Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Quem conta um ponto...Da expetativa ao imobilismo (XIII): os tagarelas e a eutrofização laranja

 

Da expetativa ao imobilismo (XIII): os tagarelas e a eutrofização laranja

 

O ano vai seco. Mesmo muito seco. Não tem chovido coisa que se veja. Possivelmente a culpa é do engenheiro Sócrates. Bem vistas as coisas, a culpa só pode ser dele. Este governo (ai como as palavras estão gastas) não o diz, mas insinua-o.

 

De facto tem de haver um culpado. Até para a culpa não morrer solteira, pois com este executivo (ai como as palavras dizem coisas que não querem dizer) todos nós somos culpados pela grave situação social, económica e financeira do país.

 

Lá chover não chove, mas o país mete água por todos os lados. E não só mete água. Mete pena. Mete muita pena. Mete dó.

 

E não é só o país que mete dó. Chaves segue-lhe o exemplo. Até o Tâmega mete pena. E já mete pena há muito tempo.

 

A verdade é que para tentar remediar o estado lastimável do rio, a anterior autarquia mandou fazer o célebre espelho de água entre pontes. Ou seja, alindou centenas de metros mas esqueceu-se, ou não teve tempo, de arranjar vários quilómetros a montante e a jusante que entristecem os flavienses mais atentos e amarguram quem nos visita.

 

A atual autarquia flaviense não tem feito outra coisa que não seja varrer o lixo para debaixo do tapete, como se o espelho de água resolvesse os problemas estruturais das margens e do leito do rio. É este espírito de novo-riquismo que nos continua a fazer empobrecer a cada dia que passa.

 

Enquanto olhamos entretidos para o espelho de água, o rio continua a definhar, a agonizar, a poluir-se e a morrer mais um pouco todos os anos.

 

Por vezes, as autoridades regionais ou nacionais fazem que se condoem com este estado de coisas e vêm até a “província” dizer que dizem e fazer que fazem. Vêm tagarelar.

 

Para isso é são que pagas, desculpa-se alguém por nós.

 

Há meia dúzia de semanas vieram até Chaves uns pândegos participar num fórum regional com a intenção de “potenciar a sustentabilidade dos recursos hídricos”, no âmbito do Plano de Gestão das Regiões Hidrográficas do Norte, por obrigação legislativa europeia.

 

Vieram até cá e disseram coisas tão relevantes como “a Veiga é uma massa de água que está a ser monitorizada, está em bom estado, mas é preciso prevenir, controlando as descargas de resíduos e a poluição difusa”.

 

Isto já nós o sabemos, vai para mais de vinte anos. Mas eles, os tagarelas iluminados que dirigem estes fóruns, descem à província e tratam logo de nos encher os ouvidos com lugares comuns e verdades “lapalissianas” como se fossemos parvos.

 

Disseram, para quem os quis ouvir, que vinham até nós para auscultar as opiniões, críticas e sugestões das entidades da região com responsabilidades no setor das águas, como as autarquias, o Ministério da Agricultura, a GNR, a EDP, as empresas gestoras dos sistemas de abastecimento e saneamento, bem como os empresários e os académicos. Ou seja, os suspeitos do costume.

 

É caso para dizer que eles ouvem, ouvem, ouvem e nada fazem. Ouvem, ouvem, escrevem, escrevem, falam, falam, mas, esses tagarelas de pacotilha, não fazem nada.

 

O rio a definhar há décadas, a morrer ali mesmo aos nossos pés e os tagarelas das instituições vêm até nós para “enriquecer o plano com a participação das instituições para sermos mais eficazes, uma vez que os recursos financeiros são escassos”. Isto porque temos de “cumprir as obrigações ambientais da União Europeia.”

 

Eles, os tagarelas, fazem os projetos, realizam fóruns, andam de um lado para o outro nos seus carros, elaboram estudos, gráficos e relatórios. E o Tâmega para ali a morrer há décadas. E eles, os tagarelas, a fazer que fazem, a dizer que dizem…

 

E o nosso rio a definhar como um peixe ferido de morte.

 

E reconhecem, os tagarelas, na sua sapiente erudição, que “embora o plano atribua uma classificação deficitária à qualidade da água do Tâmega”, como se isso fosse uma novidade, “devido à eutrofização provocada pela falta de velocidade da água”, que mais não é do que uma crítica velada ao Espelho de Água, “a Veiga é uma massa que está monitorizada”, etc.

 

E fazem-se estes senhores tagarelas pagar muito bem para dizerem aquilo que todos já sabemos há tanto tempo.

 

E o Tâmega ali a nossos pés a definhar e a morrer mais um pouco todos os anos.

 

E estes senhores tagarelas a explicarem o óbvio, sem mexerem uma palha, a não ser dizer que dizem, e que “monitorizam”, e blá, blá, blá e mais blá blá, blá e “eutrofização” para aqui e “sustentabilidade” para ali e “massa de água” para acolá.

 

E ainda mais blá, blá, blá.

 

Depois, os tagarelas resolveram ir passear pelas margens do rio, lá para o lado das lagoas existentes no meio da Veiga. E constataram o óbvio. O lixo que por ali se acumula vai para mais de vinte anos.

 

O lixo. Toneladas e toneladas de lixo. Lixo e mais lixo. Lixo por todo o lado. Camadas de entulho e margens degradadas. As feridas evidentes da extração ilegal de inertes. Esse foi o cenário terceiro-mundista que encontraram: áreas enormes de depósito de lixo de toda a espécie.

 

A verdade é que durante a “década de progresso” de João Batista, e dos seus acompanhantes, a nossa autarquia fez que nada viu, fechou os olhos a uma realidade que até cegava, de tão evidente.

 

Um fechar de olhos irresponsável por parte da nossa Câmara, devidamente misturado com muitos interesses económicos.

 

Quase um cenário de guerra: Montanhas de entulho com mais de dez metros de altura, máquinas abandonadas, as lagoas a secarem, os peixes a morrerem, ali aos nossos pés, perante a indiferença de quem manda, de quem pode, e deve, alterar este rumo de coisas, de quem afirma que nos governa.

 

Mas, convenhamos, foi um técnico da Câmara que serviu de cicerone à visita ao depósito de lixo que é atualmente o Tâmega.

 

Nós nisso somos exímios: não temos pudor algum em mostrar as nossas chagas, em revelar aos outros o nosso subdesenvolvimento, como se fôssemos masoquistas e indolentes.

 

Nada do que ali se encontra se deve ao desleixo dos flavienses, mas antes à incúria de uns tantos que usam e abusam do que é de todos como se fosse seu, perante a indiferença da autarquia e o fechar de olhos das autoridades competentes.

 

Os senhores entendidos, e tagarelas, discutiram a vastidão e a complexidade das leis, as dificuldades da aplicação das diretivas, a ausência de cartografia e fiscalização das massas de água subterrâneas e a sobreposição de competências entre entidades.

 

Ou seja, discutiram entre si aquilo que são, tagarelaram numa postura autista, empurrando as culpas para o lado. Pois são eles, os tagarelas, que fazem as leis, são eles que fazem os projetos, os estudos, os fóruns, os passeios, etc.

 

Eles, os tagarelas, que são pagos para atuarem, queixam-se e monitorizam. Falam. Não agem, falam.

 

E o Tâmega a definhar, a morrer, perante a indiferença das autoridades, dos parlantes, dos suspeitos do costume. Dos tagarelas.

