O Homem Sem Memória
Texto de João Madureira
Blog terçOLHO
Ficção
106 - Começou a interessar-se pela política e a frequentar diferentes grupos de amigos que, por estranho que possa parecer, se reuniam única e exclusivamente por orientação partidária.
O filho do guarda Ferreira esforçou-se por ser amigo de todos para com todos aprender. Mas a democracia, potencializando a criação dos partidos, parecia avessa a que a amizade se pudesse manter por cima das fronteiras dos distintos grupos ideológicos.
O José tentou percorrer o caminho da coerência e da identidade. Ouvia-os a todos, e, talvez por isso mesmo, não conseguia decidir-se nem por uns nem por outros. Ao mesmo tempo concordava com todos e, também ao mesmo tempo, discordava de todos. Mas os argumentos de exclusão usados por todos os partidos eram muito fortes. Por isso ficou, metaforicamente, tolo a meio da ponte romana.
Não se conseguia decidir nem pela margem direita nem pela margem esquerda do rio da “liberdade”, que, na voz esquisita de um cantor muito em voga na época, estava a passar por ali. E como não nos podemos banhar duas vezes na mesma água do rio, segundo nos ensinaram os filósofos, nem montar o cavalo do poder depois de o deixar passar à porta do quartel, segundo avisaram os capitães de Abril, o José começou a andar carregadinho de uma angústia tão chata e tão persistente como a chuva molha tolos. Mas não desistiu, logo à primeira, de fazer o seu caminho, porque, segundo dizem os poetas mais sábios, o caminho faz-se caminhando.
Como ouvia falar muito em democratas pensou em ser um deles. Afinal o seu percurso antifascista, mesmo que devido ao acaso, aí estava para o legitimar.
Foi essa, pois, a sua primeira definição. À hora do almoço, enquanto na televisão se podiam observar manifestações para todos os gostos e feitios, resolveu surpreender os pais: “Pronto, está decidido. Sou Democrata”. O guarda Ferreira e a Dona Rosa limitaram-se a dizer-lhe para terminar de comer o almoço e ir lavar os dentes.
Desiludido, e com os dentes por lavar, pois não gostava mesmo nada de ser mandado, foi ter com os amigos e declarou-lhes: “Pronto, está decidido. Sou Democrata”. Mas eles explicaram-lhe que democratas eram todos. E ai de quem o não fosse! Por isso tinha que ser democrata e mais qualquer coisa. Porque era a “coisa” o que definia o democrata. E não o democrata que definia a “coisa”. Ser só democrata era muito pouco. Ou quase nada. Por isso tinha de ser algo mais.
Então afirmou resoluto: “Como sou Democrata e também penso ser Cristão, só posso ser democrata-cristão. Sim, eu sou é democrata-cristão. Cristão porque sim e democrata porque também.”
“O que tu és é parvo”, disseram-lhe os amigos. “Aqui não há democratas-cristãos. Isso só existe na Itália. Em Portugal ou és socialista ou comunista. Decide-te. E quanto antes melhor senão deixamos de ser teus amigos.” Posto entre a espada e a amizade, o José disse-lhes que ia pensar, só que não pensou em nada. Limitou-se a fazer, e a dizer, que pensava. Que é, bem vistas as coisas, aquilo que cada um de nós faz a maioria das vezes.
Argumentou que, como filho de um GNR, não era correto afirmar-se socialista. E muito menos comunista. Para vergonha do pai já lhe bastava andar com as calças à boca-de-sino, ouvir música de drogados e usar o cabelo comprido. Além disso, a sua mãe também o informava, por bem, de que a informavam pessoas de virtude, que os comunistas roubavam as terras aos agricultores, matavam os velhos e prendiam os guardas-republicanos. Além de que incendiavam e destruíam as igrejas, matavam os padres e as freiras, queimavam os crucifixos e roubavam os filhos aos pais, destruíam as famílias e falavam mal do Papa e de Deus e de Cristo e de Nossa Senhora e dos Santos e dos Anjos e dos Bispos e dos padres, dos sacristãos e dos acólitos. Quando o filho a contestava dizendo-lhe que talvez isso não fosse bem assim, pois as pessoas são muito mentirosas, ela levava-se dos diabos e dizia-lhe aos berros que na Rússia chegaram a enfiar os crucifixos nas partes traseiras dos padres e dos homens católicos e nas partes traseiras e dianteiras das freiras e das católicas mais católicas das católicas, pois para se ter a coragem de se afirmar católico na Rússia só mesmo Santos do tamanho do Cristo Rei de Lisboa.
