12 anos
Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Desensarilhado o braço do penduricalho, onde permaneceu todo o Agosto até ontem, recolocado o úmero na escápula - creio que será assim -, pelas mãos hábeis do Doutor Peixoto, que, nos breves momentos de conversa pessoal, alheia ao motivo profissional, e que a consulta médica permite, evocou a sua condição de antigo dirigente académico e o desprazer actual que lhe traz a política - … deixe lá doutor, sobram políticos, enquanto médicos competentes e sabedores, nunca serão demais -, regresso a estas crónicas e que “bó bento” me acompanhe.


Claro que, impõe-se um agradecimento a todos os que procuraram inteirar-se do meu estado e me desejaram melhoras, e aqui tenho que falar nos amigos, na família e nos meus irmãos, nomeadamente a minha irmã Cristina, que durante este tempo foi o meu braço direito e (…) pelo afecto e preocupação que evidenciou neste transe.    


Quanto aos leitores, ignoro se notaram a minha ausência, mas creio que o Fernando Ribeiro e os outros colaboradores deste blogue, supriram com a sua conhecida arte e engenho os meus fracos préstimos das quartas-feiras.


Pois é, de braço ao peito, como Napoleão Bonaparte, embora por outros motivos; creio que no caso do insigne militar tal gesto era para melhor salvaguardar a carteira, isto é o Império, que por fim os nossos mais velhos aliados lhe surripiaram, sem esquecer a nossa “humilde” ajuda na Guerra Peninsular e na recuperação da independência perdida.


E como Chaves está sempre presente nos momentos supremos de glória nacional aí temos a reconquista da então praça-forte aos franciús jacobinos em 25 de Março de 1809, pelo General Silveira. Daí a presença do aguerrido caudilho na toponímia e estatuária local.


E com as mãos na massa, se é de lembrar o britânico auxílio, também é não esquecer a execução do Coronel Freire de Andrade, por ordens do Marechal Beresford e que entre outros factos conduziriam à revolução do Porto, em 1820.


Conhecida a roubalheira que as tropas de Soult, Junot e Massena fizeram por todo o país, as atrocidades praticadas pelo Maneta, apodo do general Loison, surpreende ainda o apreço que os nossos emigrantes nutrem pela língua de Voltaire …

 


O braço entrapado, entre muitas limitações, impediu a praia, o mar - estar junto a ele, aspirar o cheiro, na vazante, sem poder nadar, era tortura demais - , que apenas revivi nas leituras dos artigos de António Sousa Homem, na revista dominical do Correio da Manhã, que apenas por isso adquiro, na nossa afeição comum pelo: Moledo, o Carreço, o Forte do Cão, a Serra d`Arga, o estuário do Minho, o Forte da Ínsua, o vizinho monte de Santa Tecla … sítios que compartimos também com Rentes de Carvalho, autor do qual conhecíamos algumas obras: Montedor, o Rebate, ainda editados pela Editora Prelo; e que agora aproveitamos para ler os seus mais recentes livros, editados pela Quetzal: La coca e Os lindos braços da Júlia da Farmácia, este uma colectânea de contos.


Como se vê, nem tudo foram desvantagens.


Usar a mão esquerda, duma forma que consegui espantar a minha irmã, pela perícia que ia demonstrando nos sucessivos actos do quotidiano.


-“ Se fosse eu, nem longe da metade fazia …” Animava-me.


- Estou a caminho de ser ambidextro … Retorquia-lhe com sorna.


Sabendo que dextra e o vocábulo latino de semelhante designação significa mão direita e sinistra e o mesmo vocábulo de idêntica proveniência quer dizer mão esquerda, saberiam dizer-me porque se diz: ambidextro ou ambidestro e não “ambissinistro”?


E a razão pela qual destreza significa: “… qualidade de destro; agilidade; aptidão; habilidade; arte …”


E sinistro: “ … esquerdo; pressago; funesto; ameaçador; desgraçado …”


Também nisto haverá política …                   

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publicado por Fer.Ribeiro às 13:56
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(In)dependência saboreada de imagens trocadas

 

Hoje apetece-me estar comodamente só. Não sei se pela chuva ter chegado, se pelo dia ter ficado estranhamente escuro. Convém arranjar sempre uma desculpa para estes estados que nos invadem e se entranham, momentos em que procuro a poesia para nela encontrar algum conforto. Parto para a estante, percorro-a de ponta a ponta na esperança de não encontrar livro nenhum, e não encontro, porque não quero ler, não me apetece ler, apenas ficar comodamente só.

 


 

Fumo um cigarro. Saboreio-o quase em silêncio até ao fim. Não fosse a chuva e o silêncio seria total, como se houvesse silêncios e pudesse estar comodamente só,  e escrevo. Pasmo mais que escrevo. Estou aqui sem estar, mas escrevo quando me apetecia estar comodamente só, sem letras, sem palavras, mas escrevo, pasmo e escrevo mais uma palavra e cada palavra custa, dói. Procuro novo livro mas abandono de novo…só me apetece ficar comodamente só.

 

 

Ai como me apetece estar comodamente só , mas insisto em levantar-me e percorrer de novo a estante. Não leio os títulos, já os conheço e não me apetece ler. Saboreio outro cigarro. Tenho o cinzeiro cheio de beatas, saboreei-os todos, a chuva continua a cair e a mim, continua a apetecer-me ficar comodamente só…

 

- Ei, pchiiut, pchhhhh, acorda!

- Ãh! Arranja aí um cigarro!

 


 

Ainda hoje vamos ter por aqui o regresso das “Palavras Colhidas do Vento” de Mário Esteves. Até lá, fiquem comodamente…como vos apetecer, se puderem, claro.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:48
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Umas no cravo outras na ferradura, ou será serradura…?

 

Na ausência da habitual crónica das terças-feiras, a “Pedra de Toque” de autoria de António Roque, que continua de férias, convidamos o “Repórter de Serviço” a dar uma voltinha pela cidade para ver aquilo que toda a gente vê, alguns ignoram, muitos não estranham e a maioria está a marimbar-se para o assunto tratando a coisa pública como uma coisa que não é de ninguém e sobre a qual não tem responsabilidades nenhumas, e esse, é o grande mal de muita gentinha. Eu costumo dizer que este alheamento do que é de todos está ligado à falta de chá para curar algumas maleitas ao longo da vida das pessoas. Falta de chá em casa, mas também nas escolas onde a educação extra-curricular, ou educação cívica, ou formação, ou aquilo que lhes queiram chamar, na prática não existe, e os professores (a grande maioria embora não todos) se excluem dessa missão de educar (o extra-curricular) defendendo muitos que a educação é em casa que se dá e isto, não são contas de outro rosário, mas deste rosário que é o de viver com os outros onde o que é público e o respeito pelo que é publico é de todos e só assim não é entendido, pela tal falta de chá que leva as pessoas ao alheamento. É assim que penso até que alguém me prove o contrário e o mais grave, é que esta atitude individual acaba por tomar de assalto atitudes das instituições, empurrando de umas para as outras os problemas e alheando-se elas próprias da coisa pública.

 


 

Por outro lado também não faltam por aí alguns iluminados que se acham detentores de toda a sabedoria, que não aceitam críticas, que são duros de ouvido e que quando lhes é dado um pouquinho de poder decisório que seja, tendem em tornar-se donos da(s) coisa(s) pública(s), e não estou a falar só de políticos, mas também de outros iluminados de instituições e até técnicos que são chamados a colaborar com esses iluminados e impõem a sua vontade pessoal à vontade pública e ao bom censo que sempre deve imperar em tudo na vida.

 

 

Depois há também o “deixa andar”, o passar ao lado, o ignorar. Desde que ninguém chateie ou levante ondas, é muito mais cómodo, não dá chatices e sempre deixa mais tempo para alguns devaneios e só depois da casa arrombada é que se metem as trancas na porta, como costuma dizer o povo e muito bem, tal como diz que os males devem atacar-se pela raiz ou mais vale prevenir que remediar.

 

 

Para hoje o repórter de serviço trouxe algumas imagens que ilustram bem algumas das partes do texto (para alguns, pois muitos nada verão nestas imagens). Coisas muito simples e pequenas de fácil resolução até, como no caso da última imagem onde finalmente o Monsenhor Alves da Cunha teve direito a um lugar (à sombra), não tão nobre como o que ocupava antes, mas está na Praça com o seu nome, o que já é alguma coisa. Coisas simples e pequenas que podem fazer a diferença, pois quanto às grandes, essas sim, já são contas de outro rosário que não podem ser tratadas aqui com a leviandade de um repórter de serviço.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:58
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Quem conta um ponto... Por João Madureira

 

Quarta crónica estival: o fim da quinzena esplendorosa

 

As férias na praia acabaram, mas o seu esplendor ainda me anda aos baldões pela cabeça. Quinze dias à beira-mar é tudo o que um ser humano mais deseja na vida. E é tão bom relembrá-lo: o calor, o mar, a areia, as besuntadelas, os passeios para molhar os pés, o transportar do saco das toalhas, a água fria para retemperar os ossos e tonificar os músculos, os emigrantes, os imigrantes, os migrantes, os turistas e os autóctones a jogarem as raquetas, o futebol, os putos a lançarem-se para a água como loucos, as conversas, os cães, os carros, os africanos, os políticos em calções, os hipermercados à pinha, os cafés repletos, os restaurantes a rebentar pelas costuras, o subir e o descer ladeiras, as prendas que se compram para a família, os telefonemas que se fazem para a família ou que a família faz para nós, os conhecidos que nos evitam, ou que evitamos, na terrinha, e que aqui nos falam como se fossemos os melhores dos amigos, as feiras regionais, as feiras locais, as festas, a animação estival a cargo das autarquias no seu máximo esplendor de qualidade e diversidade, os ciganos a venderem pólos de marca, os polícias de bicicleta, os ladrões de motorizada, os traficantes de droga de Mercedes último modelo, mulheres chilreantes escurecendo-se na praia para serem fotografadas e logo à noite colocarem no facebook as suas fotos eróticas a ilustrarem os seus poemas de amor cheios de mar, azul, areia, sol e… estrelas, os vendedores de bolas de berlim e de gelados, os leitores da bola a tirarem burriés do nariz, os nórdicos rosados como camarões a tomarem compulsivos e obstinados banhos de sol, mulheres bonitas, feias e assim-assim, homens assim e assado, crianças incómodas, jovens impertinentes e ainda mais areia a escaldar e mais água fria para gelar os meus ossos e mais protector solar e toalhas e jornais e chinelas e camisolas e óculos de sol riscados e amigos de ocasião chatos como o caraças e bóias e baldes e pás e buracos na areia e castelos na areia e… a auto-estrada de caminho de casa que tão cara é de percorrer. Depois sonhar com o almoço no Rui dos Leitões e… o Rui dos Leitões à pinha, as mesas todas ocupadas, a fila maior do que a que se forma para marcar consulta externa nos hospitais do SNS, a longa espera, a família cheia de fome e por isso já indisposta… finalmente o leitão, o vinho espumante, o apetite, a voracidade e o barulho ensurdecedor dos clientes do Rui dos Leitões, e os empregados nervosos sem mãos a medir, as crianças que berram o seu nervosismo primário, o seu pânico por permanecerem ali fechadas e com um barulho atroador que junta vozes humanas, sorrisos alarves, tilintar de garfos, garrafas de espumante a abrir… e ainda mais um pouco de leitão porque a fome é muita e ainda um pouco mais de espumante porque a sede é muita e o barulho ensurdecedor a dilatar-se um pouco mais, como se fosse possível, enquanto o dono do restaurante sorrindo se entretém na teima de ir assentando nas mesas que vão vagando os clientes que continuam a aguardar pacientemente por uma mesa e um ou dois pedaços de leitão à Bairrada pagos a peso de ouro… e chegam as sobremesas doces e finalmente os cafés. Depois de pagar uma fortuna por três travessas de leitão, saímos do restaurante um pouco mais pesados de corpo mas muito mais leves na carteira. É a crise, como muito bem diz o meu sogro. Cá fora o sol queima e quando entramos no carro o ar arde e os assentos são brasas que nos fazem suar em bica. Conduz quem não bebeu ou bebeu pouco. A ânsia de chegar a casa é enorme. Tenho saudades da minha cidade. Só quando estamos fora é que lhe damos o devido valor. Não penso em política pois de certeza que ficava com azia e lá tinha de desfazer o bolo alimentar à base de digestivos medicinais e o leitão foi tão caro e estava tão saboroso que é um desperdício chatear-me com tão fracas reses. Então o Pedro Passos Coelho é que me saiu cá um artista de revista, se sofresse da síndrome do Pinóquio nesta altura tinha um nariz que já não lhe cabia em São Bento. E então que dizer o António José Seguro? Para já basta pensar nele como o fantasma que para se ver nas vinhetas de BD tinha de se enrolar em gaze. Penso isto, e só isto, porque comi salada de alface e tomate no início da refeição. Se levasse mais longe o raciocínio lá se me azedava o leitão no estômago. Credo! Mas, como vos ia dizendo, não há nada como chegar à nossa terrinha. E a cidade de Trajano é tão carinhosa e está tão bem regulada que dá gosto pensar nela pelo simples prazer de pensar… nela. Então até para a semana. E fica desde já prometida uma crónica estival sobre os esplendorosos dias de férias que passei na nossa terrinha a ir de um lado para o outro com muito amor e carinho. E da qualidade e diversidade da animação estival a que tive o prazer de assistir.

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Domingo, 28 de Agosto de 2011

Castelo de Monforte de Rio Livre - Chaves - Portugal

 

Torga dizia que de vez em quando passava pela raia para ver se os marcos da fronteira estavam no sítio. A mim vai-me acontecendo o mesmo, mas em vez dos marcos da fronteira tenho os meus lugares de referência, onde de vez em quando também dou lá um pulo para ver se tudo está na mesma e, embora às vezes seja conveniente que tudo continue igual, outras vezes, o continuar tudo igual chega a meter dó, e temos pena.

 

Um desses lugares de referência por onde passo sempre que posso é o Castelo de Monforte, lugar conhecido pela aragem e ventos que por lá sempre sopram, ventos de Espanha por certo, pois nunca sopram eu seu favor.

 

 

E já que se falou de Torga e de Espanha, veja-se o que registou o poeta aquando de uma das suas visitas ao Castelo de Monforte em Setembro de 1961, há 50 anos, mas pela actualidade da escrita poderia ter sido hoje.

 

 

“(…) Também eu sinto neste momento não sei que despeitada revolta, que surdo desespero. Do lado de lá da fronteira, Monterrey, altaneiro, majestoso, ufano das suas aladas torres, do seu palácio senhorial, da sua igreja românica, cofre dum retábulo de pedra de cegar a gente; deste, quatro paredes toscas de desilusão, que a hera aguenta de pé por devoção à pátria. É, realmente, de um homem perder a paciência de vítima passiva do destino. Sempre pequenas muralhas de fraqueza e pobreza! Sempre um prato de figos ao fim de cada fome!”

Miguel Torga, in Diário IX

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publicado por Fer.Ribeiro às 19:43
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Treze Contos do Mundo que Acabou - Com as barbas enxutas

 

Conto VII


Com as barbas enxutas

 

          - Não, senhor doutor, hoje não adianta perder o tempo. Consoante sopra este ventinho lá da Sanabria e entra pela gente dentro, até os ossos se estremecem… Quando assim é, enfiam-se nos tocos do raizedo, não há o diabo que as faça sair.


          - Parece que pariu a galega! Trago as mãos como o carambelo. Já troquei a medalha umas quantas vezes e nem sinal delas. Será da lua, Manuel, que te parece?


          - Ao meu pai, que Deus tenha, toda a vida lhe escutei dizer que a melhor altura para caçar umas trutas é o quintar da lua nova, e se for o caso de começar a merujar uma chuvinha, então é que elas se põem doidas… e a gente tem que ir com o que diziam os antigos.


          - Pois não digo o contrário, mas eu lembro-me de as ter apanhado com qualquer lua e até a nevar já caíram. Hoje é que não será dia… Olha lá, e a tua mulher tem passado melhor?


          - Com a graça de Deus, desde que o senhor doutor olha por ela já nem parece a mesma. O mal às vezes anda a comer por dentro sem a gente dar conta, e quando se vai para lhe atalhar já não tem remédio. Naquela noite, em que mandei recado para o senhor doutor vir a fugir, cuidei que ela se me ficava. O senhor foi quem na salvou!


          - Já não tinha que ser. Mas agora fica por vossa conta, que a saúde e a doença, muitas vezes, vão no que a gente come, e estou convencido de que ela abusava um bocado da carne de porco e do fumeiro, da pinga do vinho, dos pimentos do vinagre, tudo coisas que o fígado dela aceita mal. Já sabeis, muito cuidado com o que se mete à boca!


          - Isso bom é de dizer, senhor doutor, mas se a gente passa o ano inteiro a criar o requinho, para que há-de ele ser senão para se comer?! E tirando de quando em vez uns peixinhos do rio, ou uma pita, por festa, que outra coisa havemos de pôr na mesa com as batatas e o cibo do pão?


          - Bem, lá farás como melhor entenderes. Fome não passais. Ao que eu me quero referir é aos abusos, e tu bem compreendes o que eu quero dizer…



          Já o avô e o pai eram moleiros e ele herdou-lhes a arte e as pedras do moinho, mais a água do rio que as punha a girar de roda. A barca, amarrada no amieiro grosso que bebe no remanso da presa, essa foi obra sua, quando a Guerra Civil de Espanha obrigou os povos de ambos os lados da raia a partilhar misérias e a tecer cumplicidades escondidas. Daí a nomeada de Manolo da Barca, como passou a ser conhecido. Mas se lhe ficou o nome, foi-se-lhe o ofício de barqueiro, quando as poldras que, meia légua rio acima, davam passo incerto de Eiriz para a Lobeira foram elevadas à categoria de ponte, só de um arco, mas ainda assim garante mais seguro da necessária travessia, mesmo que os Invernos trouxessem muita água. Depois disso, só um que outro pescador, no tempo das trutas, ou os raros fregueses do moinho, com os burros carregados de sacas e de moscas, passavam a partilhar com ele breves momentos daquela solidão conformada.

 

         

O doutor Teófilo era médico na vila e tinha tal ilusão pela caça e pela pesca que, no seu calendário, o ano tinha apenas duas estações. Há mais de quarenta anos, desde que voltara de Coimbra com o canudo, que nas manhãs sagradas das quintas e dos domingos, as mãos esqueciam o estetoscópio e o receituário para se agarrarem com mística paixão à cana ou à caçadeira, consoante corria a época. Uma vida inteira a carcomer os dias, e quantas vezes também as noites, com as dores e as misérias dos outros, a representar sempre a última esperança para os que cuidavam enganar a morte, e afinal era só ali, naquelas fragas do fim do mundo, que encontrava sentido para a vida que levava, enquanto ferrava uma truta ou estourava uma perdiz. E de todas as vezes, como se fosse a primeira, a ansiedade lhe ratava o sono breve da noite, antes que os galos alvorassem a madrugada e a mulher lhe rezasse o costumado responso:

 

          - Não sei que desassossego tens nesse corpo, que nem dormes nem deixas dormir! Sabes bem que não devias andar sozinho por aqueles ermos, que na tua idade basta às vezes assentar mal um pé… Se um dia te acontece alguma coisa, quero saber quem te vale.

 

          - O corpo só há-de sossegar quando morrer, o espírito é que não pode passar sem beber daquela paz. E não fiques em cuidados, que se houvesse alguma novidade, o Manuel havia de dar relação de mim.

 

 

          As águas mil que o Borda d’Água sempre prometia, nesse Abril, correram o céu de lés a lés nos odres inchados das nuvens, foram e vieram no inconstante leva e traz dos ventos, mas se alguma chuva caíu não foi bastante para amaciar o rigor dos dias e menos ainda para anuviar a gélida transparência das águas rápidas do rio. Quando assim era, só mesmo o tremeluzir metálico de uma amostra de pintas garridas podia atiçar o apetite aletargado de alguma truta. Anos havia em que as súbitas enxurradas tomavam as águas com o terriço escuro das encostas e nada melhor que o oscilar dengoso do rabo de uma minhoca a roçar as pedras do fundo. Era isco garantido para compor a cesta. Se o rio clareava, à míngua de água, e o sol da Primavera cumpria a obrigação, empatava-se um anzol de tamanho apenas bastante para empalar duas remisgas, desalojadas de dentro dos seus casulos cravejados de areias finas, ou das croças redondinhas, de pauzinhos eriçados. Longe vinham ainda as tardes abafadas do fim de Maio, quando a zanguizarra dos grilos, que se punham a afinar a caixinha de música à porta dos buraquinhos, fazia dos lameiros um arraial. Os tolinhos deixavam-se apanhar a meio do concerto, cegos pela lascívia de atrair as fêmeas, para depois dançarem sobre a água, pendurados do anzol pelo colarinho negro do fraque. Tal bailarico endoidava as trutas, que, se preciso fosse, saltavam fora a abocanhá-los antes mesmo de tocarem na água. E, por fim, chegava o tempo dos saltões de ventre verde reboludo e patas dobradas em mola, que tantas vezes, por culpa daquela irrequietude saltarica, acabavam a empanturrar as trutas velhas, entrincheiradas a meia água, na penumbra escura, por debaixo da rama fresca dos amieiros. Meses bons, os da fartura! Mas, por agora, e enquanto o tempo se mantivesse assim áspero, o jeito era bater todos os cantos do rio, os remoinhos detrás das pedras e o final remansoso das correntes, armar-se de paciência obstinada, lançar mil vezes, corricar outras tantas, trocar de amostra, ou de medalha como lhe chamava o Manolo, até que alguma se resolvesse…

 

          Já perto da noite, enquanto acrescentava um caneco de água quente à vianda do reco, que recozia no pote grande suspenso da gramalheira, batatas miúdas, restos de couve troncha e dois punhados de centeio, a Conceição começou a agoirar a demora do doutor Teófilo.

 

          - Olha lá, Manuel, está-me a fazer espécie que o senhor doutor ainda não tenha passado para cima. Queira Deus, queira, que não lhe tenha sucedido nada…

 

          - Vão sendo horas, vão. Mas há alturas em que elas caiem melhor rente à tardinha e, se calha, ele nem se dá conta que depressa escurece como breu. Espera-se mais um cibo, e quando tal, o melhor é eu ir saber dele.

 

         

 

O ruído sibilante do petromax fazia companhia ao Manuel que, apesar de conhecer as voltas do rio como a palma das mãos, caminhava cauteloso, conforme o clarão da chama lhe ia desvendando as árvores e as fragas que desenhavam a margem. À medida que avançava, ia dando berros e apurando o ouvido, na esperança de escutar resposta que lhe devolvesse o ânimo. Mas do doutor Teófilo nem sinal. Quando, ao fim, deu com os olhos no vulto, caíu-lhe a alma aos pés! Estava sentado sobre uma urze, tolhido de frio, ensopado até aos ossos, e tremia que nem varas. Chamou-o pelo nome, mas não dava acordo. O tremedoiro dos dentes castanholava que metia aflição. Rápido o pôs às carrachulas e, apesar do carrego que quase lhe fazia deitar os bofes pela boca, dali a casa foi num pulo.

 

          - Conceição, bota umas carqueijas no lume e vai saber de umas peças de roupa minha, que vejas que lhe sirvam! Vá, mexe-te!

 

          Deitou-o no escano e foi-lhe tirando a roupa molhada enquanto a mulher não voltava. Cobriu-o com a manta e chegou-lhe um copo de bagaço à boca.

 

          - Beba, senhor doutor, que não há nada melhor para aquecer o corpo.

 

          Aos poucos, o calor do lume crepitante confortou-o e começou a querer balbuciar palavras sem nexo. A Conceição voltava com uma camisa de flanela, umas calças e uns carpins de lã e já o doutor Teófilo pedia uma malguinha de caldo quente.

 

          - Ora, assim já é outro falar. Para susto já nos chegou!

 

          - Vocês desculpem lá este transtorno. Conforme embarrei com o cacifro na barriga de uma fraga, desequilibrei-me e caí ao fundão. Encheram-se-me as galochas com água e já me custou sair do rio. A cana e o carreto devem estar engastalhados na rama de algum amieiro. Quando te der jeito, Manuel, dá lá um salto a ver se os encontras, que tenho estimação neles.

 

          - Esteja sossegado, que amanhã, em sendo dia, já aparece tudo.

 

          - Oh senhor doutor, nem assim se lhe esmorece o vício? Razão tem a sua senhora, que isso é desassossego para lhe durar a vida toda!

 

          - Também tu, Conceição? Deixa-me lá rapariga, que daqui em diante é que ela me vai moer o bicho do ouvido, ainda para mais se o vier a saber por ti, que bem se vê que estás mortinha para lhe levar a novidade.

 

          - Não deixa de lhe ser bem feito. Agora que já lhe dá para a risada, ouça lá esta: o senhor doutor nunca ouviu dizer que não se apanham trutas com as barbas enxutas?

 

 

Herculano Pombo

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:06
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Sábado, 27 de Agosto de 2011

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

Anda cá Flavinha  …Queres ir á festa?…


(…)


Tão nova e já tem manias , vais d´ anjo sim senhor há lá coisa mais bonita , ir atrás de um andor de Nossa Senhora da Aparecida.


(…)


Tu não sejas malcriada, olha que eu ainda sou capaz de te dar uma estalada.Ai…E a banda atrás a tocar a compasso, agora até há cavalos a abrir a procissão, tomara eu ainda ter idade…


(…)


Tu que dizes rapariga?!!! É decerto mais bonito os vossos tremedouros a dançar à maluca meias despidas ou mal vestidas, com arganeis nesse nariz e língua para não “esfuçar”, com essas músicas de ensurdecer e pôr a gente mouca…


(…)

 


Qual não está lá gente da tua idade onde estão então metidos?


(…)


Quem disse que só vais à noite, vais de tarde e vais mesmo, vais ver como vais gostar, depois ficamos ao arraial e fazemos um jogo de roda…


(…)


Há sim senhor rapazes e raparigas da tua idade e as bandas bem tocam  não vês a Vanessa como toca bem naquela corneta fininha, assim dá gosto, se os teus pais fossem da minha ideia ias era aprender a tocar na banda, mas agora já não mando nada…


(…)


Está calada , anda mas é daí , comer as minhas amigas lá nos dão senão comemos cavacas e doce da Teixeira, pode ser que até o Inácio da ourivesaria nos convide para uma cabritada…


  Isabel Seixas

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:37
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Mais uma imagem, de Chaves - Portugal

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:35
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Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por Tupamaro

 

 

 

“MEMÓRIAS  da  GRANGINHA”

 

 

 

Mal o sol se levanta por trás do Castelo de Monforte logo o brilho dos seus olhos alumia e aquece a varanda da casa da Tia Maria do Campo.

 

Do lado desta a quem o sol deixa o último olhar antes de adormecer, a Amélia da Tia Maria do Campo pedala com firmeza na sua máquina de costura Singer, alinhando com toda a habilidade e presteza o tecido por onde a costura tem de ser feita.

 

A Laurinda chegou ofegante. Cuidar das galinhas, dos coelhos e dos recos fê-la atrasar um bocado. Mas já estava ali para pespontar as saias que a Amélia iria rematar e entregar a tempo e horas às clientes.

 

A Tia Aurora cumpre o ritual diário de dar de comer às pitas e passa meia hora a berrar com elas como se estas fossem culpadas dos bicos-de-papagaio que a trazem sempre atanazada.

 

A Tia Quinhas ralha com os burros, ainda refastelados dentro do palheiro da eira, prometendo-lhes um arraial de porrada logo que o Tio António Guarda volte do serviço.

 

A Elisa, com a desculpa de ir à «Pipa» buscar um cântaro de água, demora-se debaixo da figueira da eira a espreitar para o Alto do Cando a ver se vê a sombra do Jurel.

 

A resmungar com a sachola que leva ao ombro, o Tio Zé Lita desengonça-se, a caminho da «Lama».

 


Na curva da Casa Nova já se dá conta da chegada do Aníbal do Treno, pelo chiar do carro puxado por um burreco e pelos responsos que dá à mulher, desde que saiu das Casas-

-dos-Montes.

 

A Teresa do João Carteiro chama pela Hermínia, que só pensa na brincadeira, lá no CAMPO, em vez de entreter as irmãs mais novas.

 

O sr. Pinho, depois de beber umas goladas boas da água da «Pipa», senta-se ao fundo das escadas da casa da Tia São enquanto o seu enorme rebanho de cabras rapa as paredes. Com aquele jeito especial de pastor, assobia e chama umas cabritas. Muge-lhes o leite e dá para o Luisinho da Tia São uma caneca cheia.

 

 

A Tia Luísa Chardas solta a burra no pátio, carrega um braçado de lenha para acender o lume e vem sentar-se à porta, no cimo das escaleiras, guardada da rua pelo muro de pedra que até lhe serve de varanda, donde pode ver toda a gente que vai ou que vem do tanque, da fonte, da “Sobreira” ou do “Valcoelho”.

 

Pela fresca das tardinhas de Verão, deixando a cidade, atravessa a “Fonte Nova”, escala o “Monte da Forca”, ganha alento na travessia do “Pedrete”, sobe a ladeira das “Carvalhas” e vem tecer louvores à «Pipa» o sr.  José Valtelhas.

 

Deixava-nos espantado o apreço que este “senhor da cidade” manifestava pela NOSSA ALDEIA!

 

Estamos em crer que a sua inseparável bengala lhe servia de carruagem de luxo a fazê-lo chegar ao rincão do seu conforto.

 

A Tia Olinda prega os sermões diários   -   matutinos, vespertinos e «humorinos»   -   ao Lelo e ao João,  sempre que vai para o “Val’ da Cabra”, para a «vinha» ou à Fonte, ou quando de lá chega.

 

 

 

A Alice do Treno passa o dia a recomendar à Judite para ter cuidado com o sol, e ao Luís para não sair do quinteiro.

 

O Mário e o Júlio desafiam o Luís da Tia São para correr uma «Volta a Portugal em Bicicleta» ou ir a uma “corrida de grilos”.

 

Pegam nuns arames e constroem um guiador; atam-lhe dois frasquitos, cheios com água da «Pipa»; correm CAMPO acima, passam pela Sobreira, atalham pelo monte e pelo giestal do Picholeto, vencem o prémio da montanha no “Alto do Cando”, descem em louca velocidade até ao “Carvalho” e sprintam doidamente até à «Pipa», onde cortam a meta, a sede e o cansaço bebendo grandes goladas de água fresquinha e levezinha.

 

Para a “corrida dos grilos”, tradição deixada pelos romanos quando por aqui andaram (claro que estes faziam corridas com quadrigas, mas quem não tem cavalos corre com grilos!), iam às caixas de costura da mãe Teresa, os dois irmãos; à da prima Jesus, o Luís da Tia São. Desenfiavam as agulhas e rapinavam um dos “carrinhos de linha número 30. Rebuscavam todas as tocas de grilos que houvesse no CAMPO. Com as agulhetas de pinheiro esquiçavam  os cavalos, quer dizer, os grilos, para os apanhar à saída da toca. Se teimassem em não sair, aplicavam-lhes a dose certa de uma mijoca, que era remédio santo!

 

 

Dos calondros faziam os carros de bois, quase parecidinhos com os “carros de corridas” romanos. 

 

Pelo pescoço ou pelas patas, desde que se lhes desse um nó, lá se prendiam as «quadrigas» de seis ou sete (ou os que calhassem) grilos.

 

Riscos, de partida e de chegada, feitos na terra poeirenta do caminho de carro de bois, do CAMPO, contava-se até três e …

 

Ah! Grilos de um raio!

 

A agulheta de pinheiro transformava-se logo no açougue (látego) do Ben Hur e de Messala,  incitando os grilos a correr a galope.

 

O Mário, o Júlio e o Luís da Tia São, imitando o Charlton Heston … ou o Tio António Guarda, bem gritavam e berravam  com a «griliga».

 

Mas qual quê!

 

Os marmanjos só sabiam dar saltos e mais saltos. A torto e a direito. Prà frente e pra trás.

 

Ensarilhavam as linhas. E, às vezes, libertavam-se delas. 

 

Os carros tombavam. Soltavam-se-lhes as rodas. Partiam-se-lhes os cabeçalhos. Os eixos esfrangalhavam-se-lhes.

 

Os artísticos pedaços de calondro desfaziam-se em mil pedaços!

 

A Teresa do João Carteiro e a Avó do Luís da Tia São chamavam-nos para a ceia.

 

Eles não ouviam.

 

 

A Avó do Luís e a Teresa do João Carteiro gritavam para o neto e para os filhos irem comer.

 

O entusiasmo da corrida tornara-os moucos e tirara-lhes a fome!

 

Então, só quando viam uma vergasta no ar é que aqueles “gabiruns” desatavam a correr para casa.

 

Uns cascudos da mãe e uns “azoutes” carinhosos da Avó eram as coroas de louro com que aqueles três “galferros” saíam premiados.

 

Depois, chegado o luar de Agosto, as famílias punham-se à porta de casa a apanhar o fresco, em plácidas conversas.

 

Eram lindos os dias e as noites da MINHA GRANGINHA NATAL!

 

Tupamaro

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:43
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Maravilhas Flavienses - Forte de S.Francisco

 

Para já uma das maravilhas flavienses. A seguir, mais um "Discurso Sobre a Cidade", hoje de autoria de Tupamaro. Até já.

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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

O Homem sem Memória (64) - Por João Madureira

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

64 - O tempo passou, mas a raiva não. E se há coisa que um barrosão tenha é memória. Pode passar o tempo, mas a indignação permanece como uma verruga. É como uma doença crónica. Pode ser tratada, mas jamais desaparece.


Continuou-se a contrabandear, a trabalhar os campos, a patrulhar as aldeias. Os contrabandistas trocavam e vendiam café, gado, polvo, chocolates, bananas, sapatos, armas, azeite e farinha. Os agricultores cultivaram batatas e centeio. Os guardas autuavam os carros de bois por causa do chiar das rodas, pelo facto das aguilhadas terem a ponta de metal maior do que os cinco milímetros permitidos por lei, pelo facto de os cães não terem licença, as galinhas andarem livremente nas ruas, ou as donas de casa despejarem as águas para a via pública.


Num dia solarengo e frio, o guarda Artur à paisana, quando numa encruzilhada virava caras a Montalegre acompanhado dos seus cães de caça e exibindo várias perdizes e coelhos à cintura, deu de chofre com um jovem que não conhecia. Deu-lhe os bons dias como era seu hábito e até sorriu de contente. O rapaz não lhe respondeu, apontou-lhe calmamente a caçadeira e disparou. De seguida chegou-se junto do corpo do guarda ofegante e pronunciou: “Para não morreres na ignorância de quem te mandou para o outro mundo, faço questão em te informar que sou o filho mais velho do Justo de Padornelos.” O guarda Artur, com o espanto estampado no rosto lívido, ainda conseguiu dizer: “Não foi por querer. Disparou-se-me a espingarda.” O rapaz contrapôs: “Tiraste a vida a um homem honrado. E esse homem honrado era meu pai. Por isso vais morrer.” “Perdoa-me. Não me mates. Foi sem querer. Disparou-se-me a espingarda”, desculpou-se de novo o GNR. “Por mim até era capaz de o fazer, mas a minha mãe não o consente. Ela não te perdoa. Não consegue. Desde o dia da morte de meu pai nunca mais aquela mulher dormiu uma noite que fosse. Grita e geme enquanto dorme. Vive num pesadelo. Vai todos os dias ao cemitério. Não tem paz. Só a morte a pode acalmar. A dela ou a tua. Para mim a opção é clara. Eu jurei-lhe que te matava antes mesmo de ir para a tropa. E os Justos de Padornelos são gente de uma só palavra”, explicou o rapaz com muita calma. “Pensa nos meus filhos. Ainda são tão pequeninos!”, balbuciou o guarda Artur enquanto expelia um fio de sangue pelo canto da boca. “Que Deus me perdoe”, disse o filho do Justo de Padornelos enquanto se benzia. Depois virou o cano na direcção do coração do GNR e disparou um tiro certeiro. Ainda pensou descarregar o segundo cartucho na direcção da cabeça para desfigurar o assassino de seu pai. Mas teve dó. O seu acto de misericórdia e redenção consistiu em deixá-lo ir para o outro mundo com o rosto completo, não fosse Deus, ou alguém em seu nome, pôr-se a fazer perguntas indiscretas sobre o que tinha acontecido e quem tinha feito aquela maldade. Pois uma coisa é matar porque assim obriga o código de honra de um barrosão, outra bem diferente é despachar um GNR nervoso e fanfarrão com o rosto desfeito para a eternidade.


Este acto de vingança iniciou um período de guerra entre os vários sectores da sociedade. Os guardas, feridos na sua honra e amedrontados no seu viver, começaram a espiolhar todos os caminhos da região como se andassem atrás do bando do Juan. Os contrabandistas começaram a espiar os agentes da autoridade como quem quer afastar a peste negra. Os agricultores começaram a amanhar as suas terras com o claro receio de que uma guerra poderia rebentar entre os dois bandos e que eles seriam as principais vítimas. Os lobos quando estão feridos, ou se sentem acossados, investem ainda com mais ferocidade. O sangue clama por mais sangue. A honra por mais honra. A vingança por ainda mais vingança.


O caos tomou conta da vida dos barrosões. Os guardas da GNR começaram a perseguir e a prender os contrabandistas, e o respectivo contrabando, no território e nas clientelas controladas pela GF. Os guardas da GF, ofendidos e amargurados, responderam na mesma moeda. Tais desvarios só trouxeram à região mais pobreza. Os produtos essenciais à vida das populações carenciadas começaram a escassear. E os que ainda eram comercializados atingiram valores proibitivos. Até os cães se começaram a engalfinhar por tudo e por nada. As vacas começaram a escornar os donos mais desprevenidos e as galinhas começaram a pôr fora os seus ovos. Os porcos cuincavam tanto nas lojas que parecia que tinha chegado a época das matanças. Isto em Setembro. Mesmo o padre Zé se começou a enganar nas prédicas, a confundir os sermões, a trocar as epístolas, a carregar nas penitências. As próprias beatas começaram a ver o seu estatuto em causa. Se em épocas normais se confessavam e apenas tinham que cumprir a penitência mínima, um padre-nosso e uma ave-maria, nos tempos conturbados começaram a ser obrigadas a rezar tanto ou mais do que os pecadores crónicos. E isso trouxe-lhes desconforto e provocou uma que outra desistência no coro da igreja. Mas o pior ainda estava para vir. Que os GNR vigiassem os GF e os contrabandistas e que os GF vigiassem os GNR e os contrabandistas e estes vigiassem os GNR e os GF ainda vá que não vá. Agora os GNR vigiarem-se a si próprios é que lhes foi ousadia fatal.


No posto de Montalegre havia duas facções, uma liderada pelo sargento, Alves, que era o chefe de posto, e uma outra dirigida pelo subchefe, o primeiro-cabo Sarmento. Sabendo disto, o chefe do posto da GF combinou com o chefe do bando de contrabandistas seu amigo que montasse uma armadilha com a intenção confessa de trocar as voltas às patrulhas da GNR. Ou seja, que os contrabandistas controlados pela facção do sargento Alves fossem denunciados e presos pela facção do primeiro-cabo Sarmento e vice-versa. Com as rotinas trocadas e com os caminhos enredados, num mesmo dia as forças da GF e da GNR apreenderam mais contrabando do que em todo o último ano. Tal prodígio de eficácia foi mesmo notícia nos jornais nacionais. Alguns dos contrabandistas presos, depois de apertados por agentes especiais vindos da capital de distrito ou mesmo do comando da região norte, resolveram falar. Toda a marosca foi descoberta. E o que primeiro tinha motivado as propostas de louvores e condecorações foi transformado em castigos e transferências. Muitos dos contrabandistas foram condenados a penas de prisão, com pena suspensa, e ao pagamento de multas avultadas. Mas esse foi o preço a pagar pelo facto de se verem livres dos guardas prevaricadores. Quem não quis uma boa madrasta ficou com uma ruim mãe. A sorte é assim. Todos os guardas foram substituídos por colegas mais jovem e ainda sem vícios. E o tempo que se gastou na aprendizagem dos caminhos do contrabando, na identificação dos cabecilhas, nos contactos iniciais e no recebimento das primeiras lembranças por patrulharem os caminhos vazios, deu tempo para que a paz e a concórdia voltassem de novo a Montalegre e às aldeias vizinhas.


Escusado será dizer que os cães tornaram a passear pacatamente pela Vila e pela Portela como se fossem ovelhas, as vacas passaram a ir e a vir dos lameiros ao som de modinhas assobiadas ou a toque de gaita-de-beiços, os recos voltaram ao silêncio da engorda e as galinhas poedeiras começaram a pôr dois ovos por dia e dentro dos limites da casa dos donos. Até o Padre Zé conseguiu de novo o milagre de atinar com as epístolas, de acertar com os sermões e de administrar penitências de acordo com os pecados de cada um.


O guarda Ferreira, metido na embrulhada do contrabando por fazer patrulha com um guarda corrompido, apesar de alegar inocência, foi admoestado pelo instrutor do processo com estas palavras, muito ao gosto popular: “Tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta.” Pela parvoíce ganhou uma guia de marcha para o Porto. A Dona Rosa, enjoada com uma nova gravidez, decidiu transferir-se para Névoa, onde a vida era mais em conta e onde os filhos tinham facilidade em estudar no Liceu ou na Escola Técnica, além de poder dar um pulo à sua aldeia sempre que lhe apetecesse. A vida a dois cada vez mais era um quebranto triste em cima de uma rotina amargurada. A solução encontrada foi um bom remedeio.

 

65 – A família Ferreira alugou uma casa no lugar da Cruz Santa, bem longe do centro de Névoa. O dinheiro e uma certa avareza da Dona Rosa não deram para mais. Era uma habitação pequenina, nova e geminada. Na outra vivia ...

 

(continua)

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:30
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Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

Apenas uma imagem, de Chaves, claro!

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:24
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Crónicas Ocasionais - Genciana das Boticas

 

GENCIANA-DAS-BOTICAS

 

 

Sentou-se na cadeira, à nossa mesa.

 

Não a conhecíamos.

 

E algum do espanto que nos surpreendeu dilui-se no sorriso aberto, lindo, numa cara linda onde dois olhos amendoados nos atraíam e uma boca em coração nos seduzia.

 

Do seu pescoço pendia um fino fio de prata dourada que sustentava uma gota de água cristalina a prometer cair num risco de solo fértil onde daria a vez a um fio de corrente rápida a transportar-nos a um imenso mar de desejos e de loucuras.

 

- Não fique intrigado   - sussurrou.

 

Temo-lo visto a passear sempre de braço dado com os livros. E aqui, no Café, logo se percebe como anda apaixonado: - quem entra, quem está, quem sai, dá conta, e, às vezes, comenta como só tem olhos para eles.


De que andará à procura?! – comentava uma gulosa dos “croassãs” recheados.


O que encontrará nos livros?! – perguntava outra, preocupada em exibir o umbigo, fazendo que fazia puxar para baixo uma blusa que teimava em subir.


Quem será?! – interrogava uma velhota acabada de entrar, tão interessada,, em mostrar o penteado acabadinho de feito na cabeleireira ali ao lado, com um olho na queijadinha e o outro à procura do cruzamento como olhar de quem reparasse na sua «permanente».


Sabe Deus o que vai naquela alma! – murmurou à saída uma beata que só vai à missa dos sábados à noite para mostrar o novo “belandrau “ que comprou na loja chinoca  … mas irá devolver na 2ª feira,  por ter considerado que não lhe ficava lá muito bem.


Ou o que vai naquele coração!  -  respondeu a vizinha da frente, à entrada cruzada com a saída da beata, sempre atenta à oportunidade para uma conversa duvidosa e de intriga.


O livro e a gravata são-lhe inseparáveis! – ouvimos aquele javardito que costuma sentar-se à mesa do canto, lá no fundo do Café.

Traz o livro  porque tem a mania que é um «xico’sperto”! – continuou o sabujito do companheiro do javardito.


Apanhámos estas apreciações a seu respeito.


Como será? - quisemos nós saber.


E eis-nos aqui, à sua frente, para conseguirmos as respostas àquelas e outras interrogações.


Mas vamos utilizar um método estranho.


Sabemos que nos vai escutar com demora e atenção.


E será nos traços da sua atitude e das suas interrupções que nós leremos as respostas.


Não. Não somos subversiva.


Esse é o seu papel.


Adivinhamos que começou a ser, na voz dos outros, revolucionário; depois da Revolução, refilão; e, no atribulado sossego democrático, passou a subversivo.


Amanhã, provavelmente, dirão de si que FOI um visionário.


Ali, do balcão, alguém dirá, incontidamente, que FOI um filósofo.

 

 

O sol já não mandava reflexos para a nossa mesa, indicador de que a hora do meio-dia estava passada.


As palavras que estávamos a escutar sabiam a bucólica melodia chegada na brisa dos bosques floridos da nossa ALDEIA natal.


Por entre eles, o amor e as aventuras, e as aventuras de amor nos fizeram dar conta da vida.


Lembrámo-nos desse despertar para o mundo. E nele ficámos adormecido, envolto nas cores das sensações determinadas pelo corpo de estímulos assim posto à nossa frente.


A serventia do chá e do «palmier» criou o pequeno intervalo para o nosso devaneio.


Aquele indizível olhar amendoado – cor - de – esmeralda voltou a pousar em nós.


No leve levantar da sobrancelha lemos a pergunta - pedido para continuar  o discurso.

 

- É um gosto continuar a ouvi-la   -  murmurámos.

 

Mexeu a metade de pacote de açúcar deitado no chá, tirou um guardanapo e, com a delicadeza de uma pitonisa de Delfos, colheu o «palmier» e levou-o aos lábios. Pousou-o com suavidade.


Notámos que ao pastel só lhe faltava uma folhinha do tamanho das flores dos malmequeres.

Continuou:

 

- Já visitei muitos Povos.


Estive em Angola e Moçambique; no Canadá, Estados Unidos e Brasil.


Conheço muitos países europeus.


Em todos encontrei Transmontanos.


Tal como em si, em todos notei  a distinção de Transmontanismo  -    excepto em dois territórios: em Lisboa e no Brasil.


Achei muito estranho.


Lá, no Brasil e em Lisboa, os Transmontanos preferem a vaidade dos tiques e retoques brasileiros e lisboetas ao orgulho da sua forma de falar; preferem a lamechice da insinuação pseudo - diplomática à franqueza directa do “entre quem é!”.


Nos meses de Verão, pelo Azibo, Bragança, Termas do Alto Tâmega, Festas e arraiais reparei, e certifiquei-me, na preocupação que esses seus comprovincianos, sedeados em Lisboa, exibiam  o falar à moda da «Linha», da «Baxa» ou … da Rotunda do Relógio!


E os chegados do Brasil, com ou sem dente d’ouro a rir-se-lhes, aproveitavam todas as oportunidades para o linguajar com açúcar amarelo e em “lulo-dilmês”, numa mistura de gorjeios de quiriquiri e os de arara-canindé com os pios do pichororé e do surucuá, em pose de vetustos «coronés» fazendeiros.


Cruzes, canhoto!

 

 

 

Um instintivo serrar de maxilares denunciou a nossa contrariada concordância com a apreciação da «Rotunda».


Fez que compôs a colherzinha, rodou ligeiramente o pires, e aquele indizível olhar amendoado – cor - de – esmeralda tornou a trazer doçura ao nosso espanto!


- Quantas perguntas fez a si mesmo e quantas gostaria de já me ter feito neste pequenino intervalo?


A curiosidade primária rouba-nos toda a atenção para qualquer futilidade. É linear, venal, precipitada e, até, sórdida.


A curiosidade transcendente, complexa, metódica, espalha-se pelo universo da percepção. É escalar e sublime.


Por isso, os comportamentos gerais que encaramos no nosso meio ambiente local revelam um fértil campo de sensações, e só aqui e ali uns tufos de percepções.


Da relação imediata entre sujeito e objecto resultam as primeiras; da organização sintética de elementos psíquicos, as segundas.


Assim, voltamos à curiosidade que nas «massas populares» provoca um livro na mão de um vizinho ou de um estranho a passear pela sua rua ou a tomar um pingo, a hora habitual, no “Pão – Quente” d’ao pé da porta.


Até as crianças se sentem tentadas a sair das mesas dos papás, das titis e dos avós e vir rondar a sua mesa.


Já reparámos que fala com elas, lhes põe à disposição o bloco de apontamentos e quantos lápis, lapiseiras, marcadores e canetas traz consigo.


Algumas mães, já o ouvimos, mal entram aqui, logo dizem para o filhote mais crescido:


-“Olha ali o teu amigo!”.


E tantas ainda continuam sem saber o seu nome.

 

- A mim pouco me importa. Embora reconheça, e esteja atento, à importância que todos dão ao reconhecimento e ao chamamento pelo seu próprio nome  - atrevemos a interrupção.

 

Percebemos um pontinha de ar expectante.


Hesitámos em continuar a falar.


Ainda estávamos à procura das simetrias e dos complementos que nos ajudassem a compreender a surpresa acontecida.


Não houve ainda pressentimento.


Fazemos esforço para ordenar ideias, catalogar juízos e construir raciocínios.


Recolhemos as imagens e os sons, mas ainda não conseguimos combinar-lhes uma forma.


Assim, abrimos a mão, virando a palma para cima, em convite para que continuasse.


Sorveu mais um gole de chá como quem derrete um beijo tão desejado.


Um fugaz aumento de brilho do olhar deu mais esplendor ao seu sorriso.

 

- Memória. Lembrança. Recordação. Saudade.


Saudade!


Noto em si a colina de saudades que transporta.


O seu olhar está cheio de suspiros. Por isso os tem sempre húmidos.

 

 

- Também nós procuramos o caminho de Pasárgada, onde possamos viver as realidades dos nossos sonhos, as nossas fantasias, a nossa liberdade, enfim! – nem demos conta da fuga destas palavras.

 

Ela quase riu com franqueza.

Tomou-nos a mão.

Que doçura!

Estremecemos de corpo e alma.

 

Flor del llano!  - chamou-nos.

 

Tocaram-nos no ombro.

Uma voz despertou-nos:

- Procuram por si.

 

Sobressaltámo-nos.

A xícara do «pingo» estava meada.

As televisões anunciavam o «Telejornal da Uma».

 

-Um licor de Genciana-das-Boticas  e fica bom!  - receitou uma voz algures.


- Senhora da Livração nos acuda!  –  exclamámos, despedindo-nos.

 

Luís Fernandes

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:36
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Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

Sabores colhidos da terra

 

Hoje deveríamos ter por aqui a Pedra de Toque de António Roque, mas tal não vai acontecer. O autor pede desculpas pela sua ausência, mas férias são férias e promete estar de volta em breve. Umas boas férias.

 

 

Entretanto cabe-me a mim vir aqui com algumas imagens e algumas palavras e na ausência de melhor, vamos falar de coisas boas, coisas nossas, coisas da terra.

 

 

Há dias em conversa com duas idosas, quis saber de onde eram. Uma de Carrazedo a outra de Pedroso e logo a conversa convergiu nas coisas da terra e na trocas comerciais das coisas da terra que cada uma das terras produzia e, disse a de Carrazedo – “Pedroso, era onde íamos antigamente buscar a batata de semente, era muito boa a semente” e a de Pedroso respondeu – “Pois era, nós mandávamos a batata para Valpaços e em troca trazíamos azeite, fruta e vinho”. “Nem há como as coisas colhidas da terra, são muito melhores”, dizia a de Carrazedo.

 

 

Claro que a conversa continuou, mas em registo na minha memória apenas ficou “Nem há como as coisas colhidas da terra, são muito melhores” e ficou o registo, não por eu desconhecer essa grande verdade, mas precisamente pelo contrário, por conhecer o sabor das coisas colhidas da terra.

 

 

Tive a felicidade de ter nascido na veiga onde ter horta era obrigatório, além da ligação à aldeia do meu pai que também tinha veiga e montanha e era essencialmente agrícola. Tive ainda a felicidade de ser da colheita de 60, ou seja, de viver um período da minha vida em que tudo que ia à mesa era colhido da terra, excepção quase a apenas para o bacalhau que para mim nascia num comércio da Madalena onde era cortado às postas no balcão, para a vitela que nascia no talho, e para as bananas que eram passeadas num carrinho de mão pela cidade, tudo o resto era colhido pelas nossas próprias mãos, da terra, das árvores, da capoeira, da lareiro, da despensa.

 

 

A conversa com as duas velhotas fez-me regressar aos sabores da terra, aos bons sabores que há muito já não pousam na mesa, à doçura natural da fruta. Recordo com saudade o melão picante casca de carvalho, a melancia recolhida ao toque dos socos, os nacos de presunto cortados à faca em cima da fatia do pão centeio das merendas de fim da tarde, as uvas moscatel ou ananás colhida da latada, as ameixas caranguejas da esquina da quinta, as maças bravo de mofo (esmolfe) os peros… oh! Como eu sei que “nem há como as coisas colhidas da terra, são muito melhores”, mas infelizmente, hoje tudo nasce nas estantes dos hipermercados.

 

 

Excepção para as coisas colhidas da terra, só mesmo os pastéis de Chaves e esses, felizmente, ainda os há. Ao menos isso!

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:53
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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

Quem conta um ponto...

 

 

Terceira crónica estival: um, dois, três e… zzzzzzzzzzzzz

 

 

As noites são quentes, os dias são quentes, o sol é estonteante e o mar é frio como o caraças. Mas de resto, tudo bem. Continuo a ir para a praia, continuo a besuntar-me com muito rigor, continuo a ir tomar banho no mar aos solavancos, hesitando, hesitando, hesitando sempre. De noite suo muito por causa do calor. De manhã acordo alagado em água. Agora a pele começou a dar mensagens de que, por não estar habituada a tanto sol, também existe e não gosta mesmo nada de ser maltratada. O contacto com os tecidos tornou-se problemático. Fora isso, férias na praia são encantadoras, sobretudo antes de fazermos centenas de quilómetros para ir ao seu encontro e depois de já estarmos a trabalhar, quando a recordamos, em amena cavaqueira, na doce e calma companhia dos amigos.

 

Ler os jornais na praia é uma trabalheira. O vento sempre a soprar faz as páginas adejar em todos os sentidos e, quando o vento acalma, as mãos gordurosas do protector solar, em aliança espúria com a tinta das letras impressas, mancham tudo. Fora isso, tudo bem. A areia escalda, os vizinhos da barraca ao lado gracejam à base de impropérios (bendito seja o povo mais o seu sagrado linguajar), os filhos de vários casais amigos jogam futebol, ou batem ritmadamente com duas raquetes numa bola muito parecida à do ténis mas que produz um som estranho, levantam areia, chutam a bola contra quem passa, gritam imenso a sua alegria, pedem muita desculpa pelo incómodo de virem de cinco em cinco minutos procurar as bolas tresmalhadas nas toalhas das pessoas que para aqui estão de papo ao ar, com os olhos fechados a fazerem que descansam, enquanto se vão remordendo de raiva e angústia por causa de, à semelhança da interdição aos cães, a praia não ser igualmente vedada às crianças e aos africanos que persistem em vender relógios, óculos de sol e girafas de madeira de vários tamanhos e preços.

 

Passear na praia é aquilo que me dá mais prazer. Desde logo porque consigo aguentar bem o contacto da água fria com os meus delicados pés. Mas também tem os seus inconvenientes: a inclinação do areal que prejudica a frágil estabilidade da minha coluna vertebral, as pedras que incomodam o meu andar, a elevada quantidade de pessoas que se põem a passear junto ao mar ao mesmo tempo mas em direcções opostas, os jogadores de futebol e raquetes que ocupam a maior parte do espaço vital da praia, os jovens mergulhadores que correm como loucos e aos gritos, para saltarem para as ondas, assustando as pessoas mais idosas e aspergindo água fria sobre as crianças que descansadamente fazem buracos na areia. 

 

Por vezes dá-me vontade de ir urinar por força da muita água que bebo devido ao facto de tomar uns comprimidos que são diuréticos e por isso amenizam a minha tensão arterial. Mas como nessa altura já o sol aperta muito, e as casas de banho são distantes, o exercício torna-se penoso. Amigos meus mais dados à zombaria, aconselham-me a que me enfie no Atlântico e verta águas dentro do seu aconchego, pois ninguém dá por nada, além disso, dizem eles com acerto, e com vossa licença, o mijo é salgadinho como a água do mar. Reconheço que o apelo é forte, mas a minha educação espartana proíbe-me determinantemente de dar tréguas ao facilitismo e à promiscuidade.

 

Quando chega a hora do almoço, o sol aperta de tal maneira que me só me apetece fugir dali. Mas o caminho até casa é tão íngreme e penoso que apenas me consigo arrastar pela torreira, incomodado com o sal seco na pele das minhas costas e a areia nos interstícios das minhas chinelas de plástico robusto. Os sacos com as toalhas molhadas pesam. O sol continua a atacar, os outros veraneantes empurram-me, as crianças berram, os jovens pedalam nas suas bicicletas pelo meio das pessoas como se fossem pilotos de motas de grande cilindrada, os africanos insistem de novo na oferta a bom preço, dos óculos, dos relógios e das girafas. Entretanto é necessário passar pelo supermercado para comprar bebidas. Lá dentro a fila é enorme, os estrangeiros são muitos e as funcionárias das caixas não têm mãos a medir. Depois de aviado, entro de novo na torreira e subo a ladeira até casa com o mesmo esforço que Cristo pôs quando carregou a cruz até ao calvário.

 

O almoço foi frugal, bem regado, talvez até regado bem demais. Termino-o com uma sopa que me põe a suar em bica. Depois da sobremesa, que é sempre composta por fruta fresca e boa, refresco a cara e o tronco com água corrente e ponho-me a ver a televisão. É a volta a Portugal. Adormeço logo de seguida. Acordo, todo suado, quando a Luzia me diz que está na hora de ir para a praia. Vou de novo à casa de banho para me refrescar. E refresco-me. Pego no saco das toalhas e lá vou eu. Agora é a descer, mas a descida é tão íngreme que tenho de travar senão despenho-me.

 

Chegado à praia, com os pés a arder, coloco as toalhas, besunto-me, vou até a beira-mar e refresco-me. O sol continua bravo e o calor é muito. Por isso vou passear. Mas como o areal tem um desnível, os jovens jogam, correm e mergulham, as pessoas atropelam-se e o mar continua frio, resolvo deitar-me na toalha e adormecer. Mas…

 

De olhos fechados, mas acordado, começo a pensar nesta crónica e por isso vou alinhavando alguns lembretes mentais: descrição do prazer que é passar as férias na praia, abordar rotinas, falar do esplendor do convívio com os veraneantes, colocar um pouquinho de sal e pimenta no final com uma leve menção a Pedro Passos Coelho e António José Seguro, rrrr…  Então não é que o PPC… shshsh… Já para não falar do AJS que… zzzz… Resumindo e concluindo, estamos bem trama… zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz~

 

PS (primeira parte) – Conversa (escrita) entre um ex-ministro da educação e um professor no grupo do Facebook “Um Sorriso por Portugal”. JDJ: Quanto o acto de SORRIR é um acto de esperança no futuro. Por vezes não imaginamos a força que pode ter um sorriso. JM: Há qualquer coisa que me ultrapassa em tão vãs palavras. Se os lugares comuns pagassem imposto… E saber que o meu amigo foi ministro da educação. JDJ: Meu caro amigo João Madureira, se assim fosse não queria estar na sua pele, depois de ler o seu último texto. JM: O seu acto de sorrir é tocante. Sorria caro Justino, sorria… O meu amigo está nos apanhados.

 

Um pouco mais à frente, o JM foi expulso do grupo que se auto-intitula “Um Sorriso por Portugal”.

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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