12 anos
Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Nossa Senhora das Brotas - Chaves - Portugal



.

“Já ouvi os foguetes, portanto também deve haver festa. Se puder ainda lá dou um salto e depois logo se verá” deixei esta resposta nos comentários do post anterior a um amigo e também colaborador deste blog, um flaviense ausente que concerteza, como muitos, recordam com saudade a data de hoje e a festa da Srª das Brotas.

 

Pois afinal pude mesmo lá dar um salto, pois para além da curiosidade de ver a festa, trazia também comigo a curiosidade de ver o forte por dentro e como ele ficou após as recentes obras. Como o forte raramente abre as suas portas, há que aproveitar estas oportunidades e lá fui eu.

 

.

.


 Havia festa sim senhor, afinal os ditados populares têm sempre razão e claro que “não há fumo sem fogo” que traduzido para o presente caso quer dizer que onde há foguete no ar, há festa no chão, ou pelo menos tentativa de festa.

 

Esta festa faz-me lembrar as aldeias de montanha em que antigamente não tinham água canalizada, electricidade, saneamento, telefones nem asfalto nos caminhos mas abarrotavam de gente. Agora que têm tudo, não têm gente. Com a festa da Srª das Brotas, acontece o mesmo. Quando não tinha as mínimas condições, estava cheia de gente. Agora que tem cara lavada e todas as condições para lá se fazerem grandes festas, não tem gente.


 .

.


Já foi uma grande festa e nunca cheguei a perceber muito bem porque a deixaram morrer e agora que há toda a vontade de meia dúzia de resistentes, a festa não tem tido muita adesão, mas mesmo assim ainda se reúnem duas ou três das tradicionais merendas, há foguetes no ar e muita música para dar até com interessantes meninas a incentivar a dança.

 

A única merenda que existia dentro do recinto era do pessoal da USAF (Universidade Sénior de Chaves), gente simpática que pôs a merenda à disposição do repórter, o que agradecemos.

.


.

 

Uma palavra de apreço também para os resistentes da festa, os seus organizadores que tudo fazem para retomar a antiga festa.

 

E é assim que vai indo a Srª das Brotas de hoje. Fica a reportagem possível de fim de tarde.

 

Já a seguir, o post de Terça-feira, que infelizmente não serão os habituais olhares de outros, pois motivos de força maior obrigaram-me a alterar o post previsto.

 

Até já.

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:37
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|  O que é?

Pormenores de Chaves - Clarabóias



.

As festas da terrinha, além de serem boas para a alma e agradáveis para a barriguinha, trazem com elas outras coisas boas. Uma delas e, das que mais me agrada, é a de trazer a Chaves alguns amigos do tempo de Liceu, ou seja, do tempo em que éramos putos. O Natal, a Páscoa e a Feira dos Santos traz à terrinha muita dessa rapaziada, agora mais gordos, alguns já com cabelos brancos, outros mais para o careca… enfim, menos jovens. Aproveito sempre para tomar um cafezinho com um ou outro amigo desse tempo, recordar alguns dos muitos bons momentos, rever alguns dos nossos sonhos e até projectos que trazíamos na algibeira, alguns até interessantes.

 

Pois nesta última Páscoa lá fui tomar um cafezinho com um desses amigos e quando já estávamos em maré de despedida, enquanto subíamos a Rua Direita em apreciação também dos muitos pormenores com que o casario da Rua nos brinda, veio-lhe à lembrança um antigo projecto meu, de há uns bons vinte e tal anos atrás, o das clarabóias de Chaves.

 

O projecto era simples, pois apenas constava em recolher em fotografia todas as clarabóias de Chaves para mais tarde as reproduzir em desenho pintado. A primeira fase (recolha fotográfica) quase ficou completa na totalidade. Na altura ainda não me dedicava às lides da fotografia, como tal, tive que recorrer a um amigo para essa recolha, um amigo que tivesse máquina fotográfica, percebesse de fotografia e sobretudo tivesse paciência para aturar um dos meus devaneios. Recorri ao Dinis Ponteira que já então tinha a paixão da fotografia. Por uma ou outra razão, a recolha não foi concluída e o projecto das clarabóias ficou em banho-maria durante uns anos. Mais tarde (uns dez anitos depois), em mais um dos meus devaneios, retomei a ideia do desenho, mas com as gravuras do centro histórico. Penso que nunca agradeci ao Dinis a sua paciência por me ter aturado, mas não foi por falta de gratidão, mas apenas porque o projecto se foi adiando e depois acabou no esquecimento. Obrigado Dinis por esse momentos, dos quais ainda conservo as provas fotográfica em P&B. Dinis Ponteira que é um dos meus companheiros de viagem de bloguear Chaves, com link ao lado, na barra lateral.

 

Sem retomar o antigo projecto das clarabóias em desenho, retomo-o em fotografia, agora com as minhas fotografias, cuja aprendizagem, alguma técnica e truques também o devo ao Dinis.

 

Sem maçar muito, de vez em quando, vão passar por aqui algumas clarabóias e seus pormenores, às segundas-feiras, que tal como confidenciei com o meu amigo que me trouxe à recordação as clarabóias, é o meu dia de falta de inspiração, de falta de vontade, um dia sempre assinalado a texto branco com fundo negro nos meus calendários. Vá-se lá saber porquê! Mas antes dar-me para clarabóias e  pormenores de Chaves do que para lamentos, pois esses, talvez por serem sinceros e sentidos, nem sempre agradam a toda a gente.

 

Até amanhã, de novo em Chaves, com o olhar sobre a cidade de alguém!

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:53
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|  O que é?
Domingo, 30 de Março de 2008

Praia de Vidago - Chaves - Portugal



.

E hoje fazemos mais uma saída da cidade de Chaves e vamos até ao nosso concelho rural, ou quase, pois não vamos até nenhuma aldeia, mas até à Praia de Vidago.

 

Esta coisa de hoje em dia se passar as férias de verão nas praias de mar, não é de sempre. Aliás aqui pelos nossos sítios, tempos houve, em que eram o destino de férias de muita gente. Refiro-me claro às nossas estâncias termais de Vidago e Chaves, contando ainda também com outras da redondeza como Carvalhelhos, Pedras Salgadas e Sendim (concelho de Vinhais). Realçando-se as zonas termais de Vidago e Pedras Salgadas, às quais também estão associadas às Águas Minerais. Realce este pelas infra-estruturas que foram criadas para tal, acompanhadas de um autêntico parque hoteleiro, neste caso, realce para Vidago.

.


.

 

Mas como ia dizendo e ao que consta, na altura em que o termalismo atingiu o seu auge, o sol e a aragem do mar não eram locais muito recomendados para a saúde, principalmente a saúde de espírito, pois o que estava na moda, eram as termas, e associadas a elas, havia todo um ambiente feito para turista consumir.

.


.

 

Infelizmente para nós, as termas deixaram de estar em moda e a praia é o que está a dar. Pode ser que venha a acontecer como a sardinha, a mesma que antes não era muito recomendável para a saúde pela sua gordura e que agora se chegou à conclusão que a gordura da sardinha até é saudável.

 .

.


Tudo isto para chegar à praia de Vidago, pois também há não muitos anos atrás, as praias fluviais é que estava a dar e estiveram (pelo menos na minha recordação possível) durante umas duas dezenas de anos na moda do povo, claro.

 

.

.


Já muitas vezes se falou aqui no blog e na blogosfera flaviense dos bons tempos do Açude de Vila Verde da Raia. Era a praia por excelência do pessoal da cidade de Chaves. Depois havia ainda pequenos “clubes” mais privativos como a Galinheira, o Tronco, a “Casa do Matias”, e por esse rio fora, cada sobra de amieiro ou lameira, era uma praia, às vezes até quase privativa.

 

Pois Vidago também tinha a sua praia, e até houve uma época em que esteve na moda e com a vantagem de ter, em algumas das suas épocas, um ponto de apoio com bar e até restaurante na casa da Praia de Vidago.

