Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Crónicas Segundárias

 

 

 

 

 

Ainda a Pintura


 

Na anterior segunda-feira, no meu primeiro post deste blogue, fiz críticas aos autarcas e jornais de Chaves pela falha completa que têm tido na divulgação de um grande pintor da região, o João Vieira. Mas imediatamente houve um comentador do post a informar que a próxima Bienal de Chaves vai ser dedicada ao João Vieira (que até aqui tinha sido ignorado por todos os autarcas que têm passado pelo poleiro, seja de um ou outro partido). Depois disso, na sexta-feira, confirmei a notícia sobre a Bienal ao ler o Semanário Transmontano.


Quem tiver lido o post anterior e soubesse que a Bienal vai ser uma homenagem ao Vieira, poderia ter ficado a pensar que eu também já sabia do acontecimento e estava apenas a armar-me em espertinho, em sonso. Mas não foi nada disso, o que se passou é que eu conheço a arte do João Vieira há bastantes anos, apeteceu-me divulga-la, e, como ando desligado do que vai acontecendo na cidade, também não sabia que a Bienal lhe vai ser dedicada, nem tão pouco sabia que iria haver Bienal! É que apesar do Vieira ser pouco divulgado em Chaves, ainda há pessoas que lhe conhecem a obra, especialmente as pessoas com um nível cultural ligeiramente diferente do dos nossos queridos autarcas.


No mesmo artigo do Semanário, lê-se que a câmara tem um projecto para a criação do Centro de Artes João Vieira, que vai ser feito em Anelhe, presumo. Parabéns, é uma boa iniciativa.


Vou fazer um aparte para uma crítica ao artigo do Semanário. Na frase "A exposição de João Vieira, pai do conhecido vocalista dos Ena Pá 2000, que, em 2005, se apresentou como candidato à Presidência da República, estará patente ao público até dia 4 de Julho.", há uma afirmação errada. O filho do João, o Manuel João Vieira, nunca foi candidato à presidência da república. O que fez foi uma brincadeira em que dizia que se iria canditatar, apresentou um programa cómico (fez o mesmo em 2001), mas nunca chegou a ser um candidato oficial porque as 7500 assinaturas necessárias não foram aceites por terem sido feitas pela mesma pessoa! É um erro pouco importante embora fosse conveniente apresentar factos correctos. Mas já que o artigo era sobre pintura, não percebo porque não se disse que o Manuel João Vieira é também um artista plástico com reputação, com variadíssimas exposições de pintura, ou que a sua arte é requisitada pela Vista Alegre, por exemplo. Parece-me que isto não é dito por ignorância do Semanário. Meus amigos, vocês publicam apenas quatro folhas (a que chamam jornal) uma vez por semana e por isso têm a semana inteirinha para fazer uma coisa decente, apliquem-se!

 

Por outro lado, também muitos não saberão que o João Vieira cantava e até gravou disco em Anelhe.

 

 

 

 

Por falar em Manuel João Vieira, costumo vê-lo em Chaves umas 2 ou 3 vezes por ano, o que parece revelar gosto pela região. Não se perdia nada em convida-lo para uma exposição ou para qualquer tipo de colaboração em actividades culturais, coisas que são escassas na nossa cidade.

Espero que a Bienal corra bem. Tem alguns dos nomes mais sonantes da pintura portuguesa e espanhola,artistas que vale mesmo a pena ver. Não me acredito que do Miró e do Picasso venham obras importantes, o mais provável é que sejam apresentados desenhos ou pinturas "rápidas", coisas que o Picasso fazia em 2 minutos e que se podem ver ocasionalmente em galerias de arte de Lisboa ou do Porto.

 

Convém não esquecer que há picassos e picassos. É que o Pablo ainda tem o nome no Guinness Book of World Records por ser o artista mais rápido do mundo: durante os 78 anos que durou a sua carreira, produziu cerca de 13.500 pinturas e desenhos, 100.000 gravuras, 34,000 ilustrações para livros, e 300 esculturas, perfazendo um total de 147.800 obras de arte.


Há uma história do Picasso relacionada com a sua rapidez em desenhar. Uma senhora pediu-lhe para ele lhe desenhar o seu retrato e o artista acabou-o num instante. A senhora disse-lhe obrigado e perguntou quanto lhe devia, ao que ele respondeu que eram 5000 dólares. Ela espantou-se e perguntou-lhe como é que podia pedir tanto dinheiro por um desenho que lhe demorou 1 segundo a fazer. Ao que o artista respondeu: Madame, levou-me a vida inteira.


Quem estiver interessado em ver a rapidez com que Picasso pintava pode ver algum dos vídeos que se encontram no youtube.


 

Até para a semana, não se esqueçam da Bienal!

 

 

 

 

 


 

 

 

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Domingo, 30 de Maio de 2010

Guerrilheiros resistentes

As imagens de hoje bem poderiam ser uma descrição do Portugal actual: Enferrujado, roto, mal remendado e com  bicas e bebedouros secos… mas não, é uma pura coincidência…

 

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Ou talvez a coincidência não seja tão pura assim, pois se as imagens até podem transmitir um pouco de romantismo e o bucólico que as nossas aldeias têm, também transmitem dificuldades, vidas difíceis, a velhice e o abandono. Realidades bem reais de hoje mas também de sempre que convidaram (para ser brando) ou obrigou (para ser real) os seus filhos a abandonar a terra mãe.

 

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Resistem apenas os resistentes, autênticos guerrilheiros numa luta desigual contra tudo e contra todos, contra um poder distante que tanto os oprime como ignora, numa luta que sabem nunca vencer,  porque a única arma que têm, é o amor à terra pela qual irão morrer para nela serem sepultados.

 

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Pelos guerrilheiros resistentes, pelo carinho que lhes tenho, ficam três imagens em jeito de homenagem. Esqueço e nego-me a ver a ferrugem das placas, o reboco quebrado, as paredes descoradas e os seus remendos, as bicas e bebedouros secos. Em seu lugar, vejo as rugas de rostos envelhecidos que impõem o respeito da idade, os momentos de toda uma vida e olhos cansados que sem força para chorar, resistem, apenas… em suma, vejo a arte com que os guerrilheiros resistentes enganam e ultrapassam os dias.


 

As imagens de hoje são de S.Vicente da Raia, a descrição e texto, são de uma qualquer aldeia de montanha do nosso concelho de Chaves ou, se quisermos alargar o território, são do interior Norte e transmontano de um país que se chama Portugal Desigual.

 

 

 


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Sábado, 29 de Maio de 2010

Mosaico da Freguesia de Soutelo


 

Como sempre aos fins-de-semana, vamos até ao nosso mundo rural, com mais um mosaico de uma freguesia, hoje com o mosaico de SOUTELO.

 

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Mosaico da Freguesia de Soutelo - Chaves

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Localização:


A Noroeste da cidade de Chaves da qual dista 7 km.

 

Confrontações:


Confronta com as freguesias de Seara Velha, Calvão, Sanjurge, Valdanta, Curalha e Redondelo, todas do concelho de Chaves.

 

Coordenadas: (Largo do Cruzeiro Coberto)


41º 45’ 30.37”N

7º 31’ 54.85”W


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Altitude:


Variável –  Entre os 450 e os 650m

 

Orago da freguesia:


Nossa Senhora da Conceição

 

Área:


8.99 km2

 

Acessos (a partir de Chaves):


– Estrada Municipal nº535, com passagem por Casas dos Montes e Valdanta.

 

 

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Aldeias da freguesia:


- Soutelo

- Novais

 

População Residente:


Em 1900 – 518 hab.

Em 1920 – 498 hab.

Em 1940 – 570 hab.

Em 1960 – 657 hab.

