Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

As mantas de Soutelo

“Nós, portugueses, estamos não nas vésperas, mas em plena fase de perdermos toda essa riqueza do passado. E (se) não corrermos rapidamente a salvar o que resta, seremos amargamente acusados pelos vindouros pelo crime indesculpável de ter deixado perder o nosso património tradicional, dando mostras de absoluta incúria e ignorância.”

 

Jorge Dias

(A Etnografia como Ciência)

 

Vamos lá então ao assunto que ficou pendente, e é mesmo disso que se trata, de muitos assuntos que foram ficando pendentes ao longo do tempo e que de tão pendentes que ficaram, esqueceram e estão em vias de esquecer para todo o sempre.



 

A fotografia que vos deixei no último post é de uma das afamadas mantas de Soutelo, uma daquelas que em tempos se faziam em quase todas as casas de Soutelo e que, durante todo o ano mas principalmente na feira da lã do dia 30 de outubro da Feira dos Santos eram procuradas por gente de cá, mas muito mais por gente que vinha de fora, de longe, de todo o norte de Portugal e de Espanha. E assim foi sendo até aos inícios dos anos 80. Depois, bem depois vieram as “mantas” por atacado das fábricas, daquelas que se comprava uma e levam-se três para casa, mais um guarda-chuva, mais uma toalha, 10 pares de meias, um pincel e um plástico – tudo ao preço de uma manta. Eram os chineses da altura, também com material da mesma qualidade, que ao contrário das mantas de Soutelo que duravam décadas, os plásticos oferecidos partiam-se na primeira utilização e o guarda-chuva, com sorte, fazia um inverno.



D.Palmira Valtelhas - Antiga tecedeira de Soutelo - 70 anos, ainda com tear montado

Com a concorrência que levou à falta de procura das mantas de Soutelo, mas também das toalhas de linho, das trepadeiras (tapetes), dos liteiros, e de tudo que ia ao tear para utilidade da casa, morreu toda uma tradição mas também toda uma economia que vivia à volta do tear e o que era ocupação da aldeia(s) e de toda a sua gente, pois tudo era produzido na aldeia ou nas restantes aldeias do concelho, desde o cultivo do linho nos campos, passando pelo seu tratamento até chegar a fio de tear, aos abundantes e grandes rebanhos de ovelhas que davam a lã para os cobertores e mantas além de uma série de outros produtos, trabalhos e profissões que se repetiam um pouco por todas as aldeias do concelho e concelhos vizinhos, que com a tecelagem, mas também com outras artes como a olaria do barro preto de Vilar de Nantes, a cestaria, a latoaria, etc., etc., etc.. Toda uma gama de profissões das quais viviam as populações rurais mas também a cidade ao comercializá-las. Mas tudo acabou com a modernidade das últimas 2 a 3 décadas. Resta-nos a fama do presunto de chaves sem presunto ou as réplicas do barro preto de Vilar como quem vende gato por lebre, mas o que mais revolta é que toda a gente assistiu à morte lenta destas atividades artesanais e de vida das populações,toda a gente assistiu à partida dos aprendizes, ao despovoar das aldeias, à invasão dos terrenos de cultivo pelo mato e ninguém fez nada, mas atenção, entenda-se por “toda a gente” aquela que tinha responsabilidades e obrigações em não deixar que tal acontecesse e, essa  gente, é a mesma do costume, políticos e os outros, os que têm outros interesses, interesses simplesmente económicos, em suma,  os que na verdade mandam.



D.Isaura Teixeira da Cruz - Antiga tecedeira de Soutelo - 90 anos, montrando uma das mantas que teceu.


A modernidade era inevitável, mas em vez de se ter assistido à sua entrada e ir atrás dela que nem um maluquinho atrás da banda de música, devia-mos ter feito parte dela, ser parte da banda e da modernidade, tocar os nossos instrumentos, mas, claro, já se sabe que à frente da banda vai sempre o maestro que a rege e na casa da banda há aqueles que angariam e os concertos e que dão condições para que a banda exista, pois aos músicos está reservado fazer aquilo que melhor sabem fazer – tocar. A nós faltaram-nos os maestros e o trabalho de casa que, de tão ocupados que os responsáveis andavam a tratar das ar€ias, dos cim€ntos e do f€rro para o b€tão armado fazer crescer a(s) cidade(s), se esqueceram dos nossos músicos que esquecidos, deixaram enferrujar os instrumentos, mas que ainda sabem tocar… os mais novos foram tocam para outras bandas e os mais velhos, sonham com o ensinar alguém a tocar para ver se conseguem nova banda com maestro.



