Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

O Homem sem Memória (56) - Por João Madureira

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

Ficção

 

56 – José regressou ao seminário sem ter visto a Luisinha que estava de férias na Póvoa na companhia da família. O seu pai, o presidente da Câmara, por vezes dava-se a estes luxos, para bem dos seus filhos, pois detestava o sol, mas, sobretudo, embirrava com as nortadas, que eram permanentes, e com a temperatura da água, que era glacial. Ia a banhos com a família por causa do iodo. Um médico amigo a isso o tinha aconselhado. E se havia coisa que ele amava na vida, para além do insípido poder, da tímida glória, do sempre pouco dinheiro, da gloriosa mulher do seu secretário e da sua querida mãezinha, era da sua filha mais nova, a Luisinha. E quando o médico lhe disse, em tom de confidência, que nas terras do interior o iodo era raro, e que a ocorrência de deficit de iodo na infância podia originar o cretinismo, quase teve um ataque. Logo lhe veio à memória a imagem dos bandos de crianças que habitavam as aldeias e enxameavam as ruas da vila, com as suas caras de ratos esfaimados, ranhosos, sujos, esfarrapados, com o seu característico ar esgazeado, enfim, cretinos de todo. Por isso perguntou ao doutor se toda aquela cretinice era devido à falta de iodo? Ele respondeu-lhe que não é a esse tipo de cretinice que a ciência se refere. “A cretinice a que te referes”, disse ele pronunciando os esses e os erres com modos delicados, “provém de uma palavra do dialecto franco-provençal, ‘crétin’, que significava cristão. O seu actual uso resulta do costume de usar a expressão «pobre cristão» ou «cristão», no sentido de «inocente», para designar os loucos e os débeis mentais.” “Cala-te, por amor de Deus, cala-te lá, pois se o Padre Zé ouve o que para aí estás a dizer ainda te excomunga e eu não quero ser o responsável por o meu maior amigo ser condenado às eternas chamas do Inferno”, disse o pai da Luisinha, entre o atrapalhado e o irónico. Ele que não possui a mínima réstia de humor. E concretizou o conceito arrancado a algum velho dicionário da Língua Portuguesa enquanto decorava os parcos princípios de Direito que conseguiu absorver à custa de muito porfiar: “Um cretino é uma pessoa de pouca inteligência ou estúpida.” O médico, porfiando em aclarar de vez a ideia, elucidou: “Na Medicina, é um indivíduo que sofre de cretinismo, ou seja, um indivíduo dotado de debilidade mental por deficiência da tiróide, mais exactamente a falta de tiroxina, hormónio proveniente dessa glândula endócrina. O indivíduo que sofre de cretinismo manifesta atraso mental e físico. A doença inicia-se geralmente quando o bebé ainda está no útero materno. Uma vez nascido é difícil detectar o problema, sendo necessário recorrer ao teste do pezinho para identificar a doença a tempo de tratá-la. Só que por cá não existe tal prática médica. Aqui nasce-se com falta de tiroxina e fica-se cretino para toda a vida. Quem sofre de cretinismo é o filho do Rei da Portela, a filha do Zé da Avó, o filho do João de Donões, o filho do…” “Cala-te para aí, Francisquinho! Esses são atrasados mentais.” “Pois é desses que a medicina fala”, teimou o Doutor Chico, Francisco ou Franscisquinho para a família mais chegada e para os amigos mais chegados da família mais chegada, nos quais se incluía a família do pai da Luisinha, de seu nome Ricardo, ou Ricardinho para a família mais chegada ou para os amigos da família mais chegada, nos quais se incluía a família do Doutor Chico, Chiquinho, Franscisco ou Franscisquinho, assim nomeado pelas circunstâncias já acima elucidadas. E, como se estivesse numa oral na Faculdade de Medicina, acrescentou: “O iodo é um elemento químico essencial. Uma das funções conhecidas do iodo é como parte integrante dos hormónios tireóideos. A glândula da tiróide fabrica, como já referi, os hormónios tiroxina e tri-oidotironina, que contém iodo. O deficit de iodo conduz ao hipotiroidismo de que resultam o bócio e mixedema. Fui explícito?” “Isso para mim é chinês”, respondeu o Dr. Ricardo, Ricardinho, ou simplesmente Rica para a sua querida mamã, a sua amante e esposa do seu dilecto secretário, e da sua filha Luisinha. Para rematar: “E onde se pode comprar o iodo?” “Desse tipo de que te falo só o podes encontrar abundantemente junto ao mar, especialmente nas praias do Norte. E é de graça.” “Pode ser de graça para os que por lá vivem, mas para as gentes do interior custa bom dinheiro, especialmente nos gastos com o Hotel. A nossa interioridade fica cara. Qualquer dia isto transforma-se num deserto.” (Palavras premonitórias que vieram a ser decoradas e espargidas por outros políticos com o mesmo ou ainda maior prestígio do que o do autarca barrosão. A história do poder autárquico ainda está por escrever, meus senhores. E quando ela for registada, vamos de certeza descobrir, com o espanto hipócrita dos homens proeminentes da capital e seus célebres subúrbios, que foi aqui, no Norte do Norte de Portugal, que as grandes ideias fundadoras da nossa democracia tiveram a sua génese.) “Não te queixes, Ricardo, que com a Câmara bem te tens safado. Eu é que peno por estas terras do demo. Dedico-me ao exercício da medicina com a determinação de um frade. Trabalho copiosamente mas não amealho um centavo. Tudo se me vai em agasalhos e mantimento. Sou para aqui um infeliz.” “Dizem por aí que ainda te sobra algum para ires às putas a Xinzo. Ai Francisquinho, a vida custa a todos. Eu, por exemplo, nasci com o espírito de formiga. Sou um infeliz. Venho de casa para o trabalho e vou do trabalho para casa. Tu não, és um galaroz que traz as donzelas mais abastadas presas pelo beicinho. Mas tem cuidado com o que fazes. Por aqui a honra das famílias abastadas é um bem que se defende a pólvora e chumbo e que se paga com a morte do D. Juan.” “Por isso é que eu vou às putas a Xinzo. Em Chaves sou muito conhecido. Dava escandaleira pela certa.”

 

 

Foi por causa da primeira parte desta elucidativa e esclarecedora conversa que o aflito pai da Luisinha resolveu rumar caras à grossa areia, ao sol castigador e ao mar frio e picado da Póvoa, para aí encontrar o apreciado iodo. Isso fez com que o José e a Luisinha se tenham desencontrado. Ora longe da vista longe do coração. Ela começou a sorrir para outros rapazes, outros rapazes começaram a sorrir para a Luisinha. Por isso a Luisinha começou a sonhar com rapazes de outra condição, com diferentes estilos, distinto tom de pele, outro linguajar, diferente gingar de pernas. Principiou a expor-se de uma forma mais artística. O retrato mental do José desvaneceu-se na cabeça da Luisinha tal e qual as brumas matutinas da praia quando o dia começa a aquecer ao sol.

 

57 – Pedro três vezes negou Jesus. Outras tantas negou Luisinha o José. Negou-o quando disse que não tinha namorado, quando afirmou que não gostava dele e quando revelou que ...

 

(continua)

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Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Quando me afasto do trabalho para escrever estas crónicas, escritos ou que lhe queiram chamar, pela tardinha, não chega a um dia antes da sua publicação, assaltam-me toda a espécie de personagens, pessoas que na realidade conheci ou conheço; deixo para trás lugares como se os visse através dos vidros de um automóvel, respiro a resina dos pinheiros, o odor dos eucaliptos que me suavizava as longas viagens para Coimbra e me aplacavam os enjoos, sinto a areia ou alguma pequena pedra no interior do calçado e que me trilha os dedos dos pés, enquanto rumo, pelos caminhos da outrora Veiga úbere - agora em parte, terra maninha -, do Açude ou do outro lado do rio, Vale de Lagares, onde ao lavrar as leiras, diziam topar restos de tégulas romanas e se ocultar um caldeiro cheio de ouro, acompanhado de outros dois, que destapados, um deles libertaria um nunca acabar de flagelos, doenças, guerras e o outro cheio de excrementos para os coscuvilheiros, intriguistas …

 


É assim que nascem as crónicas, tão espontâneas como o vento que as traz.


Ora sereno, mal se apercebe, ora revoltado, abalando antenas de televisão e ramos de árvores, fazendo cair algumas folhas, mas não derribando árvores ou voar telhados.


O autor tem muitos defeitos e um deles, o maior - “gaba-te cesto que vais prá vindima”  -,  é ter bom coração! 


Seguindo nas suas asas, o vento, esta manhã, trouxe-me um pregão que escutei na rua Direita: “Ólhaaa a sardinha frescaaa…”!


Não era a Tia Ana, que deve estar reformada.


Era uma mulher de meia-idade, mas o aspecto gasto e desmazelado, aparentava mais, baixa de estatura, cabelos curtos e esfiapados, trazia uma rodilha entrançada no alto da cabeça. Não usava canastra, fora substituída por uma grade de plástico, nem trazia balança. A sardinha era vendida a unidade e em vez de papel de jornal, as sardinhas eram acomodados num higiénico saco de plástico.

 

 


Há tempo que não ouvia este ou outros pregões, quase tanto … como deixaram de se ver nas ruas de Chaves, as leiteiras, as lavadeiras ou as vendedoras de carqueja, que “se bem se lembram”, antes de desaparecerem de vez, deixavam os burros nos quais transportavam os cântaros, as trouxas de roupa ou os molhos de carqueja, presos a alguma árvore - proibidos que estavam de circular nas ruas da cidade -, para os lados das hortas, antes do Mercado Velho ou entre o Jardim do Tabolado e a Ponte Romana, o que para alguns era uma tentação para lhes pregar uma partida, soltando os animais.


Bem, reconheço o exagero, e numa tentativa esforçada de remediar o despropósito imaginativo e temporal, direi que há tanto como desapareceu a venda de carvão e carqueja que existia na rua do Tabolado, numa das últimas casas, de uma fileira de iguais frontarias, antes de começar o jardim.


Ainda recordo um edifício, já no jardim, no qual existia uma taberna no rés-do-chão e onde assisti enlevado e depois receoso, a um cantar ao desafio, sob o mando de um acordeão, num entardecer da feira dos Santos, e no qual os contendentes puseram tamanho empenho, que por pouco não acaba em sangue.


Do outro lado da rua, a seguir à Pensão Termas, que ficava na esquina com a rua do Sol, existiam umas casas baixas de rés-do-chão, numa das quais habitava um fotógrafo ambulante cujo apodo é hoje ilustre denominação de uma associação de fotógrafia e gravura da cidade, e noutra havia uma oficina de ferreiro.

 

 


E por falar em vendedoras de carqueja, que me perdoem a leviandade, mas não resisto trazer a esta crónica, um pouco diferente das outras - há dias… -, uma história que não sendo do meu tempo, é como todas as outras,  fidedigna, assim me asseguraram, e espero que o amigo e colega Herculano Pombo, desta vez não venha a confirmar a sua veracidade, pois nem ele, nem eu, estivemos presentes.


Uma "vendedeira" de carqueja, já entrada na idade, vinha pela rua de Santo António com o burro preso pela arreata e carregado de molhos. O burro por razões que se desconhecem e que certamente pertencem à sua natureza, deu em exibicionista e toca a mostrar o membro reprodutor – algum nome tinha que lhe dar …-, de apreciáveis proporções, também próprio dos asnos.  


A velhota não se apercebera, mas o mesmo não sucedeu com um grupo de estudantes do liceu próximo, que no passeio, começaram na galhofa, tendo um deles decidido vexar a pobre senhora.


Saiu do grupo e interpelou-a:


-“Ó vózinha, vossemecê já viu como vem o burro?”


A mulherzinha alheia ao que se passava, perguntou:


-“ Como, Senhor…”


O jovem, então, por gestos fez que a mulher se apercebesse e insistiu:


-“Já viu bem …” E olhou para os restantes, que se dobravam de tanto rir.


A idosa, imperturbável, aproximou-se mais do seu interlocutor e imperturbável, disse-lhe:


-“ Ah…! Sabe, o estafermo fica assim, quando vê pessoas como o Senhor …” 

 

 

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Duas imagens

 

Ainda antes de irmos até às “palavras colhidas do vento” de Mário Esteves, que virão já a seguir, ficam aqui duas imagens de hoje.

 

 

Uma recordando a história de sempre com a imponência do nosso Brunheiro ao fundo e outra, uma imagem de época para lembrar aos mais distraídos que o verão já chegou, embora cá por Chaves não seja necessária a “lembrança”, pois logo nos primeiros dias deste verão o termómetro já subiu acima dos 40ºC – É o primeiro dos três meses de inferno que Torga cantava.

 

Até já, com Mário Esteves.

 

 

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Terça-feira, 28 de Junho de 2011

Pedra de Toque - António Arnaut

 

ANTÓNIO ARNAUT

 

 

Quando cheguei a Coimbra, para cursar direito, já Arnaut era um jovem advogado, que os mais idosos e conceituados, consideravam e respeitavam.

 

Com o decurso do tempo, foi granjeando fama, pela sua competência técnica, pela ética que impôs no exercício da sua profissão, pela lealdade e pela lhaneza do trato que demonstrava nos inevitáveis contactos com todos os interventores judiciais.

 

Daí o prestígio alcançado entre colegas, magistrados e funcionários.

 

De convicções políticas sólidas, defensor das utopias que apontam para a sociedade fraterna e livre, tem-se revoltado contra os que negam os valores históricos e morais do socialismo que defende.

 

Não consegue adaptar-se às intrigas, às malabarices, às traições em que o sistema e a partidocracia tantas vezes (em demasia) são férteis.

 

Para ele a politica é outra coisa totalmente distinta.

 

É servir a comunidade, com lealdade, dignidade, generosidade.

 

Pela via DEMOCRATICA sempre.

 

 

Maçon assumido, homem de princípios, valores e ideias, tem publicado poesia e prosa e já liderou a Associação Portuguesa de Escritores Juristas.

 

Aquando da sua candidatura, há já alguns anos, a bastonário da Ordem dos Advogados, cargo que ocupou vencendo folgadamente a campanha eleitoral, José Miguel Judice escolheu ANTÓNIO ARNAUT para seu mandatário nacional.

 

Significativo este gesto, já que são dois homens politicamente muito distanciados.

 

Mas Judice formulou o convite, que Arnaut aceitou, porque sabia que o advogado de Coimbra, era e é um homem probo, tolerante, que sempre entendeu a advocacia com humanismo e como uma magistratura cívica.

 

Para os mais novos, permito realçar que para ele “ o respeito pelas regras deontológicas e o imperativo de elevada consciência moral, individual e profissional, constitui timbre da advocacia “.

 

Revi-o há dias num programa de debate na nossa televisão, e aí esteve como sempre brilhante e lúcido, debatendo com fino trato com os seus adversários.

 

Por tudo quanto expandi supra, é com satisfação e admiração que lhe dedico esta crónica.

 

 

António Roque

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Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Quem conta um ponto... Por João Madureira

 

 

A utilidade das algemas e tagine de peixe à marroquina

 

 

Um meu amigo que está lá para baixo e que já não via há muito, muito tempo, diz que inventou (reciclou, adaptou) uma nova função para as algemas. De facto, o L. sempre teve uma fixação por algemas, daí acalentar, desde a infância, o sonho de ser polícia. É funcionário de acção educativa numa escola secundária do litoral sul. Do mal o menos.

 

“Tu sabes bem”, disse ele olhando para mim, mesmo parecendo o contrário, com os seus olhos estrábicos, “que as algemas e as correntes possuem virtualidades e funções na vida moderna que os seus inventores muito possivelmente não terão ponderado na época recuada em que foram inventadas e onde tudo era mais simples.”

 

Tornando a olhar para mim, deduzi eu, e não para o poste que estava ao meu lado, como parecia, pois ninguém fala para um poste estando sóbrio, continuou a sua dissertação: “Se eu fosse responsável autárquico pela segurança na zona onde habito, mandava instalar vários conjuntos de algemas e correntes nas paredes dos edifícios públicos. Quando os moradores se cansassem da televisão e de ir passear o cão, podiam acorrentar-se uns aos outros como exercício de treino. Passaria a ser uma forma de convívio interactivo entre vizinhos. Estou em crer que todos adorariam.”

 

Eu olhei para o L., ou melhor para os olhos do L. que nesse momento estavam a fixar com muito empenho uma velha fechadura de uma porta da Rua da Cadeia, e limitei-me a abanar a cabeça em sinal de concordância. Ele sorriu para a fechadura e continuou: “As mulheres, transbordando de fantasias juvenis, ou sexuais, diriam: «Esta noite o meu marido acorrentou-me. Senti-me nas nuvens. E o teu?» (Pausa para salivar.)

 

“E as crianças, quando saíssem da escola, iriam logo a correr para casa, onde os avós, ou a criada, estariam à sua espera para as acorrentar. Esse gesto singelo fazia mais pelo desenvolvimento da sua imaginação do que todas as aulas de Educação Visual durante um ano lectivo, além de as ajudar a aumentar a cultura geral que lhes é sonegada pela televisão, e reduziria consideravelmente a incidência da delinquência juvenil. Quando o pai, ou a mãe, ou ambos, chegassem a casa, toda a família escolheria o eleito do dia para ser acorrentado como prémio pelo facto de alguém em casa ter o privilégio de possuir um posto de trabalho, mesmo que a produtividade continuasse em níveis absolutamente medíocres. Mas não se pode ter tudo. Não é verdade, caro amigo?”, interrogou-me o L. olhando para a árvore que abanava as folhas sobre o meu lado direito.

 

Demos mais uns quantos passos, enquanto ele ganhava fôlego para mais uma investida. “Os nossos parentes mais idosos que causassem problemas seriam acorrentados na garagem. Apenas se lhes soltavam as mãos uma vez por mês para assinarem os cheques da segurança social. Como vês”, disse ele sorrindo para uma vaso colocado no parapeito de uma janela, “as algemas e as correntes poderiam ajudar a construir uma vida melhor para todos nós.”

 

Eu pus-me a olhar para ele que continuava com os olhos fixos no vaso e disse-lhe: “És um pândego”, com vontade de lhe dizer outra coisa. Cumprimentei-o mais uma vez, em sinal de despedida, e fui-me embora.

 

O L. nunca foi para mim uma pessoa querida. De facto, o pobre rapaz, por causa do seu olhar, e de outros atributos que agora não vêm ao caso, foi sempre um solitário. E continua. Lembro-me perfeitamente de uma vez no Liceu, quando estávamos no laboratório de química, o preparado do L. explodir, queimando-lhe as sobrancelhas e pregando a todos um susto de morte. O choque e o pânico fizeram com que ele molhasse as calças, mas nenhum de nós lhe ligou qualquer importância, nem mesmo o professor, que o detestava por explosões ocorridas nos vários anos de repetência. Durante o resto do dia andou pelo Liceu encharcado, e todos nós fizemos de conta que era invisível. Mas o L. era apenas estrábico.

 

Ganhei-lhe algum carinho porque uma vez me confessou que não podia ter filhos. Eu, então, perguntei-lhe, pesaroso, a razão de tamanha desventura. Ele, fixando um quadrado azul da pintura do Nadir Afonso que está na parede do Sport, deu-me uma resposta que ainda hoje me fascina e enternece: “Sou como Portugal, tenho os testículos subdesenvolvidos.” Só não chorei porque me ri.

 


 

PS – Por causa da crise da dívida pública, cujos juros não param de subir, e tudo por culpa de José Sócrates, aqui deixo aos estimados leitores mais uma receita para quatro pessoas, de preferência socialistas, para verem como elas doem na oposição: “Tagine de peixe à marroquina”.

 

Ingredintes: azeite, cebola, açafrão, canela em pó, coentros e cominhos moídos, açafrão-da-índia, tomate em pedaços, caldo de peixe, quatro lucianos-do-golfo (por sugestão do governo PSD) pequenos, limpos, sem espinhas (essas deixam-se para José Sócrates e seus apaniguados), sem cabeça e sem rabo (por sugestão dos ministros do CDS); azeitonas verdes descaroçadas (por sugestão do PCP), sumo de limão (em homenagem ao resultado do BE), coentros frescos picados e cuscuz (por inspiração da deputada do PSD por Vila Real, Manuela Tender) preparados de fresco para servir.

 

Confecção: Aqueça o azeite numa cataplana, em lume brando, junte a cebola e deixe cozer (entretanto vá lendo as promessas do PSD e do CDS para não as esquecer), mexa de vez em quando, durante dez minutos até a cebola ficar tenra (e terna como Pedro Passos Coelho, vulgo PPC, em campanha eleitoral), mas sem alourar, como o Paulo Portas. Junte o açafrão, a canela, os coentros moídos, os cominhos e o açafrão-da-índia e deixe cozer, mexendo sempre, durante mais trinta segundos. De seguida prepare os tomates (com cuidado, em homenagem ao meu amigo L.) e o caldo. Logo após mexa vigorosamente. Espere que levante fervura. Baixe o lume, tape e deixe cozer durante quinze minutos. Destape e deixe apurar mais vinte a trinta minutos. Corte cada Luciano-do-golfo (com a mesma precisão com que PPC se prepara para cortar na saúde, na educação e na segurança social), introduza-os na caçarola, envolvendo-os no molho. Deixe cozer, em lume brando, durante cinco a seis minutos. Adicione cuidadosamente (como é timbre do nosso Presidente da República) as azeitonas e o limão de conserva e os coentros frescos picados. Tempere com sal e pimenta e sirva acompanhado por cuscuz.

 

João Madureira

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Domingo, 26 de Junho de 2011

Treze Contos do Mundo que Acabou - O Riso da Bruxa

 

 

 

 

Conto II

O riso da bruxa

(1ª parte)

                                                    

A névoa, peganhenta e molhada, lambuzava os amieiros resignados, enquanto espreguiçava a manhã pelas lajes dos fragaredos. Das mantas roxas e amarelas da urze e do tojo, rompiam giestas desgrenhadas, a gotejar, como quem chora baixinho. Os carvalhos, mal agasalhados das folhas que o Outono esquecera, dormiam gelados de engaranho. Ágil e desembaraçada só mesmo a água do rigueiro. Farta de limar pelos lameiros e de ensopar as raízes às merugens, corria agora num desatino de moça airosa, que só o deslumbre pintalgado das trutas conseguia, por momentos, remansar.


Embiocado na capucha de burel, o tio Laurentino catava os últimos grelos do nabal, enquanto as vacas se desenfastiavam do feno velho que o nevão as obrigara a ruminar, toda a semana, na escuridão da loja. Dias antes, a mulher finara-se, mais encarquilhada que a estopa em que a amortalharam, os olhos revirados ainda pelo amargor agoniado da última mézinha que a fizera engolir.


Bem se fintara ele nas famas milagreiras que levavam em corropio à Serradela mais povo que à missinha dos domingos. Lá gente, verdade se diga que encontrou no caminho, uns a pé outros de burro, e até deitados em padiolas ou sentados em carros de bois os que a própria natureza já não conseguia arrastar. E à porta da casa, Santo Deus?!

 


Esperou, numa despaciência de horas, e, quando finalmente lhe calhou a vez, já o aconchego do matabicho madrugado esmorecera, entre as lamúrias e os ais, no repetido desfiar dos rosários sofridos de cada qual.

 

Tinha a boca mais seca que uma tarde de Agosto. Nem uma sede de água, ninguém ali ofereceu nada, nem mesmo a cegarrega desdentada, que passou a manhã a tentar rilhar duas castanhas, perguntou se alguém era servido delas. Mas fome é de três dias, e lá cobrou ânimo para entrar no quartelho, onde o bafo das mil e uma maleitas anteriores se apegava ainda, em desespero, aos odores fermentados das ervas santas.

 

O colar de três voltas, de roda do queixo papudo, e duas bochechas rosadas, numa cara de lua cheia, fizeram-lhe abrir a boca e os olhos num esgar de assombro. É certo que nunca lhe tinha saído nenhuma às encruzilhadas, onde toda a gente sabia que dançavam disputando as trevas da noite aos morcegos, ou de dentro dos porvorinhos endiabrados, que nas tardes de Verão se divertiam a espalhar a palha centeia acabada de segar. Mas que as havia, havia, e eram secas, esguedelhadas e negras como os tições do lume morto, toda a vida ouvira dizer.

 

Uma risada mais aguçada e cortante que os cacos de um espelho quando quebra foi a saudação com que não contava e que o deixou ainda mais assarapantado.