 

O lixo a acumular-se, o rio a definhar, os peixes a morrer, e eles, os tagarelas, a falar, a dizer que dizem, a falar que falam.

 

E o Tâmega a morrer.

 

O lixo a amontoar-se nas barbas das autoridades civis e militares, e os pândegos tagarelas lá de baixo a dizer que dizem, a falar que falam…

 

E o Tâmega a morrer, a desaparecer ali a nosso pés, num choro fino e manso que arrepia todos quantos nele tomaram banho, todos quantos o amaram e acarinharam.

 

O Tâmega a morrer, o lixo a asfixiá-lo, e os tagarelas das palavras e dos projetos, a dizer que dizem, a falar que falam. Ali numa cumplicidade enervante. Num fazer que faz provocador. Numa encenação impertinente.

 

E por falar em água, em poluição e desleixo, deixem que vos diga umas palavrinhas acerca das “comemorações” do 25 de Abril levadas a efeito pela nossa autarquia.

 

A cada ano que passa, cada vez mais as tratam como lixo.

 

Bem podem tentar meter o 25 de Abril no contentor do lixo dizendo que pretendem mandá-lo para a reciclagem, mas a tentativa só os menoriza.

 

As comemorações da nossa autarquia não tiveram rigorosamente nada de relevante. Foram apenas meia dúzia de iniciativas ridículas, sensaboronas, medíocres, irrisórias e irrelevantes. Tiveram até uma aula de hidroginástica na Piscina Municipal.

 

Por amor de Deus, tirem-nos deste filme.

 

A autarquia pode não gostar da data, está no seu direito democrático – e olhem que eu já vi militantes do PSD botar gravata preta, em sinal de luto, neste dia –, mas não podem, e não devem, ridicularizar e esvaziar de sentido esta data memorável. Olhem que o ridículo pode matar.

 

Se não gostam do 25 de Abril não o comemorem. Mais vale ser conservador coerente do que democrata fingidor.

 

A cada dia que passa, torna-se mais evidente que a democracia morre asfixiada pelas mãos ríspidas deste rancho de democratas inertes.

 

Oxalá não morram também eles asfixiados por causa da eutrofização que provocam nas águas quase paradas da nossa cidade e do nosso concelho, cada vez mais rarefeitas de liberdade, de esperança e de futuro.

 

João Madureira

 

 

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Os regressos a Chaves

 

Regressar a Chaves, para mim, é sempre regressar às origens e o que mais nos marca, além da luz e dos cheiros, são as imagens de marca, as das entradas da cidade. Esta primeira que vos deixo, da Madalena, além de ser uma imagem de marca pessoal, pois é a primeira imagem da cidade que tenho registada desde a infância ou desde que a memória retém imagens, é também uma internacional, pois todo e qualquer estrangeiro que entrasse pela fronteira de Vila Verde da Raia, o primeiro pulsar de cidade que via, era este da imagem, quase tal e qual se vê hoje. Claro que havia pormenores que hoje não existem, como o Campo da Fonte com um imponente arvoredo, falta a oficina do Antunes e as costureiras,  o posto do Polícia de Viação e as suas motos BMW, o posto da Guarda Fiscal, a Garagem do Emílio a funcionar, o latoeiro, o café piolho, a loja do Chaves, pormenores que também eram imagens de marca e tradição, mas que não resistiram à modernidade. Mas o essencial, está lá, ou seja, a imagem de conjunto que se vê de fundo.

 

 

Passada a Madalena e quem quisesse entrar mesmo na cidade, pois grande parte da vida das gentes da margem esquerda do Tâmega podia-se resolver na Madalena, tínhamos a Ponte Romana para a travessia, pois a outra, a Ponte Nova, ficava longe e era quase exclusiva para os automóveis, aliás como ainda hoje acontece. Mas ia eu dizendo, ou melhor, já estávamos na entrada da ponte e a imagem de marca da cidade, era a que ainda hoje se vê nesta segunda imagem. Também faltam alguns pormenores de então, como a Pensão Comércio com luxosa entrada pelas escadinhas metálicas a partir da ponte e o Snack-Bar Beira Rio por baixo (Penso que era este o nome). Falta a farmácia, a loja onde trabalhava o Carunho, o Banco Nacional Ultramarino entre outras ausências, mas aqui, ao contrário da Madalena, estes locais mantêm-se abertos, mas com outros ramos de atividade, à exceção da Pensão Comércio, que essa fechou mesmo portas para as escadinhas metálicas. Entrados no Arrabalde, começava o mundo da cidade, com muita mais vida comercial que a de hoje em dia, e com estabelecimentos e profissões que faziam também a marca de Chaves, onde se vendia um pouco de tudo, como o caso do Silva Mocho que hoje já não existe, sem esquecer o quiosque e  a praça de táxis (estas sim, ainda existem), mas faltam os engraxadores, o gravateiro à entrada do Geraldes, a correria dos carrinhos de mão… e por aí adiante.

 

 

Entrados na cidade, os passos divergiam ora para umas ou outras bandas, mas toda a cidade que hoje é centro histórico, era cidade, com comércio e atividades em todo o casario sem esquecer que, também era no atual centro histórico que a grande maioria da população flaviense tinha residência. Claro que na época a cidade tinha um ponto central, que era sala de visitas e de estar, com agradável jardim e muita gente – Chamava-se Jardim das Freiras. Pois, mas como já faz parte do passado, a última foto vai para a Rua Direita, para um prédio que ainda hoje se mantém sem alterações no que fica registado em imagem, desde esses tempos, aos quais este regresso à cidade também regressou.

 

E por agora é tudo e desculpem lá este regresso aos anos 60, mas dizem que faz bem dar algum exercício à memória…

 

Até mais logo, às 9 horas, com “Quem conta um ponto…” de João Madureira.

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Domingo, 29 de Abril de 2012

O GRANDE PROBLEMA DO PAIS É A MORTE DAS ALDEIAS

Ainda no post de ontem referia que era angustiante entrar nas aldeias e não ver vivalma. Desde o início deste blog que tenho alertado para o despovoamento das aldeias e aponto o dedo bem apontado aos senhores de Lisboa e aos que na província os imitam – leia-se políticos. Ontem, sem querer, deparei com um artigo na NET com um título que de imediato sugeria a leitura, não só pelo título mas também pelo nome que dava origem ao mesmo ser uma entidade na matéria. Li e não resisti em partilhá-lo aqui no blog, pois penso que por todas as verdades que contém, merece ser lido e divulgado. O artigo já é de fevereiro deste ano, mas continua e continuará atual. As fotos que ilustram o post são nossas, à exceção da foto de Ribeiro Teles, que foi retirada do artigo em questão.


 

 

 

Ribeiro Telles - «O grande problema do país é a morte das aldeias»


Numa conversa que decorreu nos jardins da Fundação Calouste Gulbekian, o arquitecto paisagista falou sobre o país, os problemas de planeamento das grandes urbes, a desertificação das aldeias. Para o antigo ministro da Qualidade de Vida, os governantes conhecem mal o país, o território e, em especial, o mundo rural. «É preciso que os responsáveis pensem mais no país, menos nas finanças e reflictam na economia do planeamento para o desenvolvimento das gentes». De acordo com Gonçalo Ribeiro Telles há que recuperar a «autenticidade das coisas».

