12 anos
Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Crónicas Ocasionais - Não neva, nem chove

 

“Não neva, nem chove”

 

 

 

O Inverno vai seco.

 

Não neva, nem chove.

 

A nortada, mais apressada, é que nos ia fazendo lembrar em que Estação do Ano estamos.

 

Já se encolheu no seu círculo polar.

 

Talvez empolgado pelos entusiasmos dos Carnavais, o Sol começou a madrugar com mais brilho e a encher os dias com mais calor.

 

Já não se vêem sobretudos ou casacos-compridos, e ninguém se lembra das gabardinas.

 

Rua abaixo, rua acima, mulheres aumentam o decote e homens arregaçam as mangas.

 

Os pequerruchos soltam-se da mão dos avós   -   os pais estão no emprego   -, ensaiando fugas para territórios independentes.

 

Os maiorzitos, de sacola às costas, no regresso do Colégio, saltam do autocarro, num frenesim a lembrar a passarada a fazer o primeiro voo  desde o ninho, lá no cimo do choupo, do negrilho ou da macieira.

 

Os automóveis fazem formatura nas Estações de Serviço, tal como os seus condutores guardam vez no Barbeiro, quer dizer, no “Cabeleireiro-manicure-esteticista”, para uns e outros ficarem com melhor visual”.

 

As «assistentes-técnicas-de-atendimento-personalizado-em-loja” apuram-se no puxar do brilho da porta e das montras do estabelecimento.

 

Os passageiros dos autocarros e dos comboios aumentam os decibéis das suas conversas.

 

Os sacristãos dobram a força e as pancadas no toque dos sinos.

 

Nas esplanadas, os copos dos «finos» começam a substituir as chávenas de café.

 

A garrafa do «verde branco» já reclama o «fauteuil» no frigorífico.

 

O alecrim viceja na borda dos quintais, a contar estar mais brilhante e viçoso no Domingo de Ramos.

 

O cuco e a bobela aliviam-se de penas para começar mais cedo a viagem até à NORMANDIA TAMEGANA.

 

À porta das lojas «chinocas», baldes cheios de multicoloridos guarda-sóis de praia atrapalham a entrada e estreitam os passeios.

 

Na compra de artigos, no valor total de cinquenta €uros, com desconto de «vinte- por-cento-em-cartão», os «continentes» oferecem um «pára-sol para o pára-brisas do seu carro».

 

O castiço “Ceroulas” entra no Café, com ar de espanto. E, sem o saber, confirma a secura deste Inverno, o encolhimento da nortada e o madrugar acalorado do Sol. Pede “Um quarto de águas - Vidago”, e acrescenta: - “Ena, pá! Até já troquei as cuecas de perna comprida pelas «trouces» mini-slip”!

 

Do Largo do “Neto de Nantes”, sai para as sacristias das capelas do cardeal da Venda Nova, empertigado, o vice-ministro de cerimónias, empunhando uma pértiga de cartão canelado, coberta com penas de pavão de Castelões e guarnecida com folha de latão, convencido que feita com aço de Toledo e encimada com prata dourada.

 

A presunção absorveu toda a água benta.


 

Estão pra chegar as “águas de Março”   - “promessa de vida”.

 

Luís Fernandes

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:10
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Duas imagens

 

Para já ficam duas imagens de dois olhares e dois momentos da nossa cidade de Chaves. Uma delas, a pedido, vai direitinha para os EUA. às vezes tardo a cumprir as promessas, mas cumpro-as sempre.

 

 

Já a seguir, temos uma crónica ocasional de autoria de Luís Fernandes.

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 01:58
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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Pedra de Toque - José Afonso

 

JOSÉ AFONSO

 

 

            No dia 23 de Fevereiro a rádio e a RTP recordaram Zeca Afonso, falecido exactamente há 25 anos.

 

            Durante cerca de 4 horas de viagem, escutei depoimentos de amigos e admiradores e ouvi, com a emoção de sempre, as suas baladas e melodias.

 

            Os seus textos, os seus poemas, as suas letras, passado este quarto de século, continuam actualíssimos e são demonstrativos da sua cultura inquebrantável da subversão, ele que foi um castigador sem piedade do conservadorismo político, cultural e moral.

 

            Proibido de ensinar, viu censurada a sua escrita de palavras e melodias.

 

            Sempre simples e humilde, viveu até ao fim sem vergar, intransigente, lúcido, com uma integridade intocável.

 

            Tive o prazer e o privilégio de o conhecer e constatei pessoalmente o que afirmo.

 

            Em entrevista a Viriato Teles, dois anos antes de seu decesso (1985), disse frontal: “O que é preciso é criar desassossego. Quando começarmos a criar álibis para justificar o nosso conformismo está tudo lixado…”.

 

            Para acrescentar adiante: “É preciso agitar, não ficar parado, ter coragem”.

 


            Neste mundo, neste país em que os poderosos continuam a semear a injustiça que tanto o revoltava, urge estar vigilante porque “Se alguém se engana com o seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada” eles virão “ em bando com pés de veludo, chupar o sangue fresco da manada”.

 

            O exemplo de Zeca tem de estar presente e a sua obra escutada sempre, mormente nos tempos que passam, porque nós que somos filhos da madrugada só podemos dar-lhe a nossa gratidão, a nossa paga, se abrirmos caminho a uma “ terra da fraternidade” onde “ o povo é quem mais ordena”, como escreveu José Manuel Pureza numa bela crónica no DN.

 

            Nessa busca incessante por essa sonhada terra, que com coragem teremos de atingir, como pediu Zeca, devemos também levar todos os amigos, sobretudo aqueles que são maiores que o pensamento.

 

 

António Roque

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:57
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Intermitências - Luxo com conhaque

 

 

Luxo com conhaque

 


Eram dois amigos à volta de um conhaque. O primeiro estava decidido a marcar uma viagem à Grécia, mesmo que o ordenado como caixa de loja mal lhe chegasse para comprar um par de ténis em saldo. A segunda estava farta do namorado lhe chatear a cabeça por chegar do trabalho quase todos os dias à meia-noite, mas não ganhava coragem para o deixar. Sem motivos para festejos e completamente “à rasca” em ditos tempos de crise, eis que dois amigos se sentam à volta de um conhaque.


