12 anos
Terça-feira, 31 de Maio de 2011

Pedra de Toque - Noites de Verão

 

 

Noites de Verão

 

 

As noites tardam no fim destes dias quentes.

        

E quando descem com a brisa doce que quási não bole com as folhas verdes das árvores, convidam-nos ao festim do passeio tranquilo, à tertúlia sadia na mesa da esplanada, à bebida reconfortante que mata a sede que o calor do dia espalhou pelo corpo todo.

 

As paredes das casas respiram e refrescam por janelas e sacadas abertas de par em par.

 

Sobre quintais carentes cai a pressão do jacto de água que consola.

 

Mas o gozo do passeio é ritual que as ruas e vielas da nossa cidade merecem.

        

Ao compasso das pernas é bom sarandar os sonhos pelas pedras gastas das calçadas antigas onde se escondem as sombras dos heróis, reflectidas na altaneira Torre que perscruta do alto a grandeza das muralhas.

        

E porque não colher a frescura, poisando os olhos na verde-verdura-fresca dos jardins da cidade?


        

Como são também belas algumas casas senhoriais disseminadas pela zona histórica que a retina só vai memorizando quando nos dispomos ao prazer da vista…


Nas Caldas e pelo asfalto que a elas conduz, vale sempre a pena o passeio que poderá ser retemperado com os golinhos mágicos das milagrosas águas, brinde divino (?) da Natureza.

 

Depois há a cidade nova que já se estende pelos quatro pontos cardeais, que urge conhecer, calcorrear.

 

E se no Jardim Publico, no Tabolado ou nas Freiras, ouvir a melodia de uma banda de música – velha emoção antiga – escute esse som mágico, porque o stress e a angústia serão menores no bulício de amanhã.

 

As noites cálidas do Verão Flaviense são um irrecusável convite para melhor conhecermos e degustarmos esta cidade que é nossa.

 

E para que se engrandeça e progrida temos que amá-la.

 

Mas, como escreve Ribeiro de Carvalho, não se pode bem amar, aquilo que só, muito mal se conhece.

 

António Roque

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 16:12
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Olhares atentos sobre a cidade

 

Fotografia de Paulo Ferreira

 

Já uma vez o disse por aqui que muitas vezes passeamos na nossa cidade, passamos pelos mesmos sítios todos os dias e não nos damos conta dos pormenores, que à vista de todos, a cidade nos esconde. O ser flaviense também é feito pela descoberta dos nossos pormenores e, a grande maioria desses pormenores merecem bem serem descobertos. É o caso dos anjos da Igreja da Madalena (Igreja de S.João de Deus) que por estarem lá tão altos, raramente nos damos ao trabalho de apreciar a sua beleza.

 

Mas há quem repare, quem os fotografe e até se dê conta de outros pormenores que não são visíveis ao olhar comum, como foi o caso do Paulo Ferreira que nos enviou esta lindíssima foto de um olhar não acessível a todos, onde a acompanhar a foto, vinha o seguinte texto:

 

Ao anjo, à nossa esquerda, o braço esquerdo está seguro por arames, faltando-lhe na mão os dedos todos. Ao anjo da esquerda falta-lhe a mão esquerda e quatro dedos na mão direita. A foto foi captada do largo, trás do café S. Roque.”

 

Obrigado Paulo pela foto e pelo olhar atento.

 

Ainda hoje, vamos ter por aqui a habitual crónica das terças-feiras – “Pedra de Toque” – de António Roque.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 15:34
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

Quem conta um ponto... O verdadeiro culpado

 

O verdadeiro culpado

 

Estava eu em frente da montra da sapataria Patela a transformar o preço de uns sapatos em quilos de arroz, massa, batatas, frango, febras de porco, latas de sardinha, atum, garrafas de azeite, dúzias de ovos, embalagens de leite, pão e vinho, quando o H., olhando para o meu ar de espanto, disparou à queima-roupa as seguintes palavras que ele atribuiu a Fukuyama, o profeta do fim da História: “As ideologias vergaram-se ao apelo de líderes carismáticos. É a rivalidade pessoal entre políticos que move os líderes carismáticos. É a rivalidade pessoal entre políticos que move o mundo e não as suas diferentes ideias. O meio utilizado tornou-se o fim. O poder deslocou-se do Parlamento para a televisão. A imagem é mais determinante do que a substância. E o Estado, ainda hoje um enorme centro de poder, perdeu o seu lugar determinante com as sucessivas crises e a globalização”.

 

O R., depois de atravessar a rua na passadeira para experimentar os reflexos de um condutor mais acelerado, disse a rir, como é seu costume e feitio: “Foi o rancor a Sócrates o que levou Pedro Passos Coelho a desencadear a actual crise política. Pensou que bastava provocar novas eleições para despachar o Sócrates para a reforma. Mas parece que a porca lhe vai sair mal capada. Em vez de se preocupar essencialmente com a situação do país, optou por apostar na sua carreira política. Confundiu os seus desejos com a realidade e isso pode vir a ser-lhe fatal. Além disso, o povo português não é apologista de vindictas, insultos e desqualificações. Já acusaram o homem de tudo, mas ninguém conseguiu provar nada. E Pedro Passos Coelho, em vez de apontar ideias e soluções para o país, fala mal de Sócrates e do Estado. Em vez de apresentar projectos, diz mal de Sócrates e do Estado. Quando alguém o questiona sobre um futuro governo de coligação, Pedro Passos Coelho diz que ou ele ou Sócrates, os dois nunca, como se o dirigente do PS tivesse lepra; quando lhe falam dos problemas da educação ele responde que a solução é afastar Sócrates para acabar com a escola pública e assim emagrecer o Estado; quando lhe falam de economia e finanças responde que com Sócrates não faz governo; quando lhe falam de agricultura, explica que o engenheiro Sócrates é o principal responsável pela crise do arroz, pelo tamanho do tomate, pela falta de cor das cerejas ou dos morangos, pela subida do preço dos cereais no mercado internacional; quando lhe falam de cultura diz que o engenheiro Sócrates é o principal culpado por em média um português ler menos do que um livro por ano; quando o questionam sobre o desporto refere que o engenheiro Sócrates é o primeiro responsável pelo facto de o Benfica ter perdido o campeonato nacional e pelo facto de alguns atletas de alta competição terem falhado provas internacionais devido a lesões, pois com um governo por si chefiado acabam as lesões, a estações do ano voltam ao normal, o míldio deixa de atacar as vinhas, o Benfica volta a ser campeão e os sacanas dos transmontanos, esses calaceiros, vão ter de passar a pagar portagens. Quando o questionam sobre o Serviço Nacional de Saúde refere que os privados podem fazer melhor e que a culpa da falta de aspirinas e pensos em alguns hospitais, ou Centros de Saúde, é culpa do José Sócrates. Além disso, o engenheiro Sócrates é culpado…”,