 

Num momento em que Portugal vive uma crise económica e social, o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, que completa 90 anos em Maio deste ano, começa por dizer que o principal problema do país «é a falta de informação e a cultura das pessoas, transversal na sociedade portuguesa».

 

«Desde as camadas superiores, mais intelectualizadas até às mais profundas, de ligação à terra e aos lugares, essa falta de cultura continua à vista», argumenta, recordando que Portugal «vive uma crise de valores».

Refere que o fosso entre o Litoral e o Interior continua a aumentar. «A quem se deve o desaparecimento e a degradação das aldeias?», questiona, sublinhando, em seguida, que tal se deve «a toda uma política de organização do desenvolvimento planeada para a destruição do país e à preocupação em considerar a ruralidade como qualquer coisa do passado sem futuro».

«Criámos uma ruína. É preciso que os responsáveis pensem mais no país e menos nas finanças. Que reflictam mais na economia do planeamento para desenvolvimento das gentes, das potencialidades e da nossa posição quanto ao mundo», apela Gonçalo Ribeiro Telles.

 


E considera que «se estão a construir cidades só por construir e a criar não o vazio do espaço, mas o vazio do espaço construído». Sobre o interior, salienta que as aldeias «não podem despovoar-se como está a acontecer» e frisa que «dentro de pouco tempo, isto é um país de velhos, de asilos urbanos». Por isso defende que a recuperação das aldeias «tem de passar pelo restabelecimento da agricultura local».

E não tem dúvidas: «hoje, o grande problema do país é a morte das aldeias, que é também um problema de cidades».

E explica porquê: «o aglomerado urbano, que vive do abrigo, do encontro das pessoas, do tecto, do ambiente é a cidade. Mas isso também existe e tem de existir na aldeia. A dimensão é que é diferente. O que está aqui em causa não é a cidade, que dentro de pouco tempo terá 80% da população a viver nela. As aldeias não podem despovoar-se como está a acontecer».

O arquitecto recorda que com os actuais modelos de Planos Directores Municipais (PDM’s) não há recuperação urbana das aldeias para as pessoas mas apenas «a recuperação de algumas aldeias para o turismo».

«Mas não há turismo sem aldeões. Estamos completamente errados. A recuperação das aldeias passa pelo restabelecimento da agricultura local. E isso é o que não se quer», afirma.

 


Para Ribeiro Telles, o crescimento urbano deu-se baseado na ideia de um enriquecimento a curto prazo. «Ninguém apostou, por exemplo, na agricultura. E grande parte da industrialização deu-se também devido a isso. As políticas não eram autênticas em função das gentes. Onde é que está a funcionar a agricultura em termos nacionais? E o povoamento do território? Não está nem nos programas dos partidos nem dos governos. Tem apenas os limites de um jogo financeiro», frisa.

Para o arquitecto, o chamado «regresso à terra», «não é um regresso para férias nem para fazer agricultura de recreio», mas tem de ser uma «aposta no investimento das escolas, que estão a fechar, na circulação de todo o movimento que se tem de fazer em qualquer região».

 

 

Para isso, vinca, «é preciso criar gradualmente as condições. Se não for possível, temos o caos. Não conhece os subúrbios das cidades? Aí está o exemplo de caos», diz.

«Temos utilizado mal os nossos recursos»:


Sobre a Reserva Agrícola Nacional (RAN), a Reserva Ecológica Nacional (REN) e os PDM’s, que Ribeiro Telles impulsionou no início dos anos 80 do século passado, o também engenheiro agrónomo, realça que os dois primeiros diplomas «tiveram uma má aplicação, muitas vezes, por incompetência de quem fazia o planeamento e incompreendida pela maior parte dos autarcas, que não viam naqueles diplomas uma vitória eleitoral a curto prazo, em parte, pela pressão do investimento que os bancos realizavam para determinadas entidades, e deu no que deu».

 

 

«O mal está à vista. Continuamos a falar da floresta, da expansão urbana, do crescimento das cidades. Mas isso não se vê», salienta.

E prossegue, dizendo que «não há uma planificação global em face das possibilidades e virtudes do território. E não há povoamento».

 

Sobre a utilização dos PDM’s, Ribeiro Telles refere que estes instrumentos foram criados como «algo necessário para a defesa dos melhores solos agrícolas de que depende a existência do povoamento e a existência do país».

«Mas foi muito desvirtuada por muitos políticos e programas, porque não viam o essencial na autenticidade do país. Além disso, o PDM não servia a rápida expansão urbana nos sítios mais fáceis, mais planos e nos lugares mais urbanos», acrescenta.

A juntar a tudo isto, o arquitecto garante que «temos utilizado mal os nossos recursos». E os exemplos de má utilização são muitos, de norte a sul do país, e principalmente, «têm-se acelerado a má utilização dos recursos porque não se acredita nas «gentes», que estão – ou deviam estar – ao serviço da Humanidade e com uma identidade própria».

 

 

Recorda que «todas as coisas no nosso mundo têm uma autenticidade e que é sempre possível recuperar». «Uma coisa autêntica é aquela que tem um passado, que tem alicerces e que tem também um presente que se vê, que se sente. Não há presença nem autenticidade sem futuro», avisa.

E lembra que há três elementos fundamentais para os países, incluindo Portugal, se manterem como tal: «os lugares, as potencialidades e os recursos que nos dá a Terra-mãe e as suas gentes. Havendo estas três condições há lugar à autenticidade e à criação».

 

 

Ana Clara | quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

 

O artigo foi retirado de:

 

http://www.cafeportugal.net/pages/noticias_artigo.aspx?id=4526

 

 

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Sábado, 28 de Abril de 2012

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

Pecados e  picardias

Mãe

 

Serás sempre a minha memória

Como já és o meu amanhã…

 

 

 

MÃE

 

Mãe

Hoje como ontem

O teu trabalho artístico

Nasce e vive do amor

Esculpiste a raiz do eu

Do ser teu

Da renuncia a ti

Por mim

 

Mãe

Hoje como ontem

O teu egoísmo sou eu

Ofereces-me a liberdade

Em troca de nada

Nessa eterna lealdade

Prescindes da minha presença

Na glória dessa ausência

Por mim

 

Mãe

Hoje como ontem

Açambarco-te o pensamento

Em cada local e momento

Eu sou o teu tempo

Fazes sol chuva ou vento

Por mim

 

Mãe

Hoje como ontem

Resistes às intempéries de amor

Que só tu sabes incondicional

Assim …monumental

Para mim

Por mim

 

Mãe

Hoje como ontem

Trazes-me no teu olhar

Brando e intenso como o teu amor

Por mim

Para mim

 

Mãe

Hoje como ontem

Sou o teu amanhã

Como Tu

A minha mais pura Certeza

Em mim…

 

Isabel Seixas

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 15:38
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Santa Marinha - Nogueira da Montanha - Chaves - Portugal

Nos últimos fins-de-semana tenho dado preferência às aldeias que menos representadas estão aqui no blog em imagem, pelo menos em quantidade. Percorrendo o arquivo do blog dei-me conta que Santa Marinha era uma dessas aldeias pois até hoje apenas tinha tido direito a meia dúzia de imagens. Recorrendo ao meu arquivo fotográfico, dei também conta que de Santa Marinha tinha poucas imagens e motivos, muito menos. Havia que lá ir de novo à caça de imagens, e fui. No último fim-de-semana toca a ir pelo Brunheiro acima, pelo sítio do costume, ou seja Peto de Lagarelhos, Lagarelhos e depois a opção de ir por um lado e vir pelo outro. Optei por ir pelas bandas de Santiago.  

