Terça-feira, 31 de Julho de 2012

Pedra de Toque - Dr. João Morais

 

DR. JOÃO MORAIS

 

 

Médico distinto, exerceu a sua actividade durante dezenas de anos na nossa cidade.

 

Pereceu já em 1991.

 

Nesse ano ou no seguinte, em reunião da Câmara Municipal, foi proposta e aprovada por unanimidade uma moção para atribuição do nome de uma rua ao saudoso médico.

 

Julgo que há cerca de três semanas, foi colocada uma placa com o seu nome na via que liga as termas até às imediações da discoteca Platz.

 

Foi, no nosso entendimento, acertada a escolha até porque era o trajecto que ele percorreu durante muitos anos, sobretudo no período termal, da sua residência, na Rua do Tabolado, para o balneário da Caldas, onde deu consultas imenso tempo.

 

Esta homenagem, agora concretizada, é um tributo justíssimo a um flaviense que trabalhou incessantemente para minorar o sofrimento de muita gente da cidade e do concelho.



Muito procurado para sarar e tratar doenças pulmonares, curou muitas tisicas ajudando com reconhecida competência e generosidade gente pobre, gente modesta.

 

Homem consensual, mesmo dentro da sua classe, estimado e respeitado por todos, era reconhecidamente uma pessoa boa, um homem de grande coração.

 

Foi marido dedicado e pai extremoso.

 

Depois de Coimbra, onde se licenciou na Faculdade de Medicina, vivendo alguns anos na Estrela do Norte, república de trasmontanos, onde teve, entre outros, como companheiro Adolfo Rocha, o consagrado Miguel Torga, de quem era amigo, regressou a Chaves, a sua cidade, e aqui se fixou até ou seu decesso.

 

Conversador nato, sabia muito da sua terra, tendo eu tido com ele o privilégio de aprender o pouco que sei sobre Chaves dos anos 40/50.

 

Tem, agora e finalmente, perpetuado o seu nome na cidade que tanto amou.

 

Chaves e os imensos amigos com quem conviveu, lembram-no com enorme saudade.

 

Paz à sua alma.

 

António Roque

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:29
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Segunda-feira, 30 de Julho de 2012

Intermitências - Silêncio

 

Silêncio

 

Só o silêncio importava. Pensou tantas vezes em tornar-se eremita, isolado no topo de uma serra ou camuflado num paradeiro desértico. As vidas dos outros não lhe interessavam, as conversas muito menos. Não tinha qualquer ambição profissional e acreditava passar bem sem amor humano e carnal. O único som que não o incomodava era o silêncio da natureza. A pureza, a essência, o virginal. O resto era ruído. Não, não enchia a cabeça com reais preocupações ou pensamentos originais, pois não lhes encontrava sentido nem destino. Silêncio, só o silêncio importava.


Só o silêncio me faz falta para não enlouquecer neste mundo. Não me venham com razões existenciais, nem com olhares divinos, e muito menos com instintos de sobrevivência! De hoje em diante, não quero ouvir mais nada. Silêncio, silêncio, silêncio!


Vivia como “antigamente”, aquele tempo de grandes dificuldades e pobreza singela. Ninguém percebia porque insistia viver como um “carenciado” quando podia obter tudo da vida. Ninguém percebia como um ser inteligente podia alhear-se de tudo e de todos. Eremita, clandestino, desconhecido, desaparecido, eram esses os nomes que atirava à mania de tudo definir, classificar, encaixar, rotular. Justificar. A ele, bastava-lhe existir em estado bruto. Sem desafios.


Alguém vem. Grito alto dentro da minha cabeça e sai um ruído aterrador, angustiante. Não, não preciso de ninguém! Silêncio, por favor! Afinal não era nada. Deixo-me cair. Caio no vazio e assusto-me com o ruído do meu próprio corpo. Ouço a minha respiração, o bater do meu coração e até o som dos meus intestinos. De hoje em diante, não quero controlar mais nada. Silêncio, silêncio, silêncio!


Isolava-se das pessoas, da sociedade, da dita civilização. Mesmo que o registo médico não o confirmasse, a família acreditava numa esquizofrenia, problema mental ou “desvio comportamental”. A sua postura primata face à vida era inofensiva à sua volta, mas incomodava e deprimia, tornava inúteis várias acções e aquisições, encurtava números e ilusões, desmascarava hipocrisias e mentiras (e tantas que eram…). Se ele podia atirar-se para o nada, porque não eles?


Camuflagem - Fotografia de Sandra Pereira


Silêncio… Não ouço seres nem máquinas humanas há muito. Pensava que seria bem assim. Não é. Os ruídos do meu corpo tornaram-se ensurdecedores, insuportáveis, não sei por quanto tempo aguentarei ouvir o som dos meus intestinos... Mas que raio de silêncio é este? De hoje em diante, não quero mais ser enganado. Silêncio, silêncio, silêncio!


A família era quem mais sofria com o silêncio. Quando o procurava, ele não estava, quando o encontrava, ele não era. De tudo fizera para lhe fazer entender que as conversas que não lhe interessavam eram no fundo apenas demonstrações de estima e auto-ajuda, porque sem fins, sem explicações, sem sentidos, sem razões, estavam todos… a tentar juntar-se aos semelhantes mais próximos para ganhar fôlego para a vida. Ninguém apontava caminhos certos nem errados, a única certeza é que precisavam de algo para não ouvir o pavoroso silêncio da solidão, e cada um tentava abafá-lo à sua maneira, com futilidades ou genialidades. E ele, fazia-lhes falta.


Silêncio, por favor! Desliguem os meus órgãos vitais ou deixem-me enlouquecer! Silêncio, silêncio, silêncio!


Um dia, ele desapareceu mesmo. Sem deixar rasto, nem missiva. De novo, instalou-se a incompreensão. Ao vasculhar as gavetas, a mãe (quem mais?) encontrou um manual básico de aprendizagem da língua inglesa. A muito custo, resignou-se. Só ele poderia quebrar o silêncio.


“Acorde e não se assuste. Você participou num ensaio dos Laboratórios Orfield, Minnesota, Estados Unidos, para uma empresa de electrodomésticos. Você esteve fechado numa câmara que consegue absorver 99,99% do som. Até hoje, nenhum ser humano conseguiu ficar lá dentro mais de 45 minutos sem começar a desenvolver sintomas de falta de equilíbrio e perda de controlo. Você resistiu 50 minutos, mas está bem e pode recuperar a sua vida normal. Agora, melhor do que ninguém, você sabe: o silêncio também é loucura”.

