12 anos
Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

Quem conta um ponto... A toleima do D.

 

A toleima do D.

 

Ontem o D. chegou ao pé de mim possesso. Nem sequer pediu café, ou umas águas ou o que quer que fosse. Desde que o “seu” primeiro-ministro anunciou ao país que lhe ia cortar, desde já e dizem que para sempre, quatro meses de reforma em dois anos, anda mais amuado do que um peru. E se fosse só a ele, ainda vá que não vá, mas pensando que a sua esposa também é reformada e que os dois filhos são professores e estão casados com duas funcionários do Estado, dá para ver a razia que vai lá pela família.

 

O R. atirou-lhe de supetão: “É-te muito bem feito. Quem é que te mandou andar a agitar a bandeira do Pedrinho e a soprar no apito laranja. Mais te valia teres ficado em casa a tratar dos netos e a dares carinho à mulher. Vais ter de engolir o apito. Ai vais, vais. Devias era pedir explicações à senhora que ajudaste a eleger para o parlamento. Que pronta se colocou ela ao lado das propostas dos terríveis cortes aos funcionários públicos. Também não lhe restava alternativa. Para fazer papel de deputada sentada e deixar correr o marfim, mais valia termos elegido uma estátua, sempre ficava mais barata ao Estado. E com a crise que por aí grassa, todos os tostões poupados para cortar nas gorduras do Estado são bem-vindas. É cada vez mais consensual que dois terços dos deputados são apenas verbos de encher. Por isso, o número de parlamentares deve ser drasticamente reduzido.”

 

Mas o D., como se tivesse enlouquecido definitivamente, continuava a toleimar na sua ladainha. Tive pena dele, apesar de ser um laranjinha dos quatro costados. Mas, confesso, também não tive tempo para ter muita, porque para mim, e para a maioria dos meus, também os cortes são golpes duros de encaixar depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho e à educação dos meus filhos e dos meus alunos. Por isso, apeteceu-me repetir-lhe as palavras do R., mas, quando olhei para ele e o vi a pressagiar a litania, calei-me. Para sofrimento já basta o que basta. Além disso, apesar de laranjinha, é meu amigo e os meus amigos são meus amigos e pronto.

 

Depois apareceu o F. que lhe disse o mesmo que o R. lhe tinha dito há pouco. Mas quando o viu a rezar baixinho, comoveu-se e meteu a viola no saco. Logo a seguir apareceram os restantes elementos da nossa tertúlia e o fado continuou.

 

“Mentirosos, impostores, aldrabões, intrujões…”, pisava e repisava lentamente o D. como se estivesse a rezar.

 

“Está visto”, disse o R. com o seu ar de menino traquina, apesar de ter as barbas mais brancas do que o Pai Natal, “que vou dedicar-me à agricultura. Talvez consiga produzir alimentos que me deem para comer e vigor para os vender no mercado negro. Poderei, dessa forma, adquirir alguns livros para a minha biblioteca e comprar leite achocolatado para a minha neta, pois são dos poucos produtos que ainda não são taxados com a percentagem máxima do IVA.”

 

E o D., na sua obsessão: “Intrujões, aldrabões, impostores, mentirosos…”

 

O R. tirou do bolso o “Borda d’água” e pôs-se a ler: “Está na altura de, no Minguante, estercar as covas para as árvores a transplantar na primavera, plantar as árvores de fruto e podar, com corte diagonal, as árvores resistentes ao frio. Amanhã de manhã vou preparar os canteiros para a sementeira de alface e cebola e vou, ainda, semear em local fixo agrião, cenoura e rabanete. Depois dos Santos vou plantar os morangueiros, os alhos e as cebolinhas e colocar em local definitivo as couves de primavera e a alface de inverno.”

 

E o D. com os seus olhos mortiços continuava na toleima: “Intrujões, aldrabões, mentirosos, impostores…”

 

Pensei, com tristeza, que já não podia contar com o D. para me ajudar no jardim. Ele que sempre foi muito bom a estrumar e a semear as flores, a plantar roseiras (por favor, não antevejam aqui nada de irónico), crisântemos, lírios, narcisos, tulipas, açucenas, jacintos, junquilhos e anémonas. Além de ser ainda exímio a colher dálias e rosas.

 

Juro que me deu pena vê-lo naquele seu estado catatónico. E ele possesso, desiludido e ultrajado, toleimava: “Impostores, aldrabões, mentirosos, intrujões…”

 

De novo o R., crítico leitor do “Borda d’água”, tentou animar o D.: “Deixa-te lá disso. Descansa que isso, mais do que obra dos homens, é obra dos deuses. Esta maroteira estava escrita nos astros desde há muito tempo. Célia Cadete, no “Juízo do Ano”, dá-nos conta da profecia: “O ano de 2011 entrou num sábado, que é dia consagrado a Saturno, um planeta de movimento lento que leva cerca de 30 anos para completar a sua órbita. Saturno traz destruição, fome, carestia, inquietação, miséria, angústia e tristeza; tem domínio sobre os velhos, os caducos e solitários, os tristes e melancólicos. O ano de 2011 será dominado pela carestia; mas tenhamos fé e lutemos com determinação para reverter a situação.”

 

Aqui, o desavergonhado do L. meteu a colherada: “Por isso é que o D. suou as estopinhas na campanha eleitoral da candidata do PSD, para, com a sua determinação, que propagou aos quatro ventos, ajudar a reverter a situação.”

 

“Qual determinação qual carapuça”, perseverou de novo o R., “deixem é falar a Célia Cadete: “O inverno será longo e frio e com pouca chuva. A primavera será ventosa. O verão irá ser bastante húmido e o outono prevê-se seco e fresco.”

 

“A mulher acertou em tudo. Célia Cadete para o Parlamento, já!”, gritou entusiasmado o L. “Pelo menos sabe o que diz. E di-lo sem papas na língua. Para estátua de pensadora bem nos chega a outra.”

 

E o D. com os seus olhos desmaiados insistia na tarouquice: “Aldrabões, mentirosos, intrujões, embusteiros…”

 

“Ó minha Pátria bem-amada, que bons filhos pariste”, concluiu o R. Todos nos rimos com o sorriso mais amarelo que há no mercado europeu.

 

João Madureira


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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Feira dos Santos 2011

Hoje ficam cinco imagens, vividas por quem feirou no dia de ontem e para flaviense ausente ver a nossa festa maior. Sem mais comentários, pois o ambiente é de festa da terrinha onde até as nuvens se juntaram em rebanho para lá do alto apreciar.

 





 

 

Amanhã há mais, pois hoje vamos à feira do gado.

 


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Domingo, 30 de Outubro de 2011

Chaves, a Feira dos Santos acontece antes da feira

 

Desde já peço desculpas mas até à próxima terça-feira, aqui pelo blog e pela cidade de Chaves, o que está a dar é a Feira dos Santos, a nossa festa por excelência e a prova disso mesmo foi o dia de ontem, que ainda sem a feira ter aberto oficialmente e sem qualquer programa para o dia, a feira já aconteceu com milhares de pessoas a invadir as ruas.

 

Quer queiram quer não, faça sol ou faça chuva, calor ou frio, por muito que lhe mudem o poiso e com a organização apenas preocupada em marcar lugares de feirantes para receber a respectiva contribuição, a feira acontece sempre e é a festa maior da cidade de Chaves.

 


 

Claro que temos pena (eu pelo menos tenho e sei que é pena de muitos) que a organização não saiba aproveitar aquilo que acontece naturalmente (a feira e a enchente de pessoal) para em paralelo ter um verdadeiro programa de festa e de promoção da cidade e do concelho.

 

 

Festa da juventude para os nossos jovens que, estejam onde estiverem por esse Portugal fora, na Feira dos Santos, têm sempre encontro marcado para Chaves e, quase sempre, trazem com eles amigos de outras bandas para conhecer a feira e a cidade. Tirando a oferta da noite dos bares da cidade, nada mais têm. Mesmo assim é festa, agora imaginem se houvesse alguém na organização com capacidade de pensar um pouco nos nossos jovens. Eia, aí a festa seria grande. Mas enfim, temos que nos contentar com aquilo que temos.

