí, si alguno necesita cuidados médicos que se dirija al Hospital, aquí cerca de la Iglesia Matriz.

 

 Esta história me fué narrada por la Sra. P.... y corroborada por el Sr. B.... Hoy ya no están entre nosotros, aunque algunos protagonistas de estos hechos, aún continuan por estas tierrasTransmontatas, otros fueron probar fortuna a tierras lejanas.

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Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

As monumentais praças de Chaves (sem touros).



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Pois hoje vamos ficar pelas praças mais nobres que a cidade de Chaves tem, a Praça da República e a Praça de Camões.

 

São sem dúvida as praças onde mais maravilhas flavienses se concentram e um bom cartão de visita para a cidade de Chaves. Desde o pelourinho, à Igreja Matriz, passando pela Igreja da Misericórdia e terminando na Capela da Stª Cabeça, desde todo o casario de ambas as Praças, ao edifício da Câmara Municipal e do Duque, o antigo Hospital, o edifício da Sociedade Flaviense, e até a “casa da palmeira” pese o estado de meter dó em que se encontra, ainda faz figura, mesmo que triste.

 

Duas praças que ao longo das última centenas de anos, principalmente na última (a julgar por fotos antigas) assistiu a muitas transformações. O pelourinho da Praça da República jé esteve na Praça de Camões, a cobertura da torre sineira da Matriz já teve outra figura, o edifício do duque já teve outro piso, o próprio duque só passou a dominar a praça a partir de 1970, o velho e imponente olmo deixou saudades, ambas as praças já tiveram jardins, a praça da república já teve um edifício onde hoje está o pelourinho, a igreja da misericórdia já teve adro, a Praça de Camões já foi parque de estacionamento.

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As últimas grandes transformações terminaram em 1970, em que o tal olmo foi derrubado e o jardim da Praça da República desapareceu, tal como os separadores da Praça de Camões. Pessoalmente, gostava mais da versão anterior das duas praças, mesmo achado simpática a versão actual. Falta-lhe talvez um bocadinho de verde, mas vá lá que já há uma Tília que já começa a substituir a função do velho olmo.

 

Alterações, umas mais felizes que outras, mas mesmo assim, temos duas belas praças monumentais das quais qualquer flaviense (pela certa) se orgulha.

 

Mas também nestas duas monumentais praças,  as rosas têm os seus espinhos. Pois embora (exceptuando um ou dois edifícios particulares da Praça de Camões) todo o casario seja bonito e interessante, há pelo menos duas construções na Praça de Camões e a já mencionada “casa da palmeira”, além de duas construções do Largo Caetano Ferreira (que é uma extensão da Praça de Camões), que necessitam obras e urgentes. Todas elas desabitadas, ou praticamente desabitadas, necessitam de uma intervenção urgente, e embora aparentemente ainda não ameacem ruína, para lá caminham.

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Estas praças e todo o seu casario são do interesse público. Penso já haver legislação que contempla casos destes, o problema será o de sempre, primeiro desconhecimento da legislação e segundo o desinteresse e interesses dos seus proprietários. Nestes casos em que o privado entra no interesse público, na minha opinião, a lei deveria ser para cumprir e rígida, prevendo e incentivando o restauro dos edifícios e,  caso nada fosse feito por parte do proprietário, passar para a propriedade da Autarquia ou Estado. Teoricamente (a meu ver) seria uma boa solução, o problema é que o estado e também as autarquias, na maioria das vezes e em termos de recuperações, são bem piores donos que os privados. Ou seja, lá se vai fazendo vista grossa a estes casos até que um dia o mal caia por terra.

 

Mas nem sempre acontece assim, e um exemplo disso mesmo é a nossa Top Model Ponte Romana que desde ontem fechou ao trânsito para obras. Esperemos que finalmente, além do devido tratamento que merece, haja um bocadinho de respeito pela sua idade e importância e que depois das obras seja uma bela ponte pedonal.

 

Até amanhã, com mais um discursos sobre a cidade.

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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Palavras, Imagens e Torga... tudo isto é Chaves, tudo isto é Portugal



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Acredito que quando um poeta escreve um poema, escreve-o sentido cada uma das suas palavras, mas depois de escrito, as palavras do poema ganham vida própria e deixam de ser pertença do seu dono, pois cada um lê e sente nelas aquilo que quer ler e sentir.

 

Vamos então mais uma vez às palavras de um poeta maior: Miguel Torga.


 

Chaves, 31 de Agosto de 1988

 

Cá estou novamente. A minha vida visível é um ritual ortodoxo.

 

Miguel Torga, in Diário XV

 

Chaves, 10 de Setembro de 1985

 

Passado, presente, futuro. Assim a maioria dos mortais parcela a duração e a vive em conformidade, na saudosa lembrança, na quente intimidade, na confiante expectativa. Mas há aqueles sedentos de absoluto que, agonicamente desvinculados das horas, parecem siderados num tempo parado.

 

Miguel Torga, in Diário XIV

 

 

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Claro que as palavras dos poetas também são muito convenientes para quando estamos sem tempo e jeito!

 

Até amanhã, em Chaves!

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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

O olhar de Drakkul sobre a cidade de Chaves



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Kumusta!?

 

Kumusta é olá em Taglog (Filipino), ou seja, o Tagalog é a língua nacional e oficial das Filipinas e, é falada por 23% da população. Parece minoria, mas não é, pois os restantes 77% dividem-se por 175 dialectos.

 

Apenas uma curiosidade que aprendi hoje no Flickr e que me despertou a atenção. Pois quando li Kumusta em português, soou-me a “Como está!?”.


 

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Uma curiosidade que vem a propósito das fotos e do nosso convidado de hoje, que dá pelo nick de DrAkKuL .

 

Pois hoje é terça-feira e já sabem que às terças, o olhar é de alguém que passou por Chaves e levou a cidade registada em imagem.


 

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Do nosso convidado nada sei ou pouco sei. Apenas lhe conheço o nick com que assina as suas fotos no flickr e a data das fotografias, que são do passado mês de Agosto. Quanto ao resto, mais nada, apenas a sua galeria de fotos que fica aqui para uma olhadela, onde por certo encontra belas fotografias de todo o nosso Portugal.

 

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Mesmo pouco ou nada sabendo do seu autor, agradeço-lhe as fotos com que ilustro o post de hoje.

 

Até amanhã, mais uma vez na cidade de Chaves.

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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Chaves, à procura de um pormenor e um sinal...



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Estipulei por aqui que as segundas seriam os dias de pormenores da cidade. Claro que mais uma vez me meti em trabalhos e, neste caso, não é pela falta de pormenores mas antes pelo contrário. Há tantos pormenores nesta antiga e velha cidade, que se torna difícil escolher o caminho.

 

Sempre ouvi os que têm mais idade. Tenho pelos nossos “queridos velhos” um carinho especial, mas mais que isso, respeito. Respeito toda a sua vivência de muitos e difíceis anos, tantos, que hoje até se sentem em estado de graça.

 

Mas por onde ir afinal na descoberta dos pormenores de hoje!?

 

Uns raios de sol, vindos directamente do céu, iluminaram o Sr. Duque e a sua espada. Apenas o seu olhar posto na cidade velha e a ponta da sua espada. Entendi o momento como um sinal, e olhando o seu olhar e o apontar da sua espada, logo senti que o caminho a seguir seriam as ruas do Centro Histórico.

 

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Pois fomos até lá. Esperei uns instantes por outro sinal, mas como nada caía do céu, resolvi entrar ruas adentro, entretanto fui fotografando aqui e ali.