 

Sandra Pereira


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publicado por Fer.Ribeiro às 17:30
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Quem conta um ponto... Em defesa da amizade: Um, dois e três foi a conta que Deus fez etecetera e tal

 

Em defesa da amizade:
Um, dois e três foi a conta que Deus fez etecetera e tal

Um - A cultura do meu amigo


Hoje apeteceu-me comer um gelado, enquanto conversava com um meu amigo que é muito dado às coisas da cultura. E falámos muito e falámos bem. De vários temas, todos interessantes. Digo-vos que é muito útil falar com esse meu amigo. Isto é, quando ele nos deixa falar. É que ele sabe muito de muita coisa, sobretudo de alta cultura. Fala muito e bem sobre os mais variados temas. Todos temas muito interessantes, muito abrangentes e muito atuais. Ele é até mais culto do que a maioria dos cultos do nosso país. E olhem que, mesmo sendo Portugal um pequeno país, possui, mesmo não parecendo, muitos e bons homens e mulheres de cultura. Mas, mesmo assim, este meu amigo supera-os quase a todos. Ele fala muito, bem e depressa e nunca, mas mesmo nunca, revela dúvidas enquanto discursa. Ou seja, nunca se engana, nunca se atrapalha, nunca gagueja. O discurso sai-lhe sempre límpido, sem hesitações, sem atrapalhações, sem flutuações ou outras indeterminações. Com ele é sempre a direito, mesmo quando o seu discurso revela uma configuração um pouco mais sinuosa. Tem este meu amigo a qualidade de tudo descobrir. De pôr tudo claro como água. A sua cultura é muito apreciada pela família, pelos amigos, vizinhos, colegas e até por alguns dos seus inimigos. Mesmo os seus inimigos reconhecem que ele é muito, mas mesmo muito, culto, de uma cultura superior, muito metódico no falar, muito comedido nos seus gestos, que também são cultos, até o seu andar é um andar que reproduz a sua brilhante cultura. O seu andar é mesmo muito erudito. De uma erudição convergente, tranquilizante e tranquilizadora. Mas não é só o seu andar ou o seu falar que espelham cultura, o seu olhar também a exprime. De uma cultura impecavelmente estudada. Se a cultura tem alguma utilidade, de certeza que é neste meu amigo onde encontra a sua plena realização. As suas conversas, mesmo quando parecem fúteis, não o são. O meu amigo dá-lhes sempre um toque culto. Até quando come consegue encher-nos de cultura. Com ele tudo se transfigura em cultura: os gestos, os talheres, os condimentos, as toalhas, os guardanapos, os tachos, os copos, o vinho, até mesmo os palitos dos dentes ganham uma auréola sublime, uma importância inaudita com espaço próprio na história universal. Depois é a sobremesa que se nos agiganta na sua intrínseca utilidade, no seu inseparável conceito culinário, na sua ancestralidade cultural, na sua significância metafísica, no seu indesmentível valor simbólico e prático, na sua génese voluptuosa, no seu redimensionamento monástico, na sua decifração metafísica, ou estrutural, ou alegórica. A tudo lhe encontra sentido, forma, objetivo, importância, sedução, uniformidade, relação e arte. Até na falta de cultura encontra cultura. E beleza. Para ele tudo é belo porque, na sua perspetiva, tudo se reduz à linguagem. No princípio era o Verbo, repete ele muitas vezes. É muito esclarecedor em tudo o que diz. Revela-nos a cultura que está por detrás da disposição das cadeiras, na colocação dos candelabros, no ritual de nos sentarmos ou nos levantarmos da mesa. Aponta-nos o conflito civilizacional e a evolução cultural que está por detrás do ato de não cruzarmos cumprimentos de mão. Elucida-nos com muita competência sobre o modernismo sistémico das floreiras numa sala de estar ou sobre o conflito epistemológico das reações químicas entre pessoas que se querem bem. Uma noite passada com este meu amigo vale por uma semana inteira a estudar a enciclopédia luso-brasileira de cultura. Podia estar aqui toda a noite a escrever que não era capaz de expressar convenientemente a sua cultura. Por isso aqui vos deixo este pequeno introito com a única intenção de prestar, a esse meu amigo, uma singela homenagem que, não sendo culturalmente relevante, é sincera e necessariamente inculta.

Dois - Amizade


Há cerca de uma semana, o meu amigo Matias foi passear o cão e ele fugiu-lhe. Era um cão de raça. Foi muito caro. Era um animal de estimação. Como se fosse da família. Dele, claro. Que eu cá não me perco com esses animais. Era um cão que rosnava mais do que ladrava. Costumes de parentela. Andava sempre muito lavado, perfumado e penteado. Estamos a falar do cão do Matias. Porque o Matias, propriamente dito, é bem mais desleixado. Não é que seja mau tipo, é apenas um pouco sovina para os amigos. Mas com o cão não olhava a despesas. Nós, os seus amigos, por vezes ficávamos um pouco zangados por tratar melhor o cão do que a nós. Mas o Matias é mesmo assim. É ele e o cão, depois a família mais chegada, depois outra vez o cão e só depois os amigos. Estou em crer que o Matias é mais cão do que o próprio cão. Agora anda desfeito. Ele sem o cão não é nada. Nem dorme, só dá voltas e mais voltas em redor da cidade em busca do animal. No último desfile etnográfico em C., o Matias desfilou vestido de romano com um outro cão ao lado. Mas um carro, mesmo no final do desfile, passou-lhe por cima. Foi nesse mesmo dia que o Matias comprou o cão que agora lhe desapareceu. Já lá vão sete dias e o cão não aparece. Ele anda doido. De noite até ladra, imitando o cão, para ver se ele responde ao seu apelo. Nós já lhe dissemos que não lhe fica nada bem andar a ladrar à noite pelas ruas da cidade. Mas ele não nos liga. O seu estado inspira-nos algum cuidado. Por isso fazemos votos para que o cão do Matias regresse ao lar são e salvo.