 

- Parece que viu lobo?! Não se aflija homem, e puxe essa cadeira para si. Vossemecê é da onde?

 

- Venho da Lamagorda. Afiançaram-me que aqui achava remédio para a minha Quinhas que, a cada dia que passa, está mais sumida...

 

- Por certo é mal de inveja... Quantos anos tem ela?

 

- Anda em sessenta, que os faz pelo Entrudo.

 

- Isto, o melhor é eu vê-la aqui em casa. Arranje a trazê-la, mas o padre não o pode saber!

 

- Oh, valha-me Deus, estão os caminhos tão ruins e ela coitadinha mal dá passada... Mas, tendo que ser...

 

- Por ora, leve este sino saimão e prenda-lho com uma segurança na roupa de dentro. Ela que não saia à rua em três dias e que não entre ninguém em casa que lhe dê as boas horas. Pela manhã e à noite faça-a engolir uma golada deste xarope. E, em podendo, traga-ma cá.

 

 

Se era alento o que cuidava encontrar, pelo jeito, em vão gastara as solas. Ainda assim, embrulhou o frasco e o amuleto no lenço de assoar e meteu-os ao bolso do casaco, o mais fundo que pôde, não fosse o chumaço denunciar o que a língua se negava a contar. Também, pelo caminho que tomou, e demais àquela hora, mal seria que se cruzasse com alguém.

 

Mesmo em anos de grandes invernos, quando nem as presas continham as enxurradas, eram as poldras da lameira do Firmino a única certeza de atravessar o rio de barbas enxutas. Estavam ali desde os tempos do rei Vamba e, ainda que a água chegasse a beijar a croinha desgastada das pedras, havia entre elas espaço bastante para escoar as fúrias da corrente. Depois do rio, o carreirão, apertado entre paredes de pedra solta, trepava serra acima, seguindo à risca o traço que lhe marcavam os burros do Serafim Moleiro. Por estas bandas devia andar o Larufas com a vezeira das cabras. Mas não. Andaria já pelo povo a entregar os animais a quem lhos tinha confiado de manhã. Antes isso. Escusava de dar satisfações, que o cabreiro bem sabia que não era seu hábito gastar botas por aqueles sítios, ainda para mais arreado com o fatinho de ir ver a Deus. Havia de querer saber mais que a conta e, certo e sabido, segredo na boca dele era rastilho.

 

Embora o aroma das fornadas de pão lhe assegurasse a proximidade do povo, melhor que as memórias do maná a da terra prometida, ao tempo que lhe tornava mais penosa a larica que lhe grudava o ventre às costas, esperou que o breve cair da noite recatasse ainda mais o regresso envergonhado.

 

 

Subiu apressado as escaleiras, correu ansioso o ferrolho e, mal as botas rangeram as tábuas do sobrado, sentiu-se envolver pelo conforto do borralho ainda morno da lareira. Foi-se a ela, remexeu o rescaldo da cinza à cata de brasas, destapou o pote onde requentava o caldo e deixou-se abater, confortado, sobre o escano. Mas um suspiro gemebundo atravessou a penumbra da cozinha e dilacerou o aconchego que a alma começava apenas a gozar.

 

- És tu, Laurentino? Chega-te aqui onde a mim e lança-me um cibo de caldo numa malga. Ainda não descerrei os dentes. Estou com uma fraqueza que nem me tenho.

 

Todo o santo dia metida na cama, a ouvir os próprios gemidos e a remoer a magra esperança nas boas novas que o marido haveria de trazer, mais ainda se lhe afundaram aqueles olhos azuis que, em primaveras que a lembrança já embaciara, traziam pelo beicinho os moços de duas léguas em redor.

 

- Nem por isso venho muito agradado com o recado que me deu...

 

- Então...? Nem ao menos te soube dizer que mal é o meu?

 

 - Diz que tenho que te levar onde a ela, mas que o padre nem o pode sonhar...

 

- O quê, o senhor padre Joaquim? Coitado, não era homem de levar isso em conta, mas se ela faz questão, albarda-se a burra à vontade do dono... Da minha boca, ele só o saberá se mo procurar em confissão. E, o mais que pode é carregar-me nos padre-nossos.

 

- Agora faz por engolir o caldo e come um cibo de pão, a ver se arribas... Amanhã se verá...

 

A noite estava tão quieta como as demais, e, no que ia de Janeiro, a todas a geada prendara com rendas de carambelo. Pôs mais duas rachas no lume. Alentadas por dois bufos longos do fole, as poucas brasas depressa cobraram ânimo. Um rascalho seco fez o resto. As linguiças e as alheiras, em alinhada formatura à dependura pelos lareiros, herança uberosa dos dois recos que tinham perdido o chiadoiro pelo Santo André, rebrilharam à luz reavivada do lume novo. Na sertã de ferro, acomodada sobre quatro brasas puxadas fora do fogo, botou uma alheira a aquecer, enquanto o vinho da costa de Anelhe fazia rosairinhos de espuma ao cair do pipo na caneca de barro preto de Vilar. Depressa a alheira loira rechinava no unto quente e o tinto quebrava da friura, e foi com fome de lobo que se atirou ao manjar. Trazia a foice picada, como se costuma dizer, e, mesmo que a fome seja o melhor tempero, Pai da vida, aquelas alheiras que a sua Quinhas fazia eram o consolo das almas boas neste vale de lágrimas.

 

(continua)

 

 

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Sábado, 25 de Junho de 2011

A Missa do 7º Dia (10) - Por Luís Fernandes

 

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O pai da Aninhas não estava para guerras.


Ceou na co­zinha e saiu a caminho do "CENTRAL", onde estaria com os amigos, jogaria uma boa sueca ou um chincalhão, sobrecea-ria uma ou duas malgas de tripas, bem acompanhadas com um bom tinto dos Possacos ... e amanhã era outro dia.


A Aninhas nem saíra do quarto para vir cear. Chegou-lhe o «bijú» com marmelada que a Clara lhe fora chegar.

 

A senhora Mariana, na hora dos "entretantos"', con­versou ternamente com o "Morgadinho Alfredo", querendo saber «pormenores particulares» acerca dele, dizendo-lhe quanto lhe agradavam as suas visitas à Loja, e como já tinha notado, «desde há longa data», que ele andava pelo beicinho pela sua Aninhas.


- É ou não é verdade, senhor Morgado? - atirou-lhe, com um riso e ar malandrecos.


- A bem dizer...- gaguejou o rapaz.


- É ou não? - Interrompeu a mandona.


O Morgado atrapalhou-se mais. Mas a sogra dos seus sonhos confortou-o.


- Como vê, eu tenho sempre razão em tudo o que digo e em tudo o que faço. E até sei o que é bom para o Alfredo.


Mas vamos cear que se faz horas.


Alice, Traz a ceia! Segredou ao Alfredo:


Ela já sabia que íamos cear aqui.


A senhora Mariana ceou com um apetite que a raiva mal contida aguçava. O Morgado Feu, com o espírito bara­lhado pelas pressas da senhora Mariana, em mandá-lo vir de Monforte, e pelas variedades de assuntos tão inesperados, pelos sins e pelos nãos que tinha respondido, pareceu-lhe ter as sinetas de todas as capelas das Terras de Monforte a badalarem-lhe na cabeça e as cordas com que se tocavam, em vez de penduradas defronte das Capelas, estavam, mas era, embrulhadas no seu estômago.


A ceia ceada, a cozinha arrumada, a Loja fechada, as criadas empontadas, a senhora Mariana insistiu com o Alfredo para que bebesse mais um golinho daquela boa aguardente que só ela tinha.

 

- Ajudava à digestão! - aconselhou.


E quando achou o momento certo, lançou-lhe, em tom de desafio:


- Alfredo, você é ou não um homem a sério? Pois, atão, faça como lhe vou dizer.


E disse!


Subiram ao andar de cima. Atravessaram o corredor. Pararam em frente à porta do quarto da Aninhas. A mãe abriu a porta. Empurrou o Alfredo para dentro do quarto e ordenou-lhe:


-Siga!


Mariana fechou a porta, deu duas voltas à chave, trancando-a.


Foi deitar-se, descansada da vida, pois sabia que só na manhã seguinte é que iria destrancar a porta do quarto da Aninhas.

