A CARTEIRA
Era sexta-feira à tarde. Corria o mês de junho, tempo quente e seco como as palheiras de centeio prontas para a ceifa. Apesar disso, os rios truteiros do Planalto apresentavam um caudal anormalmente volumoso. As águas límpidas e oxigenadas, cantarolando por entre as penedias fizeram um bom ano de trutas. Eu malhava nelas como em centeio verde. Pescava quase sempre sozinho batendo a amostra pelos mais recônditos lugares.
Há anos que o meu amigo presidente mostrava curiosidade por esta arte. Andava mortinho para me acompanhar numa dessas pescarias. Queria afinal observar como viviam e como eram pescadas as trutas pintalgadas de laranja que às vezes lhe oferecia.
─ Vais para o rio amanhã?
─ Vou. Queres ir comigo?
─ Olha que até vou!
─ Bem, então estás pronto lá para as seis da manhã, que eu passo por tua casa. E não te preocupes com a merenda que eu a arranjarei. Já agora, leva roupa adequada. Botas, levo-tas eu. Tenho umas velhas que já não uso e que para uma vez ainda servem.
Havia de ser escolhido o rio Beça, lá para os lados de Secerigo, num dos mais violentos troços do seu percurso de montanha. O presidente, cada vez que eu lhe falava nas dificuldades deste desporto troçava comparando-as com as da caça. Andava mesmo precisado de uma lição!
Chegados ao rio, equipámo-nos devidamente: colete, galochas altas, cana, cacifo e respetiva merenda. Começaríamos a bater ao para cima. Antes porém, experimentado, lembrei-lhe que não deveria ir de manga curta por causa das silvas e dos galhos secos. Ele insistiu em manter as mangas arregaçadas e assim entrámos no rio
A truta, naquele dia, atirava-se de qualquer maneira. Contudo, pegava mal. Com a água límpida, o presidente deliciava-se a observar o comportamento voraz dos peixes. O percurso era crescentemente difícil, mas compensado por uma paisagem selvagem, deslumbrante e pura!
O presidente, biólogo de formação, aproveitava também para observar os excrementos enigmáticos sobre os penedos do leito.
─ São de mamífero, tenho a certeza! Mas de que bicho poderiam ser?
Para lhe demonstrar a dificuldade da pesca à amostra, convidei-o a experimentar um lançamento. Pois isso! A amostra quase não saiu dos seus pés.
─ Muitos anos de treino, meu amigo!..
De máquina fotográfica na mão, ia batendo umas fotografias para a posteridade.
Rio acima, entre o entusiasmo das trutas que pegavam, das que fugiam e das que entravam no cacifo, lá íamos vencendo as dificuldades. Os penedos escorregadios, a travessia frequente do rio, as ladeiras íngremes, os poços fundos, as silvas, os tojos, os fetos e a erva alta constituíam obstáculos de respeito que moíam o corpo e a paciência.
Após sete horas de pescaria, uns bons sete quilómetros de rio, dezassete trutas no bornal e outras tantas fugidas, resolvemos parar. Não havia mais pernas e o presidente estava arrasado. Era hora do regresso. Esperava-nos outro tanto caminho de regresso. Embora fosse quase sempre a descer, o percurso era paradoxalmente ainda mais difícil, porque as pernas já respondiam mal ao esforço.
As botas que lhe havia emprestado eram apertadas. Foi um martírio descer até ao carro, com a unha do dedo grande do pé a ficar cada vez mais negra. Após hora e meia de árduo caminho, esperava-nos no carro o reconforto de quatro cervejolas geladinhas e uma merenda de seco.
Partimos em direção a casa, mais mortos do que vivos, seriam umas seis da tarde.
A meio caminho o presidente apalpou, desesperado, os bolsos do seu colete.
─ O que te aconteceu?
─ Perdi a carteira!... E tinha lá os documentos do carro, os pessoais, cartões de crédito e de débito, para além de cerca de duzentos e vinte euros!...
─ Olha que porra! Então andas com essa documentação toda e esse dinheiro na carteira para quê? E ainda por cima metes-te no rio com a carteira!... Que pacóvio me sais-te!..
─ Sabes onde deve estar? Naquele tanque onde estivemos a beber água. É que eu debrucei-me para molhar a cabeça e a carteira deve ter caído na lagareta.
E lá fomos ao lugar alcandorado sobre o rio nos confins do mundo.