 

Com a modernidade, a tal que os políticos tanto gostam de apregoar, o Rio Tâmega foi esventrado em tudo quanto era sítio. O betão da modernidade precisava de areia e no rio bem como nas sua redondezes, havia areia à farta. Depressa o Tâmega virou a mina de exploração de areias, a água deixou de ser transparente e as praias de mar também se tornaram mais apetecíveis, atractivas e acessíveis. As praias do Rio Tâmega em Chaves morreram e sem retorno, pois a seguir à areia vieram os esgotos e a poluição de um crescimento acelerado da cidade para o qual não havia as infra-estruturas básicas, principalmente no que respeita ao tratamento de lixos e esgotos. Coisas da modernidade.


.



A Praia de Vidago, mesmo depois de deixar de ser praia fluvial, ainda tentou manter na “Casa da Praia”, um lugar atractivo e simpático com o rio por companhia. Desde bar, a restaurante, com bons tempos até de música ao vivo e mesas espalhadas pelas sombras dos amieiros, tinha todo o romantismo convidativo a um passeio quase propositado até lá. Mas também este espaço morreu e hoje está dotado ao abandono. Continua a ser um espaço bonito, mas por apenas uns breves minutos.

 

A Praia de Vidago também já faz parte da história e sem a vida da “casa” não há atractivo e depois, a “transparência” do rio também não ajuda, e já nem falo dos cheiros.

 

Claro que já não recomendo fazer praia na Praia de Vidago. À “Casa” também já não vale a pena ir, merendas, muito menos, mas ainda vale a pena passar por lá e apreciar a beleza que ainda existe. Abandonada, é certo, mas ainda merece uma passagem por lá, as fotos acho que são testemunha disso mesmo.

 .


 

.


Para quem não sabe onde fica, é fácil. A partir de Chaves, imediatamente antes do nó da auto-estrada de Vidago, no lugar da Ponte Seca onde se toma a estrada para Boticas, Pinho, Souto Velho e Anelhe. É só seguir a estrada e enquanto for a descer até ao Rio, vai bem. Quando chegar ao rio, é aí a Praia de Vidago.

 

Até amanhã de regresso à cidade.

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 04:13
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|  O que é?
Sábado, 29 de Março de 2008

Póvoa de Agrações - Chaves - Portugal



.

Há dias, por um quase indesculpável lapso, dediquei um post à Póvoa de Agrações com imagens de Pereiro de Agrações. Não teria dado conta se não tivesse sido alertado num comentário pelo Presidente da Junta das terras de Agrações. Claro que já fiz as devidas correcções e já pedi desculpas aqui no blog e pessoalmente ao Presidente da Junta, que verdade seja dito, não se mostrou incomodado em nada com o assunto, antes pelo contrário. Fiquei a pensar sobre o assunto, e para tudo há uma explicação, é que falar de Pereiro de Agrações e falar de Póvoa de Agrações, é quase falar da mesma coisa, ou seja, a identidade entre ambas é tanta, que tudo que disse sobre o Pereiro se aplica à Póvoa, quase sem excepção.

.

 


.

 

Mas hoje (já confirmei e não há engano) vamos mesmo até à Póvoa de Agrações.

 

Geograficamente falando, quando nos referimos a Agrações estamos logo a referir-nos a uma pequena região que tem as mesmas características. São características de montanha em que tal como já disse anteriormente a respeito destas terras, as aldeias moldam-se e colam-se às suas respectivas montanhas e, conforme a montanha assim é a aldeia.

.

 

.

 

Também a Póvoa de Agrações, além de se moldar e colar à montanha, entranha-se por ela adentro, confunde-se com ela, aconchega-se a ela, protege-se com ela. É tanta a intimidade e cumplicidade da montanha com a aldeia, que muitas das vezes a montanha entra com os seus grandes rochedos pelas casas adentro.

.

 

.

 

Póvoa de Agrações é sede de freguesia, à qual pertencem as aldeias de Agrações, Dorna, Fernandinho e Pereiro.

 

Póvoa fica a 23 quilómetros de Chaves e o principal acesso (asfaltado) é feito a partir da famosa E.N. 314 até ao Carregal, aí vira-se à direita e é só seguir as placas. É o caminho mais longo, mas o melhor, pois se tomarmos o caminho mais próximo, via  Loivos e Pereiro de Agrações, temos entre o Pereiro e a Póvoa um estradão em terra batida, que embora transitável, é em terra batida. Pelo que conheço de todo o concelho, penso que só há três ou quatro casos de aldeias vizinhas e da mesma freguesia que têm ligações em terra batida, mas em nenhum desses casos é tão grave como entre o Pereiro e a Póvoa, pois embora apenas distem uma da outra cerca de 1 quilómetro por estradão, por estrada asfaltada são cerca de 30 quilómetros. Penso que um bocadinho de asfalto entre as duas aldeias, a todos ficava bem.

.

 

.

 

Quanto a população residente é de 294 habitantes (dados para a freguesia do Censos 2001) contra os 631 habitantes que tinha em 1981 (dados Censos 1981 corrigido em 1989) e tenho pena de não ter dados dos anos 60 e 70, pois concerteza que a diferença ainda se avolumava mais. Embora os dados sejam da freguesia, a Póvoa, tal como todas as aldeias pequenas de montanha, tem contribuído para esse abaixamento da população residente, que é bem notória numa visita a aldeia, onde a pouca gente que a habita, está envelhecida.

.

 

.

 

É mais uma das aldeias que a continuar como até aqui, estará quase condenada a desertificação total e a razão da partida (insisto) é sempre a mesma ou seja, desde que a agricultura deixou de render para as despesas, não há nada que prenda a gente jovem às aldeias. Já é comum este lamento e até já estamos habituados a ele, mas ainda há muita gente e resistentes que não se conformam com a situação e só a morte os fará desabitar estas aldeias. Entretanto, quem manda e pode, assiste impávido e sereno à morte desta aldeias que vistas de S.Bento ou Terreiro do Paço e doutros Paços mais próximos, são apenas paisagem de montanha.

.

 

.

 

E desculpem mais uma vez os lamentos, mas dói entrar numa aldeia e não ver ninguém na rua.

.

 

.

 

Póvoa de Agrações, freguesia, tem uma área total de 7,93 km2 e a sua principal produção é a castanha, dada a sua localização, nas encostas da serra da Padrela que a separa das terras de Aguiar. No seu espaço rural são vastos os soutos de castanheiros e nogueirais entremeados com algumas manchas de pinheiros. Pequenas vinhas, algumas oliveiras e as hortas circundam as aldeias da freguesia, mas o seu forte é mesmo a castanha dos seus centenários castanheiros, alguns com troncos que rondam pela certa entre os dois e três metros de diâmetro. Castanheiros de respeito.

.


.


Póvoa de Agrações é muito antiga com uma situação junto a um povoado castrejo. Foi uma das pobras de que falam as Inquirições de D. Afonso III, que eram verdadeiros lugares de refúgio e de defesa na Reconquista Cristã.

.


.


Possui uma bonita Igreja barroca com um frontão triangular, um óculo, dois pináculos e como remate uma artística torre sineira galaico transmontana.

.


 

.


E por terras de Agrações por hoje é tudo. Mantém-se a promessa de que iremos em formato alargado até Fernandinho e Dorna num destes fins-de-semana.

Entretanto amanhã cá estarei de novo com mais uma aldeia do nosso concelho.

Até amanhã.

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:52
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Discursos Sobre a Cidade



.

 

Texto de Gil Santos

 

 

A MABILDE E A CARQUEJA

 

 

O nevoeiro denso, húmido e gelado, cortava-se à faca. Há semanas que a cidade de Trajano não avesava um raio de sol que fosse. O Astro Rei bem sorria para lá de Izei ou de Casas Novas mas a Veiga estava permanentemente coberta com o manto de uma noiva já estreada. As geadas, naquele Inverno dos anos trinta, pareciam nevões. Não derretiam umas para que outras se lhe sobrepusessem. O bafo expelido pela garganta dos flavienses assemelhava-se às golfadas de fumo dos vulcões, era espesso, plúmbeo. A água, congelada nos canos, não vertia das torneiras de latão pela manhã, e a condensação do vapor de água no interior das vidraças congelava. O ar, de tão frio, cortava como a navalha mal afiada de um barbeiro. O chiasco entranhava-se nos ossos. Quase gelava a própria medula. Ninguém aguentava este inferno de carambelo feito. Das muralhas da Torre de Menagem, antiga parada do dezanove, não se divisava sequer as Caldas, quanto mais a Fonte Nova ou o Santo Amaro. E nem mesmo a bagaceira da tasca do Malgudo servia para nada! As ruas da urbe a partir das ladainhas estavam desertas e o silêncio estrangulava o anoitecer. Salvava-se o rebuliço do jogo do tchincalhão nalgumas tabernas das ruas medievas do centro histórico. Aí se juntavam copofónicos de maduro tinto e jogadores da batota. Nesses casinos, onde as horas eram consumidas entre tintol, cantigas à desgarrada e cigarros Kentucky, planeavam os gandulos as maroteiras e as judiarias. Para além do mais também aí eram organizadas grandes tainadas com as galinhas, os patos e os coelhos que se rapinavam aos mais incautos nos quintais da cidade.