Três - Em defesa da amizade


O meu amigo Miguel é muito distraído. Muito inteligente, mas muito distraído. Muito boa pessoa, mas muito distraído. Distrai-se com muita facilidade. Ainda ontem, quando andávamos a passear, foi de encontro a um poste de iluminação pública. Fez um grande galo na testa, mas nem sequer se queixou. O Miguel fala muito, pensa muito, distrai-se muito. Por vezes também se ri com muito saber. Muitos dos meus amigos dizem que ele é maluco, mas eu garanto-vos que não é. De maluco não tem nada. Ele é muito esperto, muito inteligente, muito compreensivo, muito efusivo, muito estudioso. Só que é muito distraído. Numa noite entrou dentro de uma casa alheia pensando que era a sua. Deitou-se na cama e só quando os donos se puseram aos gritos é que ele se deu conta do equívoco. Aquilo ainda foi uma grande trapalhada, pois meteu polícia, bombeiros, insultos e até prisão e julgamento. Dizem que nessa noite na esquadra recitou o Anticristo de Friedrich Nietzsche inteiro, com prefácio, data de edição da obra, tradução, capítulos e respetivas páginas. Parece que o polícia de plantão o ameaçou com um processo por desrespeito à autoridade e por provocação religiosa pois não conseguiu descortinar que o texto era do filósofo alemão e não um insulto gratuito ou um gozo fininho. Os polícias de agora são muito sensíveis e muito senhores do seu nariz. Até já têm alguma cultura. Mas daí até conhecerem o Anticristo de Nietzsche vai ainda uma grande distância. Cultos, cultos, mas nem tanto. Muita cultura também embrutece, disse-me uma vez um. Não me lembro de um único dia em que eu e o Miguel andássemos a passear e ele não tivesse tropeçado nalguma coisa. Já tropeçou em cães e cãezinhos, gatos e gatas, lambris de passeios, pedras pequenas e grandes, pessoas de vários tamanhos, raças, credos e ideologias, crianças calmas e rabugentas, choronas ou risonhas, polícias e guardas-republicanos, bombeiros voluntários e sapadores, soldados, sargentos, tenentes, capitães, majores e por aí fora. Parece que ainda só não tropeçou num contra-almirante. Também já tropeçou em carros de grande e pequena cilindrada, bicicletas de montanha e de corrida, triciclos novos e velhos, burros de carga, cavalos de corrida e, até, mendigos de várias espécies e origens, idades e proveniências, vícios e predileções. Quando isso acontece fica muito aflito e começa a gaguejar. Ato contínuo, oferece uma grande esmola ao sujeito passivo. Alguns deles fazem-se mesmo à colisão. Mal o avistam na rua, tentam sempre ir dar-lhe um encontrão. Ele pede sempre muita desculpa e dá-lhes obsessivamente uma esmola choruda. Mas, a partir daí, o seu discurso torna-se ininteligível. Não só pela temática, mas também por causa da gaguez. É aflitivo. E ele sabe-o. Falar sobre semiótica, ou sobre epistemologia, ou cibernética a gaguejar é uma tortura quase insuportável. Mas se eu o abandonasse quando ele está nesse estado quase catatónico seria uma traição. Afinal eu sou seu amigo. E os amigos devem servir para alguma coisa. O Miguel só tem medo de uma coisa: tropeçar num cigano que esteja a pedir esmola e que finja que toca o acordeão. Aí põe-se aos gritos e tem que tomar dose tripla da sua medicação para os nervos. Ninguém é perfeito. Nem o Miguel. Nem eu. Nem o Nietzsche. E, muito provavelmente, nem o amigo leitor. Essa é que é essa.

João Madureira

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Chaves à beira rio

 

De regresso à cidade e de preferência às sombras, se for à beira rio, tanto melhor.

 

Para hoje temos ainda duas crónicas, "Quem conta um ponto..." de João Madureira a acontecer às 9 da manhã e hoje também as "Intermitências" de Sandra Pereira, às 5 e meia da tarde.

 

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Domingo, 29 de Julho de 2012

Gosto disto...

 

Penso que a primeira vez que vi o mar a sério, tinha eu 7 anos. Geralmente o pessoal de Chaves tinha como seu mar o da Póvoa de Varzim. Para mim também não foi exceção, o mar da Póvoa, também foi o meu primeiro mar. Lembro que quando lhe pus os olhos a sério, com a brisa a passar-me nas faces, o cheiro a entrar-me nas narinas e o rebentar das ondas na areia a povoar todos os sons, fiquei durante uns minutos extasiado com o despertar de todos os sentidos na imensidão do mar. Ainda hoje, quando depois de alguma ausência, volto à beira mar e, embora mais breves, tenho as mesmas sensações, principalmente se o mar é o da Póvoa ou, um pouco mais acima ou pouco mais abaixo, se o mar é o mar do norte. Talvez reminiscências de infância.




Comecei pelo mar porque acabei de fazer uma breve visita a esse mar do Norte, um pouco mais abaixo que o da Póvoa, mas um mar igual. O Coelho não me deixou ir mais longe nem por mais tempo. Não compreendi ainda muito bem porque, mas também estou de castigo, mas isso são contas de outro rosário, pois estando eu num daqueles momentos de reflexão, rodeado de areia e só com a imensidão do mar à minha frente, em apreciação mais uma vez, e por muita beleza que tivesse o momento, dei-me conta de que o mar e a sua poesia não é tudo, faltam-lhe as minhas montanhas, a minha gente, o cheiro da terra e o calor da nossa terrinha. Veio-me então à lembrança uma visita que fiz há uns meses atrás a uma aldeia em encontrei por lá um dos poucos jovens habitantes (vinte e poucos anos) e quando lhe perguntei o que era feito do pessoal da idade dele, ele respondeu-me :  “abalaram todos pra fora”. Então e tu? Perguntei-lhe, e a resposta foi pronta:  “eu… eu gosto desta merda” .




Pois eu também, gosto disto, e enquanto me deixarem, continuará a ser a terra aonde sempre regresso, para as minhas longas temporadas e apenas interrompidas por breves dias em outras paragens, que também sabem bem, ó se sabem, mas também é nessas breves ausências que as coisas que aqui não têm importância nenhuma, ganham toda a importância do mundo.