Em 1981 – 431 hab.

Em 2001 – 384 hab.

 

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Desde que existem dados da população (CENSOS) podemos verificar que a freguesia de Soutelo, entre os anos de 1864 e 1940 manteve a sua população residente sempre entre os 500 e 600 habitantes, nem sequer o abaixamento de população de 1920 sentido em todas as freguesias, por esta freguesia não foi significativo. De 1940 a 1960, a população subiu e desviou-se da linha de tendência que vinha a percorrer até aí, atingido o pico de população em 1960 com 657 habitantes. De 1960 a 1970 a freguesia em apenas 10 anos perde 30% da sua população, vindo esta perda a agravar-se se a compararmos com os últimos Censos de 2001 em que a percentagem de perda sobe para os 42% e que a manter-se a linha de tendência de perda de população, nos próximos Censos a percentagem ultrapassará os 50%. Números sérios demais que há muito mereciam um estudo aprofundado bem como medidas para os contrariar, mas enfim, são os números do despovoamento ao qual a actual crise também vai beber um pouco.

 

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São também números atípicos para uma freguesia de proximidade de Chaves, no seu perímetro urbano e que não tem a montanha como domínio. Se me apresentassem os números sem o rótulo da freguesia, não hesitaria em dizer que se tratava de uma das nossas freguesias mais distantes de montanha.

 

 

Principal actividade:


- Desde sempre foi a agricultura, com terrenos férteis para a batata, centeio, fruta e vinho. Em tempos (não muito distantes) existiu outra actividade importante na freguesia, sendo famosa pelo fabrico artesanal de cobertores e mantas de lã. Com o tempo foi-se perdendo esta produção artesanal chegando-se ao momento actual onde não me consta haver pela freguesia quem se dedique a esta actividade. Os tais sabores e saberes da terra já não são mais da terra…

 

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Particularidades e Pontos de Interesse:

 

Se por um lado (ou quase tudo) o despovoamento das nossas aldeias ´tem de ser olhado pela negativa, há no entanto alguns pontos positivos que se lhe podem associar. Com o abandono das populações também o casario vai sendo abandonado e se por um lado envelhece e se deteriora, por outro lado continua a existir e a dar algum significado ao velho núcleo habitacional das aldeias. Pois tal também acontece por esta freguesia, com Soutelo e Noval a manterem os seus antigos núcleos, embora envelhecidos. Felizmente as novas construções têm nascido maioritariamente fora do núcleo antigo destas duas aldeias, sendo ainda possível manter o seu interesse a nível do casario tradicional, assim haja vontade de o manter, mas também de o recuperar.

 

A proximidade de Chaves deveria ser um dos pontos de mais interesse desta freguesia nas suas duas vertentes, ou seja, do proveito que ambas poderiam tirar desta proximidade, para além do dormitório actual e agricultura de subsistência que por lá se pratica. Retomar a antiga tradição da produção artesanal dos cobertores e mantas de lã, adaptada aos novos tempos, seria ouro sobre azul…mas para tal acontecer e despertar antigos interesses tornando-os actuais e reais, alguém terá de fazer o trabalho de casa…mas anda praí muita gente distraída a olhar para os umbigos e a construir castelos na areia. Enquanto tal vai acontecendo, vão-se perdendo os verdadeiros sabores e saberes de toda uma cultura aldeã.

 

 

Historicamente falando e pelos importantes povoados antigos das imediações, pode-se acreditar que também esta freguesia tivesse conhecido povoamentos antigos desde a pré-história não ficando também alheia à romanização. Mais recente e ligada ainda à época medieval poder-se-á ligar a notável Casa do Paço, um edifício de notável e interessante arquitectura ostentando uma quase tão vetusta como tosca pedra de armas dos Cogomilhos onde se inscrevem as 5 chaves. Já em 1758. Nas «Memórias Paroquiais» a Casa do Paço recebe alguns comentários por parte do pároco redactor onde comentava “não haver tradição certa da sua origem”. Estudiosos da casa dizem que possivelmente deverá tratar-se de uma residência senhorial baixo-medieval não fortificada.

 

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De valor patrimonial da freguesia, além do conjunto do casario típico e tradicional que ainda existe e da referida Casa do Paço, poderei ainda salientar a Igreja Paroquial e a Capela do Espírito Santo. De cariz religioso também se assinala o Cruzeiro da Srª da Saúde, com cobertura assente em quatro colunelos. Aparentemente toda esta estrutura da cobertura parece merecer uma intervenção urgente, pelo menos a julgar pelo peso e desvio (abertura) a que os quatro colunelos estão sujeitos, mas outra gente mais entendida que eu e com responsabilidades, pela certa que passa por lá regularmente e já deve ter notado que aquela estrutura não estará nas melhores condições…mas nestas coisas já se sabe que os santos da casa não fazem milagres, mas nem há como ir deitando um ouvido ao que o povo vai dizendo, principalmente quando diz que mais vale prevenir do que remediar… e com esta já estou quase no ir!

 

Tempo ainda para referir a Quinta do Noval e a referência a um estudioso e ilustre flaviense, o Padre Adolfo Magalhães.

 

 

 

Link para os posts neste blog dedicados à  freguesia


Para mais pormenores e fotografias sobre esta freguesia, nem há como fazer uma passagem pelos posts que lhes foram dedicados neste blog, seguindo os links:

 

 

-  Soutelo

 

-  Noval

 

 

 

 

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Plágios ou Devaneios!?

Ao ver as duas fotos que agora vos deixo aqui, ocorreu-me logo à ideia:

 

PLÁGIO!


 

O termo já é antigo, vem do latim (plagium, -ii, roubo de escravos, plágio) diz o dicionário e tem como significado:

 

1. Acto ou efeito de plagiar.

 

2. Imitação ou cópia fraudulenta.

 

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Pois sempre ouvi dizer que copiar é feio, muito feio… mas se ainda por cima essa cópia é fraudulenta, então, além de feio, também é crime, suponho.

 

Rebuscando no meu baú de fotos, deparei-me com as duas que vos deixo para apreciação.

 

- Serão um plágio!?

 

- Será quê na toma da última foto plagiei um olhar que já tinha tido!?

 

- Será quê um dos inspirados autores do design plagiou o outro!?

 

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Pois não sei, mas também me ocorre a ideia de alguém que poderá andar por esse mundo fora a ver como as coisas se fazem e depois as tente reproduzir cá na terrinha, mas à nossa maneira e à nossa escala, e isso, claro, está longe de ser um plágio… mas penso que não, que não há plágio e tudo não passa de devaneios que me ocorrem,  e depois, também não acredito que alguém de NYC viesse cá copiar-nos ou que algum olheiro conseguisse atravessar o atlântico e chegar cá com a ideia ou plágio inteiro… desculpem lá o incómodo e façam de conta que este post não existe.

 

Já agora, a foto nacional é de Soutelo, freguesia que mais logo estará aqui com o seu mosaico. A outra foto, roubei-a ao Devaneios , e foi mesmo um devaneio que vai de mim até ao outro que as juntou aqui.

 

Até logo em Soutelo e Noval.

 

 

 

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Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

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CASSAPOS


Manuel Fagundes Arrebita, era um preguiceiro. Nunca fez nada que jeito tivesse do que exigisse puxar pelo lombo bem entendido, porque no negócio era um portento. Nasceu na rua Verde, sabe Deus quando. Órfão temporão de pai, sua mãe consumiu-se ainda nova por mor de o criar desparasitado e bem nutrido. Finou-se pouco antes de o ver nas sortes, altura tida como a do verdadeiro desaninhar.