- “Sabes qual é o meu “péché mignon” depois do jantar? Sento-me ao computador e percorro uma carga de blogues com dicas de moda, estilo, design, gourmet e viagens…”


Mais do que culto, um homem deve ser moderno e com bom gosto. Um dia destes, encontrei uma camisa parecida com uma de alta-costura por mero acaso numa loja de “pechinchas”… e sabe tão bem sentir-se objecto de desejo… Postado por Primeiro às 19h00.


- Eu lá tenho tempo para esses luxos! Em vez disso tenho de ouvir o meu namorado a choramingar ‘não queres antes ver um filme ou passar mais tempo comigo?’


Ouvi-lo é o que mais me cansa. Pior do que o seu mau humor quando chego à casa, só mesmo quando grita aos meus ouvidos porque não me vou embora à minha hora de saída – 19 HORAS – já que não me pagam nem um segundo extra e se um por único dia saio um minuto mais cedo ainda levo com um reparo. Razão tem ele, mas o meu posto naquela empresa é um objecto de desejo. Postado por Segunda às 19h00.


- “Sabes que estou a escrever um blogue sobre lifestyle?”


- “Para dizer o quê? Só compras em saldos ou às prestações, este ano só me lembro de jantarmos num restaurante por mais de 40 euros no meu dia de anos e nunca viajamos para fora das quatro linhas do país. Não estás a ficar um pouco ‘snob’ para a carteira e vida que tens?”


- “Chama-se “Luxo”. Escrevo sobre os melhores prazeres da vida que encontro nos vários blogues e sites que visito e acrescento as minhas dicas sobre como obtê-las por menos dinheiro”


- “E tu consegues isso? Devias antes chamar-lhe “O Luxo que nunca irei ter”. Porque não escreves antes sobre como conseguir passar da caixa da loja a chefe de equipa, que é no que te devias concentrar em vez de alimentares o teu consumismo e egocentrismo?”

 

 

Fotografia de Sandra Pereira - O mundo não tem cor, Centre Georges Pompidou, Paris, 2005


E à distância de um click... Descobri um site com algumas viagens a preços muito acessíveis. Madrid – 15 euros, Roma – 35 euros, Paris – 40 euros... para esquecer. O meu destino é mesmo a Grécia! Há-de haver um sentido para a existência de tudo e não vou morrer antes de encontrar algumas pistas. Vou começar a procurá-lo na História, no berço da civilização ocidental. Se não achar respostas, sigo procurá-las na Natureza, na Patagónia ou na Sibéria, onde os homens são obrigados a lutar pela sua própria vida todos os dias... Depois disto, não acredito que vá ser preciso ir até Jerusalém, pois o homem é o único ser que acredita na Religião, mesmo que para inventá-la tenha tido alguma motivação… Enfim, mesmo com esta maravilha da rede global, ainda não é desta que a minha conta bancária me acompanha em viagem. Tenho de arranjar maneira de reservar aquele voo à Grécia... Postado por Primeiro às 4h00.


- “Quando é que vais parar com esta estupidez do blogue e de seguir a ‘moda’ da feira das vaidades? Tu não eras assim quando te conheci! Tinhas conversas interessantes, humor negro e bebias conhaque. Agora só pensas em compras e luxos! Tornaste-te numa pessoa materialista e fútil”.


Aquela conversa caíra como uma pedra de gelo demasiado grande para o conhaque. E ele que pensara que ela era diferente das outras… Era educada, trabalhava nos recursos humanos de uma empresa e tinha visão do mundo. Com ela podia cuspir na sua vida monótona e igual a toda a gente, insultar a fealdade do mundo e gozar com Deus... Esse sim, era o verdadeiro “péché mignon” da sua existência. Previa ali uma discussão que poderia ter um desfecho fatal.


- “Pensas que ir ao cinema, ler romances de amor e ver obras de arte não são coisas tão fúteis como procurar um vestido bonito ou comer caviar ao pequeno-almoço? Nunca pensaste que a futilidade e o luxo são simplesmente prazeres? Não é mais divertido passar o tempo a rechear a vida com sonhos luxuosos, devaneios fúteis e prazeres? Os objectos de desejo só existem na minha vida para me fazer esquecer que o mundo não tem cor”


- “O mundo não tem cor em África. E quem come caviar ao pequeno-almoço, que mais ‘sonhos luxuosos’ terá? Se calhar de comer ‘paté de campagne’…”


- “‘Sonhos luxuosos’ é um homem de qualquer país, raça e religião ser capaz de chacinar um povo inteiro para não deixar de comer caviar ao pequeno-almoço. Ou alguma vez te lembras de um mundo sem nenhum foco de guerra, nem que tribal? No final das contas, somos apenas pó e fazem-nos acreditar que o sentimos cá dentro vai para o céu só para não nos suicidarmos todos à nascença! Sou materialista, porque a vida é imaterial. Sou fútil, porque ainda não entendi o que é a realidade. E tudo isto não tem nada a ver com amor nem valores, só tem a ver comigo mesmo. Sim, é verdade, o luxo é egoísta”


E à distância de um click... Um “coup de coeur”. Aquele vestido trapézio vermelho que procurava há meses exibido no post de uma estilista que anda a desfazer-se dos ‘modelitos’ que nunca veste a preços caridosos. Segue a encomenda... E na resposta: “Lamento muito, mas o artigo que pediu está apenas disponível em azul”. Seria aquele vermelho, mas qual a real importância de uma cor na minha tentativa de arranjar mais tempo para ver filmes? O luxo não tem mesmo nada a ver com amor. Postado por Segunda às 4h00.


Sandra Pereira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:30
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Quem conta um ponto... Da expetativa ao imobilismo (III) – Presunção e água benta...(II)

 

Da expetativa ao imobilismo (IV) – Presunção e água benta… (II)

 

Ora então, senhor presidente, vamos lá de novo a mais uma voltinha, mais uma viagem, pela sua “década de progresso”.

 

Na relação que tenho na minha frente, o senhor presidente, relativamente à requalificação urbana, enumera alguns planos de pormenor, pontes e intervenções em locais diversos. Realizações que, bem vistas as coisas, devem fazer parte da atividade normal de qualquer autarquia. O senhor dá-lhe destaque porque pretendeu fazer da sua gestão autárquica um número redondo. De facto, a sua liderança à frente do concelho andou quase sempre às voltas. Às voltas. Às voltas. Mais uma voltinha, mais uma viagem.

