12 anos
Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

Crónicas Ocasionais - Fim de Ano

 

 

 

“Fim de Ano”

 

O fim do ano está aí.


Demora sempre trezentos e sessenta e cinco dias, com algumas vírgulas.


De vez em quando acrescenta-se-lhe um ponto e vírgula.


O fim da vida também está aí, a toda a hora e momento.


Aos que sofrem, aos que mais sofrem, parece, a uns, estar a bater à porta; a outros, demasiado demorado.


Não tem tempo certo   -   é um ponto final.


Sem parágrafo.


O fim do ano nem mudança de linha chega a ser.


Ano Novo, Vida Nova!   -  exclama-se.


Pobre suspiro,  que nem uma pintinha do «i» vale.


A Vida, desigual, seguirá sempre igual.


Poucos se darão conta de pouco mais passarem de marionetas na feira das ganâncias dos poderosos sem escrúpulos   -   príncipes da hipocrisia e ministros plenipotenciários da mentira.


“Ninguém se diverte tanto a imitar Deus» quanto os “diabos em figura de gente”!

Só o rebelde consegue dar grandeza à condição humana!

 

 

Luís Fernandes

 


 

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Discursos Sobre a Cidade - Por António Tâmara Júnior

 

Foto de Tâmara Júnior

 

 

 

NONA

 

 

Com catorze anos veio de uma recôndita aldeia do sul do distrito para as terras mais frias e, ditas ricas, do norte. Acompanhava sua mãe, sua irmã mais nova e seu irmão, deslocado em múnus pastoral.


Traziam a esperança de uma vida melhor e mais próspera.


E horizontes mais largos que as fragas do Marão não lhes davam, apesar da beleza agreste das suas vistas e dos enormes e policromados vinhedos que, à sua volta, todos os anos se lhes ofereciam em horto de canseiras.


Fizeram, nas faldas das fartas terras da Veiga, o seu lar, construindo sua casa.


Neste terrunho decidiram levar para a frente suas vidas.


As terras da Veiga tinham fama.


Fama que lhe vinha da história. Da situação geográfica privilegiada. Das suas gentes.


Terra de fronteira, o comércio e relacionamento entre povos era a sua especialidade.


Pelas histórias que se contavam e contam, assim era, ou parecia ser.


Nos anos 60 e 70, as terras da Veiga tinham aura, encanto e encantamentos. E comércio próspero. E fronteira cheia de “peliqueiros” endinheirados pela imigração clandestina. E pelo contrabando. E agricultura, suporte da maioria das actividades das gentes do mundo rural, ainda pujante. E bancos gordos das remessas das divisas das suas gentes, pobres de terras, à procura também de melhor vida. E meio urbano fervilhando de estudantes e militares (Caçadores 10 e Liceu), propiciando uma “movida” de fazer inveja a muitas cidades com pergaminhos, gabarito e fama na área da diversão e da animação.


Enfim, via-se que a terra tinha futuro. Que era uma esperança. E que havia que apostar.


Daí, em alguns espíritos, um certo ar de superioridade, de indiferença, quiçá até de desprezo, para com as gentes do sul. Clima este, mais patente e visível, nas instituições da Vila, capital do distrito.


Toda esta envolvente, era meio para cativar, seduzir. O amor próprio andava alto.


Com toda esta vivência, de auto-estima positiva, Nona, que, de tempos a tempos, vinha a norte passar férias com os seus parentes, foi seduzido. Também conquistado. Apesar de, no fundo, andar desconfiado. Pois sentia que tanta “fartura” não podia durar sempre. Porque não sentia ali o dedo do engenho, da arte, do esforço, do trabalho, da criatividade. Somente o usufruto fácil de situações facilitadoras. Portanto, fáceis.


Mas acabou por ficar também. O coração falou mais alto que a razão. E fez também neste cantinho o seu lar.


E, durante mais de trinta anos, deu o melhor que soube e tinha da sua juventude à terra onde repousam os restos dos seus entes mais queridos.


Hoje, Nona, já tio, entrando naquela idade que apelidamos de velhice, olhando de frente para o passado, resmunga consigo próprio e com os seus conterrâneos que não souberam, a tempo, usar da tradição e da história, da situação geográfica privilegiada, dos seus recursos agro-florestais e do subsolo e, fundamentalmente, das suas gentes, para se desenvolverem.


Porque ninguém desenvolve ninguém a não ser nós próprios.


Porque vivemos quase sempre na miragem de uma imagem fossilizada do que éramos, enquanto outros prosperavam. E passámos a vida a culpabilizar os outros e a pedir ajuda a terceiros.


Esquecemo-nos de olhar para o fundo de nós próprios e tentarmos descobrir que, numa quadra em que tanto se fala de nascimento e novo, urge sabermos investir num renascer e um novo homem flaviense. Que seja capaz de sair da mentalidade miserabilista, da apatia e do acanhamento. E que saiba estar mais à frente, para além da fronteira, investindo mais em si próprio e potencializando, pela inovação e criatividade, todos os seus recursos.


Eis, em suma, o resumo da conversa ontem mantida com o Tio Nona quando ontem me dirigi a sua casa para lhe desejar um Bom Ano 2011.


Bom Ano 2011 a todos!

 

 

António Tâmara Júnior

 

 

 

 

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Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

O Homem sem Memória (26) - Por João Madureira

 

 

 

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

 

26 – O guarda Ferreira, cheio de fome, ou, melhor dizendo, sedento de um copito de vinho, levantou-se do degrau onde estava sentado, sacou do sabre e pôs-se a escarafunchar a fechadura da porta. Mas ela nada de ceder. Experimentou as janelas, mas também elas se recusavam a abrir. Começou então a suar e a dizer asneiras. Depois pôs-se aos pontapés à porta. E só não a deitou a baixo porque o José lhe lembrou que estava fardado de GNR e um agente da autoridade não arromba portas, principalmente a de sua casa.