 

 

Lá em cima, já no planalto do brunheiro, gosto de andar às voltas e fazê-las ao contrário. Assim, em vez de ter ido direto a Santa Marinha, resolvi primeiro passar por Gondar e depois Nogueira da Montanha. Na montanha todas as aldeias são interessantes, mas é angustiante entrar nelas e não ver vivalma, não fosse aquilo a que parecia ser a hora do recreio na escola primária de Nogueira da Montanha, e pensaria ter entrado numa aldeia deserta, despovoada de vida, onde apenas o milenar (dizem que é) castanheiro do largo insiste em resistir e todos os anos dizer presente.

 

 

Como de Nogueira tenho fotos em arquivo de anteriores passagens e desde então nada mudou, rumei então a Santa Marinha. Lá chegado, compreendi a razão do meu arquivo estar tão despovoado de imagens na pasta de Santa Marinha, pois esta aldeia é uma das mais pequenas do concelho e por isso, por lá não abundam muitos motivos e, aqueles que despertavam para um clique, já as tinha registado em passagens anteriores.

 

 

Curiosamente há poucas casas mas há sempre vida na aldeia. Pouca porque gente também é pouca, mas há gente e à boa maneira antiga, também há sempre animais. Nos registos anteriores, eram mais gatos, desta vez a receção foi feita por um cão, daqueles que metem respeito e costumam guardar os rebanhos da montanha e que, têm cabedal suficiente para arrumar ou pelo menos afugentar um lobo. Olhou para nós, fez questão de se manifestar e dizer que estava presente, mas como entendeu que íamos por bem, resolveu deitar-se à beira da estrada a descansar o corpo, mas sempre de olho ou ouvido nos intrusos.

 

 

Voltando à aldeia, onde as casas novas ainda se erguem e onde também há novas recuperações de antigas construções. No entanto, como o casario novo não me atrai, pelo menos para trazer aqui em imagem, fui-me repetindo e ficado em olhares pelas construções mais antigas e nas recuperações da Rua do Rei que sempre vão mostrando o ar da graça do granito à vista nas paredes. Claro que a capela também é de registo obrigatório, nem que seja por estar lá aconchegadinha no meio das casas onde até a sua simplicidade lhe dá alguma graça.

 

E por terras de Santa Marinha é tudo, por hoje, pois dentro das imagens possíveis e olhares seletivos, pela certa que ainda passará por aqui mais vezes.

 

 

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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Luís Fernandes

 

 

“C (h) A pel A D A”

 

 

Há cerca de Dois Mil Anos, lá pelas margens do Jordão, instalou-se um galileu virtuoso, que partilhava as suas bondades mergulhando com as suas próprias mãos os inocentes pecadores das vizinhanças.

 

Ele chamava-se João. Apelidaram-no de Baptista.

 

Logo apareceram bandos de cretinos, pantomineiros e impostores a disfarçarem-se de gente de bem, adoptando o nome desse galileu.

 

E logo na História apareceu um pelotão de «JOÕES BAPTISTAS».

 

Até em África conhecemos um, que comparado com Judas faz deste um super-santo; ou comparado com Efialtes faz deste um super-herói.

 

D. Afonso de Chaves, I Duque de Bragança, admirava o Baptista I. Para o consagrar, fundou e instalou no Forte de S. Francisco uma importante Confraria, a que deu o nome de CONGREGAÇÃO DA NOBRE CAVALARIA DE S. JOÃO BAPTISTA.

 

E, por disposição estatutária, elaborada pelo próprio genro de D. Nuno, o dia 24 de Junho era-lhe inteiramente dedicado.

 

Nesse dia, logo de manhãzinha, o Capitão de Cavaleiros e “pessoas de qualidade” acompanhavam, em duas alas, a Bandeira, até ao Mosteiro; ouviam Missa rezada no Altar de Santo Baptista I; e, até à noitinha, o tempo era passado em Torneios, Justas, Corridas, Jogo de “CANNAS, e outros, com paragens tácticas nas Tabernas Típicas.

 

Estes hábitos caíram em desuso, mas, em 1625, foram recuperados e os seus estatutos renovados, e a Borga continuou até 1647.

 

Passado pouco tempo, houve uma nova lembrança do Baptista e, para esconjurar os lugarejos de aviltamento, o II Pedro (reizito) manda construir em Ouidah, África, uma Fortaleza que, por sorte do diabo, foi incendiada em 1960.

 

O pelotão histórico é que nunca mais acaba. Nem com incêndios, nem com esconjuros.

 

 A outrora Villa, e hoje cidade, é que está condenada a periódicos caprichos joaninos.

 

Durante séculos, desde o tal Afonso Duque até ao João IV, por aí, pela vilória, se fizeram jogadas e jogos, incluindo o da “FORQUILHA”.

 

Cumprindo ciclos de vida histórica, lá chegou a Stª Maria Maior, vindo das margens do RAVEGÃO (um rigueiro do JOrdÃO) o último recruta desse Pelotão da História.

 

Na Galileia, o verdadeiro João, o Primeiro (I), atravessava o Jordão a chinclapé.

 

Na Villa da Ponte, o último Baptista atravessava o Ravegão a vau.

 

Aqui, aí, na Flávia Augusta, para não atravessar o Tâmega em vão  - não, que na Esquerda, viradinho para a Madalena,  está lá outro João, mas de Deus!  -  mete-se com as Pontes … pedonais e «disparatais».

 

Vai daí, crisma os fiéis, (seja, os “Flaviéis”, quer dizer, os Flavienses), com mamarrachos, vergonhosos arranjos, apedrejamento das Freiras, abandono e abandalhamento dos Monumentos Históricos, Religiosos, Arquitectónicos, e amputação de Instituições e Serviços.

 

E até rapina e aprisiona as festividades Monfortinas, dando-lhe, com todo o descaramento, uma coreografia e acompanhamento musical “sino-vendanóvicos”.

 

Vá lá, vá lá, que uma lagrimazinha de Marquinhas Madalena pingou na aba do casaco do último Baptista aí chegado e que quando ele ia de visita ao Mamede (dizem que santo) de Bustelo do Rabagão, ali logo ao fazer a curva do Matadouro, a lagrimazinha saltou-lhe para a vista e deu com os olhos naquele pedacinho do céu que aponta para a sua “parvalheira”.

 

Voltou atrás e decretou (prometeu) uns amanhozitos na CAPELA DA GRANGINHA … que continuam por fazer  (já lá vão uns bons anitos)!

 

O “Rapaz” bem sorri à salvação!

 

Trampolineiro continua ele!


 

Luís Fernandes

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Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

O Homem sem Memória (99) - Por João Madureira

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

99 – Tanta teimosia só podia definir um destino:  o calabouço. E foi para lá que o nosso estimado herói foi enviado, com alguns dentes partidos, várias escoriações no rosto e distintos hematomas no lombo. Fora isso, a sua vontade continuava bem viva. A sua vontade, a sua atitude, o seu pensamento e a sua determinação.