 

A sua liderança, titubeante e incerta, por muito que lhe custe admitir, andou à volta das palavras, à volta do improviso, à volta do imobilismo, à volta do não te rales. E a requalificação urbana, apesar do que enumera, ficou muito aquém do que foi prometido e do que era devido.

 

Grande parte dos imóveis do centro histórico ou estão abandonados e a ameaçar ruína, ou, então, para lá caminham. O centro histórico da nossa cidade é sinónimo de abandono, desqualificação, destruição e desinserção arquitetónica. É normal encontrarmos edifícios onde por cima de uma loja recuperada se encontra um ou mais andares desabitados e a ameaçar desabamento. Nada parece fazer sentido. Em suma, o tecido urbano do coração da nossa urbe definha perante a teimosa, ou a apática indiferença, dos senhorios ou inquilinos e o “não te rales” da autarquia. Uma parte substantiva dos edifícios mais antigos da zona medieval de Chaves é atualmente um viveiro de ratos e aranhas. Quando não de prostitutas e toxicodependentes mais atrevidos. À ruína imobiliária junta-se a miséria humana.

 

De seguida fala-nos da valorização ambiental, nomeadamente das margens do rio, e de mais algumas envolventes. Posso confessar que, no meu ponto de vista, o projeto Polis, que o senhor denomina, penso eu, como “envolvente das margens do rio”, para não lembrar o engenheiro de má fama que lhe deu nome e forma, é uma obra que deve orgulhar qualquer autarca digno desse nome. De facto, valorizou imenso o rio e todo o espaço circundante, sendo atualmente um lugar de lazer e de exercício físico que só pode orgulhar uma cidade. Eu utilizo-o todos os dias e sinto-me lá muito bem.

 

Pensei mesmo em dar-lhe publicamente os meus parabéns, mas alguém me avisou (talvez o grilo falante do Pinóquio), que o projeto já estava pronto e em fase de desenvolvimento quando o senhor presidente tomou conta dos destinos da nossa urbe. Ou seja, as obras foram executadas no seu mandato mas o projeto tem outro mentor e distinto impulsionador. E olhe que uma boa ideia e um bom projeto por vezes definem tudo. Ou quase tudo.

 

A dada altura inclui como valorização ambiental as obras executadas no Jardim Público. Ora porra, senhor presidente, o que foi feito no Jardim Público não tem nada de valorização ambiental. O que lá fizeram foi, primeiro, um atentado ambiental, segundo, um assassinato de memória, e, terceiro, um esbanjamento de dinheiros públicos. Sei que foram lá enterrados, pelo menos, 500 mil euros com o resultado que todos sabemos. Era preferível tê-los dado à Misericórdia, ou iniciado outro Centro Escolar. E o que lá foi feito é um atentado ao bom senso e à inteligência dos flavienses. Abateram-se árvores centenárias, arrasaram-se quase todos os canteiros e terraplanou-se o jardim com saibro. Transformam um jardim harmonioso e emblemático num descampado. E nisso gastaram 500 mil euros. Consumiram 500 mil euros a destruir um espaço público de qualidade. Mais lhe valia ter ficado quieto. E se assim fosse ainda possuíamos o Jardim Público que todos aprendemos a amar e a admirar e o erário público tinha ficado um pouco menos endividado. É por estas e por outras que estamos penhorados até à medula.

 

Essas medalhas já ninguém lhas pode tirar, senhor Presidente: o assassinato do Jardim das Ferreiras e a destruição do Jardim Público. Será que tem alguma coisa contra os jardins públicos da nossa cidade? E, infelizmente, é por tais atentados à nossa memória coletiva que irá ser lembrado quando terminar o seu mandato. 

 

Lembra-nos ainda do saneamento em Espaço Rural: cerca de trinta e sete obras. Eu até lhe podia dar os parabéns. E até tencionava. Olhe que tencionava mesmo, pois nasci numa aldeia. Mas não consigo entusiasmar-me a esse ponto. E sabe porquê? Pois, porque é triste que depois de ter fechado as escolas e, consequentemente, ter imposto que crianças e pais rumem à cidade, o que originou que nas nossas aldeias vivam meia dúzia de idosos, algumas galinhas, porcos e um ou outro burro, o senhor tenha feito o saneamento básico para os fantasmas. Agora que às nossas aldeias chegou a estrada alcatroada, a água canalizada, a luz e o saneamento básico, já lá não vive quase ninguém. É esta a nossa triste realidade. Isto não é um país, é mais o filme de um país, e de um concelho, onde tudo chega tarde e a más horas.

 

E também nos fala das acessibilidades. E nos bons acessos à Zona Empresarial de Outeiro Seco. Olhe, senhor presidente, outra grande asneira sua, pois gastaram-se ali milhões de euros para nada. O Parque está às moscas e nas estradas nem os animais passam, nem lá pastam, porque o alcatrão e o betão tomaram o lugar dos lameiros e das hortas. Ficou provado que a equipa que lidera tem mais olhos que barriga.  

 

Relativamente às atividades económicas deixe que lhe dê uma palavrinhas sobre os Santos, desde logo porque não atino com a razão de o senhor presidente citar a famosa feira como um projeto da sua autoria. Desde que me conheço, ela foi sempre realizada sem que eu algum dia me tenha lembrado de a ligar a um projeto da autarquia. E, muito especialmente, da que atualmente lidera. Mas, já que o lembra, deixe que lhe diga que a cada ano que passa a Feira dos Santos vai perdendo identidade, qualidade, interesse e valor económico e social. E sabe porquê? Pois porque a autarquia não tem feito nada por ela. Não lhe tem acrescentado nada. Tem deixado tudo ao deus dará. Ou quando se lembrou de executar algumas obras para a rentabilizar e requalificar, logo as abandonou porque viu que as pessoas não aderiram. Ora esse tipo de projetos devem ser primeiro testados e comprovados. E só depois executados. Mas a câmara que o senhor preside primeiro faz as obras só depois é que se preocupa com o facto de as pessoas considerarem se a infraestrutura que custou muito dinheiro serve ou não os objetivos para que foi construída.

 

 

Depois fala de serviços e cooperação, dos quais saliento a “Modernização Administrativa” e a “Eurocidade”. Relativamente à primeira apenas relembro aos estimados leitores mais distraídos, se é que ainda os há, que a tal “modernização” mais não é do que sanear quem não convém ao vice camarário e colocar no seu lugar os seus servis apaniguados.

 

No que se refere à segunda, desde logo afirmo que é um embuste. A “Eurocidade” é um embuste, uma falácia, uma ficção que não serve nada nem ninguém. Não serve os galegos nem serve os trasmontanos. É um ardil que foi montado para mais facilmente os dois concelhos (Chaves e Verin) poderem aceder aos fundos comunitários. Mas o que a princípio até parecia uma boa ideia, resultou apenas numa dita “agenda cultural” de teor quase ridículo, num mural do facebook para “criar” amigos, em algumas insípidas e enfadonhas visitas do inexpressivo presidente do concelho de Verin e da presença na feira dos saberes e (dis)sabores de uma barraca com fotografias dos caretos galegos, quando não de um trio de caretos enfadonhos e grosseiros que não se cansam de badalar os chocalhos, com que afastam as pessoas de bom gosto e atormentam as crianças mais sensíveis. 

 

Ou seja, a “modernização administrativa” resume-se a um ajuste de contas do vice camarário contra os funcionários competentes que não se vergaram, nem se vergam, aos seus ditames e à sua prepotência, e a “Eurocidade” é um conto infantil destinado a adultos, mas com um enredo muito mal elaborado, com uns protagonistas insossos e uma moral muito próxima do grau zero da honestidade.

 

Antes de terminar, por hoje, não posso deixar passar em branco o fundamento de que a câmara de Chaves, durante os últimos dez anos, investiu em 100 projetos/obras, 125 milhões de euros. Dito desta maneira até parece uma verdade insofismável, um facto indesmentível, um argumento irrebatível. 125 milhões de euros é uma pipa de massa. Pois é, sim senhor. Só que  gastar muito dinheiro não é sinónimo nem de muitas, ou sequer, de boas obras. Mas nem as obras são muitas, nem o dinheiro gasto pela gestão autárquica de João Batista foi bem gasto. Lá esbanjado foi. Mas o resultado é aquilo que todos sabemos: um tremendo endividamento.

 

Mas se fosse apenas isso, o senhor presidente podia argumentar em sua defesa que todos os outros municípios o fizeram e que até o governo da Nação cometeu o mesmo pecado. Mas não nos deixemos iludir pela falácia. A título de exemplo, paradigmático, podemos referir a eliminação ou descaracterização de espaços ancestrais (Freiras e Jardim Público), a teimosia nas obras redundantes (levantamento do pavimento da Rua de Santo António) e o entretém com minudências (as inenarráveis cestas de plástico da mesma rua).

 

Para tais dislates, melhor seria o senhor presidente ter ficado quieto. Mas todos sabemos que não podia. O que já não sei é se os flavienses estão pelos ajustes. E é nestes últimos onde a minha esperança no futuro se torna possível.

 

Urge mudar de política. Urge mudar de vida. Urge mudar de protagonistas.

 

João Madureira

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Mais uma da nossa Top Model Ponte Romana - Chaves - Portugal

 

Nada melhor para iniciar a semana que uma imagem da Top Model de Chaves. Sempre simpática. É sempre um gosto registá-la em imagem.

 

Para hoje temos ainda duas crónicas, a de João Madureira com "Quem conta um ponto...", às 9H00,  e a de Sandra Pereira com mais uma "Intermitência", às 17H30.

 

Até lá, fiquem com a nossa Top Model.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:02
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO - Letras U, V, X e Z

 

GLOSSÁRIO TRANSMONTANO

 

Registo, significado padrão e referência em uso dos falares diversos

dos povos da VEIGA do TÂMEGA e zonas limítrofes da

TERRA-QUENTE e do BARROSO

 

 

U

 

 

ulear - uivar “senti os lobos a ulear lá para a serra”

unhas de fome - sovina

unheiro - miserável, sovina

unto - pingo, gordura do porco para cozinhar

 

 

 

V

 

 

varrer da feira - pancadaria no fim da feira “o valentão, com um pau na mão, é capaz de varrer uma feira sem gente”

vencilho (vincelho,bancelho) - atilho de palhas para amarrar os molhos de centeio acabados de segar

ventana - janela

ventas - cara, focinho

verter - entornar “não deixes verter o vinho sobre a toalha”, despejar líquidos

verter águas - urinar, mijar

vezeira - rebanho conjunto de cabras e ovelhas, levado à vez por cada proprietário

vianda - comida de reco

vido - vidoeiro

vindimo - cesto de verga, próprio para a vindima

virgo sereno - mulher tímida, pouco sensual

volta - movimentação anual de populações de certas aldeias do Barroso, que percorriam a Província a pedir “para a casa queimada”, “cuidado, que o gajo é da volta”

 

 

 

 

X

 

 

xaragão - enxerga

xastre – alfaiate

xis e mis - timidez

xitos - marcas de pau ou ramos de giesta espetadas na terra “andou a marcar as embelgas com xitos”

- chega, alto!, “Xó, que me trepas!”, já estás a abusar!

xotar - enxotar (as pitas)

 

 


Z

 

 

zanguizarra-barulheira monótona

zervada (b) – chuvada forte, granizo

zernideira - espécie de peneira

zicho - esguicho

zilro - andorinhão (apus melba)

zorro - filho bastardo “é zorro do tio João Landainas”

zupar - bater, agredir

zurca - bebedeira “está com a zurca”

 


Para melhor entender o porquê deste LÉXICO-GLOSSÁRIO TRANSMONTANO, ficou tudo explicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/710026.html

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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As Freguesias e os CENSOS 2011 - Águas Frias

Na anterior ronda que fiz por todas as freguesias de Chaves, no resumo final de cada, deixei aqui o gráfico da evolução da população residente desde 1864 a 2001. Fui prometendo ao longo desses resumos, ou mosaicos das freguesias, que traria aqui os resultados dos CENSOS 2011 logo que os mesmos fossem conhecidos. Pois os resultados provisórios já são públicos.

 

 

 

Adivinhava-se que a população rural viesse a diminuir e de facto assim aconteceu. Numas freguesias mais que noutras e salvo raras exceções, a tendência do despovoamento das nossas aldeias é uma realidade que temo se alastre para a cidade, pois todas as medidas centralistas ditadas por Lisboa e a apatia de reação as essas medidas por parte do poder local mas também da população, para lá nos encaminham, pois os números dizem tudo. Vamos a alguns:

 

1960 – 57.243 Habitantes residentes no concelho

2001 – 43.667 Habitantes residentes no concelho

2011 – 41.444 Habitantes residentes no concelho

 

Ou seja, desde 1960, em que o concelho de Chaves atingiu o pico máximo de população, até ao presente ano, o concelho perdeu 15.799, número que até pode parecer pequeno mas que se dissermos que é o número da atual população dos concelhos de Montalegre e Boticas juntos, aí o número já tem outra grandeza.

 

Há ainda outro dado curioso a registar entre os resultados dos CENSOS de 1991/2001 em que a população residente cresceu em 2727 pessoas e os dados dos CENSOS de 2001/2011 em que a população decresceu em 2223 pessoas. Números são números mas o problema está, tal como disse no início, nas políticas centralistas de lisboa e na ausência de políticas de fixação (já nem quero falar de repovoamento) por parte do poder local, mesmo que por aí se apregoe e publicite o contrário, a realidade é outra e bem mais triste – não há projetos para um futuro sustentado de Chaves.

 

Vamos iniciar hoje uma nova volta por todas as  freguesias do concelho com os números do CENSOS 2011,  para cada uma e todos nós,  ficarmos a conhecer a realidade atual. Iniciamos, por ordem alfabética, pela freguesia de Águas Frias, que desde CENSOS de 2001, perdeu 154 das 897 pessoas que tinha nesse ano, ou seja, a sua população residente atual é de 743 pessoas distribuídas pelas 301 famílias, ou seja 2,46 pessoas por família. Dos números tirem as vossas conclusões. Fica o gráfico da freguesia atualizado:

 

 

Para ver o mosaico completo da freguesia, publicado em  1 de Agosto de 2010, siga este link: http://chaves.blogs.sapo.pt/525215.html

 

Ainda hoje, ao meio dia, teremos por aqui o último capítulo do léxico-glossário Transmontano de autoria de Herculano Pombo, com as quatro últimas letras do abecedário.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:52
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Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

HÁ RECANTOS

 

Há recantos que só a nós dizem respeito

Mudos... De espanto conferem-nos esse direito

Guardadores de segredos causam o efeito

Do esconderijo soberbo cúmplice perfeito

 

Há recantos que estão lá na nossa mente

Para abrir em lua cheia e fechar de repente

Difícil tê-los encerrados  em quarto crescente

Extravasam insinuantes alguma réplica excedente

 

Há recantos que eu criei que fui eu que concebi

Fazem-me falta em momentos p’ra me abstrair de ti

Percorro o tempo com eles já fazem parte de mim

Entro neles quando quero só são visíveis assim

 

Há recantos insondáveis para nós e para alguém

Pressentimos a existência quando os nosso se mantêm

Lembram-nos a evidência que os outros  os têm também

São núcleos de clarividência visionários do além

 

Há recantos que teimosamente insistes em desvendar

Ingenuidade arrogante sob a mascara do amar

Respeita-lhes a integridade arrisca aperfeiçoar

A sua individualidade deixa-a ser universal...

 

Isabel Seixas in Espaço  de Ilusão

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 22:26
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Cantinhos do Rio Tâmega

 

Vamos lá honrar o compromisso de trazer a este blog o mundo rural aos fins-de-semana, hoje com três imagens de um cantinho do nosso Rio Tâmega, onde ainda apetece sempre ir e estar.

 

 

Claro que convém não reparar muito nos pormenores e trazer-vos aqui apenas o todo que o olhar consegue captar, porque senão, a conversa começa a descambar para o torto.

 

 

E para terminar estas breves palavras, mesmo sem os pormenores que hoje não me apetece abordar, o Rio Tâmega e os seus cantinhos, ainda nos vão proporcionado imagens como as de hoje. Um pouco de amor pelo nosso rio não ficaria mal, mas, apenas se pede, ou melhor, exige um bocadinho de respeito por ele.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:00
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Hoje não é dia de palavras...

 

Hoje, à procura de imagens, fui parar à pasta de arquivo de fotografias da cidade de Chaves do ano 2009. Dei uma vista de olhos rápida à espera que um clique me despertasse a seleção a fazer, aliás como sempre faço, e parei nestas três que vos deixo.

 

Despois de selecionadas as imagens, fui em busca das palavras para as ilustrar. Hoje foi assim, porque às vezes acontece o contrário e parto à procura de imagens para ilustrar as palavras.

 

 

Chegado ao ponto das palavras, com a página em branco à minha frente, fui pasmando no tempo. Ora olhava para as imagens, ora para a página em branco, ora para as imagens, ora para a página em branco, ora para as imagens ora para a página em branco… até que parei para pensar na minha pasmaceira, e não cheguei a conclusões lá muito brilhantes, ou animadoras, mas, permitam-me que as conclusões fiquem comigo, tal como a intimidade e a cumplicidade do amor, que é só de quem ama e se deixa amar.

 

 

 

 

Pois na pasmaceira do ora olha para as imagens, ora olha para a página em branco,  também fui invadido por sentimentos silenciosos que não tiveram força para que os dedos as transformassem em palavras. Nesses silêncios também havia amor, paixão, admiração, cumplicidade que logo se transformavam em ódio, raiva, abandono, tristeza, solidão.

 

Passada a pasmaceira do ora olha para as imagens, ora para a página em branco, de tanto baralhar sentimentos silenciosos, decidi finalmente que hoje não é dia de palavras.

 

 

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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Recordando Zeca Afonso

 

 

ZECA AFONSO

 

2. Agosto.1929 - 23.Fevereiro.1987

 

ELES COMEM TUDO E NÃO DEIXAM NADA

 


 

por favor, para ver e ouvir o vídeo silencie o rádio na barra lateral esquerda

 

 

 

 

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Uma Foto, Uma Leitura - Amor Sem Tempo

 

AMOR SEM TEMPO

 

O carro parou às oito horas em ponto, no parque de estacionamento do restaurante onde, durante uma vida, o casal Ventura jantara.

 

O parque havia sido alvo de obras para colmatar a falta de cobertura que era o drama das senhoras que investiam o seu tempo para presentearem os cavalheiros com as suas indumentárias e penteados. Passando pelo porteiro, onde incontornavelmente o Senhor Ventura dava uma moeda pela simpatia que o acompanhava ao longo destes anos todos, a porta, com os seus adornos de carpintaria efetuada com cuidado e minúcia para a abertura que havia ocorrido há mais de cinquenta anos, irrompia na vista dos seus visitantes. O restaurante mantinha o seu estilo acolhedor inicial, no hall avistava-se um balcão do lado direito, para quem espera por uma mesa ou quer apenas beber ou petiscar algumas maravilhas gastronómicas que tornam este local tão famoso. Atravessando o balcão, deparamo-nos com o maître que acompanha os clientes para as mesas, a do Senhor Ventura habitualmente reservada de sábado a sábado. A sala de jantar é generosa, mas bastante acolhedora, a decoração das paredes forradas a papel de parede aveludado, cor de vinho, a iluminação quente e amena imanada pelas luzes do teto e candeeiros de parede com abat-jour alumiavam apenas o suficiente, de modo a que fosse complementada pelos candeeiros que ladeavam cada mesa, tornando cada uma delas um espaço único e privado.

 

 “Andas tão calada, não querias vir a este restaurante? Não te perguntei porque vimos sempre a este e digo-te, não consigo cansar-me de vir aqui, traz-me boas recordações! Lembras-te que foi aqui que me disseste que ia ser pai?”. Esticou a mão. “Gosto de sentir as tuas mãos frias e suaves, tal e qual como quando éramos uns moçoilos. Abençoado o dia que te conheci naquele baile. Lembras-te? Claro que te lembras. Parece que foi ontem e já percorremos uma vida, sempre juntos. Primeiro uma dança, depois um namoro seguido de um casamento. Os nossos dois filhos, como são uns bons filhos! E tu já avó de seis netos, com o tempo a passar e cada vez mais bonita?”. Retirou a mão. “Humm...Acho que sei porque andas tão calada, foi porque me esqueci de alguma coisa! Sempre amuaste porque sou um cabeça no ar. Sei que agora não tenho a desculpa do trabalho! Escusas recusar falar comigo, porque mesmo amuada eu acho-te a mulher mais bonita do mundo! Vá, vamos pedir. Bife especial da casa? Sempre gostaste daquele molho que o cobre e o torna macio. Não podemos abusar, mas um dia não são dias. Vou pedir igual para mim.”

 

 

O empregado de mesa chegou e o Senhor Ventura pediu os dois pratos, uma garrafa de água sem gás e meia garrafa de vinho maduro tinto. A sala de jantar estava cheia, ora de casais sozinhos ora de grupos de casais que conversavam, o ambiente era tão intimista que não se ouvia nenhum comentário entre as mesas, apenas se ouvia o som da música ambiente, naquele caso as notas de uma sonata de Chopin interpretada por Arthur Rubinstein preenchiam os vazios de alguns silêncios que pairavam no ar.

 

 “A comida continua formidável, não te parece? Bom, já que te deu para estares calada, falo eu. Esta semana estive a rever umas fotografias. Gostei particularmente de uma que nunca expusemos, é uma em que pela altura do baile. Tu estás na rua, numa praça, e alguém te tira uma fotografia. Não consegui deixar de observá-la durante horas. Lá estavas tu com os teus cabelos fartos, soltos – não dá para ver na fotografia, mas eu acrescentaria que estavam brilhantes tal e qual eu os vi pela primeira vez – de olhar compenetrado, quase diria implacável a quem se atravessasse no teu destino. Já te disse isto várias vezes, mas nunca é demais lembrar-te: o dia em que aceitaste que eu pedisse ao teu pai para te cortejar foi o dia mais importante da minha vida. Só aí me senti completo, só aí me obriguei a ser alguém, só aí se iniciou o ciclo de vida da minha felicidade. Por esse dia, eu dir-te-ei, para sempre, que o meu amor por ti não tem tempo.”

           

O carro do casal Ventura arrancou passava poucos minutos das onze, saiu do parque em direção a casa.

           

A governanta da casa do casal Ventura, na sua ronda antes do deitar, viu a porta do quarto do casal Ventura entreaberta, e a luz de mesa acesa. Bateu e ninguém respondeu. Decidiu entrar. O Senhor Ventura estava de pijama, deitado sobre a colcha num sono profundo e tranquilo, com uma fotografia agarrada ao seu peito.

 

 


 

Fotografia - António Tedim - http://www.antoniotedim.blogspot.com

Texto - Rui Santos - http://www.cognitare.blogspot.com 

 

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O Homem sem Memória (90) - Por João Madureira

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

90 – Quem foi e não voltou foi o José, que se viu expulso do seminário sem apelo nem agravo.


A sua mãe nem queria acreditar. Quando o viu entrar pela porta dentro escanzelado como um cão gritou “abrenúncio” e desmaiou. Os seus irmãos começaram a chorar, o cão a ladrar, os porcos a cuincar na corte e os vizinhos encheram a pequena casa na tentativa de acudirem ao desconchavo da situação. Borrifaram o rosto da Dona Rosa com água fresca, chegaram-lhe às narinas um frasquinho de sais revigorantes e até lhe deram pequenas estaladas na cara, mas ela nada de despertar. Parecia morta. Mesmo o José, que sabia da pose teatral da sua mãe neste tipo de situações, começou a ficar preocupado. Desta vez o chilique parecia sério.


E era a sério. Demorou algum tempo e muito trabalho a despertar a Dona Rosa. Mesmo os vizinhos, e até o cão, tiveram dificuldade em reconhecer o José. “Pareces um pedinte”, disseram-lhe os vizinhos, no que foram secundados pelo latir do cachorro e pelo choro compulsivo do seu irmão Joãozinho que aparentava ter visto o diabo em figura de gente.


Em vez de ser a Dona Rosa a tomar conta do seu escanzelado filho, foi o José quem teve de apaparicar a sua apavorada mãe, que se fartou de chorar e lamentar a sua triste sina. Até este filho, que julgava predestinado ao sucesso eclesiástico, pois tinha falado na sua barriga, teimava em infernizar-lhe a vida.