Estava ele a tentar enfiar novamente o sabre na frincha da fechadura quando apareceu a Dona Rosa que começou logo ali nas escadas a insultar o marido por causa da violência dos actos que o encontrou a praticar. Os filhos pequenos que a acompanhavam começaram a chorar, menos o João, que era o mais valente, pois mal a viu a tratar mal o pai e o irmão mais velho desatou a arranhá-la como um gato enraivecido. A Dona Rosa tentou defender-se enfiando o seu filho de um ano no colo do pai que, não tendo tempo de guardar a arma branca, a deixou cair ao chão. O José, solícito, apanhou a arma do pai e tentou enfiá-la na bainha. A mãe, não tendo em quem descarregar a fúria, pregou duas chapadas no filho mais velho, avisando-o que não lhe permitia que se aproveitasse da presença do pai para a ameaçar com o sabre, ao que o guarda Ferreira retorquiu dizendo que a intenção do filho tinha sido a de guardar a arma para que não se danificasse ou não ferisse alguém, pois se a arma era sua o culpado por qualquer ferimento por ela provocado era o legítimo proprietário que, no caso, era ele mesmo, quer a utilizasse o próprio ou alguém por ele e que sendo assim o José tinha procedido como o menino avisado que era e que ela é que tinha prevaricado pois não estava em casa a tempo e horas de fazer o almoço para o marido e para os filhos, que era a sua obrigação de dona de casa.


Armou-se logo ali uma discussão nada abonatória para o bom nome de uma família de um GNR, onde até as galinhas que debicavam alguns restos de comida no quintal foram molestadas com os pontapés do José, que se viu privado do almoço, bem assim como o seu pai, que teve de ir para a patrulha da tarde com o estômago vazio.


À falta de melhor, e porque os filhos ainda eram bem pequenos, a Dona Rosa insultou o vizinho Virtudes, o seu escravo adoptivo, e deu porrada no Leão, que gemeu como um ser humano. Por fim, a sensível Dona Rosa pôs-se a chorar, perante a indiferença um pouco fingida do Virtudes, a insensibilidade premonitória dos filhos e a verdadeira aflição do cão, que não deixou de lhe lamber as mãos enquanto a sensível Dona Rosa destilava lágrimas tão sentidas como as que viu chorar a Mariana, a filha do ferreiro que se lançou ao mar abraçada ao cadáver do seu amado Simão que só tinha olhos para a Teresa, no filme Amor de Perdição exibido no Café Terra Fria.

 

27 – Mas se o dia foi patético para a família Ferreira, a noite revestiu-se de dramatismo.


O guarda Ferreira chegou a casa já tarde, cansado, esfomeado e, pior do que isso, sedento de vinho. Toda a tarde a passou a água, ele que era criatura para beber dois litros ou mais de tintol, e apenas fumou dois cigarros, ele que era homem (...)

 

(Continua)

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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

A ultima feijoada de 2010

 

 

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Dia 29 de Dezembro de 2010, dia de S.Tomás Becket e de feijoada em Chaves. Dia da última crónica de feijoadas do ano de 2010. Seria tempo de fazer por aqui a análise do ano que termina e de preparar a entrada para o ano que se aproxima, mas há pouca vontade de fazer análises a um ano que se quer esquecido e distante e muito menos vontade para prever os maus dias que aí vão vir, pois é com todo o pessimismo do mundo que adivinho ou prevejo o ano de 2011…mas, enfim, há sempre um restinho de esperança.

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Cada vez mais estou convencido que a verdadeira escola da nossa aprendizagem é a escola da vida e dos anos de vivência. Fui educado da maneira que os meus pais e os professores sabiam educar. Não foi a educação perfeita, mas mesmo sem o ser, foi uma educação à qual estou grato. Uma educação baseada nos valores, no valor da palavra, da verdade, do respeito, da disciplina. Não foi muita rigorosa em coisa de livros e dos seus conteúdos mas foi em valores e saberes e sabores da terra e da vida,  em que o pão que se comia à mesa tinha o especial sabor de lhe conhecermos o amanho da terra,  a sementeira, de assistirmos ao seu crescimento, de esperar pelo seu amadurecer, do árduo trabalho de colher e escolher as sementes, da sua moagem, da sua mistura e amassar à mão, do aquecer do forno, das rezas e bênçãos, do sabor da bica, do cheiro (aroma) do fumo e cozedura…todo um ritual e trabalho que fazia com que o pão à mesa merecesse a vénia de quem o merecia e saboreava como uma dádiva de Deus… São coisas difíceis de explicar aos putos de hoje ou a quem sofre de amnésia para quem o pão nasce nas padarias tal como a água nasce na torneira lá de casa…

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Pensamentos e valores da vida caídos em desuso, principalmente o do valor da palavra (dita ou dada) e o da verdade, valores que os políticos actuais desconhecem ou que conhecendo, (porque são da mesma geração que a minha) fazem tábua rasa sobre eles e recorrem à mentira para ser eleitos, sendo a mentira um mal necessário que nunca deve ser posta em causa e antes deve ser ignorada e perdoada, que se vitimizam com a verdade e realidade,  orquestrando-lhes engenharias de contra-poder, ingratidão e ignorância onde o justo é pecador, é abusador, é culpado…

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Enfim, se a minha educação o permitisse, mandava à merda toda esta cambada de políticos, mentirosos e crápulas sem valores, mas como fui bem educado e respeito os valores que me incutiram, não os posso mandar à merda, mas também não vou com eles à missa…

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Enfim, não há análise possível a um ano de 2010 que se quer esquecido e muito menos previsões para um ano de 2011 que se quer que passe bem depressa. Mas, tal como disse no início, há sempre um restinho de esperança. Esperança na memória das pessoas de bem, esperança em que as pessoas deixem de vez as palas que os acompanham e deixem de seguir o carreiro dos maus pastores, esperança que a verdade seja valorizada, esperança por um futuro que nem sequer desejo melhor, apenas esperança por um futuro. E que fique aqui registado para memória futura, para os meus netos e outros netos (se é que os meus e nossos filhos vão ter condições de ter filhos) que nem todos ajoelham ao passar da procissão da geração rasca dos actuais políticos e dos seus seguidores que comungam com o punho no peito e dizem ámen! Que fique registado que eu não vou por aí, não quero ir por aí, que prefiro seguir só que mal acompanhado.

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Mesmo assim, um bom ano de 2011 e prometo-vos continuar com as feijoadas das quartas-feiras, mesmo que sem carnes e tripas, mesmo que apenas feita de feijão, prometo guardar os temperos da horta para que nunca lhe faltem.