 

Um pormenor de uma porta, um pormenor de uma varanda, outro pormenor de parede com porta, mais um pormenor, uma janela, uma parede ou o que resta dela. Estava então na Rua do Correio Velho.

 

Lembrei-me da ilha, do Cavaleiro de seu nome, parece estarem para breve as prometidas obras. Espreitei no buteco do Quim, mas não estava. Passei de novo para a Rua do Correio Velho e apareceu-me o “Eu também já vi”, como sempre em cima do acontecimento, disse-me que a parede da sua casa, da parte de trás, já tinha caído e que até andava à procura de um fotógrafo. Perguntou-me se era eu que tirava as fotografias às casas caídas. Disse-lhe que não… e com um “eu também já vi” partiu tão depressa quanto chegou. Definitivamente também não era ele o sinal que eu esperava dos céus.

 

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Espreitei a Rua Luís de Viácos, estava na mesma, regressei Rua do Correio Velho acima. Sempre tomando uma foto aqui e ali, conforme uma cor, uma sombra, uma tábua, um cadeado me chamava a atenção.

 

A meio da Rua do Correio Velho sinto sempre um aperto no coração. Precisamente ali onde outrora eram “ Os Canários”. Recordo sempre com saudade a minha primeira actuação integrada num grupo coral chamado GIEC (penso que era assim). Uma actuação desastrosa por sinal, para nós os “coristas”, pois o público não deu por nada. Eram tempos do pós Abril, cantamos a Grândola, a Gaivota que voava, voava, canções do Zeca Afonso e poemas de António Aleixo. O Grupo não durou muito e só fez duas actuações, a segundo foi em Couto de Dornelas. Olhando agora à distância para o grupo, estou em crer que éramos um grupo de cantares comunista, embora eu nunca o tivesse sido. Mas que raio, estávamos em 1975 e nesse tempo tudo era comunista e socialista ou derivados e os outros, os do contra, eram da direita fascista e fascizante, radicais e até bombistas. Além de puto, nesse tempo ainda acreditava nos ideais de Abril, nas doutrinas, na gaivota que voava, asas ao vento, coração de mar e, eu estava com a revolução da liberdade. De tanto acreditar nos ideais dos políticos de então, hoje custa-me acreditar, e até dos que aparentemente são políticos sérios e filhos de boa gente, eu desconfio.

 

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Mas nos “Canários” ainda tive depois oportunidade de dançar num grupo folclórico…se o mar tivesse varandas/nem que elas fossem de pau/levava o meu amor/ à perca do bacalhau… nunca mais esqueci esta quadra, e até ainda lhe recordo os passos da dança…

 

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Ainda nos Canários, ensaiamos e levamos a público um espectáculo de poesia e movimento, com o chorar da guitarra de Carlos Paredes e poemas de Manuel Alegre. Fátima Patronilho, para quem ainda se lembra dela, então uma jovem professora primária também cheia de ideias, agarrou num grupo de jovens e pôs-se a dar cultura ao povo… que respondeu sempre com casa cheia, muitos aplausos e choros na assistência.

 

 

Seria este o sinal que eu esperava do céu!?

 

Não, pensando bem isto são recordações de bons tempos inocentes de uma juventude que tinha acabado de descobrir a liberdade, e por isso o aperto no coração quando ainda hoje passo por aquilo que outrora foram os “Canários”, por sinal uma belíssima casa de espectáculos, que na altura não rivalizava em grandeza com o Cine-Teatro de Chaves, mas que rivalizava em beleza e muitas ideias que por lá passavam. Curiosamente ambas as casas de espectáculos morreram e ambas deixam saudades.

 


Mas havia que ir à procura do sinal.

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Ali mesmo na travessa das caldas, onde o romântico banco de jardim namora o marco de correio, encontrei outro sinal, mas também este não era o sinal que esperava, mas antes um daqueles sinais que existem e ninguém vê e para o qual também ninguém é responsável e que para os tais números de Lisboas, números das estatísticas que vão para a Europa, estes “desvalores” não existem. Aliás haverá algum mal ou observação a fazer a alguém que deita uma sonecazinha ao sol apetitoso de Inverno!?

 

E fui andando, agora Rua Direita acima. Afinal já se fazia tarde e o electrodoméstico (como diz o Beto), estava estacionado no Largo do Anjo.

 

Passei pelo nobre Largo da República, e nada me despertou.

 

Passei junto à Santa que até serve de adorno às montras de lingerie, mas também nada de sinais, apenas a curiosa imagem.

 

Por fim chego ao Largo do Anjo, e dou-me conta de um pormenor. A estátua do Padre está de costas viradas para a cidade. Seria este o sinal que vinha do céus e o Duque momentos antes me apontava!? Se tal fosse, porquê é que o Duque me mandou para o Centro Histórico?

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Chegado a casa revelei as fotos, como quem diz – descarreguei-as no computador e pus-me a ver as fotos que durante a caminhada iluminada tinha tirado. Só portas e janelas fechadas, paredes e varandas a cair, cadeados e tábuas pregadas nas entradas…

 

Finalmente compreendi o sinal e também entendi porque é que o Padre do Anjo está voltado de costas para a cidade e às vezes até acorda com uma pedra na cabeça.

 

Moral da estória: Há muitas costas viradas para o centro histórico da cidade, mas a cabeça, só pesa a alguns!

 

Penso ter sido este o sinal dos pormenores de hoje.

 

Amanhã há mais!

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:39
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Da Fonte da Carriça até Vale de Zirma - Chaves - Portugal



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Como o dia estava cinzento, com ameaça de chuva e o tempo (das horas) não era muito, resolvi ir até Vale de Zirma, mas fiquei perdido pela Fonte da Carriça.

 

Não vi carriças, mas vi a fonte.

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Se não soubesse onde estava, diria que não estava no nosso concelho de Chaves, porque tudo por pela Fonte da Carriça e Vale de Zirma é atípico. Começando pela aldeia de Vale de Zirma, que todos me dizem que não é aldeia, mas sim um bairro. Aliás numa das placas toponímicas confirmam isso mesmo “Bairro do Vale de Zirma”, é o que lá consta, mas eu insisto em dizer que é aldeia, pelo menos no que respeita ao oficialmente estipulado, Vale de Zirma é aldeia. Tal como a Fonte da Carriça, embora neste caso, oficialmente não o seja, mas pelas suas características singulares, nada tem a ver com a aldeia onde este bairro está inserido.


 

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Quem toma o caminho para o a Fonte da Carriça, mais parece estarmos a caminho de um qualquer lugar da ilha da Madeira, a inclinação do arruamento não é vulgar pelos nossos lados. Chegados às casas, o xisto substitui o nosso tradicional granito e o colorido das argamassas que colam as pedras, também não é muito comum pelas nossas paragens. Quanto a tudo o resto, à gente e também tradições, estamos no mais puro que há nas aldeias de montanha, e também aqui estes lugares são mais uma vez atípicos, pois embora até estejam na montanha, estão (relativamente) bem longe das aldeias de montanha.

