Segunda-feira, 18 de Junho de 2012

Intermitências - Acesso Interdito

 

Acesso Interdito


Aquela porta… Escura, sisuda, intrigante, quase medonha. Aquela porta severa de madeira sempre estivera ali, na casa de infância agora envelhecida pelas rugas dos pais. Era diferente da janela colocada ao lado, transparente, a pôr a nu sem qualquer pudor o entediante cenário da humanidade, a deixar adivinhar o que virá a seguir… Aquela porta não.


Uma noite de um sombrio mês de Janeiro, ela olhou para aquela porta, decidida a ir até às últimas consequências. Queria saber a todo o custo o que havia por detrás daquela maldita porta. Estava em pulgas, mal se podia conter, como quando era miúda. Tentara muitas vezes aventurar-se, partir à descoberta do “tesouro” que escondia aquela porta e procurara a chave em todos os recantos da casa, sem nunca a encontrar. Como a educação que lhe fora dada tornava-a incapaz de recorrer à força, a alternativa era esquecer. Naquele sombrio mês de Janeiro, voltou a procurar a chave no silêncio da noite. Acesso interdito, restou a curiosidade.


Uma noite de um nevoento mês de Fevereiro, ela olhou para aquela porta, decidida a não tocar no que não lhe dizia respeito. Para que queria ela abrir o raio daquela porta? E se não fosse bonito o que estava por detrás? Pior do que isso, e se magoasse alguém com o seu atrevimento? Há coisas que não devem ser forçadas, pensou. Se algo tivesse que atravessar o seu caminho, atravessaria por força da natureza, das leis do universo ou de qualquer coisa divina, pensou. Atrás daquela porta, podia estar o coração de alguém e se não tinha sido convidada, não tinha razão para entrar, pensou. No fundo, no fundo, naquele nevoento mês de Fevereiro, pensou também que, se passasse daquela porta, talvez pudesse resgatar um coração perdido. Acesso interdito, restou a incerteza.


Uma noite de um trovoado mês de Março, ela olhou para aquela porta, decidida a nunca abri-la. Sempre estivera fechada, só podia ser coisa ruim. Não acreditava em espíritos, nem em misticismos e profecias, embora desconfiasse que, por vezes, algo diabólico lhe atravessava a mente inconsciente. Tentara muitas vezes falar daquela porta aos habitantes da casa, mas as respostas eram vagas. Quem deixa uma porta fechada anos por ter perdido a chave? Quem deixa uma porta fechada anos para guardar velharias sem nunca as partilhar com ninguém? Quem acredita na discrição de uma porta para encerrar mágoas incuráveis? Aquela porta fora colocada ali para “arrumar esqueletos”, desinfectar feridas, alcoolizar medos. Naquele trovoado mês de Março, só podia coisa ruim. Acesso interdito, restou o receio.

 

Fotografia de Sandra Pereira


Uma noite de um chuvoso mês de Abril, ela olhou para aquela porta, decida a reflectir sobre ela. Não fora ali colocada por acaso, disso tinha a certeza. Desse para onde desse, aquela porta tinha sentido, mesmo ela não sabendo qual. Era uma passagem, uma travessia para algo. Naquele chuvoso mês de Abril, tinha dúvidas se podia confiar naquela porta, se tinha realmente a importância que parecia ter, mas ela ali estava. Tinha de a aceitar e seguir em frente. Acesso interdito, restou o desconhecido.


Uma noite de um temperado mês de Maio, ela olhou para aquela porta, de novo decidida a agir. Queria acabar com indecisões e espicaçar a coragem. Não tinha nada a perder se derrubasse aquela porta. Podia mudar a sua vida ou o coração de alguém para pior… ou para melhor. Como poderia ela saber? Naquele temperado mês de Maio, pontapeou a porta, com mais e mais força, mais e mais força. Não conseguiu abri-la, mas a tentativa deixou-lhe um sorriso estampado na cara e uma sensação de alívio que não conseguiria explicar. Acesso interdito, restou a vontade de mudança.


Uma noite de um sereno mês de Junho, ela olhou para aquela porta, decidida a derrubá-la mesmo. Já diz o ditado que quem quer, pode, mas ela nunca testara a veracidade da sabedoria popular nas decisões essenciais da vida porque só percebia a importância das mesmas tarde demais. Aquela porta podia ser essa oportunidade... Pensou que, mesmo sem sede, tinha de encher o copo todo e bebê-lo de um trago porque era uma necessidade fisiológica. Naquele sereno mês de Junho, não duvidou mais: aquela porta era uma porta aberta para muitas outras portas. Já que não conseguia sozinha, buscando as ferramentas certas, iria derrubá-la. Acesso interdito, restou a esperança.


Uma noite sem calendário, ela olhou para aquela porta, munida de várias armas de arrombamento… e viu um espelho. Aquilo que desde sempre encerrara o que ela era, reflectia-lhe agora tudo o que tinha dentro dela. Não era louca, não. Simplesmente o acesso daquela porta nunca estivera interdito, era infinito.

 

Sandra Pereira

publicado por Fer.Ribeiro às 17:30
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Quem conta um ponto...Da expetativa ao imobilismo (XX): A Eurocidade, o cartão, o João, o Juan e o secretário técnico

 

Da expetativa ao imobilismo (XX):  A Eurocidade, o cartão, o João, o Juan e o secretário técnico

 

E vai daí, João Batista, o senhor presidente do bairro sul, sorrindo para as objetivas na apresentação do primeiro número da revista Fórum, depois de olhar, momentos antes, para o senhor presidente do bairro norte, Juan Jiménez Morán, disse que Portugal e Espanha falam, agora, a “uma só voz”.

 

Não é nem Trás-os-Montes e Galiza, não é sequer o concelho de Chaves e o de Verin, mas antes Portugal e Espanha que agora falam a “uma só voz”, que, desta vez, até foram duas: a do autarca João e a do alcaide Juan. Ou vice-versa, por causa da equidade entre os bairros.

 

E a tal voz, una e indivisível, disse, ainda mais uma vez com o sotaque e o sorriso português do presidente do bairro sul da Eurocidade: “Queremos que as pessoas se sintam bem neste território e não sintam a diferença quando atravessam a fronteira.” E tornou a sorrir na direção do alcaide do bairro norte e, agora, na direção do público e proferiu: “Pretendemos ainda compatibilizar sistemas de cobrança de portagens, criar uma plataforma de correios ibéricos, eliminar o «roaming» na Península Ibérica e conceber uma comissão de proteção civil comum.“

 

Ou seja, os presidentes dos dois bairros da Eurocidade pretendem substituir-se aos respetivos Estados para criarem serviços ibéricos. E andamos nisto: tu dizes umas piadas, eu digo outras tantas e no fim rimo-nos pois alguém há de escrever alguma coisa nos jornais.

 

Mas, alto lá, será que estes dois senhores não têm sentido do ridículo? Querem fazer de nós parvos? Toda esta encenação já começa a enervar mesmo os flavienses mais crédulos e pacientes.

 

No dia da inauguração da sede da Eurocidade, situada em território galego, que juntou várias entidades políticas e administrativas dos dois países, foram proferidas palavras que são o exemplo perfeito de demagogia e de vacuidade inerentes ao projeto, pois tanto servem para esta celebração como para as mais diversas situações e comemorações onde os políticos enchem a boca com frases que ninguém entende mas que ficam bem a quem as profere. Foi assim que foram ensinados e é assim que sabem fazer política. É como muito bem diz o povo: Não entendemos nada do que o senhor presidente disse mas temos de reconhecer que fala muito bem.

 

Falaram de integração, conciliação e coesão social, de abertura ao mundo, de desenvolvimento, de ofertas turísticas, de afirmação de uma identidade, de cooperação, proximidade, recursos endógenos, liderança, requalificação, oficinas de turismo e ações que melhorem a qualidade de vida.

 

E então tudo isso deu em quê? Pois sim senhor, deu em pantomima. Até agora gastaram 200 mil euros para construírem uma sala insonorizada para lá tocarem bandas musicais, que nas horas vagas serve também de sede da Eurocidade, e emitiram um cartão de Eurocidadão. E essa pífia realidade serviu para os dois senhores presidentes dos bairros norte e sul da Eurocidade aparecerem em duas ou três edições dos jornais da região a sorrir e a exibirem um retângulo de plástico que pouca, ou nenhuma, serventia tem.

 

Está claro que se colocaram a tempo por detrás do apetrecho plastificado e apregoaram que “o cartão de Eurocidadão vai permitir facilitar a vida dos cidadãos e aceder a um conjunto de serviços públicos de carácter coletivo e social das duas localidades”. E disseram ainda mais: “Na Eurocidade tudo é um ponto de partida”. Eles é que são uns pontos. E fazemos votos que estejam de partida, para o seu próprio bem, ou, na melhor das hipóteses, para o bem das comunidades que afirmam representar e governar.

 

Mas ainda não é tudo. Na sua insistente manobra de propaganda, repisaram que o tal cartão é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e pelo Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (POCTEP).

 

E insistiram: “O cartão do Eurocidadão destina-se a proporcionar os mesmos benefícios aos residentes dos dois municípios” (agora mais conhecidos por bairro norte e bairro sul), “nas mesmas condições de acesso e uso dos que já dispõem no seu município de residência, promovendo desta forma o intercâmbio entre populações e o aumento da oferta e da diversidade de serviços.”

 

Mas não contentes com todas as promessas feitas, asseguraram ainda mais algumas, não vá a demagogia ficar manca. O tal cartão terá ainda a capacidade de potencializar e promover uma “gestão equilibrada dos fundos comunitários, através do aproveitamento de economias de escala, na utilização e gestão partilhada de recursos já existentes ou, até, no planeamento conjunto de futuros equipamentos.”

 

Aqui chegados deixem que vos conte o que me fez lembrar esta publicidade enganosa: nada mais, e nada menos, do que os antigos vendedores da banha da cobra. Ou ainda os vendedores de mantas na Feira dos Santos que, na compra de um cobertor, oferecem uma dúzia de pares de meias, um ou dois guarda-chuvas, meia dúzia de lenços e ainda uma faca, uma tesoura e um pífaro de lata para os filhos ou os netinhos.

 

Ai pensam que exagero? Por muito esforço que faça apenas consigo ficar um pouco aquém da realidade. Eu bem tento, como muito bem sabem os estimados leitores, mas os autarcas dos dois bairros da Eurocidade conseguem suplantar-me sem para isso fazerem grande esforço.

 

Ora então fiquem os estimados leitores com as vantagens práticas do tão enaltecido cartão. E olhem que vou citar todas as que vieram nos jornais. Todas, todinhas sem exceção. Primeira: “Vantagens na Biblioteca Municipal de Chaves e nas Piscinas do Rebentão”. Falam de vantagens mas não especificam quais são, mas devem ser imensas. Segunda: “Benefícios nos Museus Municipais (Museu de Região Flaviense, Museu de Arte Sacra, Museu Ferroviário) e na Piscina Municipal.”

 

E terceira: “Previsivelmente” (e foi isto que veio escrito nos jornais), “a partir do mês de maio, existirá um programa de visitas guiadas gratuitas para associações e grupos, que inclui um amplo percurso por diferentes pontos de interesse turístico e patrimonial dos municípios de Chaves e Verin”. Isto é, “previsivelmente”, o choque turístico da dupla António Cabeleira e Agostinho Pizarro, o responsável do secretariado técnico da Eurocidade, vulgo o mentor ideológico do divertimento.

 

Ou seja, a Eurocidade vai oferecer gratuitamente passeios a turistas. E vai carregar tudo isso no cartão de crédito de todos os flavienses. É mais uma vantagem desse imenso privilégio de ser Eurocidadão com direito a cartão. E isto tudo está tão bem organizado que até vai depender, nas doutas palavras do responsável técnico Agostinho Pizarro, das “solicitações e da articulação com as agências de viagens”. Bravo Agostinho, também tu és um génio bem à imagem e dimensão do teu estimado amigo e, querido vereador, António Cabeleira. Bravo. Bravíssimo.

 

E para este efeito, o executivo camarário do bairro sul reuniu extraordinariamente e aprovou as alterações aos regulamentos municipais “no sentido de passarem a ser compatíveis com as normas previstas no Regulamento do Cartão do Eurocidadão, muito concretamente com as normas associadas aos benefícios decorrentes da titularidade de tal cartão”.

 

As citadas alterações permitem agora aos portadores do cartão do cidadão poderem “entrar gratuitamente na rede de museus e pagar 1 euro para usufruir da piscina (em vez de 2) e 0,40 cêntimos (em vez de 0,75) para pessoas com mais de 65 anos e até aos 16 anos”.

 

Ainda devem estar lembrados de os dois senhores presidentes encherem a boca de integração, conciliação e coesão social, de abertura ao mundo, de desenvolvimento, de ofertas turísticas, de afirmação de uma identidade, de cooperação, proximidade, recursos endógenos, liderança, requalificação, oficinas de turismo e ações que melhorem a qualidade de vida e… de o cartão permitir facilitar a vida dos cidadãos e permitir aceder a um conjunto de serviços públicos de caráter coletivo e social das duas localidades e… que na Eurocidade tudo é um ponto de partida e… que se destina a promover desta forma o intercâmbio entre populações e o aumento da oferta e da diversidade de serviços e, ainda, que… o tal cartão é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e pelo Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (POCTEP) e… que, afinal, o tal cartão vai possibilitar a gestão equilibrada dos fundos comunitários, através do aproveitamento de economias de escala, na utilização e gestão partilhada de recursos já existentes ou, até, no planeamento conjunto de futuros equipamentos. Ufa, estava a ver que não conseguia acabar.

 

Agora, depois de tudo espremido, ficámos a saber que o famoso cartão permite aos seus portadores ir para o Rebentão e… para a piscina municipal e… entrar nos museus de graça.

 

E como eles são tão apelativos, já prevejo filas e filas de Eurocidadãos do bairro norte (antigamente conhecidos como galegos de Verin) e de Eurocidadãos do bairro sul (dantes apelidados de flavienses), impacientes para que os citados museus abram as suas portas para poderem aceder, a tempo e horas, às suas excelentes propostas culturais.

 

E isto semanas e… semanas e… semanas seguidas, pois eles são tão grandes e… o seu espólio é tão diversificado que é bem capaz de cada Eurocidadão gastar um mês inteirinho a admirar as peças expostas. Isto se conseguir ter vaga disponível. O que duvidamos. Mas para grandes projetos, grandes ideólogos. Bravo Agostinho, também tu és um génio.

 

E, num futuro próximo, bem mais próximo do que calculamos, enquanto os Eurocidadãos vão andar num corrupio cultural, turistas vão passear-se de graça pelas ruas do bairro sul gozando do privilégio de observarem um rio de águas estagnadas, de poderem enxergar, no centro histórico da cidade, as ruas cheias de garrafas partidas, copos de plástico e, de quando em vez, fezes pelos cantos e esquinas (resultantes do “botellón” flaviense), perguntando-se se os excrementos pertencerão a animais ou a seres humanos. O que para o caso tanto monta, mas sempre conferem um arzinho de ruralidade, que julgávamos perdido. E poderão ainda, os estimados turistas, se forem suficientemente curiosos, ficar a saber que o hospital que estão a vislumbrar lá ao longe possui apenas os serviços de um Centro de Saúde, que o edifício universitário é apenas uma construção elegante construída fora de portas, mas que já não tem cursos, ou possui apenas meia dúzia de turmas com guia de marcha para Vila Real, e que o Tribunal vai ser desmantelado para dar lugar a um espaço de ruínas romanas que fará as delícias dos maluquinhos das pedras antigas.

 

Esta pantomima fez-me lembrar o “Clube dos Fás”. Um grupo de crianças resolveu um dia criar uma coletividade que em troca de um cartão, e do prestígio de pertencer ao Clube, pagavam uma quota estipulada em reunião de direção. Como o dinheiro angariado não dava sequer para todos os sócios terem acesso a um gelado por mês, a direção do clube resolveu sortear semanalmente um Fá pelos sócios efetivos. O que muito alegrou os adeptos. Também em reunião da direção, para retribuir o trabalho efetuado e para recompensar o prestígio dos seus elementos, resolveu, a douta direção, incluir na oferta um Fá semanal para todos os membros efetivos do seu órgão máximo. Muitos deles andam agora espalhados pelas autarquias e outros já passaram por vários governos da nação.

 

PS – O que ainda não conseguimos apurar é se a Eurocidade já tem bandeira e hino oficial. Mas, com o caminho que isto leva, deve estar para breve. Até lá vamos aguardar pacientemente.

 

Ó senhor secretário técnico dê lá uma ajudinha! O bairro sul da cidade, que tão ajuizadamente ajudou a fundar, agradece-lhe do fundo do coração.

 

Para criarem Roma foram necessários dois rapazes, Rómulo e Remo. Para formarem a Eurocidade foram fundamentais dois autarcas, João e Juan, e um secretário técnico, Agostinho Pizarro. Sinais dos tempos. Mas a história continua a ter protagonistas que nos acodem sempre que deles temos precisão. Rejubilemos!

 

 

João Madureira

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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XVII Encontro de Blogues e Fotógrafos - O Rescaldo

A caminho da Nascente do Rio Tâmega

 

E cá estou eu, bem mais tarde do que tinha previsto, mas primeiro foi preciso repor forças de dias muito agitados e, claro, havia que ver o jogo da nossa seleção onde até o Cristiano Ronaldo ficou meio perdoado. Mas cheguei e estou aqui tal como tinha prometido, também com a prometida reportagem do XVII Encontro de Blogues e Fotógrafos.

 

Só os mais ousados ousaram em ir mesmo, mesmo onde o Tãmega nasce


Como as fotos são muitas e não vou ter argumentos escritos para acompanhar a pedalada das imagens, embora argumentos não faltem, vou-me ficar pelo resumo e pelo andar do encontro, ou seja, vou reproduzir aqui virtualmente aquele que foi o nosso encontro/passeio/convívio real.

 

 Ora aqui é que o tâmega nasce mesmo - A imagem é de arquivo,

de há dois meses atrás, ainda sem a vegetação que agora quase

não o deixa ver nascer e, confesso, que desta vez fiquei a uns

metrinhos da nascente.

 

Tal como estava previsto arrancámos de Chaves às 8H30, recolhemos os nossos amigos galegos em Verin e a partir de aí foi rumo à nascente do Rio Tâmega, pois o Tâmega não nasce propriamente aqui ao lado, ainda são precisos umas dezenas de quilómetros para se chegar até à nascente. Mas chegamos.

 

 

 Também há água do Tâmega, as escassos metros da nascente principal, mas de nascente secundária que só aparece com as chuvas

 

Claro que como mandam as boas regras destes passeios e encontros há que fazer o reconhecimento prévio daquilo que há a visitar. Nós, organização, também o fizemos, ainda em pleno inverno, seco, e embora a nascente nunca seque, ontem surpreendeu-nos com a quantidade de água das nascentes. Sim, das nascentes, pois embora o Rio Tâmega tenha uma nascente principal, ao seu redor existem várias nascentes secundárias que com a abundância das chuvas dos últimos meses, resolveram dar o ar da sua graça e quase nos impedir de chegar até à nascente principal e, diga-se a verdade, só os mais ousados conseguiram lá chegar, e mesmo assim, alguns trouxeram mais do que os pés molhados de recordação.

 

 

 O Tâmega a uma ou duas centenas de metros da nascente é assim. É também o lugar da primeira "ponte", já em Albergaria

 

Ainda bem que de seguida descíamos à primeira povoação – Albergaria – onde também há um albergue de peregrinos. Feitos peregrinos, também rumamos até ele, onde estava previsto o nosso primeiro reforço alimentar.

 

 

 E aqui encontraram-se os pastéis de Chaves e a Bica de Laza - Albergaria no albergue dos peregrinos

 

Mas antes ainda houve tempo de ver onde pela primeira vez o nosso Rio Tâmega passa por baixo de uma ponte, ou coisa parecida, digamos antes onde o rio passa por baixo de qualquer coisa, um muro, seguido de um pontão e logo de seguida de um aqueduto por baixo da primeira estrada que o atravessa.

 

 

 

A visita guiada pelo Alcaide de Laza a Albergaria

 

Depois sim, é que fomos à descoberta de Albergaria, do albergue e dos pastéis de Chaves e da Bica de Laza. Combinação perfeita para um pequeno-almoço, não só pelos sabores salgado e doce mas também pela gastronomia típica de Chaves e de Laza se encontrarem na mesma mesa. Quanto à bebida, aí já foi ao gosto de cada um, houve quem preferisse o branco (como mandam as regras de acompanhamento do pastel de Chaves), as minis, sumo ou água, que se fosse da fonte, era água do Rio Tâmega, pois é o Tâmega quem abastece de água esta aldeia de Albergaria.

 

 

 Uma rua de Albergaria, bem idêntica às nossa ruas das aldeias rurais

 

Em Albergaria esperava-nos o Alcaide de Laza. Para quem não sabem o Alcaide é o correspondente político ao nosso Presidente da Câmara, mas com muitas diferenças (pela positiva) tal como se veio a verificar ao longo de todo o passeio. E foi precisamente o Alcaide de Laza que a partir de aí serviu de nosso guia, começando por nos mostrar a Aldeia de Albergaria e aquele que é o monumento simbólico da aldeia – “El Rollo – Pena de Picota” – aquele que era um símbolo de jurisdição, justiça e castigo.

 

 

 Igreja e cemitério de Albergaria

 

Tomado o pequeno-almoço e visitada Albergaria, havia que continuar caminho ao longo do vale do Tâmega. O Próximo ponto de visita era Tamicelas, uma aldeia onde, no mesmo ponto,  se encontram três rios, o nosso Rio Tâmega e os seus afluentes – Rio Naveaus e Rio Navajo, mas a viagem não foi direta até lá, pois fizemos um pequeno desvio por aquele que teria sido o fojo ou terras do homem lobo galego.

 

 

 Tamicelas - A caminho do Tâmega e dos seus dois afluentes  Naveaus e Navajo

 

Depois sim, Tamicelas, onde o Rio Tâmega engrossa um bocadinho com o Naveaus e Navajo, pois ainda estamos a falar de rios que estão a meia dúzia de quilómetros (apenas isso) da nascente e, diga-se a título de curiosidade, que o Rio Tâmega às vezes tem menos caudal que os seus afluentes, mas é ele que detém o nome até entrar no Rio Douro por ser o de percurso mais longo.

 

 

As primeiras águas onde Naveaus e Navajo já correm no Tâmega

 

Visitado o Tâmega e os seus primeiros afluentes rumamos a Laza, sede de concelho e cheia de tradições ligadas ao carnaval, à terra dos Peliqueiros, mas também à boa gastronomia e ao bem receber. Da minha parte já há anos que ando para visitar e viver o seu carnaval, mas tem sido sempre adiada a visita, mas ficou a promessa de que no próximo carnaval farei passagem obrigatória por Laza, pois o Alcaide abriu o apetite da visita a todos os presentes e, mesmo que não seja pelo carnaval, irei lá sempre que possa, pois fiquei fã do Xastré e já o era da Bica. Coisas preciosas que é preciso prová-las e saboreá-las pois em palavras não consigo descreve-las.

 

 

 Entrada em Laza

 

Da Bica já vos tinha falado, é o tal bolo típico de Laza e que tanto quanto sei, só lá é que se faz. O Xastré é um licor de ervas de cor verde. Precioso tal como preciosa iria ser a leitura de “Berce de Peliqueiros”,  poesia de Carmen Rivero Gallego que o Alcaide de Laza ofereceu a todos os participantes como recordação da nossa passagem pelo concelho.

 

 

As homenagens aos Peliqueiros de Laza repetem-se ao longo das ruas

 

E a seguir a Laza, mesmo ali ao lado na aldeia de Souteliño. A Casa Helena esperava-nos para o almoço, também na companhia do Alcaide que fez questão de nos acompanhar em todo o percurso do seu concelho. Penso que também todos os participantes ficaram fãs do Alcaide, pela sua simpatia, simplicidade, inteligência e bem receber.