 

 

 

 

 

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Mudar de Passeio

 

 

 

Mudar de passeio


 

 

O José não gosta nada de mudar de passeio. Diz que tem medo de atravessar a rua. Que lhe desestabiliza o sistema nervoso e lhe mexe com a libido. Ele tem a libido um pouco estragada. Coisas da juventude. O José foi à guerra e quem vai à guerra dá e leva. E ele levou mais do que deu. Por vezes fica com os olhos turvos e começa a chorar. Nesses dias não sai de casa. Nem do quarto. Nem da cama. Desenha fios de metal e aranhas muito coloridas. Pode passar assim dias e dias alimentando-se apenas de iogurtes naturais e fruta cristalizada. Também lê revistas científicas, mas lê os artigos do fim para o princípio. Depois traduz alguns para o árabe e no fim rasga-os. Sabe tocar piano, andar de bicicleta e assobiar com os dedos. Toca piano só a partir das cinco da manhã e apenas até ao amanhecer. Nunca o faz fora deste intervalo de tempo. Tira muitas fotografias às suas mãos e depois amplia-as muitíssimo para observar os poros e os pêlos da epiderme. Nos dias de chuva mia muito. Nos dias de sol muge como os bois do barroso. Na sua quinta da aldeia tem uma zebra manca que comprou a um circo. Escova-a todas as semanas e passeia-a pela aldeia. Também toca muito bem cítara. Mas os amigos não gostam deste tipo de música. Coisa que o irrita muitíssimo e o faz estalar os dedos. Costuma sair nas noites de geada e passear um galo de briga cego que comprou a um mexicano de férias em Espanha. Costuma dar-lhe pipocas picantes e levá-lo ao Miradouro de S. Lourenço para lhe mostrar a cidade de C. Nesses dias o galo canta que se farta e ele acompanha-o à guitarra. O José é muito habilidoso com as mãos.

 

 

 

 

 

Aprendeu a fazer croché e confecciona lindos carapuços para árabes e judeus. Escreve-me cartas enormes com letras desenhadas a rigor e isto vivendo nós apenas a cem metros um do outro. E envia-mas sempre em correio azul. São cartas que falam do seu amor pelos passeios, pelos candeeiros, pelos bancos de granito, pela poesia chinesa antiga, pelas flores da urze e da carqueja, pelo musgo dos muros e pelos reflexos do céu nas águas do T. Ontem compôs uma música muito bonita para o seu galo cego.Hoje tocou-a para mim. Eu até chorei. Depois fomos os dois, sempre pelo mesmo passeio, até ao rio, descalçámo-nos e molhámos os pés nas suas águas tranquilas. Então ele tirou um grilo do bolso e pediu-lhe que cantasse uma ária de Mozart. O grilo não se fez rogado e deslumbrou todos os presentes. O mundo é, por vezes, um lugar estranho, mas encantador.

 

João Madureira

Blog terçOLHO

 

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Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

Pedra de Toque - Carlos Pinto Coelho

 

 

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Carlos Pinto Coelho

 

 

Foi um grande jornalista.


Nos tempos que correm não é fácil encontrá-los.


Sobretudo com a independência, com a isenção e com o elevado nível cultural que ele possuía.


Lembro-me dos anos conturbados do post 25 de Abril e desde esse tempo recordo a forma isenta como ele intervinha, como ele noticiava, como ele entrevistava.


Durante cerca de 10 anos manteve em antena, mais precisamente na RTP2, o programa ACONTECE.

 

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Pela primeira vez em Portugal, os livros, as artes e a cultura em geral, tiveram um programa diário perceptível por toda a gente.


O fim do formato em 2003 provocou enorme polémica.


Amargurado, injustiçado, não desistiu do projecto que manteve ás suas custas na rádio, através de uma cadeia de rádios locais.


Ultimamente entrevistava na RTP Memória.


Por curiosidade, com o brilho e a clarividência habituais, na sua última aparição televisiva, entrevistou o nosso conterrâneo, o ilustre pintor Nadir Afonso.


O desaparecimento de Carlos Pinto Coelho no passado dia 15 de Dezembro, foi uma grande perda para o jornalismo e para a cultura em Portugal.


É sempre triste e doloroso, vermos os bons partirem.


Mas, ACONTECE

 

António Roque

 

 

 

 

Nota:

 

Sobre Carlos Pinto Coelho

 

http://www.acontece.net/2/index.htm

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Pinto_Coelho

 

 

 

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Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

Quem conta um ponto... O mictório e a matança

 

 

 

 

O mictório e a matança



Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

 