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Sempre houve lugares e aldeias do nosso concelho que me despertavam a curiosidade de os conhecer. Lugares e aldeias cujo nome era e é também curioso. Curral de Vacas, Fernandinho, Nogueirinhas, Granjinha, Cova do Ladrão, Olga, Vila Rei, Almorfe, Vale do Galo, Dorna, Vale de Zirma e Fonte da Carriça. Com o tempo fui-os descobrindo um a um, à excepção de Vila Rei que ainda não a localizei, e verdade se diga, também nunca fui à sua procura (para já). Alguns desses lugares e aldeias foram de encontro as expectativas com que o meu imaginário as tinha envolto, no caso das Nogueirinhas (com o antigo acesso) e da Granjinha, talvez até tivessem ultrapassado as expectativas. As outras e lugares, embora cada uma tenha a sua beleza própria, não surpreenderam tanto.


 

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Também Vale de Zirma e Fonte da Carriça me surpreenderam, principalmente Fonte da Carriça, que e embora as construções interessantes estejam envelhecidas ou em ruínas, e as novas construções nada tenham a ver com o lugar, continua a ser um lugar para ser visto e apreciado com olhos de ver.

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E hoje vou ser mauzinho, pois não vos vou dizer onde ficam estes lugares, ou bairros ou aldeias. Claro que para alguns que vivem na freguesia, principalmente nas duas aldeias mais próximas, estes lugares são mais que conhecidos, mas acredito que a maioria dos actuais habitantes da freguesia, para não falar dos de fora da freguesia, ignoram onde ficam estes lugares.

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Para quem não os conhece, deixo uma pequena ajuda para a sua descoberta: - São lugares bem rurais, mesmo na montanha, mas com olhos sempre postos na urbanidade da cidade. Onde ficam!?

 

Até amanhã, por aí, num local próximo.

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Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Agrações - Chaves - Portugal



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Agrações.

 

Agrações, fica a cerca de  25 quilómetros de Chaves e pertence à freguesia de Póvoa de Agrações, aldeia que passou por aqui no último fim de semana. Aliás tudo que há para dizer sobre Agrações, já foi mais ou menos dito no Post da Póvoa, mas com uma grande diferença, é que Agrações é uma aldeia muito mais pequena que a sede de freguesia e, quanto a população, está praticamente deserta. Apenas oito pessoas ainda resistem a habita-la por inteiro.


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Construções novas também não há. Tudo leva a crer que quando esta diminuta população e envelhecida morrer, a aldeia morrerá com eles, aliás grande parte das suas construções já estão moribundas.


 

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Agrações é um bom exemplo do mal que tomou as aldeias de montanha. Embora seja terra rica na cultura da castanha onde até se admiram imponentes exemplares de castanheiros seculares, em tudo o resto é a pobreza que reina na aldeia.


 

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A grande maioria das construções são um misto de pedra solta e madeira, com poucas aberturas e simples. A própria capelinha é de linhas muito simples e pequena. É de devoção a Nossa Senhora da Conceição, cuja celebração se faz no dia 8 de Dezembro apenas com a realização de uma missa. Já não há festa, pois também já não há gente para festejar ou com vontade de festejar.


 

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Já foi aldeia com gente, com crianças e até com escola. Ainda há poucos anos a escola tinha 5 alunos. Não eram muitos, mas iam fazendo a alegria do largo e da Rua, pois além da estrada de acesso à Povoa, aldeia resume-se a uma rua estreita apenas interrompida por breves instantes pelo único largo, o da capela.


 

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E que mais há para dizer sobre Agrações!? – Talvez falar das panorâmicas vistas que por entre os castanheiros alcançam montanhas e montanhas até às serras do Barroso, ou seja, vistas que atravessam todo o concelho de Chaves.


 

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Tudo o resto é triste e, mais que triste, revoltante.

 

Já atrás disse que Agrações eram um bom exemplo das aldeias de montanha desertificadas. É também um bom exemplo do Portugal profundo, esquecido, isolado e pobre, onde com certeza a electricidade e a estrada asfaltada chegaram tarde demais e nada são ou pouca força tiveram para reter a sua população. É uma pequena aldeia, quase um lugar, mas que sempre o foi, e que, com certeza também, é habitado desde há centenas de anos, senão milenar.


 

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Não há politicas, nem qualquer interesse por parte de quem pode e manda para manter estas aldeias de montanha. Para Lisboa, e refiro-me sempre a Lisboa porque infelizmente é desde lá que se vê todo o país e que se decidem todas as política para Portugal, aldeias destas não existem e já há muito que são a apregoada paisagem. Há outras preocupações e prioridades que todas estão relacionadas com números e estatísticas daqueles que sempre puderam e mandaram. Querem ser igual à Europa dos TGV’s, dos grandes aeroportos, das pontes maiores da Europa, dos grandes eventos como as Expo’s, Europeus de futebol, agora já se fala no Mundial e, não tarda nada, são candidatos a uns Jogos Olímpicos. Afinal ainda somos o Portugal das grandes descobertas, o Portugal dos grandes feitos, onde toda a gente estuda até à licenciatura com disponibilidade até da alta tecnologia ou de pelo menos um PC portátil por aluno. Inventam-se até licenciaturas que muitas delas nem se percebem muito bem para que servem, além de irem servindo para engrossar os números dos desempregados e se não somos os maiores, queremos fazer figura como os grandes.

 

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Entretanto e enquanto os de Lisboa andam entretidos com os grandes feitos e com as figuras que fazem nas televisões com as aldrabices que nos tentam impingir, há todo um povo, uma cultura e tradições centenárias que vão morrendo como os poucos velhos das aldeias e com as próprias aldeias.

 

Como diria O’Neil, “Velhos, meus queridos velhos” que são humildes e vivem até felizes e contentes nos seus velhos lugares, porque os de Lisboa lhe dão uma reforma com a qual não chegam a viver, mas apenas sobreviver e que nem se quer lhes chegar para pagar um táxi das suas doenças. Uma reforma que para muitos dos senhores de Lisboa apenas chegaria para pagar um jantar com dois ou três gajos porreiros.

 

“Velhos, meus queridos velhos” que estão eternamente agradecidos às reformas que lhe caem de Lisboa, reformas que nem sequer esmolas são.

 

Falo dos de Lisboa, mas os de cá também não estão isentos das culpas e dos males das nossas aldeias. Às vezes a electricidade, o alcatrão, a água nos canos ou a merda nas fossas, não chegam para manter as nossas aldeias abertas e vivas, enquanto que na cidade também se vai fazendo figura (à escala provinciana) do grande que somos ou pretendemos ser (ou aparentar).


 

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Claro que mais uma vez me estou a meter em coisas para as quais não fui chamado e das quais até nem percebo nada. Os iluminados de Lisboa (ou não) é que sabem e,  até nem gostam de ser contrariados. Depois, claro que também há os que vão atrás do homenzinho da frente e ficam contentes com apenas dizerem méeeeeeeee! Enquanto vão deixando o chão sarapintado de bolinhas.


Claro que hoje até é para para falar de Agrações. Agrações que em vez de Agraciada é Agredida...

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Até amanhã noutra aldeia do nosso concelho, entretanto se estiver pela cidade, não pecar mais um grande evento a acontecer hoje e amanhã no Espaço Adrat, a Feira de stok's, onde irão participar, varias lojas do Centro Histórico da Cidade de Chaves tal como: LOOK OPTICASISLEY,  BENETTON, PATELA,  TRIMPH,  PARFOIS,  MIKEDAVIS, CASA, DECOR,  MUNDIAL SPORT, BOM PÉ, ENTRE OUTRAS…

 

A vida na cidade sempre foi mais colorida!

 
Diz a Procentro para não perder esta oportunidade, e aproveitar os 'PREÇOS'  fantásticos.

 

Infelizmente os “nossos queridos velhos” estão encerrados para balanço nas suas aldeias, mas pela certa lamentam não poder vir à cidade gastar algum, Óh! Se lamentam!

 

Claro que, não sei se perceberam, que todo o texto deste post foi inventado para apenas arranjar lugar para as fotos de hoje. Pois tudo vai bem por aqui… nada disto é real…Olá então como vais!?

 

Eu, definitivamente, fico-me por aqui, mas apenas por hoje!

 

Até amanhã!

 

 

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:53
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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Discursos Sobre a Cidade



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Texto de Gil Santos

 

nega zé nega

 

O Tâmega, com uma extensão aproximada de 145 quilómetros, é um rio internacional secundário que nasce à altitude de 960 metros na serra de S. Mamede em Verin na província de Ourense  na comunidade autónoma da Galiza. Termina o seu curso desaguando em Entre-os-Rios no rio Douro. Ao longo do seu trajecto, atravessa duas cidades, Chaves e Amarante. Espreguiça-se desde Verin e até ao termo da cidade a que os romanos chamaram Aquae Flaviae, num vale resultante da uma falha tectónica responsável pelas ferventes águas das Caldas de Chaves. Por essa Veiga entrou Soult em 1809 com o seu exército na segunda invasão francesa, tomando a praça de Chaves ao Reino de Portugal. O terreno por ali era-lhe muito favorável servindo de alternativa ao plano original, frustrado, de travessia do rio Minho em Valença, por nesse Inverno, invulgarmente pluvioso, tornar o seu caudal demasiado grosso.


Sendo esta Veiga muito fértil, boa de trabalhar e dada a fartas colheitas, foi considerada desde há muito o celeiro da cidade. As margens baldias do rio, nas proximidades da urbe, sempre foram o lugar eleito para poiso de ciganos e outros vadios provindos da vizinha Espanha. Aí se instalavam por ser fácil fartar os jumentos e sempre dar para rapinar algumas hortaliças do renovo das muitas hortas que por ali havia para sustento da prole. Com um património cultural sui generis, estes gitanos eram gente pobre, que vivia do expediente no incessante nomadismo de terra em terra. A sua origem perde-se na penumbra dos tempos, por ausência de evidências escritas. Toda a gente os temia não só pela vida errante e obscura que levavam mas sobretudo por nada estar seguro perto deles. O adágio popular “um olho nu burro e outro no cigano”, resultará certamente desta convicção!?... Pela wikipédia fomos informados de que a origem indiana dos ciganos é hoje admitida por muitos estudiosos como a mais provável, com base na sua cultura. Esta gente cigana, cujo verdadeiro nome é Rhom para a maioria dos grupos e Sinto para os demais, é designada vulgarmente por gitana, ou até mesmo zíngara consoante o sítio e a cultura específica de quem a classifica. Hoje espalha-se por quase todo o mundo e não se misturando com a população paisana constitui uma minoria étnica marginalizada, à força de preconceitos etnocêntricos o mais das vezes exagerados.

Ora num belo dia de Primavera, pelo final da tarde, à Galinheira, um sítio nas margens do Tâmega, chegou a família Gimenes. Eram mais do que as mães como é vulgar dizer-se. O patriarca, era um gitano ancião de longas barbas brancas. Vestia inteiramente de preto usando um chapéu que deixava cair sobre os ombros e as costas ligeiramente curvadas por uma malota pouco proeminente, uma melenas brancas, surradas. De tão magro o velho Gimenes parecia tísico. Comandava um exército de gente. Só carroças eram umas vinte. Mulheres, crianças e cães faziam tamanha algazarra que nem a cidade, a meio quilómetro lhe era indiferente.


− Ai rapazes chegou a fim do mundo! Fitchaide as portas que eles estão aí! − Anunciava o cubano em desespero pela cidade.


E a verdade é que estavam. Nada acautelado ou desacautelado lhes escapava e para o tempo em que as portas das casas nem de noite se fechavam era um verdadeiro martírio. A bem dizer não o era para todos porque alguns farsolas com menos escrúpulos, passeando-se sorrateiramente pelas proximidades do acampamento sempre conseguiam, a troco de uma moeditas, conquistar as ciganitas para uma cama de feno. O pior era se algum dos mais velhos topasse. Das duas uma: ou permitiam a aventura e esvaziavam o aventureiro dos seus teres ou se não lhes chaldrasse encetavam-lhes o lombo com uma vara de marmeleiro e nem o cheiro do feno o deixavam provar. Não sei se para contrariar este hábito ou não mas ao Chico Peixinho aconteceu pior. O marlante, na casa dos dezoito anos, logo que soube da chegada dos zíngaros não perdeu tempo, rondou o acampamento e convenceu uma ciganita reboluda a assinar o contrato no fofo da erva seca! A menina de uns bem nutridos dezassete anos e longos cabelos negros, iludida pelos trocos prometidos seguiu-o até a um lameiro guardado pelo S. Brás para feno e que serviria para os esconder do pecado. A um rapazote que por ali fartava um jumento, o desusado movimento não passou despercebido. Logo que percebeu a marosca correu ao acampamento cigano e chamou dois dos seus. Dirigiram-se a uma touça de giesta branca de onde poderiam observar os pombinhos já preparados para o enleio. Chegados e espreitando por entre as fronças das giestas reparavam que a caneta do Chico se encontrava já pronta para prostrar a respectiva assinatura no acordo. Antes que o selassem saltaram em algazarra tamanha sobre os contraentes que estes apavorados ficaram tralhados sem pinga de sangue. À moçoila, um deles pregou tamanha solha no focinho, que a deixou a espirrar sangue por quanto poros aí tinha. Ao Chico foi apertado o gasganete até que se esvaziasse de tudo o que tinha. Como eram demasiado parcos os haveres do guloso, os gitanos não estiveram com meias medidas, despiram-no até ao pescoço e com dois pontapés no estojo da dita caneta puseram-no ao fresco. Ora como passava pouco das quatro da tarde e ainda faltava um bom para de horas para que a noite encobrisse as vergonhas do Peixinho, permitindo que chegasse a casa sem mais desgraças, escondeu-se entre o colmo alto de um centeio verde que por ali havia até que a noite caísse. Quando anoiteceu e esperando pela hora da ceia em que naturalmente andaria menos gente nas ruas, lá se decidiu o Chico a ir para casa. Colado às sombras da noite seguiu até ao Forte de S. Neutel. Daí e até ao Monumento dos Combatentes não houve novidades. Como morava na Rua do Postigo tinha de atravessar a parte mais difícil pelo Terreiro de Cavalaria até às Portas do Anjo. Daí tomaria pela Rua do Sal as traseiras da Câmara até ao Largo de Camões. Se conseguisse chegar à igreja de Santa Maria Maior sem ser visto estaria safo. Até ao Largo de Camões a coisa desenrolou-se sem novidades. Corria Maio, o mês de Maria, na Igreja Matriz finalizava-se a reza do terço. No exacto momento em que o Chico passava na frente da templo saiam dela os devotos. Escusado será contar o resto!.. Os pecados, expiados pelo santo sacrifício, foram repostos de imediato através de impropérios de toda a espécie. A sorte do Peixinho é que o breu das ruas sem iluminação pública e a destreza das suas pernas colocaram-no a salvo antes mesmo que fosse possível reconhecê-lo. O episódio serviu-lhe de lição pois doravante nem nos dias de maior canícula foi capaz de ir até à Galinheira refrescar o pente nas águas límpidas e frescas do Tâmega.