 

 

Em termos de promoção do concelho, dos nossos sabores, saberes e valores, da nossa história secular, das termas, de terra de oportunidades sustentadas ligadas ao mundo rural, também se perde anualmente uma grande oportunidade, mas, claro, se a organização nem uma festa de juventude é capaz de organizar, não se lhes pode exigir muito mais para além de abrilhantarem a feira com arruadas de cabeçudos, bombos e concertinas, à moda pimba qué daquilo que o pobo gosta por sinal com uma intervenção agora bem visível na rua de Stº António com as barricas das vindimas a servirem de vasos florais ao longo da rua. Eu não percebo nada de arquitectura urbana e paisagista, mas numa Câmara que até tem um vereador, chefes e alguns técnicos paisagistas, suponho que as barricas bem como os bancos virados para as paredes tenham sido ideia deles, ou pelo menos do seu conhecimento e, sendo eles entendidos na matéria, chego à conclusão que não percebo mesmo nada de arquitectura paisagística e, confesso que com os gostos que ultimamente têm demonstrado na cidade de Chaves, além de eu nada perceber, não quero mesmo perceber, e tenho dito, nem sequer quero falar nos custos da coisa neste momento de crise. Nós pagamos.

 

 

Ainda bem que à margem das entidades e organizações oficiais existe gente por Chaves que se vai associando em associações para promoverem interesses socioculturais e de promoção de Chaves e da região, como tem sido o caso da blogosfera flaviense e dos fotógrafos flavienses e da região que mesmo sem qualquer subsídio e poucas ajudas (pontuais, arrancadas a ferros contra ventos e marés) vão distribuindo e promovendo Chaves em imagem por esse mundo fora além dos eventos que vão organizando ao longo do ano. Claro que aqui fica uma palavra para a LUMBUDUS – Associação de Fotografia e Gravura, à qual a pertencem a maioria dos autores dos blogues flavienses bem como outros fotógrafos e amantes de fotografia, e isto, vem também a respeito da Feira dos Santos porque a LUMBUDUS também tem o seu espaço na edição da feira deste ano com stand e exposição de fotografia no átrio do antigo cineteatro de Chaves, para angariação de fundos destinados à formação e promoção da fotografia.

 

 

Assim o stand e exposição da LUMBUDUS é também um ponto de passagem obrigatório nesta Feira dos Santos onde, para imortalizar o momento, lança uma edição limitada de vinhos da Quinta de Arcossó com 10 rótulos LUMBUDUS.

 

 

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Sábado, 29 de Outubro de 2011

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

Dos Santos santos

 

Querem espalhar-se pela cidade preencher os locais de passagem e fazer-se notar, nascem da algazarra numa mistura agridoce de nostálgico transbordar de flores aos vivos nas memórias e do impingir de géneros e sabores consumíveis aos adeptos de feirar em multidões animadas.


Regressam todos os anos com as tendas de rua e os visitantes que juntam e fazem reencontros entre raças e até oriundos de diferentes continentes juntam culturas de vendas a uns compradores pechincheiros, ávidos pela aquisição de utilidades a preços inúteis.

 


A musicalidade vem do eco da alegria contagiante da multidão, das farturas ,que com pouco enchem, das vozes dos altifalantes dos divertimentos ,da publicidade vocal aos preços da chuva que tornam o produto tão santo de pecador a ser vendido por força das circunstâncias às vezes agasalho  outras mono. Há meias às resmas e tendinhas de sorteios para ajudar as associações a repor fundo maneios para despesas…


Há pedidos de clemência tanto a um S.Pedro compadecido não deixe chorar as nuvens, ou por outra aborrecido e nos seus arrufos as faça pingar de vez  para  se venderem  os chuços.

 


E os abraços de amigos que não se viam há anos recordam vivências tiradas a copos.  Raparigas e rapazes contentes calcorreiam com destreza as ruas cheias de gente sem lembrar os conselhos nem se cansam, e correm ao que anseiam os seus convívios intensos.


Ainda há alguns xailes e bengalas Pessoas que vêm lá da aldeia mais a  monte  a mais uma festa anual  que faz jus a romaria onde todos os Santos dão sorte, é tradição.


Já os comércios da terra, aos Santos, pedem cooperação para se lembrarem deles, que não sendo visita gostam de ser visitados decorando os seus espaços e coleções à disposição de quem queira oferecer ou oferecer-se os santos, esperando que não lhes façam vista  grossa na hora de comprar ávidos por vender para sobreviver .

 


Há os que sem ser santos  vêm aos santos, os não digam  que não sabiam, ou os eu bem que avisei,de modo que acautelem os rosários por se acaso, para ir aos santos sem aborrecimentos


Este ano mais uma vez se pede aos Santos mãos largas… Difícil em horizontes estreitos,mas Santos são santos …


Quem sabe não somos todos ,então vamos aos Santos?


Bons santos a todos

Isabel Seixas

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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

 

A impossibilidade de olhar objectivamente as coisas

 

José Carlos Barros

 

 

 

Apercebo-me de repente, não mais que de repente, que parece ser-me impossível escrever sobre Chaves sem escrever ficção. Não é propositado: é o contrário disso: uma impossibilidade. Não é um artifício literário: é a incapacidade de olhar objectivamente as coisas.

 

Fernando Ribeiro escreve sobre o programa deste ano da Feira dos Santos: leio e sou tentado, assim à distância, racionalmente, a dar-lhe razão. E, no entanto, simultaneamente, apercebo-me da nenhuma preocupação que o caso me suscita. Porque a Feira dos Santos, na minha memória dela, nunca teve programa ou teve programa e o programa sempre me passou ao lado.

 

Apercebo-me de repente, não mais que de repente, que sofro já, irreversivelmente, do síndrome do emigrante. Saí cedo. Os meus regressos são cada vez mais espaçados. E o afastamento levou-me a ser o que julguei durante muito tempo serem os outros com as suas qualidades e os seus defeitos: os que já eram de fora.

 

O tempo passou a devolver-me a cidade de Chaves como um lugar em que a névoa -- não necessariamente o nevoeiro concreto que descia sobre a urbe semanas a fio quando o Inverno começava a insinuar-se -- se misturou à memória até esborratar as fotografias e as deixar em cima das mesas entre o sépia, os vários tons de cinzento e as pinceladas largas de imaginarmos o que terá sido se a realidade não fosse o que é. E a realidade, assim vista de longe, é tudo menos o que haverá de ser.

 

A cidade de Chaves começou por ser a cidade para quem era do mundo rural e a cidade fascinava e desiludia. Mas sempre em grande e em grande estilo: à grande e à francesa: desilusões imensas, fascínios de romance.

 

O que recordo da cidade, o que ainda hoje vivo dela, é essa espécie de concretude feita de ilusão e remorso: magia de ter sido feliz; mágoa de o mundo ser uma esfera tantas vezes fechada contra o seu próprio centro e nos vermos contidos nesse perímetro escuro.

 

Chaves, tal como posso guardá-la, é ainda o lugar onde o cheiro a gasóleo e o mistério da combustão imperfeita se desenhavam no espaço de uma garagem de camionetas de carreira da Auto-Viação do Tâmega. Chaves é ainda a mesa da Sissi com uma taça de vinho branco e meia dúzia de pasteis em dia de feira. Chaves é ainda o sapo do Faustino e o balcão corrido, com um espelho ao fundo, das girafas da Romana. Chaves é ainda as moelas e as imperiais dos Amigos e a orelha cozida do Kambu. Chaves é ainda o espaço lá ao fundo do supermercado onde os melhores rissóis de camarão do mundo custavam três escudos e quinhentos. Chaves é ainda uma garagem com música numa tarde de feriado que nunca mais haveria de repetir-se. Chaves é ainda a escadaria junto à secretaria do Liceu onde subíamos sabendo que era proibido subir a escadaria do Liceu junto à secretaria do Liceu. Chaves é ainda a cobra d'água apanhada fora do leito do Tâmega entre as ervas encostadas à base do paredão. Chaves é ainda a mesa de matraquilhos na Feira dos Santos e a jukebox onde escolhíamos o disco que nos escolhessem. Chaves é ainda, e sempre, o Jardim Público e os plátanos do Jardim e tudo o que essas árvores acolhiam na sua sombra alargada quando a luz da Primavera se estendia contra o sermos jovens. Chaves é ainda o Largo das Freiras quando no Largo das Freiras havia olaias e as suas flores entre o rosa e o púrpura. Chaves é ainda o Sport, o Geraldes, uma tasca de que não recordo o nome porque me recordo de não ter nome nenhum. Chaves é ainda a jeropiga que sabia a petróleo numa taberna que foi derruída para que o progresso tivesse ruas largas. Chaves é ainda a sala dezanove e a escada, debruada a azulejos brancos, que dava para uma porta fechada que levaria, não sendo proibido, para o varandim do ginásio. Chaves é uma noite no Cine-Teatro. Chaves é ainda  a casa do amigo onde ouvíamos a música do comandante Che antes de comermos bacalhau assado. Chaves é ainda a noite a envolver-nos e a fechar-nos desde a Ponte Romana aos Aregos, desde o Tabolado aos Anjos, desde o Santo Amaro a uma taberna da Rua Direita.