 

Já em Souteliño a caminha da paparoca

 

 Na Casa Helena "ao serviço da realeza"

 

Almoçados, e como os ponteiros dos relógios nestes encontros parecem andar mais depressa que o normal, tínhamos que rumar a Verin, à Casa Escudo onde o Tenente Alcaide (para nós o vice-presidente da Câmara) nos esperava para a visita à Casa Escudo e  posterior caminhada pelo Caminho Real até ao Castelo de Monterrei. Cumprimos a visita à Casa Escudo com o apreciar de uma exposição de artes plásticas e uma vista de olhos o albergue de peregrinos que a Casa Escudo alberga. Um agradecimento também para a simpatia do Tenente Alaide e um lamento da nossa parte por não podermos tido tempo para dedicar mais algum tempo a Verin, mas Verin é Verin, já faz parte da vida flaviense há muitos anos e por isso, já não é desconhecida para nós. Penso estarmos perdoados.

 

 

 O Alcaide de Laza já na hora da despedida (de laza)

 

Caminhada até ao castelo onde a festa das gaitas nos esperava, mas também uma visita guiada ao Castelo, sempre debaixo de olho do Castelo de Monforte que lá ao longe marcava presença na coroa da montanha. Mas como ia-mos em visita e não em conquista, penso que ficou só de olho em nós.

 

 

 Chegada à Casa do Escudo em Verin

 

A festa das gaitas era a uma “Xuntanza Internacional de Gaiteiros” ou seja, um encontro internacional onde além dos grupos locais desfilaram outros grupos de outras paragens cuja atuação ia sendo intervalada pelo sinal de alguns cigarróns de Verin.

 

 

 Início da caminhada pelo Caminho Real em direção ao Castelo de Monterrei

 

No castelo não tínhamos o Rei nem os príncipes à nossa espera, mas tínhamos o Alcaide de Monterrei que gentilmente nos recebeu, mesmo com o castelo em festa, e nos cedeu o Albergue para podermos poisar, lanchar, entregar os prémios do concurso de fotografia do último encontro e terminar o convício do XVII Encontro de Blogues e Fotógrafos.

 

 

Ainda a Caminho do Castelo ele deixa-se ver em toda a sua imponência

 

Por último uma referência para o Alcaide de Mezquita, que embora pertencente a um concelho fronteiriço com Vinhais, nos acompanhou desde a primeira à última hora do encontro, e foi um prazer conhecê-lo e, tão curiosos ficámos de conhecer o seu concelho que o próximo encontro de Verão ficou marcado para terras de Mezquita.

 

 

 E no castelo havia festa

 

E “prontos”, em palavras fico-me por aqui, pois os restantes momentos do encontro, ficam tal como os poetas costumam fazer, guardados no coração e registados em imagens fotográficas que nos próximos dias, pela certa vão surgir nos blogues dos participantes e nos sítios do costume na Internet.

 

 

 Uma vista para o Brunheiro e Vale de Chaves desde o Castelo de Monterrei

 

Antes de terminar, ficam os agradecimentos ao Centro de Desenvolvimento Rural – Portas Abertas – por ter sido parceiro na organização deste encontro, aos amigos Carmen e Pablo Serrano sem os quais este encontro não teria sido possível e aos Alcaides de Laza, Verin e Monterrei por nos terem recebido, ao Alcaide de Mezquita por nos ter aturado e às Puertas de Galícia Verin-Viana por ter apoiado este encontro, sem a qual também não seria possível. Um agradecimento também a Eduardo Castro por nos ter feito companhia em todo o percurso mas principalmente por nos ter servido de guia entre Laza e o Castelo de Monterei e por ter partilhado connosco o seu saber sobre o Vale do Tâmega e Monterrei.

 

 

 Uma vista desde o Castelo para o Parador

 

E a partir de agora é que o “prontos” é definitivo. Ficam apenas imagens e a respetiva legenda.

 

 

E faço já a despedida, com um até mais logo, com duas crónicas a acontecer ainda hoje, como habitualmente o “Quem conta um ponto…” de João Madureira e as “Intermitências” de Sandra Pereira.

 

 

E a festa dos gaiteiros e da música continuava

 

 

momento da atuação dos Gaiteiros de Verin

 

Alguns Cigarróns de Verin

 

Para mais tarde recordar

 

E a festa continuava

 

E a nossa terrinha alí tão perto


 

Já na hora da despedida o Castelo ia ficando para trás

 

 


  E para terminar, duas peregrinas a caminho de Santiago - Em Laza

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:40
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