 

Comer por comer, com o objectivo único de sobreviver é uma característica que não distingue o bicho homem do animal do mato. Porém, o bicho homem pressionado pela necessidade imperiosa de uma vida em sociedade tem de o aprender. É precisamente a capacidade de aprendizagem que distingue a cultura da herança biológica e o homem, cigano ou paisano, é forçado a integrar as regras sociais que enformem os seus comportamentos. Assim, ingerir alimento para sobreviver é um acto puramente biológico, alimentar-se de acordo com um horário fixo, determinado tipo de alimentos, usando utensílios e rituais próprios já é um acto social que se aprende de acordo com o grupo a que se pertence e é por isso um acto cultural.


É claro que, apesar de aparentemente a comunidade cigana parecer ausente de cultura própria, também ela a integra submetendo-se aos seus elementos materiais e espirituais próprios ao serviço imperioso de uma coesão social que permita a reprodução dos valores, das crenças das normas e dos comportamentos de modo a garantir a sobrevivência e a distingui-la como cigana. Esta comunidade, portadora de uma cultura que tão bem a caracteriza, no que respeita à gastronomia e aos hábitos alimentares, valoriza determinados costumes que muitas vezes chegam até a chocar-nos. Alguns dos mais bizarros, explicados pela pobreza, respeitam à necessidade de aproveitar todas as oportunidade que o meio lhe oferece.


O Ti Santiago Catrapisca, assim chamado por padecer de um tique que consistia em piscar insistentemente os olhos, morava no Campo da Fonte. Tinha numa das leiras à Galinheira uma pocilga com dois requitos a cevar para o Natal. Numa manhã, quando lhes levava a lavadura para o mata-bicho, um deles tinha esticado o pernil, quiçá de colapso cardíaco. É claro que o bicho morto de morte morrida sem ser sangrado foi imediatamente desprezado pelo. O Ti Catrapisca abriu uma cova funda num dos cantos da campina e fez-lhe o funeral sem ofício. É claro que o acontecimento não passou despercebido à malta do acampamento. A morte cheirou-lhes. Deixaram anoitecer e vai de desenterrar o defunto. Carregado às costas até ao acampamento e pendurado no espeto, haveria de ser o prato principal e único da festança que se preparou em sua memória. O Ti Santiago percebeu bem a que se devia aquela algazarra porque entretanto deu com a cova do pobre defunto esventrada. Não se importou, ficou até contente por ter oportunidade de oferecer aquele manjar pelas alminhas que já lá tinha!...

 

Entre o Tâmega e um campo semeado de erva tenra e verdejante, ceifada aos remendos para os coelhos do Ti Zé Porto, havia um caminho de terra onde os ciganos fartavam os jumentos. Acompanhava um franzino gitano de meia idade um seu filhote que se distraia com uma linha de crina de cavalo pendurada na ponte de uma cana da índia. Num enferrujado anzol usava de isco um farrapito vermelho vivo. Pescava rãs para o jantar num charco estagnado que uma curva do rio fazia. O Ti Zé Porto acabava de ceifar um cesto de erva que carregaria às costas para um palheiro onde provavelmente estava a sua criação de láparos. Usava para a transportar um velho cesto de vime cortando a erva com uma seitoura contrabandeada de Espanha. Ora como um cesto não lhe bondou, deixou a dita seitoura no lugar do corte para ceifar outro. Não foi preciso mais nada, o cigano pai aproveitando a ausência do Ti Zé mandou o rapazote por ela e que a metesse no alforge que o burrito tinha sobre o lombo. Quando o Ti Zé regressou e se preparava para continuar o trabalho, da seitoura nem o cheiro. É claro que dando com os olhos no cigano que se preparava já para zarpar mailo burro, apressou-se a ir ter com ele, questionando-o sobre o desaparecimento da ferramenta. É evidente que invocando uma imensidão de juras à laia cigana negou peremptoriamente que a tivesse subtraído. Perante a insistência do lesado e para tornar mais credíveis essas juras virou-se para o rapaz que agora fingia pescar e perguntou:


- Oh Zei bistes a xiscamandisca deste senhor?!!!

- Está no bisaco mê pai!..

-Nega Zé nega!...


Perante isto o Ti Zé Porto ficou convencido que a dita cuja havia avoado para o reino da ciganada e não havendo mais nada a fazer deu meia volta e ofereceu-a pelas alminhas do purgatório!...


Que Deus tivesse delas compaixão e que a seitoura servisse para encher de felicidade aquela pobre gente!


Em Feces de Abaixo havia mais seitouras!...

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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Em dia de eclipse, duas poses da nossa Top Model, com Lua!



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Neste preciso momento, mesmo por cima da minha cabeça, está a acontecer um eclipse total da lua.

 

Não creio em nada mais para além do palpável e da ciência, mas, não fosse o diabo tece-las, fiz vários registos da nossa Top Model com a lua, antes de ela se eclipsar (a lua, claro). Agora já se pode eclipsar totalmente!

 

É mais um registo da nossa Ponte Romana e, já estava com saudades de a trazer por aqui. Claro que ainda continuo à procura “daquela foto” da nossa Top Model. Felizmente nunca a vou conseguir, tenho a certeza disso. Assim terei o prazer de a ver desfilar dia-após-dia pela passerelle da minha objectiva.

 

Hoje ficam mais duas poses da nossa amante.


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Entretanto e só a título de curiosidade para quem esperou até esta hora para ver o eclipse total da lua, ela eclipsou-se totalmente, desapareceu…o nevoeiro fez o “favor” de baixar em tão nobre momento.

 

Momentos, e amanhã teremos mais um momento de um discurso sobre a cidade.

 

Até amanhã!

 

 

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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

Chaves, em dia de chuva molha-tolos!



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Eu sei que tenho andado por aqui meio cinzento. Solidariedade com o tempo de chuva, com o Inverno, talvez. Mas não tarda ai a Primavera, e na Primavera tudo em nós desperta.

 

Hoje que trago aqui alguns contrastes, curiosamente esteve um dia cinzento, estúpido, daqueles que aparentemente temos um céu escuro, carregado de água e apenas molhou tolos. Um dia sem qualquer contraste, desinteressante até. Um daqueles dias em que apetece estar em casa, à lareira, de pantufas e sem fazer nada. Enfim, um dia pasmado.

 

Mais que contrate é a contradição dos dias.


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Então hoje resolvi entrar nos contrastes da cidade. Apenas contrastes de luz de um dia da cidade. Falta-lhe o amanhecer, eu sei, mas não podemos ter tudo. Apeteceu-me contradizer o dia e deixar também um pouco da noite parda de Chaves.

 

Estou num daqueles dias em que me apetece escrever (com modos de quem fala), sobretudo divagar nas entrelinhas de uma conversa também parda, como se pudesse falar, falar, falar e não sair do cinzentismo das palavras, ou seja, não dizer nada. Mais um contraste portanto, pois o que a mente me dita, transforma-se em devaneios pelas letras do teclado que tenho à minha frente. E chegamos ao virtual.


 

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Tudo é virtual. Em Chaves também tudo vai sendo virtual. Aliás em todo o nosso querido Portugal tudo é virtual. Tão virtual são as coisas (apanhem toda a amplitude de coisas) que até o virtual é uma virtude. Não sei porque raio neste país até o virtual é da família da virtude, pelo menos na forma.