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Sábado, 28 de Julho de 2012

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

Canção de embalar

 

Sopra uma brisa suave em valsa lenta

Qual voz trauteando canção de embalar

Uma paz na sombra da luz mais sedenta

Decompõe em fatores as solidões do Amar

 

Nas faces viçosas no cenário gritante

Nos pedaços caídos das mágoas sentidas

Enlevados de nós da memória ausente

Salvamos dos escombros as promessas urdidas

 

Têm corpos tão frágeis sendo  almas tão grandes

Das escaladas longas espíritos exangues

Caminham connosco, ó gritos de liberdade

 

Deixam-nos ir, senão viver, saudar a saudade

Dança da comoção a lágrima não chorada

Regresso da razão na amizade calada…

 

Isabel Seixas

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:30
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Curral de Vacas - Chaves - Portugal

 

Para já fica uma imagem, de Curral de Vacas, freguesia de Santo António de Monforte e, surge-me uma questão, pois tudo indica que a freguesia de Stº António de Monforte será uma das que irá desaparecer do mapa das freguesias portuguesas, e a questão é esta - Qual o nome com que a aldeia irá ficar? - Ponho esta questão porque muitos  dos naturais de Curral de Vacas desque que a aldeia é freguesia, deixaram para trás o nome da aldeia e assumiram o da freguesia.

 

 

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Sexta-feira, 27 de Julho de 2012

Discursos sobre a cidade - por José Carlos Barros

Perder o lugar: um regresso

José Carlos Barros







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Vem aí um discurso...

 

Como sabem, às sextas-feiras temos por aqui um “discurso sobre a cidade” de um autor convidado. O autor convidado de hoje é o José Carlos Barros, que embora natural de Boticas, habita terras algarvias. Fico assim pendente do correio para receber as suas palavras para o discurso e hoje também não foi exceção, na chegada do correio lá estava o seu “discurso sobre a cidade”, mas hoje, tal como o JCB me dizia nas palavrinhas que acompanhavam o discurso: “Enfim: um discurso pode fazer-se por imagens…” e vai ser assim mesmo, o fazedor de palavras, o poeta, hoje surpreende-nos com imagens. Já a seguir, o discurso de JCB feito pelas imagens que me enviou por correio.



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Quinta-feira, 26 de Julho de 2012

O Homem sem memória - 112

 

O Homem sem memória

Texto de João Madureira

Ficção

 

112 – Depois de malhar nos socialistas, de desancar a democracia, de execrar os parlamentos burgueses, de pregar a morte à reação, de defender a extinção da exploração do homem pelo homem, de exaltar a sublime ideia do socialismo científico, dos seus fundadores teóricos Marx e Engels, e dos seus obreiros superiores Lenine e Estaline, e do seu máximo defensor, impulsionador e divulgador em Portugal, o incansável camarada Punhal, passou à fase pragmática. E deu como único, derradeiro e exclusivo exemplo, a União Soviética. A querida e revolucionária União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, berço e alfobre dos líderes eternos do comunismo: Lenine e Estaline. E do prestigiado Brejnev.


E não poupou nas palavras, nem no entusiasmo, nem no engodo. A União Soviética, a dileta pátria de Lenine e Estaline, a querida e revolucionária União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, era o Farol do Socialismo, o Sol que iluminava o Mundo.


O camarada Punhal bem o afirmava. E afirmava-o de tal maneira que não havia forma de o contradizer. Porque a verdade não se contradiz, aceita-se tal como é: pura. Por isso é que é verdade, senão é outra coisa qualquer menos verdade. E, como muito bem ensinou Lenine, e afirma o camarada Alberto Punhal, só a verdade é revolucionária. Por isso é que o Partido é a verdade, porque só ela é revolucionária. E como o Partido é revolucionário só pode interpretar, difundir e defender a verdade. Toda a verdade. Nada mais do que a verdade.


E não se coibiu de vender a banha da cobra e insistir na característica visionária do venerável camarada Punhal.


A ele, ao camarada Punhal, ninguém o conseguia contradizer. Ninguém era capaz de tamanha ousadia, de tal atrevimento. Porque não se consegue contradizer a verdade. E o camarada Punhal – tal como o Partido, tal como Marx, tal como Engels e tal e qual como Lenine e Estaline –, só profere a verdade porque não sabe falar de outro modo.


“Ele, o camarada Punhal, conhecido na intimidade como o comunista de Cristal, apenas diz verdades, verdades tão verdadeiras como punhos, bem como punhos não porque esse é o símbolo dos socialistas traidores de Mário Soares. Punhal diz verdades como foices, como martelos, como estrelas, sim como estrelas refulgentes. Ele é, era e será, ó se será!, a estrela polar do Partido e do Movimento Comunista Internacional. É a modos como a lâmpada do farol do internacionalismo proletário, que no meio da tempestade marítima do capitalismo ilumina a humanidade.”


O seu, dele, do camarada Punhal, claro está, prestígio e a sua inteligência ímpares permitiram-lhe assistir mesmo às reuniões do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, mais conhecido pela sua sigla de PCUS. O querido partido de Lenine e Estaline.


Com o seu entusiasmo de papagaio comunista continuou a dar largas à liturgia marxista-leninista.


“E viva o socialismo. Ou melhor: E viva o comunismo. O socialismo é uma fase de transição entre a sociedade burguesa, capitalista, decadente, e uma sociedade de novo tipo. Já o comunismo é o fim da decadente e maléfica sociedade capitalista e o início do paraíso na Terra. É uma outra sociedade. Uma sociedade novinha em folha. Como uma fábrica de frigoríficos… Não de frigoríficos não, senão lá vão de novo associar os comunistas à Sibéria e a essas falsidades reacionárias de que os revolucionários são frios e calculistas. E isso é uma tremenda, uma medonha, uma ignóbil mentira.


O comunismo é uma sociedade sobretudo parecida com uma fábrica de tratores, que podem andar devagar mas fazem-no com firmeza. Mas qualquer dia a URSS transforma-se numa fábrica de produzir aviões a jato rumo ao comunismo.


Por muito que custe à reação, os comunistas também são seres humanos, mesmo que por vezes o não pareçam. Também comem, bebem e amam. Sim, também amam, comem e bebem. Só que para eles a revolução está antes de tudo e depois de tudo. E, o que é ainda mais importante, no meio de tudo.


Um verdadeiro comunista só pensa em fazer a revolução que nos leve ao comunismo. Só come para fazer a revolução. Apenas bebe para fazer a revolução. Unicamente ama para fazer a revolução. Simplesmente trabalha para fazer a revolução. Somente estuda para fazer a revolução. Só se diverte para fazer a revolução. Porque uma revolução que não nos encaminhe na direção do comunismo não é revolução não é nada.


Os comunistas não querem apenas construir uma sociedade melhor do que esta. Os comunistas lutam por uma sociedade perfeita: o comunismo. Os comunistas não são gente de meias tintas. Por isso são superiores moralmente. A quem duvide recomendo a leitura do livro do camarada Punhal: “A Moral Superior dos Comunistas”.


Sim, os comunistas não são gente de meias tintas. Por isso são moralmente superiores a todos os outros. O nosso símbolo é a foice e o martelo, o símbolo sagrado da aliança operária e camponesa. A nossa bandeira é vermelha e nela está inscrita uma estrela amarela como símbolo do internacionalismo proletário. E está tudo dito.


Nós não nos escondemos atrás de um punho e também não nos encobrimos atrás de setas, ou chaminés, que apontam o céu. O céu dos pardais ou dos parvos. Ah, ah, ah! Nós não estamos aqui para enganar ninguém. Nós representamos o povo, nós somos os filhos diletos do povo.


Ao contrário dos católicos, que prometem o Éden numa outra vida, os verdadeiros comunistas planeiam construir o Paraíso na Terra.


Entendamo-nos, para que não fiquem dúvidas, o comunismo é melhor do que o Paraíso, pois o Paraíso é apenas uma ficção bíblica enquanto o comunismo é uma realidade científica provada por Marx, Engels, Lenine e Estaline.


Apesar do mundo estar uma confusão, ainda bem que existe a União Soviética. Se não fosse a URSS, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a corajosa pátria dos sovietes, dos operários e camponeses, o mundo não tinha farol, não tinha norte, não tinha rumo, não tinha futuro, não tinha nada além de escravatura, exploração, ignorância e doença. O mundo seria o reino das trevas.


Os camaradas que lá viveram são as melhores testemunhas do extraordinário milagre que se operou na URSS. E este milagre não se ficou a dever à intervenção divina, mas antes ao trabalho e à luta dos homens. Dos homens e das mulheres que deram a sua vida para que ali nascesse a verdadeira sociedade socialista a caminho do comunismo. Que venceram a burguesia, que derrotaram o Czar, que abateram o nazismo e Hitler.


A organização bolchevique derrotou os príncipes, os descendentes dos boiardos, a nobreza, os seus lacaios e os kulaks. E de uma sociedade praticamente feudal construiu uma das sociedades mais avançadas do mundo. Senão mesmo a mais avançada. Pelo menos em termos sociais e humanos.


Ali não existem classes, não subsistem exploradores, não existem explorados. Na URSS são todos iguais. Todos têm os mesmos direitos. Todos trabalham e ninguém faz greve. Fazer greve para quê? Na pátria dos sovietes ninguém explora ninguém. A exploração está proibida por lei. Lá todos são obrigados a ser felizes, a defenderem a igualdade, a serem cultos e saudáveis.


Na URSS, os seres humanos nascem iguais em direitos e deveres. Ali não se brinca ao socialismo. Ali constrói-se o comunismo como quem tempera o aço. Na URSS quem manda são os operários. Ou melhor, quem manda é o Partido dos operários, que é a vanguarda do seu povo, que é a nata do proletariado russo. E quem dirige o Partido é o Comité Central, que é o órgão mais importante que lá existe.


O Partido Comunista da URSS é um partido de novo tipo. Não é como os partidos que estamos habitados a ver. Lá o Partido manda em tudo. Mas em tudo mesmo. Lá não se brinca, nem com a economia, nem com as finanças, nem com a educação, nem com a saúde, nem com a felicidade das pessoas. Lá todos têm acesso aos bens de consumo e quase tudo é grátis. Então de cultura nem se fala. Lá a felicidade não é apenas um direito. É, sobretudo, um dever. Bem assim como a cultura, a saúde, a educação, etc. Podemos afirmar que a felicidade na URSS não é uma ilusão, é a nova ordem bolchevique.”


De seguida mandou distribuir umas revistas da URSS pelos assistentes e deu-lhe uma aula prática de felicidade. Na capa, como todos puderam reparar, um casal de operários soviéticos saía de uma fábrica a rir-se. Mas a rir-se mesmo, com todo o contentamento estampado no rosto. De mão dada e a rir empanturrados de felicidade comunista.


Lá o trabalho não era castigo, não era obrigação, não era dever. Era mesmo uma dádiva, um prazer. Na URSS todos trabalhavam para o bem comum. Todos eram felizes porque faziam a felicidade dos seus camaradas. Na URSS todos eram irmãos, todos eram iguais, todos eram camaradas, mas camaradas mesmo.


Seguidamente evidenciou algumas páginas interiores para comprovar a foto da capa. De facto, os operários não só saíam da fábrica bem vestidos, bem lavados e engomados, e os casais a sorrir e de mão dada, como entravam logo de manhãzinha a sorrir, a cantar ou a assobiar o Kalinka (aqui vos deixamos a primeira quadra em cirílico para desfrutarem: Калинка, калинка, калинка моя! / В саду ягода малинка, малинка моя! / Калинка, калинка, калинка моя! / В саду ягода малинка, малинка моя!), ou algo do género, trabalhavam dentro das fábricas com um sorriso rasgado na face, fossem eles camaradas operários trabalhadores operários ou camaradas operários trabalhadores dirigentes ou camaradas operários trabalhadores vigilantes ou camaradas operários engenheiros trabalhadores ou ainda camaradas operários trabalhadores do Partido que ali estavam, não para vigiar ou controlar, mas para dar ânimo, para incentivar, para glorificar o comunismo, o trabalho e a organização de todos os camaradas que sorriam enquanto trabalhavam devidamente organizados, esclarecidos e orientados.


Mas os risos e os sorrisos não acabavam aí. Ou melhor, todos os camaradas que apareciam na revista sorriam, estivessem eles nas fábricas, em suas casas, nas escolas, nos museus, na rua, nas filas de abastecimento para o papel higiénico ou para o sabão. Sorriam com toda a satisfação do mundo. O papel higiénico e o sabão podiam escassear, mas, como muito bem dizia o camarada esclarecedor, a URSS ainda não era a sociedade perfeita. O papel servia para coisas mais nobres do que produzir papel higiénico. Servia para imprimir livros, revistas e jornais, como por exemplo o Pravda.


Aqui o camarada fez uma pausa para beber água e teorizou: “Poderão os camaradas e amigos pensar que se resolve o problema utilizando as folhas do Pravda para a higiene pessoal. Mas quem é que se atreve a limpar o rabo ao jornal que é o órgão da classe operária e do Estado Proletário Russo? É como pensar utilizar A Verdade como papel higiénico. Alguém é capaz?


O José, na sua ingenuidade democrática, preparava-se para responder afirmativamente quando o Graça lhe deu um forte encontrão que o pôs confuso.


Prossigamos. Como o camarada esclarecedor ia dizendo, a URSS ainda não era uma sociedade comunista. O papel higiénico assim o demonstrava, mas caminhava nessa direção. Ainda não estava lá, mas caminhava nesse sentido. Ai caminhava sim senhor. Mas o caminho não era fácil.


Podiam ter problemas em arranjar sabão para tomar banho e em limpar o rabo com alguma comodidade, mas possuíam foguetões proletários, possuíam tanques operários, aviões e bombas atómicas comunistas tão perfeitas que defendiam a pátria do socialismo, das guerras e das pérfidas bombas atómicas capitalistas.


Já um pouco cansado, o camarada esclarecedor deu por terminada a primeira parte da sessão, pôs-se de pé e começou a gritar a sigla do Partido e a cantar a Internacional e o Prá Frente Camaradas, no que foi acompanhado pelos presentes com muito carinho, respeito e sofrível afinação.


De seguida foram distribuídas algumas fichas de adesão que muitos dos presentes preencheram como quem compra um bilhete de lotaria que os podia fazer ganhar o Paraíso na Terra. O José deixou essa felicidade para mais tarde. 

 

(continua)

 

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Mais Chaves - Portugal

 

É verão e com esta estação todos os nossos desejos e ensejos vão para a lugar frescos, a uma boa sombra, a lugares tranquilos, à água onde o seu murmúrio de passagem é música de embalar. Felizmente em Chaves temos o Rio Tâmega que nos vai dando essa sensação de frescura e nos vai orquestrando das melhores músicas a ouvir em dias quentes de verão. Queira Deus que se mantenha rio durante muitos anos, pois a ambição dos homens, em vez de o terem como uma dádiva divina, tudo têm feito para dele tirarem apenas algum proveito sem se preocuparem com a sua saúde.




Há dias, um amigo, acusava-me de neste blo, apenas me queixar e apontar os males da cidade, e admito que é verdade, tal como é verdade só me queixar da dor quando a sinto, pois quando tudo vai bem comigo nada tenho a assinalar, a vida continua dentro da normalidade como que sem darmos por ela. Quem não entender isto, paciência, pois eu vou continuar a queixar-me sempre que alguma coisa me doer, pois além de um direito também é um dever de qualquer cidadão, e eu já há muito que me libertei da palas que me estorvavam a visão lateral. Mas hoje, como estou bem-disposto e bem de saúde, não me queixo de nada e depois, para sorte de alguns, também sou muito distraído... Bem, hoje ficam duas imagens de Chaves e dos nossos dias. A seguir vem aí o “Homem sem memória”, de João Madureira.



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Quarta-feira, 25 de Julho de 2012

Chaves sem bilhetes de ida e volta

 

Penso que já uma vez expliquei aqui o porque de eu ter nascido em Chaves, pois não foi por mero acaso, mas eu vou explicar outra vez para melhor se entender as minhas breves palavras de hoje.




Qualquer mãe e pai quer o melhor para os seus filhos e, fazem tudo para que os filhos tenham oportunidades para prosperar nas suas vidas e para que tal aconteça, mas não basta a vontade ou desejo dos pais, pois o ambiente onde se vive tem de permitir essas oportunidades e, entenda-se por ambiente, tudo o que de facto nos rodeia.




O meu pai nasceu numa aldeia do concelho de Vila Pouca de Aguiar (Parada de Aguiar) e por força da sua profissão foi parar a Montalegre onde conheceu a minha mãe. Casaram e tiveram dois filhos em Montalegre, os meus irmãos mais velhos, mas chegado o tempo de escola dos filhos, começaram a rumar em direção aonde pudessem ter o melhor para eles (educação, saúde, oportunidades) e em simultâneo manterem-se próximos das suas terras. Claro que a solução era a cidade de Chaves, onde havia escolas primárias, liceu, escola industrial e comercial, hospital, finanças, tribunal, exército, GNR, PSP, GF, conservatórias, médicos, advogados, costureiras, alfaiates, comércio variado, bancos, autocarros, comboio…, enfim, tinha tudo o que uma cidade tinha de ter, na conta e medida certa para se poder viver e fazer vida sem ter necessidade de se sair de Chaves para se viver com qualidade, estudar os filhos e poder recebê-los uns anos mais tarde, já formados, para em Chaves fazerem vida com as suas novas profissões e constituírem família, se assim o entendessem. Estou a falar ainda dos anos 50, pois em 60, já eu nascia em Chaves, ou seja no tempo certo de o meu irmão mais velho iniciar o ciclo preparatório. Chaves era então uma cidade para se viver para sempre, uma cidade com futuro para os filhos e netos. E hoje? - Bem, hoje eu estou no lugar do meu pai, a pensar no melhor para os meus filhos, e dou-me conta que tenho um grave problema entre mãos para resolver…Chaves deixou de ter futuro para os nossos filhos. Quase parece que tudo começou quando nos roubaram o comboio e deixámos de poder comprar bilhetes de ida e volta.



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Terça-feira, 24 de Julho de 2012

Pedra de Toque - Figuras

 

FIGURAS

 

                  

Em tempos, aquando de uma Feira do Livro, pediram-me para dissertar sobre Figuras de Chaves.

 

Tema vasto e fascinante que me mereceu logo entusiasmo.

 

Contudo, alertei os amigos convidantes, que a sessão teria de ser limitada, restrita, dada a impossibilidade de, quando muito num par de horas, abordar de forma plena, abrangente, inúmeras figuras que deixaram estórias ou fizeram história nesta velha urbe.

 

Foi muito bom constatar a presença daqueles que estão sempre, que não deixam de aparecer quando Chaves é o pomo das conversas.

 

E lá surgiram os bons amigos que não resistem sempre que a cidade apela, porque lhe calcorrearam as ruas e vielas, porque a respiraram em noites frias de neblina, em fins de tarde de estios saudosos.

 

Na tela desta cidade, onde a vista se perde nos montes que a cercam, no verde da veiga, demos umas pinceladas breves, lembrando gentes que semearam bondade, humor, generosidade, graça, pitoresco, que só a lembrança de alguns vai retendo.