 

Chaves, não sei se por aí terminar a linha do Corgo se por outra qualquer razão que desconheço, foi desde há muito paradeiro de cromos: o TORTUMIL, a SAMORINHA, o CHECHA LEMA, o TCHITCHARRO, o GAITAS, o MANEL TEIXEIRA, a MARIA LANDAINAS, o CUBANO, o NÁNA BICHA, o BETINHO, o CARETO, o CHAMOÍNHA, o próprio JOÃOZINHO PADEIRO e eu sei lá quantos mais! Normalmente eram estes os desgraçados peões das nicas daqueles malandrões.

 

No Inverno, vindas do Barroso pobre, desciam à Veiga mulheres de longas saias pretas e jalecos apertados ao corpo roliço. Encabadas em socos de amieiro, defendiam-se do zimbro com pesadas croças de palha centeia e do frio com grosseiras capas de burel. Acompanhavam-se de burros carregados de carqueja que vendiam de porta a porta para que se acendessem melhor as braseiras. Eram fêmeas rudes, habituadas aos lobos e à solidão dos caminhos. Tementes do divino conheciam apenas as regras que a natureza ditava. A cidade, pouco mais significava do que a oportunidade de obtenção de uns magros cobres que tornassem menos penosa a vida já de si tão dura. Tudo o resto era-lhes indiferente e não tinham papas na língua se fosse preciso espantar a caça!...

 

Pelo fim da tarde e ao início da manhã quem passasse pela Rua dos Gatos, do Poço ou do Correio Velho, deparava-se com inúmeras braseiras assentes nas pedras da calçada de onde se soltavam choinas fumegantes, embrasando o carvão que aqueceria, sob estrados de redondas mesas de pinho compradas na feira e cobertas por camilhas espanholas de contrabando, os cubículos das casas. À volta destas mesas sentavam-se as comadres fazendo na meia a três agulhas, cortando na vida das vizinhas e enchendo as pernas de cabras. O cheiro da carqueja ardendo, misturada com o frio cortante do Inverno, imprimia àquelas ruas estreitas e escuras um ambiente medieval quase mágico.

 

No princípio de uma tarde, igual a quase todas as tardes de Inverno, subia do Arrabalde a rua Direita, por sinal a mais torta da cidade, uma mulherzita de meia idade. Curvada às dificuldades da vida, puxava à rédea, por uma cabeçada de corda de sisal muito gasta, um jumento da sua idade. Com mais de meia carga ainda o pobre do animal, lazarado, seguia rua acima, pachorrento, ao ritmo marcado pela vontade da barrosã. Conhecendo de ginjeira as manhas da dona não ousava contrariá-la sob pena de umas sardinhas assentes no seu pobre lombo já de si tão martirizado. A carqueja, pousando sobre serapilheira no lombo do animal e presa por uma corda à ilharga, dançava embalada pelo balanço das passadas do bicho. A mulher, impávida e serena, confiava cegamente na fidelidade do jumento e nem sequer se dava ao incómodo de abrandar o passo e voltar-se para a trás conferindo o preceito.

 

Era costume neste Largo do Arrabalde, mais tarde dos Quadradinhos, ao pé de um velho quiosque que por ali havia, parar toda a corja da cidade à volta dos engraxadores, velhos depositários de novidades e intrigas. Ora no início dessa tarde e apreciando o espectáculo encontravam-se por ali todos os salafrários da cidade. Quando se fixaram naquele quadro tão pitoresco da mulher do burro e da carqueja logo alvitraram uma oportunidade graciosa de diversão. Não perderam tempo!…

 

Ali por perto sabiam que dormitava, sob um dos arcos secos da velha ponte romana, talvez a curar a carraspana da manhã, o CHECHA LEMA. Era este um homem de meia idade que sem eira nem beira e vindo sabe Deus de onde, gastava as horas do seu dia a esmolar a beber e a dormir. Era um pobre diabo a quem todos conheciam a pancada de que era um militar de alta patente no comando de exércitos invencíveis. Das ruas da cidade fazia a parada dos seus exércitos e em altas vozes proferia ordens de comando curiosíssimas aos soldados fantasma da sua imaginação. Certamente um trauma que lhe ficou da guerra dos dezassete pela Flandres. A trupe decidiu procurá-lo e com a promessa de um copito arrastou-o à pressa rua acima. Sabiam que por natureza não se negava a uma boa brincadeira e muito menos à pinga do Faustino!...

 

Conduziram-no Rua Direita acima e por alturas da ourivesaria do Belchior um dos rapazes tirou d’amodinho a cabeçada do burro e enfiou-a na cabeça do CHECHA LEMA. O jumento foi levado para o jardim do Tabolado onde para seu gáudio foi solto a pastar a erva queimada pela geada. Faltariam ainda uns trezentos metros até às Portas do Anjo onde pela certa se encontraria o próximo freguesa da barrosã. Porém, ali pela farmácia Costa Gomes ao checha lema foi ordenado, por um dos que seguia em procissão, que zurrasse. Assim fez, arrancando um daqueles zurros que não envergonharia qualquer asno no cio do mês de Maio.

 

− Ah rais te fonha no burro que não se cala, arre buuuurro!... − gritava a mulher sem que se voltasse para verificar a que se devia comportamento tão estranho!

 

Claro que à medida que a multidão seguia rua acima vinham à porta das muitas lojas daquela rua comercial os clientes e os patrões para assistirem a este espectáculo inédito. Aquilo era de facto digno de ser visto!

 

O cortejo, de uma boa meia centena de pessoas, chegou enfim às Portas do Anjo. As pessoas, ávidas do final da história, seguiam em mal contido silêncio.

 

− Oh ti Marita, vocemecê quer carqueja? − gritava a vendedeira para um primeiro andar de uma velha casa senhorial numa das esquinas do Largo do Anjo. A D. Marita, uma sexagenária tetraneta de viscondessa, bem disposta e danada para o pagode, quando chegou à janela de guilhotina e se deparou com aquela cena, não se desmanchou e retorquiu:

− Ai é vossemecê Ti Mabilde,!? Bote-me aí dois molhitos que já los pago!

 

A pobre mulher, quando se virou preparando-se para arrear a carga e se confrontou com um mar de gente em trejeitos de gozo e mais um palerma pendurado na cabeçada do burro, passou-se. Não esteve com meias medidas, rapou de um estadulho da acarreta de um carro de bois que por ali estava estacionado e à laia de jogadora do pau estendeu duas sardinhas na espinha do desgraçado lema tombando-o redondinho. Claro que os outros rapazes para acudir ao infeliz, entraram no perímetro do movimento rotativo do fueiro e lerparam pela mesma medida. Cada meia dúzia de lostradas pinava outros tantos pimpões, entre impropérios difíceis de aqui escrever, pelo menos com a terminologia exacta e a mesma raiva com que eram vociferados!... O resto da malta alinhava-se pelas bordas da praça mas mesmo aí não estava muito segura. A mulher parecia possuída pelo demónio e redemoinhava aquele varapau qual Maria da Fonte com a sua fouce. Por onde o grosseiro pau de carvalho passasse deixava marca e o terreiro já tinha espargidos para mais de meia dezena de pimpões.