 

Pelas manhãs já se vai substituindo o tradicional bom-dia por um Tudo bem!?. A resposta é invariavelmente a mesma: Tudo bem!. Ontem, resolvi propositadamente trocar o “tudo bem?” por um “Bom-dia!” e recebi como resposta: Tudo bem! . Contrastes da contradição, diria eu, pois todos sabemos quem ninguém gosta de lamechices e lá vamos aviando as pessoas com um “tudo bem”.

 

Sinceramente que não me apetece dizer nada daquilo que estou a dizer, pois apetecer mesmo, apeteciam-me outros devaneios que até nem são devaneios…….. definitivamente desisto por aqui enquanto ainda me resta alguma luz.

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Sempre encontrei conforto nas palavras dos poetas. Torga é para mim um grande poeta, que fez poesia dos dias simples, vividos pelos passos dos lugares que percorria. Era Transmontano que vivia Trás-os-Montes à distância de umas centenas de quilómetros e que como qualquer emigrante não dispensava espraiar por estas terras o verdadeiro significado dos seus dias e que nunca dispensou também uma visita à nossa cidade, mais que na procura de um conforto das nossas águas quentes estou em crer que procurava aqui um conforto espiritual em que a revolta das coisas simples vêm ao de cima. Torga era simples, era Transmontano, era transparente e descarregava nas palavras intensas a revolta dos dias. Lamento que Torga já não esteja entre nós. Cumpriu uma vida, mas simultaneamente sinto-me feliz, por Torga e por ter “desistido” dos seus passos no tempo certo em que uma montanha esconde o sol dos dias e nos deixa apenas com o pardo de uma noite de Inverno em que nunca sabemos como o dia vai nascer.

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Passo as palavras a Torga, com as quais me despeço com um até amanhã, em Chaves.

 

Que cada um leia o que quiser ler nas suas palavras.

 

 

Chaves, 31 de Agosto de 1987

 

Sabe tanto de mim como o poeta que quando nos encontramos sinto-me transparente.

 

Miguel Torga, In Diário XV

 

 

Chaves, 1 de Setembro de 1987

 

Sim, acredito na acção nefasta das pragas. Se a bênção tem efeitos benéficos, por igual lógica a maldição tem de os ter maléficos. Os numes do absurdo podem todos o mesmo.

 

Miguel Torga, In Diário XV

 

 

Chaves, 2 de Setembro de 1983

 

Disse-lhe:

- As coisas boas esquecem. As más é que não. É que só elas deixam cicatrizes.

 

Miguel Torga, In Diário XIV

 

 

 

 

 

Aos do costume, este blog disse nada!

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:42
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

O olhar de Mtwood sobre a cidade de Chaves.

Foto de Mtood in Flickr

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Já sabem que às Terças-feiras temos por aqui um olhar diferente sobre a cidade. Mais um dos tais olhares de alguém que passou pela nossa cidade e fez questão de a registar em fotografia.

 

São sempre curiosos estes olhares que vão dependendo de quem os vê.

 

Interesses pelas cores, pela arquitectura, pelo tradicional, pelo quotidiano, simples registos de recordação ou autênticas obras de arte.

 

Mais que amante, sou um curioso pelos registos que os não flavienses fazem de Chaves.

 

Como sempre os registos de hoje é de mais um fotógrafo descoberto no Flickr, onde apenas deixa o nick de Mtwood e muitas fotos de encanto.


 

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Curiosamente esta última foto faz justiça ao nome da rua – Rua dos Gatos.


Como sempre deixo aqui o link para a sua galeria de fotos, onde podem aprecias as duas fotos que hoje vos deixo aqui e muitas mais fotos dignas de serem apreciadas.

 

http://www.flickr.com/photos/mtwood/

 

Quanto ao seu autor, deixo por aqui as palavras que constam na sua galeria de fotos do flickr:

 

“Photography is important for me and, as many others, I just try to capture an instant of life, a minimal story, a feeling… and share it with other people.

I live in Spain, but feel myself as a global citizen. I discovered Flickr in September 2007 and I´m happy of being able to learn and share so many pictures and comments with people for all over the world.

My camera is a Canon EOS 400D, 18-55mm.”

 

Da minha parte só resta mesmo agradecer ao flickr e ao Mtwood por partilharem imagens como as de hoje a todo o mundo amante da fotografia.

 

Obrigado ou gracias, pois tudo indica que o nosso convidado é Espanhol.

 

Até amanhã, de novo em Chaves.


 
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publicado por Fer.Ribeiro às 02:02
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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

Assinaturas de Mestre - Castelo de Chaves - Portugal



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Então vamos lá a uma segunda-feira de pormenores. Pormenores do Castelo ou da Torre de Menagem de Chaves, se preferirem.

 

Quase sempre quando se visita o Castelo espantamo-nos com a sua imponência e, em como há centenas de anos ergueram pedra a pedra a sua grandeza. Claro que será fácil imaginar quanto esforço e suor humano e também animal está em cada pedra do Castelo.

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Muitos já subiram até lá cima e espraiaram as vistas pela velha cidade, pela cidade nova, pelo vale e montanhas. Vistas que valem o esforço de uma subida.

 

Para quem visita Chaves, é impossível de um qualquer ponto da cidade não avistar o Castelo. Nós flavienses convivemos diariamente com ele, de tal maneira, que até pela silhueta o reconhecemos.

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Reconhecemos-lhe a imponência, grandeza, silhueta e visibilidade. E os pormenores!? – Bem, quanto a pormenores vão-se descobrindo diariamente, às vezes por mero acaso, mas há um pormenor que já não passa despercebido a muitos dos seus visitantes, o pormenor de pequenas gravações em relevo em muitas das pedras e quase sempre surge a mesma pergunta – Qual o significado ou o que são aquelas marcas e gravações!?


 

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Também eu me questionei da primeira vez que as vi, e fui repetido a pergunta até que alguém me respondeu.

 

Pois é muito simples e vendo a explicação tal-qual ma venderam a mim. A gravação é a marca do mestre que trabalhou e colocou a pedra no castelo. Mestre que teria a seu cargo um grupo de pedreiros e a sua marca, funcionava como uma assinatura para mais tarde ser pago o seu trabalho. É uma boa explicação e até prova em contrário, é nela que acredito, embora e como sempre, fiquem algumas dúvidas para as quais ainda não tive explicação convincente. Porquê é que nem todas as pedras são marcadas?

 

Tenhamos então estas marcas como a assinatura de mestre do povo que ergueu estes castelos.

 

Mesmo ao lado e por cima até destas assinaturas de mestre, aparecem hoje outras mais recentes e que eu intitulo como assinaturas de estupidez, que além da estupidez de quem as faz, demonstra também uma falta de formação, educação, civismo, ignorância e respeito pela nossa história que tanto orgulha os flavienses. Um acto criminoso e um atentado à nossa história.

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Já não há respeito!


Até amanhã, com um olhar diferente do meu sobre a cidade.

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:16
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Vilarelho da Raia - Chaves - Portugal


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Ainda há dias dizia que nem todas as aldeias de Chaves são aldeias de montanha. Pois aqui temos um bom exemplo de uma aldeia de vale. Vale sim, mas não é o vale de Chaves, ante os vale galego de Monterrei, ou de Verin, Ou de Oimbra, não sei. Sei que já é vale galego, não estivesse Vilarelho da Raia “plantada” mesmo em cima da fronteira.

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Vilarelho da Raia é sede de freguesia à qual pertencem as aldeias de Cambedo, Vila Meã e Vilarinho da Raia. Tudo aldeias de fronteira.