Procurámos, procurámos e nada. O presidente teria que se conformar, uma vez que a estar no rio era impossível encontrá-la não só porque o percurso era longuíssimo como também pleno de dificuldades. Nem sequer valia a pena tentar procurá-la por lá pois era como encontrar uma agulha num palheiro. Além disso, aproximava-se a noite, apesar de se tratar de um dos dias mais longos do ano.
Regressámos. Porém, pelo caminho, consegui convencê-lo a regressarmos no dia seguinte, não estivesse a carteira no sítio onde acabámos a pesca. Aí, havia tirado o colete para se refrescar, colocando-o sobre umas pedras. Poderia muito bem a carteira ter escorregado do bolso!
Domingo, depois de almoço, lá fomos. Mais uns quilómetros nas pernas, mas carteira de grilo!
Pronto, já não havia qualquer esperança!
Apesar de tudo, a presidenta, mulher do dito, encomendou (pelo telefone) um responso à senhora Maria Rabota, a feiticeira da sua aldeia perto da Torre de Dona Chama. A mulher fez a reza e não se tendo enganado garantiu que a carteira acabaria por aparecer. Bem te vai!...
Segunda-feira de manhã o presidente deu início à saga da renovação dos documentos. Uma fortuna e um tempão!
Eu não me conformava!
Na tarde desse mesmo dia, desafiei-o para lá tornarmos. Procuraríamos no rio. Pelo menos descarregávamos a consciência!
Que não, que não fosse maluco! Que era impossível topá-la. Que se conformava.
─ Bem, meu amigo, não queres ir, pois vou eu sozinho.
─ Não sejas tolo, deixa lá a carteira! Antes isso que uma perna partida. Que se lixe!
─ Pois eu vou lá e se o milagre acontecer vais ter que pagar uma mariscada!
─ Não seja por isso!
Cinco da matina, arranquei.
A manhã estava cinzenta, chuviscava. Porém, à medida que ia subindo a serra, o tempo piorava. No rio estava um temporal medonho. Chuva, vento e solidão. Metia medo!
Devidamente equipado e de varapau na mão, comecei a bater rio, pouco passaria das seis e meia. As dificuldades começaram logo uma vez que não sabia exatamente por onde o presidente teria passado. Como haveria de encontrar a carteira?
Só mesmo para malucos, de facto!
Seriam umas sete horas e a esperança já se desvanecia. Todavia, para meu espanto, observava ao longe que qualquer coisa maior que uma truta buliçava na água dum poço do rio. Escondi-me atrás de um penedo observando. Duas lindíssimas lontras caçavam. Estava explicado o enigma dos excrementos do dia da pesca! Rapei da máquina fotográfica para registar esse momento único. Havia anos que pescava naquele rio e nunca tivera a oportunidade de ver tal coisa! O flash ligado, inadvertidamente, espantou os bichos que desapareceram como por magia. Para recordar ficou uma única fotografia.
A busca continuou já quase sem esperança. Era mais por um descargo de consciência. E ainda havia tanto rio para percorrer! A chuva já chegava aos ossos.
Naquele percurso o Beça, algures, tem um poço fundo ladeado por margens abruptas que obrigam a subir aos campos para seguir viagem. Para isso, é preciso vencer uns cinco metros de desnível. Saltar para as leiras por baixo dos arames de uma ramada, o que obrigava a gatinhar. Por ali tínhamos passado no dia da pescaria. O pior era saber precisamente por onde o teria feito o presidente já que havia umas quatro hipóteses de escalada. Tentaria a primeira. Subi. Quando me preparava para vencer os arames, dei de caras com a carteira pousada sobre a erva seca de uma saliência da escarpa.
Não queria acreditar!..
A estupefação foi tanta que nem coragem tive para lhe pegar de imediato. Incrédulo, caí instintivamente de joelhos, rezando!
A chuva caía copiosamente. Eu, de fato oleado e capuz, com as mãos postas, orava em voz alta. Se alguém me visse àquela hora e naquele sítio em tais propósitos haveria de pensar que seria uma alma penada de um outro mundo qualquer. Com razão! De facto não era para menos!
A carteira estava molhada. Mas estava lá tudinho: dinheiro e documentos. Que alegria! Não era só tê-la encontrado, mas também por não ter de fazer o que faltava do rio, de resto o mais difícil. Fotografei devidamente o local do crime, para mais tarde recordar.