 

O diálogo nasceu depois, simpático, afável, e todos viajamos gostosamente pelas estradas da memória, parando no primeiro apeadeiro dado o adiantado da hora.

 

Ficou a promessa de em breve reatarmos a marcha.

 

Chaves é caldo de cultura para saborearmos contos, ditos, estórias, feitos de muitos homens e mulheres que amaram a cidade.

 

Em muitas conversas.

 

Em alguns textos, mormente aqui neste blog.

 

Quiçá, em breve, em livro.

 

António Roque

 

 

 

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Apenas uma imagem de Chaves antiga e velha

 

 

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Segunda-feira, 23 de Julho de 2012

Quem conta um ponto... Pérolas e diamantes (1): sexta-feira treze em Montalegre

 

Pérolas e diamantes (1): sexta-feira treze em Montalegre

 

No passado 13 de Julho fui até Montalegre. E regressei fascinado. Mais uma vez seduzido, valha a verdade, pois já é a terceira sexta-feira 13 que lá vou em meia dúzia de meses. E às três é de vez. Por isso resolvi escrever sobre a minha experiência. Aquilo é uma festa pegada. Uma loucura saudável. Um espetáculo arrebatador, frenético e explosivo. Começou com um jantar muito concorrido no Pavilhão Multiusos, onde se comeu bem e se bebeu também muito bem. Enquanto se comeu e se bebeu, uns aproveitaram para irem pintar os rostos de várias cores e feitios, outros para cumprimentar os conhecidos e os amigos e outros, ainda, para tirarem fotografias junto de algumas personalidades distintas que fazem questão de se juntarem à festa das bruxas. Durante o repasto fomos assustados por diversas figuras devidamente disfarçadas de mortos vivos, monstros, bruxos, bruxas, zangões, vampiros, almas penadas e demais figuras terroríficas. Desta vez jantei em companhia dos meus amigos, o que não é de admirar, mas também junto dos elementos dos Homens da Luta, vestidos de Homens da Luta, mas que não deram muito nas vistas. Nas vistas deram dois cromos da televisão, que não conheço, mas que deu para ver que são famosos. Um dos cromos era uma rapariga, muito esgalgada, com cabelo comprido, levemente aloirado, montada numas sandálias com saltos de cortiça que mais pareciam umas andas. E se ela já era alta, com as andas ficava que parecia um lareiro, pois era esguia como os juncos. O outro personagem da TV era um jovem muito risonho, com barba se sete dias, que se adivinha não ser por falta de tempo para a desfazer, mas antes porque está na moda. Trajava calças verdes e camisa da mesma linhagem. Parecia um soldado desmazelado, mas, no entanto, com algum aprumo, numa mistura fina entre a descontração e a moda cara, que é atualmente o apanágio dos ricos e famosos. Não sei da sua importância, ou relevância, social ou cultural (e com o caso Relvas, agora até já desconfiamos que a nossa sombra se tenha licenciado sem nos avisar), mas deu para ver que o rapaz da barba e a partner esgalgada eram muito solicitados, sobretudo pelos convivas mais jovens, que com eles tiravam fotografias e se riam imenso. Eu também me ri, sobretudo porque me lembrei do emplastro, que também faz o mesmo só que por detrás dos entrevistados, enquanto aqui os emplastros sorridentes se colocavam em primeiro plano, bem na frente das máquinas fotográficas ou das câmaras da TV Barroso. Entre as sobremesas e o café, a malta foi posta a dançar por um conjunto de Chaves constituído por rapazes que tocam bem, cantam bem e afinados. Assim fosse a nossa autarquia e teríamos o futuro garantido. Entretanto, o presidente da Câmara de Montalegre aproveitou para participar na distribuição de uma bebida saborosa que nos sugeria sangue, devido à sua coloração vermelha. Mas se o sangue tivesse aquele sabor é bem provável que muitos de nós abríssemos os pulsos para ir beberricando ou pedíssemos ao vizinho, ou vizinha (conforme o gosto e as preferências), para lhe chuparmos as jugulares. (Ei, cuidado com as generalizações, aqui é só da bebida que se trata. E nada mais. Ah, seus malandros, sempre na paródia. Hem!) Durante o jantar também é frequente escutar alguns grupos ou fanfarras musicais, que tocam uma música ou duas, para ir animando a malta. A mim, das três vezes que tive o prazer e a honra, de lá ir, ficou-me a Fanfarra Kaustika, que é uma banda de metais que toca uma música frenética que até põe os mortos a dançar. Os mortos e os pernetas, como é o meu caso, que tenho pés de chumbo e um feitio que pouco deve à alegria e ao entusiamo. Timidez, já se vê. É claro que muitos a consideram mau feitio, mas não é. É mesmo timidez. Os meus amigos mais chegados bem o sabem. Se não acreditam perguntem-lhes, pois eu não quero ser juiz em causa própria, para isso já chega e sobra, o, com vossa licença, dr. Relvas. Do pavilhão rumámos caras ao castelo. Antes de iniciarmos a viagem, o senhor presidente lembrou-nos que o devíamos seguir, senão ia ser muito difícil conseguir romper por entre a multidão que àquela hora já enchia o recinto onde se realiza sempre o espetáculo da queimada. Então aquela rapaziada colocou-se atrás do presidente Fernando e aí vai de romper por entre a populaça. Todos já devidamente pintados e envergando uma capa preta e um chapéu à imagem e semelhança da bruxa de OZ. Bem, todos é uma forma de dizer. Eu não consigo. É a minha timidez. Ou mau feitio, se preferirem. Eu não me consigo pintar, nem disfarçar de coisa alguma. A minha cara de bruxo é permanente e nem sequer precisa de dissimulação. Por isso, lá fui eu atrás do senhor presidente. Só que a meio da jornada, junto ao Café Terra Fria, encontrei a Elisa, uma querida e estimada colega e amiga das Pedras Salgadas. Está claro que parei para a cumprimentar. Posso ser mau carácter, mas não sou mal-educado. E os meus amigos estão acima de tudo. No ínterim, o nosso bando pôs-se na alheta. Mas não me importei, ali ao meu lado estava a Luzia que, bem vistas as coisas, é a minha companhia de sempre e para sempre. Manias. Por isso dei-lhe a mão, para não a perder ou ela não me perder a mim, e lá rompemos pelo meio da multidão. Lá