Uma vez contestatário, contestatário para sempre. Honra lhe seja feita. Pois existem aqueles homens que contestam muito no início mas esmorecem logo a seguir. O José não. O José é vinho de outra pipa. O José é um herói à maneira antiga. Herói uma vez, herói para sempre. Honra lhe seja feita. Pois existem muitos heróis que são heróis mal chegam à história, mas desistem logo passadas algumas páginas porque ser herói dá muito trabalho. Especialmente ao autor. Mas que seja tudo pelas alminhas de todos os heróis que já existiram e, também, pelas alminhas de todos os outros que hão de existir daqui para o futuro.


O José continuava a viver entre almocinhos e jantarinhos fornecidos pela sua querida mãe, um que outro passeio devidamente escoltado pelos compinchas cevados com as iguarias da Dona Rosa, duas ou três cigarradas logo após o café e o bagaço, muita leitura e pouca escrita.


Podemos dizer que a situação e o cenário eram propícios a inspirar uma escrita assertiva, fogosa, denunciadora das múltiplas arbitrariedades praticadas pelo Estado Novo, acusadora da prepotência do sistema político, do poder judicial e da brutalidade do sistema repressivo levada a efeito pelas forças militares e militarizadas. Podia ainda, fruto da sua experiência, escrever sobre o evidente logro da mensagem cristã, ou, pelo menos, da aldrabice difundida pelos seus protagonistas – os tais que ocupam os altares e ensinam nos seminários –, podia descrever a decadência burguesa das supostas elites nevoenses, da sua emergente e eterna banalidade, da sua inenarrável estupidez e ignorância, podia ainda escrever sobre a sua experiência de vida entre o lumpen, sobre o seu convívio com putanheiros, putas, paneleiros, pintores, guardas e demais pimpões. Lá poder podia, mas o José era fiel à indolência e à dúvida metódica que carateriza os intelectuais.


Apesar deste caldo de cultura, deste manancial de informação, deste viveiro de saber, o José não conseguia escrever coisa que se visse. Pensava que ainda não tinha chegado o tempo certo para que as coisas lhe saíssem devidamente temperadas. A sua escrita evidenciava um desequilíbrio preocupante. Pelo menos para ele. Ou era claramente denunciadora, panfletária e repleta de azedume, ou, então, tendia para um romantismo bacoco e tão ingenuamente revolucionário que provocava enjoo e riso, qualificativos que não eram bem-vindos em tais andanças.


Por causa das vicissitudes, em vez de escrever, lia. Mas também não lia lá grande coisa. Os livros sobre marxismo, que alguns amigos lhe levavam ao calabouço disfarçados de romances de amor, davam-lhe uma soneira imensa e os que versavam sobre o leninismo, encadernados com capas de brochuras religiosas, provocavam-lhe enxaquecas terríveis. Para não esmorecer, começou a pedir à mãe que lhe levasse, às escondidas, claro está, revistas de banda desenhada e livros pequenos de cobóis e romances de cordel.


Sem a mãe saber, os amigos presentearam-no, sobretudo nas noites dos fins de semana, que era a altura em que o posto estava quase deserto, com uma que outra meretriz mais atrevida. E se a comida confecionada pela mãe lhe chegava aos beiços pelo facto de ela encher o bandulho dos guardas que estavam de plantão, bem assim como o oficial de serviço, as meninas da vida apenas lhe puderam ser servidas porque atrás delas traziam o Embuçado, camuflado de tenente da GNR. Os amigos são para as ocasiões. Mesmo que essa amizade por vezes aparente uma outra coisa.


Pode até parecer mentira, mas o nosso estimado herói vivia agora uma vida dupla. Fazia que lia livros políticos, romances históricos e poesia moderna, super moderna, contemporânea ou experimentalista, para agradar aos seus amigos, que já o consideravam um resistente anti-fascista, mas o que de facto apreciava era ler BD, Sete Balas e romances cor-de-rosa.


Também recebia, a pedido da sua querida mãezinha, a visita de um padre que o confessava e lhe dava a eucaristia, e a quem dizia não pensar em mulheres, nem em nome delas se tocar. Afinal, como bem sabemos, recebia em segredo duas putas atrevidas que, a troco de algum dinheiro e de um ou outro poema erótico de baixa qualidade, que o José guardava para estas ocasiões, lhe entregavam o corpo como quem entrega a alma ao Criador.


As histórias que relatam a vida dos heróis na cadeia, heróis quase sempre vítimas da prepotência de algum sistema político ou de um tremendo erro judicial praticado por um malfeitor da pior espécie, introduzem sempre na cela do protagonista um animal. Um pequeno animal que serve para demonstrar, a quem lê ou vê um filme, que o herói é um homem de corpo inteiro, pois até o podem acusar de agitador, terrorista, assassino ou ladrão, mas quem domestica ratos, quem adota pardais, educa baratas ou ensina formigas, só pode ser um anjo. E um anjo muito, mas mesmo, muito bom, não um anjo apenas suficientemente bom, ou bom tout court.

Só que desta vez a história não se repete, ou não se repete dessa forma. Pois o calabouço do posto da GNR não tinha janeluco algum para o passarinho entrar e a mulher da limpeza desinfetava o posto com produtos tão tóxicos que eliminavam todas as formigas e baratas que tivessem o atrevimento de invadir as instalações das forças da ordem.


Mas sobra o rato, dirão os estimados leitores. Pois sobra, tenho de concordar. De facto sobra o tal ratinho que adora ser domesticado pelo herói prisioneiro, que lhe faz festinhas no pêlo branquinho, que lhe dá de comer suculentas migalhinhas de pão centeio e um que outro naco de queijinho que o citado herói, apesar de ser pouco aquele que lhe trazem, nunca se esquece de repartir com o seu ratinho companheiro de cela.


Mas nem o rato desta vez nos salva a história, nem sequer nos evidencia a coragem e a excelsa humanidade do José. Isto apesar de haver buracos na cela onde o José estava confinado. E é verdade que também havia queijinho, e do bom, e pãozinho centeio com fartura. Mas não havia rato. E não havia ratinho porque todo o quartel era patrulhado por um gato enorme que tinha tanto orgulho em ser a mascote do pessoal da GNR de Névoa que não brincava em serviço.


Podia o nosso amigo pegar no bicho, se recebesse a respetiva autorização, e pôr-se a ensiná-lo a usar botas, ou a falar. Mas nem o nosso herói é seguidista nem o autor é parvo. Ou mentiroso, sequer.


Por isso vamos ter de nos conformar com a situação. Além disso, esta também pode ser uma forma de demonstrar que um livro, apesar dos milhões que já se escreveram, pode ter uma pontinha de originalidade.


Pensarão os estimados leitores que presunção e água benta cada um toma a que quer. E estão no seu legítimo direito de assim pensar. Mas, por favor, não se esqueçam que o contrário também é verdadeiro. Apesar de o contrário ser um pensamento intrincado de definir. Mas também quem é que vos disse que a boa literatura é fácil?


Pensarão os estimados leitores novamente que presunção e água benta etc., e estão no seu legítimo direito, mas uma vez mais vos lembro que o contrário também pode ser verdadeiro. O que nos remete outra vez para o intrincado da mensagem. Por isso, fiquemo-nos por aqui. Ou aderem à tese da presunção ou ficam do meu lado. Se optarem pela segunda hipótese, agradeço-lhes desde já. Se optarem pela primeira premissa, amigos à mesma e que vos faça bom proveito. Mas lembro aos estimados leitores que se optarem pela primeira hipótese, que ela pode ser objeto da mesma argumentação pela minha parte, ou seja que presunção e água benta cada um toma a que quer. Resumindo e concluindo (já cá faltava o lugar comum), na leitura de um texto e na sua interpretação, cada um está por sua conta e risco. E é bom que assim seja. Avancemos. 


100 – Então vamos lá avançar. O José passou ainda algumas semanas ...

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:23
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Uma imagem

 

E passado que está mais um 25 de Abril que deveria ser de festa mas que, pelo menos em Chaves, não aconteceu e mais parecia um daqueles domingos deprimentes em que ninguém sai à rua, voltamos em imagem à nossa cidade e àquilo que vamos tendo de melhor, a um local, este sim, que se quer calmo e saudável.

 

Já seguir vem aí o "Homem sem memória" de João Madureira.

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:04
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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

25 de Abril de 2012

 

Hoje é o dia 25 de abril e eu continuo-lhe fiel tal como o senti e vivi no primeiro 1º de maio festejado em liberdade, o de 1974, ou seja, desde o dia em que ele (25 de abril) chegou a Chaves. Sou-lhe fiel mas nem por isso tenho muitas razões para o festejar e cada vez vou tendo menos, mas festejo-o, eu sozinho, contido na minha liberdade onde me vem sempre à lembrança uma das canções da revolução “ cravo vermelho ao peito/a todos fica bem/ sobretudo dá jeito/ a certos filhos da mãe”. Claro que o cravo é apenas uma metáfora da liberdade e da democracia.

 

Andam agora “praí” a dizer que é preciso mudar de democracia. Não é preciso tanto e depois só conheço uma. Basta que se cumpra e é tudo.

 

Eu, por aqui no blog, costumo culpar os políticos dos nossos males, mas também eles, tal como o cravo da canção, são uma metáfora, são os filhos da mãe… e são culpados sim senhor, mas não são os únicos – os que ajoelham ao passar da procissão, são tão culpados como eles.

 

E fico-me por aqui, a comemorar o meu 25 de Abril!

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 01:39
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O 25 de Abril vem já a seguir...

 

Hoje é o dia 25 de abril, ainda feriado nacional, mas pelo caminho que isto leva não me admira nada que seja um dos feriados que passe a ser escrito a negro nos calendários. Mas sobre o 25 de abril falo a seguir, no próximo post. Agora e para já, fica uma imagem dos nossos dias.

 


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Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Pedra de Toque - Maio Maduro Maio

 

MAIO MADURO MAIO

 

 

 

PRONTO.

 

A chuva cai persistente, o frio aos cibos incomoda.

 

Mas os dias prolongam-se pela noite e por detrás das nuvens cinzentas já cheira a Maio maduro, já se houve o esvoaçar das andorinhas, que os beirais do Arrabalde aguardam com ansiedade.

 

O sol, o bom tempo, as noites cálidas e luarentas são previsões infalíveis mas que tardam dos sábios da meteorologia.

 

Vêm os meses em que a cultura devia sair à rua, oferecer-se nos jardins à sensibilidade, exibir-se nos palcos em largos históricos, venerados por moradias respeitáveis e solenes.

 

A cultura feita música, vestida de espetáculo, deveria romper espaços inexistentes, virar costas às elites e descer ao povo anónimo que houve fascinado, que vê estarrecido.

 

 

 

PRONTO.

 

O Junho é pintura de sol e de relva.

 

É poesia que apetece passear pela noite, ao som das cigarras, nas margens frescas e verdes do velho Tâmega.

 

É um mês em que Chaves vale sempre a pena.


 

António Roque

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:41
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Chaves - Portugal

 

Para já uma imagem, com o castelo ao fundo, imagem de marca da grandeza e importância que Chaves teve outrora na defesa de Chaves. Hoje nem defendemos, nem nos defendem... também, antes o inimigo vinha de fora.

 

 

Já seguir a "Pedra de Toque" de António Roque.

 

 


 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:31
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Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

Intermitências - Por Sandra Pereira

I

 

Gente produtiva


Estava decidido. Desta vez não ia vacilar. Estava farta de ouvir, e sentir na pele, a vontade desperdiçada. “Não sigas os outros que esperam no café os 500 e poucos euros de cada mês…”. Palavra do primo João, seladas com a garantia que, nos “States”, muito trabalho faz sorrir e o “stress” mantém a gente activa, tão veloz como a rotação da Terra e em sintonia com a velocidade dos dias. Ainda seria o “El Dorado” da geração anterior? “Se ganhas 400, queres 1000. Se ganhas 1000, queres 3000… Mas pelo menos a malta aprende a ser gente produtiva! Quem fica na conversa, não interessa a ninguém”, apregoava o jovem emigrante nas escassas visitas à aldeia natal, despertando rubores, olhares fulminantes e pontas de inveja. Já não era como o pai, da remessa dos que deram “o salto”. O primo João já era da 4G(eração), como o telemóvel que ostentava no bolso, curtir a “Big Apple” fazia parte da sua agenda diária.


Também do Brasil, a tia Rosalina enviava cartas a informar que lá, “os velhos duram mais tempo”, pois “o Inverno é só em Julho e Agosto”. Com 80 anos e sem conhecer os mais novos da “família de Portugal”, dera-se, mesmo assim, ao trabalho de ir ao consulado informar-se de como podia ajudar essa geração “formada”, mas “à rasca” a vir trabalhar para o “futuro”. A 10 minutos do metro e a meia hora das areias de Copacabana. Que mais podia pedir?


E a Lili que se não calava com o Oriente! Fartava-se de postar fotografias dela no Facebook, a sorrir com os dentes todos nas ruas de Xangai (onde deambulava imbuída nos vibrantes néones publicitários depois do trabalho), numa praia da Tailândia (onde passara as últimas férias), ou a provar comidas bizarras no Japão (onde fora em viagem de negócios). No seu caso, tudo começara com um estágio de três meses, mas rápido a Lili se habituou ao ritmo das cidades que nunca dormem. Lá, sentia-se “viva” e “produtiva”, dizia-lhe muitas vezes no “chat”. De resto, até a mãe lhe falava do filho “engenheiro” dos vizinhos que correra atrás do “brilho” de Angola, ou do filho do patrão do pai, que convencera o “velho” a mostrar as “engenhocas” numa feira internacional na Alemanha e tinha agora viagem reservada para ir negociar para o Qatar. “E esta hein?”, ria-se a mãe.


Sempre estivera reticente. Fazia parte da geração “500 euros” com “emprego” na caixa do supermercado, mas pelo menos, convencera-se, podia dar-se ao luxo de ter tempo para pensar, aborrecer-se e escrever no blogue, o seu verdadeiro “trabalho”. “Gosto das tuas crónicas, mas porque não escreves sobre o mundo?”, disseram-lhe uma vez, numa noite de copos. O mundo? Que mundo? Sempre pensara ter um mundo sem fronteiras e inesgotável dentro da cabeça…

 

Guess what? I'm in Xangai!


Começou a reparar na vida diária. No final, resumiu as conversas de uma semana inteira em dois temas – falta de dinheiro e episódios amorosos de vidas alheias – e a sua auto-aprendizagem a um livro de 300 páginas que finalmente acabara de ler num espaço de… quatro meses. Foi nesse momento que percebeu que o tempo parara no seu país.


