Carpe Diem
8h00. Toca o alarme. A rotina. Ele aperta a gravata. Ela retoca a maquilhagem. Um beijo rápido e fugidio dá conta do atraso.
13h00. Entre duas garfadas no prato, sorriem um para o outro, mas no fundo desconfiam de um futuro a dois. No fundo, ele já tinha decidido que, depois de atingir a tão desejada estabilidade profissional e financeira, iria querer casar, ter filhos e uma vivenda com jardim. Depois iria continuar a trabalhar, trabalhar até tirar férias para amar. Para ele, isto era poesia. No fundo, o amanhã também fazia parte das preocupações dela, mas por ser amanhã, nunca pensava nele hoje. Para ela, nem tudo era poesia, mas lá ia confiando nos versos mais ou menos inspirados do destino. “Porque bebes tanto vinho?”, pergunta ele. “Actualmente, não sei”.
18h00. Ela é sempre a primeira a chegar a casa, e o primeiro reflexo é olhar para dentro da caixa do correio. Hoje há uma encomenda no nome dele, mas ela não resiste à curiosidade e à excitação que lhe traz a mais pequena insignificância desde que oculta. É mais forte do que ela. Desembrulha uma faca.
20h00. Ele chega a casa para jantar e com a fome nem dá por uma faca bem mais trabalhada do que as dele, isolada em cima da mesa. Olha para o rosto dela, corado, inquieto, fervilhante. Antes que ele pronuncie algo desnecessário, ela aponta para a faca. “Porque bebes tanto vinho?”, insiste ele. Ela não contém a água dos olhos, mas mantém a calma. A rotina. “Alguém enviou isto para nós”.
22h00. Toca o telemóvel. A família. Ele atende. Ela bebe mais um copo de vinho. Um olhar rápido e fugidio dá conta da preocupação. Ninguém sabe de onde vem a faca. Ele treme. Ela descontrai. “Porque bebes tanto vinho?”, pergunta ele. “Actualmente, não sei”.
23h00. Ele revista o embrulho à lupa e pesquisa na internet tudo o que há sobre aquela faca. Alguém lhes quer mal e ele promete ao próprio orgulho não descansar sem descobrir o motivo. “Não pareces muito preocupada… Espero que não seja uma brincadeira de mau gosto…”, atira friamente. Ela ri. “Não deve ser nada de mal, a seu tempo havemos de desvendar esse mistério…”, responde, já a caminho do quarto. “Só podes estar bêbeda. Porque bebes tanto vinho?”, pergunta ele. “Actualmente, não sei”.
4h00. Ele agita-se na cama, atormentado pela inquietação e pela cogitação. Ela dorme serenamente. Sonha que ambos são dois pratos de uma balança, que oscilam, ora para um lado, ora para o outro, às vezes mesmo envolvidos numa luta fratricida. Aproximam-se muitas vezes, mas nunca se tocam e, no fundo, não há justiça que valha, pois fica sempre tudo na mesma, até ao dia em que um fio suspenso se parta. Com um movimento bruto para satisfazer o instinto invejoso, ele acorda-a. Ela continua corada e fervilhante. De qualquer modo, ele já tinha decidido que, depois de atingir a tão desejada estabilidade profissional e financeira, iria querer casar, ter filhos e uma vivenda com jardim. De qualquer modo, ela já tinha desistido de se martirizar com os caminhos que não tinha escolhido seguir.
Luta de contrários, Estádio Olímpico de Pequim, Novembro 2008 - Fotografia de Sandra Pereira
8h00. Toca o alarme. A rotina. Ele aperta a gravata. Ela retoca a maquilhagem. Um beijo rápido e fugidio dá conta do atraso.
13h00. Ele tem as olheiras e o humor de uma noite mal dormida. Ela conta animadamente, e em detalhe, o “mistério da faca” ao colega de trabalho. Entre risos, “armam-se” em detectives, inventam casos de polícia e desafiam-se a lembrar os cenários mais macabros vistos, ouvidos ou lidos. Ele fica nervoso. “E se for algo grave?”, insiste. Ela desdramatiza. Ele sente-se humilhado e culpa a ingenuidade dela. “Porque bebes tanto vinho?”, pergunta ele. Um suspiro rápido e fugidio dá conta dos pólos opostos. “Actualmente, não sei”.
18h00. É sempre a primeira a chegar a casa, e o primeiro reflexo é olhar para dentro da caixa do correio. Hoje há uma carta azul do primo. Partira ontem para ir trabalhar para o Brasil e a alfândega retivera-lhe a “navalha de família”, de grande valor sentimental. Conseguira convencer os fiscais a enviá-la para um lugar de confiança, mas não pudera denunciar nada sobre a origem da relíquia na encomenda.
20h00. “Mistério resolvido”, conclui ele com um misto de alívio e irritação pela imprudência do “caso da faca”. Olha para o rosto dela, corado, inquieto, fervilhante. Antes que ele pronuncie algo desnecessário, ela aponta para a parede da sala.
“Devemos andar sempre bêbados. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar. Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.”
Charles Baudelaire, Spleen de Paris
“Porque escreveste isto?”, pergunta ele, de rosto corado, inquieto e fervilhante. “Actualmente, não sei”.
Sandra Pereira
A lira de centeio verde
Aqui há uns anos, um velho amigo disse-me que durante algum tempo devia tentar escrever sobre música. Respondi-lhe que, apesar de gostar muito de música, não podia escrever sobre uma matéria de que não percebia patavina. Por isso deixei temporariamente de escrevinhar.
Hoje estava quase para fazer o mesmo: deixar de escrever. Mas consegue alguém viver sem respirar? Depois lembrei-me dos meus tempos de menino e moço quando, com um estreito canudo de pé de centeio verde ao qual se faziam duas incisões laterais, fabricávamos umas gaitas pequenas, mas ruidosas, que soprávamos durante o tempo suficiente para as fazer vibrar tentado imitar o som de alguma modinha que ouvíamos na telefonia lá de casa.
Esse foi o único instrumento que ousei tocar. Ainda jovem tentei aprender a tocar viola, mas cedo desisti. Não me dava com o instrumento. Além disso era muito impaciente, o que é meio caminho andado para não conseguir assimilar nem o tempo, nem as modas, nem as posições e, muito menos, as rotinas do instrumento. Feitios, ou melhor, defeitos.
Por isso, de música, conformei-me em ouvi-la com algum rigor e método. O que já não é nada mau para uma pessoa da minha singela condição, pouca habilidade manual e escassas posses. Mas cada um tem que se conformar com a sua sorte e com a inerente condição.
É a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco. E não vá o sapateiro além da chinela. Por isso, hoje vivo confortado com a minha ventura e com a minha irrigante mediocridade. Por isso decidi continuar a escrever, não sobre música, como irão reparar, mas sim um pouco sobre tudo e um outro tanto sobre nada.
Em meu auxílio vieram, então, as palavras de Victor Hugo: A traição trai sempre o traidor.
Vou começar por transcrever umas quantas linhas da página 204 e mais algumas outras da pagina 205 do livro “A Grande Arte” de Rubem Fonseca. Não me perguntem porquê, pois eu não o consigo explicar. Mas não é por isso que vou deixar de o fazer com algum entusiamo. De facto existem coisas às quais não conseguimos resistir, apesar de não as alcançarmos entender, ou explicar. Ora aí vai, por isso prestem mais um bocadinho da vossa atenção.
«Então?»
«Todas as pesquisas indicam um equilíbrio muito grande. É impossível saber agora, na conjuntura atual, quem ganhará. Pode ser que o quadro se defina daqui a uns dois meses, mas a hora certa de», hesitou, «fazer as doações é agora.»
«Muito bem. São cinco partidos?»
«Cinco.»
«Dá para todos. Mas manobra de maneira a que eles tomem a iniciativa de pedir.»
«Isso não é difícil. O seu nome é neutro e todos precisam de dinheiro, até o partido do governo.»
«Além da doação institucional, que você me garante que não será contabilizada pelos partidos, vamos dar dinheiro também para alguns candidatos, individualmente. Não deixe os radicais de lado. Eles também aceitam, não aceitam?»
«A corrupção não tem bandeiras.»
«Isso não é corrupção, Gontijo.»
«Tem razão. Desculpe.»
Agora, com vossa licença, vou dar um pulo até à página 268 do mesmo livro.
«O dinheiro compra, o dinheiro tranquiliza, o dinheiro alegra, o dinheiro fortalece», disse Lima Prado no primeiro dia em que estiveram juntos, «mas não é tudo, lembre-se disso.»
Pois é, o Lima Prado tem razão.
Agora vou escrever, à falta de motivo mais elevado, sobre um gato e um passarinho. Eu aprecio muito ver os gatos a caçar. Olha, olha, além está um passarinho a bicar o chão à procura de alimento. Tão engraçado. Olha, olha, um pouco mais ao longe lá está um gato parado a examinar o passarinho. Estou em crer que apesar de ambos estarmos a olhar para a mesma ave, cada um tem dela uma perspetiva diferente. O gato está parado dentro da sua ânsia. Eu estou quieto dentro do meu vagar. Observo, pacientemente, os seus saltinhos e a sua arte, a velocidade, a direção, os seus expedientes volatórios. E o gato faz o mesmo. Eu à procura de uma fotografia, o gato em busca da sua carne. Num inesperado momento, o bichano salta e apanha o desditoso passarinho em pleno voo. E depois fica por instantes a olhar para mim com o passarinho nos dentes. Eu digo-lhe para soltar o passarinho. Mas ele ainda o abocanha mais. E parece que sorri. Apesar de ter pena do passarinho, também fico fascinado pela pronta felinidade do gato. É a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco.
Agora vou transcrever parte de um diálogo entre um namorado seguro de si e a sua insegura namorada. Ela: «Tu gostas de mim?» Ele: Se tu achasses que eu não gostava não mo estavas a perguntar.» Ele novamente: «Às vezes pareces maluca?» Ela: «Eu apenas amo aqueles que me amam.»
De novo volto a Rubem Fonseca: «Enquanto você telefona, lembrei-me de uma frase de Cromwell: “A democracia é forte na Inglaterra porque neste país os homens de bem têm a mesma audácia dos canalhas. Aqui os homens de bem são covardes. (…) Mas, na verdade, como já foi dito, o Poder não corrompe os homens; os tolos, se conseguem uma posição de Poder, corrompem o Poder. O medo, sim, corrompe, como afirmou alguém que não me lembro. O medo de perder o poder, o medo que está sentindo este governo, é que torna as pessoas mais corruptas. Se me permite um circunlóquio, no Brasil o Poder cria corruptos e a corrupção cria poderosos.»
Diálogo entre mim e a Luzia: «Então?» «Então o Quê?» «Gostas mesmo de música?» «Gosto.» «Juras?» «Juro. O meu problema é que não aprendi a tocar nenhum instrumento.» «Toca a tua lira de centeio verde.»
João Madureira
E cá estamos de novo de volta à cidade, onde tudo se compra e tudo se vende, ou será, onde todos se compram, nada se vende e todos perdemos? – Agora já nem sei. Por via das dúvidas, termino por aqui, mas hoje ainda vamos ter, às 9H00, a crónica semanal de João Madureira – “Quem conta um ponto…” e as “Intermitências” quinzenais, de Sandra Pereira, às 17H30.
Até lá!


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