D.Isaura Teixeira da Cruz - Antiga tecedeira de Soutelo - 90 anos, montrando uma das toalhas em linho que teceu.


Mas voltemos às mantas e a Soutelo onde ainda há muitas tecedeiras mas nenhum tear a funcionar.

 

Num livro publicado por Luís de Carvalho (2008), intitulado  “Tecelagem Flaviense”. O autor fez o levantamento das tecedeiras do concelho onde, nas últimas décadas, havia 39 tecedeiras só na freguesia de Soutelo, das quais 16 ainda com vida. Em Abril deste ano tive oportunidade de entrevistar algumas tecedeiras de Soutelo e a listagem das 16 tecedeiras ainda vivas mantem-se atual. Nas entrevistas realizadas todas as tecedeiras gostariam de ver a tecelagem de volta à freguesia e também de ensinar quem quisesse aprender. No entanto, como em tudo, há a considerar o fator tempo, pois a entrevistada mais nova tem 70 anos e a mais idosa tem 90 anos. Dizem os livros do campo económico e social que para um projeto ser sustentável  e ter sucesso,  tem de envolver as populações locais. Talvez em vez de se inventarem projetos para desenvolver isto e aquilo sem ouvir as populações e que não vão de encontro às suas necessidades e anseios, acabando sempre em projetos fracassados (ou meras intenções de projeto), se devesse apostar antes nos saberes e valores que ainda existem na nossa população rural, envolvendo-os e fazendo-os parte dos projetos, recuperando-se tradições e um meio de vida, se não principal, complementar,  que os tempos de crise ou qualquer tempo recomendam e depois sim, na tal feira dos Saberes e Sabores que se insiste em fazer anualmente com os Sabores e Saberes de fora,  poderíamos ter os nossos sabores com muito mais sabor e os nossos saberes com a sabedoria e a fama que sempre soubemos conquistar, mas para que tal aconteça temos de ter os tais mestres da banda e quem faça o trabalho de casa, depois, é só seguir uma das regras mais antigas das trocas populares, comerciais ou efetivas de - “amor com amor se paga” ou “dar para receber” e todos seriam(os) ganhadores vencedores. Haja nessa gente quem pense nisso, mas o problema parece estar mesmo em pensar, no social!



publicado por Fer.Ribeiro às 22:27
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Uma imagem para um assunto a acontecer mais tarde

 

Para já fica uma imagem de abertura sobre o assunto que hoje quero trazer aqui, mas as restantes imagens e as palavras, ficam para mais tarde, mas ainda para hoje.

 

Entretanto, para quem gosta de fotografia e costumava seguir o meu antigo blog “Devaneios”, fica aqui a notícia que está de volta. Eu sei que há dois anos atrás disse que os “Devaneios” tinham chegado ao fim, mas não resisti a traze-lo de volta, com imagens de outros sítios e lugares para além de Chaves, das nossas aldeias e da região e, claro, com alguns devaneios fotográficos, sem palavras, ou sem muitas palavras. Passe por lá, fica aqui o link: DEVANEIOS

 

Até mais logo.


tags:
publicado por Fer.Ribeiro às 03:45
link do post | comentar | favorito

.meu mail: ribeiro.dc@gmail.com

.Maio 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9


24
25

26
27
28
29
30
31


 

 

El Tiempo en Chaves
IBSN: Internet Blog Serial Number 560-22-4-1960
blog-logo Travelavenue.com.br - O Guia de Viagem- favorite blog 2010

.Facebook

Blogue Chaves Olhares

Cria o teu cartão de visita Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita peticao-utad peticao, tâmega, rio reflexos 183-podium frproart's most interesting photos on Flickriver

.subscrever feeds

.posts recentes

. O Homem Sem Memória - 154

. Leituras de um olhar

. Quatro Lumbudus em Bragan...

. Intermitências

. Quem conta um ponto...

. Pecados e Picardias

. Mairos e Torga

. Discursos sobre a cidade ...

. O Homem Sem Memória - 153

. Mais três imagens e breve...

. Chaves - Três Olhares

. Quem conta um ponto...

. Pecados e Picardias

. Imagens que me contam coi...

. Discursos sobre a cidade ...

.pesquisar

 
blogs SAPO

.A espreitar

online
Estou no Blog.com.pt

.Creative Commons

Creative Commons License
Este Blogue e o seu conteúdo estão licenciados sob uma Licença Creative Commons.

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites