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Quinta-feira, 31 de Março de 2011

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O Homem sem Memória (41) - Por João Madureira

 

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

Ficção

 

41 – O mesmo discurso que serviu ao senhor presidente da Câmara para enaltecer os mancebos de Montalegre que foram mobilizados para defender Angola, que era nossa, serviu para fazer o elogio fúnebre do Mário.


Enquanto o autarca repetia as palavras de há um ano atrás, agora perante uma assembleia de chorões, os rapazes da primária mascavam chicletes com uma raiva triste. O caixão lá estava bem selado, não fosse dar-se o caso de o Mário tentar surpreender alguém. Os seus pais choravam convulsivamente e as suas irmãs já nem isso conseguiam fazer devido à exaustão. A namorada enfraqueceu de tal forma que nem a deixaram ir ao enterro. O Carlos Torlim chorava também mas hirto como o tronco seco de um carvalho. As lágrimas corriam-lhe tão frias e decididas pelo rosto como se ele fosse não de carne mas de pedra lascada.


O Padre Zé escutava o panegírico do senhor presidente com uma serenidade que foi admirada por todos. Parecia um deus conformado com a desdita dos homens. Para ele tudo aquilo fazia sentido, a juventude e a velhice, a guerra e a pátria, o cristianismo e o ateísmo, Deus e o Demónio, Salazar e Marcelo Caetano, Fátima e o Papa, a vida e a morte. E as lágrimas também faziam todo o sentido. As lágrimas eram, na sua perspectiva, a manifestação física da alma. Daí a frequência das lágrimas e do sofrimento em toda a liturgia cristã. Daí o símbolo dos cristão ser a cruz que é sofrimento, que é redenção, que são lágrimas. Cristo chorou quando o seu Pai lhe deu o cálice a beber. E disse: “Meu Pai, se possível, afaste de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, mas sim como tu queres” (Mateus 26:39). E qualquer que tenha sido o conteúdo do cálice bebido por Jesus levou-O a suar grandes gotas de sangue. Por isso clamou: "Oh, Deus, se for possível, afaste de mim essa carga. Ela é pesada demais. Eu preferiria que ela fosse de mim afastada". Quando Job foi servido do seu cálice de dor, gritou: "A minha dor é tão grande que não consigo ver por onde ando. Banho as minhas feridas em lágrimas". Quando David bebeu o cálice das dores, a sua cama tornou-se um leito de lágrimas. E disse: "O meu peito e os meus ossos estão consumidos pela dor". E o Padre Zé, muitas vezes em transe induzido, escutava durante as homílias as palavras do próprio Jesus: "Mestre, se de alguma maneira for possível, faz com que esse cálice de dor seja de mim afastado".


As lágrimas são salgadas. O primeiro símbolo dos cristãos foi um peixe. Ora o peixe vive na água e a grande maioria anda na água do mar. Daí as lágrimas. Daí a alma. Daí o sal. Por isso no baptismo se deita água na cabeça do bebé e se lhe introduz um grão de sal na boca. Por isso ele chora.


O Padre Zé acreditava mesmo que os caminhos do Senhor são insondáveis. A nossa vida na Terra é uma passagem para a vida eterna. Primeiro temos de ser concebidos como seres humanos para nos consubstanciarmos e ainda para nos distinguirmos dos outros animais, assim ganhamos direito a um corpo e a uma alma. Mas o corpo é o menos, pois é uma morada transitória. O importante é a alma. “É”, dizia ele para a irmã e para a sobrinha, “como um carro que nos leva de um lado ao outro, que precisa de gasolina e algum cuidado, mas que fenece com o uso e a idade. O corpo é uma máquina. Mas o que conta é a alma. É a alma que temos de salvar. O corpo é uma limitação humana. Por isso Deus não tem corpo. Deus é a Alma das almas. Deus é o Infinito e o mais Além. Deus é tudo. Nós não somos nada”.


“A Pátria é tudo”, dizia arrepiado o senhor Presidente da Câmara. E com a pele toda eriçada de tristeza e júbilo, elogiou Salazar e a sua obra, Marcelo Caetano e a sua inteligência, Américo Tomás e a sua serena navegação, o Império e a sua grandeza, o Ultramar e a sua protecção, a Igreja e a sua bondade, o Comunismo e a sua maldade. E disse ainda que se sentia orgulhoso com a enérgica entrega dos jovens barrosões à defesa da integridade nacional, pois Portugal é só um de Lisboa a Timor. E falou de D. Afonso Henriques e de muitos mais reis, e da gesta portuguesa dos Descobrimentos e da nossa Língua que foi a pátria de Camões. Abordou as dificuldades porque Portugal estava a passar, enalteceu o esforço e o trabalho dos portugueses que labutam lá fora, o trabalho dos portugueses que labutam cá dentro e dissertou sobre as dificuldades que a sua Câmara estava a enfrentar, sobre as obras que era necessário fazer, do esforço solidário da metrópole com as colónias, falou da aposta do Governo na educação, na batata de semente, na sementeira dos cereais, no combate à subversão e ao contrabando, apelou à vigilância dos patriotas, à necessidade de se beber menos e de ir mais à missa e rezar a tempo e horas e de pecar menos também e de não pôr em causa a política do Governo e das instituições públicas e a guarda. Por fim falou do Mário. E dos outros mários que morreram e morrem em combate para defenderem a pátria. Esta pátria tão amada, mãe de heróis, alfobre de guerreiros, barco de navegadores intrépidos, terra de génios. E chorou em cima do papel do discurso quando disse: “O Mário era um filho querido desta terra, era um exemplo para os nossos jovens, era como se fosse meu filho. A dor provocada pela sua morte vai ser difícil de ultrapassar. Por isso perdoai estas minhas lágrimas. E perdoai, bom Deus, se fordes capaz, a esses terroristas que ceifaram mais uma existência vicejante de um barrosão. Eu também tenho filhos e imagino o quanto deve custar perder um na guerra.”


Houve um minuto de silêncio aproveitado por muitos para pensar que uma coisa é fazer discursos e outra bem distinta é dizer a verdade. Todos os presentes sabiam que o filho mais velho do senhor presidente tinha feito a guerra em Lisboa com o cu sentado numa poltrona no gabinete de um general casado com uma senhora filha de um senhor muito influente na capital, que por seu lado descendia de outro senhor que se tinha casado com outra senhora também ela filha de um casal muito influente na província. Nestas coisas, como em muitas outras, a pátria é mãe para uns e madrasta para os restantes.


De seguida o Padre Zé latinou o que tinha a latinar, encomendou o que tinha a encomendar, abençoou o que tinha de abençoar e o Mário lá foi a enterrar como um herói.


No derradeiro momento, ouviu-se uma salva de disparos produzida pelo grupo de guardas da GNR do posto de Montalegre. Alguém tocou um cornetim. E o Mário desceu tão fundo quanto lho permitiu a profundidade da cova.


Uns segundos após os disparos, um milhafre caiu fulminado aos pés do maior contrabandista de Vilar de Perdizes que passava por comerciante na Vila. O Virtudes, que estava perto da Dona Rosa, segredou-lhe ao ouvido: “Isto é mau agouro. Aquele homem vai morrer em breve.” O José, que, com alguma razão, acreditava em tudo o que Virtudes dizia, nas brincadeiras da tarde armou-se em bruxo e proferiu a sentença mascando a chiclete da manhã: “A morte do milhafre foi mau agouro. O Parreco de Vilar de Perdizes vai morrer em breve.” Passados três dias foi abatido a tiro, junto à fronteira, numa rusga da Guarda Fiscal.  


O mau agouro provocou outra vítima. O guarda Afonso foi suspenso durante cinco dias por, em vez de balas de pólvora, ter usado balas com projéctil.


Durante vários dias foi comentado o facto de a urna do Mário ser de chumbo e ter vindo selada. Soube-se mais tarde que o caixão veio vazio, pois o Mário não morreu em combate. Foi vítima de um descuido quando foi tomar banho num rio infestado de crocodilos.

 

42 – Veio o calor e o José entusiasmou-se com as brincadeiras. As aulas estavam a acabar e os exames foram fáceis. Tudo lhe sorria: a natureza, a mãe, os livros, as raparigas. Sobretudo as raparigas que...

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:46
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Quarta-feira, 30 de Março de 2011

I Congresso Internacional - As Fronteiras da Animação Sociocultural

 

 

 

Objectivos:


• Aprofundar e reflectir sobre o uso de metodologias de intervenção em projectos de Animação Sociocultural à volta dos recursos e técnicas sociais, culturais e educativas ;

• Estudar a génese da Animação Sociocultural e os seus marcos teóricos, conceptuais, epistemológicos, valores…

• Promover a Animação Sociocultural como uma resposta participativa na construção comunitária;

• Projectar a Animação Sociocultural como meio de aprofundamento de uma convivência intercultural;

• Impulsionar o pluralismo social e delinear metodologias participativas promotoras de uma sociedade de diversidade para o século XXI;

• Fomentar interfaces institucionais, profissionais, teóricos e metodológicos à volta da Animação Sociocultural;

• Analisar o papel dos diferentes agentes na intervenção, no campo social, cultural e educativo.

• Reflectir sobre o que distingue a Animação Sociocultural da Educação Social, Serviço Social, Pedagogia Social...

• Analisar e compreender o papel do Animador Sociocultural e o que o distingue dos outros trabalhadores Socais: Educador Social, Trabalhador Social....

 

Temas em debate: A Animação Sociocultural e Intervenção Social e Comunitária;

 

A animação Sociocultural e a Educação Social, A Animação Sociocultural e o Trabalho Social, A Animação Sociocultural e o Serviço Social, A Animação Sociocultural e a Economia Social, Empreendedorismo em Animação Sociocultural, Epistemologia da Animação Sociocultural e Conceitos Afins, A Animação Sociocultural e a Intervenção Educativa, Animação Sociocultural Associativismo e Educação, Animação Sociocultural e a Educação Intercultural, Animação Sociocultural e a Educação para a Cidadania, Animação Sociocultural e a Educação Comunitária, Animação Sociocultural e Educação para o Tempo livre, Animação Socioeducativa, Animação Sociocultural e Intervenção Cultural, Animação Sociocultural a Produção e a Gestão Cultural, Animação Sociocultural e Animação Cultural, Animação Sociocultural e Património Cultural, Animador Sociocultural, Animador Socioeducativo, Educador Social, Assistente Social, Educadora Comunitária... Os Educadores e Professores interessados em obter esta acreditação estão sujeitos a avaliação (0 a 10) de acordo com o Estatuto da Carreira Docente que consiste na elaboração de diários de bordo, relatório global da acção, assiduidade e participação.

 

Especialistas Confirmados

 

- Prof. Doutor Agostinho Diniz Gomes – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro;

- Dr.ª Alexandra Carneiro – Escola Secundária Rocha Peixoto;

- Prof. Altino Rio - Director do Centro de Formação da Associação de Escolas do Alto Tâmega e Barroso;

- Prof. Doutor Américo Nunes Peres - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro;

- Dr.ª Ana Fontes – Instituto Politécnico de Leiria;

- Prof. Doutor António Gutiérrez - UNED/Madrid;

- Dr. António Moreno - Animador Sociocultural/ Membro del Colectivo de Educación para la Participación

- CRAC;

- Dr. António Sousa e Silva - Investigador;

- Prof. Doutor Avelino Bento – Instituto Politécnico de Portalegre;

- Dr. Carlos Costa – Apdasc;

- Prof. Doutor Carles Monclus – Instituto Jordi de Santa Jordi / Valência;

- Dr.ª Cátia Cebolo - Gabinete de Atendimento de Apoio à Família de Viana do Castelo

- Prof. Doutor Ezequiel Ander-Egg – UNESCO;

- Dr.ª Fátima Castro – Centro Comunitário Vale do Cavado;

- Prof. Doutor Fernando Ilídio – Universidade do Minho;

- Profª Doutora Gloria Perez Serrano – Universidade de Sevilha;

- Prof.ª Doutora Isabel Baptista – Universidade Católica;

- Prof. Doutor Jacinto Jardim – Universidade Católica;

- Dr.ª. Jenny Sousa – Instituto Politécnico de Leiria;

- Drª Joana Campos – Instituto Politécnico de Lisboa;

- Prof. Doutor Joaquim Escaleira – Instituto Politécnico de Viana do Castelo;

- Prof. Doutor José António Caride – Universidade de Santiago de Compostela;

- Dr. José Dantas Lima – Teatro Diogo Bernardes – Ponte de Lima;

- Prof. Doutor José Vicente Merino – Universidade Complutense de Madrid;

- Prof. Doutor Juan Saez - Universidade de Murcia;

- Prof.ª Doutora Lucília Salgado – Instituto Politécnico e Coimbra;

- Prof. Doutor Marcelino de Sousa Lopes – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro;

- Professora Doutora Maria Conceição Pinto Antunes - Universidade do Minho;

- Profª Doutora Maria José Aguilar – Universidade de Castilha La Mancha;

- Prof.ª Doutora Maria Luisa Sarrate Capedevile – UNED;

- Prof. Doutor Mário Viché – UNED;

- Dr. Rui Fonte – Escola Profissional de Tondela;

- Prof. Doutor Victor Ventosa – Universidade Pontificia de Salamanca / RIA – Rede Iberoamericana de Animação Sociocultural.

 

Acreditação da formação:

 

Formação acreditada pelo Conselho Cientifico da Formação Continua, com o registo nº CCPFC/ACC - 66073/11, correspondente a 25 horas (1 crédito), na modalidade de curso e abrange Educadores de Infância e Professores dos Ensinos Básico e Secundário:Curso.

 

Os Educadores e Professores interessados em obter esta acreditação estão sujeitos a avaliação (0 a 10) de acordo com o Estatuto da Carreira Docente que consiste na elaboração de diários de bordo, relatório global da acção, assiduidade e participação.

 

Para informações e inscrições : www.geralintervencao.com.pt

 

 

E agora, à margem do Congresso,  umas palavrinhas do autor deste blog:

 

Este Congresso Internacional é promovido pela INTERVENÇÃO – Associação para a Promoção e Divulgação Cultural que tem sede em Chaves, cidade onde é leccionada a Licenciatura em Animação Sociocultural no Polo da UTAD. Faria todo o sentido que este congresso se realizasse em Chaves em vez de Amarante e, tanto quando sei, só não se vai realizar na nossa cidade por falta de apoios e falta de instalações para a sua realização. E mais não digo – temos pena, apenas…

 


 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:26
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Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

 

 

 

 

 

 

 

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Terça-feira, 29 de Março de 2011

Pedra de Toque - O Tonho da Lela

 

 

 

O Tonho da Lela

 

 

A Lela era a mãe.

 

Pariu solteira. O Tonho fora o presente muito querido que o Zé Lameiras lhe deixara antes de embarcar para o Brasil, donde nunca deu notícias.

 

A Lela, por saudade, vestiu de negro até à hora da morte.

 

Não se lhe conheceu mais homem.

 

Trabalhou mouramente a terra, para que nunca, a ela e ao filho, faltasse uma côdea de pão, uma malga de caldo.

 

Morreu mirrada pelas agruras do tempo, pela rudeza da vida.

 

Os mais idosos da aldeia ainda a recordam com simpatia, sachando as poulas com o vigor de um homem, acarinhando o filho com a ternura de mãe.

 

O Tonho cresceu.


Criou amigos.


Foi companheiro de animais em pastos extensos.


Foi ás no peão, ágil no eixo, certeiro na malha, brincalhão com o Palhuças, um rafeiro que seguia ladino a pedra que lhe atirava à distância.


Soube o que era mulher no dealbar da adolescência.


Com os montes e a brisa por testemunhas, num casebre de madeira carcomida, embrulhado numa manta, desfrutou o corpo roliço e tímido de Maria.


O casório foi bonito de ver.


O Padre Luís celebrou-o com simplicidade.


Na prédica lembrou a memória da Lela e o misterioso desaparecimento do Zé Lameiras, pasto, quiçá, de piranhas nas águas do Amazonas quando peneirava a fortuna.


Falou tão bem e tão lindo que a lágrimas afloraram em muitos dos olhos que enchiam a transbordar a granítica Capela.


Do casamento vieram dois filhos – um rapagão e uma moçoila - que cresceram, fizeram o segundo grau e ajudaram os pais no amanho do campo, na criação do gado.


Até que, já passavam dos vinte, casaram no povo e rumaram a salto, até França, onde hoje, legalizados e afrancesados têm vindo a prosperar.


O Tonho quedou-se com a Maria no velho casebre, suportando os frios de longos invernos, transpirando nas colheitas em tempos mais quentes, refrescados pela água da bilha ou pelo vinho escorropichado do pipo.


Um dia o destino levou a Maria.


Tresmalhou, diziam no povo, as velhas sabedoras dos grandes segredos da vida.


Nunca mais foi vista.

 



O Tonho levado à França pelos filhos, não se entendeu com a conversa, confundiu-se com o bulício e tossiu violentamente com o fumo das “usines”.


Voltou breve aos ares que na sua terra lhe enchiam os pulmões de saúde.


Sem a família, faltava-lhe tudo.


Restavam-lhe os amigos que o animavam, convidando-o para uma bisca lambida ou para uma sueca regada na taberna acafesada, propriedade do Manuel, definitivamente regressado do Luxemburgo devido a um acidente no trabalho.


O Tonho esboçava um agradecimento mas recusava de imediato.


Era visto, com o olhar parado, sentado em imponentes fragas entre urzes e carqueja, vara na mão, espreitando o horizonte horas a fio.


Descobriram-no dialogando com a enxada, discursando para o Palhuças, rindo até ao choro quando alustrava e trovejava e a chuva caía forte molhando-lhe os ossos.


Na luta que travava com a solidão, reconhecia, em momentos de profunda lucidez, a sua incapacidade para o combate.


Um dia, em Maio-Junho, aproximou-se da majestosa Cerdeira que escalara nas suas brincadeiras de infância.

As cerejas, vermelhas de rubras, enfeitavam a árvore.


Então, com o respeito que merecem todos os actos solenes, num ritual pensado, o Tonho prendeu uma corda no braço mais grosso da cerejeira.


Depois, formou um laço seguro que colocou à volta do pescoço.


Pontapeou o banco para onde tinha subido e, num ápice, ficou pendurado e suspenso, de olhos abertos para o espaço, face arroxeada.


Nos olhos espelhavam-se as cerejas carnudas e vermelhas que permaneciam na árvore.


Sem respiração olhava o firmamento com um esgar de felicidade, como se num sofá de plumas, bem lá longe, tivesse descoberto a Lela sua mãe, ou revisto seus filhos viajando em carros franceses.

 

Quando a gente do povo o descobriu, já o sol se escondia, os olhos do Tonho eram manchas de sangue, depenicados por pássaros que os confundiam com suculentas cerejas.


À entrada da aldeia ouvia-se uma concertina tocando ritmada uma triste melodia.

 

 

António Roque

 

 

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Segunda-feira, 28 de Março de 2011

Quem conta um ponto... A Rede Social

 

 

A Rede Social

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 


 

Depois de anos de sedução do facebook por mim, decidi corresponder a tanta solicitação. Pega daqui, pega dali, o programa enviou-me para vários e distintos amigos. Depois de observar rapidamente, como muito bem manda a aplicação electrónica, os vários pedidos e sugestões, fui desembocar numa possível lista de gente apegada a estas coisas: os amigos da amizade. Um deles saltou-me logo à vista: Nadir Afonso. E eu, que sou ingénuo, embora não o pareça, principalmente nos afectos, tentei ver se o Mestre me aceitava como seu amigo no facebook. Cliquei e… chumbei. E logo, valha-me Deus, quando o quis adicionar como amigo no badaladíssimo facebook. A tal rede social que a todos põe em contacto. Isto apesar de me identificar como seu conhecido. O que é verdade. Mas o facebook rejeitou-me a petição. O Mestre tem demasiados amigos. Demasiados amigos!? Tentei de novo. Às vezes com as máquinas é preciso paciência e perseverança. Infelizmente, tornou a explicar: este utilizador já tem demasiados amigos. Eu pensei, cá com os meus botões, que ninguém tem demasiados amigos. Os amigos nunca são de mais. Mas, infelizmente, para o facebook, para mim e para o Mestre, muitos amigos são demasiados. Afinal a pintura abstracta tem bem mais seguidores do que aquilo que eu pensava. E ainda bem para a arte e para o Mestre. E infelizmente para mim. Mas a arte vale este sacrifício.

 

Chateado com a tal rede social, dali me fui ter um face to face com os meus amigos. Podem não ser artistas como o Mestre, mas são meus amigos e não partilham da mesma ideia do facebook, para eles, e para mim, claro está, os amigos nunca são demais.

 

O L., enchendo-se de orgulho, informou-nos que os dentes dos cavalos selvagens se modificaram, confirmando assim a hipótese evolutiva da selecção natural de Darwin (Deus 0 – Darwin 1). O estudo da revista Sciense revela, depois de analisados 6500 fósseis de cavalos selvagens, alguns com 55 milhões de anos, que houve um processo de adaptação de hábitos alimentares devido a alterações climáticas. Os investigadores comprovaram que as modificações dos dentes não são imediatas, demoram pelo menos um milhão de anos para afiarem depois de um episódio de alteração climática, o que se traduz em 100 mil gerações.

 

O R., inconveniente como sempre, resolveu por um pouco de pimenta na amena cavaqueira dizendo que era por isso que os dentes do L. eram tão afiados. Querendo com isso insinuar que o nosso amigo tinha dentes de cavalo. Sentindo-se tocado, pois este nosso amigo tem pouco sentido de humor, se é que tem algum, disse que o R. é que tinha cara de equídeo. O R. ripostou duro afirmando que ele, o L., tinha orelhas de burro. Dali passou-se a insinuações de que uns zurravam, que outros estavam casados com éguas, etc. Nesse momento resolvi liderar o processo de pacificação e contei-lhes um pequeno episódio.

 

«Na minha aldeia em tempos existiu um padre que era um pregador muito afamado. Tagarelava esplendidamente da família de Deus e lembrava, com um sorriso de bochecha a bochecha, que no seio da Madre Igreja qualquer um dos seus filhos tinha a obrigação de partilhar tudo. Ou quase. Um belo dia, o amigo regedor bateu à sua porta para lhe pedir o burro emprestado. Um burro de bom porte, quase um mulo. Mas o padre, se era generoso nas palavras, era a modos que sovina nos actos. E, não lho querendo emprestar, disse: “Lamento mas já o emprestei ao Tio Chico do Outeiro.” Nesse momento o burro começou a zurrar no pátio da casa. Por isso o regedor exclamou, surpreendido: “Mas estou a ouvi-lo a zurrar aí dentro!” Ao que o cura respondeu com a ira do Criador do Antigo Testamento: “Mas tu, criatura de Deus, acreditas no Padre Zé ou no seu burro?”

 

“Essa é boa”, concordaram os meus amigos entre sorrisos sinceros.

 

“Por falar em burricadas… Segundo António Barreto”, Lembrou B., “José Sócrates quis ser despedido. Isto apesar dos dados estatísticos nos dizerem que em Portugal se fez uma casa em cada 6 minutos.”

 

Eu chalaceei: “Portugal tem de escolher um primeiro-ministro que governe em estado de auto-hipnose.”

 

Ao que o R. contrapôs: “Se o Governo é mau, a Oposição é péssima.”

 

O F., que é um descendente dos sofistas, resolveu citar Jean-Luc Godard, do seu Filme Socialismo: “Hoje em dia, o que mudou é que os canalhas são sinceros.” Todos concordámos.

 

O L. resolveu colocar ainda mais achas na fogueira: “Eu não sei como é possível que num país com 10 milhões de habitantes, um Presidente da República, que manda menos do que a rainha de Inglaterra, possa gastar 16 milhões de euros por ano. Ou seja, precisamente o dobro do Rei de Espanha. E para tão pouco mester necessitar do trabalho de 500 pessoas.”

 

Eu chalaceei de novo: “A Presidência da República não é uma instituição política. É uma fundação de solidariedade social.”

 

“Razão tem o Bagão Félix. Isto está por um fio. E aponta uma solução de Governo. A única capaz de salvar Portugal: uma coligação entre o PSD, o CDS e o PCP”, lembrou o R.

 

Ao que eu atirei: “Esse é bem mais papagaio do que o seu papagaio Pelé.”

 

 

 

 

PS – Para ajudar a amar ainda mais os já amadíssimos poetas portugueses, essas vozes derradeiras da nossa suprema gesta, a gesta lusitana, aqui fica uma “quadra ao gosto popular”, de Fernando Pessoa: Já duas vezes te disse / Que nunca mais te diria / O que te torno a dizer / E fica para outro dia. E mais outra: O papagaio do paço / Não falava – assobiava / Sabia bem que a verdade / Não é coisa de palavra.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Domingo, 27 de Março de 2011

I Encontro Fotográfico Transfronteiriço - Vilardevós - Galiza

 

 

 

Hoje vamos até Vilardevós, Berrande, Arzadegos e Vilarello da Cota. Alguns estranharão que no dia em que este blog é dedicado às aldeias de Chaves, se fale por aqui de aldeias que não constam na carta administrativa do nosso concelho e que alguns ou muitos, nem sequer o nome conhecem, mas perguntem ao pessoal de Segirei, Aveleda, S.Vicente da Raia, Urjais, Argemil, Travancas, Mairos, Lamadarcos, Vila Frade, Stº António de Monforte e Vila Verde da Raia, para não falar de outras aldeias, ou então, a qualquer antigo contrabandista ou Guarda Fiscal se as aldeias que hoje vão estar aqui não fazia parte do seu mapa de amizades,  negócios e até de amores, pois, ao longo das anteriores gerações muitos casamentos se arranjaram entre as mulheres e os homens de todas as aldeias atrás mencionadas.

 

 

Pois hoje é por aí que este blog vai andar, pelas aldeias da raia vizinhas das nossas aldeias que vão desde Vila Verde da Raia até Segirei, onde antigamente havia uma linha administrativa chamada fronteira que dividia dois países, uma linha que apenas existia nos livros oficiais das divisões administrativas mas que nunca existiu na realidade das aldeias e gentes da raia, onde com as mesmas gentes, o me4smo povo ou “pobo” e a mesma língua, os mesmos problemas e alegrias, a mesma chuva e o mesmo sol,  se viviam todas as afinidades que nenhuma linha, por mais oficial que fosse, poderia separar.

 

 

Mas todas as histórias têm um inicio e a história desta visita a aldeias galegas nasceu há muitos anos atrás na amizade e negócios do contrabando, amizades que passaram de pais para filhos e chegam hoje até aos netos que continuam a granjear a mesma amizade, agora já sem a necessidade do contrabando e dos seus caminhos que hoje apenas servem para recordar histórias enquanto as suas rotas se percorrem a pé, sem o peso dos fardos ou o medo que os guardadores de fronteiras poderiam representar.

 

 

Pois a ideia desta viagem por estes “pobos” galegos nasceu de duas netas de contrabandistas, hoje,  uma pertencente a uma ONG – o Centro de Desenvolvimento Rural Portas Abertas, com sede em Vilardevós e outra pertencente à Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura com sede em Chaves mas que também é a responsável pelo blog e página de Segirei. E da ideia à sua concretização foi um passo,  e ontem,  os Lumbudus agarraram na trouxa e todo o arsenal fotográfico e abalaram até estas aldeias galegas, nem a chuva os ameaçou ou impediu que, durante todo o dia e mesmo noite, fizessem os seus registos. A esta viagem também se juntaram alguns associados da Portografia – Associação de Fotografia do Porto e da TAMAGANI que chegados a Vilardevós, com os amigos galegos que nos esperavam, se fez o grupo final que percorreria as terras e os trilhos do contrabando das aldeias galegas.

 

 

Em Vilardevós, logo pela manhã, a recepção no Centro de Desenvolvimento Rural Portas Abertas, pelo Alcaide de Vilardevós José Luis “Celis”, o Presidente do CDR Portas Abertas Pepe Paz Paz, mas também pelos nossos amigos e elo de ligação Pablo Serrano e Carmen Serrano (pai e filha, esta, a tal neta amiga da neta de Segirei), mas também o cura (padre) Digno Gonzalez que pôs toda a sua sabedoria e disponibilidade para nos servir de cicerone, sem o qual nunca teríamos atingido um conhecimento sério e tão profundo desta visita. Algum espanto na aldeia impunha-se por tanta objectiva onde nem a da TV galega faltavam, mais que suficientes para fazer o registo neste que também era o Centro de Interpretación do Contrabando onde em vídeo e em exposição nos foram apresentadas a região e o contrabando de antanho.

 

Foto de Dinis Ponteira

 

Uma volta pelas ruas de  Vilardevós, o cruzeiro bem galego a Rua do Inferno onde batemos à porta do Diabo mas o bilhete da porta “Agora Venho” não deixava dúvidas da sua ausência e tempo ainda para um café e uma aguardente de ervas também bem galega abriam o apetite para o resto das visitas.

 

 

Estando por ali e embora a visita não estivesse no programa, o trilho do contrabando que passa pelas cascatas de Soutochao e levavam até Segirei ou vice-versa, era obrigatória, principalmente o espectáculo da água na sua queda em cascata. Já não era novidade para nós mas continua-se a fazer a visita com superior agrado e continuará, pois por lá não faltam delícias que qualquer objectiva anseia registar.

 

 

Em Berrande, uma visita a imponente igreja com subida à torre sineira abria o apetite para o almoço servido no Mesón Castaño onde as entradas com a tradicional tortilha, empadas galegas, variedades de chouriço e “jamon” eram iguarias que fariam a refeição de qualquer desprevenido que não soubesse da tradição das entradas galegas.

 

Foto de Dinis Ponteira

 

Chuva intensa poderia desmotivar a tarde, mas apenas atrapalhou o manejo das câmaras fotográficas que ficou desculpada pelo brilho que a chuva dá às fotos. Era hora de subir à Nossa Senhora das Portas Abertas onde pelo “cura” ficamos a saber o estranho fenómeno que por lá se regista todos os anos quando de verão, milhões de formigas com asas vem morrer à porta da igreja.

 

 

De seguida a visita às “bodegas” de Arzadegos que se plantam ao longo da encosta da montanha servido esta como uma das paredes das “bodegas”. Curiosidade de nota desta “pobo” e destas “bodegas” onde estagiam bons vinhos – em Arzadegos não há vinhas e todo o vinho que por aqui entra em cura e estágio vem das boas terras do vinho, incluindo as das terras do nosso Douro.

 

 

Para terminar o dia em grande, uma entrada triunfal na noite, nas instalações do Albergue Rural em Vilarello de Cota, com música tradicional galega oferecida pelo grupo “Candaira” e um lanche ajantarado oferecido pelo Albergue. Um remate de um dia do qual todos saímos enriquecidos e com vontade de um dia repetir.

 


Quanto às imagens, foram as possíveis num dia de chuva e quanto aos agradecimentos, vão para muita gente que esteve envolvida para que este sucesso de convívio transfronteiriço acontecesse, começando pelas duas netas Tânia Oliveira e Carmen Serrano, o Pablo Serrano, o Ayuntamento de Vilardevós e o seu Alcaide José Luís, o CDR Portas Abertas, o seu Presidente Pepe Paz Paz e seus colaboradores,  ao “Cura” Digno Gonzales, ao Grupo “Candaira” e o grupo que preparou o lanche,  o Albergue Rural de Vilarello de Cota, a Associação Lumbudus, os seus associados aos quais os Lumbudus barrosões também se juntaram, mas também a Portografia e a Tamagani e por último o apoio da Câmara Municipal de Chaves.

 


 


 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:30
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Cartas do Zé

 

 

Caro amigo,


Cultura e desenvolvimento parecem bons assuntos para este último domingo de março.


Shakira, pop star colombiana, atuou na cidade brasileira de S. Paulo no passado fim de semana. Antes do espetáculo, encontrou-se em Brasília com a presidente Dilma para falar de crianças pobres e temas sociais em geral.


Na mesma ocasião, um chileno com 1,30m andava de TV em TV preenchendo os programas de entretenimento brasileiros com uma habilidade sui generis. Este pequeno (e feio) sul americano imita na perfeição a voz da cantora Shakira.


O shakiro, de quem já esqueci o nome, reproduz fielmente as músicas mais conhecidas daquela que abriu oficialmente o último campeonato do mundo de futebol na África do Sul.  Na televisão, os apresentadores convidavam telespectadores a fechar os olhos para melhor se inteirarem das semelhanças vocais. Juro que pareciam iguais.


Sem saber como, dei comigo a pensar nos desfiles de moda promovidos pelo actual presidente da câmara de Chaves, João Batista e do impacto que eles tiveram a nível nacional. Foi-se-me então o pensamento para as “bienais” de artes plásticas diligentemente organizadas e apoiadas por “los mismos”, ou o deslumbramento da mídia local, causado pelos cursos de atores com passagem por Hollywood.


Entretanto, pelo Boletim Municipal, sei que o TEF (Teatro Experimental Flaviense), mantém os mesmos apoios de miséria e que a sua independência financeira continua a ser negada. Ainda ninguém se lembrou da utilidade e necessidade das técnicas de representação teatral na formação dos nossos jovens alunos. São urgentes as parcerias com escolas profissionais da região para o desenvolvimento do teatro e do ensino em Chaves.


Desenvolvimento. Eu escrevi desenvolvimento? Como deixar passar em claro os mais de 20 anos de atividade da ADRAT (Associação de Desenvolvimento da Região do Alto Tâmega) conhecem?


A sua atividade e dinamismo são notórias. Os projetos aprovados em Bruxelas falam por si mesmos.  Da agricultura biológica ao turismo passando pela formação profissional, a nossa região mudou graças ao empenho e trabalho de um punhado de técnicos que trabalham dia e noite em prol do desenvolvimento lá prós lados do Alto da Cocanha.


O reconhecimento deste trabalho está no modo sempre pacífico com que o orçamento desta associação de desenvolvimento local é aprovado, e depois pago, pelas câmaras municipais da região.


Pudera. Todos os projetos são adequados á nossa realidade. Quase todos os formandos saídos dos cursos por si promovidos estão empregados. Os transmontanos do Alto Tâmega já não emigram para saber de sustento. É uma felicidade.


Vejam os empregos gerados com o artesanato do barro preto de Nantes, ou a presença dos cogumelos de estufa em todas as prateleiras dos supermercados flavienses. Que dizer do êxito retumbante da agricultura biológica produzida na nossa região e que hoje é conhecida e apreciada em todo o país. Igual resultado foi conseguido no turismo, o rural principalmente, que, fruto de uma divulgação sem precedente elevou as taxas de ocupação de camas a níveis nunca sonhados pelos proprietários. As povoações rurais fervilham de atividade.


O trabalho feito na preservação ambiental é único. Os nossos rios, matas, coutos de caça e "terras do povo", ficaram mais defendidos pelas populações depois do material de divulgação elaborado pelos técnicos de desenvolvimento.


E pensar que tudo isto o devemos a um homem. A um agente de desenvolvimento local. Um visionário cuja inteligência, capacidade de entendimento das necessidades da região e arcabouço político e intelectual transformou o Alto Tâmega nos últimos 20 anos.


Há mais de duas décadas, frequentei com ele o curso de formação de agentes de desenvolvimento local e testemunhei o aperfeiçoamento das capacidades de oratória e liderança que o caracterizam. Posso garantir. Ao contrário do que por aí dizem, as suas raízes familiares e cor política, em nada pesaram na escolha deste ser superior para a condução da agência de desenvolvimento da região do Alto Tâmega. Perdeu-se um estudante de arquitetura, mas ganhamos um animal do desenvolvimento.


Também posso garantir que, se fecharem os olhos por momentos, será fácil ver o desenvolvimento da nossa região para os próximos anos e o futuro risonho que a espera. É fácil. Vamos, mantenham os olhos fechados.


Para ti amigo blogueiro, o desejo de que mantenhas os olhos bem abertos e aquele abraço do tamanho do oceano, deste que te estima,


Zé Moreira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:49
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Sábado, 26 de Março de 2011

Bons Vinhos Premiados - Quinta de Arcossó

É sempre uma honra para este blog poder aqui trazer notícias destas, das nossas coisas boas que são feitas com as coisas da terras e os saberes da nossa gente e, é também uma prova de que querendo e trabalhando, somos bons ou melhores do que muito daquilo que se faz por esse Portugal fora e estrangeiro e sem segredos, pois estes estão na terra, no trabalho e num bom apoio técnico. É quase o suficiente para a qualidade e para o sucesso, depois, só falta mesmo a promoção dos nossos produtos e levá-los por esse mundo fora, mas aí, há outros actores e apoios que têm de obrigatoriamente entrar na promoção do que é nosso, mas geralmente andam entretidos e distraídos com outras coisas… até daquilo que nem existe.

 

Da minha parte dou os parabéns à Quinta de Arcossó por mais este prémio.

 

Para saber mais sobre os vinhos e a Quinta de Arcossó, veja o que foi dito aqui:

 

http://chaves.blogs.sapo.pt/420334.html


 

 

 

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 13:00
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Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

 

 

Da Anatomia


 

A menina também tem àprostata?

Queu saiba…????!!!

 

E o Senhor? Tem uter?...

 

Não isso tinha a minha mulher que deus tenha, e deixou-a prenha treze vezes.

 

Credo!!!!!! Em cruz santo nome de Jesus.

 

Mas o senhor, tamém vai fazer uma cografia?

Vou, parece que àprostata anda a inchar e aperta a piroca e não me deixa meijar bem, só meijo às pingas…

 

Ah??? Credo, catano, coza-se, inda é piró queu, coitadinho… Eu é só o uter, está tolhido

 

 

Ó menina !…Mas isso tem bo remeido, se a menina quiser… Cando àprostata me desinchar….?

 

 

Ómessa diacho do belho, carai, bem me diz o mou pai, deus ta livre de um palheiro belho arder…;

Bonito…! Shim chenhor vá mas é bardamerda… Caralhas, havia de lhe doer era a língua, que deus o castigue e a àprostata não desinche ,diacho do belho…Na minha bida, ele há com cada um… Ferba-se…

 

Bem… A gente tem de deitar o barro à parede, que marmelos e marmeleiro!?:::Ai Jasus se não me fosse àprostata…Ó bida bida…Ah caralhas digo eu;

 

 “O que importa é acordar cos pezinhos a Bulir”

 

 In Manuel Teixeira da Silva Poeta popular das Tavernas, não publicado mas bem conhecido, pelo menos de alguns sortudos. Eu por exemplo, servi-lhe muito copito, ai não, bem me ensinou...

 

Isabel Seixas

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:23
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Sexta-feira, 25 de Março de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por António Tâmara Júnior

 

 

 

 

CRISE(S)

 

Nona encerrou-se nas quatro paredes de sua casa. Já faz muito tempo. Os amigos, poucos, que conserva, raramente os visita. Diz que cada um tem a sua vida e, se eles não o procuram, porque ele os há-de incomodar, impondo-lhes a sua presença? De vez em quando, dá quase sempre o mesmo passeio matinal na companhia de Leo, um casmurro como ele. Nas faldas da cidade, ao longo do açudesco Tâmega, tendo como pano de fundo uma urbe que se buliça, mas que não lhe vê alma, e o Brunheiro, que a protege, mas que lhe encobre a visão de outros horizontes. Entre eles uma Veiga rica de potencialidades, prenhe de fertilidades mas, praticamente improdutiva, estéril. Produto de sucessivas gestões autárquicas que a deixaram esventrar em sucessivas especulações imobiliárias; o desleixo e o descuido de um Estado que a aprisiona a uma Reserva Agrícola Nacional, mas que não a assume, em todas as suas consequências, como uma riqueza do país, e a mesquinhez dos seus proprietários, capazes de matar por um naco de terra, mas de todo incapazes de encontrar formas de a transformar em fonte de riqueza efectiva. A simples posse pela posse. Sem cuidar da utilidade social da coisa.


Nona, um velho socialista, republicano e laico, não gosta muito de ouvir falar dos seus camaradas. Há anos que anda de costas voltadas para eles. Desabafa que, às vezes, compreende melhor os outros partidos que a eles. A estes sempre soube o que os movia na conquista da gamela do poder. Aos seus camaradas que, intrépidos, tanto defendem princípios e valores tão nobres como a solidariedade e o Estado do Bem Estar Social, não sabe o que a deriva do poder para onde os levou. Já não os reconhece. Sinceramente não vê hoje qualquer diferença entre eles. O Estado, a quem deveriam servir, quando o povo lhes deu a prerrogativa de o orientar e gerir, transformou-se num oásis para gozo e deleite dos umbigos de uns quantos.

 

 

 

 

 

Fui hoje visitar Nona, como faço todas as quartas-feiras. Hoje que paira no ar a quase certa demissão do Governo e a consequente crise política que se adivinha, a acrescentar às nossas enormes dificuldades financeiras, em resultado de um país que consome mais do que produz e gasta mais do que o que tem. Que se habituou a ver a adesão à União Europeia e o Euro como se fosse os antigo cravo e a canela da Índia, os escravos e o ouro dos Brasis. Porque, desde a era de Quinhentos, sempre se habituou a viver do fácil, não dando o devido valor ao papel da instrução, na construção de cidadãos, e ao trabalho, como verdadeiras fontes de riqueza.


Dei com Nona a ler Carlos Ruiz Zafón. Um jovem escritor barcelonês. Encontrei Nona alheio à arena da Assembleia da República e aos gladiadores de serviço. Uma sala, enorme, com a televisão muda. Apenas uma sombra pacata de uma calva debruçada sobre um livro que parecia transportá-lo para outro tempo e outro lugar, vivendo numa outra dimensão.


Nona levantou seus olhos, pequenos, tristes e nostálgicos e, como calculando de antemão a minha pergunta, disparou: - uma data de canalha; estes putos deveriam levar um puxão de orelhas. Mas a culpa não é deles. É nossa! Deixámo-nos embalar no canto na sereia da Europa. Gastámos sem tino e sem critério. Foi um regabofe. Um fartar vilanagem. Houve uns tantos que encheram os odres – os mesmos de sempre -; e serão os mesmos de sempre que pagarão o descalabro do atoleiro em que estamos metidos. Ninguém dá nada de graça, a não ser para, na volta, nos exigir a dobrar. É essa a regra da sociedade mercantilista. Chegou, agora, a hora de pagar a factura das obras, dos gastos e dos presentes que demos aos amigos que nos ajudaram a vestir a fatiota, o fraque, que nos permitiu entrar no clube dos ricos. Um estatuto sem a condição.


Não fomos nós, António, que elegemos ou deixámos eleger, um homem que, como candidato a primeiro-ministro, torcia o nariz aquele clube e, uma vez no poleiro, foi o que mais desbaratou e deixou desbaratar, sem critério, os dinheiros de dele vinham? Não foi ele que mais engordou e deixou engordar a máquina do aparelho do Estado? Não foi ele, por outro lado, ou/e os seus amigos, que criarem aquele monstruoso buraco financeiro que lhes enriqueceu os bolsos próprios e vai deixar, por muitos anos, os nossos vazios? Mas a nossa memória é curta! Ainda há pouco o elegemos como Presidente da República! E hás-de ver o que mais se seguirá!...


António, sou um velho marxista. Há muito que vinha pressentindo este final, o desfecho deste acto. Isto, para mim, não é novidade nenhuma. É o reino da mentalidade neoliberal no seu melhor. E de uma esquerda que não soube acompanhar os tempos que correm. Que não soube acompanhar uma sociedade que evoluiu tecnologicamente de uma forma tremendamente acelerada, que provocou uma crise de valores e de identidade – enfim, entrou em crise cultural – e que não soube acompanhar, com novas soluções, adequadas ao tempo presente. Esta esquerda passa antes o tempo, quezilando e gladiando-se de morte uns com os outros. Não aprendeu nada com a história!...

 

 

 

 

 

Urge mudar de paradigma. E de novos actores.


Aqueles que hoje estão no palco, criados e levados pela nossa mão, são efectivamente bons actores. Bons actores dos palcos dos media. Mas nós precisamos de bons actores políticos. Que saibam tratar a coisa pública como um verdadeiro serviço público.


A sociedade dos media em que estamos imersos confundiu-nos. Precisamos de voltar à escola para entendermos como esta nova sociedade funciona e quais os mecanismos que utiliza.


Para não confundirmos a nuvem por Juno.


Porque, se com o voto, eles entenderem que nós mudamos, eles também serão obrigados a mudar. A dizerem a verdade sem subterfúgios, porque sabem que dificilmente nos enganarão. E, desta forma, poderão apresentar as diferentes alternativas para que nós, cidadãos informados, conscientes e responsáveis, possamos optar.


Caso contrário, continuaremos na mesma forma.


E, sendo assim, não nos deveremos queixar.


Porque… as escolhas foram nossas!...


Nona fez uma longa pausa.


Lentamente baixei os olhos e dei comigo preso à leitura da página do livro que Nona segurava na mão:


 “Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim de um dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel, que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço”.


Tio Nona, saindo de uma espécie de sono ou torpor, deu conta que meus olhos percorreram aquela passagem e, adivinhando o meu pensamento, concluiu: - na literatura, tal como na política, somos todos feitos da mesma massa!...

 

 

António Tâmara Júnior

 

 

 

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Quinta-feira, 24 de Março de 2011

O Homem sem Memória (40) - Por João Madureira

 

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

Ficção

 

40 - Foi no princípio da Primavera que o Padre Zé resolveu mexer no telhado da igreja junto ao cemitério, pois as infiltrações da água da chuva e da neve tinham começado a manchar a enorme imagem iconográfica pintada no tecto de madeira. Os rapazes ajudaram a transportar as telhas que entregavam aos operários para as colocarem no espaço donde tiravam as que estavam partidas ou deterioradas. Depois do trabalho, cada garoto recebeu vinte e cinco tostões, que deram à justa para comprar dois chicletes dos jogadores e para cinco rebuçados de tostão.


Era nesta igreja onde se rezava a missa aos mortos. Depois das almas encomendadas a Deus apenas se tornava necessário andar uns poucos metros para entregar o corpo dos defuntos à terra.


Foi no início da Primavera que o José e os amigos, mascando chiclete, assistiram ao enterro do Mário Jorge, um mancebo que nem há um não tinha ido para Angola combater na guerra colonial.


O Mário Jorge era um jovem muito querido na Vila por ser educado, trabalhador, simples e um jogador de pau exímio. No dia em que ficou aprovado na inspecção, ele e mais os dez mancebos que foram considerados aptos para o serviço militar, fartaram-se de jogar ao jogo do pau, de deitar foguetes, tocar concertina, bombos e ferrinhos, comer e beber à tripa forra e dançar no baile de celebração pela subida honra de terem sido escolhidos para irem defender a Fé e a Honra do Império. Apenas o Carlos Torlim chorou como uma madalena por ter sido dado como não apto devido a ter os pés chatos. Ao choro do mancebo reprovado juntou-se o das mães, das irmãs e das namoradas dos eleitos. Os pais e os irmãos mais velhos, para não pensarem na desdita que representava o facto daqueles rapazes terem já o passaporte para a guerra e, provavelmente, para a morte, emborracharam-se com cerveja, vinho ou aguardente.


Durante a tarde e a noite, a rapaziada andou em bando descendo da Vila para a Portela e subindo da Portela para a Vila em grande cantoria e algazarra como se lhes tivesse tocado a sorte grande. Todos os homens deram os parabéns aos distinguidos e palavras de consolo ao Carlos dos pés rasos. Ele é que não se conformava com “a puta da situação” de ter sido dado como inapto. E por isso chorava. Todos os mancebos aprovados tentaram consolá-lo referindo que, bem vistas as coisas, por causa dos pés chatos tinha ficado livre da tropa, que era, no fundo, o que todos almejavam, mesmo parecendo que não. Mas o Carlos não se conformava em ter ficado com a caderneta militar manchada com o carimbo da inaptidão física para defender Angola, que era nossa, como muito bem dizia o Padre Zé nas suas homilias de Domingo. “Vou ser a vergonha lá de casa. Agora nem a minha futura namorada me vai querer. Um homem que não vai à guerra não presta para nada”, choramingava o Carlos Torlim. O Mário Jorge bem o tentava animar: “Não te apoquentes mais. Não vais à guerra de África mas ficas aqui a defender as nossas namoradas da investida dos burgessos das aldeias”. E o Carlos: “Os burgessos das aldeias não se atrevem a vir à Vila namorar”. Ao que o Mário Jorge contrapôs: “Sendo assim, deves deitar o olho aos minhotos que vêm para aí de concertina em riste intentar enganar as nossas moçoilas com os seus cantares ao desafio. Esses mariolas são muito manhosos. Nós confiamos em ti para protegeres o nosso grémio.” O Carlos, agora menos fungoso, respondeu: “Deixa-os por minha conta. Se forem capazes de se atrever a molestar as nossas raparigas vou-me a eles com o meu pau e desanco-os como se fossem espanhóis. Posso ter os pés chatos, mas, graças a Deus, estas mãos são muito rápidas a manobrar um pau à maneira antiga. Por cada paulada é um corno que vai ao ar. Se tiverem a ousadia de andarem por aí a namoriscar as cachopas ponho-lhes aquele lombo mais escuro do que a pele dos turras”. “Prometes?”, disse o Mário Jorge. “Está prometido”, proferiu o Carlos Torlim. E disse ainda mais: “E tu tens de me prometer que regressas são e salvo.” Ao que o Mário Jorge respondeu: “Lá prometer prometo, não sei é se vou conseguir cumprir.” “Tu és um homem corajoso e de palavra e por isso vais regressar inteiro. Nem quero pensar no que o teu pai faria se não fosses capaz. És o único rapaz da família e o teu pai só se atreveu a comprar as terras com a intenção de tas deixar.”


Tudo serenou durante um bom bocado. Comeu-se e bebeu-se com alguma parcimónia. Uns falavam e outros ouviam, uns choravam e outros riam, uns diziam sim e outros diziam não. Muitos atreveram-se a dizer talvez, o que é quase blasfémia para um barrosão, sem que isso fosse motivo de discórdia.


Depois da ceia deu-se início ao arraial. Enquanto uns tocavam os demais dançavam. Depois de várias modas, os que dançavam pegavam e esgalhavam os instrumentos para produzirem melodias que soassem minimamente perceptíveis, e os que acabavam de tocar iam procurar par e dançar com nas festas judias. Os mais nervosos gargalhavam muito alto, davam pulos enormes e inventavam passos de dança estrambólicos.


O Mário comeu como um pardal, bebeu moderadamente, dançou pouco, tocou a modinho, sorriu-se para todos com muito carinho, já como se se estivesse a despedir. O seu pai olhou para o seu morgado e para o infinito, como se fossem parentes. Por vezes beberricava do copo e abanava a cabeça como se pronunciasse um não maior do que Serra do Larouco. Não, o seu filho não. O seu filho não devia ir à tropa. Lá morria-se a valer. Estava mesmo capaz de admitir que tinha sido preferível o seu filho ter nascido com os pés chatos e ser reprovado na inspecção militar. Ele que até há bem pouco tempo zombava dos que, por causa de defeitos físicos, se viam livres da tropa. Era mesmo homem para trocar as duas juntas de bois e a leira maior para que a sorte do seu filho fosse outra. Ou então trocar a sorte do Mário com a do Carlos, que não deixava de se autoflagelar por ter sido considerado inapto para o serviço militar. “Que vá o manco para a guerra, caralho, que vá o manco para a guerra e não o meu filho que tanto me custou a criar. Que Deus me perdoe. Mas o meu querido filho não.”- atreveu-se a pensar.


Um pouco mais ao lado, no meio do mulherio, a mãe do Mário chorava que se fartava. E como a mãe chorava, as suas cinco filhas choravam também. E da mesma forma, com o mesmo sentido de desgraça e de inconformismo. Ali apenas os mancebos riam a bom rir. À festa juntaram-se uns mariolas que ou ainda não tinham sido chamados à inspecção ou então já tinham passado à peluda sem muitas mazelas ou achaques visíveis. Com a animação da música e do vinho, trocaram-se pares, apalpadelas, dixotes e olhares.


No meio da animação, um dos rapazes, depois de dançar com a irmã mais velha do Mário (que era a mulher ambicionada pelo Carlos Torlim, e por quem ele chorava baba e ranho por causa da vergonha de agora não ser visto como homem capaz de ir à tropa) e logo após ter o atrevimento de pegar à sorrelfa e com algum entusiasmo na namorada do Mário, foi avisado pelo Carlos que ali não era bem-vindo, nem ele nem os seus companheiros.


Como palavra puxa palavra, o galarim armou-se em teso e disse que ele dançava com quem quisesse e que festa feita no meio da rua estava aberta a toda a gente. E que, referindo-se às raparigas, quem não quer ser raposa não lhe veste a pele. E mais isto e mais aquilo até que a música parou, os bailarinos imobilizaram-se, o vinho deixou de escorrer nas gargantas mais sequiosas, os cigarros começaram a ser fumados com mais intensidade, os olhos começaram a ficar chispantes, as mãos pegaram nas navalhas que andavam nos bolsos fundos das calças, as pistolas foram apalpadas e o Mário dirigiu-se ao rufia e pediu-lhe que se fosse embora que a festa era para os mancebos da Vila que tinham sido dados como aptos para o serviço militar. Mal o brigão se atreveu a dar um passo mais arriscado em direcção ao Mário, o pau do Carlos ergueu-se mais rápido que uma fagulha de um torgo ao lume e desabou na cabeça do atrevido como se fosse o raio de um anjo vingador. O som do impacto foi audível nos paços do concelho onde o senhor presidente da câmara rabiscava o discurso com que pretendia glorificar os dignos filhos de Montalegre distinguidos com a subida honra de poderem defender as províncias ultramarinas que eram mais do que nossas.


Olhando para o rapaz estendido no chão com olhos de guardador de rebanhos, o Carlos Torlim virando-se para o Mário Jorge disse: “E vai um.” Ao que o segundo retorquiu: “E se o mataste?” “Se o matei, é defunto”, disse o Carlos sem se desmanchar. “Que continue o baile.”

 

 

41 – O mesmo discurso que serviu ao senhor presidente da Câmara para enaltecer os mancebos de Montalegre que foram mobilizados para defender Angola, que era nossa, serviu para fazer o elogio fúnebre do Mário.


Enquanto o autarca repetia as palavras de há um ano atrás, agora perante uma assembleia de chorões, os rapazes da primária mascavam chicletes com uma raiva triste. O caixão lá estava bem selado, não fosse dar-se o caso...

 

(continua)

 

 

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Quarta-feira, 23 de Março de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

 

 

 

Um leve bater com os nós dos dedos na porta e eis que me entra neste escritório feito tugúrio com a acumulação de livros, processos, prospectos turísticos, dezenas de objectos de difícil catalogação, eu sei lá …, a Dona Senhorinha, um tremor que se acentua mais na cabeça, o rosto com alguns sulcos na testa pequena, mas dois olhos límpidos como fontes das quebradas, onde se observa o reverberar da luz do sol. Como sempre, parece alheia à cupidez de familiares pouco escrupulosos que a obrigaram a recorrer ao meu abrigo profissional. É um falso alheamento e espero que logre na justiça a paz que teimam em roubar-lhe.


Apesar da sua permanência num lar de Chaves, gerigota, percorre o trilho dos seus afazeres, que passa por tratar dos seus e dos outros, que visita, solidária para levar um pouco de si, o possível conforto a alguém por uma enfermidade ou perda irreparável.


Traz-me novas da médica que a observou e que lhe disse estar bem e regressar daqui a um ano, isto se não surgir qualquer achaque mais persistente, o que não seria novidade na idade que transporta alegremente não foram as tais desfeitas que insistem em perturbar-lhe, maldosas, os seus quase noventa anos.


À despedida deixa-me um livro sobre a Quaresma, que, mesmo na desarrumação caótica do escritório, ficará à vista e em lugar destacado, como se os “Manuscritos do Mar Morto” se tratassem. Não prometo a sua rápida leitura, pois existem mais a pedir vez, mas não me esquecerei dele, nem restará abandonado à sua triste sorte entre a edição deste ano do “Seringador” e o último volume dos Dicionários das Religiões que o jornal “ Público”, vem publicando semanalmente.


E eu que acordara de manhã, triste, recupero um pouco de optimismo, ímpeto para continuar…


Em vez de me pagar, deveria ser eu a pagar-lhe!

 

 

 

 

 

Há muito que o rio Tâmega não cobrava o seu tributo de passar por estas terras e fê-lo de forma particularmente trágica. Já estamos habituados aos seus irados humores invernais, quando transborda o leito, galga as margens e ameaça lares e culturas. No entanto, nada que não sejam resmungos de um velho rezingão a quem as gentes daqui e doutros lados por onde passa têm feito algumas ou muitas malfeitorias.


Roubar uma vida, já por si não é proeza da qual se possa vangloriar, ocultar o cadáver por muito ou pouco tempo que fosse, é uma crueldade.


Eu sei que foi ele que me ensinou a nadar.


Onde, com uma débil cana e um anzol enferrujado, tentei pescar as primeiras bogas ou escalos, embora diga-se, sem muito sucesso. Também é verdade, que, cedo me avisaram e apercebi das suas manhas, fundões ou redemoinhos.


Chegámos a salvar, eu e o meu falecido pai, uma vida no açude. Ironicamente, poucos dias antes do funesto acontecimento, recordara com a pessoa resgatada, esse facto.


Por isso senti-me traído na amizade que me unia ao velho rio.


Apenas no passado domingo consegui aproximar-me dele. Estava um dia ensolarado. O parque infantil próximo estava repleto de crianças e pais, numa algazarra agradável e contagiante. Nas margens, caminhava-se, corriam velozes bicicletas e pessoas que a espaços, com as costas das mãos tentavam limpar o suor que lhes escorria pelas faces. Nos bancos do jardim lia-se o jornal ou conversava-se. Mais além, um grupo ruidoso estendia uma coberta e distribuía copos, talheres, pratos … alguma excursão.


Pouco depois da ponte pedonal, na margem esquerda e a montante da ponte romana, na margem direita decorria uma concorrida competição de pesca desportiva.


A vida prosseguia…

 

 

 

 

 

Quando regressei a casa, a amargura pelo velho rio ia e vinha, como as recordações …


As faltas às aulas da Primária na Escola da Estação, no período da tarde, que o Professor Ferreira punia exemplarmente, com uma palmatória que o Moreira oferecera e como tal tivera o “justo correctivo” por parte dos colegas. O Moreira, da Tesouraria, que faleceu muito novo e quase de imediato a mulher, também ela, funcionária da Tesouraria.


Os lanches junto ao rio, para os quais o Geraldes, contribuía com ovos cozidos, que retirava do mostruário da taberna que os pais regiam nas Longras. O celebrado “Geraldo Geraldes, O Sem Pavor” como lhe chamávamos, outro que se finou ingloriamente numa estrada de França…


O fim da tarde, na qual a minha tia Maria teve conhecimento que faltara à escola e andava a nadar em frente do desaparecido Parque de Campismo, na Madalena, e nas proximidades de um amieiro da outra margem, de cujas ramos saltávamos para a água. Bem, desta vez, a brincadeira ficou-me cara. Nadava eu tranquilamente, quando se aproxima do local a minha tia, que me reconheceu de imediato, assim como as roupas que estavam num recesso do amieiro e que logo agarrou.


 - “Mário, sai da água …”


Quando a escutei, a minha reacção foi mergulhar e atingir a outra margem onde tentei ocultar-me atrás duns ramos de um salgueiro.


Mas ela continuou…. Eu, imóvel e calado como um leiranco.  


-“ Mário, se não vens, levo-te a roupa!”


E levou … e foi-se, deixando-me apenas as cuecas, a camisola interior e os sapatos.


Claros, os outros que comigo nadavam, também foram.


E assim esperei … até que o sol se escondeu, bem passada a hora do jantar, e depois lá fui, cozendo-me às paredes, até chegar à Rua do Correio Velho …


Apesar de tudo, continuo desgostoso com o velho rio de toda a minha vida… embora sabendo, que algumas vezes tem mau feitio…


Como teve antes e agora deu triste notícia.

 

       Mário Esteves

 

 

 

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Terça-feira, 22 de Março de 2011

Pedra de Toque - A minha Prima Vera

 

 

 

 

A minha Prima Vera

 

 

Chega sempre em Março.


Num comboio de amêndoas ou num automóvel alado.


O dia 21 é o que ela elege para a visita.


Por hábito, vem bonita, radiosa, florida.


Ás vezes, aparece-me um pouco fria, cinzenta.


Fico feliz quando ela chega.


É uma mulher linda, que todos os anos, nesta altura, me surpreende.


Não pensem que gosto dela só por ser minha PRIMA.


Todos temos primas de que não gostamos.


Mas esta é VERA, no sentido latino do termo – verdadeira, fiel, segura.


Dedico-lhe amizade, porque ela tem sol nos olhos e nos gestos, porque ela exala o perfume intenso dos campos.

 

 

 

 


Estar com ela é sentir-lhe na voz o melódico chilrear dos pássaros de arribação.

 

Quando a passeio, as flores abertas sorriem e as folhas nas árvores rebentam de verdes.

 

A minha PRIMA VERA, quando vem, dá-me um calor meigo, aclara as minhas dúvidas, pacifica as minhas angústias.

 

Se surge brusca, sem se fazer anunciar, deprime-me.

 

Mas logo, lânguida, fala-me, destrói-me as nostalgias e com a sua luminosidade, serena-me.

 

Com ela apetece-me sempre a poesia, que leio alto, homenageando-a.

 

Quando parte, a 22 de Junho, começo a suar de saudade.

 

Refresco-me então, nas águas azuis de todos os mares transparentes, nas sombras de todas as árvores de espanto, que nascem sempre nas aldeias, vilas e cidades que construímos nos nossos sonhos.

 

Os dias, tórridos, nebulosos e gélidos, sucedem-se, inevitavelmente.

 

Com ansiedade percorro-os, certo na convicção de que a 21 de Março, na Rua da Felicidade ou na Esquina dos Sentimentos, voltarei a encontrar a minha querida PRIMA VERA.

 

 

                                                                                     António Roque

 

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:23
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Segunda-feira, 21 de Março de 2011

Quem conta um ponto... Estar ou não estar... à rasca

 

 

 

Estar ou não estar… à rasca

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

 

De repente uma geração descobriu que estava à rasca. E a descoberta bateu certo com a realidade. Depois organizou-se fora dos partidos e dos sindicatos tradicionais e veio para a rua gritar. E, apesar do improviso, fez-se ouvir. Está claro que este grito de alerta pôs à rasca toda uma sociedade. Mesmo os que mostram muita compreensão pela nova realidade social e política, também estão à rasca. Só que esta “nova” realidade é uma verdade de muitos séculos.

 

Carlos Santos Ferreira, presidente do BCP, disse em entrevista que o convidaram para dar uma lição e por isso teve a ideia de falar das crises dos últimos 500 anos. Só que ao fim de algum tempo desistiu, pois já ia na terceira ou quarta grave crise e ainda ia nos anos 1500.

 

E olhem que é verdade. Ando a ler a História de Portugal, coordenada pelo Rui Ramos, e se há coisa em que Portugal seja coeso é nas crises. A palavra crise é a que confere coerência à nossa já longa história. E com isto quero dizer que houve sempre gente à rasca. Gerações e gerações de portugueses sempre à rasca.

 

Por exemplo, a minha geração viu-se à rasca para estudar, vestir e até comer. A geração anterior viu-se mesmo muito à rasca com a guerra colonial. E a geração dos meus pais viu-se tremendamente à rasca para sobreviver. Nessa altura em cada família nasciam doze filhos para chegarem à idade adulta três ou quatro. Havia muita fome. Não havia luz na maioria das localidades, não existia televisão e a rádio era uma raridade muito apreciada mas quase nunca escutada. E andavam descalços. Trabalhavam como escravos sem direito a nada, a não ser ao sol e à chuva. Andavam sujos, esfarrapados. E descalços. E então que dizer da geração dos pais dos meus pais. Viviam quase na idade média entre animais, em casebres onde mal entrava a luz, onde não havia quartos de banho, nem água corrente, nem assistência social, nem subsídio de desemprego, nem esperança. Onde quase toda a gente era analfabeta. Onde a justiça era feita à base da porrada e da aplicação de sentenças ao deus dará. Pagava-se ao padre, ao senhor doutor e ao regedor. Devia-se na taberna, na farmácia e no alfaiate. Bebia-se a água das fontes, comia-se o caldo com unto, batatas com batatas, pão de quinze dias, carne gorda e salgada e peixe tão fresco como o da aldeia do Astérix. Quase toda a gente andava descalça. Dispenso-me de recuar um pouco mais no tempo. Falta-me a coragem.

 

Mas voltando ao tempo presente. O grande problema nacional é que a geração que está à rasca não sabe lá muito bem o que é estar verdadeiramente à rasca. E cheira-me que ainda vai ficar mais à rasca, pois à rasca estamos todos. E quando todos estamos à rasca, os que estão mais à rasca tendem a ficar ainda mais à rasca. E olhem que aquilo que vos digo não é ficção. Basta recuar 50 anos para, como já expliquei, batermos com a consciência na realidade. Anda por aí muito jovem à rasca – e a maioria dos que vi na televisão são disso bom exemplo –, que para eles a fome é apenas uma palavra, andar descalço é coisa dos povos indígenas africanos ou dos índios da Amazónia, e não ter luz nem água canalizada em casa é uma ficção pré-histórica. Isto para não falar dos que, à custa dos pais, comem e bebem até ficar obesos, vestem-se, ou despem-se, com roupa de marca e até se deslocam em carros nada baratos.

 

Pois é verdade que muitos dos jovens que dizem estar à rasca ainda não se deram conta que mais à rasca do que eles estão os seus pais. E à rasca está o primeiro-ministro que não sabe como pode sair do poder sem ser acusado de desertor. À rasca está o líder do PSD que ainda não atinou com a forma de conseguir com que José Sócrates fique no poder até isto rebentar sem ser acusado de frouxo. À rasca está o Governo que não sabe se governa ou desgoverna ou tudo não passa de um pesadelo. À rasca está a oposição de direita que, apesar de contestar as medidas tomadas pelo executivo socialista, sabe que quando for para lá apenas lhe resta aplicar as mesmas soluções sugeridas (impostas) pela Europa desenvolvida. À rasca está a oposição de esquerda com o movimento dos jovens à rasca porque lhes está a tirar o direito (divino) do protesto, da indignação e da moralidade. À rasca está Cavaco Silva que não atina com o método de mandar embora o Governo sem ser acusado pelos socialistas de proceder da mesma forma que os presidentes Soares e Sampaio, que tão criticados foram pelo PSD e pelo CDS.

 

Estar à rasca não custa muito nos tempos de hoje, o que custa mesmo é sair da situação com perspectivas de futuro que não sejam alicerçadas na fantasia. E gente à rasca haverá sempre. Por isso, minha gente, o que é que o povo quer? Comprar um carro novo. E o Continente está cheiinho de gente, as estradas entopem com o trânsito, os restaurantes estão à pinha, as discotecas e os bares vendem cerveja como água. As universidades estão a abarrotar de gente que sabe que o curso onde foram desencalhar apenas lhes dá direito a ficarem mais à rasca. No entanto insistem. O que eles querem ser é licenciados. Para quê é que não sabem lá muito bem. Mas também a quem é que isso interessa? Diz o povo que não há pior cego do que aquele que não quer ver. E a geração à rasca anda há já demasiado tempo com óculos de sol de marca ray ban que os seus pais lhe ofereceram no começo da Primavera.

 

 

 

PS – Receitas para ajudar a Geração à Rasca a combater a crise.

 

Lagostins com alho e ervas aromáticas

 

Ingredientes (para 2 pessoas de apetite circunspecto, ou comedido) – 12 lagostins crus com casca e sumo de meio limão; 2 dentes de alho previamente esmagados; 3 colheres de sopa de salsa fresca picada; 1 colher de sopa de manteiga amolecida; sal e pimenta; quartos de limão, pão estaladiço e alface

 

Confecção: Um – Lave e descasque os lagostins. Com uma faca afiada, faça uma incisão ao longo da face dorsal e retire a tripa preta.  Dois – Misture o sumo de limão com o alho, as ervas e a manteiga até formar uma pasta. Tempere bem com sal e pimenta. Espalhe a pasta sobre os lagostins e deixe marinar durante 30 minutos. Três – Leve os lagostins a grelhar debaixo de um grill pré-aquecido durante 5-6 minutos e mais alguns segundos. Em alternativa, aqueça uma frigideira e frite os lagostins na pasta até estarem cozidos. Transfira os lagostins para pratos quentes e regue-os com os sucos. Sirva de imediato com os quartos de limão, pão estaladiço e alface.

 

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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