romper rompemos, mas quando chegámos perto do palco, já as cancelas estavam fechadas e os homens da segurança atentos. Como não tínhamos credenciais, ficámos do lado de fora. O senhor presidente bem nos tinha avisado, mas eu não podia passar pela Elisa e dizer-lhe apenas olá. Não podia. Podia ir até na comitiva do senhor presidente da República e ficar sem jantar, ou almoçar, ou sem comenda, mas o que não conseguia fazer era passar por uma amiga como a Elisa e dizer-lhe olá de longe. Não podia. Manias. Mau feitio. Falta de sentido hierárquico. Pois pode ser tudo isso e mais alguma coisa, mas para mim os amigos, os meus amigos, estão acima de tudo. E digo-vos do fundo do coração, estou-me borrifando para o que dizem, ou o que possam dizer a meu respeito. É que eu sou assim e já estou velho para mudar. Bem, mas voltemos ao essencial. A Paula, que também é minha amiga, e que eu prezo e estimo, ligou a perguntar onde nos encontrávamos. E a Luzia, e eu também, já agora, sorrindo porque gostámos que ela se tivesse lembrado de nós no meio daquela multidão, dissemos-lhe a verdade, que estávamos imersos naquele mar de gente tentado galgar a encosta para arriscar ver o espetáculo. Lá tentar tentámos, mas é o rompes. À medida que subíamos, cada vez as pessoas eram mais e estavam ainda mais juntas umas às outras. Muitas delas estavam mesmo sentadas, o que me meteu medo, pois pensei que se algo de estranho se passasse e desse àquela gente para correr encosta abaixo, podia-se dar ali um desastre de proporções inquietantes. Afastei esse pensamento da minha cabeça lembrando o esconjuro do padre Fontes: Vade retro Satanás para as pedras cagadeiras. No sítio mais alto a que chegámos, eu apenas conseguia ver um carvalho iluminado, dois holofotes, um poste de ferro e a esquina direita do palco. Isto olhando para a frente, porque olhando para trás apenas vislumbrava o cimo das torres do castelo e dois morcegos gigantescos, e, sobre o meu lado direito, lobrigava as chamas de umas latas onde ardia um óleo que cheirava a inferno. A Luzia apenas conseguia observar as estrelas do céu, isto se olhasse para cima, pois pequerrucha como é não via literalmente mais nada. Sentia-se sufocar. Por isso nos viemos embora, e sem muita pena, porque aquele espetáculo já nós o tínhamos visto na primeira sexta-feira da trilogia. Descemos a custo, a muito custo mesmo, a colina e fomos beber um fino a um bar onde naquele momento tocava a Fanfarra Kaustika. Cumprimentei o Abel e o Gil, dois dos mais influentes músicos da banda, pois eu só conheço gente influente, inclusive nos grupos musicais, e ficámos a ouvi-los tocar aquela sua música frenética, ou maluca se preferirem, que eu e a Luzia tanto apreciámos, e até nos atrevemos a dar uns passinhos de dança. Se algum amigo nos visse ia pensar que estávamos ébrios ou felizes. Tenho de reconhecer que estávamos ambas as coisas, mas muito mais a segunda que a primeira. Muito mais. Passado algum tempo, saímos do café e subimos a rua Direita caras ao largo da Câmara. Entretanto assistimos à descarga do fogo-de-artifício, um magnífico espetáculo de som, luz e cor. Pode ser um lugar-comum, mas também é verdade como um punho. No ecrã gigante da praça do município assistimos, descansados, ao esconjuro da queimada feito pelo padre Fontes vestido de bruxo, mas que é um santo, ao contrário de mim que sou um bruxo disfarçado de santinho e ao contrário de muita outra gente que parece santa, que se disfarça de santa, que se diz santa, mas que é pecadora até ao tutano. E nessa gente estão incluídos todos os detratores do bom padre de Vilar de Perdizes, gente que ressuma ódio e vomita insinuações e mentiras como se fossem mafarricos escatológicos expelidos pelos ânus de um demónio gigante, como uma vez vi num filme de Pasolini. Vade retro Satanás para as pedras cagadeiras. Ali descansados, a Luzia enamorou-se de um crepe de chocolate e eu mandei-me a um pão com chouriço. Nem um nem outro acabou o petisco. Mas soube-nos bem a extravagância. Pois de uma extravagância se tratou, dado que os preços por Montalegre, nestas ocasiões, ficam de luxo. Mas festa é festa, música é música. E essa é grátis. E boa. E bonita. Mais tarde, a Paula ligou-nos e lá nos voltámos a encontrar. E a partir dali, até às quatro da madrugada, foi um constante subir e descer a rua Direita, do pelourinho à câmara, da câmara ao pelourinho, bebendo fino aqui, cumprimentando amigos ali, conversando acolá. Sobretudo escutando música em todos os lados. Num crescendo de alegria e entusiasmo contagiantes. Cerca das quatro da madrugada, já um pouco cansados, regressámos a terras de Aquae Flaviae. Lá teve que ser. A idade não perdoa. Na viagem de volta, em amena cavaqueira com o Luís e a Helena, (já agora, obrigado pela boleia e pela companhia) comentámos a qualidade do evento. Foi fácil chegar à simples, e rápida conclusão, de que as sextas-feiras treze em Montalegre são o melhor espetáculo de animação de rua em Portugal. Ou seja, que nestas ocasiões a capital do barroso se transforma na capital da animação. Isto enquanto Chaves definha e morre como polo de atração turística. Enquanto os outros concelhos tratam da sua vida, o de Chaves preocupa-se em fazer de conta que faz aquilo que não sabe e não é capaz. Definhar e morrer desta maneira dá pena. Dá pena e mete dó. Tem de aparecer alguém que não se conforme com este estado de coisas. Este imobilismo mata a cidade e destrói a já pouca autoestima dos flavienses. Rezemos para que alguém nos tire desta pasmaceira, deste marasmo, deste filme medíocre. Ámen. Falta dizer que passei toda a noite agarrado à Luzia e à minha máquina fotográfica e que quando largava a mão da Luzia era apenas para fotografar aquilo que me apetecia. Não perdi nem uma nem outra, graças a Deus. Agora parece que cheguei ao fim e com um sorrisinho maroto no rosto. Escrevo isto porque os estimados leitores não me estão a ver. Mas o sorriso cá está. Isso garanto-vos.

 

João Madureira

 

 

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