 

“Podes calar-te um momento e deixar falar o F.”, propôs o J. Mas o F. informou que não lhe apetecia falar pois as sondagens agora resolveram ir contra a realidade. E ele recusa-se a admitir que, depois de tudo, o povo português se volte a enganar dando a vitória ao PS do engenheiro Sócrates. “A ser assim, não é o povo que tem de mudar de governo, mas sim o PSD que tem de mudar de povo”, atirou-lhe o R. com malícia. Ele nem chus nem bus.

 

O H. voltou a Fukuyama: “Os países não são pobres por falta de recursos, mas porque lhes faltam instituições políticas efectivas”.

 

“Olha, é como o parlamento, a cada eleição que passa vai perdendo qualidade. Cada vez mais se parece com as assembleias municipais onde pouco se aprende e nada se resolve”, insistiu o R.

 

 “Cuidadinho com a língua, que eu sou deputado municipal e não te admito que fales nesse tom jocoso”, advertiu-o o A. “Bem, então condescendo, o parlamento parece uma assembleia de gaiatos aos berros onde ganha a discussão aquele que falar mais alto e disser pior do engenheiro Sócrates”, disse o R.

 

Depois de um silêncio embaraçoso, o R. voltou à carga: “Penso que o Pedro Passos Coelho já está arrependido.” “Arrependido?”, berramos todos juntos. “Sim, arrependido. Quando lhe entregaram a chave da sede nacional ficou como um miúdo a quem ofereceram um brinquedo novo. Então sentou-se à secretária e pensou que para chegar ao governo bastava apelar aos rapazes perdidos do Peter Pan e falar mal do Sócrates. Resolveu montar uma tragédia. Ele era o bom e o Sócrates o vilão.  Esqueceu-se dos princípios básicos em democracia: a educação, a tolerância e a paciência. As grandes palavras inequívocas devem ser reservadas para as grandes ocasiões inequívocas. E a paciência é a mãe de todas as virtudes. No PSD já todos pensam no senhor que se segue.”

 

Então aproveitei para desatar a conversa e cada um ir à sua vida: “Nem tudo o que parece é. E a vida não é uma estrada direita. Nem sempre a verdade triunfa.” E dali nos fomos todos com o coração um pouco mais apertado. A democracia tem destes defeitos. Triunfa aquele que recebe mais votos, independentemente da razão, da coerência, ou da qualidade dos seus projectos. E projectos, tal como os chapéus, há muitos e para todos os gostos e feitios.  

 

João Madureira

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Domingo, 29 de Maio de 2011

Raid Fotográfico "Sentir Vidago"

 

A Casa de Cultura de Vidago e o Blog Meu Vidago, estão a organizar o 1º Raid Fotográfico “Sentir Vidago” que irá decorrer no próximo Sábado, dia 4 de Junho, em Vidago.

 

O Regulamento e ficha de inscrição (com inscrição online) estão disponíveis no site da Casa de Cultura de Vidago neste endereço: http://www.ccvidago.net/index.php

 

Embora no regulamento o prazo de inscrição termine dia 27 de Maio, o mesmo foi alargado até à próxima Terça-Feira, dia 31 de Maio.

 

Os prémios deste raid são os seguintes:


1º Prémio – 1 fim-de-semana (2 pessoas) em regime APA no Hotel Vidago Palace

2º Prémio – 1 GREENFEE (Campo de Golfe) do Hotel Vidago Palace

3º Prémio – 1 tratamento no SPA Termal do Hotel Vidago Palace

 

 O custo da inscrição é de 10€ e inclui um lanche convívio no final do Raid.

 

Se é amante de fotografia, pelo convívio e pela fotografia, não deixe de participar, motivos em Vidago não faltam, o problema, vai ser mesmo seleccioná-los.

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:48
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Cartas Transversais

 

Caro amigo,

 

Li e reli todas as cartas que te enviei nestes últimos quatro meses e após refletir um pouco, cheguei á conclusão que vou parar de te escrever por uns tempos.

 

Primeiro, porque preciso de afinar pontaria dos meus escritos e deixar de falar tanto em mim, no que fiz, faço ou deixo de fazer. Já tenho malta a dizer no gozo, que vivo “de amor e uma cabana”. Pois. O amor vai e vem, vai e vem, vai e vem. A cabana só é boa quando não chove e precisa de telhado novo. Perguntem á minha irmã.

 

A minha abstinência da escrita vai depender muito dos leitores das minhas cartas. Bem sei que o pessoal lê, diz que gosta e está solidário, mas agradeço mais á Seixas e ao Silva que souberam corrigir e criticar. Preciso muito deles. Preciso agora é de saber dos que não gostam.

 

Vão ser eles os responsáveis pelos 30km de estrada que tenho de percorrer todas as semanas para enviar estas cartas transversais. A minha cabana não tem internet.

 

Claro que ficaria feliz se recebesse um ofício do município flaviense a informar do encerramento definitivo da porta de lata da muralha das Portas do Anjo, da barrela dada na Rua Verde, ou da doação do quadro original de Nadir Afonso á Escola Profissional de Chaves.

 

Enfim, preciso que me “passem a mão no pêlo”. Preciso das vossas cartas.

 

A proximidade do período eleitoral é também um bom motivo para suspender a escrita. Como não estarei aí para votar em branco, vou deixar umas quantas cartas semanais em branco como sinal de protesto.

 

Incito a que os flavienses  e portugueses em geral votem em branco. Abster-se de votar é um disparate, mas votar em branco... Imaginem uma grande votação em branco e o seu significado para os políticos eleitos.

 

Quer dizer que os gajos não valem nem a tinta necessária para fazer a cruz no boletim de voto. Quer dizer que o eleitor não se esqueceu da despromoção do Hospital de Chaves, nem do fantasma das portagens que paira nas auto-estradas transmontanas.

 

Significa ainda, que os eleitores deixaram de acreditar em cabeleiras capazes de cuidar da vereação municipal e da assembléia nacional ao mesmo tempo.

 

Mostra que os eleitores sabem da utilidade das abelhas para fazer mel e que a cera fabricada até agora nunca deveria ter saído das salas do tribunal.

 

O voto em branco indica que só Deus é misericordioso. Os homens são fracos e sujeitos a muitas tentações e que a misericórdia deveria ser ou divina, ou mais democrática...

 

O voto em branco aponta ao orgulho perdido de um povo que mendiga empréstimos á CEE com as fotos do Mourinho e os feitos remotos das descobertas...

 

Votar sem cruz é mandar á merda ingenheiros ganzados e incompetentes, funcionários partidários de segunda escolha e ex-jornalistas que sonham com o poder.

 

Nunca pensei em escrever isto, mas a verdade é que sinto a falta dos velhos lideres. Do seu carisma. Da sua capacidade de nos fazer acreditar na possibilidade de cada um dos dez milhões de lusos pagar 400 euros de dívida e ficar com coragem de bater palmas e gritar palavras de apoio.

 

Que S. Bom Senso me perdoe, mas tenho saudades do Sá Carneiro, Soares, Cunhal e Freitas e das suas guerras pelo poder a qualquer preço. Elas mostravam raça, vontade indómita, querer desesperado que nos embalava e seduzia.

 

Sei que há por aí políticos com estas características. Como seres inteligentes não se querem misturar com a ralé que nos comanda. Perde Portugal, perde Chaves.

 

Tu, meu bom amigo, não percas este abraço do tamanho do oceano do amigo que te estima

 

Zé Moreira

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Freguesia de Valdanta - Chaves - Portugal

 

E enquanto não cai mais uma carta do Zé na caixa do correio, o que está previsto acontecer ao meio-dia em ponto, vamos até aqui ao lado, a uma freguesia rural ainda, mas que já entra pela cidade adentro.

 

 

Freguesia de Valdanta, com uma passagem pelo Cando, pela Arte Sacra do Românica da Granjinha e por Valdanta.

 

 

Valdanta recolhida dos olhares desprevenidos de quem apenas passa na estrada. Centro Histórico de Valdanta, sim, porque as aldeias também têm o seu centro histórico. Ainda ontem estivemos num, hoje é o de Valdanta, onde se adivinha, que antigamente este largo era o seu coração.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:18
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Sábado, 28 de Maio de 2011

A Missa do 7º Dia (5) - Por Luís Fernandes

 

 

V

 

Na 5ª fª seguinte, à madrugadora hora do costume, a esquina do Rito estava ocupada pelos visitantes do costume.

 

O Demar e a Aninhas juraram, como em todos os encontros, amor eterno; trocaram beijinhos e afagos; prometeram o céu um ao outro, e assustaram-se quando voltaram a referir assiduidade do Morgado e os «bitaites» da mãe.

 

- Resolvido – disse ele. Vamos fugir!


E explicou à «sua Madalena» o vitorioso e venturoso plano.

 

Um beijinho mais que derretido e escondido por um xi-coração apertadinho selou o combinado.

 

Duas – ou três?! – terças-feira mais tarde, na esquina da Canelha, ainda mal o sol espreitava pelas ameias do Castelo de Rio Livre, com o Demar a querer matar saudades, a Aninhas morria por lhe dar a novidade.

 

- E das boas! – dizia-lhe, a rir, consoladinha por o ver assim tão maluquinho por ela.

 

O tempo fugia. O Demar parou a tartaruguenta corrida das suas mãos e a catadupa dos beijos.

 

Poien”! Que grande pancada.!

 

- Quinta-feira, os meus pais vão a Montalegre. Eu fico a tomar conta da casa – soletrou a Aninhas.

 

- ‘Stá feito! – pensou o Demar.

 

E combinaram o final do desassossego.

 

VI

Depois de confirmadas todas as instruções e recomendações, os arrumos no sítio, os pais d’Aninhas lá foram…

 

(continua no próximo sábado)

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:50
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Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

 

Do egocentrismo do tem que ser… Por enquanto

 

Até porque só fazemos parte se fizermos a parte.


As politicas  incluem e excluem, como se o voto determinasse a verdade da responsabilidade do cumprimento da palavra dada.


A história conta-nos que há dois tipos de saber envolvidos, o do discurso que remete desde logo a culpa para o outro… Cuja alternativa à ação é sempre  a única possível, além de que é a melhor, ou seja a de quem profere o referido … O tal do discurso que divide os nossos e os outros,  os que estão a favor e os outros que estão contra ou nem por isso, algumas vezes já estão cansados ou esclarecidos, ou…


O outro saber o que as práticas nos mostram, hum…?...!...


Que tal olhem para o que eu faço… É um bom indicador de congruência e coerência do discurso…


O discurso é recreativo, já a prática é a realidade pura e dura possível no contexto com os mirones da contenção a exercer a censura, entre a  ilusão da alternativa possível  e a aplicabilidade da prática exequível com a celeridade dos troços esburacados do caminho.


Mas tem que ser , acreditemos na proximidade dos dois…, Por enquanto limitemos os dissensos , por nós, pelos nossos Filhos …


Se o mais fácil é virar as costas daremos a cara...


Tem que ser…Mesmo sem esperar dividendos.

 

Isabel Seixas

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:25
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Orjais, uma aldeia escondida

 

Já uma vez o disse aqui no devido post dedicado a Orjais, e nunca é demais repeti-lo,  que a primeira vez que fui a esta aldeia parecia-me estar a entrar numa qualquer aldeia alentejana. O azul intenso do céu, a estrada estreita, as searas a ladear a estrada e ao fundo, duas ou três casas brancas. Mas era tudo puro engano e esta paisagem de entrada, esconde um mar de montanhas e uma das poucas aldeias de xisto que temos no concelho, mas, esta descoberta também não foi à primeira, ou segunda ou terceira vez que por lá fui. Aliás, tirando o encanto deslocado da entrada da aldeia, confesso que dessas primeiras vezes saía da aldeia desiludido, apenas com algumas fotos da entrada alentejana.


 

Mas isso foi antes de descobrir o tal mar de montanhas e a aldeia de xisto, pois a aldeia de entrada (excepção para a tal paisagem alentejana), confesso também, que não é lá muito do meu agrado, não vou muito com as modernidades das novas construções, embora nesta aldeia até seja de louvar que as novas construções não incomodam muito a velha aldeia, pois respeitaram o seu espaço e puseram-se à parte, num pequeno novo bairro – pena, ser de entrada.

 

 

O mais curioso é que descobri a velha aldeia de xisto em minha casa, a uns bons quilómetros de distância, pois inconformado com o que via quando lá ia, um dia cheguei a casa, agarrei num monte de velhas cartas militares e disse – tem que existir por ali alguma coisa, nem que sejam vestígios – e realmente existia. Escondida no recolhimento da encosta da montanha, bem virada ao sol nascente, lá estava ela – Orjais – depois de um caminho enganador, que parte das casas novas e que do seu início, parece apenas levar-nos pelo mar de montanhas adentro. Desde aí, percorro todos os caminhos, e já tive agradáveis surpresas.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:16
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Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por Tupamaro

 

 

 

“Nhôra”

 

 

Nas carteiras lá do fundo, a Professora notou um certo reboliço cochicheiro.


Do Quadro, onde escrevia palavras para a lição, voltou-se com aquele seu habitual vagar a traduzir bondade, mudou o giz para a mão da vara e a vara para a mão do giz, olhou lá para o fundo e perguntou:


- Meninos, o que é que se passa?


Todos fizeram há-de conta que não era para eles tal pergunta, e até se mostraram interessados nos livros e cadernos que traziam na “saca”.


-Francisco, que é que aconteceu?


- Não foi nada, «Nhôra».


- João, diz tu. Que estavas a dizer, Augusto?


As carteiras eram de madeira «mociça». A tampa, em plano inclinado, era porta para uma caixa. No topo, em lados opostos, para cada um dos dois alunos que a ocupavam, duas ranhuras, para lápis e caneta, e um buraco para o branco tinteiro de cerâmica.


E a comichão que, lá no fundo da sala, atacou os rapazes deu propósito à Professora para lhes perguntar:


- Há por aí muitos bichos – carpinteiros?!


O «Gusto» era um mariola crescido, já repetente na «terceira”. E na «quarta» nem chegou a ir a exame.


O «Tero» era o mais novo da classe. Nesse dia chegara à Escola revoltado com o Gusto.


No dia anterior foi para casa muito intrigado.


Tinha vontade de conversar com a mãe ou falar com o pai. Mas o assunto assustava-o.


O Gusto tinha-lhe segredado que já namorava e que a Proβessora precisava dum “home” com quem dormir.


Ele, Tero, é que mal dormiu naquela noite.


Não parava de pensar nas tretas do Gusto, nem no entusiasmo que sentia sempre que olhava para a Virinha da Ti’Aurora.


Na Catequese repetiam-lhe para fugir dos «maus pensamentos, actos e omissões» , que era para ele não «ir direitinho par o inferno».

Mas no inferno sentia-se já o Terinho!


A Virinha parecia-lhe uma borboleta a esvoaçar por dentro da sua cabeça, e a acender com fósforos milhentas lamparinas, que até lhe faziam arder o coração.


Mas fora o Gusto que, com as suas tretas, o deixara em tal sobressalto.


Madrugou, com a consciência pesada e com a angústia da dúvida se teria cometido um pecado mortal.


Então, chegado à Escola, lá no fundo da sala, mal o Gusto se sentou no banco  ao lado, na outra carteira, que com a sua fazia o corredor, esticou a perna direita e pisou o pé esquerdo do Gusto. Este respondeu com um «fonha-se» e um pequeno punhaço no braço do Tero.


- És burro ou fazes-te?! – resmungou o matulão.


- Tu é que és um valente aldrabão e trampolineiro! -  soprou entre dentes o Terinho.


-Ai sou?! Ora diz lá porquê! – desafia o mariola. Não sei que bicho te mordeu!


E foi nestes entretantos que a Professora captou o burburinho lá no fundo da sala.


Manda a verdade REVELADA, aprendida na Catequese, que os meninos e meninas devem falar sempre a verdade. Se não, vão direitinhos para o inferno.


O Terinho andava assustado da vida. Com tanta lição de Catequese, tinha a impressão de que a vida ou «era assim» ou «era assado».

“Assado”?!


Lá lhe vinha aquela medonha imagem das almas a arderem e a penarem nas profundas do inferno.


Quando ia buscar água à fonte, com aquela cantarinha de alumínio, de duas canadas e meia, que a mãe encomendara ao Severo latoeiro, das Casas-dos Montes, com oficina no Largo do Anjo, de propósito só para ele, e passava em frente daquele nicho onde se via as almas a penar entre labaredas, arrepiava-se todo e jurava nunca ir cometer pecados   -   por pensamentos, actos e omissões.


Também não entendia porque estando as almas a penar entre as labaredas do inferno ainda lhes punham velas e mais velas ali, a arder, a fazer tanto calor e a salpicar as almas, em figura de gente, com pingos de cera ardente.


E, agora, lá estava a Professora a pôr à prova as suas juras.


Os pensamentos que toda a noite lhe tiraram o sono não queria revelá-los.


Praticar o acto de mentir?


Via-se já a ir direitinho, direitinho, para o inferno!


Calar-se, ficar mudo, era uma “omissão”, como lhe ensinaram na Catequese.


E se até do Purgatório tinha medo!....


A Professora, com um ar menos bondoso e uma voz menos afável, falou:


- Então, meninos, não querem dizer o que se está a passar?


Com olhar lacrimoso e a palidez piedosa de quem pede e espera uma bênção, o Terinho murmurou:


- “Nhôra”, o Gusto, ontem, disse que a “Nhôra” andava a precisar «d’home» para dormir.


Credo, cruzes, canhoto!!!


A Professora lá se refez, num repente, da pancada que o sussurro do Tero lhe acertou nos tímpanos, nas meninges e no coração.


-Meninos! – exclamou num tom de voz mais forte. (Esta Professora nunca berrava!). Vamos acabar com essas maldades.


Com Deus me deito, com Deus me levanto.

O meu marido é Nosso Senhor!

 

 

Tupamaro

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:31
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Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

O Homem sem Memória (50) - Por João Madureira

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

Ficção

 

50 “Vá embora senhor Ferreira”, aconselhou novamente o dono do café. “A despesa de hoje fica por conta da casa. Acompanhe a sua senhora. Vá em paz.” Mas o guarda Ferreira, para provar que quem mandava lá em casa era ele, pediu novo copo de vinho, acendeu outro cigarro e disse: “Eu vou para casa quando me apetecer. Em mim ninguém manda. Muito menos este estafermo de mulher.” “Estafermo és tu, meu bebedolas”, ripostou a Dona Rosa. “Exijo respeito”, disse o soldado da GNR. Mas a sua senhora nada de se calar: “O respeito ganha-se, não se impõe. Sabes bem que um bêbado não é respeitado por ninguém. Nem sequer pelos outros bêbados. Eu só saio daqui quando tu também saíres.” “Tu não és a minha mulher, tu és o vivo demónio de saias.” “Não me insulta quem quer, meu bebedolas. Só quem eu deixo.”


“Vaca”. “Bêbado”. “Puta”. “Borracho”… e marido e mulher continuaram a trocar insultos com uma raiva inusitada. O dono do café, quase em estado de choque, resolveu implorar ao seu melhor cliente: “Faça-me o grande favor de ir embora, amigo Ferreira. Tire-me a sua mulher do meu café. E leve a pobre criança para casa. Se vocês os dois já não se conseguem respeitar, honrem ao menos a inocência e a dignidade do vosso filho.”


O guarda Ferreira pegou na mão do José e abalou dali para fora com toda a tristeza do mundo dentro do seu coração.


“Quando chegarmos a casa fodo-te os cornos, minha bruxa do caralho”, ameaçou entre dentes o guarda Ferreira enquanto descia a Rua Direita aos ziguezagues.


Enquanto a coruja do castelo se entretinha na caça a mais um rato e piava o seu entusiasmo, a Dona Rosa confessou o seu desengano: “Trouxeste-me para este degredo onde mesmo os bichos se sentem mal. És o culpado da nossa desgraça. Vivíamos tão bem em Lisboa. Éramos tão felizes! Não éramos filho? O José: “Não sei, mãe.” “Não éramos homem?” O guarda Ferreira: “Foste tu a culpada de ter pedido a transferência para o Porto e depois para Montalegre. Eu não queria vir. Fui-me embora destas terras porque não queria ser aqui escravo. Mas tu… tu desde que chegaste a Lisboa, todos os dias me atazanavas o espírito para pedir a transferência. Dizias que não te davas bem, que tinhas saudades dos teus pais, que os eléctricos te incomodavam, que os homens te perseguiam, que os vizinhos te afligiam, que o sol te fazia mal, que aquilo não era vida. Que não podias criar as pitas e os coelhos, de que tanto gostavas. Que não podias cevar o porco. Que não podias semear as batatas, os feijões, os tomates e os pimentos. Que não te podias aquecer ao lume. Que cozinhavas num fogão a petróleo, que partilhavas a sala, a cozinha e o quarto de banho com uma velha, um casal de pescadores, um maluco, um solteirão e um gato. Que não tinhas intimidade. Que o José dormia aos pés da cama. Que as mulheres dos meus colegas te gozavam por usares o cabelo até à cintura. E o Leão: “Ão, ão, ão…” E o guarda Ferreira: “Cala-te cão.” E o Leão: “Ão, ão, ão…” Novamente o guarda Ferreira: “Cala-te cão.” Novamente a Dona Rosa: “Isso foi quando cheguei. Mas depois queria ficar e eras tu que querias vir embora. Que não conseguíamos amealhar tostão. Que o aluguer da casa era alto. Que os homens olhavam para mim como se me quisessem comer. Que o meu patrão era mulherengo. Que o teu capitão era um ditador. Que o vinho não prestava. Acho que nos obrigaste a vir embora porque lá não podias embebedar-te à vontade. Foi isso não foi?” Novamente o guarda Ferreira: “Eu não podia fazer um pedido de transferência e de seguida retirá-lo por puro capricho da minha mulher. A GNR tem as suas regras. Tudo tem as suas regras. Até tu tens as tuas regras.” A Dona Rosa enraivecida: “Eu já não tenho regra há três meses.” Novamente o guarda Ferreira: “Não me digas que andas outra vez grávida? Para que raio nos serve comprar as camisas-de-vénus?” A Dona Rosa condescendente: “Com a pingota nem sequer reparas que não as usamos. É o cabo dos trabalhos pôr-te a piroca de pé, quanto mais enfiar-te lá a borracha” O guarda Ferreira amparando um poste de electricidade: “Tem tento na língua. O José mesmo lá à frente pode ouvir-nos.” A Dona Rosa despeitada: “Ele está farto de nos ouvir.” Novamente o Leão: “Ão, ão, ão…” O Virtudes, junto ao portão, com o João ao colo: “Venham para casa, almas de Deus.” Novamente o Leão: “Ão, ão, ão…” O Virtudes virado para o José: “Anda cá meu filho. Não chores mais. Não chores mais meu filho. Guarda as lágrimas para o seminário. De certeza que vais verter muitas. Os teus pais amam-se tanto que se detestam. É a filha da puta da vida.”