 

Quanto a população (dados para a freguesia), segundo o Censos de 2001, tinha 619 habitantes residentes, 255 famílias e 509 alojamentos. Comparativamente com 1981  e em termos de população, apenas perdeu 100 habitantes em relação a esta última data. Ou seja, até aqui se nota que não é uma aldeia de montanha, mas que mesmo assim, a maioria da sua população é envelhecida.


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Distribuída por 15,65 km2 e por terras essencialmente agrícolas e alguma floresta, com predominância do pinheiro, carvalho, cereais e vinha. A agricultura é praticamente a única actividade da aldeia, mas nem sempre foi assim, pelo menos até a abolição das fronteiras, pois como qualquer terra de fronteira que se preze, Vilarelho teve os seus destinos ligados aos caminhos do contrabando. Ainda ontem, quando visitei a aldeia, comentava em tom de brincadeira com o meu cicerone, que antigamente só havia duas classes profissionais em Vilarelho, os ontrabandistas e os Guardas Fiscais. Claro que não era bem assim, mas era quase. Aliás Vilarelho da Raia está referenciada como uma das terras dos caminhos do contrabando.

 

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Quanto à sua história e olhando às inscrições das datas nas padieiras das portas, quase todas do Séc. IXX e algumas do Séc. XVIII somos levados a crer que a aldeia será dessa data. Aliás a maioria das construção do seu núcleo são mesmo dessas datas, mas tudo indica que a aldeia é povoada desde a romanização como o seu topónimo sugere, existindo mesmo nos arredores numerosos vestígios dessa cultura destacando-se entre eles uma sepultura, uma ara dedicada a Aipiter Optimo e cerâmica muito variada.

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Vilarelho e as restantes aldeias da freguesia,  também desde sempre desempenhou um papel muito importante na defesa da região e do país sempre que foi invadida. Foi muito sacrificada durante a Guerra da Restauração, saqueada, assaltada e incendiada. mas sempre lutadora e fiel à bandeira portuguesa.

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No centro da aldeia ergue-se a Igreja paroquial, reconstruída em 1698 depois de um incêndio, como consequência das lutas na Guerra da Restauração. Tem por patrono Santiago e perto dela eleva se um artístico cruzeiro, também de linhas barrocas.


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A segunda Invasão Francesa, comandada por Soult, também foi precisamente por Vilarelho que conseguiu entrar em Portugal. Valentes sim, mas poucos para conseguirem impedir que as tropas de Soult entrassem no nosso país.

 

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O seu aglomerado habitacional mostra bem os longos anos de tradicionalismo rural no tipo de construção das suas habitações com varandas expostas ao sol e pátios com entradas carrais para alojamento e protecção de todas as alfaias agrícolas.

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No povoado existem ainda a capela do Senhor das Almas que é muito simples com a sua galilé igualmente simples e a capela da Senhora das Neves que foi edificada em 1711 e depois, deslocada em 1990, para dar lugar à construção de um parque infantil e um campo de ténis, mesmo ali onde Vilarelho termina e a Galiza começa.

 

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Aliás, embora a fronteira ainda exista como delimitação de terras espanholas e terras portuguesas, no local essa separação não é perceptível. Apenas quem for com muita atenção se dará conta do marco, ou dos marcos que separam o reino de Espanha da República Portuguesa. Quanto ao cultivo de terrenos, há galegos que cultivam terras em território português e portugueses que cultivam terras em território galego. Há até a curiosidade já chamada à televisão por José Hermano Saraiva da oliveira que está plantada em solo galego e dá azeitonas em território português e para Portugal (numa das fotos está a famosa oliveira). Curioso também é que mesmo junto à estrada onde passa a linha de fronteira, o terreno (da oliveira) em terras de Espanha é cultivada por um português e do outro lado da estrada, em terras de Portugal, o terreno é cultivado por um Galego. São as tais promiscuidades que eu referia em tempos no Cambedo (Maquis) e que se repetem por todas as aldeias raianas.

 

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Quanto a equipamentos, já se referiu o Polidesportivo. Além disso recentemente a Santa Casa da Misericórdia de Chaves e Boticas instalou aí um Centro Comunitário de assistência social. Esta aldeia sempre demonstrou um grande interesse em actividades histórico culturais possuindo mesmo um belo edifício de construção também recente, com equipamento e um importante Museu onde funciona também a sede do Centro Social Cultural e Desportivo.

 

Como zona de fronteira possuía um Posto da Guarda-fiscal que depois foi transformado num Jardim de Infância e que hoje está fechado.


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Nos arredores da aldeia e em pleno vale, encontra-se a Fonte da Facha onde brotam umas águas minero-medicinais de grande valor terapêutico. Foram objecto de estudo científico e motivo de empenho na sua exploração para desenvolvimento da região onde se situam. Penso que a concessão da exploração dessas águas foi entregue à empresa que explora também as Águas de Carvalhelhos, no entanto e por motivos que desconheço as águas continuam desaproveitadas. As características destas águas são idênticas às de Vidago e Pedras Salgadas.

 

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E ainda antes de entrarmos nos “finalmentes” um referência aos três grandes bairros da aldeia, ou sejam, como quem desce, o Bairro de Cimo de Vila, o Bairro do Meio do Povo e o Bairro do Campo que todos eles se desenvolvem ao longo de uma das duas ruas principais da aldeia, pois a outra é a que vem de Chaves em direcção ao Cambedo e cruzam-se, como não podia deixar de ser, no largo principal junto ao cruzeiro.

 

Quanto a festas e embora a capela do Campo seja de dedicação à Nossa Senhora das Neves e a igreja de devoção a Santiago, a festa é em honra do Sr. das Almas e realiza-se em finais de Agosto embora o dia seja o primeiro Domingo de Setembro.

 

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Gostaria de falar ainda das tradições, em especial de uma: a da Calheia dos Namorados, tal como gostaria de vos deixar aqui muitas mais fotos, mas ficará para uma segunda oportunidade, pois motivos de interesse não faltam em Vilarelho da Raia. 

 

E agora vamos à hospitalidade da aldeia. Tal como no Cambedo, a hospitalidade de Vilarelho é muito perigosa, ou seja, é terra de gente amiga que tem boas adegas com vinhos ainda melhores. Claro que mesmo acompanhados da respectiva bucha que pode ir do presunto, aos queijos, azeitonas bem curadinhas e outras coisas que tais, o vinho é do bom (muito bom), aprecia-se e convida a ser bebido. Se não nos ficarmos pela prova, corremos o risco de dotar a estrada municipal de regresso a Chaves em via dupla e virtualmente com características de auto-estrada. O problema é que não deixa de ser uma Estrada Municipal, e ainda por cima estreita. Embora tenhamos pena, convém não passar além da prova numa qualquer adega que espreita para nós, principalmente se formos condutores.

 

E vamos aos créditos.

 

O meu cicerone de serviço foi um já velho amigo que embora viva no Porto não dispensa uma visita às suas terrinhas do coração. Cambedo e Vilarelho, porque afinal ele é das duas aldeias. A adega o vinho, presunto e azeitonas, mesmo ao lado de uma curiosa mina foram de uma quinta quase museu rural, com muito milho rei e muitas alusões azuis e brancas e, que embora tenha o reino de Espanha mesmo ao lado nada têm a ver com a monarquia, mas antes com a bola.

 

Os créditos de hoje vão então, para além da própria aldeia e dos seus resistentes, para o Manuel Calvão Pires e para o João Sanches aos quais agradeço a companhia e hospitalidade.