Fui para a matança com a preocupação estampada no rosto. Até o F. deu conta. “O que é que te desassossega tanto?”, perguntou ele a sorrir. Mandei-o passear, está claro. Pus-me a olhar para a máquina fotográfica como se lhe faltasse alguma peça. Mas não faltava lá nada. Era só impressão. Por vezes dá-me para estas coisas. Por exemplo, o mictório direito da casa de banho masculina do Modelo está avariado vai para uns meses. E aquilo incomoda-me. Não é que o terceiro mictório seja assim tão necessário, ou importante, na hora de aliviar a bexiga. Com os dois restantes, os cavalheiros que lá se deslocam para fazerem as suas micções conseguem despachar-se sem que se formem bichas. Mas o que me inquieta é que seja o terceiro mictório do Modelo. Se fosse o segundo mictório de um tribunal, o quarto de um centro de saúde, ou o primeiro de uma escola, vá que não. São instituições de serviço público, pagas com os nossos impostos e onde o dinheiro não abunda e a gestão financeira é rigorosa. Mas o Modelo, meu Deus, o Modelo não tem essa desculpa. O Modelo é uma referência comercial, económica e social de cariz privado com prestígio nacional e internacional, com lucros fabulosos. Será que não consegue arranjar alguém para consertar o mictório direito da sua superfície em Chaves? Eu não acredito. Estou em crer que o lucro da venda de vinte cadernetas da Popota dá e sobra para pagar o conserto do já anteriormente referenciado mictório. Por amor de Deus, consertem-no. Esse pequeno sinal de desleixo e incompetência pode deitar por terra a boa imagem que possuem na nossa comunidade. Eu sei que as casas de banho estão sempre limpas, que os produtos estão sempre bem expostos, que as prateleiras se encontram quase sempre repletas de promoções, de boas promoções, que têm descontos em cartão, que oferecem descontos sem ser em cartão, que vendem três pela importância de dois, que vendem polvo de qualidade por quinze euros o quilo, que vendem bacalhau com uma razoável relação entre a sua qualidade e o seu valor, que vendem o quilo da carne a preços difíceis de encontrar no comércio tradicional, que vendem brinquedos pelo preço de chupa-chupas e que oferecem vales de desconto aos clientes. Sei que limpam constantemente o chão do edifício, que trocam qualquer produto que esteja deteriorado, que alguns produtos quase os dão para as pessoas aí se deslocarem frequentemente, pois o que o Modelo mais aprecia e privilegia são as visitas dos seus estimados clientes, nem que seja apenas para ir tomar um café e comer uma nata, que fazem parte de uma outra promoção e que também ela pode ser acumulada em cartão. Sei que fazem feiras do vinho, do queijo, da chouriça, do presunto e do peixe onde só não compra quem for parvo ou então adepto do comércio tradicional. Sei que o pessoal é competente, simpático, trabalhador e pago a horas. Sei que os sindicalistas se queixam dos baixos salários praticados pela Sonae, mas os sindicalistas também se queixam por tudo e por nada. Sei que o parque de estacionamento é bom, que os carrinhos das compras são robustos, que os senhores da segurança dispensam muito bem a polícia. Sei que a loja book it tem bons livros com um desconto permanente de 10%, que disponibiliza gratuitamente jornais e revistas aos seus clientes mais assíduos, vizinhos ou reformados, publicações que as pessoas lêem em pé ou mesmo sentados em cadeiras confortáveis. Sei que a Modalfa faz promoções que metem as dos ciganos e as dos chineses num chinelo. Sei de tudo isto. Mas o pormenor do mictório não me sai da cabeça. Ali está ele para lembrar às pessoas que até a maior superfície comercial pode ter os seus defeitos. Dizem que a arte está nos pormenores. E que a qualidade nos detalhes. Quem persegue a perfeição não pode esquecer que um simples mictório avariado pode deitar por terra todo prestígio acumulado ao longo de anos a bem servir os consumidores portugueses. Então a Sonae consegue alimentar quase metade da população portuguesa, consegue organizar concertos e mega piqueniques com o Tony Carreira e é incapaz de consertar em tempo útil um mictório de um seu estabelecimento em Chaves? Eu sei que estamos em crise, mas não acredito que ela seja tão grave que não permita disponibilizar algumas verbas para o conserto de um mictório em terras de Aquae Flaviae. E a desculpa de que a mão-de-obra escasseia em Portugal é mais um mito a juntar ao do D. Sebastião. Dados oficiais dão conta que 550.846 é o número de desempregados em Portugal e quase 60% são do sector terciário, sobretudo das áreas das actividades imobiliárias, administrativas e serviços de apoio. Mas 18.929 foram as ofertas de emprego por preencher no final do mês de Outubro de 2010. A maioria das ofertas registadas nesse mês relaciona-se com postos de trabalho na área das actividades e serviços a retalho de hotelaria e restauração e construção civil. O problema é que anda aqui falta de informação. Há mictórios avariados, existem desempregados e há ofertas de emprego que ficam por preencher. Na opinião do senhor secretário de Estado, Valter Lemos, isto é possível devido a um desfasamento geográfico muito complicado. Pois há regiões que não têm gente suficiente para as necessidades. Ora como Portugal, mesmo não parecendo, é enorme, as pessoas não se podem deslocar. Por isso as ofertas de emprego ficam por preencher. São os custos da nossa dimensão. Os custos do desenvolvimento. Estou em crer que se o conserto do mictório do Modelo pudesse ser feito por computador e via internet, ele já lá estava a cumprir com o seu destino. Assim não. Fica mais uma vez provado que a informática e as novas tecnologias não resolvem tudo.


Agora que já desabafei posso finalmente descrever (fotografar) a matança do porco da Abobeleira. O porco ali vem, fazem-lhe uma pega. (Fotografias). Ele berra, foge, berra, foge. (Fotografias). Os homens vão atrás dele, pegam-lhe nas patas, prendem-lhe o focinho com uma corda e levam-no para o banco. (Fotografias). Ele berra, berra cada vez mais. (Fotografias). Os homens riem e deitam-no no assento. (Fotografias). A senhora do alguidar aproxima-se, o matador faz um pequeno corte experimental, aponta a faca e faz força. (Fotografias). A faca entra pela carne adentro em direcção ao coração. (Fotografias). Os homens riem, o porco berra, o sangue brota da garganta do animal com força, parece uma torneira aberta. (Fotografias).  Um pouco mais de energia na faca e o animal começa a dar sinais de fraqueza. (Fotografias).  Berra mais um pouco e o sangue continua a brotar com intensidade. (Fotografias).  O alguidar grande fica meado. Dali vai para o pote que já ferve. (Fotografias). O porco é agora chamuscado, raspado e lavado. (Fotografia). Depois de bem barbeado, é aberto, estripado e pendurado. (Fotografias). Corta-se a cabeça e os pés e ali fica até ser desmanchado. (Fotografias).  Os Lumbudus vão agora dar um passeio, passam pela barragem romana, pelo moinho, pela ribeira. Regressamos. Prepara-se o sangue, os rins e o fígado. (Fotografias). É o almoço. Come-se, bebe-se, fala-se, convive-se. Fotografa-se ainda mais. Vamos tomar café e passamos pela casa do Nel onde comemos uma sopa. (Fotografias). Passamos a tarde a falar e a fotografar. Logo mais aparece a vereação Municipal e vários presidentes de junta. (Fotografias). Come-se a feijoada e as febras assadas e bebe-se mais um pouco. (Fotografias). Posteriormente entram em cena os músicos. Mais fotografias, risos, conversa, mais fotografias, música, conversa. Está na hora de ir. Cá fora ainda nos entretemos mais um pouco a fotografar nuvens de fogo produzidas por alguém que lança no ar as brasas da fogueira que arde desde a manhã. Tudo está bem quando acaba em bem.


 

PS – Agora que aí vem 2011, compre para si ou para oferecer, isso fica à sua inteira responsabilidade, para homem, o livro “Golfe”, um cachecol Fred Perry, umas luvas Camel, um fato Ermenegildo Zegna, um colete Ermenegildo Zegna, uma gravata Ermenegildo Zegna, uma camisa Ermenegildo Zegna, o livro “Tudo Isto é Fado”, uns óculos Dolce & Gabanna e uns botões de punho Dunhill.

 

Para as senhoras aconselhamos: babydoll Ebony&Ivory, mala Louis Vuitton, óculos Funny da Alain Afflelou, vestido Deprés Nuno Baltazar, perfume Nina Ricci, lingerie Triumph Merry Sparkle e sapatos Pedro Garcia.