 

 

51 – O macho e a carroça que transportava o baú e as malas com o enxoval do José começaram a subir a ladeira ainda se enxergava um lusco-fusco premonitório. Perto do pelourinho o bicho...

 

(continua)

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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

 

Começou muito cedo, ainda era um petiz e já fazia das suas. A mãe era costureira e um dia, pela manhã, uma das aprendizas trouxe um cesto com fumeiro para lhe oferecer. Ao meio da tarde a mãe envolveu uma linguiça e um salpicão em folhas de couve que pôs na braseira, ocultas entre as brasas e a cinza. Decorreram uns instantes e o odor desprendido pelo petisco começou a invadir toda a casa, prometendo uma merenda suculenta. Nem o aroma das maçãs que se encontravam ao longo do friso saliente entre o termo da parede e o início do tecto de madeira em masseira conseguia abrandá-lo de todo.


Bateram à porta e entrou uma cliente. A mãe encostou cuidadosamente as portas da sala onde trabalhava, e agarrando-lhe o braço passaram para um compartimento contíguo onde se tiravam as medidas, se efectuavam as provas do vestuário e servia de sala de visitas. O garoto esgueirou-se da sala e acompanhou a mãe. O vestido encomendado, ainda não estava pronto para ser provado, pelo que começaram a conversar até que a cliente, comentou: “ Cheira tão bem!”


A mãe do rapaz respondeu evasivamente, que devia ser qualquer coisa que alguém teria deixado cair à braseira…


Nesse mesmo instante o filho, que estava agarrado à saia, sem que a mãe o pudesse impedir, soltou: “Não é, mãe, são as chouriças que puseste na braseira!”


Assim começou uma carreira que se augurava auspiciosa…

 

 

Os pais matricularam-no na Escola das Monteiros, uma espécie de externato que existia em Chaves e que assegurava o que hoje se designa por ensino pré-escolar e ainda a então instrução primária. Ficava próximo do “Jardim do Bacalhau”, e ocupava parte do edifício, que foi posteriormente totalmente reconstruído e remodelado e onde actualmente está o Café Carlton. Ainda existia o Terreiro de Cavalaria.


No fim dos períodos das aulas, havia o hábito das professoras prenderem laços com um alfinete nas batas dos alunos, consoante o comportamento que tinham nas aulas.


Quanto mais aproveitamento, mais laços.


Uma das professoras era tia de um colega do “nosso amigo” e às vezes exagerava nos méritos do sobrinho que não seriam tantos como os laços que, aquele, impante ostentava. Os dois eram quase vizinhos pelo que eram também companheiros no caminho e regresso da escola.

Como a desigualdade na distribuição dos laços e a injustiça começasse a ser demasiado visível, “o rapaz das chouriças”, revoltou-se por palavras contra a tia-professora e o seu proselitismo militante em relação ao sobrinho, e ainda descontente, descarregou a fúria jacobina naquele, dando-lhe uma surra, o qual, tudo somado, inevitavelmente acabou na sua expulsão daquela escola.


Quem não gostou muito do episódio foi o pai que lhe retribuiu em nalgadas o desgosto sofrido.


Pouco tempo depois, matricularam-no na Escola da Estação, onde fomos colegas e amigos. Além do que aprendemos na escola, enriquecemos o nosso vocabulário fora dela, praguejando como carroceiros. Tornamo-nos mais ágeis, furtando-nos às caneladas dos nossos companheiros habilitados para arte futebolística com socos a preceito, que até faziam “alustro”, quando batiam nas pedras. Tiramos cátedra na arte de arremesso de pedras e jeito em evitá-las, pelo que, embora na qualidade de suplentes, mas com alguns minutos de jogo, contribuímos para a justa glória da nossa escola nos confrontos com a Escola de Santo Amaro e puro terror dos meninos da Escola dos Monteiros, primeiro e amargo berço de cultura do meu colega, a quem zurzíamos se os apanhássemos, pois estes corriam que nem lebres quando viam ao longe alguma avançada da “escola dos soqueiros”, ilustre nomeada da nossa escola.

 

 

Como morávamos em sítios diferentes, eu, com os rapazes da minha rua, com o Vítor, o filho do Zé da Rosa, creio do mesmo nome, e alguns do Postigo, exercitávamo-nos mentalmente no jogo de três em linha (descendente próximo e mais simples do “alquerque” românico e medieval) na Rua do Correio Velho, numa pedra do passeio junto à casa onde morava a “Dona Rolinda”, quadrado e cruz que os nossos antecessores tinham esculpido a pico para aprendizagem e culto das gerações vindouras, desafortunadamente varrido pelas obras de pavimentação nas ruas do centro histórico feitas há alguns anos. Apurava tácticas e ensinamentos para a vida adulta no jogo dos “quatro-cantinhos” no Pelourinho.


E experimentava audácia ou tinha que demonstrá-la à minha pandilha, a fim dela pertencer como membro de direito, escalando a muralha pelo lado onde ficavam os armazéns da Câmara e demolidos estes, presentemente, um parque de estacionamento.


Com os mesmos propósitos encavalitávamo-nos à vez na extremidade dum dos canhões, já fora da muralha.


Rastejávamos por baixo da porta da muralha do Forte de S. Francisco do lado da Lapa e depois fazíamos o mesmo na Igreja e chegados ao interior sentíamos um cheiro nauseabundo, que atribuíamos aos covais, que por pouco não desmaiávamos.


Enfim só nos faltava defrontar as maléficas hordas napoleónicas.

 

 

Saídos da Escola da Estação, exame da quarta classe feita com distinção, eu ainda com um prémio na catequese, que me valeu um lápis, oferta da catequista, senhora nobre, de porte distinto, pequenina, cabelo branco, dona que era do actualmente decrépito casarão que dá para a Rua Direita e largo do Pelourinho, e que sempre me brindou com um sorriso e simpatia quando me encontrava, lá entramos no Liceu.

Nos primeiros anos ficamos na mesma turma e ainda repetimos algumas façanhas semelhantes às que já recordávamos com saudade da nossa Escola Primária.