Tudo eram contrariedades: o pai longe e os filhos a crescerem e a precisarem cada vez mais de comida e roupa e livros para irem para a escola… e o pai longe e os coelhos que lhe morriam com o chamorro e as galinhas que punham cada vez menos ovos apesar de comerem o dobro do farelo e do milho… e o pai longe e os porcos que não medravam e as terras a necessitarem de serem estrumadas e lavradas… e o pai longe consumindo muito do dinheiro em tabaco e vinho.


“Só me apetece fugir para o meio do monte e gritar, gritar, gritar. E morrer. Mas depois quem é que tomava conta dos meus filhinhos. O teu pai de certeza que vos deixava morrer à fome”, lamentava-se a Dona Rosa inconsolada.


Nessa mesma noite foi morta e cozida uma das galinhas que teimava em engordar e em fazer greve de zelo à nobre função de poedeira. A vizinha do lado encarregou-se de tudo. Mesmo o José, que há já muito tempo que fazia voto de jejum, alambazou-se com o pitéu. Mas vomitou-o pouco tempo depois. De manhã acordou febril e deprimido.


Já a Dona Rosa superou o choque, refez-se do susto, recuperou as forças e começou a sua magistratura de influência, pensando que dessa forma podia fazer com que o filho voltasse para o seminário. Mas o que Deus separou jamais os homens poderão unir.


Pensava ela, e bem, com o seu apurado sentido materno, que o primeiro passo a dar seria no sentido de empreender o enchimento do exíguo espaço que se encontrava entre a pele e o esqueleto do filho.


Durante várias semanas, o José esteve sob rigorosa vigilância maternal. Ao mesmo tempo que a Dona Rosa alimentava, com rigor e denodo, as galinhas, os coelhos e os chinos, e cevava os dois recos na corte, administrava igual trato ao seu primogénito. E tão bem o fez que os recos e o José começaram a medrar a olhos vistos. O povo, lá na sua imensa sabedoria, bem diz, para quem o quer ouvir e atentar nas suas palavras, que “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.


Quando no final do mês o guarda Ferreira veio de visita a casa ver os seus e entregar parte substancial do ordenado à Dona Rosa, o José já estava com a figura melhorada. Apesar de a mãe dizer aos filhos que tinham de sentir saudades do pai, pois a boa educação assim o exige, os petizes recebiam-no cada vez mais como a um estranho.


De facto, o guarda Ferreira era para os seus descendentes a modos como um desconhecido, pois lá diz o povo, na sua imensa sabedoria, já que para isso é povo, que longe da vista longe do coração. Mesmo o cão, que é animal que reconhece sempre o seu dono, começou a dar indícios do contrário. Até os dois porcos, que foram mercados enquanto o guarda Ferreira esteve em casa de licença, o começaram a estranhar. Isto apesar de por eles ser reconhecido sempre que vinha a casa pois tinha por feitio alimentá-los com o dobro da comida com que a Dona Rosa os esfomeava todos os dias. O mês da engorda tinha significado para as duas cevas o paraíso: comida à farta e cozida no caldeirão. Daí a confusão.


“Tu também necessitas de ser engordado, estás pele e osso”, disse com um tom de relativa bonomia a Dona Rosa ao guarda Ferreira. Ele riu-se, com o seu sorriso triste e enigmático, virou mais um copo e foi para a rua esganar mais um cigarro.


Sentiu-se um homem solitário, um estranho no meio da própria família. A mulher tolerava-o porque lhe trazia o dinheiro com que alimentava, vestia e calçava os filhos. Os filhos mais novos toleravam-no porque assim eram ensinados. Aos animais era indiferente, até ao Texas, a quem tinha criado desde pequeno e só depois trazido para Névoa para guardar a casa e o quintal.


Apenas o José lhe dedicava algum carinho. Pressagiava nele a mesma sina, a mesma incapacidade para lidar com o mundo, o mesmo desajuste social, a mesma obstinação pela verdade, a mesma indiferença pela benemérita hipocrisia dos ricos. Daí o ter sido castigado por não ter aceitado ser um boneco nas mãos de uns reles contrabandistas e do ventas de larego do sargento da GNR. Daí o seu filho ter abandonado o seminário por não tolerar que, em nome de Deus, da verdade e da salvação dos justos, os padres apenas magicassem na sua vida terrena e em conviverem, sem remorso ou arrependimento, com os pecadores e os vendilhões do templo.


A mãe tinha ficado desiludida. Muito desiludida. E ainda assim continuava. Confidenciou-lhe que tinha a firme certeza de que ia ser capaz de convencer o filho a regressar aos propósitos de Deus, aos caminhos da salvação. Ele não acreditava que isso fosse possível. O José, tal como ele, nunca voltava atrás nas suas decisões. Eram orgulhosos de mais. Reagiam mal, mesmo fisicamente, ao recuo. Para eles não existia caminho de retorno.


O José veio ter com o seu progenitor e pediu-lhe um cigarro. O pai olhou-o a direito nos olhos e perguntou: “Já fumas? Olha que a tua mãe não vai gostar. Ainda vai dizer que fui eu que te meti o vício.” “Deixe-a dizer. Comecei a fumar no seminário. Lá o tempo nunca chega para a verdade, mas sobra sempre para os maus hábitos.” “Voltas para lá? A tua mãe pensa que sim. Acredita que te vai convencer a regressares.” “A mãe acredita em tudo. Até em Deus.” “E tu não acreditas?” “Deixei de acreditar depois de ler os livros sagrados onde se fala de Deus como uma entidade supremamente reaccionária, amarga, hierárquica. Quando a Igreja escolheu Deus, escolheu-o obscuro e sombrio. Eu, pelo contrário, acho que Deus deve ser alegre, igualitário, luminoso. Toda a história da humanidade fala de crianças e mulheres violadas, dá conta do ser humano a praticar a desumanidade inata sobre os outros seres humanos. Relata-nos a injustiça que há em tudo. Percebi que não pode existir um juiz bom e justo a organizar isto. É impossível. O que existe, pai, são apenas as regras da Babel, de uma humanidade cruel e egoísta.” “És capaz de ter razão, José. Tu é que sabes da tua vida.”


Olhando um apara o outro com os seus rostos muito idênticos e uns olhos simétricos, deram uma passa enorme no cigarro para encher os pulmões de fumo e expiraram o que restou para o ar fresco do entardecer.