“Credo, mãe, não exageres”, replicou um dia o José incrédulo. Então a Dona Rosa foi buscar um livro sobre os massacres dos negros da União dos Povos de Angola e mostrou-lhe fotografias de mulheres brancas com paus espetados nas vaginas.
“Vês, vês, aqui tens a prova”, disse-lhe a mãe toda arrepiada. “Mas, mãe, isso são fotografias de Angola”, argumentou o José. “Podem ser de Angola, mas quem mandou os pretos meter os crucifixos nas… nas… nessas partes foram os comunistas”, concluiu a mãe do José. E justificou de seguida: “Os pretos não têm maldade para tanto. Os pretos só conseguem fazer as coisas mandados pelos brancos. E os russos são brancos. Até são mais brancos do que nós. E os pretos quando veem um branco muito branco pensam logo que é um deus.”
Como via que em casa não conseguia aprender nada, foi ter com os amigos. Mas os amigos não lhe retribuíam a amizade e muito menos o saber. Olhavam para ele desconfiados. Parece que não havia nada a fazer.
Os amigos não o aceitavam assim indeterminado. Ou se decidia ou não podia andar com eles. Do mal o menos.
Um dia chegou ao pé dos seus amigos socialistas. E disse-lhes que afinal era socialista, porque comunista, bem vistas as coisas, não podia ser porque a sua mãe rezava todos os dias o terço pela conversão da Rússia, porque na Rússia os danados dos comunistas tinham roubado as terras aos agricultores, tinham feito das igrejas bordéis, tinham prendido, ou mandado para a Sibéria, ou as duas coisas por junto, os padres, as freiras e os cristãos mais fervorosos, tinham proibido as pessoas de usar crucifixos ao peito, matavam os velhos com uma injeção atrás da orelha e, com a fome que por lá grassava, até se atreviam a comer os bebés mais gordinhos e a roubar as crianças à família e a criá-las como ovelhas.
Os seus pretensos amigos socialistas concordaram com a adesão, mas disseram-lhe que não podia dizer assim tão mal dos comunistas, pois os comunistas podiam mesmo ser maus mas não eram tão maus como ele os pintava. Além disso eram compagnons de route, como muito bem explicaram os camaradas franceses ao camarada Mário Soares.
Apanhado assim de surpresa, o José lembrou-lhes que os poucos comunistas seus conhecidos falavam muito mal dos socialistas, apelidando-os de traidores e aliados da burguesia.
“Não te ponhas com essas merdas divisionistas. Se o Mário Soares diz que os comunistas são democratas, eles são democratas, mesmo que o não sejam. Fazem falta à democracia.” Ao que o José replicou: “Fazem tanta falta à democracia como os cães na missa.”
Então os socialistas olharam para ele e disseram-lhe: “Põe-te mas é a andar daqui para fora. És um reacionário muito filho-da-puta. Podemos não ser comunistas, mas também não somos anticomunistas. Somos democratas.” “Democrata sou eu”, lembrou-lhes o José, mas eles nem sequer o ouviram. “Tu és é parvo. Um verdadeiro democrata não é anticomunista.” Ao que o José retorquiu: “Para se ser um verdadeiro democrata tem de se ser necessariamente anticomunista. Essa é que é a verdade.” “Tu és um democrata muito merdoso”, acusaram-no os socialistas. Ao que ele respondeu: “E vós sois uns socialistas muito medrosos.” “Tu és um agente provocador. Por isso não te queremos entre nós. Vai-te e não voltes”, avisaram-no os socialistas. O José limitou-se a olhar para eles com um ar deveras preocupado e desiludido. (Podemos avisar os estimados leitores que foi a partir deste momento que o José iniciou a sua via crucis política).
E eles, os outros, imbuídos da sua fé democrática e da sua identidade socialista, olharam para ele com cara de caso: “Já não és meu amigo”, disse-lhe o Judas. “Já não és meu amigo”, disseram-lhe logo a seguir o Simão I, o Simão II, o André, o João, o Tiago I, o Filipe, o Bartolomeu, o Tomé, o Mateus, o Paulo, o Tiago II e a Maria Madalena ainda sem idade para se arrepender.
“Vós não sois socialistas, sois é parvos e ignorantes”, disse-lhes o José cerrando os dentes. Ao que eles responderam, como bons socialistas que eram, com os punhos em riste: “Some-te daqui fascista.”
“Fascista era a puta da tua…”, e o resto da frase do José foi abafada pelo apitar do comboio que naquele momento atravessava a estrada na passagem de nível perto do asilo dos velhinhos.
107 – O José bem procurou por toda a cidade ...
(continua)


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