Subi à aldeia para chegar ao carro e, encontrando uma velhota pelo caminho, contei-lhe a história. A senhora já sabia da perda. Aliás, a aldeia já sabia toda. Ficou também muito contente e com orgulho de eu ter encontrado a carteira naquilo que era seu.
─ Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Venha a minha casa matar o bicho, meu senhor!
─ Não, muito obrigada. Tenho pressa de levar a novidade ao dono.
Na viagem de regresso, pensei na estratégia da entrega!
A primeira coisa que fiz foi mandar uma mensagem sms para criar ambiente. Rezava: Chove muito. Impossível encontrar. Vou desistir. Enviei-a. Foi recebida! Chegado a casa, fui para o computador descarregar as fotografias daquele dia e mais as do dia da pescaria. Construiu duas pastas com elas. Uma com o antes e outra com o depois.
Fui ter com o presidente. Estava, como sempre, no seu local de trabalho. Encostei-me, com um ar de desgraçadinho, à porta do gabinete e disse:
─ Nada pá. Impossível dar com alguma coisa. Tive de desistir. A chuva e o vento não me deixavam ver nada. Olha, pelo menos tentei!
─ Eu não te disse? És burro! Para que é que lá foste? Bem sabias que era impossível dar com ela!
─ Pois! Se ainda, sequer ao menos, pudesse eliminar parte do percurso. Mas queres ver? Eu tenho aqui as fotografias de sábado? Sei mais ou menos onde foram tiradas e nalgumas apareces tu. Vamos ver se conseguimos detetar algum volume no bolso do colete.
Metemos a pen no computador. De facto havia duas fotos onde o presidente aparecia em grande plano. Mas o bolso da carteira estava, em ambas, completamente tapado. Nada!
Depois de alguma discussão, insisti para que abrisse a outra pasta. Queria que visse desfeito o enigma dos excrementos.
Ficou encantado com as lontras. Porém, havia mais dois ficheiros.
Abriu-os.
Não percebeu de repente do que é que se tratava.
Quando, por fim, percebeu, caiu-lhe a carteira, ainda húmida, em cima da secretária. Ficou atónito!
Levou algum tempo a recuperar da emoção. Mas era mesmo verdade. Era a carteira.
Milagre!!!...
Levantou-se e deu-me um abraço sentido!
─ É para veres! Quando eu falar, acredita naquilo que eu te disser. Desistir é morrer. Aprende!
Não sei se a reza da tia Maria ajudou. O que é certo é que com a reza e a minha insistência a carteira acabou por aparecer!
No domingo seguinte estava a família do presidente e a minha, a encher o papo de leitão assado, que é a lagosta de Trás-os-Montes!
Quem pagou, está claro, foi o presidente!
Gil Santos
Ainda antes do “Discurso Sobre a Cidade” de hoje, a defesa do nosso rio Tâmega merece que partilhe aqui um texto que caiu na minha caixa de mail’s:
Foto: Darren Whiteside/Reuters
Caríssimos Amigos
Dois atletas portugueses de Canoagem, Fernando Pimenta e Emanuel Silva, ganharam hoje a Medalha de Prata dos Jogos Olímpicos de 2012 na modalidade K2 1000 Metros.
Muito provavelmente será a única que Portugal trará de Londres.
Com o acrescentado Mérito de que – dentro do milenar Espírito Olímpico – estes atletas, ao contrário da maior parte dos profissionais que participam nos Jogos, são, verdadeiramente, AMADORES!
Congratulemo-nos com esta victória que também é a de todos aqueles que defendem as práticas desportivas e o Turismo de proximidade com a natureza.
Mondim, e o Tâmega, o nosso Rio, ameaçado de destruição pelo compadrio entre os que o querem embalsamar e os que o querem sacrificar à sua ganância e incapacidade administrativa, ganha, assim, a dimensão dum palco natural, genuíno, em que autênticos amantes do desporto vivem os seus tempos livres na proximidade com a natureza que uns querem preservar mas que, infelizmente, outros vieram para a roubar e destruir.
Sem qualquer desrespeito por todos os que praticam, exemplar e salutarmente, outras modalidades desportivas, recordamos no justo sabor desta victória todos os que cresceram, viveram e vivem nas margens do nosso sagrado RIO, do Alto ao Baixo Tâmega, amando-o e defendendo-o como “ coisa própria nossa”.
João Alarcão


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