Até àquela altura polia esquinas, o mesmo é dizer não fazia a ponta de um corno. Parava pelos Quadradinhos, seu escritório, sempre atento às conversas dos engraxadores e aos negócios dos aldeãos que nos dias de feira faziam do Arrabalde o ponto de encontro. Mestre da manigância fazia da rua escola e mais tarde da tropa universidade.


Pelos dezanove anos assentou praça no Quartel de Infantaria Dezanove, onde refinou a arte de prestidigitador no contacto directo com a corja do ardil. A tropa manda desenrascar e ele rapidamente se desenrascou.


Quando um mancebo assentava praça, era-lhe distribuído, para além do fardamento, uma panóplia de outros artefactos que ficavam à sua responsabilidade por todo o tempo que se encontrasse a cumprir o serviço militar. Tinha de os apresentar no dia do espólio, isto é de passagem à disponibilidade ou à peluda como se dizia na gíria da caserna. Se esses equipamentos não fossem apresentados, havia que os pagar e a bom preço. Ora ninguém estava para aí virado, pois o dinheiro era ainda mais escasso do que é hoje. Por isso, sempre que alguma coisa desaparecia, era costume fazer-se uma de duas coisas: ou se mantinha o bico calado e na primeira oportunidade subtraía-se a outro, que provavelmente já a havia fanado a um outro e assim sucessivamente, ou então comprava-se no mercado negro, de preferência por uma bagatela.


O Arrebita não precisou de muito tempo para se enfarinhar no negócio. Prestes se transformou num autêntico padrinho napolitano. À sua conta tinha para mais de uma dezena de larápios, a quem comprava a mercadoria por tuta e meia e que depois metia no armazém-loja que tinha nos baixos de sua casa. Este estabelecimento só abria as portas a gente de confiança. Quem roubava sabia a quem vender e quem precisava a quem comprar. No seu supermercado havia de tudo: fardas completas de qualquer número, bonés e botas, sapatilhas, cintos e cartucheiras, balas granadas e cantis, baionetas, marmitas, garfos e colheres, havia inclusivamente peças avulsas de armas como culatras, canos e coronhas nomeadamente da conhecida Mauser Vergueiro. Não faltava nadinha. Se no momento não houvesse em stock, o cliente que ficasse descansado, dentro de um ou dois dias seria servido. O negócio era próspero enquanto andou na tropa. Quando passou à peluda enfraqueceu por ausência do cheiro da caserna. Mas ainda assim dava para viver e isso é que interessava.


Arrebita, era uma verdadeira toupeira do mercado subterrâneo, um dinossauro da compra e venda de material de guerra. Dizia-se que chegavam a vir do Porto à procura da sua mercadoria. Vivia bem o lapantim e sem fazer nada. Lábia não lhe faltava e se fosse preciso trabalhar noutro ramo, por exemplo armar estrangeirinhas para ludibriar bagalhuços aldeãos, não se ensaiava nada.


Por falar em conto do vigário lembrei-me agora de uma que lhes conto.

 

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Estando um dia no Arrabalde, Manuel ouviu dizer que o governo tinha contratado uma série de engenheiros para que fossem pelas aldeias do concelho actualizar as medições dos prédios rústicos para rectificação das matrizes prediais e respectiva actualização das contribuições, décimas, como à época se chamavam.


Viu a dele boa: iria ser engenheiro das medições!


Reuniu com o sócio Necrotério, antigo camarada de caserna, seu braço direito e juntos montaram a estrangeirinha:


Primeiro era preciso vestirem-se como verdadeiros engenheiros.


Depois afinar a linguagem técnica.


Por fim arrear as montadas e cavalgar por essas aldeias além.


Assim foi.


Foram ao Sarmento e botaram os metros de tecido necessários para dois fatos que o alfaiate Queirós haveria de fazer à medida. Camisa branca e gravata a dizer com a fazenda. Depois às Curadoras: botas cardadas e polainicos. No chapeleiro da rua Direita mercaram finos chapéus de felpo.


A seguir ensaiaram o paleio técnico, o que não foi nada difícil por serem especialista do endrominanço.


Por fim arreios a preceito para os cavalos, comprados nas lojas da especialidade à muralha do Baluarte do Cavaleiro.


Combinaram nomes falsos, engenheiro Teodoro para um e Torcato para outro.


No dia combinado abalaram serra arriba.


Iniciaram a saga pelo Barroso. Pedrário, primeira aldeia para experimentar. Correu de feição, continuaram, apurando cada vez mais o guisado.


E como faziam?


Chegavam ao lugar e procuravam o Regedor por mor de saber quem eram os grandes proprietários e ainda para dar peso institucional à coisa. Depois instalavam-se em casa de um dos mais ricos da aldeia. Armados de pasta, bloco de notas e teodolito, iam por essas courelas fora, acompanhados do proprietário e vai de fingir que mediam, que escrevinhavam e que tiravam os azimutes. Interim iam dialogando sobre a metragem e o imposto a que correspondia. Criavam assim o ambiente favorável para que os lavradores percebessem que pagariam grossa maquia de décima. Claro… a não ser que estivessem dispostos a compor a coisa com uns presuntos, uns salpicões e uma notitas de cem. A estratégia resultava, porque uma coisa era presentear uma única vez os engenheiros e outra a vida inteira o Estado!


O negócio corria de vento em popa. Os melros engordavam a olhos vistos e os proprietários contentinhos porque nalguns casos ainda iam pagar menos do que o que desembolsaram os seus avós.


Negócio perfeito.


Acabando numa aldeia partiam para outra levando o alforge repleto e a carteira anafada.


A coisa foi andando.


Quando viram que a teta barrosã tendia a secar e até mesmo para não dar muito nas vistas, viraram-se para o Planalto do Brunheiro.

 

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Claro está que naquela época as notícias corriam à velocidade do caracol. Contudo, mesmo assim, feira a feira não deixavam de se actualizar as novidades. Evidentemente que quem tinha sido favorecido pelas medições e eram quase todos os que tivessem por onde pagar, calavam-se como ratos. Porém, um ou outro lá se ia descaindo com os amigos e a notícia foi-se espalhando.


Ao Ti Moreiras do Carregal, pequeno proprietário, conhecedor de meio mundo, batido pelas balas do boche na guerra dos dezassete e curtido pela miséria dos campos de concentração alemães, chegou a notícia pela boca de um camarada barrosão que era um grande proprietário rural de Vilar de Perdizes e o acompanhou na Saga de Chaves a Copenhaga, nessa maldita Grande Guerra.


— Ó Moreiras, sabes que um destes dias, apareceram-me lá por Vilar dois engenheiros das medições! Olha que engrampei bem os filhos da curta! Mamaram-me umas chouricitas e uns presuntos, mas consegui que baixassem para metade as áreas das minhas poulas. Estou que vou pagar ainda menos de décima do que o que pagava inté aqui.


— Não me digas Aniceto! À minha terra ainda não chegaram. Conta-me lá os pormenores para eu fazer o mesmo.


Contou tudo timtim por timtim.

 

Passado uns tempos e umas feiras mais, já se comentava de que tinha havido tramóia com os engenheiros no Barroso. É que parece que apareceram por lá outros, se calha os verdadeiros e a coisa estava a desmascarar-se.


Entretanto, o Arrebita e o companheiro, continuavam na fresca ribeira a meter para o bucho e para o bornal, agora em terras do Planalto. Todavia, quando chegaram ao Carregal, terra do Ti Moreiras, ele já estava precavido e fez-se de mula!


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Recebeu o Regedor muito bem, aceitou que as companhias se instalassem lá em casa durante os dias que fossem precisos para o trabalho das medições.


O esquema era o mesmo de sempre.


O casal do Ti Moreiras ficou para último.


Daí a dois dias já estavam arrecadados na adega presuntos e cambalhotas de salpicões e linguiças, pagas de favores.


Estiveram por lá quase uma semana.


Os dias passavam-nos nas terras, os serões a ouvir as histórias de guerra que o anfitrião fazia questão de contar na primeiríssima pessoa.

Na última noite o Ti Moreiras e uns quantos do lugar, tinham uma surpresa reservada para os artistas.


Aquela noite estava fria como navalha de sincelo e negra como breu. Era Fevereiro, cerca do Entrudo e pelo Planalto soprava um vento galelo danado. Levava orelhas, barba e o mais que estivesse ao relento. Fosca-se!


Ora, depois de farta ceia de couve penca, feijão vermelho e pernil fumado, fizeram como nos outros dias, largo serão. Só que desta vez no lugar das histórias havia chincalhão[i] e cachaça para aquecer. Já tudo meio grogue, o Ti Moreiras sai-se com esta:

 

— Ó rapazes e se fossemos aos cassapos? Deve ser novidade aqui para os nossos amigos e a noite está mesmo à feição!


— Boa ideia — disseram os amigos.


Mesmo os falsos engenheiros ficaram entusiasmados. Só não sabiam o que eram cassapos.


— É surpresa, vocês vão ver. Haveremos de fazer uma tainada do catano amanhã!


— Assim seja — concordaram os engenheiros.


Foram então combinadas e distribuídas as tarefas. O Ti António Moreiras e os vizinhos, conhecedores do terreno e dos carreirões que os cassapos trilhavam para se alimentarem à noite, ficaram com a missão de os tocar até às embocaduras dos sacos, aí os engenheiros, em silêncio, colocar-se-iam cada um com seu saco de serapilheira bem aberto, para que os bichos acossados entrassem.

 

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— Não tem nada que saber, os senhores engenheiros vão ficar, um na Ladeira junto ao toco das raposas e outro nos Cáximos, junto à poça, de saco aberto no meio do carreirão, por onde eles hão-de passar. Como é de noite e eles vêem mal entrarão nos sacos. Têm é de ficar caladinhos para que não se assustem e tornem para trás. Nós vamos à volta e tocamo-los até aos senhores. Logo que entrem, fazem o favor de fechar bem o saco e aguardarem-nos para que lhe tiremos o pio.


— E os bichos mordem? — perguntaram em uníssono os engenheiros.


— Qual quê, são mansos como cordeiros, vão é ser mordidos por nós na janta de amanhã. Vamos?


Lá foram serra fora. Os aldeãos acautelados de samarra, boina galela e varapau para tocar os cassapos, os engenheiros, corpo bem-feito e saco de serapilheira às costas.


O senhor engenheiro Teodoro ficou no cimo do Belão, na Ladeira entregue a um carreirão onde corria um briol de tralhar a medula dos ossos, o Torcato ao lado da poça do Cáximos, já em carambelo pelo sereno da noite.


Puseram-nos em posição, aconselharam silêncio e foram tocar os cassapos, evidentemente para as mantas quentinhas e fofas de suas camas.


Os engenheiros estiveram à espera até de madrugada. Enregelados!


Os cassapos não apareceram.


Quando se deram pela tramóia, sebo nas canelas e a butes para Chaves!


Largaram montadas, salpicões, linguiças e presuntos.


Não deixaram o próprio canastro porque não foram audazes ao ponto de reclamar os pertences!..


Até hoje, nunca mais ninguém os viu pelo Planalto.



Benditos sejam os cassapos e mais quem nos inventou!





[i] Jogo de batota com cartas.

Gil Santos

 

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Blog Chaves agradece.

 

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Obrigado ao SAPO por disponibilizar este espaço e obrigado à equipa dos Blogs Sapo por mais um destaque.

 

O blog e Chaves agradecem.

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publicado por Fer.Ribeiro às 18:20
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Imagem do Dia - Largo do Anjo

 

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Será uma nova paragem de autocarro, uma missa campal ou apenas as pernas a pedirem repouso!?

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:50
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Colecionismo de Temática Flaviense - Medalhística

 

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Medalha em prata comemorativa dos 25 anos do Clube de Campismo e Caravanismo de Chaves.

 

Além de comemorar os 25 anos do clube, a medalha é atribuída anualmente a todos os membros que completem os 25 anos  de associado.

 

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Características:

 

Material: Prata

Dimensões: Diâmetro - 80mm;  espessura - 5mm

Não assinada

Ano: 1999

Medalha não numerada

Tiragem desconhecida

Cunhagem:  Gravarte - Lisboa

 

 

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

Essa cidade chamada CHAVES

 

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Fernão de Magalhães, poeta,  depois de partir e conhecer novos portos dizia-me que retinha e conhecia os lugares e as cidades pelo cheiro. Também ouvi dizer ou li em qualquer sítio,  que os bons músicos, numa orquestra sinfónica, conseguem distinguir e separar o som de cada instrumento. Eu confesso que não tenho o dom de separar e distinguir esses pormenores. Gosto de muitas cidades, sítios e lugares por uma ou outra razão ou por todas juntas,mas também pelo cheiro, pelas luzes, pela cor, pela arquitectura, pela monumentalidade, pela modernidade ou antiguidade, pelas pessoas, pelos afectos ou pelos bons e maus momentos que se passa neles. Também da música, apenas retenho a melodia e os momentos em que a oiço.

 

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Há no entanto, sítios, lugares, cidades, cheiros, luzes, noites, gente, mulheres, medos, ternuras … um sem número de outras marcas que nos marcam e se registam na memória para todo o sempre como a marca desses lugares, cidades e sítios onde aconteceram.

 

O sítio onde nascemos, o lugar onde aprendemos a andar de bicicleta, a escola onde aprendemos as primeiras letras, os medos de infância, os lugares precisos onde aconteceram os primeiros beijos e namoros, as escola que realmente nos ensinou, a casa de uma grande paixão, a primeira vez que conduzimos, as vezes que fomos conduzidos, as nossas ruas e bares da noite, os lugares de banhos preferidos do rio, as ruas e copos das grandes comemorações, a igreja onde casamos, o hospital e corredor, o preciso lugar  onde vimos os nossos filhos pela primeira vez, os sítios por onde param os amigos, os lugares que evitamos, de onde se vêem os melhores por do sol, onde gostamos de amanhecer, a casa da sogra… enfim, um sem número de sítios, lugares, casas, cantos, ruas e ruelas por onde debitamos os nossos passos, pousamos e aconteceram os grandes momentos, alegrias e desilusões das nossas vidas e que, se tudo isso acontecer numa cidade, essa é a nossa cidade, a cidade que nos marca e que, com paixão amamos e às vezes dói ou até odiamos.

 

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Eu tenho essa cidade, ela é o centro do mundo, tem cheiros e melodias de orquestras, luzes e cores, auroras e entardeceres, noites memoráveis, gente, um rio, vale e montanhas e, muitos, mesmo muitos momentos  inesquecives registados na memória das ruas, das calçadas, das casas e dos rostos da gente. Eu tenho essa cidade, chama-se CHAVES.

Dela, deixo-vos hoje três imagens apenas, ao acaso, das centenas de imagens com marca e magia.

 

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Terça-feira, 25 de Maio de 2010

Pedra de Toque - O Mês das Marias, por António Roque

 

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O MÊS DAS MARIAS



Maria é nome de mãe.

Do ventre, onde ela gerou, brota a luz, a claridade do mundo.


E Maio é o mês das Marias.


Não só da Maria, dita Santíssima, que segundo as Escrituras, virgem concebeu sem mácula de pecado.


Mas de todas as Marias mulheres que sempre com o sol de Maio, germinam nos seios o alimento e as rosas com que criam e adoçam os seus filhos.