 

XI


Na segunda quarta-feira da romaria, pela noitinha, dez dias após a partida para Itália, Demar regressou à cidade…

 

(continua no próximo sábado)

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XV Encontro de Blogues e Fotógafos Lumbudus

 S.Caetano

 

E aí estão, blogues e fotógrafos com mais um encontro marcado, desta vez o encontro de Verão que a blogosfera da região e os fotógrafos Lumbudus vão levar a efeito, e que tal como tem acontecido nos encontros de Verão anteriores,  é passado na totalidade ao ar livre em contacto com aquilo que de melhor temos – a natureza – as montanhas, as fontes, a floresta e um céu que se espera azul ou ligeiramente nublado com incursões a algumas das nossas aldeias. Encontros de verão onde se privilegia o contacto com o mundo rural e as suas populações de gente simples mas verdadeira e com toda a nobreza de carregarem com eles os valores e os saberes ancestrais do verdadeiro povo transmontano.

 

 Soutelinho da Raia

Encontros que ao longo das últimas edições cada vez têm mais adeptos, não só dos blogers e fotógrafos participantes da região (Chaves, Valpaços, Montalegre e Boticas) mas também de outros locais e associações que se têm associado a este evento, como a Tamagani, o Centro de Desenvolvimento Rural galego - CDR Portas Abertas ou a Associação de Fotógrafos  do Porto – Portografia, que nos brindam sempre com a presença de alguns representantes.

 

 Vista do Larouco (com neve)

Encontros onde acontecem também sempre momentos culturais que vão desde o encontro com a nossa história, à descoberta do nosso património rural, arquitectónico  rural tradicional e religioso e património natural mas também momentos musicais e literários com lançamentos de livros, tal como já aconteceu em Segirei com os escritores José Carlos Barros e Gil Santos e agora se vai repetir com o lançamento de 4 livros, de 4 autores.

 

 Calvão

Mas é sobretudo no convívio salutar que sempre existiu entre estas duas comunidades (blogers e fotógrafos), amigos seguidores e amantes da fotografia (fotógrafos ou não), a troca de opiniões e conhecimentos, que estes encontros tem encontrado o seu ponto alto, sobretudo quando à mesa começam a desfilar as iguarias da nossa gastronomia.

 

 

 Castelões

 

 

Também na história dos encontros se tem tentado abranger um pouco do território da nossa região. De Segirei (o primeiro encontro ao ar livre), a Águas Frias (Castelo de Monforte) ou aos mais recentes de Valpaços e Vilardevós (Galiza – este à margem da contagem oficial, pois o oficial ainda está para acontecer), estando previsto que em próximos encontros se incluam outros concelhos vizinhos. Este vai acontecer em terras flavienses com ares barrosões com uma manhã preenchida pelo S. Caetano, Soutelinho da Raia sem esquecer um olhar ao Larouco, Calvão e Castelões onde os fotógrafos poderão deliciar os seus olhares e dar largas aos seis cliques e com almoço marcado para o Santuário da Nossa Senhora das Necessidades ou Srª do Engaranho, que a sua poça dos milagres à qual Miguel Torga não dispensava uma visitas e que o inspirou em alguns dos seus escritos. Pois é na Nossa Senhora das Necessidades que também as necessidades das barriguinhas “esfomeadas” se vão lá saciar e repousar durante toda a tarde, gozando da frescura das suas sobras e dos momentos culturais e recreativos previstos para a tarde.

 

Fica o programa para os interessados:

 

 

 

 

 

 

 

XV ENCONTRO DE BLOGUES E FOTÓGRAFOS LUMBUDUS

Dia 9 de Julho de 2011

PROGRAMA

 

8H45 – Concentração no Largo do Anjo

9H00 – Partida

9H30 - INÍCIO DO PASSEIO/CONCURSO FOTOGRÁFICO

9H30 – S.Caetano

10H15 – Soutelinho da Raia

11H00 – Um olhar sobre o Larouco

11H30 – Calvão

12H15 – Castelões

13H00 – Almoço no Santuário da Nª Srª das Necessidades (Srª do Engaranho)

15H00 – Feira do Livro

            - Lançamento do livro “Na Demanda do Ideal” de Armando Sena.

            - Lançamento do livro “Munditações” de Carlos Silva.

            - Lançamento do livro “ Zerbadas em Chaves” de Gil Santos.

- Lançamento do livro “Crónica Triste de Névoa” de João Madureira.

16H00 – Entrega de Prémios do Concurso de Fotografia do XIV Encontro de Blogues e Fotógrafos.

16H30 – Tarde Recreativa

19H00 – Caldo Verde

 

Informações e Inscrições para este encontro deverão ser feitas até dia 2 de Julho (Sábado) via Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura, através do seu mail  lumbudus@gmail.com

 

 

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Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

Da pedrada


Anda cá Flavinha


Não se atira com pedras aos outros…


(…)


E por não terem ganho, ganharam a derrota e deixaram-te ganhar a ti minha palerminha, nem assim te chega, já começas … Bem


(…)


Óooooooo Louvado seja Deus  e a minha vida a andar para trás, fizeste um  lindo serviço “esmoucaste ”o rapaz quero ver quem atura agora a avó dele, tem a língua pouco comprida e a mania que o neto é algum menino de coro, anda cá meu filho não chores “escupo-te” na ferida que já  te passa , anda cá que foi  sem querer, ó raios partam o diabo da canalha…


(…)


Ó  rapaz , não foi nada por querer, a Flavinha é muito sossegada só estava a brincar, também não é preciso dizeres à tua avó, os meninos queixinhas não são nada bonitos,


(…)


Ó minha Senhora já sei que a Sra… É muito importante mas são crianças … O seu filho se se lembrar também compreende, a minha neta tem educação sim senhora e pontaria.


(…)


Ó minha Senhora já sei que o seu filho é… Mas também acredito que a ser assim vai compreender que crianças são crianças e nem sempre a gente tem mão nelas…


(…)


E eu ralada, o seu menino tem a marca da minha  neta ela já disse que foi sem querer, já lhe pedi  desculpas, veja lá se lhe saem as tripas ao rapaz…


(…)


Vamos embora anda Flavinha que daqui não há-de vir boa coisa… Também pró que te deu.


Que feitios…

 

Isabel  Seixas

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Sexta-feira, 24 de Junho de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

COXAS DE RÃ

 

A Primavera estava maravilhosa naquele ano. Contrariando o ditado: em Maio comem-se as cerejas ao borralho, apresentava-se quente e límpida. O conselho de anciãos do Carregal, órgão de poder nas aldeias comunitárias, tinha decidido que era tempo de limpar a poça do povo no Prado.


A poça era uma pequena lagoa, lamacenta, situada na pradaria do centro da aldeia, que servia para a rega comunitária dos campos vizinhos.


Era normal que, no fim do Inverno, a poça se encontrasse empanturrada dos vestígios da dureza dos Invernos de antigamente. Os nevões esbarrondavam as bordas e atulhavam os fundos, retirando-lhe capacidade de armazenamento. Havia pois que unir esforços e, a bem de todos, limpá-la.


Manhã cedo, juntaram-se os homens da aldeia, um por cada casa, e lá foram. Entre eles, representando a casa do Ti Moreiras, seguia o Manel Cabeça Grande, solteirão na casa dos trinta. Em representação da casa do Ti Zé Porto o Arlindo, rapaz na frescura dos seus vinte anos.


O Arlindo, irmão do Alpoim, era como ele das felpas do diabo. Eu penso que tinha umas contas velhas a ajustar com o Manel por causa duma cachopa de Moreiras, a Alda, que lhes consumia as horas dos Domingos. A moça parece que gostava de provar simultaneamente a virilidade do mais novo e a experiência do mais velho e isso não resultava em grandes amores entre eles. Era fresca a moçoila! Como ninguém gosta de partilhar certas intimidades, os ares andavam azedos.


Na poça, uns cavavam e faziam montes com o lodo e as ervas. Outros, com forquilhas e pás, arrimavam o entulho para fora da poça. Outros, ainda, enchiam carros de bois, aparelhados com altos ladranhos, que acarretavam o estrume para um campo vizinho. Porém, o trabalho não rendia que se visse, não porque a poça fosse muito grande, mas porque estava bastante suja e o lodo pesava e, como ninguém bulia directamente para si, o trabalho não se via. Assim, pelas onze horas, ainda ia a meio e o sol já castigava.