 

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Domingo, 26 de Dezembro de 2010

Aldeias de Xisto - Chaves Portugal

 

 

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Claro que aqui pelo nosso concelho de Chaves o granito é rei e senhor e, não fosse o raio da modernidade e introdução de novos materiais na construção civil, ele ainda continuaria a imperar como uma imagem de marca das nossas construções, quer nas rurais com o pedreiro a mostrar também a sua arte, quer urbanas onde o canteiro se mostrava como um verdadeiro artista.

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Vale de Zirma - Vilar de Nantes

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Nada tenho contra os novos materiais, antes pelo contrário, pois se bem aplicados, quer esteticamente quer construtivamente,  nas casas, prédios e cidades, todos temos a ganhar, em conforto, qualidade e beleza, mas também para que tal aconteça, têm de ser aplicados e conjugados com arte, com a mesma arte que um canteiro esculpia as suas peças que ainda hoje e sempre, nos deixam espantados em apreciação. Nada tenho contra os novos materiais desde que aplicados com arte e conciliados com os materiais tradicionais, principalmente no meio rural onde além da estética e todos os novos modernismos há que respeitar e preservar também uma identidade, uma passado e todos os valores rurais. Mas isto poderá ser tema de conversa mais demorada, pois hoje até nem quero falar de novos materiais, nem de granito, pois é de xisto que vos quero falar.

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Aveleda - S.Vicente da Raia

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Já algumas vezes tenho referido aqui as aldeias de xisto e, geralmente quando se fala em aldeias de xisto, o nosso pensamento e imagens voam para bem longe do concelho de Chaves, pois por cá, tal como dizia no início do post, é o granito que se impõe. Mas, tal como por Chaves temos aldeias tipicamente barrosãs, também temos algumas aldeias de xisto, ou toda uma freguesia, como é o caso da freguesia de  S.Vicente da Raia onde todas as suas aldeias, Aveleda, Orjais, Segirei e a própria sede, mostram ainda as suas casas de xisto, principalmente em Aveleda ou a parte antiga de Orjais e de S.Vincente, excepção só para Segirei onde, embora as casas de xisto ainda existam, não são as mais representativas.

 

Poderá parecer estranho que o xisto tivesse assim invadido a freguesia de S.Vicente, mas conhecendo a freguesia e os seus vizinhos além do nosso concelho, a estranheza desvanece.

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Vale de Zirma - Vilar de Nantes

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Já em Vale de Zirma, aqui, quase a entrar pela cidade adentro e quase no seio de Vilar de Nantes, já é de estranhar que a quase totalidade das suas construções sejam em xisto, mas aplicação diferente em relação a S.Vicente da Raia, e se atentarmos a um segundo elemento que entra como complemento ao xisto e na construção das casas, a argila, também aqui aquilo que inicialmente se apresentava como estranheza, começa a ter explicação, não fosse Vilar de Nantes a terra do barro. Fica no entanto sem explicação a aplicação do xisto, pois também com o granito a argila poderia ser aplicada.

 

Pois são estas curiosas e belíssimas casas de xisto que hoje vos deixo por aqui.

 

 

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Concerto de Natal pelo Coral de Chaves

 

 

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Se o Domingo de hoje pode ser aproveitado como mais um dia em família ou para regressar nas calmas a casa, para os que ficam cá pela cidade também pode ser aproveitado para outras coisas, como mais logo pelas 21h00 assistir ao Concerto de Natal que o Coral de Chaves, como já vem sendo tradição,  promove todos os anos na Igreja de Santa Maria Maior de Chaves (Matriz), no qual, sob a direcção do maestro Nuno Costa, entre outras obras, serão interpretadas canções tradicionais de Natal, com arranjos para coro de Fernando Lapa e de Fernando Valente e a Messe nº 6 "aux cathédrales" de Charles Gounod.

 

Fica a sugestão para a noite de hoje.

 

 

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Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

Discursos Sobre a Cidade - Por Tupamaro

 

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“…FILHOZINHA de GERIMUM!”

 

 

Hoje é Dia de Consoada.


Não há tempo para serdes interrompidos com saudosas conversas, quanto mais com «Discursos»!


Andais todos «a mata – cavalos», para que, logo à noite, nada falte na vossa mesa, nem no íntimo do peito (e nos sapatinhos) daqueles a quem quereis bem, de todo o coração.


O «Discurso» que hoje nos compete deixamo-lo-vos nos nossos votos de BOAS BESTAS, apenas, e no último poema, inédito (feito há dias), pelo longevo e distinto Flaviense EDGAR CARNEIRO:


 

N A T A L

 

Todos os dias nascem

Neste mundo

Meninos e meninas

Que passados os tempos

Nunca serão lembrados

Salvo rara excepção

De génio humano.

Mas no santo Natal

É outra a natureza,

Pois trata-se de Alguém

Que morre em cada ano

E renasce mais próximo

Em Belém.

 

Edgar Carneiro – Dezembro de 2010

 

 

 

Ah! E se não é pedir-vos muito, trincai uma filhozinha de gerimum (que saudade!) por nós!

 

 

 

Tupamaro


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Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

O Homem sem Memória (25) - Por João Madureira

 

 

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Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

25 – Um dia, tendo o guarda Ferreira chegado a casa para almoçar depois de uma manhã extenuante de perseguição a contrabandistas de Vilar de Perdizes, encontrou a porta fechada à chave. Um pouco mais tarde, vindo da escola, chegou o José. O pai perguntou-lhe pela mãe e pelos irmãos. Ele respondeu-lhe que não sabia do seu paradeiro porque tinha estado na escola a suportar a ira do Professor Menezes.


Sentaram-se os dois nas escadas. O José aproveitou para contar ao pai o seu dia na escola.


“O pai lembra-se daquele dia que lhe fui levar o almoço ao posto e vi o sargento dar um par de estalos naquele homem que se recusava a dizer onde tinha escondido o dinheiro que tinha roubado a uma mulher da Venda Nova? Olhe, o Professor Menezes procede da mesma maneira quando pergunta algo a um aluno e ele não lhe sabe responder ou responde incorrectamente. Só que um aluno que não sabe a matéria não roubou nada a ninguém. Mas, mesmo assim, o nosso professor bate em nós tanto como a mãe quando está com os azeites. Castiga os alunos da mesma forma que a mãe trata o Leão. À vergastada. Mas a mãe, depois do correctivo, ainda consegue fazer festas ao cão. O Professor Menezes apenas nos bate. É incapaz de fazer uma festa a alguém. É um verdadeiro ditador. É como o Salazar…”


“Shiu. Isso não se diz, que é proibido. Gosto de te ouvir falar. Mas tem cuidado com aquilo que dizes. A verdade nem sempre é apreciada…. A tua mãe não tem hora de chegar.”


“O Professor Menezes também nos põe com as mãos debaixo dos joelhos, tal e qual como o sargento colocou o ladrão que se recusava a revelar o local onde tinha escondido o dinheiro que roubou à senhora da Venda Nova. Ainda não aplicou sal de salgar os porcos debaixo das mãos, mas vontade não lhe deve faltar.”


“O Professor Menezes é tão mau como o Salazar?”


“Não. É muito pior.”


“Porra José. Então é mesmo mau.”


“A mãe não tem hora de chegar…”

 


26 – O guarda Ferreira, cheio de fome, ou, melhor dizendo, sedento de um copito de vinho, levantou-se do degrau onde estava sentado, sacou do sabre e pôs-se a escarafunchar a fechadura da porta. Mas ela nada de ceder. Experimentou as janelas, mas também elas (...)

 

(continua)


 

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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

Em vez de feijoada hoje há presépios

 

 

 

 

Sobre o Natal


Hoje é quarta-feira, dia de feijoada, mas, claro, que em semana de Natal não queremos saber da feijoada para nada. Já estamos de dieta para a noite de consoada, para o bacalhau, o polvo, as couves, os bolinhos de bacalhau, o polvo frito, os ovos verdes, as rabanadas, as filhoses de jerimum, os sonhos, sem esquecer a roupa velha, o cabrito ou cordeiro e peru do dia de Natal – Iguarias ou “dietas” de tentação para quem anda a cuidar da saúde ou da linha.

.

 

 

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Claro que hoje, tal como vai acontecendo e acontecer neste blog durante esta semana, é do Natal que queremos falar, porque quer queiramos ou não, sejamos mais ou menos religiosos, até ateus, o Natal tem um significado especial para a família e como por aqui (autor e colaboradores do blog) já não somos putos, vem-nos à lembrança outros tempos de Natal e temos saudades de algumas coisas que se foram perdendo com o tempo tal como vamos repudiando, ou não achamos graça nenhuma a algumas das novas invenções, hoje tão intimamente ligadas ao Natal sem nada terem a ver com ele.

.

 


 

.

Somos do tempo do menino jesus, dos pinheiros a cheirar a resina, dos chocolates pendurados no pinheiro, do presépio com musgo, caminhos de serrim ou areia, um riacho com água, cabana de madeira e a “cama” do menino em palha, com todas as figuras ou pelo menos as figuras principais do menino Jesus, de José e Maria, da vaquinha e do burro, dos Reis Magos, do pastor e do rebanho, do anjo ou ad estrela na casota… e tudo o resto, era pura imaginação e decoração, maior ou mais pequeno, mais simples ou complexo cheio de engenhos e mecanismos para dar movimento a um presépio… pois também nele, no presépio , se comungava o Natal e ,aos olhos de uma criança, toda aquela encenação ganhava vida como se fosse real.

.

 

 

.

A tradição dos presépios foi-se perdendo na maioria das casas e dos lugares públicos e lojas comerciais. O pai natal é mais apelativo, vende melhor… há todo um gigantesco negócio e comércio no seu entorno e nós, lá vamos indo no paleio e para não desiludir as criancinhas, dizemos que sim, que o pai natal existe, ele mais as suas renas, Rodolfo & cia, e como se um pai natal fosse pouco, inventam-se muitos pais natais, um em cada esquina e loja, cantam, dançam, eu sei lá… e agora, até a mãe natal já anda por aí… Com tanta palhaçada em torno da figura do pai natal, só me espanta que a Igreja, tão conservadora que é, até em coisas de menor importância, aceite, sem nada dizer, esse senhor das barbas brancas vestido de vermelho…

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.

Pois eu ainda sou do tempo dos presépios e do menino Jesus, da bota no presépio e (com que brilhozinho nos olhos) de receber o único brinquedo do ano, quando calhava…e acreditava piamente que era o menino jesus que durante a noite me deixava o presente, mesmo quando se enganava de presente e não me deixava aquele que eu tinha pedido, eu perdoava-o e ficava-lhe eternamente agradecido.

 

.

 

 

 

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Um presépio a sério

 

Felizmente ainda há quem siga a tradição e nos brinde com um presépio a sério, cheio de engenhos, engenhocas e movimento, digno de ser visto e apreciado, tal como acontece na Casa de Santa Marta das Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados, na Rua Alferes João Batista em Chaves. Deixo a direcção, porque o presépio está aberto ao público e a todos quantos o queiram visitar, e aproveitem, pois vale a pena ver este presépio.

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A par do presépio, tem também algumas propostas de reflexão e a história do presépio, que confesso desconhecia e que passo a partilhar:

 

A História do Presépio

 

“A representação do Presépio, ou Nascimento, ou Belém, tem a sua origem no século XIII, por iniciativa de São Francisco de Assis, motivo pelo qual foi nomeado padroeiro dos belenistas.


Conta-se que, enquanto o Santo pregava na campina de Rieti, na Itália, o surpreendeu rigoroso inverno.


O Santo refugiou-se numa gruta em Gréccio: Era o Natal de 1223.


Meditando o Santo no nascimento de Jesus, teve a inspiração de reproduzir ao vivo o acontecimento.


Construiu uma cabanazinha, colocou nela uma manjedoura e, nesta, uma pequena imagem do Menino Jesus, que, com argila, ele próprio tinha moldado.


Os camponeses dos arredores cederam-lhe um boi e um jumentinho. Convidou pessoas para representarem os pastores de Belém. E celebraram a Missa da meia-noite.


No momento da consagração, a pequena figura de barro adquiriu vida, sorriu, e estendeu os braços para Francisco.


Esta bela ideia de representar o nascimento de Jesus propagou-se rapidamente.


É isto que tu agora estás a contemplar!...”

.

 

 

.

Pois são precisamente do Presépio da Casa de Santa Marta as imagens que hoje vos deixo por aqui. Mas uma coisa é a fotografia e outra é a realidade deste presépio, os seus pormenores e os seus sons, como o da água a correr ou a do oleiro a trabalhar… o melhor mesmo é passar por lá, ver e apreciar, principalmente para nós, os que não acreditamos ou desconfiamos do pai natal das barbas brancas vestido de vermelho…podem crer que sabe tão bem, como uma rabanada ou uma filhós de jerimum.

 


 

 

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Crónicas Ocasionais - Pedincheiros & Putanhintes

 

 

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“PEDINCHEIROS   &   PUTANHINTES”

 

 

Na época do Natal, que antigamente durava uma semana antes do NOITE DE CONSOADA e terminava   -   depois de cantadas umas boas “Janeiras” às portas (e Adegas) dos bons amigos!)   -   no dia seguinte à Noite do CANTAR DOS REIS, notava-se uma especial alegria entre todas as pessoas, da ALDEIA ou da CIDADE, pois a tradicional celebração do nascimento de (um tal) Menino Jesus era como um lufo de esperança de dias melhores, na saúde, no trabalho, nas colheitas e em todos os amores, no Ano Novo logo se seguia.

 

Ia-se a Feces buscar o Polvo e «o trigo (ou cacête» para as rabanadas.

 

E junto ao «Pinheirinho de Natal», a proteger o Presépio, feito com musgo arranjado em entusiasmadas e selectivas buscas pelos muros e chão dos pinhais, só a miudagem punha o sapatinho, a soca ou o soquinho (alguma, as alpergatas) para a recolha das prendinhas do Menino Jesus.

 

As Avós, as Mães, as Tias, as Primas, as Madrinhas, as Irmãs mais velhas lá davam uma filhó a provar, ou faziam que ralhavam deixando roubar um bolinho de bacalhau.

 

Ah! Nesse tempo era o verdadeiro tempo dos verdadeiros «bolinhos de bacalhau«!


Oh! Se eram!

 

E logo à saída da Missa do Galo - a da Meia-Noite   -   se começava a cumprimentar, APRESSADAMENTE, toda a gente, dizendo:

 

- “BOAS FESTAS, M’ HÁ -DES DARE OS REIS!”


Depois chegou «rápido e depressa», quase sem se dar por ela, a modernidade e as modernices.

 

As cores e as luzes de fora e lá de fora, num repente, ensombraram as cores e as luzes de dentro e de cá de dentro.

 

O Natal, a Feira do Natal, começa logo mal acaba a Feira dos Santos.

 

Jornais, Revistas, Rádios, Televisões, Panfletos, Montras e Espectáculos deram um pontapé no cu do Menino e promoveram a “Rei da Festa” um palhaço vestido de vermelho e com um carapuço à tralaró, a meter-se pelos olhos dentro a torto e a direito, sem pedir licença a ninguém, e com toda a habilidade, mezinha e falcatrua do mais refinado «mãos-leves» fazendo «buracos financeiros» na bebedeira consumista do Zé Pagode e «enchendo a mula» aos «agentes económicos», aos virtuosos do «empreend’dorismo», e aos sagazes subversores da”Hierarquia das Necessidades .

 

 

 

Na época dos «Bens coloridos: laranja, amarelo e vermelho», com moda copiada para os «avisos» de Altas Autoridades Da Meteorologia e Afins, crescem, de ano para ano, as hordas de PEDINCHEIROS a atravancarem as Entradas dos mini, super e hipermercados; as portas dos Hospitais Centrais, das UBS’s, UFB’s  -   Salvam-se as U P S’S    -     pudera!; as portas de Centros de Óptica, das Estações dos Correios, de Capelas e Igrejas; atrapalhando o trânsito regulado por semáforos, «chateando» condutores, passageiros e peões; entrando de enxurrada nos «Cafés» a pôr em cima das mesas, malcriadamente, uns papeluchos, com imagens de «santinhos» ou duas tretas dactilografadas, à chegada, e ditando o custo, insultuoso, à partida.

 

Todos os Balcões de «Pão-Quente» exibem uma caixinha com ranhura a sublinhar uns gatafunhos a quererem dizer : “…rinhónho, …Boas Festas”

E a última novidade que nos foi revelada aconteceu com mais espanto do que um milagre de Santa Isabel:

 

- Entrámos numa Loja de Télélés para fazer um carregamento.

 

Entregue a nota, a «menina» passa-nos o recibo e ordena:

 

- «Já agora, “faxavor» de meter VINTE (20) cêntimos aqui na caixinha, que é para nós”!

 

Despertámos!

 

Para além do cinismo do Presidente da República e do Primeiro Ministro, ao virem manifestar a sua preocupação com a Pobreza, desde pequeninos (claro que «Parvos (latinos)» como são, tratam «A piolheira» como micróbios!), deparámos    - com licença dos verdadeiros, autênticos e reais putanheiros e pedintes    -   com o novo reino dos PEDINCHEIROS E PUTANHINTES!

 

“Homesta porra”!!!



Luís Fernandes

 

 


 

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Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Pedra de Toque - Filhós de Jerimum

 

 

 

 

Filhós de Jerimum

 

 

 

Têm o sabor do Natal, a cor das achas crepitando na lareira, a doçura da família reunida.

 

Julgo que são iguaria transmontana.

 

Noutras províncias desconhecem-lhe o sabor delicioso cuja origem assenta na abóbora amarela, amassada com outros condimentos, pelas mãos fadadas das nossas cozinheiras.

 

A minha mãe primava em fazê-las como ninguém.

 

No último ano, antes de nos deixar, como todos os anos, colocou-mas no prato e açucarou-as.

 

Diga-se ainda, que ninguém cuidava meu prato, quando vazio, como Ela.


.

 


 

.


Vai ser mais uma noite de Natal com minha mãe fisicamente ausente.

 

A saudade morderá no centro do peito.

 

Esbaguará no canto dos olhos, quiçá.

 

No dia 24, no entanto, do país frio e branco onde se encontra, com muita ternura nas palavras, vai como sempre telefonar directamente para os meus sentimentos e dizer-me:

 

- “Meu filho, estou em paz. O meu pensamento está contigo, com os teus irmãos, com toda a nossa família.

 

Nesta noite não te magoes, ougando.

 

Em minha memória, come filhós de jerimum. O teu prazer torna o meu repouso mais feliz”.

 

Quero sempre, comovido, agradecer-lhe, mas a chamada, inevitavelmente, acaba sempre por cair…

 

 

 

António Roque

 

 

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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Quem conta um ponto... As pontes

 

 

 

 

As pontes

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

Eu e alguns dos meus amigos costumamos passear junto ao Tâmega e, de vez em quando, atravessamos as pontes que unem as suas margens com muita determinação. Se há coisa em que sejamos determinados é na travessia de pontes.


Se há coisa em que o bom povo português é determinado é em fazer pontes, nós somos mais determinados em as atravessar. Cada louco com a sua mania. É que nós, além de sermos portugueses por obrigação (adopção?), somos transmontanos por condição. E disso não podemos fugir. Ninguém escolhe o seu país de origem e muito menos a terra onde nasce.


Mas, como ia dizendo, o nosso grupo aprecia muito passear junto ao rio, de olhar para as suas margens, para as pessoas que por ali passeiam e de conversar sobre tudo e sobre nada. Que é quase a mesma coisa. Nisso assemelhámo-nos muito aos políticos e aos padres. Mas só nisso. Porque, enfim, somos honestos, não mentimos, prometemos apenas aquilo que podemos cumprir, somos amigos uns dos outros sem segundas intenções, pagamos sempre aquilo que comemos e bebemos, as casas, os carros e as viagens que fazemos são pagos unicamente com o dinheiro dos nossos salários, e não garantimos, nem nos iludimos, com o paraíso, seja ele terrestre ou divino. E, sobretudo (podem sorrir, pois estão perdoados), as nossas conversas são quase sempre muito instruídas e espirituosas.


O R. possui um tipo de generosidade autista: não sabe dar, não sabe receber, não sabe agradecer. Mas diz coisas que nos espantam, tais como: “Os inteligentes estão condenados a serem atormentados pelos estúpidos.”.


O L., com o espanto, até se engasgou. Ele que é de convivência fácil mas de difícil intimidade. Ser íntimo do L. só à base de muito porfiar. Além disso faz parte dessa categoria de espíritos que extrai uma alegria sarcástica de ter razão contra o maior número. Mas eu gosto dele. Aprecio-lhe a lucidez e a coragem.


O meu amigo D. contou-nos que se sentia triste porque lhe tinha morrido o pai. E eu senti-me triste também, apesar de o meu pai ter morrido há já muito tempo. E não era velho por aí além. Podemos dizer até que era novo. Era ainda novo para morrer. Depois pensei nos avôs que não conheci. E ainda fiquei mais triste. Seguidamente olhei para ele e disse-lhe algo como: “Aprecio a simplicidade pelo facto de ela ser o resultado da esgotante labuta de eliminar os elementos supérfluos”. Ele pôs-se a olhar para mim como se eu tivesse dito ou uma grande verdade ou a maior das idiotices. Mas eu não me descosi. Por vezes dizemos coisas tão profundas que nem sabemos lá muito bem o que elas querem significar. Mas também a quem é que isso pode magoar? Os amigos gostam de nós com todos os nossos defeitos e com todas as nossas virtudes.


O F., que tem um jeito especial para o pessimismo social, deu-nos conta das suas últimas investigações: “Os cientistas sociais são peremptórios quando afirmam que o potencial humano só pode ser desenvolvido quando não estamos assustados, encolerizados ou esfomeados. Sendo assim, fica justificado o baixo grau do nosso desenvolvimento”. Tal tirada foi suficiente para que atravessássemos o Tâmega sem que alguém no grupo proferisse uma única palavra. Apenas quando chegámos à outra margem é que o D. se referiu ao tempo. Todos concordámos com ele. Estava sol, corria uma aragem não muito agradável, as nuvens junto ao Brunheiro estavam a deslocar-se a uma velocidade curiosa e a temperatura ia descer muito durante a noite.


Eu, para não deixar a conversa destrambelhar e também para dar um arzinho da minha graça, citei G. K. Chesterton: “Porque se inventou uma razão para explicar o resultado, quase se nega o resultado para justificar a razão.”


O F. voltou à carga com os cientistas sociais, a sua nova mania: “Fez-se um estudo denominado «pager» sobre as relações de uma família e chegou-se à conclusão que os dois membros de um casal médio passam menos de dez minutos por dia a fazer seja o que for que possa ser designado por tempo de qualidade”.


Eu voltei a G. K. Chesterton: “Uma vez mais, aquilo que conduz ao engano é a dimensão da teoria, no sentido em que a fantasia é maior do que os factos”.


“Tu gostas muito de te armar”, comentou o D. Eu olhei na sua direcção e quase me arrependi de me ter sentido solidário com ele ainda há pouco. Mas disfarcei. Os amigos também devem disfarçar os seus pérfidos sentimentos. Com os amigos apenas são permitidos as boas sensações, tudo o resto fica de fora.


O R., olhando para a Ponte Romana, começou a assobiar uma melodia e todos nos calámos para a ouvir. Ele imita muito bem o canto de vários pássaros.


“Que bem assobias R. Dá gosto ouvir-te. Fazes-me lembrar a Primavera e os agradáveis momentos que eu passei na aldeia”, disse o L.


“Que bucólico estás”, disse o D.


O F., que não é muito apreciador destas pequenas minudências que dão alegria e sentido à vida, disse do alto da sua erudição: “Maria Helena da Rocha, a primeira mulher a doutorar-se na Universidade de Coimbra e uma das responsáveis pelo novo Acordo Ortográfico disse ao Expresso que ler pela primeira vez a Ilíada no original (grego) foi tão emocionante que ficou doente”.


“Tem graça, a mim isso acontece-me quando leio os livros do António Lobo Antunes”, atirou maldosamente o L.

 

Eu, para aliviar um pouco a tensão no grupo, disse em tom de brincadeira: “A ex-candidata a deputada no Brasil, Gabriela Leite, afirmou aos jornais ter sido prostituta durante anos não por necessidade mas por prazer. «Escolhi ser puta porque é uma profissão que eu gosto», confessou.


Todos se riram, menos o F. que citou Ben Johnson: “A linguagem revela o homem”.

 

“Neste caso a mulher”, corrigi.

 

“Está bom de ver que Gabriela Leite pretendia juntar o útil ao agradável”, disse o R.

 

“Tu lá sabes do que falas”, provocou o L.

 

“Eu apenas fui candidato independente em lugar não elegível numa lista do… (pi)”, admitiu o R. E depois aconselhou: “Esperai aqui por mim que vou ali mijar e já volto”. Era esta a sua forma de dizer que se ia embora porque a conversa não lhe estava a agradar. Nós respeitamos a sua vontade e continuamos a andar e a atravessar as pontes que ainda nos faltava atravessar.

 

Os amigos vão e vêm. É esta uma verdade muito conveniente.

 

 

 

PS – É um sinal de bom gosto, e também de alguma inteligência prática, comprar calçado Cohibas. E para acompanhar no bom gosto pode, se apreciar claro está, fumar charutos Cohiba Behike. Pormenor importante, as cintas dos charutos desta linha têm, pela primeira vez, dois hologramas identificativos de segurança.

 

 

 

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