Maria é nome de amada.


Que desabrocha ao ritmo do calor e da luminosidade do tempo.


Os olhos despertam, a boca humedece e o corpo deseja no natural encontro, com os braços dele, no beco da cidade verde, no refúgio sombrio da árvore protectora.


Com bênção ou sem bênção, com papéis ou sem eles, eis que surge a queda nos contactos da pele, na invasão dos corpos que só finda na estrada distante das estrelas que o luar reflecte.

 

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Maria é nome de filha.


O sangue dos nossos espasmos, a suculenta amora dos nossos desvarios.


Filha que cresce sempre com a melodia que a nossa generosidade produz, com a cor das papoilas que os nossos sonhos desejam, azul e diáfana dos nossos mares de esperança.


Filha que, com o inevitável curso das estações, virará mulher e mãe neste círculo radioso da vida.

Maria é nome de mulher.


E Maio é o mês das Marias.


António Roque

 


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Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

Crónicas Segundárias - Os Dois Pintores de Chaves

 

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Os Dois Pintores de Chaves

 

Uma das coisas que não aprecio é a maneira como os emigrantes são recebidos quando regressam de férias à terra. Os locais tem por hábito menosprezar-los. Talvez não o fizessem se pensassem das dificuldades que muitos emigrantes passaram para sair do país, nas longas jornadas clandestinas (muitas vezes a pé), no atravessar de rios a nado (em que alguns morreram), e nas dificuldades tidas na chegada a um país desconhecido, como sejam o isolamento social e as saudades que se passam. Nunca percebi este menosprezo pelos emigrantes que bem contribuem para o desenvolvimento das terras natais com a entrada de capital. Não sei se será o comportamento exuberante de alguns deles que provoca alergia aos locais, se a inveja provocada pelos bons carros ou o desgosto com o sucesso dos outros. Se o Zé do Chico (que andava por aí a pedinchar jeiras para comer um caldo), emigra e aparece, passados 2 anos, com um carro maior que o do regedor, de certeza que vai ter que se arranjar algum defeito ao Zé, se não for no cu é nas calças à francesa.


Mas não são só os emigrantes que são sujeitos a tratamento diferenciado. Se alguém migra para uma grande cidade, como Lisboa ou Porto, imediatamente se desconfia que o migrante se acha mais fino que eles (Olha, até já fala à Lisvoa e diz vurro!), já não liga nada à terra, etc. Há até quem ache os migrantes uns traidores que abandonam a terra! O que é uma grande estupidez, porque quem tenha a ambição de exercer algumas profissões, como apresentador de televisão, cientista, ou maquinista de comboios, não o pode fazer em Chaves e por isso tem que sair. Isto não implica que quem sai perca o amor à terra e que não regresse para matar saudades, comer bom presunto, por exemplo, e, também, ser recebido como um finezas, ou simplesmente ignorado.


É o ignorar e menosprezar quem sai da terra que me leva ao assunto de hoje, que é o de Chaves ter dois grandes pintores internacionais mas apenas um deles ser conhecido (na terra, fora dela são os dois bem conhecidos). Um deste pintores é o Nadir Afonso, toda a gente o sabe, e que é uma pessoa simpática e com um grande sentido de humor. O outro, ninguém o conhece nem ninguém fala dele. Infelizmente faleceu em 2009. Mas nem esse acontecimento foi notícia nos jornalecos regionais. Nem sequer no Semanário Transmontano, que é um jornaleco com a mania que é o melhor, mas a mim me parece apenas o menos pior. Também essa má notícia não foi motivo de post aqui no blogue de Chaves.


Já agora, ó Fernando, tu não és obrigado a postar nada, mas há que estar atento, não podes falhar, é que com esta coisa do 1 milhão de visitas, estás com as costas carregadinhas de responsabilidade, o teu blogue tem mais visitas do que os jornais regionais, todos juntos, têm em 50 anos. Porta-te bem, abre a pestana.


Bem, se nenhum dos jornalecos regionais deu a notícia da morte deste grande pintor de Chaves, nem o Semanariozeco Transmontaneco, todos os outros grandes jornais, mais televisões e rádios, a deram.


Esse pintor chamava-se João Vieira e era natural de Anelhe, onde vinha de visita quando lhe apetecia. Podem-se encontrar as notícias sobre o seu falecimento no jornal Público, na TSF, etc.


Para quem não o conhecia, aqui vai um bocadinho da notícia do Público, do dia 5 de Setembro de 2009:

 

Nascido em Vidago, em 1934, João Vieira ingressou em 1951 na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, onde frequentou os dois primeiros anos do curso de pintura.


Começou a expor em 1956, ano em que se ligou ao grupo do café Gelo, em Lisboa, quando partilhava um atelier por cima deste café com José Escada, René Bertholo e Gonçalo Duarte.


Os quatro, juntamente com Lourdes Castro, Christo e Jan Voss, fundam mais tarde o grupo KWY, em Paris, que fica também conhecido pela revista com o mesmo nome.


Mas antes, em 1957, João Vieira parte para Paris onde é aluno de Henri Goetz na Académie de la Grande Chaumière. Na capital francesa, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, trabalha com o pintor Arpad Szenes, marido da pintora Maria Helena Vieira da Silva.


Depois de outras passagens por Paris e ainda por Londres, onde em finais de 1964 lecciona no Maidstone College of Art, regressa a Lisboa em princípios de 1967 e começa a trabalhar quase exclusivamente como cenógrafo teatral.


A ligação ao teatro terá expressão nas artes plásticas, como é manifesto na sua primeira performance em simultâneo com a sua exposição O Espírito da Letra, realizadas na Galeria Judite Dacruz em 1970.


A RTP2 vai passar hoje às 22h30 o documentário “Pinto Quadros Por Letras” sobre o pintor.

 

O João Vieira foi das grandes figuras da arte portuguesa do século XX, como se lê no Expresso.Teve exposições nas melhores galerias, como o CCB ou Serralves, e ainda produziu painéis de azulejos para estações do metro de Lisboa e Budapeste, ou capas para discos, como do Vitorino.


Agora, pergunto eu: e em Chaves, houve algum dia exposição do Vieira? Não me lembro, penso que não. Porque será? Será porque ele era de Anelhe, da aldeia, ou porque os 15 km de Anelhe a Chaves são distância intransponível? Ou será que foi o ele ter ido viver para Lisboa?


Não sei explicar. O que acho é completamente ridículo que certos pintores de Chaves, que são fracotes (são quase todos, há um ou outro mediano e há o Nadir, claro, e haveria o Vieira não fosse a ignorância), apesar de bons rapazes, sejam convidados, apaparicados, e apoiados para expor aqui e acolá, e um pintor deste calibre tenha sido estoicamente ignorado. É ridículo e obtuso porque Chaves só teria a ganhar com isso, como é evidente, assim como tem a ganhar em receber bem quem bem nos representa fora da cidade.


Mas ainda se vai a tempo. Nada impede que ainda se faça uma exposição com a obra. Talvez seja complicado porque ela deve andar ocupada em mostra-se em Serralves, ou noutras grandes galerias, mas se se consegue o Nadir também se conseguiria o Vieira.


É caso para perguntar ao senhor vereador da cultura "Ó pá, andas a dormir? Olha que a pintura não é só Nadir!". E quem diz perguntar ao actual vereador, diz também a todos os seus antecessores, que pelos vistos de cultos não têm nada, ou muito pouco.


A mim é que não me podem acusar de não defender tudo que é bom da terra, sou dos flavienses mais flavienses que há, até tenho Chaves no nome!


Até à próxima Segunda.