Obrigados a frequentar a Mocidade Portuguesa, fomos escolhidos para “chefes de quina” ou lá que o valha. Mas para acedermos à promoção, devíamos frequentar uns exercícios a que se seguia um acampamento no fim-de-semana, no Alto da Forca.


Um desses exercícios era com bandeiras e decidimos zombar do comandante. Ele ordenava uma posição, nos fazíamos outra, tanto reincidimos, que logo ali fomos despromovidos, o que no fundo era a nossa intenção, e regressamos à nossa modesta condição de civis e estudantes, apenas obrigados a marchar no 1.º de Dezembro.


Mas não deixamos comandante e o resto dos graduados sem troco.


No início do fim-de-semana, sábado à tarde, lá caminhavam eles, “cantando e rindo”, para o Alto da Forca, coluna promissora do regime.


Acolitados mais uns descontentes acoitamo-nos atrás dum muro da Quinta do Fernando Lino e aguardamos que se aproximassem de local ermo e da distância adequada para maior eficácia do tiro; chegados à nossa mira, apedrejamo-los, provocando-lhes a debandada geral. Creio que apenas se atreveram a montar as tendas um bom bocado mais tarde, já estávamos na Praça do Brasil, dobrados de riso e satisfeitos pelo êxito da surtida.


Quando chegou o momento de escolher futuro, que na altura correspondia a alíneas, ele foi para Ciências e eu para Letras.


Afastamo-nos um pouco. Eu acabei mais cedo o sétimo ano. Ele começou a titubear e não sei se o chegou a acabar. Entrei na Universidade, formei-me. Ele permaneceu durante algum tempo em Chaves, teve uma aventura com uma mulher casada, passou a usar casaco comprido de pele negra, botins de bico afiado e depois de mais umas histórias de alcova, café, casas nocturnas e tavolagem, acabou por desaparecer.


Encontramo-nos na Feira dos Santos, aqui há uns anos.


Apresentou-me a mulher e disse que trabalhava num banco.


E não nos voltamos a ver.


Reformou-se cedo, tão cedo que nem dá para acreditar. Por certo mete história …


Eu estou à espera …

 

 

Mário Esteves

 

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Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Pedra de Toque - Os Avós

 

OS AVÓS

 

            São pais (e mães) duas vezes.


            É um dito popular, que ainda por vezes se ouve, com imenso significado.


            Efectivamente os avós, sobretudo aqueles que têm a felicidade de verem os netos crescerem perto, dedicam-lhes enorme carinho, afecto e ternura e preocupam-se com o seu crescimento e a sua educação, como se de filhos se tratassem.


            Eu conheci um avô e duas avós.


            Pessoas profundamente diferentes por quem eu tive sempre grande admiração e estima e a quem devotei enorme respeito.


            O meu avô era homem alto e forte, uma figura, para mim miúdo, imponente com um ar severo, que eu temia no sentido de me merecer quási veneração.


            O que ele opinava de cima dos seus cinquenta e tal anos (uma idade provecta para a época) era como se fosse lei.


            O seu relacionamento com as filhas era de autoridade a que elas correspondiam com total deferência e educação.


            Esse meu avô deixou-nos tinha eu cerca de quinze anos.


            Lembro-me de o ver no quarto, o último reduto, devorando livros policiais esperando que a gangrena favorecida pela diabetes e iniciada numa perna, o mirasse até à morte que chegou serena graças à morfina injectada.


            Tenho muito presente a imagem dele majestática e venerada por nós os netos, a quem ele dedicava por vezes, temperadamente, momentos bonitos de ternura.


            Quando o víamos, ele passava temporadas no Porto, beijávamos-lhe a mão, e ele agradecia com uma ligeira carícia, que nos sabia muito bem, nas nossas cabeças.


            Eram outros tempos, é certo


              Mas o respeito ainda hoje é muito bonito.

 

 

António Roque

 

 

 

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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Quem conta um ponto... Pedro Passos Coelho e mais qualquer coisa

 

 

 

Pedro Passos Coelho e mais qualquer coisa

 

Isto da modernidade tem muito que se lhe diga. Cada vez mais nos inundamos numa torrente de informação e ansiedade. É isso o que me dói.

 

Mas, para ser sincero convosco, tenho de confessar que não consigo tirar da cabeça as palavras de Pedro Passos Coelho proferidas em Beja, numa tentativa de responder a uma pergunta sobre a possível extinção do Ministério da Agricultura por parte do PSD no caso de constituir governo: “Esse não faz parte dos ministérios a extinguir. Ficará Ministério da Agricultura mais qualquer coisa.”

 

Eu imagino-o florescente no seio da natureza observando as suas particularidades, apontando e designando as flores pelos seus nomes: violetas, papoilas, ranúnculos, cravos, rosas, miosótis, gipsófilas. Ele a enunciá-las e o povo a dizer de maneira simples e breve: Olha, flores. E de novo a eloquência do discurso: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Está claro que o PPC não pertenceu a uma juventude de ouro, ou de prata, pertenceu à juventude de cobre, a uma juventude suficientemente cinzenta a quem o Estado pagou a educação com os impostos do trabalho. Mas agora a revolução social foi-se. Ficou a evolução do privado. E de novo a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