Via a “crise” como um feitiço assombrado que transforma tudo o que é lindo em coisas feias. Como se o facto de haver limitações de dinheiro tivesse também limitado totalmente a capacidade de movimento das pessoas. Na televisão, sucedem-se “dramas reais”, “vidas difíceis”, “vergonhas escandalosas”, e aqueles irritantes apelos ao “empreendedorismo” dos “jovens” que só querem ser empregados, ou como já vira em letras gordas num jornal, receber “sem mexer uma palha”, num país que afinal lhes coloca a todos uma corda ao pescoço, que aperta mais a uns que a outros. Pior do que isso, procuram-se culpados! Pois condenem-se os pais, que quiseram aproveitar a oportunidade que a democracia lhes deu de ver os filhos “estudados” em vez de os deixar a “amargar” no campo! Condene-se o sistema de ensino, cuja cartilha sempre privilegiou o intelecto, a teoria e o “marranço”, sem se preocupar com a aplicação dos mesmos ao grande mercado que é a vida! Condenem-se os políticos e as elites, cuja ganância e novo-riquismo lhes cega o bom senso e corta o apetite de satisfazer as vontades do povo que os elegeu, optando antes por construir um país de “compadres”? Houve tempos em que todo um país acreditou na utopia do progresso, mas, ontem como hoje, lá se vai ouvindo por aí: “salve-se quem puder”.

 Gente Produtiva

 

Hoje é tempo de voltarmos ao mar, acredita-se. Hoje também é esta a cartilha, e aqui o “salve-se quem puder” também serve. Ela chegara ao ponto de revisitar os livros de História para perceber quem foi o “pobre esfomeado” que lançou a ideia dos Descobrimentos. Quem lhe disse que havia mais e melhor terra que a dele? Quais seriam as suas chagas quotidianas para largar amarras, partir sem medos e ainda convencer uns quantos a segui-lo?


No momento em que percebeu que o país parado era uma má influência para ela, de acção desperdiçada e coração despedaçado, começou a apontar a bússola e deixou de ouvir fado, para não cair na tentação de equacionar a malfadada saudade na lista dos “prós e contras” da partida. Tal como os antepassados, a geração actual também tinha aperfeiçoado os instrumentos de navegação: internet e “social network” eram os mais sofisticados. Compilado em duas folhas digitais, o seu “jovem potencial motivado e determinado” chegava em segundos aos quatro cantos do mundo. Então e a mãe que a criara? Bem, no fundo esta só desejava que a filha “Historiadora de formação – professora de História desempregada – funcionária (temporária) de supermercado – escritora amadora” tivesse a mesma sorte que o filho “engenheiro” dos vizinhos, em vez de a ver envelhecer com ela.


Mas, e agora? Onde iria ser “gente produtiva”? Da Europa, ninguém lhe estendera a mão. Como num casamento, os países da União Europa juraram “amor eterno” na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, “até que a morte os separe”, e agora com algumas esposas em “cuidados continuados”, era um continente inteiro que estava deprimido. Infelizmente teria mesmo de esvaziar a conta-poupança para paragens mais longínquas.


Tanto “network”, tanto “know-how”, tanta “connection” e nenhuma resposta ao fim de 250 CVs enviados para os destinos do primo João, da tia Rosalina e da amiga Lili. Havia dias em que sentia que, em nome da evolução profissional, crescimento pessoal e conforto financeiro, tinha de remar contra a maré fatalista nem que regressasse três meses depois quando o visto expirasse. Outros dias, achava que em nenhum outro lugar conseguiria combinar de modo tão perfeito aconchego, amor, amizade, lazer e comida como na sua terra. De qualquer modo, nenhuma resposta “curricular” chegava, ao contrário dos incentivos cada vez mais frequentes dos seus “emigrantes”.


Não, não. Estava decidido. Desta vez não ia vacilar. Precisava de confirmar o seu valor e ser acarinhada e cobiçada por “gente produtiva” em países que avançam, precisava de estar no "futuro". Sim, sim. Estava decidido. Ela própria se iria armar em profeta e bater portas nos próximos três meses.


No dia da partida para Xangai, além do aperto apreensivo no estômago e da adrenalina a acelerar-lhe o coração, na mala levava o Fernando Pessoa, a companhia ideal para as horas solitárias e nostálgicas, a “Viagem à India” de Gonçalo M. Tavares, a versão da epopeia de Luís de Camões “adaptada a almas jovens e angustiadas”, e um texto do seu filósofo preferido, Eduardo Lourenço. Neste último, tinha sublinhado uma frase: “Não viajamos para nenhum paraíso. Todas as viagens são sempre um regresso ao passado de onde nunca saímos”. Face ao exagero de lágrimas descontroladas da mãe antes do embarque, ela sorria. Algures, ia ser escritora.


Sandra Pereira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:30
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Quem conta um ponto... Da expetativa ao imobilismo (XII): António e os passarinhos

 

 

Da expetativa ao imobilismo (XII): António e os passarinhos

 

Desta vez tinha o firme propósito de escrever sobre os passarinhos, a primavera, as flores, a melopeia dos riachos e a música sinfónica ou coisa pelo estilo. Juro que sim. Olhando à minha volta, subiu por mim acima essa vontade de ser agradável aos estimados eleitores e de ser sincero com a mãe natureza. Juro que queria. Juro mesmo. Eu queria porque estava necessitado de fazer uma pausa em relação aos problemas da nossa cidade. Mas os tempos que vivemos não estão para distrações.

 

Mal me pus a escutar o meu entorno, em vez de ouvir os pássaros, chegaram-me aos ouvidos os gritos de protesto e indignação dos funcionários da Misericórdia de Chaves que já não recebem os seus salários há seis meses. Ensaiei concentrar-me nos pássaros e nos riachos mais a sua melopeia, mas as palavras dos manifestantes bateram-me mais forte. Sobrepuseram-se. Mas eu tentei de novo concentrar-me nos chilreios das aves: chriu, chriu, chriu…

 

Mas as palavras gritadas pelos manifestantes impunham-se: “Assim não pode ser, trabalhar sem receber.” E eu de novo a pensar na melopeia dos riachos e nos chilreios dos pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as palavras singelas dos trabalhadores da Misericórdia a baterem-me na cabeça como badalos aflitos: “Vivo numa situação muito complicada, já desliguei o frigorífico porque está vazio. O meu filho vai para a escola sem um cêntimo no bolso porque não tenho dinheiro para lhe dar.”

 

E eu a tentar concentrar-me na musiquinha suave dos riachos e das fontes e a tentar assobiar: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… na companhia das aves. E a realidade da vida dos meus conterrâneos a dar-me bofetadas geladas: “Passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso.” E os passarinhos lá nas árvores: chriu, chriu, chriu… e as águas dos riachos a sussurrarem limpidez e tranquilidade. E eu a tentar concentrar-me na primavera, no sol, a tentar desviar o pensamento. Mas a ingrata realidade a dar-me murros no estômago, a dar-me a provar o fel do desespero: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…”

 

E os pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E a realidade: “Somos nós que estamos a segurar a Santa Casa, nunca abandonámos o serviço.” E eu a tentar assobiar como os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos a assobiar como os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas tranquilas dos riachos a correrem para o Tâmega. E a realidade pura e dura a dar-me bofetadas: “Há pessoas que não têm dinheiro para vir trabalhar, nem para comer e sobrevivem graças à ajuda familiar.”