“Venham jantar, a comida está pronta”, chamou-os a Dona Rosa da porta rodeada por todos os filhos, o Texas e um frango garnizé que era agora a mascote da família, devido ao seu comportamento atrevido com as enormes galinhas da mãe. 

 

 

91 – O José começou a fumar e a beber. Passou diretamente do seminário para a taberna sem passar pela ...

 

(Continua)

 

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Mais duas semanas de ausência.

 

Uma arreliadora gripe e a doença grave de um familiar, a única irmã viva de meu pai, já com noventa e um anos, retiraram-me a vontade de escrever, embora neste período fartos motivos para o fazer existiram, alguns dos quais não resisto, agora, de os registar.


Sempre respeitei o trabalho alheio e mesmo às vezes mal servido, nunca apresentei uma queixa.

 

 Talvez, por que também eu tento servir o melhor que possa quem me procura.

 

Reconheço, que muitas das vezes, enfrento situações difíceis, suporto pessoas e actos, que caem na má educação, na incompreensão, mas passados aqueles momentos vêm outros que os compensam.

 

Ser operador do INEM é uma actividade, na qual se deve atender que, na maior parte das vezes, senão sempre, quem chama, quem recorre a esses serviços de urgência, encontra-se sob uma grande pressão, próxima do desespero, ansioso, impaciente, na resposta ao seu apelo de ajuda, seja próprio ou de outrem.

 

O que menos se espera ao marcar o 112, é alguém surgir com uma bateria de perguntas, algumas com sentido e outras totalmente desprovidas dele, do género:

 

- E o doente ainda respira?

 

Caso que seria de chamar a funerária e não propriamente o INEM.

 


De todos os modos, na impossibilidade de o fazer pessoalmente, aproveito este espaço para pedir publicamente desculpas à operadora que me atendeu, pelo meu comportamento incorrecto, mesmo atendendo ao estado de excitação em que me encontrava, ainda que do outro lado possa ter existido alguma falta de sensibilidade.

 

Sou humano e apesar dos meus esforços ainda não atingi a serenidade dos deuses!

 

Há pouco congratulei-me com uma moção aprovada sobre o Hospital de Chaves.

Apesar da perda de valências e especialidades, já do meu conhecimento, não esperava que o estado a que chegou o hospital, fosse tão alarmante.

 

Nada tenho contra o pessoal em serviço nesse hospital e até é digno e louvável o esforço que dão mostras perante a mais confrangedora falta de condições. 

 

Ocasionalmente justifica-se a falta de macas na urgência, devido à afluência extraordinária de utentes e mesmo os tempos de espera.

 

Agora o inexplicável, o absurdo é que é intolerável.

 

Pedir uma almofada aos familiares de um doente que vai ser internado, por no hospital não existirem em quantidade suficiente, não lembra a um cidadão mais ou menos europeu.

 

E pelo que me disseram, não são apenas as fronhas!

 

São lençóis … - “os que existem, por grosseiros, provocam feridas e irritações na pele dos idosos”  -, e pasme-se… até medicamentos!

 

Por isso, caro concidadão, se for internado no Hospital de Chaves, não se esqueça e leve consigo a almofada, lençóis, e quem sabe lá, no futuro, talvez a cama e o soro!

 

Como diria alguém da chamada “quinta coluna”, que costumava assentar arraiais para os lados do Largo das Freiras, quando havia Largo…

 

“ Ai, Chaves, Chaves …!”

 

 

Fotografia de Mário Esteves

 

Esta crónica era para ser escrita ontem, terça-feira de Entrudo.

 

Quando for publicada estaremos na Quaresma, mas tal não invalida que troquemos as voltas ao calendário e falemos do Entrudo.

 

Na falta de “madamas” ou “caretos” no concelho ou a sua abundância, fomos ao arquivo e desempoeiramos memórias de um Entrudo muito peculiar e que ocorre em Viana do Bolo e Vilariño do Conso, na vizinha Galiza.

 

Claro que, quando se fala em Entrudo na Galiza, pensa-se de imediato em Verin, Xinzo ou Lasa, isto é, nos cigarróns, pantalhas e peliqueiros, figuras típicas dos Carnavais dessas localidades.

 

É a segunda vez, que me lembre, que esta crónica excede os limites de Chaves e posso dizer com inteira razão.

 

Porque o Entrudo em Viana do Bolo e Vilariño do Conso, ainda que menos conhecido, nada ficam a dever aos outros, pela autenticidade e enraizamento nas tradições populares.

 

O Entrudo em Viana, começa por erguerem um mastro na praça, onde pendem dois bonecos: o lardeiro e a lardeira.

 

Depois, para os gastrónomos segue-se a festa da androlla, que é uma degustação popular e gratuita daquilo que nos chamamos o butelo, o palaio ou paloio, que é um enchido de carne de porco, onde predominam as costelinhas e cabaça, acompanhadas de pão e vinho.

 

Posteriormente e no dia de Entrudo, desfilam os “boteiros”, a “mula” e o “maragato”.

 

A “mula” é uma representação do mesmo animal, feito com cobertura de palha e que três jovens suportam, sob a arreata do “maragato” O “maragato” é uma espécie de bufarinheiro, que vem das terras de Castela.

 

Tudo isto, é feito sob o som de bombos, a que os locais chamam “tamburrada”.

 

Fotografia de Mário Esteves

 

Não se parece a Calahorra, na Semana Santa, mas aproxima-se muito.

 

Agora, e depois de uma breve e sucinta descrição do Entrudo em Viana do Bolo, o que mais destaco é a exuberância das vestes do “boteiro”, mais prolixas e coloridas, que outras figuras do Entrudo galego.

 

Ah! Não se esqueçam ao passar por Viana do Bolo, de comprar os “Vianos”, chocolate com mel, que é uma delícia!

 

Ps. Esta é a quinquagésima crónica, agradeço o convite do Fernando Ribeiro, bem assim as fotografias que acompanharam os textos, e permita-se-me mostrar a minha gratidão pelo incentivo a M., aos meus sobrinhos, à Cristina, ao Fjr-Barreiro e a todos os leitores que me têm acompanhado com indulgência.   

 

Mário Esteves

 

 

 

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