 

Até amanhã, de volta à cidade.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:56
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Escariz - Chaves - Portugal



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Em 16 de Dezembro de 2006 este blog passou por Escariz e dizia eu então:

 

“Escariz é uma das 10 aldeias da freguesia de S.Pedro de Agostém. Fica a 10 quilómetros de Chaves, bem no meio da montanha. É uma daquelas aldeias em que para a conhecer é mesmo necessário ir até lá, pois não fica na passagem para lado nenhum. Passa-se ao lado, bem ao lado na Estrada Nacional Nº 311-3, que liga Loivos ao Peto de Lagarelhos. Estrada que é um autêntico miradouro sobre a pequena aldeia, pois esta encontra-se bem lá ao fundo numa cota inferior à estrada. Vale a pena parar um pouco que seja para apreciar as vistas sobre a aldeia e o encontro de montanhas que se prolonga para lá de Loivos.

Quanto à aldeia em si, é mais uma aldeia de montanha que lhe segue todas as características e que tal como se pode ver na foto, se resume a meia dúzia de casas e talvez menos famílias.”

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Se em relação ao primeiro parágrafo mantenho tudo o que disse então, em relação ao segundo tenho que fazer uma correcção.

 

Acontece que quando escrevi o post de 2006 não desci à aldeia e a última vez que o tinha feito teria sido há mais de 20 anos. Da estrada deu-me impressão que a aldeia seria uma das muitas que sofria do mal da desertificação das aldeias de montanha, muitas casas velhas em apenas três ou quatro se notava edificação recente ou tratada. Puro engano. Há que descer ou subir às aldeias, entrar por elas adentro, falar com as pessoas, assistir às suas vivências, beber da sua água das fontes…enfim, entranharmo-nos nas aldeias para a ficar minimamente a conhecer.

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Embora a proximidade da Estrada Nacional e da cidade, Escariz vive habituada a poucas visitas, pois não fica à mão para nada. Quando um estranho como eu entra aldeia adentro, ainda para mais de máquina fotográfica na mão, logo ali começa um inquérito aos nossos propósitos e, se não começa, sentimo-nos na obrigação de dizer ao que vamos. Geralmente os primeiros por quem somos recebidos é pelos cães. Primeiro ladram, depois aproximam-se, depois cheiram-nos e de seguida vão-se embora à sua vida ou então fazem questão de nos acompanhar na visita. Geralmente, cumprimento-os, falo com eles e logo compreendem que vamos por bem. Quanto às galinhas, essas, não nos ligam e lá seguem na sua vida do esgaravato à procura de qualquer coisa que lhes encha o papo. Os gatos são por natureza ariscos e geralmente também não são de grandes conversas. Preferem ver-nos de longe ou então são tudo o contrário e pegam-se a nós enquanto vão desenhando oitos entre as nossas pernas.

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Depois do inquérito do costume, lá fomos entrando na conversa e na aldeia. Surpreendeu-me, pois nunca esperei ver tanta gente jovem e tanta vida nas ruas, ou na rua, pois quase se resume a uma. Vida com crianças nas suas brincadeiras e vida própria dos trabalhos da aldeia e do campo. O rebanho, o tratar dos campos, a lenha… fez-me lembrar as antigas aldeias povoadas de gente em que cada qual vai aproveitando a luz do dia para os seus afazeres que só dão descanso ao corpo pela noite. Felizmente para o descanso que as noites de Inverno são longas, já para os afazeres os dias são curtos.

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Reponho então a verdade quanto a esta aldeia e não são meia dúzia de casas habitadas e outra tanta gente, mas segundo apurei ainda são à volta de dezassete as casas habitadas, outras tantas famílias, gente jovem e algumas crianças, mas não o suficiente para terem direito a escola na aldeia. Emigrantes, também os há.

 

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Claro que esta vida de aldeia, do Sábado à tarde, não se repete durante a semana, pois as crianças têm que abalar para a escola de outra aldeia e os pais lá vão fazendo pela vida como podem, na cidade ou/e nas suas profissões por outras paragens, mas sempre fica o guardador de rebanhos e os resistentes. Claro que à noite todos regressam, pois há que dar descanso ao corpo para um novo dia.

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Na minha documentação e nas minhas pesquisas sobre a aldeia apenas encontrei o seguinte: “Escariz, topónimo de origem franco germânica, é uma pequena aldeia com algumas casas desabitadas. Tem uma capelinha da devoção a Santa Catarina”.


Além da devoção, Santa Catarina tem direito a festejos, claro que são festejos ajustados à “grandiosidade” da aldeia, que todos os anos lá se vai realizando no 25 de Novembro.

 

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E Escariz serviu-me de lição ou de muitas lições, e uma delas, talvez a mais importantes, foi a de nunca julgar as aldeias pela aparência e nunca às definir à distância.

 

Até amanhã, por aí, numa outra aldeia de Chaves.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:27
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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Discursos Sobre a Cidade



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Texto de Blog da Rua Nove

 

 

Chaves é, para mim, uma cidade de mistérios e de sonhos. Uma cidade de fugazes visitas, durante a minha infância, e de intermináveis descobertas durante a adolescência.

 

Uma cidade por onde ainda hoje pairo, estendendo o olhar ansioso pelos telhados abaulados de antigas casas, movendo-me nostalgicamente por entre a meia-dúzia de sinuosas ruas medievais, lamentando que a cidade velha seja, afinal, tão alinhada, tão ordenada e tão clara na sua malha urbana. Porque esta cidade, a minha cidade, continua a ser uma cidade de vielas, de becos e de ilhas emaranhadas, de ruas nunca percorridas, de mundos sonhados e vidas nunca vividas.

 

Uma cidade feita da memória de pátios interiores que poucos conhecem, de quintais e jardins escondidos, de velhas chaminés industriais, esquecidas e ameaçando ruína, de cata-ventos a culminar clarabóias recortadas contra a linha escura e omnipresente do Brunheiro, eterna guarda-avançada das terras de Montenegro.

 

Uma cidade que escapa a quem vê apenas as fachadas baixas da Rua do Olival, as cantarias desenhadas a luz e sombra da Rua de Santo António, as sacadas de ferro forjado da Rua de Santa Maria ou a elaborada estrutura em madeira que sustenta as vidraças de algumas janelas da Rua Direita. Uma cidade que ainda se estende até ao campo descendo pela Rua Verde e atravessando logo ali o Ribelas, numa vereda esquecida que serpenteia entre quintas e leva até Santo Amaro, ou então passa o Tâmega e se perde depois nos inúmeros caminhos da veiga.

 

Uma cidade sem os grasnidos ou a mancha escura dos corvos de Évora e do Alentejo, antes com a mancha fugidia dos pardais que se reúnem às dezenas no fim de uma longa tarde de verão, chilreando sem parar, sob as folhas de uma velha e solitária palmeira. Uma cidade cujos silêncios transparentes se estendem pelas longas noites de inverno, se diluem nos vapores das Caldas e se solidificam, brancos e estaladiços, nas geadas, sempre surpreendentes, de uma manhã que parece igual às outras.

 

Chaves é, ainda, a cidade impossível. Aquela que conserva a ternura do nosso passado, os carinhos da nossa infância, a alegria que deixámos de sentir. Aquela que conserva muito do que poderíamos ter feito e não fizemos. Aquela que se nos mostra como a cidade que existe eternamente dentro de cada um de nós, cristalizada no tempo e no espaço. E aquela que, apesar de tudo, já não existe.

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