 

Não é possível, hoje, imaginar-me preocupado com os problemas de desenvolvimento que se colocam à euro-região, à inexistência de uma verdadeira sala de espectáculos, aos buracos das ruas, à programação da Feira dos Santos.

 

Porque Chaves, a cidade de Chaves, não é para mim, não é possível que seja, mais que uma abstracção. Uma abstracção literária. Uma cidade que não posso deixar de ver pelos olhos do emigrante que sou.

 

Uma cidade que é feita do sol imenso a cair a pique sobre as ruas e os telhados nos meses de Julho. Uma cidade feita de nevoeiro e frio concreto e metafórico.

 

Chaves é ainda, haverá de ser sempre, a cidade a que chegava na camioneta da carreira, criança ainda, a acompanhar o meu pai para se escolher o design de um folheto composto na tipografia que ficava no lugar onde mais tarde haveria de nascer um café moderno que fazia tostas mistas.

 

É assim que os emigrantes vêem os lugares onde se perderam e encontraram. E eu, tempo após tempo, sou cada vez mais esse emigrante que julgava serem os outros.

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:54
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

O Homem sem Memória (73) - Por João Madureira

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

73 – O José continua vigilante. De cima do terraço observa as suas tropas que, também elas, mesmo não parecendo, continuam despertas. Nas terras em volta amadurecem os frutos, as ervas secam e os pássaros cantam alegres. Este continua a ser o Verão do seu contentamento.


Sentado numa cadeira reza baixinho uma oração por si inventada onde exalta o Sol, a Terra, a Água e o Ar. O chapéu à Daniel Boone permanece bem erecto na sua cabeça. Enquanto observa o nascer do dia tem uma erecção e começa o chorar baixinho de verdadeiro júbilo. De seguida entoa, com a boca transformada em cornetim, o hino do amanhecer, para deleite das suas imaginárias tropas, dos galos dos vizinhos e dos cães das redondezas.


A sua mãe, também ela já desperta e a rezar as suas orações, emociona-se com a pequena loucura do filho mais velho. O seminário tem desenvolvido nele uma estranha, mas tocante, loucura fantasiosa. Os irmãos adoram-no.


O José tem feito deles, pequenos conselheiros, confidentes ou filhos adoptivos. Conta-lhes histórias, confidencia-lhes pequenos segredos, enche-os de mimos. Continua a ler imenso. Os livros são o seu verdadeiro mundo. São o território que administra com sabedoria, lealdade, verdade e justiça.


Hoje o cornetim toca também para lembrar à família que está na hora de acordar e preparar toda a logística necessária que permita passar um dia à beira rio.


O dia tem tudo para dar certo: amanheceu lindo de morrer, não há vento e está calor. Além disso, o guarda Ferreira está a gozar alguns dias de licença. Por insistência da dona Rosa, uns dias fuma menos… mas bebe mais. Noutros dias bebe menos… mas fuma mais. O guarda Ferreira continua, para nosso gáudio, o homem equilibrado que sempre foi e continuará ser, se Deus quiser.


Mal acordou fumou um cigarro, mas não bebeu nada. Tratou da sua higiene pessoal, foi buscar os garrafões do vinho tinto e arrumou-os junto à porta. Depois comeu um pedaço de pão com nozes e figos e bebeu um calicezinho de aguardente. Mas não fumou nenhum cigarro. Continua fiel à sua promessa de equilíbrio. De seguida ajudou a acomodar a comida feita de véspera nos cabazes e a dobrar os liteiros e os cobertores. Enquanto a dona Rosa vestiu e calçou os filhos, o guarda Ferreira e o José transportaram e acomodaram toda a tralha na carroça do vizinho Carriço.


Saíram de casa às sete, chegaram, por volta das oito, à margem direita do Tâmega e às nove sentaram-se a comer o pequeno-almoço. Durante o caminho o guarda Ferreira não fumou um único cigarro. Ainda fez uma ou duas tentativas para puxar o maço do bolso da camisa, mas o olhar certeiro da dona Rosa foi suficientemente persuasivo para o inibir da atitude. Pelo caminho juntaram-se a muitas outras famílias que seguiam na mesma direcção e com o mesmo propósito.


Mal dispuseram as mantas no chão, algumas crianças voltaram a adormecer. O José pediu autorização à mãe para as acordar. Ela disse-lhe que o melhor era deixá-las dormir até acordarem. Nessa altura terão fome e será mais fácil alimentá-las. A mãe sorriu para o José e o José sorriu para a mãe. É bem possível que já se queiram mais um pouco. Viver à distância torna-nos mais tolerantes, atenua-nos os defeitos, aumenta-nos as virtudes.


O mata-bicho soube-lhes pela vida. O bacalhau frito e o presunto, juntos com o pão centeio, combinaram bem com a fome e esta também combinou muito bem com a bola de carne, os rissóis, a linguiça e o salpicão. Depois o vinho caiu regaladamente em cima da comida e a comida agradeceu. O guarda Ferreira, em coerência com o equilíbrio prometido, e devido a não ter fumado um único cigarro – se descontarmos um fumaçado a medo quando foi mijar atrás de um casebre e ainda outro durante a penosa montagem do acampamento –, bebeu um litro de tinto bem medido. Seguidamente foi pendurar os garrafões a refrescar na água do rio.


As crianças, por fim, acordaram e puseram-se também elas a comer. As mães começaram a falar-lhes, a dar-lhes mimo e a sorrir, o que combinou muito bem com a boa disposição dos cavalheiros que começaram a falar de futebol e a organizar-se em pequenos grupos. Porque os garrafões de vinho estavam afogados em água corrente, o guarda Ferreira, mais uma vez fiel à sua promessa de equilíbrio, fumou vários cigarros com o ligeiro intervalo de tempo que levava a acendê-los uns nos outros.


Os homens, esses sortudos, como não discutiam política, por não saberem o que isso era, e porque eram todos, ou quase todos, do Benfica, o que não possibilitava o contraditório necessário à manutenção de uma discussão acesa sobre o desporto rei, puseram-se a jogar à sueca. E assim se mantiveram até à hora do almoço.


Na banca onde o guarda Ferreira se alapou para batê-las, ao contrário das outras mesas de sueca, o vinho não entrou. A Dona Rosa tinha dado ordens expressas: “Aqui só joga quem não beber.” Ao que alguém mais bem disposto do que a anfitriã perguntou: “Nem um copinho de água?” Ao que ela respondeu: “Vai à merda Manuel.” Para logo de seguida se ouvir a voz serena do José: “Por favor, mãe, não sejas tão escatológica.” Ao que a família Ferreira em uníssono respondeu, incluído o guarda Ferreira, imitando a voz estridente da dona Rosa: “O que eu sou é escanifobética. Ah, ah, ah!” Ao que o senhor Manuel ripostou atrapalhado: “Não percebo nada do que estais para aí a dizer.” Então a dona Rosa repetiu: “O que eu sou é escanifobética”. Foi a vez do João se começar a rir e dar um peido sonoro como sempre acontecia quando gargalhava com vontade. O que foi aproveitado pelos outros irmãos para se rirem também o que provocou novo peido do João e mais riso nos irmãos e na dona Rosa, a que só não se lhes juntou o Leão, porque já tinha morrido, e o Virtudes porque tinha ficado em Montalegre, sempre num crescendo de hilaridade que nos abstemos de dar conta mais pormenorizada porque, afinal, já foi descrita em dois momentos anteriores. 


O guarda Ferreira, como não bebeu… fumou. E bem, só não chupou os dedos porque necessitou deles para pegar e largar as cartas.