Apesar da agitação, milhares de rãs, no frenesim do acasalamento, não paravam de coaxar e, sempre que alguma se atravessava no caminho da enxada, perdia a vida. Escachavam-lhe as coxas para as fritar com ovos e fazer uma merenda no fim do trabalho.


Ora, os nossos protagonistas trabalhavam lado a lado. O Manel, com a enxada, ripava as ervas do fundo, o Arlindo, com a forquilha, lançava-as borda fora. Um e outro eram de todos, os que melhor se colocavam para a caça à rã. De facto, já tinham uma boa sertanhada delas. O diabo foi quando ambos se fizeram ao mesmo bicho. O Manuel, tirando partido da sua posição mais favorável, abarbatou quase em simultâneo com o companheiro um exemplar de respeito. Discutiram as honras do campeão e quando parecia unânime a propriedade, o Arlindo, com mau perder, não esteve com meias medidas, empalou o Manel pela barriga com as ganchas. O homem, quando se sentiu perfurado pelos quatro dentes da ferramenta, ou porque a dor fosse insuportável ou porque o susto o tralhásse, caiu redondo no lodo. O aparelho penetrou tão fundo no ventre do desgraçado que este, deitado de costas, mais parecia uma nau de mastro eriçado.


O Arlindo desfazia-se em gritos e lamentos!..


O Manel, com medo das represálias, aproveitou a confusão e pôs-se ao fresco. O ferido, à padiola, foi retirado da poça em estado lastimável. Arrancado o garfo da sua barriga, o sangue jorrava em repuxos pelos quatro furos deixados pelos dentes da forquilha. Num dos bueiros quase se via a tripa grossa do infeliz!


Foi levado de urgência ao hospital de Chaves, enfaixado em tiras de lençol rasgado. Devidamente tratado, recuperou totalmente.


O Manel desapareceu de vez e o Arlindo não apresentou queixa na Guarda do Vidago.

 

Quem ficou a perder foi a Alda que por via das coxas de rã, passou a comer uma única refeição ao Domingo!..

 

Gil Santos

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Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

O Homem sem Memória (55) - Por João Madureira

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

Ficção

 

55 - A Dona Rosa passou um mês banhada em lágrimas. Chorou como uma Madalena arrependida quando viu o filho entrar-lhe portas adentro entre os vivas do Virtudes, o latir do Leão e o fumo do cigarro do guarda Ferreira. Depois continuou a chorar na hora da ceia. E chorou quando o viu deitar-se. Chorou quando serviu o mata-bicho ao marido e o pequeno-almoço ao José. Chorou quando o contemplou a ajudar à missa no domingo, especialmente quando o José leu a primeira epístola de S. Paulo aos Coríntios. E ficou em pranto quando, com uma voz angelical, quase perversa, o José fez ecoar pelo espaço das abóbadas da igreja o capítulo 13 da epístola onde Paulo fala grandiosamente sobre o amor: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que retine ou como o sino que vibra. (Pausa circunspecta e olhar para o infinito do José, choro miudinho da Dona Rosa, impassibilidade do Padre Zé, fungadela do guarda Ferreira, soluço do Virtudes, suspiro da irmã do Alcino, silêncio prudente do resto da assembleia de Deus, flato aerofágico e eructação simultânea do comerciante Artur, latido do Leão fora de portas da igreja.) E ainda que tivesse o dom da profecia, e entendesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. (Impassibilidade do Padre Zé, pausa ponderada e olhar para o infinito do José, choro atrapalhado da Dona Rosa, suspiro do Virtudes, suspiro da irmã do Celestino, silêncio prudente da assembleia de Deus, latido fora de portas da igreja do Leão, eructação aerofágica e flato simultâneo do comerciante Artur.) E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. (Pausa reflectida e contida do José, flato aerofágico e eructação simultânea do comerciante Artur, eructação aerofágica e flato simultâneo do comerciante Artur, olhos no tecto da direcção de Cristo ressuscitado do José, pranto da Dona Rosa, impassibilidade do Padre Zé, fundagela para o lenço do guarda Ferreira, soluço do Virtudes, latido do Leão fora de portas da igreja.) O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é egoísta, não trata com ligeireza, não se envaidece, não se porta com indecência, (suspiro da irmã do Alcino, impassibilidade do padre Zé) não busca os seus interesses, não se abespinha, não faz juízos de valor, não folga com a injustiça, mas rejubila com a verdade. (Tosse contida do presidente da câmara.)Tudo tolera, tudo crê, tudo espera e tudo aguenta. (Três suspiros da irmã do Alcino e um suspiro do Virtudes, impassibilidade do

 

Padre Zé.) O Amor nunca falha. (Impassibilidade do Padre Zé, olhar do José pregado no presidente da Câmara, choro da Dona Rosa, enxugar de olhos com o lenço por parte do guarda Ferreira, suspiro do Virtudes, gemido da irmã do Alcino, eructação aerofágica e flato simultâneo do comerciante Artur, latido fora de portas da igreja do Leão.) Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, (choro da Dona Rosa), falava como menino, (pranto da Dona Rosa), sentia como menino, (carpido da Dona Rosa), discorria como menino, (lhanto da Dona Rosa), mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino (limpar de lágrimas com o lenço por parte do Guarda Ferreira). Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor. (Pausa final do José, olhar interessado do Padre Zé, sorriso no rosto quase sempre contristado do guarda Ferreira, lágrimas e sorriso aberto por parte da Dona Rosa, enorme e definitivo suspiro da irmã do Alcino, sorriso e lágrimas no rosto do Virtudes, latido do Leão fora de portas da igreja, flato aerofágico e eructação simultânea do comerciante Artur, coro do Carlos, do Alcino, do Luís e do Rui: porco; voz do Padre Zé desde o púlpito: ele é doente; voz da irmã do Alcino: que meta uma rolha; sorrisos silenciosos da maioria da assembleia de Deus, de Deus e de um mafarrico encarregue da espionagem e partidário do humor primário.)

 

 

56 – José regressou ao seminário sem ter visto a Luisinha que estava de férias na Póvoa na companhia da família. O seu pai, o presidente da Câmara, por vezes dava-se ...

 

(continua)

 

 

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Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

O Professor Carvalho era dos lados de Bragança e próximo do fim de carreira veio parar ao Liceu Nacional de Chaves.


De porte altivo e austero, no quotidiano docente vestia invariavelmente fato, onde dificilmente se vislumbravam rugas, a contrastar com o rosto e as mãos compridas, na qual eram visíveis os sulcos do tempo. As camisas eram engomadas, de uma alvura semelhante aos cumes das altas montanhas no inverno e no final das mangas entreviam-se discretos botões de punho. Acompanhava a camisa, uma camisola de lã com mangas ou sem elas, de acordo com as estações. Usava gravatas lisas e no outono e inverno era inseparável de uma gabardina escura e um pesado guarda-chuva. Cobria a cabeça e o cabelo curto, no qual já se viam bastas cãs, com um chapéu “borsalino”.

 


Era distante no trato e de costumes rígidos.


Não surpreendia que fosse professor de língua alemã.


Dizia-se dele, nos primeiros tempos, que exigia dos alunos o uso obrigatório de gravata. Certo é, que os contínuos, numa época, apenas permitiam o acesso aos estudantes engravatados, o que colocou em moda as gravatas com elástico, dinamizou as lojas de vestuário da cidade e puxou pela imaginação dos alunos que inventaram diversas formas de substituir as ditas …


Na aula e como professor de línguas estrangeiras era diferente dos outros.


Após as primeiras aulas, as que lhes seguiam, quase todas elas decorriam sob o domínio, na maior parte do tempo, da língua que ensinasse, no que a mim se refere, a língua alemã.


Dos iniciais senhores e meninas - a turma era mista -, converteu-nos em “herren” e “frauleins”, sem naturalização ou passaporte.


Tínhamos-lhe mais que respeito e alguns de nós, autêntico pavor; um destes, já homem feito, em comparação com grande parte da turma - sendo eu, dos mais jovens -, quando chegava o momento de ler o texto diário ou comentá-lo, sumia-se literalmente sob o tampo da carteira na tentativa vã de alcançar a invisibilidade, que um sonoro “Herr…”, fazia regressar à aula e tremer dos pés à cabeça.

 


Tanto “respeito” lhe tinha, que, apesar de ser bom aluno, receava até faltar às aulas… Apenas faltei à última.


A derradeira aula do ano, a primeira do período da tarde, mais ou menos por esta data, princípios de Verão, coincidia com um jogo de andebol do Liceu contra a Escola Comercial e Industrial Dr. Júlio Martins.


Jogos de uma rivalidade extrema e nos quais, quase sempre a Escola levava a melhor, embora nas minhas contas, tal não sucedesse, pois contava uma vitória no único jogo oficial que tivera até ali… ainda que fosse por falta de comparência do adversário.


No entanto, é certo que havia a tradição de o Liceu ser melhor em voleibol e a Escola em andebol.


Ora, sendo a última aula e tendo a justificação de jogar andebol, nem pensei duas vezes…


A poucos minutos da aula, descia as escadas do antigo Mercado Municipal, com o saco de embarcadiço a tiracolo, que usava para transportar as sapatilhas e o equipamento, a caminho da Escola, quando deparo a subir o Professor Carvalho.

 

Foto de Dinis Ponteira


Por instantes, pensei em voltar atrás.


Mas, que diabo…! Era a última aula e ia jogar em representação do Liceu…!


Retomei o passo e quando passamos um pelo outro, eu fiz tudo para mostrar o saco de lona como a justificar o meu procedimento. Falar-lhe… hoje creio, que por certo ele aceitaria falar comigo e compreenderia… Mas, então…


O que se passou a seguir foi estranho.


O Professor Carvalho, perante os meus esforços em evidenciar o saco, sorriu e posso dizer que eram raras as vezes que sorria, e pareceu-me que naquele momento fugaz entre os dois, correu célere todo o ano e no final surgiu um entendimento cordial … Para ele eu fora um aluno aplicado e da minha parte, não só o compreendera, como passara a admirá-lo como um excelente professor.


Quanto ao jogo, esqueci o resultado… mas posso dizer que joguei bem.


Mais tarde vim a saber, quando frequentava a Universidade, que fora colega do Professor Paulo Quintela, e como ele, pertencera à oposição ao regime de Salazar.


Não estranhei, por que no sexto ou sétimo ano, incentivado pela professora de história, assisti a um colóquio realizado à noite, na Associação Comercial de Chaves, na Rua de Santo António, sobre o IV Plano de Fomento do governo do Professor Marcelo Caetano.


Entre a assistência encontravam-se os ilustres da cidade e recordo que um dos oradores convidados era o Rogério Reis, que costumava publicar artigos de carácter regional no jornal “O Primeiro de Janeiro”, que lia.


Não conhecia o Professor Carvalho, nem pensava poder tê-lo como professor.


Após os oradores oficiais ou convidados, seguiram-se várias intervenções.


Acabara de falar o Doutor Mário Carneiro, quando do meio da assistência, uma pessoa comentou em voz alta: “Não podiam faltar as águas miraculosas do Doutor Mário Carneiro, para remédio de todos os males…!”


De imediato, o irmão, Doutor Francisco Carneiro, replicou: “Não podia faltar a costumada ironia do Doutor Carvalho … faço votos que não necessite das águas das Termas de Chaves!”


Foi o mais importante que retenho daquele colóquio …!

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:47
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Terça-feira, 21 de Junho de 2011

Pedra de Toque - O Jardim Público

 

O JARDIM PÚBLICO

 

 

         As noites de verão na cidade de Chaves tinham o seu principal palco no frondoso, florido e verdejante Jardim Público.

 

         Logo que o calor começava a apertar, as pessoas escolhiam-no para saborear a frescura que exala e para aí se deslocavam em momentos de lazer, passeando com a família e amigos.

 


 

         O verde da relva, as flores dos canteiros, os peixes coloridos da taça, os amieiros chorando para o velho Tâmega, tudo contribuía para a criação de um ambiente simpático, ameno e convidativo.

 

         O Sr. Dias, mais conhecido por Fanhonha, dada a sua fala anasalada, animava as noites, passando discos na sua cabine sonora, divulgando sucessos da época nas vozes apaixonadas de Tristão da Silva, Francisco José, Tony de Matos, entre outros.

 

         Intercaladamente o locutor de serviço, com a pronúncia que muito nos orgulha, lia curiosos anúncios.

 

 

         Aqui vão dois que a memória ainda reteve à guisa de exemplo.

 

         “Beba Bitafruta, até as bolhas sabem a fruta”

 

         “Lancia, pontualidade inglesa num relógio da Suíça. Se o seu relógio não funciona, lance-o fora e compre um Lancia”.

 

         Vinha depois o disco com música romântica, precedido de dedicatória à menina de vestido branco que passeava na ala central do jardim.

 

         Criava-se uma onda de mistério e os olhares trocavam-se na procura da feliz menina e do pretenso conquistador que pagava um escudo pela dedicatória.

 

         As avós e as mães sentadas nos bancos, com um pequeno xaile sobre os joelhos para proteger da aragem, vigiavam a prol que calcorreava o picadeiro, como então lhe chamávamos.

 

         Os mais miúdos descobriam todos os esconderijos do jardim, brincando, entusiasticamente, ao Bata-Fica e aos Policias e Ladrões.

 

         Quando apertava a sede, a Casa Portuguesa servindo refrigerantes (laranjadas) e outras bebidas, saciava os que a procuravam.

 

         Cerca das onze, o locutor na cabine anunciava o fim da emissão e despedia-se dos ouvintes até à noite seguinte.

 

 

 

Montagem sobre foto original de Dinis Ponteira

         Devagar, aos poucos, as pessoas debandavam.

 

         Os que atravessavam a velha Ponte Romana, gozavam o privilégio de escutar o som dos ralos e o coaxar das rãs, que mais pareciam uma saudação para uma noite feliz.

 

         Para nós adolescentes, esperava-nos em casa o descanso e o sono que embalávamos no sorriso enigmático e feliz da menina do vestido branco.

 

         António Roque

 

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Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

Quem conta um ponto... A Vontade de Dizer Não

 

A vontade de dizer não

 

 

Os meus amigos andam intrigados por eu desconfiar instintivamente das ideologias. Por vezes isso deixa-os perplexos, perguntando-se, e perguntando-me, no que é que eu acredito realmente, qual é a minha visão do mundo. O R., provocador como sempre, diz que eu sou o tipo de pessoa que passa após os primeiros 15 minutos num restaurante a debater os méritos relativos do peixe em relação à carne.

 

Mas a verdade é que sou mais do estilo de Tony Campolo, um conhecido ministro protestante branco dos EUA, que gosta de abanar os seus ouvintes com uma clemência confortável. Num sermão anunciou: “Há três coisas que hoje gostaria de dizer. Primeira: Enquanto vocês dormiam ontem à noite, trinta mil crianças morreram de fome ou de doenças relacionadas com má nutrição. Segunda: A maior parte de vocês está a cagar-se para isso. Terceira: O pior é que ficaram mais chocados por eu ter usado a palavra «cagar» do que com o facto de trinta mil crianças terem morrido ontem à noite.”

 

Apesar disso, todas as semanas as pessoas de todos os credos, religiões e ideologias continuam a rezar, e a pregar, nos santuários e nas televisões, completamente esquecidos destes factos. De novo volto a Campolo: “ Deus tem de estar farto desta merda.”

 

Os triunfadores do 5 de Junho vivem e morrem pela presunção de que são os génios do bem que triunfaram definitivamente sobre os anjos do mal. Pensam que tudo o que fizeram, e tudo o que aconteceu, foi intencional e brilhante. Depois de todo o idealismo serôdio do movimento “laranja”, e depois dos dias inaugurais da indigitação, o PSD e o CDS vão ter de aceitar a dura evidência de que governar é muito diferente de fazer campanha, é um passar da poesia à prosa, da celebração e babujaria à batalha e ao compromisso ou, por vezes, à derrota. E quando este governo de direita falhar, o meu receio é que as pessoas do meu país tenham medo de mais uma vez ter esperança de acreditar de novo. O perigo da desilusão é imenso porque os problemas são enormes.

 

O meu amigo R., vendo-me tão amargurado, argumentou, em abono da humanidade, que os melhores espécimes foram sempre maltratados ou assassinados: Pitágoras foi morto por causa de um diagrama, Séneca teve de cortar os pulsos, além de todos os santos e professores que se tornaram mártires.