 

António Chaves

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Domingo, 23 de Maio de 2010

Mosaico da Freguesia de Stº António de Monforte

 

 

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Localização:


A 12 km da cidade de Chaves, a Nordeste desta e próxima da raia e do limite do concelho,  situa-se no início do grande planalto da montanha mas ainda na encosta da serra com vistas para o grande vale de Chaves.

 

Confrontações:


Confronta com as freguesias de Lamadarcos, Mairos, Paradela de Monforte, Águas Frias, Stº Estêvão e Vila Verde da Raia.

 

Coordenadas: (Átrio da Igreja de curral de Vacas):


41º 47’ 58.83”N

7º 23’ 10.87”W

 

Altitude:


Variável – acima dos 450m e abaixo dos 650m

 

Orago da freguesia:


Stº António

 

Área:


10,31 km2.

 

Acessos (a partir de Chaves):



– Estrada Nacional 103-5 (até Vila Verde da Raia) e E.M. 502 a partir de Vila Verde da Raia.

 

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Aldeias da freguesia:


- Curral de Vacas

- Nogueirinhas

 

População Residente:


Stº António de Monforte só foi constituída como freguesia em 1960. Assim, só existem dados dos últimos quatro Censos.

 

Em 1970 – 561 hab.

 

Em 1981 – 604 hab.


Em 1991 – 509 hab.


Em 2001 – 509 hab.

 

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Principal actividade:


- A agricultura.

 

Particularidades e Pontos de Interesse:


 

Tal como já atrás se referiu a freguesia de Stº António de Monforte é de formação recente, só existindo como tal desde 1960, pois até aí, as aldeias de Curral de Vacas e Nogueirinhas pertenciam à freguesia de Águas Frias. Manteve no entanto a ligação às terras de Monforte, pelo menos no nome da freguesia, acrescentando ao seu orago (StºAntónio) o nome de Monforte, indo beber à origem da época medieval a denominação do território paroquial da terra e Julgado de Monforte de rio Livre.

 

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Dado nas redondezas da freguesia existirem vários povoados castrejos, pensa-se que as terras da freguesia tenham sido povoadas desde então, no entanto, como testemunho de povoamento antigo existe apenas uma ara da romanização, invocando a divindade indígena Larocus (ou Laraucus) relacionada com a Serra do Larouco, que aliás é avistada  desde terras da freguesia.

 

A freguesia é composta por duas aldeias: Curral de Vacas e Nogueirinhas.

 

Nogueirinhas é um pequeno lugar, muito bucólico até à construção da Barragem, mas que com a construção desta e da estrada de ligação de Curral de Vacas a Stº Estêvão, perdeu o romantismo do bucólico, ganhando em olhares de descoberta. Continua a ser um pequeno lugar, suponho que no máximo com meia dúzia de famílias, mas nem todas residentes. Pequena, mas possui uma capela, também pequena mas muito interessante e que quis o destino do traçado da nova estrada, que ficasse de costas voltadas para ela.

 

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Curral de Vacas, que muitos residentes se orgulham do topónimo, é geralmente apresentada com o nome da freguesia, ou seja, como Stº António de Monforte. Para mim e também na documentação que possuo, é o topónimo de Curral de Vacas que continua a constar como sendo uma aldeia da freguesia de Stº António de Monforte. Não quero meter a foice em seara alheia, mas penso que o topónimo Curral de Vacas é bem mais interessante e com fundamento que o liga à sua história antiga, do que o de Stº António de Monforte. Mas como disse, a seara é alheia e isto são coisa dos residentes, para mim, Curral de Vacas são como o Jardim, agora Largo das Freiras que bem o podem apelidar oficialmente de Praça Gen. Silveira, mas continuarão a ser sempre as Freiras.

 

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Curral de Vacas, ao contrário das Noguerinhas, é uma grande aldeia, com um grande largo, Igreja, capela e cruzeiro, forno comunitário e tanque público, dois cafés e, sempre, muita gente na rua. É uma aldeia com vida, a qual talvez se deva às vistas privilegiadas sobre o Vale de Chaves, a proximidade da cidade mas também ser uma aldeia de passagem para outras aldeias e freguesias importantes, como Mairos e Paradela de Monforte, mas também para Travancas, S.Cornélio, Argemil e freguesia de S.Vicente da Raia.

 

Stº António de Monforte é uma freguesia interessante que merece sempre uma visita, não só às suas aldeias como também à barragem de onde se avistam terras de Monforte mas também a cidade de Chaves. Um passeio de fim-de-semana com entrada por Vila Verde da Raia e saída por Stº Estêvão, recomenda-se sempre.

 

De lamentar na freguesia, só mesmo a ausência dos seus afamados “Autos da Paixão” que tão boas memórias deixa no passado da freguesia.

 

 

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Linck para os posts neste blog dedicados às aldeias da freguesia:

 

- Curral de Vacas

 

- Nogueirinhas

 

 

Curral de Vacas na blogosfera:

 


- http://curraldevacas.blogspot.com/

 

 

 

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Sábado, 22 de Maio de 2010

Águas Frias - Chaves - Portugal

 

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Desde puto que o meu olhar se vai perdendo mais além, até onde o horizonte o permite. Gosto de, ao longe, sinalizar os locais para um dia ir até lá ver como é. Um desses locais sinalizados no horizonte (quando criança, então distante) foi aquele quadradinho que se elevava um pouco acima da silhueta das montanhas das terras de Monforte. Diziam-me ser o Castelo de Monforte.

 

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Por mais republicanos que sejamos, as histórias de reis e rainhas, príncipes e princesas, fazem sempre parte do imaginário de uma criança e claro que os castelos, estão directamente ligados às monarquias, às guerras, cavaleiros, heróis, príncipes e até aos encantos das princesas. Coisas que os filmes das televisões vão metendo nas cabecinhas das crianças, e eu, como todas, também tinha esperanças que por aquela fortaleza ainda existissem resquícios de alguma monarquia.

 

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O tempo foi-se passando, deixei de ser criança, passei a adolescente e só em adulto passei por perto do Castelo de Monforte, cá em baixo, entre Águas Frias e o Castelo, na estrada nacional, mas mesmo assim, demasiado longe para o sentir.

 

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Um dia aventurei-me e, aí fui eu por ali acima até dar de caras com o Castelo. Um misto de admiração, espanto e desilusão invadiam-me. Estava diante de um sonho até então só visto de longe. Admirava a imponência que os castelos sempre têm, mas estranhava a ausência de vida em seu redor e o abandono, como se aquilo estivesse em terras de ninguém.

 

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Ainda baralhado das ideias, subi até ao castelo e começou a fazer-se luz. Em cada olhar que ia lançando para um e outro lado, ia esquecendo as ausências e os abandonos do sítio. A paisagem era preciosa demais para ser perturbada por outros sentimentos. Compreendia então o porquê de o castelo estar ali, pois dali, quase se avistava Meca e Teca, mas sobretudo o grande vale de Chaves, o contorno das montanhas e aos pés do castelo, meia dúzia de pequenas aldeias e aglomerados perfeitamente desenhados, sobressaindo uma, que graças à proximidade, chamava a atenção do olhar – Águas Frias.

 

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Decorriam os anos oitenta e muitos quando assim conheci Águas Frias pela primeira vez, depois de muitas passagens na estrada sem nunca descer à aldeia, foi lá do alto, desde o castelo que a apreciei verdadeiramente pela vez primeira e, desde logo ficou a vontade de penetrar por ela adentro para a conhecer em pormenor. Tal não aconteceria nesse dia, mas veio, repetidamente a acontecer desde esse dia até hoje, onde muitas vezes faço as minhas passagens fugidias, por breves minutos que sejam.

 

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Pois é até Águas Frias que este blog hoje vai, aldeia e sede de freguesia que a seguir a ordem alfabética das freguesias e aldeias do concelho, deveria ter sido a primeira a passar por aqui, mas que outros critérios fizeram que só hoje esteja aqui, no seu post alargado.

 

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Águas Frias que já há muito conhecia sem conhecer, ou seja, não conhecia a aldeia mas conhecia as suas gentes, gente amiga, colegas de liceu de conhecimentos e amizades mais desenvolvidas e até um professor, também amigo e ao qual ainda hoje agradeço o meu gosto pelas geografias humanas e dos lugares. Gente que tem nome e que o quero deixar aqui escrito, um, por com ele ter percorrido este Portugal de lés a lés e ter vivido bons momentos de endiabrada mas saudável juventude – o Carlos Santos e outro, o meu prof. de Geografia do Liceu, desde então amigo e hoje também companheiro da blogosfera flaviense ao qual agradeço também, desde já, a companhia na última visita à aldeia para tomar algumas fotos que hoje constam aqui e que dá pelo nome de Celestino Chaves.

 

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Deixando para trás esta já longa introdução, vamos até Águas Frias, com uma explicação por só hoje o fazer. Pois embora a ordem alfabética ditasse que fosse a primeira, só hoje acontece aqui por algumas razões. A primeira porque Águas Frias está muito bem representada na Internet com três blogues e portanto não haveria assim tanta necessidade de a divulgar como as outras aldeias que pecam pela ausência de não estarem representadas nesta aldeia global da net e da blogosfera. A segunda razão foi pelo material fotográfico, pois como já disse, fiz muitas entradas em Águas Frias, mas todas elas fugidias e/ou por motivos profissionais, o que, não me permitiu muitas veleidades  fotográficas, mesmo a última  e derradeira para este post, na companhia do prof. Celestino, foi debaixo de chuva… mas era tempo de Águas Frias estar por aqui com o seu post alargado.

 

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Também, digamos, que não perdeu com a demora, pois ao longo da existência do blog vou acrescentando a quantidade de fotos por aldeia, com aquilo que mais gosto, mas mesmo assim, com a quantidade fica uma imagem mais precisa para aqueles que não conhecem, ficarem com uma ideia sobre a aldeia.

 

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Vamos então até Águas Frias.

 

Águas Frias é sede de freguesia, à qual pertencem as aldeias de Assureiras (de Baixo, do Meio e de Cima), Avelelas, Casas de Monforte e Sobreira. Fica a 12 quilómetros de Chaves, à beira da tal Estrada Nacional, que iniciando em Braga, termina em Bragança e passa o nosso concelho de lés a lés, a E.N.103.

 

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Entusiasmados ao longe com as vistas do Castelo de Monforte que vai deixando o restante da paisagem para segundo plano e seguindo a EN 103, Águas Frias quase se esconde dos olhares menos atentos e também não é pela passagem que se fica a conhecer a aldeia. Para a conhecer, é condição necessária descer até ela, atravessá-la, percorrer as suas ruas e virar no largo da igreja, que também é largo da escola. Mas mesmo assim, se a passagem for de carro, não se fica a conhecer Águas Frias e o seu melhor na totalidade. Nem há com parar o carrinho e percorrer a pé as ruas, ruela e becos onde o carro não vai. Não é por mero acaso, embora com muitos pecados, que a aldeia no PDM de Chaves tem um núcleo a preservar, pois de facto, o seu aglomerado tem características únicas e que fazem a diferença da maioria dos aglomerados rurais tradicionais. Pena que o casario mais típico e interessante da aldeia esteja abandonado e que nalgumas recuperações não tenha havido a sensibilidade de preservar o que de melhor a aldeia tinha e as novas intervenções se misturem um pouco com o característico do velho núcleo.

 

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Embora esta coisa da construção e intervenções construtivas nas aldeias até possam ser contas de outro rosário, a descaracterização das  nossas aldeias rurais são um facto que não se pode esconder, pois é evidente. Não quero com isto culpar os culpados que até não o são. Parece complicado de perceber mas não é, ou seja, não basta no PDM – Plano Director Municipal dizer que o núcleo de uma aldeia é para preservar, tal como acontece em Águas Frias, principalmente quando essa preservação tem o gosto ou o sabor de penalização, pois desde logo qualquer recuperação em núcleo a preservar é mais restritiva e mais onerosa sem que para isso haja incentivos (qualquer que seja) ou sensibilização. Ou seja, vieram uns senhores lá de baixo, deram uma volta pela aldeia e disseram: -  “esta aldeia é porreira, pá. Carimba-a aí com núcleo a preservar”. E, pronto, já está.

 

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Sem dúvida alguma que Águas Frias tem mais que motivos para ser uma aldeia interessante, mas não basta ser classificada. Haveria que fazer todo um trabalho de casa para que a população tomasse conhecimento do interesse que era preservar o núcleo histórico e do que poderia ganhar com isso. Haveria que haver incentivos em termos de licenciamento e de taxas. Haveria que haver incentivos, até, em termos monetários para a recuperação do casario, ou seja, não basta ditar as leis, é preciso também criar condições para que as mesmas sejam cumpridas e aí, criadas todas as condições de incentivo, penalizar também,  seriamente,  quem não as cumpra.

 

Medidas sérias e sustentadas dariam também ou contribuiriam para a vida e sobrevivência das aldeias, com o incentivo até, para o repovoamento das mesmas e para o despertar e valorização dos seus usos, costumes e tradições, principalmente nestas aldeias de proximidade da cidade, com bons acesso e com motivos mais que interessantes a seu lado, como o é o Castelo de Monforte e todas as aldeias desta freguesia.

 

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Custa dizer que não era preciso inventar nada para que estas nossas aldeias fossem motivo de interesse turístico e cultural de quem nos visita e simultaneamente motivo de orgulho e de modo de vida das suas populações, mas não, perdemos e esquecemos aquilo que de melhor temos, as nossas riquezas, e partimos para aventuras megalómanas de encher o olho que não nos levam a lado nenhum e só contribuem para a nossa desgraça. Estou a falar dos senhores de Lisboa e da cambada dos políticos em geral que desde que as suas mordomias e bem estar esteja garantido, até esquecem e ignoram a terra onde nasceram e depressa esquecem o engaço, o mesmo que calejou as mãos dos pais que pagaram os seus estudos.

 

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Finalmente a geração rasca chegou ao poder e os interesses que os dominam, dizem que eles devem continuar por lá, entretanto, perdem-se as aldeias, os costumes, tradições e valores que fazem a cultura de um povo, toda a riqueza de um povo do interior, principalmente a do Norte e da nossa região e regiões vizinhas. Quando os de Lisboa e os político despertarem para a realidade, temo que já seja tarde demais e quando muito, apenas poderão recriar, ou seja – aldrabar, a genuinidade de toda uma cultura que muito bem poderia e deveria conviver com a modernidade, ainda para mais com os novos meios de comunicação que temos ao dispor de todos.

 

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Já é hábito pedir por aqui desculpas às aldeias pelos meus devaneios sentidos, quando toca à sua vida em geral. Também hoje peço desculpas a Águas Frias por trazer aqui alguns desabafos que doem e no constatar do abandono de todo um interior em vez de se olhar pela sua valorização e por um modo de vida com qualidade a servir qualidade para todo um Portugal. É mais fácil aumentar impostos, culpar e castigar os funcionários públicos e indirectamente todos os que vivem à sua volta, lamentar crises alheias e nada fazer pelo que verdadeiramente deve ser feito, investindo no interior e nas suas gentes, na sua riqueza e valores, tal como na riqueza e valores do seus produtos, tradições, usos e costumes em vez das políticas dos subsídios que se distribuem nos corredores dos ministérios, organismos estatais, técnicos e por meia dúzia de chicos espertos sem verdadeiras políticas agrícolas, florestais, culturais, turísticas sustentadas e viradas para o interior.

 

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Enfim, vai-se investindo ou prevê-se investir em TGV´s, mais pontes sobre o Tejo, novos aeroportos, estádios, agora as barragens e um sem conta e número de devaneios a nível autárquico, como por cá, com parques empresariais, mercados abastecedores e plataformas logísticas que nunca funcionaram,  quando estamos de tanga, descalços enquanto se vai esquecendo as potencialidades de todo um interior, ele próprio esquecido e constantemente despido e roubado dos seus potenciais, valores e serviços. Finalmente Portugal começa a ser só Lisboa e o resto é paisagem ou uma futura coutada nacional, onde a custo, alguns resistentes serão confundidos com indígenas, mas que, para pagar os desastres da geração rasca que invadiu o poder, contamos e pagamos todos, mesmo nós os do interior, constantemente desprezados e roubados…e que ninguém meta política partidária neste meu desabafo, pois todos os partidos frequentaram a mesma escola….

 

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Vamos continuar com Águas Frias que é o que hoje interessa aqui.

 

Já falamos na sua forte ligação ao Castelo de Monforte e claro, ligação essa que também está ligada à historia da aldeia e das aldeias das terras de Monforte, mas que hoje apenas tem ligação à terra e à vida agrícola, com produção de centeio, castanha, batata, alguma fruta e vinho, além das costumeiras hortas de redondeza das habitações, onde há um pouco de tudo para o dia a dia.

 

Quanto ao Castelo de Monforte, um ex-líbris da região de Monforte e de todas as suas aldeias, depois de uma entusiasmante recuperação e tentativa de dar vida à sua envolvente, está de novo dotado ao abandono total. Os olhares (infelizmente) não estão para ali virados e temos pena.

 

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Águas Frias é uma povoação muito antiga e referenciada já em escritos antigos, como o das Inquisições de 1262. De grande importância no passado, precisamente por estar directamente ligada e nas proximidades do Castelo de Monforte de Rio Livre.

 

O Casario tradicional transmontano sobrepõe-se ao solarengo, no entanto há alguns exemplares mais nobres dignos de realce. De realçar é também a Igreja, um edifício com traços renascentistas, com uma bonita frontaria onde se destacam dois pináculos colocados simetricamente sobre a cornija da estrutura e a sua torre sineira com dois níveis de sinos, popularmente conhecida como torre dos condenados e que segundo se diz, adoptou este nome porque foi construída com dinheiros dos impostos e multas aos habitantes da aldeia. Localizada fora do núcleo da aldeia, ocupa um ligar vistoso, avistando ao longe. Tem como orago o S.Pedro, cujos festejos lhes dedicam anualmente tal como a Santa Bárbara, protectora (como todos sabemos) dos malefícios das trovoadas.  Fazem-lhe companhia um curioso conjunto escolar.

 

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Águas Frias e toda a freguesia  esteve sempre muito ligada ao Castelo de Monforte de Rio Livre que se situa na antiga Civitatella de Batocas. O castelo assenta, segundo os arqueólogos, sobre um castro romanizado. Sustenta esta afirmação o facto, entre outros, de terem sido encontradas, nesse local, duas aras, uma das quais dedicada ao deus Larouco. A construção do castelo é atribuída a D. Dinis e sobre ele verseja o povo, evocando a tradição:

 

Eu, Dinis
Sete castelos fiz
Mas o mais forte
É o de Monforte.

 

O julgado de Rio Livre foi fundado em 1267, teve forais dados por D. Afonso III, D. Afonso IV e D. Manuel I. O primeiro criou a célebre feira de Monforte, bem ao uso do tempo medievo, que durava dois dias. Há anos atrás tentou-se recriar numa festa de verão o ambiente de feira vividos há séculos atrás, mas foi sol de pouca dura, pois com a mudança das cores políticas da Câmara Municipal, lá foi a recriação e a evocação do passado para o galheiro, acompanhada pelo esquecimento continuado do próprio castelo. Mas nem todos o esquecem, pois eu sempre que posso dou lá um pulo e tenho gosto em levar gente comigo, principalmente fotógrafos onde fazem o gosto ao dedo para os melhores pores do sol que podemos encontrar na região. É também para lá que a blogosfera flaviense tem o seu próximo encontro marcado, a acontecer em Julho próximo.


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Dizia no início do post que uma das razões pelas quais ainda não ter ido até Águas Frias era pela sua boa representação na internet. De facto marca presença na NET com três blogs os quais vão mantendo actualizada a vida de Águas Frias nesta aldeia global e aos quais recomendo uma visita (por ordem alfabética) :

 

http://aguasfrias.blogs.sapo.pt/ de autoria de Mário Silva

http://aguasmonforte.blogs.sapo.pt/ de autoria de João Tanas Oliveira

http://riolivre.blogs.sapo.pt/ de autoria de Celestino Chaves

 

E por hoje é tudo, amanhã há mais.

 

 

 

 

 

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Sexta-feira, 21 de Maio de 2010

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove

 

(XI)

 

Verificou todos os recantos do quarto antes de pegar no envelope. Pareceu-lhe que havia sido deixado por alguém que se movimentara ali dentro para chegar apenas à mesa. Um envelope azul, de papel espesso e entretecido. Lacrado. Um envelope dos serviços, mas sem qualquer nome ou identificação exterior.

 

O relatório, como pensara. Abriu o envelope cuidadosamente. Já com os papéis na mão, arregalou os olhos e franziu as sobrancelhas, soltando uma risada surda. Ninguém esperaria que o contactassem daquela maneira. De facto, os oposicionistas arranjavam sempre uma forma engenhosa de comunicação. Teria sido uma das criadas?

 

Todas as informações coincidiam com as que recebera dos serviços. Na primeira cópia. Na outra surgiam aqueles que pareciam os verdadeiros planos. Seriam documentos fiáveis até para os serviços. Mas a mensagem cifrada estava lá. A rota do candidato, que a polícia já conhecia de antemão, e tudo o resto que desconhecia – os encontros clandestinos, os planos, os contactos privilegiados, as personalidades que o apoiavam, sem que a polícia disso soubesse.  

 

Displicentemente, abandonou os documentos sobre a mesa. Não lhe apetecia continuar a lê-los. Precisava de dormir. Mas nunca conseguira dormir com a barba por fazer. No lavatório refrescou a cara, reparando nas olheiras que se reflectiam ao espelho. Há já muito que não se via assim, com a consciência de estar frente a frente consigo próprio. Olhava para a sua imagem como se olhasse para a de um desconhecido.

 

No rosto notou duas linhas fundas acompanhando as sombras do nariz, contornando as narinas e terminando quase na comissura dos lábios. Pela primeira vez apercebeu-se que estava a envelhecer. E sentiu cansaço. Um imenso cansaço interior. 

 

Voltou-se, regressando à sala. Colocou os papéis na pasta e fechou o cadeado. Hesitou, parecendo não saber o que fazer com aquele volume. Sem muita convicção, passou a pasta da mesa para a secretária. Exausto, caiu na cama, deixando o pijama na gaveta, a barba por fazer e os cortinados abertos.

 

(continua)

 

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Às vezes vale a pena perdermos um pouco do nosso tempo a apreciar aquilo que nos rodeia e de tantas vezes o vermos nos passa despercebido.

 

A Capela de Stª Catarina, por exemplo, na rua 1º de Dezembro, aparentemente simples, está cheia de ricos pormenores e de outros menos agradáveis, como por exemplo, faltar uma mão à santa.

 

Até mais logo, ao meio-dia, com mais um discurso sobre a cidade.

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:53
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