O almoço foi bom. Comeram bolos de bacalhau, azeitonas, presunto, arroz de ervilhas, frango assado e bifes e chicharro de cebolada. Como sobremesa filaram-se no melão. As crianças beberam Sumol, as mulheres mais envergonhadas água e as mais destemidas vinho branco. Os homens enfrascaram-se com tinto. No fim do almoço o guarda Ferreira ainda esboçou o gesto de puxar de um cigarro. Mas como antes olhou instintivamente na direcção da dona Rosa, meteu de imediato o cigarro no maço e serviu-se de mais dois copos de tinto de Arcossó.


Depois do repasto, enquanto o sol apertava, todas aquelas singelas criaturas de Deus, saciadas de comida e de paz, se puseram a dormir a sesta. Ressonaram como cavalos bêbados.


Lá mais para a tarde, sob o olhar vigilante das mães e dos irmãos mais velhos, as crianças atreveram-se a ir dar banho nas águas mansas do rio. Com a algazarra das crianças, os homens despertaram dos seus sonos embriagados e começaram a sorrir e a peidar-se com muita singeleza de espírito.


Esta ocasião hilariante permitiu que o guarda Ferreira fumasse mais um apetecido cigarro. Depois foi jogar as cartas e continuou a fumar ao mesmo ritmo com que perdia partida atrás de partida. A sorte do jogo não queria nada com ele. “Azar ao jogo, sorte no amor”, disse galhofando o par de adversários de mesa da sueca. Mas não levaram o riso até ao fim. Falar de amor na relação entre o guarda Ferreira e a dona Rosa é coisa que nem os pobres de espírito conseguem dizer sem sentirem remorsos. Com coisas sérias não se brinca.


No meio da erva seca os rapazes mais velhos jogaram futebol por entre gargalhadas e pó. Apenas o José se absteve devido a não ser capaz de andar descalço. Ainda propôs que lhe autorizassem a jogar com os sapatos que eram mimosinhos. Mas eles disseram que não, a jogar que o fizesse de meias. Ele assim procedeu, mas o raio das peúgas romperam-se logo de seguida.


Depois de mais uma maratona de cartas e de cigarros, o guarda Ferreira voltou a ser convidado para a merenda. Comeram-se os restos, que, mais do que restos, eram nova e suculenta refeição. Escorropicharam-se os garrafões de vinho e alguns homens mais bebidos, começaram cantar o fado. Por não haver mais vinho, o guarda Ferreira pode terminar o dia fumando os cigarros que lhes restavam olhando serena e calmamente para os filhos e para o pôr-do-sol. Quando a dona Rosa apareceu na sua frente, em contra luz, a lembrar-lhe que estava na hora de regressar a casa, o guarda Ferreira teve uma epifania: viu a sua mulher a morrer afogada no rio. Depois olhou para o filho e arrepiou-se. O José continuava a adivinhar o pensamento dos outros. 

 

74 – Se havia uma coisa que caracterizava as férias grandes estudantis em território nacional é que elas eram ...

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 13:00
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Os Santos da Terra e o Hospital

 

Depois de, ainda há bem pouco tempo, a cidade de Chaves ter 5 jornais locais com publicação semanal, agora resumem-se a 2 semanários, o Notícias de Chaves e a Voz de Chaves. Poder-se-ia lamentar a perda dos semanários que desapareceram se algum deles fizesse a diferença, mas sem eles continua tudo igual, ninguém notou que eles já não estão nas bancas.  Mas vamos passear um pouco pelas páginas da última edição dos dois semanários sobreviventes, mas não todas, pois há artigos de opinião e notícias que se repetem na íntegra em ambos, incluindo títulos, virgulas, etc, principalmente aqueles que querem marcar posição, mais política do que verdadeiramente informar ou esclarecer, nos quais estão incluídos os artigos com origem na fonte no município ou os de opinião das deputadas flavienses (a actual e a ex), que confesso, não costumo perder tempo a lê-los. No entanto, desta vez, a demagogia utilizada no título do artigo da deputada Maria (Tender) chamou-me a atenção “ O PS É O VERDADEIRO RESPONSÁVEL PELA ACTUAL SITUAÇÃO DO HOSPITAL DE CHAVES” e para satisfazer a curiosidade daquilo que já adivinhava, até acabei por lê-lo e cheguei à conclusão que previa – O nosso hospital continua a perder valências e qualquer dia vai mesmo apagar as luzes, mas,  o curioso nisto tudo é acusar o PS da ACTUAL SITUAÇÃO, quando a Câmara Municipal de Chaves é PSD, a Assembleia Municipal é PSD, a Assembleia da República é de maioria PSD, o Governo é PSD e o Presidente da República é PSD e, claro, a Maria Tender deputada flaviense, também é PSD. Não quero com isto dizer que o PS não tenha responsabilidades naquilo que aconteceu ao Hospital de Chaves, pois todos sabemos que foi o governo do PS e o YES SIR  da então deputada socialista flaviense que deram a primeira machadada quase mortal ao nosso hospital, mas com o actual reino laranja (ia dizer que tudo continua igual, mas não) a situação do Hospital de Chaves agrava-se, fecham valências e caminha para o suspiro final. Agora, já não é o PS que tem culpa, nem o Sócrates, do qual nem sabemos como vão os seus estudos de filosofia. Por isso, cara deputada Maria Tender, prometo que não torno a perder tempo a ler as suas crónicas, por muito emocionantes que possam ser para o seu laranjal.

 

 

Mas deixemos a política e vamos até aos Santos, onde tal como no último ano o cartaz do programa vale mais que o programa, mas antes de irmos até ele, fica ainda a referencia a uma pequena notícia da PROCENTRO que se diz Associação para a Promoção do Centro Urbano de Chaves e que bem poderia ser, pois os presidentes dos seus órgãos são o Presidente da Câmara e o Presidente da ACISAT, respectivamente da Assembleia-geral e da Direcção. Então não é (diz a notícia e a publicidade) que as principais artérias da cidade agora se resumem à Rua de Stº António, Rua do Olival e Arrabalde? Então e a rua mais comercial da cidade, que é também a rua principal, não fosse ela a Rua Direita? Mas transcrevo a notícia:

 

 

“ No âmbito da maior festa da região, a Feira dos Santos em Chaves, o Comércio do Centro Histórico da cidade associa-se a este evento, expondo os seus produtos e serviços em plena rua.

 

 

Organizada pela PROCENTRO, ao abrigo da 6ª fase do MODCOM C – Sistema de Incentivos à Modernização do Comércio, esta acção facilita a oportunidade de negócio para os milhares de visitantes desta feira anual.

 

 

As principais artérias do Centro Histórico de Chaves, abrangidas pela Feira dos Santos (Rua de St. António, Olival e Arrabalde) vão ter os seus comerciantes na rua…”

 

 

Os outros, ficam em casa. Boa, ainda para mais a proposta sai da PROCENTRO que é como quem diz – da Câmara e da Associação de Comerciantes.

 

Mas vamos lá à feira e ao habitual programa da(s) barraca(s) onde este ano a abertura da feira não é feita pelas arruadas dos bombos e concertinas, pois este ano a abertura é feita com Arruadas de Zés Pereiras, Eia! viva a inovação. Mas fica o programa, o qual também não vou perder tempo a comentar, pois a sua quolidade diz tudo:

 

Pensado melhor vou deixar algumas palavrinhas à margem (a sépia).

 

 

DIA 29 OUTUBRO

 

18H30 – Sessão de Abertura, Biblioteca Municipal de Chaves

(habitual desfile de fatos, gravatas, condecorações e pavões, incluindo os reais)

21H30 – Concerto pela Banda Sinfónica da GNR, Auditório Centro Cultural Concerto Gratuito com Lugares Limitados: Bilhetes disponíveis na ACISAT  

(ou seja, são quase mais os músicos que os assistentes, pois os lugares estão reduzidos à lotação reduzida do auditório - ai cine-teatro que saudades deixas...).

 

DIA 30 OUTUBRO

 

10H30 – Arruada – Zés Pereiras “ Os Molinos”

(primeiro momento cultural do dia)

15H00 – Arruada – Zés Pereiras “ Os Molinos”

(segundo momento cultural do dia)

15H30 – Actuação do Grupo Amizade, Largo General Silveira

 

DIA 31 OUTUBRO – FEIRA DO GADO

 

08H30 – Feira do Gado, Zona Industrial (junto à Munivel)

10H00 – 9º Concurso Nacional Pecuário, Forte de S.Neutel

10H30 – Arruada – Gueiteiros de La Raia (Miranda do Douro)

12H00 – Festival Gastronómico do Polvo, junto Estádio Municipal de Chaves

(já sei que o polvo à galega é bom, mas para quando uma verdadeira feira gastronómica com os produtos afamados da terra – os pasteis e o presunto?, - continuam esquecidos, né!?)

15H00 – Arruada – Gueiteiros de La Raia (Miranda do Douro)

15H00 – Chega de Bois, Forte de S.Neutel

Organização: Bombeiros Voluntários de Salvação Pública

 (estão a ver porquê é que eu às vezes digo por aqui que também somos barrosões?)

22H00 – Concerto com Grupo Musical ROCONORTE, Pr. General Silveira

00H00 – “SANTOS DA NOITE 2011”, Amiça Bar, Looks Club, Platz

“Uma pulseira, três espaços, três bebidas” (Pré-venda: 5€; Dia: 10€. Oferta da 2ª bebida)

A Rua Direita dos Bares – é só para alguns…

 

DIA 1 DE NOVEMBRO – DIA DE TODOS OS SANTOS

 

10h30 – Arruada – Grupo Tradicional de Ventuzelos

(pelo menos são da terra)

15h00 – Arruada – Grupo Tradicional de Ventuzelos

10h30 – Actuação da Tuna “ A Cinquentura da URS”, Pr. General Silveira

 

 

E, para já é tudo, mais logo temos mais um episódido de "O homem sem memória" de João Madureira.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:57
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

Mais duas imagens e um aviso à navegação

 

Para já ficam apenas duas imagens e um aviso à navegação.

 

Quem costuma comentar neste blog sabe que os comentários são moderados, ou seja, não têm entrada directa no blog sem aprovação prévia, mas entram. É um dos direitos que o dono do blog tem para assim evitar comentários publicitários, linguagem imprópria ou outros abusos que nada têm a ver com a vida do blog.

 

À excepção de um colaborador que assina com um pseudónimo mas cuja identidade é do conhecimento da blogosfera flaviense, todos os restantes colaboradores assinam as suas crónicas com o seu nome. Seria de esperar e mais justo que quem por aqui comenta também deixasse o seu nome (embora a maioria o faça), no entanto não é obrigado a tal, e quer o comentário seja anónimo ou assinado com o nome real ou pseudónimo (identificado), todos têm sido aprovados mesmo que o dono do blog não concorde com o seu conteúdo, principalmente no campo ideológico, no entanto, tal como disse no início, não serão permitidos abusos e um dos que nunca será permitido é o da apropriação abusiva dos nomes ou pseudónimos de comentadores habituais e/ou que se escondam atrás do anonimato para atirar algumas pedradas cobardes aos colaboradores deste blog, ainda por cima com insinuações que vêm vestidas de intriga e politiquice manhosa. Não permitirei tal e embora lamente ter aprovado nestes últimos dias dois comentários desse teor, em nada lamento tê-los apagado posteriormente, principalmente depois de os ler com mais atenção e ter a confirmação por mail por parte de um comentador habitual do uso abusivo do seu nome.

 

 

Mas como por aqui não há censura, quem quiser comentar pode continuar a comentar (e até agradeço o feedback)  e quem quiser mandar umas pedradas, também as pode mandar, mas desde que devidamente identificado, depois o bom senso, ditará o resto…

 

Fer.Ribeiro

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 02:09
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

Apenas uma imagem

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 13:30
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Intermitências - O que move o mundo: as histórias ou a vontade?

 

 

O que move o mundo: as histórias ou a vontade?


Haverá algo mais fascinante que a complexidade humana? E que o inesperado, o acaso, as coincidências da vida inexplicáveis? E que o poder inspirador que a história de um homem desencadeia em outro homem? É isso o que mais nos fascina no cinema, nos livros, nas notícias de jornal, nas letras de músicas, nas histórias que ouvimos no café do costume ou da boca de um desconhecido à saída da padaria… E claro, quem não tem a sua figura inspiradora, objecto de intensa admiração, seja ela Martin Luther King, Gandhi ou Steve Jobs?


Mais tocantes são as histórias nada banais de homens anónimos e comuns, como nós, contadas quase diariamente nos meios de comunicação social, como a do homem que percorre quilómetros todos os dias para calar a fome a carenciados ou a de Ted Williams, o sem-abrigo que virou estrela de rádio após ter espantado um jornalista no cruzamento de uma estrada norte-americana com a sua “voz de ouro”. E lembram-se da história do Miguel Vilar? O ex-piloto de automóveis que apareceu em boa forma e cheio de auto-confiança na imprensa nacional a treinar de bicicleta para percorrer os Estados Unidos, costa a costa, para celebrar o 55º aniversário com o mais brilhante neurocientista português, António Damásio? Isto após ter estado mês e meio em coma na sequência de, num dia como o de hoje, uma pedra de cinco quilos lhe ter caído na cabeça através do pára-brisas do carro. Em Los Angeles, no hospital de Damásio, a operação foi considerada um case study e Miguel Vilar não pagou nada por ela, mas antes o seu irmão voou até aos EUA em desespero para bater à porta do neurocirurgião. Além do “estado vegetal”, Miguel Vilar ainda enfrentou um divórcio e a falência das suas empresas, que até ao acidente lhe permitiam uma vida confortável...

 

Fotografia de Sandra Pereira


O que move o ser humano? O que o inspira? O que lhe dá forças para suportar a existência? Histórias, histórias, histórias. Deste e daquele, lida ou ouvida, inédita ou repetida ao longo de gerações, verdadeira ou lendária, motivadora de feitos semelhantes ou sonhada no impossível. Mas de que serve a inspiração sem acção? De que serve um homem repleto de ideias sem vontade? Tudo se preocupa com as ideias, o estímulo da criatividade, a promoção do inovação e a exaltação do ser diferente. Mas como se gera a vontade de concretizar uma ideia? O que motiva um ser a agir?


Há várias hipóteses: orgulho, vaidade, ganância/ambição, puro altruísmo, instinto natural de sobrevivência (caso de Miguel Vilar), angústia, dor... O que há sobretudo é a busca de um sentido para a vida, um rumo a seguir para nos distrair dela, um calmante para o tédio da existência. É nisto a que o Homem se agarra, à falta de não saber mais nada senão que “pensa, logo existe”.


Daí aparecerem homens que dão a vida por uma “causa”, como Luther King (o mais jovem Nobel da Paz da História aos 35 anos), ou dedicam a vida a lutar por um ideal, como Álvaro Cunhal ou Bento António Gonçalves, 2º secretário-geral do PCP, falecido no campo de concentração do Tarrafal em 1936 e natural de Fiães do Rio, nos confins remotos do concelho de Montalegre. Também aparecem homens que encontram um eficaz calmante para a alma nas artes. São os génios da literatura, da pintura, da música… e também da ciência e da religião. Neste leque, encontrámos muitas personalidades depressivas, doentias ou puramente loucas, mas geniais, com testemunhos intemporais.


Há também gente que se encontra no local certo à hora certa, e nesse preciso e decisivo instante tudo muda, e há a gente “comum”, que encontra um rumo impulsionado pela vontade de outros ou imposto pelas circunstâncias e injustiças da vida.


Há os que não ousam e vivem sossegados no seu cantinho do mundo, entre os afazeres do quotidiano. Não mudam o mundo, mas constroem o seu mundo e o daqueles que o rodeiam. São cidadãos anónimos, cujo nome atravessa apenas as bocas de outros anónimos com que se cruzaram ao longo da vida. Terão seguido a linha do seu pensamento até ao fim? Terão pelo menos tentado “ser” antes de partir? Certamente. E sonhos não faltaram, mas – por constrangimentos e circunstâncias várias – há limites para tudo. Até para a vontade.


Há também os que têm medo de existir. Pensam que não são capazes de criar novidade, de mudar algo na sociedade ou na vida dos que admiram e amam. Tentam, timidamente, mas ao primeiro obstáculo desistem. Comem o pão que a vida lhes amassa. E tomam-lhe o gosto. Mas continuam a ter a vontade, a angustiar-lhes o pensamento.


Seja o que for o que move o mundo, certo é que as histórias não nascem sem vontade e a vontade precisa das histórias para se avivar. É como a história do ovo e da galinha: gostámos sempre de saber quem conseguiu alcançar o que sonhamos, regozijámo-nos sempre em saber quem conseguiu levar a melhor sobre um mundo injusto e desigual, queremos sempre saber a história de quem sofre mais do que nós… E depois de ouvi-la, há quem continue a seguir caminho e há quem siga o lema de Steve Jobs, que anos antes de ser vencido pelo cancro, sem qualquer “jogada” de marketing como era habitual, deixou uma frase histórica na Universidade de Stanford: “Stay hungry, stay foolish”. Traduzindo para português, é juntar a “fome” à vontade de comer.

 

Sandra Pereira

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 22:45
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Quem conta um ponto... O cansaço dos alfaiates

 

O cansaço dos alfaites

 

Não dou por mal empregues todas as horas que caminho no parque Polis da cidade. O Tâmega tranquiliza-me, as poucas árvores fazem-me desejar que se plantem mais e o sol de fim de tarde sempre me fascinou. Os passeios são um bálsamo para os olhos, para os pulmões e para a corrente sanguínea.

 

Agora que a água está mais estagnada, costumo reparar nos alfaiates (e pensar que cheguei a acreditar que estes insectos de patas longas só deslizavam por cima de água límpida e corrente, quem me manda a mim ser tão crédulo) a correr de um lado para o outro e, por cima, reparo em vários enxames de mosquitos. Por vezes oiço um que outro estampido, que presumo serem peixes a saltar na água. Nas margens consigo avistar algumas rãs. Torrões de lama desprendem-se da margem e ouve-se um borbulhar por debaixo da água. Folhas secas, como memórias, movem-se lentamente à superfície. Quase sempre paro para ficar a olhar para elas. No espelho turvo do lençol de água, os ramos das árvores, e os pássaros que os ocupam, perdem a possibilidade de se refletirem.

 

Cada vez há mais pessoas que se deixam arrastar pela indiferença. Como se sofressem de um cansaço prolongado. Por isso tendemos a ver as coisas isoladamente. Fixamo-nos nos contornos, como se nada mais exista para além deles. Tudo vemos e ouvimos instantaneamente. Não há tempo para pensar. Ofendem-nos e nós, em troca, ofendemos. Todos os discursos são jogos de palavras. Tudo nos parece natural: a mentira e a verdade, a mentira como verdade, a manipulação como realidade. Deixamo-nos fascinar pelas minudências, pelos artefactos, pela hipocrisia dos indiferentes, pelo imobilismo. Estamos tão vazios como os quartos de uma casa abandonada.

 

Ouvimos falar em força. Na força das ideias, na força dos argumentos, na força da razão. Olhamos em volta e a força do argumento de quem nos dirige convenceu-nos que éramos especiais, e que eles, além de especiais, eram superiores. Eram os génios que iam fazer avançar o país, a autarquia, a sociedade. E se não fosse em marcha rápida, pelos menos iriam fazê-lo em andamento um pouco mais lento, mas, também por isso, mais seguro, rumo ao progresso. E isso era música para os nossos ouvidos. Mas eles estavam, e estão, longe da verdade. Apesar de plebeus, dão-se ares de uma certa nobreza que sempre foi alvo de algumas concessões. Lembram-me os aristocratas britânicos que até meados de século passado tinham autorização legal para mijar, se tivessem vontade, nas rodas traseiras das carruagens. Eles e os seus cães… de fila.

 

Noto que as pessoas nunca se observaram umas às outras com tanta hostilidade como nos dias de hoje. O povo gosta de opinar e de agitar bandeiras e de se manifestar. Mas quando se trata de defender os seus interesses é uma nulidade objetiva. Não exige, mendiga, deixa tudo nas mãos dos outros. Com o desempenho político do governo, e da autarquia, acho que descobri o que torna idêntica a expressão dos portugueses: é o equívoco. Sentimos que fomos iludidos. Fizeram demasiado ruído em volta das propostas concretas. Resta-lhes a insustentável leveza da vacuidade.

 

Eu sei, todos sabemos, que quando alguém se vê cercado por rostos calorosos nas campanhas eleitorais, muitas das nossas dúvidas e objeções tendem a desaparecer. Mas agora também sabemos que quase todas as mentiras e hipocrisias são assim. A verdade política é momentânea. Isso é notório no olhar dos atuais dirigentes, neles não há um pingo de razão. Sentimos que erramos. Só não sei se há tempo para voltarmos a errar.

 

Não consigo suportar a ganância, a inveja, a gorda satisfação da vanglória, os ódios e destruições, a falsidade, os rancores. A minha capacidade de tolerância está cada vez mais baixa. Por isso sinto que se torna necessário escolher para nos dirigir alguém com capacidade para olhar os nossos problemas com mais clareza, que não se rodeie de indefinições, arranjismos, que se liberte, e nos liberte, de oportunistas, medíocres, conspiradores e judas, sempre prontos a vender o líder por trinta dinheiros. Além disso, também devemos evitar deixar-nos comover por aqueles que derramam lágrimas como os pinheiros largam resina.

 

Dizem os historiadores que nos tempos da rainha Isabel, os barbeiros tinham alaúdes e guitarras na barbearia para que os cavalheiros que estivessem à espera pudessem cantar e tocar. É que demorava muito tempo a arranjar as barbas e os caracóis que se usavam na época. É tempo de ganhar tempo e conseguir que as instituições públicas despachem o serviço de forma célere e competente. É que o povo não sabe tocar guitarra, só bombo e ferrinhos.

 

Relativamente ao poder autárquico, penso que a maioria dos vereadores considera que ficar sentado é poder. Os reis ficavam de traseiro sentado no trono, enquanto os plebeus permaneciam de pé. Pascal disse que as pessoas se metem em sarilhos porque não conseguem ficar quietas no quarto delas. É bem possível que o vice-presidente da Câmara nos venha dizer que roguemos a Deus para nos ensinar a ficarmos quedos como penedos. E esperar para votar nele. Mas essa é uma aposta numa raspadinha que quase nunca sai e quando o bilhete vem premiado o valor pecuniário é anedótico.

 

Quanto ao actual presidente da autarquia, é possível que conheça bem aquele quadro de Henri Rousseau (A Cigana Adormecida) onde a viajante cigana árabe adormece ao lado do bandolim enquanto um leão olha para ela. Somos todos levados a pensar que o leão respeita o repouso da mulher, que a imobilidade da cigana controla o leão. Mas, a ser assim, isso é magia. E a magia é sempre um truque bem exercitado.

 

É muito provável que o atual poder autárquico tenha adormecido por cansaço. Mas isso não nos pode levar a pensar que basta acordá-lo para que faça aquilo que não foi capaz de fazer até ao momento. O seu tempo de validade foi já foi ultrapassado. Por isso temos de atuar como nos aconselham os bons hábitos. Aproxima-se a hora da sua substituição. É a lei natural da vida. Todos os ciclos têm o seu fim útil. E este não é exceção. Fazemos votos para que não o tornem inútil. Há que renovar a esperança. Há que mudar de vida. Há que encontrar novos protagonistas. Há que construir uma alternativa válida e coerente. E a tão árdua tarefa não admite exclusões.

 

João Madureira

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Austeridade, mas só para alguns

 

Eis o novo visual da Rua de Stº António. Os mais atentos darão conta da diferença, os mais distraídos, pela certa nada notarão de diferente, mas eu ajudo – a faixa central subiu 10 cm ou seja, deixou de haver desnível entre a faixa central em cubos e as faixas laterais (antigos passeios) em lajes de pedra.

 

Está bem assim!? – Está sim senhor. Eu próprio, quando há 10 anos atrás fizeram esta obra defendi esta solução, pois havia então a intenção de fechar a rua ao trânsito, mas o poder da altura decidiu cumprir o projecto e o poder que o sucedeu manter o trânsito. E poderia ficar por aqui com a minha escrita se…

 

- Se a rua fosse para definitivamente ficar sem trânsito;


- Se a rua estivesse em mau estado de conservação;


- Se o momento financeiro que atravessamos não fosse de crise;

 

Apenas estes três ses e justifico-os:


- Ao que sei e a cometer-se o erro de avançar com o estacionamento nas traseiras do Faustino, nunca mais a Rua de Santo António ficará sem trânsito. Assim sendo a anterior solução garantia e regrava melhor o trânsito na rua, sem por em perigo os peões e sem criar condições para estacionamento abusivo que agora inevitavelmente ira acontecer, a não ser que ao longo dos passeios plantem pedras ou clipes (como é costume e para mais tarde retirar), onde é pior a emenda que o soneto;


- A Rua estava em mau estado de conservação? – Não, não estava. Então para quê gastar o nosso dinheiro (porque somo nós que pagamos) em obras desnecessárias!?


- Finalmente a crise, pois o momento não me parece o mais indicado para estes luxos de desfazer o que está feito, e bem feito, quer se concorde ou não com o que estava feito. Uma obra destas num momento em que o governo nos começou a roubar nos ordenados e a castigar com impostos por devaneios idênticos, que nos exige e obriga a poupar, não é uma obra, é um insulto.

 

 

E por falar em luxos, deixo-vos com um luxo de imagem, tomada ontem ao fim da tarde onde, para além da beleza do olhar, se compreende bem o porquê de nós sermos transmontanos, que no meu caso é com muito gosto.

 

 

 

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Domingo, 23 de Outubro de 2011

Treze Contos do Mundo que Acabou - As voltas que o mundo dá

 

 

 

 

Conto XII

As voltas que o mundo dá

 

          - Vinde ver um carro sem bois, que está lá baixo à beira do Santo!


As chispas daquele alvoroço rastilharam pelas ruas e canelhas mais depressa que as línguas do fogo lambem a agulheta ressequida pelo chão dos pinhais em Agosto. Daí a nada, quem não era manco corria caras ao fundo do povo com quanto fôlego as pernas podiam desgastar, antes que a estranha coisa sumisse ou a levassem de volta as artes do mafarrico. Embora, em boa verdade, não deixasse de causar estranheza que o chisme estivesse aparcado à sombra da capelinha do Santo, sendo que fosse cilada do tinhoso, que estas coisas, como se sabe, não costumam emparelhar…


          - Andai lá, desamparai-me a loja e deixai espaço para a manobra, que o recado está dado e a mim não me falta que fazer ainda hoje!

 


Era o vozeirão do Domingos Lomba a ditar sentenças, empertigado de prosápia, boina descaída sobre os olhos, camisa espeitorada, os braços arremangados de roda do volante e o pescoço torcido para trás, a medir a distância às pedras da parede, enquanto o escape arrotava a fumaceira negra da gasolina em que se empanturravam os cilindros do Prefect. Nunca antes ali tinha aportado semelhante coisa, e muito embora já todos tivessem escutado dizer que havia carros que não precisavam que os puxassem as bestas, contavam-se pelos dedos de uma só mão os que tinham posto os olhos num automóvel. Fosse como fosse, não cabia dúvida, era coisa bonita de se ver, apesar da muita poeira a deslustrar os cromados e um que outro buraco ratado no tecido puído dos estofos. Aquele era o primeiro frete que o Lomba fazia, desde que, aqui a atrasado, tinha ido ao Porto pelo carro - transportar a Berrande os cinco músicos galegos de Castrelos que a Comissão dos Solteiros chamara para animar o povo na festa do Santo, mais as gaitas de foles e o restante instrumental, como pertencia. Bem atacadinho, coube tudo, bem embora o bombo reboludo, de aduelas tamanhas como as de uma pipa, tivesse que ir amarrado na dianteira contra a grelha, de modo que o Domingos por diversas vezes, enquanto durou a viagem, se viu obrigado a verter uns canecos de água do regueiro no fervilhar esbaforido do radiador. Sobre a pele retesada do bombo, maçada de milhentas pancadas, avultavam escarrapachados em perfeita caligrafia uns dizeres a tinta azul, de roda de uma vieira peregrina - Gaiteiros do Camiño. A chusma de canalha que ali se juntou é que não quis saber de gaitas nem de gaiteiros e correu desaustinada, rodeira abaixo, atropelada pelo caincar desesperado dos rafeiros, a enfarinhar-se no polvorinho mágico que os rodados levantavam. Agora, que finalmente o espanto embasbacado cedia lugar à risada das mulheres e os mais entendidos na matéria até botavam faladura de assombrar os pategos, já os mordomos podiam dar ordem para os gaiteiros começarem a arruada. Pagara a pena, sim senhor, aquele desassossego no fim da manhã, e o mais certo era o senhor abade, que havia de estar a chegar para rezar a missa, falar do assunto na prática, mal acabasse de decifrar as leituras sagradas.

 

          A capela não tinha dentro espaço onde todos coubessem, mas a alguns menos devotos pouco se lhes dava ficarem em pé, arrimados às colunas do coberto exterior, que sempre estavam mais à larga e podiam continuar a alanzoar à boca pequena sobre o sucedido, e ao fim, cumpriam a santa obrigação como os demais.


          -Irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, que padeceu por nós e foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e subiu ao céu, onde está sentado à mão direita de Deus Pai, com a multidão dos santos, dos anjos e arcanjos de redor da Trindade Santíssima, viestes hoje aqui para honrar o divino arcanjo São Miguel, vosso padroeiro, guardião das almas e carrasco do ardiloso Belzebú, a quem Deus permite desde o princípio dos tempos a tentação dos homens, pobres mortais peregrinos neste vale de lágrimas, filhos do pecado que maculou a harmonia do paraíso terreal, a fim de que neles se possa operar o mistério da redenção, pelo qual enviou até nós o seu próprio Filho, para que a todos nos resgatasse das garras peçonhentas do pecado e nos fizesse partilhar da sua divina glória, até à consumação dos tempos …

 


O Ramiro, sentado cá fora num degrau do cruzeiro, estava em pulgas para ouvir o padre esconjurar um vade retro sobre o carro mais o diabo que o trouxera, e não parava de chiscar o Artur que arreguichava as orelhas para não perder pitada do sermão.


          - Esta conversa já nós a escutámos um cento de vezes… Será que ninguém lhe contou do carro do Lomba?!


          - Espera mais um cibo, escuta até ao fim. Não me finto que as bedeiras das mulheres não lhe tenham já levado a novidade. Até rebentavam, se lho não dissessem!


O certo é que o abade deu por terminada a prática, nos modos e responsos habituais, e nem no assunto tocou. Cá fora, entre a admiração e a desencanto dos que se sentiam defraudados, começava a debandada sorrateira muito antes do ite missa est.  Uns, porque tinham de ir espertar o forno para assar o anho, outros, porque ainda iam botar um olhinho às crias, rápido o largo de roda da capela ficou deserto que nem um final de feira, e só os que estavam dentro, mais por vergonha, que por devoção, mastigaram com impaciência o resto das jaculatórias num latinório mal engrolado, até desandar cada qual à sua vida, a dar conta do almoço melhorado.


          O padre Alfredo estranhou o desassossego das velhas, que não paravam de bichanar, mas não se deu por achado e breve despiu a paramenta e meteu pés ao caminho, direito a casa do Abel Tendeiro, a saber do rancho. Antes da missa já a Carminda lhe tinha lembrado que contavam com ele, se sua reverência fosse servido, como era de hábito nos demais anos.


          - Deus Nosso Senhor abençoe esta casa e todos quantos nela se recolhem. Cá me tendes, conforme o prometido, e olhai que trago fome!


          - Pois vem em boa hora, que acabo de tirar o cordeiro e as batatas loiras do forno. Faça favor de se sentar, que vou abaixo à adega por vinho, e já lhe faço companhia. Oh Carminda, chega-me daí a caneca de quartilho, que quero que o senhor abade prove do pipinho que incertei para a festa; ele depois me dirá alguma coisa…


Desafogou o pescoço papudo do sufoco da sotaina e amesendou-se sem mais cerimónia, e quando o Abel voltou com o vinho, já ele tinha lançado mão a uma tora de presunto velho, de onde a faca tirava lascas de um sabor capaz de quebrar a abstinência quaresmal a um santo.


          - Oh Abel, bota lá então um copo, que já estou a ficar embaçado de tanto comer sem beber nada. É do tal?


          - Beba mais outro, e diga-me lá se não é uma pinguinha para dar vida a um morto!? As uvas são de uma vinha que já o meu pai trazia sobre a Teixugueira, onde bate o sol de manhã à noite e não é tão atreita às geadas como as que são viradas ao povo. O presunto tem dois anos e é para se comer, que está no ponto, senão, quando tal, seca demais e já nem os dentes o rilham como deve ser.


          - Sim senhor, está tudo como pertence e Deus manda, mas ainda tenho que guardar fome para o cordeiro e para as batatas, que do jeito como a Carminda o prepara, não quero que haja segundo em toda a freguesia!


          - E o senhor abade que me diz do caso que sucedeu esta manhã? Por certo já escutou dizer que o Lomba apareceu aí montado num carro, creio que lhe chamava um automóvel profeta, atestadinho com os músicos e mais os instrumentos, e lá vinha na esgalha, rodeira acima, sem besta que o puxasse… Que lhe parece?


          - Automóveis, já há muito que os há na cidade, onde as estradas são mais a direito e o povo parece que tem mais pressa no que faz, agora lá isso do profeta só os que na Bíblia Sagrada anunciavam a vinda do Messias… Não será que o nomeou pela marca, que fosse um Prefect?


          - Decerto seria, mas ficou tudo assarapantado com a criatura e não faltava quem tivesse receio que fosse coisa do demónio… Estavam todos à espera que o senhor falasse na missa a respeito do assunto, mas como não disse nada, a maior parte ainda não está crente. Não seria pior, ao acabarmos de comer, o senhor ir por aí pelo povo e dizer umas palavrinhas que sossegassem mais a gente.


          - Se é essa a questão, lá farei como dizes. Para tudo tem de haver uma primeira vez. Vais ver que de ora em diante depressa se habituam, que o mundo, meu caro Abel, já dizia o sábio Galileu, é uma bola que rebola, sempre em constante movimento no relógio do firmamento, e a cada dia que passa traz sua novidade.

 


Conforme discorria sobre um mundo em mudança permanente, o padre Alfredo não achou melhor exemplo que a travessa do cordeiro posta no meio da mesa, por sinal com o naco mais apetitoso virado para o Abel, e botou-lhe ambas as mãos para a rodar, assim à moda de um globo terráqueo numa classe de astronomia, e deixar o melhor pedaço da carne mais a seu jeito.


          - Será como diz o senhor abade, que lá o lê lá o entende, e quem sou eu para dizer o contrário?! Mas, cá por mim estou em crer que o mundo, sendo assim redondo, tanto anda como desanda! – e deitando também as mãos à travessa girou-a de novo ao revés, de forma que o quarto do cordeiro voltasse para a beira dele…         

 

Herculano Pombo

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Outeiro Seco e o que resta do Solar dos Montalvões

 

Tal como ontem, hoje continuo a recorrer ao meu arquivo fotográfico para vos trazer aqui algumas imagens e, se às vezes dá gosto percorrer e rever as imagens de arquivo (não muito antigo), outras vezes revolta ver aquilo que ficou registado. É o caso de hoje.

 

São imagens de uma das construções, um solar neste caso, que há coisa de 20 anos atrás, embora desabitado, era uma das construções mais nobres e bonitas do género (solares) que existia no concelho de Chaves. Pertença da família Montalvão (Montalvões de Outeiro Seco) que o cuidou e manteve na sua integridade e beleza até que foi vendido nos anos oitenta à Câmara Municipal de Chaves, para aí acolher uma universidade. Se a ideia era nobre depressa caiu por terra e as razões são conhecidas por todos. Na época o futebol era mais importante que as universidade e enquanto o povinho andava contente e enganado com os grandes feitos de um Desportivo na primeira divisão, à margem, negociava-se… mas não eram universidades.



Com a compra do Solar dos Montalvões de Outeiro Seco, começou também a sua decadência e como passou a ser coisa pública (ou da Câmara que é a mesma coisa), o Estado (ou a Câmara), que olhasse por ele. Mas não olhou. Acontece que embora coisa pública, também é património, e de interesse, e como tal, para além de ser coisa pública, é de todos nós e de quem lhe está próximo, ainda muito mais. Mas não. Não foi. A Junta de Freguesia que deveria ser a primeira a preservar o seu património, além de fechar os olhos à degradação do solar em nada entreviu para o salvar e nas poucas intervenções que fez ( e se não fez foi com o seu conhecimento) foi para destruir parte das construções anexas existentes no seu pátio exterior. Mas não só o Estado (Câmara e Junta de Freguesia) são culpados, pois o povo de Outeiro Seco também o é, directa ou indirectamente. Directamente nas pilhagens e vandalização do solar, com mais significado na sua capela da qual apenas sobraram as paredes e, indirectamente responsável ao não denunciar os culpados do vandalismo e pilhagens, bem como o estado moribundo do solar. Ninguém fez nada por salvá-lo da ruína e se gente houve que ousou, as suas vozes foram silenciadas e pela certa não lhe faltaram dedos apontados.

 

 

Custa-me sinceramente ter este tipo de discurso num blog que até se propunha mostrar aquilo que temos de bom, mas denunciar também é um dever de cidadão, principalmente quando é de património que se trata e, se esse património é público, então o nosso dever da denúncia aumenta. Talvez agora que todos nós somos culpabilizados e penalizados pelos erros que os políticos foram cometendo nestas últimas décadas nos comecemos a dar conta que denunciar é preciso e que a coisa pública, quando é para pagar, também é nossa.

 

Claro que no presente caso (Solar dos Montalvões) apenas indirectamente contribuiu para a crise financeira actual, pois nele não foi gasto um único tostão (agora cêntimo) para além do valor de aquisição, mas perdeu todo o seu valor ao adquirir o estatuto de ruína, mas já ao lado, na freguesia, foram gastos uns milhões largos de euros em instalações, infra-estruturas e acessos que não funcionam e todos estamos a pagar. Mais valia nada terem feito e terem dispensado meia dúzia de euros para, pelo menos, não deixar degradar o Solar de Outeiro Seco.

 

 

Já sei que estas palavras vão fazer alguma comichão a  alguma gente, mas têm bom remédio – que se cocem e enquanto o fazem podem aproveitar para contabilizar a sua quota de culpa na situação.

 

Ainda antes de terminar tenho que fazer aqui mais um apontamento, pois estava a ser injusto, pelo menos para uma pessoa, que nesta fita até faz o papel de bom e é outeirosecano. Trata-se da pessoa que em boa altura se deu conta que os santos da capela do solar não estavam seguros e intercedeu para que fossem retirados e guardados na Câmara Municipal, onde ainda penso estarem em bom estado de conservação, mas como sempre destes pequenos mas grandes feitos não vai rezar a história e nela, como a maior parte das vezes, ficam apenas registados os feitos e nomes dos que menos merecem, mas que têm ou tiveram influência para nela constarem.

 

Ao meia dia temos por aqui mais um conto do mundo que acabou, de autoria de Herculano Pombo.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:52
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Sábado, 22 de Outubro de 2011

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

 

Dignidade

 

 

 Estava a pensar “Quanto” custa poder viver com dignidade, encontrar a receita para atenuar a revolta dos que se  vêem  sem oportunidade…

Há quem se sinta rico por poder viver no seu País e há já quem seja olhado com desdém por querer viver no seu país com menos mas com mais…Proximidade dos Seus .

 

Chamamos qualidade de vida e dignidade ao ter o arrojo ou será o chamamento da sobrevivência em ir… De facto não há oportunidades , ou há?

 

A dignidade peca quando se desliga da esperança do não poder deixar  escolher, por outro lado a sua picardia obriga a uma construção, através do sacrifício, que ousa enfrentá-la nos seus moralismos  do ter de ser contundente na sua ausência por ter sido gasta ,talvez  a rodos.

 

Todos tentam seduzi-la e obtê-la e nas alternativas que emanam fazê-la reaparecer em nuvens de dar o tirar como se fossem ganhos , aí só peca se der em tirar o essencial não o supérfluo, e da sua racionalidade em definir o essencial como se Ele não fosse para alguns o supérfluo, e em ter de tirar o supérfluo como se ele não pudesse ser  o essencial.

 

Estava à procura

 

De uma verdade

 

Que nos servisse sem que se risse

 

E sem clausura

 

Nos trouxesse a luz da dignidade

 

Mas sem pecar  é difícil…

 

 

Isabel Seixas

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publicado por Fer.Ribeiro às 19:27
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