PPC confunde muito as frases. Quer dizer uma palavra, mas diz outra diferente. Quase sempre se esquece do nome do Estado, que lhe parece um substantivo absolutamente vulgar e que provoca erisipela nos dirigentes do PSD. Por vezes, para não se esquecerem ou pronunciá-la com vício de forma, repetem: Estado, Estado. Até parece que o PSD nunca viveu à custa do Estado que agora quer transformar num negócio de feira. É difícil viver no vazio ideológico. E o PSD não tem ideologia. E de novo a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Dizem-me que o PSD já não é o PSD. A solidão está a matá-lo. E por vezes os seus dirigentes ficam zangados com o povo. Ou seja, Pedro Passos Coelho, por puro oportunismo eleitoral, vai a uma feira de agricultura falar do seu tema preferido, que não sabemos ainda bem qual é, e, ao abordá-lo, esquece-se completamente do objectivo da sua visita. Mas, como a maioria dos políticos da geração de cobre, obrigados ao método sofista do equívoco, tagarelam por natureza, experimentando por vezes a necessidade de comunicar alguma coisa, seja a quem seja: amigo, inimigo, polícia, ladrão, patrão, empregado, ilustre ou desconhecido, rico ou pobre. Até aos animais presentes nas feiras de agricultura. De noite fala sozinho ao espelho na companhia da sua esposa silenciosa. No outro dia sai-lhe: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Vê-se que o PPC aprecia na política a sua voluptuosidade. O seu frenesim. Por isso se apaixonou por ela. Mas, como hei-de dizer, apaixonou-se não por inteiro, mas por algumas partes do seu corpo, pelas toilettes, deixando de fora o Estado. Por isso é o fenómeno que é. E de novo a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Deixem-me contar-vos algo de um meu amigo que se parece imenso com o candidato do PSD a primeiro-ministro. Também o H. bailou toda a sua vida. E ainda agora baila o que dela resta: inofensivamente, com vulgaridade. Tudo lhe vem à baila. Começou a bailaricar em criança. Folgava melhor do que todos. Pelo fim do liceu, o bailarico proporcionou-lhe conhecimentos. No fim do curso na faculdade, no seu círculo de amigos e conhecidos partidários, o bailarico arranjou-lhe, espontaneamente, uma série de protectores influentes. Meteu-se a sério na política. O facto é que ainda continua a dançar. Ainda dança o que resta dele próprio. E outra vez a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

O programa político do PSD tem uma peculiaridade interessante. Tem a beleza incaracterística dos indistintos. Possui os traços do rosto liberal, um nariz marxista, a boca social-democrata, e as orelhas levemente parecidas com a democracia cristã.  O PPC anda a juntar-se aos factos. Podemos dizer que o seu espanto perante o descalabro económico e político do país raia o fingimento. A não ser assim, um de nós os dois está louco. Por isso estou espantado. E a maldita frase não me sai da cabeça: será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa.

 

Tenho de confessar: ser homem de Estado, sendo contra o Estado, é uma situação difícil. E a maldita frase não me sai da cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”. Pobre país, pobre Estado, pobre PPC. O actual líder do PSD será sempre um político atrapalhado mais qualquer coisa. Mesmo que essa coisa seja o cargo de primeiro-ministro. Mas lá diz o ditado: quem nasceu para lagarto nunca chegará a crocodilo.

 

João Madureira

 

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Domingo, 22 de Maio de 2011

Cartas Transversais

 

 

Desgosto de emigrante

 

 

Caro amigo,


Demorei a entender, mas sou um emigrante.

 

Dois anos e meio fora da terrinha, da comidinha da mamã, do bar habitual e dos amigos habituados é o pontapé de saída para ser emigrante e eu nem tinha dado conta.

 

Agora sei o que custa suportar viver sem o pouco que aí desfrutava. Consigo vislumbrar as privações que passaram aqueles emigrantes do início da década de 60. Eu sou um desses. A diferença é que não tive sucesso...

 

Repara. Tenho um carro com mais de 10 anos. Algumas das suas peças estão presas com arames. Moro numa barraca de barro e taipa nos arredores de uma grande cidade, Fortaleza, durmo de rede no alpendre.

 

Como os nativos, vivo de calções e chinelas de meter no dedo, como muito feijão com arroz, milho na grelha e cozido, gosto de cachaça de cana, cerveja gelada e água de coco nas ressacas, vejo as telenovelas antes e depois do jornal da Globo e jogo na megacena aos sábados.

 

Como todos os emigrantes, a minha vida social não é muito intensa e a que mantenho, serve também de fonte renda. Aos sábados, vou apanhar caranguejos e pescar á rede com uns quantos matutos para o mangue de Paracuru. É o meu dia de praia e de provimento de peixe fresco.

 

Aos domingos é dia de feira em Paraipaba e como sempre, faço frete de transporte com vizinhos. Aproveito e vou á net enviar estas cartas e falar com a família. Também trago algumas compras para a casa.

 

Futebol e cabaré ficam para a parte de tarde. Se joga o Corinthians ainda olho a TV. Se não, quero é arrastar o pé com forró.

 

Os requintes da minha adaptação são tais que até na música já tenho ídolos. Na sertaneja, Paula Fernandes. Tens de ouvir. O mesmíssimo Roberto Carlos escolheu essa menina para cantar com ele. E a escolha de rei...

 

Durante a semana cuido do meu sítio. São três hectares de terra com árvores de fruta como coqueiros, bananeiras, limoeiros, graviolas, mangueiras, goiabeiras e cajueiros.


Depois de um ano como agricultor, também já tenho abacaxi, mamão, melancia, tomate, macaxeira, maxixe, milho e feijão. Agora mesmo estou a colher feijão que vai dar para comer o ano inteiro.

 

Deu-me para criar umas quantas galinhas que felizmente começaram a botar uns ovitos e quando chegar o mês de Julho vou comprar dois porquinhos para cebar até ao Natal.


É assim mesmo. Sou um emigrante. Um pouco atípico, mas emigrante. A mim, o desenvolvimento ou a falta dele, expulsou-me da cidade.

 

Sei o que tu e o resto dos amigos estais a pensar. Se não podia dedicar-me á “ingricola” aí nas terras do Alto Tâmega ou Barroso. Poder podia, mas não era a mesma coisa.


Aí falta o arrebato do clima que de manhã nos molha os ossos com chuva e á tarde nos resseca a pele com sol. Aí falta chão, falta tamanho nas estrelas, luz na lua e gingado nas gajas.


Tem coisas que são iguais. Uma fé inabalável no divino que me leva a contar pelo menos quatro casas de culto por cada povoado. Um gosto perverso pela política que me desespera a cada noticia de corrupção descoberta. Uma idolatração do futebol e da música que me leva ao desespero.

 

Saí do país dos três “éfes”, fado futebol e Fátima. Pensando bem, a diferença entre o nordeste brasileiro e Portugal é bem pequena.

 

Sem mais considerações, recebe aquele abraço do tamanho do oceano


O amigo que te estima,

 

Zé Moreira

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publicado por Fer.Ribeiro às 15:59
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