 

Um dos desgraçados que havia experimentado as carícias do estadulho numas das espáduas e estendido no chão contorcendo-se de dores, para que falasse, foi apertado pela barriga com o varapau aguçado em jeito de lança. Gemendo, mais que falando lá foi capaz de chibar onde se encontraria o burrito. Largando o pau, a barrosã, seguiu aflita a senda da informação, não havendo vivalma que ousasse segui-la. Desceu a rua dos Gatos e seguiu em direcção às Caldas. Junto ao Tâmega lá encontrou o animal regalado pelo descanso e pela pastagem. Também o pobre do bicho foi premiado com duas estadulhadas pelo lombo para que aprendesse!...

 

Durante muitos e muitos anos foi a Mabilde vista por Chaves a vender a sua carqueja, apanhada nas fraldas da serra do Leiranco. Porém, como soi dizer-se, “o medo guarda a horta” e doravante andou ausente dela qualquer perigo.

 

Pudera!...

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:48
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Românticas, resistem às cidades. Chaves - Portugal



.

Tal como nas aldeias só os velhos resistem à modernidade do tempo, também na cidade há resistentes, mas aqui os resistentes, ou as resistentes, são outras, também velhas, ou melhor, antigas construções resistem à modernidade agressiva dos tempos de hoje.

 

Quase no coração da cidade há pequenos recantos românticos resistentes aos novos dias. Estas casas, ainda lares de família, convivem assombradas no interior e entre muralhas de betão. A agressividade do mercado imobiliário em quem um palmo de terra no centro da cidade quase vale ouro, desde que (claro) nesse palmo de terra seja permitida mais uma rua na vertical, faz com que se desrespeitem todas as leis naturais do que está historicamente estabelecido, para não falar pelo desrespeitos da verdadeira Lei. Havia por aí uma anedota que ilustra bem esta situação e que, resumidamente, dizia que os óóóóóóóóóós pequeninos tinham que obedecer aos ÓÓÓÓÓÓÓs grandes. Nesta cidade, como na grande maioria, também são os ÓÓÓÓÓs grades que mandam nos óóóós pequeninos. O dinheiro é que manda, continua a ser assim, ainda ontem tivemos um bom exemplo disso em que os 2,6% são festejados pelo “nosso” Governo graças ao sacrifício imposto sem piedade aos mais pobres enquanto no mesmo dia se anunciava que a banca portuguesa continuava a somar lucros que se podem considerar astronómicos. Um aparte que custa na bolsa e dói no passar dos dias!

 

Continuo a pensar que no planeamento das cidades falta inteligência a quem detém o poder e o poder de planear. O crescimento das cidades é inevitável, mas podia crescer com regras e respeito pelo património existente. É mais fácil e barato estudar e planear as cidades do que autorizar sem regras. Já diz o ditado popular (e os ditados têm sempre razão), “mais vale prevenir que remediar”, mas em questões de urbanismo vive-se num constante remediar e, com avultados custos para todos. Mas o lucro rápido e fácil, aliado a falta de inteligência, falta de amor (também) pelas cidades e as inevitáveis doenças do sistema e da democracia em que as “coisas” se rentabilizam por financiamentos pouco claros e pelos votos que valem, levam-nos a verdadeiros pecados mortais e monstruosidades praticadas nas cidades. É caso para dizer, a bem dizer, que já não há respeito.

 

O que mais dói no amor, são as traições, pois nunca se perdoam!

 

Até amanhã com mais um discurso sobre a cidade.

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:21
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quarta-feira, 26 de Março de 2008

Transparências! - Chaves - Portugal



.

Chaves, 9 de Abril de 1968

 

TRANSPARÊNCIA

 

Deixo cair a tarde

Nos olhos fatigados.

O dia foi de luz intensa e demorada,

Nevada nas alturas.

Guardei o que podia.

Agora quero a noite

E a brancura das horas

Sem lembrança.

Trevas e claridade

Inconsciente.

Longe daqui, e sempre aqui

Presente,

Quero sonhar apenas o que vi.

Quero ver o que vi mais transparente.

 

Miguel Torga, In Diário X

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:16
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 25 de Março de 2008

O olhar de JP sobre a cidade e arredores

Foto de JP

.

E vamos lá mais uma vez a um olhar diferente do meu sobre a cidade de Chaves.

 

Hoje deixo-vos com os olhares de J.P que encontrei no Flickr. Os olhares têm publicação de 2005 e ao todo são perto de 30 olhares repartidos por Chaves e Stª Estêvão.


.

Foto de JP

.

 

Na sua descrição no flickr apenas deixa como identificação JP – Paris – France. Tudo me leva a pensar que seja mais um dos nossos emigrantes que temos por esse mundo fora. Poderá ser ou não ser, mas para o caso até nem importa, pois hoje estou mais interessado nas belas imagens que registou da cidade e que partilha na comunidade flickriana.

.


Foto de JP

.

 

Hoje ficam por aqui apenas três olhares do JP, mas dada a quantidade de imagens que tem de Chaves e Stº Estêvão na sua galeria, o JP pela certa que tornará a ser meu convidado numa terça-feira futura.

 

Espero que desfrutem das imagens e como sempre fica aqui o link para a galeria de fotos do JP: abstractions

 

E por hoje é tudo.

 

Amanhã cá estarei de novo com mais olhares sobre a nossa cidade de Chaves.

 

Até amanhã!

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:11
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Segunda-feira, 24 de Março de 2008

Forte de S.Neutel, bonito, mas de Portas fechadas.



.

E cá estamos de regresso à cidade e de regresso também àquilo que de melhor temos. De regresso a uma das nossas maravilhas flavienses e que agora após as recentes obras de restauro e de embelezamento da envolvente exterior, é uma maravilha digna de se ver e de ser apontada como aquilo que vamos tendo de melhor cá pela terrinha.

 

Sem dúvida alguma que o forte merecia estas obras recentes a que foi sujeito e está bonito de cara lavada, talvez por isso no passado Sábado tivesse atraído alguma gente que à passagem pelo local paravam para uma visita, sobretudo espanhóis, pelo menos foi isso que aconteceu durante a minha visita para tomar as fotos que hoje vos deixo aqui.

 

Os meus lamentos de Páscoa do ano passado repetem-se, ou seja, temos tudo que há de bom para “vender” a quem nos visita. Gastronomia boa e farta, monumentos, hospitalidade e até alguma simpatia, história…etc.  O Forte de S.Neutel (a par dos restantes monumentos que temos) é um dos monumentos que atrai e não faltou quem o visitasse, mas apenas por fora, pois as portas do Forte insistem em estar fechadas a quem o quer visitar.

.


.


 

Aliás Chaves é uma cidade fechada ao turismo, que em vez de aproveitar as visitas dos turistas e dos flavienses ausentes que vêm comer o folar à terrinha, lhes fecha as portas dos monumentos e do comércio tradicional, do mesmo cujos comerciantes  tanto se lamentam mas nada fazem por resolver os seus lamentos e que nestes dias em que as visitas a Chaves são adivinhadas, preferem gozar o fim-de-semana e os feriados, a estarem abertos para a cidade e para quem nos visita. Enfim, cada um tem o que merece, e realmente Chaves não merece mais, pois ninguém faz nada por ela e todos vivem conformados. Até eu penso e repenso este blog e se valerá a pena ou, se a cidade merece este meu esforço diário.

 

.

.


Enfim, como a esperança é a última a morrer e eu sou teimoso bastante para continuar por aqui, amanhã cá estarei de novo, mas e só porque ainda sei que há muito flaviense ausente da terrinha que traz Chaves bem aconchegada no coração. Aliás é para vós que este blog é feito.

 

Até amanhã e desculpem os meus lamentos!

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:45
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?
Domingo, 23 de Março de 2008

S.Gonçalo da Ribeira - Chaves - Portugal



.

E como hoje o dia é santo, vamos até um santuário.

 

Santuário de S.Gonçalo da Ribeira, é assim o nome do nosso destino de hoje. Santuário em si mas também um santuário de montanhas, de beleza, de tranquilidade, de natureza, de verde, de água, em suma, um autêntico santuário, ou quase – já lá vamos!

 

Primeiro vamos à sua localização.

.