 

Mas não se ficou por aí. Resolveu estereotipar-me: “De repente dei conta de uma tua qualidade. És do contra, possuis um sentimento de discórdia dentro de ti. Não deslizas ligeiramente pelas coisas. Apenas dás essa impressão.”

 

Esta foi mais uma das muitas vezes que alguém disse alguma coisa que posso considerar como verdadeira a meu respeito. De facto, o que ele disse é certo, possuo efectivamente um sentimento de oposição dentro de mim e um enorme desejo de oferecer resistência e de dizer “não”. É instintivo. Como há por aí tanta gente a dizer sim, a minha vontade é dizer não.

 

O meu amigo R. contou-me que, na sua perspectiva, os partidos políticos têm a qualidade de uma antiga, e famosa, escola de gatunos de Roma que era tão cara que os alunos assinavam um contrato comprometendo-se a pagar à instituição metade do que ganhassem durante cinco anos depois de se formarem.

 

Eu retorqui, por desfastio: “Olhando para ti, sou capaz de dizer que na nossa espécie somos todos muito semelhantes.” Ele concluiu: “Mas, apesar disso, as diferenças são agradáveis.”

 

Por fim lembrei-me de alguém amigo e conclui que, afinal, tinha acabado por descobrir, com amargura, como é pequena a vontade que as pessoas revelam em verem alguém ter êxito num projecto especial. E do consolo que algumas delas sentem quando o que é insignificante prevalece e todos os outros esforços vão por água abaixo. Isto sempre debaixo do manto diáfano da hipócrita camaradagem.

 

O R. tem razão, são a desgraça e o lixo o que dá unidade ao mundo. Supostamente, apenas a diversão torna esta perspectiva tolerável. E disse uma coisa inquietante: “Se pudéssemos transformar em lodo as falsidades corriqueiras de um dia, estrangularíamos o Tâmega, fazendo com que deixasse de correr.

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Domingo, 19 de Junho de 2011

Treze Contos do Mundo que Acabou - O Tição de Lume Eterno

 

“É por isso que subo aos outeiros e grito:

-Vinde ver um mundo a acabar! ”

 

 

                                                                      António Lourenço Fontes

                                                                                  “Etnografia Transmontana – volume I

                                                                                    Crenças e tradições de Barroso”

 

I


Tição de lume eterno


        

- Salve-o Deus, senhor Agostinho! Então, está rijo? Como é que não há-de estar?! Pois se vossemecê quase é do tempo em que o patriarca Nóe encafuou na Arca toda a espécie de bicho vivente, ainda não será à conta deste dilúvio que os ossos se lhe vão tolher!


- Viva, senhor abade! Lá quanto a esse patriarca, ou ao que tinha na arca, não lhe posso garantir nada, que o não sei, mas se quer que lhe diga, em dias da vida, não tenho ideia de um Inverno assim! Costuma-se a dizer, água, tanta que chegue à barriga de um sapo e que os cães a bebam de pé, mas deste jeito, quando tal, se a gente se descuida até as fragas se afogam... Chamaram-no por via da Glorinha, foi? Coitada, em vida sempre se arranjou consoante pôde, nunca quis ser carrego para ninguém, agora, se chegar a finar-se, com esta invernia, vai ser o cabo dos trabalhos para lhe dar sepultura... O que a gente é, e como se chega a pôr …

 


O Agostinho Ranha-Lobos, na teimosa persistência dos seus oitenta e muitos anos, encapuçado na croça velha, onde tantos outros invernos tinham resvalado já para o olvido, arrimava-se ao cabo do sacho, à falta de melhor ofício a dar às mãos, tomadas do engaranho daquela chuva gélida que há semanas não dava ares de querer despedir. Com um tempo daqueles só mesmo o sentido sagrado do dever levava alguém a desafiar o desamparo dos caminhos da Mourela. E se a obrigação do velho era desenfastiar a diário as duas vacas no único lameiro que tinha, já o padre Afonso se não pôde furtar ao compromisso de levar o último consolo sacramental à tia Glória, a quem, pelos vistos, se estavam a acabar os dias que Deus lhe destinara. O padre baixou o vidro, apesar do rumo incerto com que os rodopios do vento animavam as grossas bátegas a entrar pelo carro adentro, porque não quis deixar de saudar aquele velho que incutia respeito, plantado estoicamente no meio de um mundo que ameaçava afundar-se, debaixo de um céu que desabava. O besourar pigarreiro do motor do Volkswagen decerto tornaria a conversa mais esforçada, mas o ouvido amestrado do velho estava afeito a catar tão somente os sons que lhe interessavam, mesmo no meio daqueles caóticos ensaios das partituras cósmicas.


- A senhora Glorinha andará pela sua idade, para mais, que não para menos?!...


- É da minha criação, sim senhor, somos ambos nascidos e criados aqui no povo. Em rapariga esteve uns anos para fora, estou em crer que lá para o Minho a servir em casa de um cónego. Depois, não sei por que artes, voltou, com menos louçania e uma mão atrás e outra à frente, só com a roupa do corpo, metia pena… Mas, quando tal, por cá arranjou quem lhe desse uma vida de trabalhos e um rancho de filhos. Já foram quase todos na frente dela. Isto em soando a hora de cada qual, o remédio é morrer...


- Muito me conta, mas se me dá licença, vou-me chegando, que a pobrezinha, pelo que me disseram, já não terá muito tempo e não quero que me pese na consciência o chegar atrasado. Estimei vê-lo com saúde, até outro dia.


- Vá com Deus, mas não adianta correr, que o tempo é o que a gente faz com ele, e é só disso que havemos de prestar contas...


Mal deu entrada no povo, acudiu a abrir-lhe a porta do carro a Laurinda do Perna-Alta, que conforme tirou a capa de burel para o proteger ficou mais ensopada que uma pita no alguidar da depena:


- Cubra-se, senhor abade, que o tempo não vai de modas!


- Deixa rapariga, cobre tu a cabeça que eu trago sombreiro comigo. Olha como te puseste, sujeita a apanhares uma pneumonia... Então, e que tal está a senhora Glória? Percebe-se o que diz, ou já não diz coisa com coisa?


- A voz está-lhe um cibo sumida, mas se a gente lhe chegar o ouvido ainda se percebe tudo. Meteu-se-lhe uma cisma, que não quer morrer em pecado, que fossem pelo senhor abade, que não queria entrar no outro mundo sem botar cá para fora aquele carrego...


- Deus sabe se não terá sido por via disso que a não deixou apagar-se ainda... Não há-de ser coisa tamanha que a misericórdia divina não possa perdoar.

 


Dentro, no quarto de tecto atarracado, o ar escorregava húmido e bafiento pelas paredes e só a chama mortiça da candeia testemunhava ainda a presença da vida. Quando o deixaram a sós com a moribunda, o padre Afonso chegou-se o mais que pôde à beira dela e tacteou-lhe a algidez dos dedos, a aquentar-lhe os derradeiros ânimos da agonia. Assim que sentiu o calor daquelas mãos papudas, toda ela estremeceu, e arrancou lá do fundo um suspiro longo, como se lhe tivessem destapado de repente a caixa aferrolhada das lembranças que sempre quisera abafar. E falou.


Ao sair, o padre Afonso estava lívido, o lenço branco amarrotado na mão direita a enxugar os suores que da papada do queixo se insinuavam nervosos sob a alvura circular do cabeção. O vermelhar dos olhos, ainda apavorados, denunciava as lágrimas incontinentes que os dedos tinham esmagado antes que os soluços as bebessem. Santo Nome de Deus, o sopro da trombeta apocalíptica não o teria transtornado mais! Afinal, aquele pecado velho, que toda a vida corroera a alma que acabava de devolver ao Criador, era agora seu inquilino no segredo da confissão, e por mais que o coração sufocado lhe pedisse o refrigério de um desabafo, só mesmo o próprio Deus podia operar o apagamento do tição de lume eterno que a mãe lhe confiara antes de iniciar a derradeira viagem. Mãe! O nome que a ninguém nunca chamara e que agora, por bem alto que o gritasse, já não teria resposta alguma… A senhora Glorinha, que Deus agora tinha, tivera-o a ele havia mais de sessenta anos, sem que nem ele nem o mundo dali alguma vez o suspeitassem.

 

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