 

E os pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E o senhor Provedor, militante ativo do PSD local e com responsabilidades políticas evidentes na maioria que governa a nossa autarquia, a assobiar para o lado, afirmando que compreende a indignação dos funcionários. E o Governo a dizer que disponibiliza as verbas mas a não transferir o dinheiro. E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas tranquilas dos riachos a correrem encosta abaixo pelo meio das ervas e das fragas.

 

E o senhor Provedor, que apenas por mero acaso é um militante destacado do PSD flaviense, a mostrar-se impotente para resolver a situação e a visitar as bruxas de Montalegre em noite de forte chuvada. E Deus a desconfiar da santidade da Santa Casa. E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o senhor presidente da Câmara a sorrir já não sabendo bem para quê, nem porquê. E o seu vice, que veio para os jornais afirmar-se como o provedor dos velhinhos, das mulheres desprotegidas e das crianças desvalidas, em parte incerta.

 

E João Batista a receber do sindicato dos trabalhadores a moção de protesto e a debater-se com a sua impotência operacional, com a insensibilidade dos “seus” governantes, com este pingue-pongue absurdo entre as culpas e a irresponsabilidade de uns e a inoperância de outros. E o João Batista a atrair a si os dossiês difíceis para libertar o seu vice para a campanha. E o António a dar de “frosques” enquanto os nossos munícipes passam as passas do Algarve.

 

E de repente os passarinhos levantam voo e vão chilrear para outras bandas. E eu sento-me num banco de um velho jardim destruído e tento lembrar-me da parte de uma peça qualquer de Bach. Eu gosto muito de Bach. Mas tenho dificuldade em apanhar assim de repente o seu cravo bem temperado. Ao longe observo os manifestantes a rumarem cabisbaixos a suas casas para provarem o sabor de amêndoa amarga das promessas de atenção dos nossos autarcas na sua infeliz Páscoa.

 

Entretanto abro um jornal da terra e dou de caras com o vice de João Batista. Afinal quem se quer bem sempre se encontra. Eu pelo menos encontro-o desde há uns meses a esta parte sempre nas páginas dos jornais tentando pôr-se em bicos de pés para dar nas vistas. Sempre em bicos de pés.

 

Numa página par do jornal, a subalterna em termos de importância de informação e publicidade, vem a notícia de que “a indefinição da posição da autarquia quanto ao GD Chaves levou a Comissão Administrativa do Desportivo a entender que não tinha condições para apresentar a candidatura que a levasse a assumir um mandato como Direção”. Concluo que a tal Comissão se fartou das belas palavras de João Batista, do seu sorriso militante e das inúmeras promessas por cumprir por parte da Câmara relativas a subsídios de atividades desportivas e a infraestruturas prometidas e nunca realizadas.

 

Leio depois que a Câmara de Chaves emitiu um comunicado reagindo às críticas da citada Comissão. Independentemente da letra do documento, que é uma afirmação de serôdios princípios, não vem assinado por ninguém. Ou seja, a posição é de toda a Câmara. Desta vez nem João Batista se mostrou disponível para arcar com toda a responsabilidade para cima das suas costas. E, estou em crer, o seu vice também fugiu dela com muita subtileza. Uma coisa é dizer-se que se faz. Outra é fazer. E o António é muito bom na primeira premissa, mas é péssimo na segunda.

 

No final, a tal CMC, não sabemos bem em nome de quem, diz que “não cede a pressões.” Deixem-me rir. Ai não que não cede. Não tem feito outra coisa desde que tomou posse. Sempre cedeu no interesse dos poderosos e no dos seus apaniguados. Só nunca cedeu numa coisa: na insignificância que permanentemente atribuiu aos verdadeiros interesses das nossas populações, nomeadamente na qualidade da educação, na defesa dos cuidados de saúde de todos os flavienses, na defesa da nossa agricultura e na defesa da cultura enquanto motor impulsionador de desenvolvimento. Relativamente à cultura sempre a tratou como um bem descartável, subsidiário, como um reclame luminoso que se põe numa montra para enganar pacóvios.

 

Na tal página ímpar, a guardada para as notícias mais importantes, aparece António Cabeleira e João Neves em distintas fotografias a distribuir medalhas a crianças que participaram num torneio de escassa importância, com o pomposo nome de “Torneio Pavão”. A notícia são meia dúzia de linhas. No entanto fotos são nove. E em duas delas aparece, e passo a citar: “António Cabeleira, vereador da CMC…” Desta vez o nosso estimado vice aparece a sorrir. Timidamente é certo, mas a sorrir. Para o semanário regional o António deixou cair o posto de vice para assumir o de simples vereador. Mas lá sobrevém sempre em bicos de pés, para se fazer notar.

 

Talvez porque lhe pese a consciência saber da situação dos flavienses que trabalham há meio ano sem receber um tostão e de nada ter feito para desbloquear a situação. Então a política apenas serve para entregar medalhas às crianças e dizer que vai fazer isto e aquilo para apoiar os idosos, as mulheres violentadas e as crianças desvalidas? E lá está o António a dançar o malhão em pontas para dar nas vistas.

 

Por cima de mim voavam novamente os pássaros a chilrear chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correr tranquilamente para o vale. E eu a arrepiar-me. E as palavras a baterem-me forte: “Assim não pode ser, trabalhar sem receber.” E eu a tentar de novo pensar na melopeia dos riachos, nos chilreios dos pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as palavras singelas dos trabalhadores da Misericórdia a reverberarem na minha cabeça: “Vivo numa situação muito complicada, já desliguei o frigorífico porque está vazio. O meu filho vai para a escola sem um cêntimo no bolso porque não tenho dinheiro para lhe dar.” E os pássaros a chilrear chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me forte: “Passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso.” E os passarinhos lá nas árvores: chriu, chriu, chriu… E as águas dos riachos a sussurrarem limpidez e tranquilidade. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda mais forte: Há pessoas que não têm dinheiro para vir trabalhar, nem para comer e sobrevivem graças à ajuda familiar.” E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda forte: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…” E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda mais forte: trabalhar sem receber… chriu, chriu, chriu… frigorífico vazio… chriu, chriu, chriu… sem um cêntimo no bolso… chriu, chriu, chriu… passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso… chriu, chriu, chriu… sem dinheiro para vir trabalhar, nem para comer… chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu…

 

E na página 24 e 25 do jornal uma enorme entrevista de António Cabeleira com o título de uma sua resposta: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade…” E a puta da realidade a bater cada vez mais forte: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…” E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correr tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenham a sua atividade…”  E a realidade dos trabalhadores a malhar forte: trabalhar sem receber… chriu, chriu, chriu… frigorífico vazio… chriu, chriu, chriu… sem um cêntimo no bolso… chriu, chriu, chriu… passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso… chriu, chriu, chriu… sem dinheiro para vir trabalhar, nem para comer… chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E o António Cabeleira: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade…” 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Elogio à Primavera

 

Para iniciar a semana fica apenas uma imagem de um elogio à primavera.

 

Mas já que estou aqui, hoje não ficamos só pelos elogios, é também dia de crónicas. Às 9 horas a habitual crónica semanal de João Madureira com "Quem conta um ponto..." e às 17H30 a habitual crónica quinzenal de Sandra Pereira, com as suas "Intermitências". Até lá e façam o favor de não esquecer gozar a primavera com tudo que ela tem para nos dar.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:25
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