.Vista desde Parada da Castanheira


 

Ali mesmo onde o pequeno Rio Mousse desagua no o Rio Mente (afluente do Rio Rabaçal) encontra-se o S.Gonçalo, ou seja, bem lá no fundo, entre um amontoado de montanhas e montanhas de perder de vista, tantas, que entre por vários concelhos adentro e passam a fronteira para terras da Galiza. É um espectáculo de amontoado de montanhas onde se percebe bem o significado do nosso ser Transmontano.

 

Como já compreenderam S.Gonçalo fica mesmo no limite do concelho de Chaves com o concelho de Vinhais, não fizesse o Rio Mente a separação entre os dois concelhos.

.


.

 

Como o tempo não dá para tudo e infelizmente a literatura sobre o nosso concelho é escasso, não consegui apurar a que freguesia pertence o S.Gonçalo. Fisicamente (o lugar) parece-me pertencer a duas freguesias. A Stª Cruz da Castanheira e a S.Vicente. Mas é apenas uma suposição. A realidade é que o acesso a S.Gonçalo pode ser feito quer por uma ou outra freguesia, através de Parada (da Castanheira) ou Orjais (de S.Vicente). Entre os dois acessos e como popularmente se costuma dizer, venha o diabo e escolha, pois se não tiver um todo o terreno, dificilmente chegará lá, e mesmo assim, cuidados recomendam-se. Mas vale a pena.

.

.

 

Chegados a S.Gonçalo, chegamos ao Santuário e ao paraíso. É daqueles locais que quando se chega lá, não apetece sair nunca mais.

 

Infelizmente não conheço a história do local. Exceptuando a capelinha de S.Gonçalo, vestígios de construções antigas não há.

 

E quanto à vida de S.Gonçalo!?

.


.

 

Vida natural há concerteza aquela que a natureza nos dá. Não deu para apreciar, mas concerteza que será muita e variada, principalmente a animal, pois quanto à vegetal, um incêndio de há uns anos atrás, pouco deixou. Mas a natureza concerteza que se encarregará de dotar de novo aquelas montanhas com um manto verde. Fora isso, vida humana residente não há, tirando uns fins de semana ou umas semanas de verão, entre amantes da natureza e outros que nem tanto.

 

Tenho conhecimento que anualmente se festeja por lá o S.Gonçalo e se fazem umas boas merendas. Pelo menos foi essa uma das razões que levou a Câmara Municiapl, há uma dezena de anos atrás, a fazer por lá um parque de merendas, onde não falta o coberto do grelhador e um bom forno, muitas mesas e bancos de pedra plantados à beirinha do Mousse e a desfrutar da sombra das árvores. Foi feito com gosto e concerteza que enriquece o local e convida qualquer um a fazer por lá umas boas merendas.

.


.

 

Condições que concerteza serão aproveitadas como ponto de apoio e de refúgio por  caçadores e pescadores ousados, suponho!

 

Mas nem tudo são rosas por S.Gonçalo. Estamos chegados aos mas das coisas e das belezas naturais, onde a mão humana quando chega, em vez de cuidar e tratar, estraga.

 

Começando pela recuperação da capelinha, pois estou certo que foi objecto de uma recuperação recente, que concerteza até foi feita com carolice e boa vontade dos vizinhos e amantes do local. Mas a carolice e a boa vontade não perdoa pequenos erros (que até nem são tão graves). Imperdoável o revestimento do chão da capelinha, pois se o material até é do bom (mosaico hidráulico sarapintado), ficaria melhor numa cozinha e não no chão da capela. Quanto às portas da capela, e embora ao longe até disfarce bem, o alumínio não lhe assenta muito bem. Quanto ao sino e embora o brilho de novo chame a atenção, nada a dizer, o tempo encarregar-se-à  de o envelhecer. No conjunto, a capelinha até nem destoa do ambiente. Nota positiva para a recuperação, embora não muito alta.

.


.

 

Quanto ao resto já não podemos dizer o mesmo. Claro que o S.Gonçalo chama a atenção de qualquer um que passe por lá ou que o descubra. É concerteza convidativo a fazer por lá coisas e a arranjar por lá um poiso ou um abrigos para bons momentos em contacto com a natureza e beleza. E se não critico que escolheu o local para fazer lá um poiso para os seus devaneios com a natureza, já critico os barracos ou barracas que lá fizeram e que embora ainda não estraguem o ambiente, já destoam e muito pela negativa.

 

Exceptuando uma construção que segue as características das construções tradicionais daquela pequena região e das aldeias envolventes (com maior significado nas aldeias da Aveleda e Parada, para além das de Vinhais), onde o xisto já é rei e senhor, quase tudo o resto são barracas de puro mau gosto.

 

Ao todo existem construídas no local, para além do alpende do grelhador e forno (perfeitamente integrado), mais 7 construções. Uma tem nota positiva, ou seja a que está construída em xisto e segue as regras do tradicional. Das outras, pelo menos três são autênticos barracos onde o mau gosto impera. As restantes, pela sua localização e vegetação, embora nada tenham a ver com o local, têm a vantagem de estar disfarçadas pela vegetação. Há uma que ainda se esforça em revestir com um pouco de xisto e que com um bocadinho de esforço ainda chegava à nota positiva, mas fica pela negativa também.

 

.


.


Concerteza que é tudo construção clandestina, pois no local nem sequer há qualquer tipo de infra-estruturas, mas para além dos donos das barracas, não quero aqui culpabilizar ninguém, mas uma vez que por lá já se gastaram alguns dinheiros públicos e que aquelas construções são do conhecimento das pessoas da freguesia (pelo menos dos que vão à festa e às merendas), também são do conhecimento da Junta de Freguesia e logo também o será por arrastamento da Câmara Municipal. Se não o é deveria ser e ter também medidas preventivas para o local, pois S.Gonçalo merece-o.

 

Pessoalmente não sou contra as construções no local. Eu próprio, se tivesse por lá um pedaço de terreno, também gostava de ter lá um poiso paradisíaco. Mas uma coisa é construir com respeito e sem destruir a paisagem e o ambiente, e outra, é encher o paraíso de barracos. Bom senso e respeito precisam-se. Estes locais, pela sua beleza natural, são património da humanidade e não de alguns, poucos, que por lá se lembram de fazer as coisas ao seu belo prazer… se ao menos tivessem bom gosto!

.


.

 

Mas tirando estes pequenos pormenores de falta de gosto e falta de respeito pelo ambiente, o S.Gonçalo da Ribeira é um local que ainda recomendo, ou aliás, é obrigatório conhecer por todos os amantes da natureza, da beleza, da tranquilidade, das montanhas, dos rios, do verde , do natural, das merendas. Claro que mais uma vez recomendo a visita conduzido por um todo o terreno. Carros ligeiros, disseram-me em Parada, que ir lá, vão, mas é só se não tiver amor ao carro. Comungo da sabedoria deles. Se gostar de montanhismo e andar, também lá chega num par de horas. Para lá é sempre a descer e bem, pois quer desde Parada ou desde Orjais, desce pelo menos uns bons 300 ou 400 metros em altitude. Pode parecer coisa pouca, mas basta chegar a Parada e olhar lá para o fundo, para verificar que a coisa não é para brincadeiras.

 

Uma Santa Páscoa para todos e não se engasguem com o folar. Convém ter sempre o copo à mão para empurrar.

 

Até amanhã de regresso à cidade.

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:53
link do post | comentar | ver comentários (9) | favorito
|  O que é?
Sábado, 22 de Março de 2008

Boa Páscoa





.

Embora este Sábado seja dedicado à Agrela (post anterior) não poderia deixar de vir aqui desejar-vos uma boa Páscoa.

 

Para os que não puderam vir à terrinha e, estejam onde estiverem,  não tenham direito a folar, deixo aqui uma fatia dele, pelo menos para matar saudades. Sei que lhe falta o gosto, mas esse, não o posso deixar por aqui.

 

Uma Boa Páscoa para todos!

 

Para quem quiser matar saudades de toda a feitura do folar, fica aqui o link para o post do ano passado, onde passo-a-passo chegavamos ao : Folar de Chaves

 

Até mais logo.

´
publicado por Fer.Ribeiro às 19:32
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?

Agrela de Ervededo - Chaves - Portugal



.

Acho que foi por aqui que há tempos pediram a Agrela. Pois então vamos lá.

 

Já não é a primeira vez que este blog passa pela Agrela, mas sempre o fizemos superficialmente e nunca entramos dentro dela. Pois hoje, no formato alargado temos Agrela de Ervededo.

 

..

..


A Agrela localiza-se a Norte da cidade de Chaves, a 15 quilómetros desta, a dois passos da Torre de Ervededo e do Couto de Ervededo  e com a Galiza mesmo ao lado.

.


.


 

Para chegarmos à aldeia (a partir de Chaves) podemos tomar dois caminhos. Via Seara (Sanjurge) até às Campinas, vira-se à direita em direcção ao Couto, atravessa-se estes e logo a seguir é a Agrela. O outro caminho é via Outeiro Seco, Vilela Seca, Torre de Ervededo e logo a seguir Agrela. Aliás este circuito (por um ou outro lado) faz parte das “volta dos tristes” dos Domingos de muita gente e, diga-se, que se pararem e entrarem nas aldeias com olhos de ver, há muita coisa interessante para ver. È um dos itinerários que este blog recomenda para uma tarde ou manhã em que não tenha nada que fazer.

.

.


 

Mas entremos em Agrela. Infelizmente, como em todas as aldeias, o casario do núcleo e mais antigo, está desabitado ou em ruínas. Mas até nem é das aldeias piores neste aspecto. Como em todas, também aqui é mais fácil fazer construção nova na periferia da aldeia, do que recuperar o antigo casario. Mas, diga-se a verdade, também há recuperações de construções na aldeia, o que desde logo significa que é uma aldeia com vida.

 

.

.


Claro que os velhos tempos com muitas crianças nas ruas já lá vão. Mas também aqui me dá a impressão que a ausência de crianças não se deve a uma desertificação da aldeia, mas à tal baixa taxa de natalidade e também à sua população um pouco envelhecida. O tempo dos 6,7,8 e mais filhos já lá vai. Agora e tal como se costuma dizer, um é pouco, dois são demais, que a vida não está para brincadeiras.

.

.

 

Nestes últimos dois anos que tenho andado em recolha de fotografias para o blog tenho constatado que todas as aldeias são diferentes e têm a sua identidade, mas todas são iguais, principalmente no que toca à sua população e aos seus lamentos. Lamenta-se principalmente “a vida do campo que já não dá”. Antigamente (dizem-me) tudo isto era cultivado, agora está de poulo, porque a terra já nem para viver dá. Gasta-se mais em cultivar as terras (continuam a dizer-me) do que aquilo que ela dá.


.


.

 

 

É uma realidade das nossas aldeias esta dos campos abandonados e tudo graças as tais políticas (quanto a mim erradas) que convidam toda a população jovem a abandonar as suas aldeias. As aldeias estão condenadas. “Quando nós morrermos, a aldeia fecha” tal qual ainda ontem me diziam numa outra aldeia.

 

.

.


Mas voltemos à Agrela e pelo que vi, estou em crer que é uma das aldeias que não vai “fechar” tão cedo. Os bons, ou razoáveis, acessos à cidade, as suas terras férteis, a água, e até pelas boas condições físicas e geográficas, ainda vai prendendo alguma população, que embora alguma dela não faça vida de campo a tempo inteiro, ainda têm os seus melhores campos verdejantes e bem tratados. Em suma, Agrela de Ervededo ainda é uma aldeia.

.


.

 

Quanto à sua história, temos que regressar até (pelo menos) à Idade Média. No início não teria passado de um pequeno campo designado Ager.  Em 1836 foi integrada no concelho e freguesia de Ervededo.  Entre Agrela e o Couto corre ribeiro da Manganhosa. Ao lado da margem esquerda deste riacho passava a estrada real, atravessando-o na tosca ponte de Santiago, que serviu de travessia a grande número de peregrinos que percorriam os medievais Caminhos de Santiago. Nas proximidades ficava o mosteiro de S. Paio de Oso, da Ordem de Cister, construído provavelmente no século XI, que estava situado no caminho dos peregrinos, era centro de apoio espiritual e material dos mesmos. Deste mosteiro nada resta para além do fontanário e de uma epígrafe situada no exterior de uma casa referindo que "acabou o Oso". Isto teria acontecido por volta do século XVI, quando os beneditinos começaram a trocar o campo pelos centros urbanos.

.


.


Agrela (como todas as aldeias) é também terra de emigrantes, que como todos, não dispensam a vinda à terrinha nos meses de verão e se possível, à festa da aldeia que todos os anos se realiza em honra de Santa Marinha, que deveria ser a 18 de Julho, mas que graças aos tais filhos que andam lá fora a lutar pela vida, a grande festa só se realiza em finais de Julho, em data incerta (conforme tocam os Domingos – disseram-me).

.

.


 

E por hoje vai sendo tudo. Cumpri a minha promessa de passar um bocadinho de tempo pela Agrela e concerteza que continuaremos a passar por lá de vez em quando.

 

Espero que gostem das imagens. Havia concerteza muito mais para mostrar.

 

Amanhã, e embora seja Domingo de Páscoa, cá estaremos de novo com mais um motivo rural. O contrato é para cumprir até ao fim.

 

Boa Páscoa e até amanhã!

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:41
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Discursos Sobre a Cidade



.

Texto de “Blog da Rua Nove”

 

 

Impressões do Outro Lado

 

Em pleno caroço de Manhattan, dá-me a grata impressão de estar do outro lado. (Queremos sempre estar do “outro lado”...)                        

J. R. Miguéis

 

Regresso a Chaves durante breves dias. E a cidade, que parece não mudar, está diferente. A diferença destaca-se nitidamente das memórias que conservo. A memória destas gentes, dos seus afectos, dos seus desejos. A memória do meu passado. A memória da cidade que foi. E quão diferente, de facto, está esta cidade.


Olhando-me todos os dias ao espelho, não me vejo mudar. Aqui, contudo, tenho consciência das transformações e da passagem, efectiva e inexorável, do tempo. Por cada ruga no rosto dos amigos, por cada branca no cabelo dos conhecidos, por cada ausência de rostos e lugares que já não voltam. Então compreendo como o tempo passou, como essas rugas, essas brancas, essas ausências anunciadas, fazem parte da minha existência. Aqui e agora.


Recordo Viana, Porto, Évora, Lisboa, Toronto, Nova Iorque. Cidades onde vivi anos e anos. Onde tenho amigos. Onde fui deixando afectos. Onde me revejo. Mas para ver a minha imagem reflectida, integralmente, preciso de Chaves. É aqui que compreendo a vida como um contínuo, como um conjunto de ciclos que se alternam, mas que têm um centro comum. E sinto palavras de há vinte anos como se as tivesse acabado de escrever...


Cidade. Recordação enevoada de uma infância quase esquecida, perdida já entre as velhas casas e a desguarnecida muralha da vida. Breves instantes de atemporalidade, em que voltamos a chutar a bola de trapos no terreiro da Lapa, ou a ler as espantosas e mirabolantes aventuras de Serafim e Malacueco num estreito e gasto passeio da rua de Santa Maria. Afirmação nítida do nosso carinho por esta terra e por estas gentes, qual carícia maternal que nos traz aconchego e protecção. Consolo inesgotável do inverno que inevitavelmente envolve o nosso ser.

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:53
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?
Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Provincianismo português e da terrinha



.

Ontem prometi falar aqui de provincianismo. Ainda sou dos que cumpre a palavra e por isso vamos lá.

 

Quem sou eu para falar de provincianismo quando o nosso maior poeta de Portugal já o fez. Seria ridículo eu abordar o tema quando tão elevadamente Fernando Pessoa já escreveu sobre esse mesmo provincianismo. O texto é 1932, mas continua actual como se fosse escrito hoje. Aliás ultimamente está na moda ir buscar textos de outros séculos para ilustrar situações actuais como o do ensino, o que nos deixa a pensar que afinal não foram 48 anos parados no tempo, mas já lá vão mais de 80.

 

O texto refere-se ao caso mental português e como tal aplica-se na perfeição ao estado mental da terrinha, principalmente ao intelectual e político.

 

O texto (para blog) é um bocadinho longo, mas vale a pena ser lido e adaptado ao nosso estado mental.

 

Para não se tornar tão pesado e com um texto elevado, deixo por aqui algumas fotografias já publicadas no blog (da cidade e das aldeias) que são mais populares no flickr.

 

Espero que gostem e tenham paciência de chegar ao fim do post.

 

Claro que a nossa escol, conhecendo Pessoa,  já conhece o texto!

 

Até amanhã com mais discursos sobre a cidade.

 

 .

.


O CASO MENTAL PORTUGUÊS

 

Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “'provincianismo". Como todas as definições simples esta, que é muito simples, precisa, depois de feita, de uma explicação complexa.

 

Darei essa explicação em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto é, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pais, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.

 

Por mentalidade de qualquer pais entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental - a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite.

 

O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas. Por natureza, forma o povo um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; e o pensamento é individual.

.

O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. Na classe média mental, o individuo, que mentalmente já existe, sabe já escolher - por ideias e não por instinto - entre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor a ambas uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental.

 

O que caracteriza a terceira camada, o escol, é, como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus - os que o levaram a aceitá-la e não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas.

 

Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais - económicas ou outras -, não se ajusta exactamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro pertence mentalmente ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à -classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.

 

 Quando, portanto, digo que a palavra “provincianismo” define, sem outra que a condicione, o estado mental presente do povo português, digo que essa palavra "provincianismo", que mais adiante definirei, define a mentalidade do povo português em todas as três camadas que a compõem. Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da nação.


 

.


.

 

Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver, em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como os campónios, ou como provincianos, ou como citadinos. Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campónio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro.

 

Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constitui a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são artifícios: o transporte sobre rodas, o discurso disposto em verso escrito, renegam a naturalidade original dos pés e da prosa falada.

 

A artificialidade, porém, é de dois tipos. Há aquela, acumulada através das eras e que tendo-a já encontrado quando nascemos, achamos natural; e há aquela, que todos os dias se vai acrescentando à primeira. A esta segunda é uso chamar “progresso” e dizer que é "moderno" o que vem dela. Ora o campónio, o provinciano e o citadino diferençam-se entre si pelas suas diferentes reacções a esta segunda artificialidade.

 

O que chamei campónio sente violentamente a artificialidade do progresso; por isso se sente mal nele e com ele, e intimamente o detesta. Até das conveniências e das comodidades do progresso se serve constrangido, a ponto de, por vezes, e em desproveito próprio,  se esquivar a servir-se delas. É o homem dos "bons tempos", entendendo-se por isso os da sua mocidade, se é já idoso, ou os da mocidade dos bisavôs, se é simplesmente párvuo.


 

 

No pólo oposto, o citadino não sente a artificialidade do progresso. Para ele é como se fosse natural. Serve-se do que é dele, portanto, sem constrangimento nem apreço. Por isso o não ama nem desama: é-lhe indiferente. Viveu sempre (física ou mentalmente), em grandes cidades; viu nascer, mudar e passar (real ou idealmente) as modas e a novidade das invenções; são pois para ele aspectos correntes, e por isso incolores, de uma coisa continuamente já sabida, como as pessoas com quem convivemos, ainda que de dia para dia sejam realmente diversas, são todavia para nós idealmente sempre as mesmas.

 

Situado mentalmente entre os dois, o provinciano sente, sim, a artificialidade do progresso, mas por isso mesmo, o ama. Para o seu espírito desperto,  mas incompletamente desperto, o artificial novo, que é o progresso, é atraente como novidade, mas ainda sentido como artificial. E, porque é sentido simultaneamente como artificial é sentido como atraente, e é por artificial que é amado. O amor às grandes cidades, às novas modas, às "últimas novidades", é o característico distintivo do provinciano.

 

Se de aqui se concluir que a grande maioria da humanidade civilizada é composta de provincianos, ter-se-á: concluído bem, porque assim é. Nas nações deveras civilizadas, o escol escapa, porém, em grande parte, e por sua mesma natureza, ao provincianismo. A tragédia. mental de Portugal presente é que, como veremos, o nosso escol é estruturalmente provinciano.

 

Não se estabeleça, pois seria erro, analogia, por justaposição., entre as duas classificações, que se fizeram, de camadas e tipos mentais. A primeira, de sociologia estática, define estados mentais em si mesmos; a segunda, de sociologia dinâmica, define estados de adaptação mental ao ambiente. Há gente do povo mental que é citadina em suas relações com a civilização. Há gente do escol, e do melhor escol - homens de génio e de talento - , que é campónio nessas relações.

 

 

 

Pelas características indicadas como as do provinciano, imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem uma semelhança perfeita com a da criança. A reacção do provinciano, às suas artificialidades, que são as novidades sociais, é igual à da criança às suas artificialidades, que são os brinquedos. Ambos as amam espontaneamente, e porque são artificiais.

 

Ora o que distingue a mentalidade da criança é, na inteligência, o espírito de imitação; na emoção, a vivacidade pobre; na vontade, a impulsividade incoordenada. São estes, portanto, os característicos que iremos achar no provinciano; fruto, na criança, da falta de desenvolvimento civilizacional, e assim ambos efeitos da mesma causa - a falta de desenvolvimento. A criança é, como o provinciano, um espírito desperto, mas incompletamente desperto.

 

São estes característicos que distinguirão o provinciano do campónio e do citadino. No campónio, semelhante ao animal, a imitação existe, mas à superfície, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da alma; a emoção é pobre, porém não é vivaz, pois é concentrada e não dispersa; a vontade, se de facto é impulsiva, tem contudo a coordenação fechada do instinto, que substitui na prática, salvo em matéria complexa, a coordenação aberta da razão. No citadino, semelhante ao homem adulto, não há imitação, mas aproveitamento dos exemplos alheios, e a isso se chama, quando prático, experiência, quando teórico, cultura; a emoção, ainda quando não seja vivaz, é contudo rica, porque complexa, e é complexa por ser complexo quem a terá; a vontade, filha da inteligência e não do impulso, é coordenada, tanto que, ainda quando faleça, falece coordenadamente, em propósitos frustes mas idealmente sistematizados.

 

Percorramos, olhando sem óculos de qualquer grau ou cor, a paisagem que nos apresentam as produções e improduções do nosso escol. Nelas verificaremos, pormenor a pormenor, aqueles característicos que vimos serem distintivos do provinciano.

 

Comecemos por não deixar de ver que o escol se compõe de duas camadas - os homens de inteligência, que formam a sua maioria, e os homens de génio e de talento, que formam a sua minoria, o escol do escol, por assim dizer. Aos primeiros exigimos espírito crítico; aos segundos exigimos originalidade, que é, em certo modo, um espírito crítico involuntário. Façamos pois incidir a análise que nos propusemos fazer, primeiro sobre o pequeno escol, que são os homens de génio e de talento, depois sobre o grande escol.

 

Temos, é certo, alguns escritores e artistas que são homens de talento; se algum deles o é de génio, não sabemos, nem para o caso importa. Nesses, evidentemente, não se pode revelar em absoluto o espírito de imitação, pois isso importaria a ausência de originalidade, e esta a ausência de talento. Esses nossos escritores e artistas são, porém, originais uma só vez, que é a inevitável. Depois disso, não evoluem, não crescem; fixado esse primeiro momento, vivem parasitas de si mesmos, plagiando-se indefinidamente. A tal ponto isto é assim, que não há, por exemplo, poeta nosso presente - dos célebres, pelo menos - que não fique completamente lido quando incompletamente lido, em que a parte não seja igual ao todo. E se em um ou outro se nota, em certa altura, o que parece ser uma modificação da sua “maneira”, a análise revelará que a modificação foi regressiva: o poeta ou perdeu a originalidade e assim ficou diferente pelo processo simples de ficar inferior, ou decidiu começar a imitar outros por impotência de progredir de dentro, ou resolveu, por cansaço, atrelar a carroça do seu estro ao burro de uma doutrina externa, como o catolicismo ou o internacionalismo. Descrevo abstractamente, mas os casos que descrevo são concretos; não preciso de explicar, porque não junto a cada exemplo o nome do indivíduo que mo fornece.

 

O mesmo provincianismo se nota na esfera da emoção. A pobreza, a monotonia da emoção nos nossos homens de talento literário e artístico, salta ao coração e confrange a inteligência. Emoção viva, sim, como aliás era de esperar, mas sempre a mesma, sempre simples, sempre simples emoção, sem auxílio crítico da inteligência ou da cultura. A ironia emotiva, a subtileza passional, a contradição no sentimento - não as encontrareis em nenhum dos nossos poetas emotivos, e são quase todos emotivos. Escrevem, em matéria do que sentem, como escreveria o pai Adão, se tivesse dado à humanidade, além do mau exemplo já sabido, o, ainda pior, de escrever.


 

.


.

 

A demonstração fica completa quando conduzimos a análise à região da vontade. Os nossos escritores e artistas são incapazes de meditar uma obra antes de a fazer, desconhecem o que seja a coordenação, pela vontade intelectual, dos elementos fornecidos pela emoção, não sabem o que é a disposição das matérias, ignoram que um poema, por exemplo, não é mais que uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio. Nenhuma capacidade de atenção e concentração, nenhuma potência de esforço meditado, nenhuma faculdade de inibição. Escrevem ou artistam ao sabor da chamada “inspiração”, que não é mais que um impulso complexo do subconsciente que cumpre sempre submeter, por uma aplicação centrípeta da vontade, à transmutação alquímica da consciência. Produzem como Deus é servido, e Deus fica mal servido. Não sei de poeta português de hoje que, construtivamente, seja de confiança para além do soneto.

 

Ora, feitos estes reparos analíticos quanto ao estado, mental dos nossos homens de talento, é inútil alongar este breve estudo, tratando com igual pormenor a maioria do escol. Se o escol do escol é assim, como não será o não-escol do escol? Há, porém, um característico comum a ambos esses elementos da nossa camada mental superior, que aos dois irmana, e, irmanados, define: é a ausência de ideias gerais e, portanto, do espírito crítico e filosófico que provém de as ter. O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro - aceites, não porque sejam boas, mas porque são francesas ou italianas, ou russas, ou o quer que seja. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias. Seria trágico, à força de deixar de ser cómico, o resultado de uma investigação sobre, por exemplo, as ideias dos nosso poetas célebres. Já não quero que se submetesse qualquer deles ao enxovalho de lhe perguntar o que é a filosofia de Kant ou a teoria da evolução. Bastaria submetê-lo ao enxovalho maior de lhe perguntar o que é o ritmo.

 

Fernando Pessoa, 1932

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:19
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Chaves, cidade feia!?



.

Chaves, 26 de Setembro de 1960

 

Há terras, como Aveiro, por exemplo, impregnadas de não sei que dignidade específica. É uma espécie de irradiação ética, que compensa largamente o forasteiro de todos os desconfortos e desilusões urbanas que nelas sinta. Chaves pertence a essa família. Apesar de feia, suja e desfigurada, o espírito sente-se aconchegado dentro dos seus muros. O prazer que os sentidos não gozam na pureza dos monumentos, na grandeza das praças e no desafogo das avenidas, encontra-o a alma na atmosfera de sanidade humana que respira na mais abafada e miserável ruela.

 

Miguel Torga, in Diário IX

 

Confesso que quando li pela primeira vez este texto de Torga, fiquei abalado no meu orgulho de flaviense. Chaves feia, suja e desfigurada… como era possível Torga dizer isto de Chaves!?

 

O amor é cego e a paixão, além de cega, tolda-nos os sentidos. Com a idade, fui aprendendo a não julgar as coisas pela aparência e a amar desapaixonadamente, ou seja, amar sim, mas saber sempre o que esse amor tem de bom e reconhecer também nele o que há de errado e, sempre que possível, corrigir ou alertar para o que não está bem. Só assim poderemos fortalecer um verdadeiro amor e quem sabe, um dia torna-se de novo numa paixão.

 

Voltemos às palavras de Torga. Li e reli as suas palavras e despido da tal paixão, só posso concordar com Torga e até subscrevo. Na realidade as palavras de Torga são de 1960, já lá vão quase 50 anos, mas continuam a ser actuais. Não duvido em nada que Torga era um amante da cidade de Chaves, com a vantagem de ser seu amante sem ser flaviense e, logo aí, desprendido do bairrismo, paixão e cegueira de que os seus naturais sofrem. Era sincero no que escrevia e sentia pela cidade. Desilusões urbanas continuam a não faltar pela nossa cidade, desfigurada também, e continua suja, não no termo singular da palavra, mas suja na amplitude que a palavra possa abranger, principalmente no campo das ideias. Suja sim, não por falta de limpeza, mas por permitir que se suje…e não é de lixos que vos falo!

.


.

 

Claro que alguma coisa se vai fazendo pela cidade. Alias desde o 25 de Abril que muita coisa se tem feito pela cidade e pelo seu embelezamento, recuperaram-se e dignificaram-se os nossos monumentos, recuperou-se o rio, embelezaram-se troços das suas margens, engrandecera-se as termas, dotaram-se as ruas do centro histórico de pavimentos dignos, iluminaram-se as fontes, criaram-se jardins e canteiros, resolveu-se o problema da água (que durante anos atormentou), etc, coisa e tal. Mas o que ficou por fazer por defeito e o que se permitiu fazer por excesso, excedem em muito o que de bom se tem feito pela cidade.

 

Nas mesas dos cafés, entre amigos ou em família discutem-se os problemas da cidade. Todos os conhecem e todos os discutem em privado, mas quando são para vir a público, aí as coisas mudam de figura e parece não haver problemas de qualquer ordem na nossa cidade. Parece-me que todos tem rabos de fora com medo de serem entalados ou então, que todos esperam e anseiam por alguma coisa que só conseguirão refugiando-se no silêncio das ideias.

 

É urgente discutir a cidade, abertamente, sem medos e principalmente despidos do camisolismo partidário que a tantos cega, porque a cidade é dos flavienses e não dos partidos políticos (coisa complicada, infelizmente também o sei!).

 

Falar e discutir abertamente (e sem medos) aquilo que está mal, apontar soluções, na praça pública. Falar dos dinheiros mal gastos e apontar com o dedo os pecados, mas elogiar também o dinheiro bem empregue e aquilo que de bom se faz por esta nossa cidade e sobretudo aquilo que ainda se pode fazer.

 

Haja coragem para debater publicamente a cidade e altere-se uma vez por todas os modos de a pensar. A cidade é de todos.

 

Querem temas para debate!? Eu deixo-vos alguns e também algumas perguntas:

 

- O quê fazer pelo Centro histórico desertificado e à beira da ruína;

- Estacionamentos;

- Lazer e tempos livres;

- Futuro de Chaves, está no comércio, na indústria, no turismo (natural, gatronómico, termal, cultural…)? ;

- Urbanismo e planeamento, um assunto sério! ;

- Juventude e desporto;

- Uma casa mortuária, precisa-se! ;

- O que está mal no comércio tradicional, os comerciantes ou os clientes!?;

- Aldeias de montanha, qual o seu futuro!? ;

- Prioridades!? ;

-Trânsito e vias principais!? ;

 

Enfim, haja coragem para no futuro termos uma cidade da qual os nossos filhos verdadeiramente se orgulhem e envaideçam, senão apenas teremos direito à cidade que merecemos…

 

Entretanto, com os meus devaneios e ousadias, lá me vou metendo (onde dizem que não devo) e subindo no ranking das cabeças a prémio, mas pelo menos vou ficando com o gozo de ousar e de não me conformar que grandes nomes como o de Torga, continuem e ver em Chaves uma realidade feia, suja e desfigurada!

 

Amanhã falo-vos de provincianismo, fica prometido.

 

Até amanhã!

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:27
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Maio 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9


25
26
27

28
29
30
31


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Abobeleira em três imagen...

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Um olhar com a marca Chav...

. Cartas a Madame de Bovery

. Cidade de Chaves - Um olh...

. Chaves D'Aurora

. Quem conta um ponto....

. Pecados e Picardias

. Pedra de Toque

. Avelelas - Chaves - Portu...

. O Factor Humano

. Cidade de Chaves - Um olh...

. Discursos sobre a cidade

. Silhuetas com a marca Cha...

. Fugas - Por terras do Alt...

. Cartas a Madame de Bovery

. Cidade de Chaves, um olha...

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites