Quinta-feira, 16 de Agosto de 2012

O Homem sem Memória (115) - Por João Madureira

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

115 – “O comunismo é tão vantajoso e tão superior ao capitalismo que não só manda homens e mulheres para o espaço em maravilhosos foguetões, como envia mulheres e até cães. Ou melhor, cadelas.”


Esta idiotice pretensamente ideológica não lhe saía da cabeça. O camarada esclarecedor era mesmo um idiota chapado, machista e sectário como a puta que o pariu. O que causava estranheza ao José era o facto de pessoas pretensamente cultas e esclarecidas acreditarem em semelhantes idiotices. Bem vistas as coisas, os camaradas eram para ali um bando de crianças parvas enfiadas em corpos de adultos.


O mundo rege-se por duas religiões absurdas: a do paraíso no céu e a do éden na terra, que são cara e coroa da mesma moeda ideológica. Pelo meio fica prensado o martírio de milhões de mártires, que para uns são apenas almas penadas e para outros não passam de simples algarismos de uma estatística de horror.


“Os fins justificam os meios”, este foi sempre o lema dos exterminadores leninistas. “Dos pobres é o reino dos céus”, continuam a rezar os sorumbáticos papistas romanos.


Mas já que os tinha deixado a discutir em circuito fechado, o José não estava agora para pensar mais em cretinices e nos respetivos cretinos. Em casa tinha à sua espera “O Idiota” de Fiodor Dostoievski, um livro que lhe estava a bater forte, quase tão forte como a bela e enlouquecedora Nastácia Filíppovna arreava com o seu chicote em quem a não amava apaixonadamente ou a afrontava indevidamente. Nele, Dostoiévski constrói um dos personagens mais impressionantes de toda literatura mundial, o humanista e epilético Príncipe Míchkin, uma hábil mistura de Cristo com Dom Quixote.


Mas antes disso tinha de ler o Programa e os Estatutos, pois não podia militar no Partido Comunista sem conhecer os direitos e os deveres dos militantes e os princípios orientadores da organização proletária. Além disso, já tinha teimado na leitura dos diferentes programas partidários. E tinha mesmo lido aos pulinhos distintas passagens do livrinho sagrado do PC, consideradas pelos camaradas responsáveis como as mais relevantes. Mas ele, pobre coitado, não atinava com a sua relevância.


As leituras realizadas, em vez de o esclarecer, ainda o baralharam mais. Depois de cada leitura, chegava ao fim, isto quando não adormecia antes, a concordar com tudo o que tinha lido. Ou seja, se fosse a orientar-se pelos diversos programas podia ser militante, sem nenhuma hesitação, de qualquer partido.


Todos diziam querer, e defender, o melhor para o país e para a população. Todos falavam em liberdade, em igualdade, em fraternidade, e, pasme-se, em socialismo, progresso, desenvolvimento, modernidade, cultura, educação, pão, paz, povo, liberdade. E o programa comunista perseverava mesmo na defesa das “mais amplas liberdades” para o nosso povo.


José foi literalmente consumido pela síndrome do jovem piloto de aviões Nately, um castiço personagem do romance de Joseph Heller, Catch-22, e um dos melhores amigos de Yossarian, que passa a vida a apaixonar-se por todas as raparigas com quem se cruza e com elas pretende casar, apesar de todas serem honradas, e experimentadas, prostitutas.


Para os estimados leitores se inteirarem da honestidade intelectual do nosso querido personagem principal, posso informar-vos que o José leu e anotou a maior parte dos livros fundadores da cultura mundial, especialmente da ocidental. Posso ainda informar os prezados leitores que os seus apontamentos tinham uma caligrafia impecável nas dez ou doze primeiras linhas, mas a partir daí eram uns hieroglíficos que nem ele se atrevia a ler sem se arreliar de morte, por vezes quase até ao desfalecimento ou à cegueira temporária.


Da Bíblia copiou honradamente a parte que se segue (em itálico escrevemos os respetivos comentários, e que Deus, os anjos e os santos nos perdoem, se forem capazes e tiverem competência para tanto).


“No princípio, criou Deus os céus e a terra.” (E quem criou Deus? E depois da primeira pergunta respondida, coisa que, convenhamos, não é mesmo nada fácil de se arranjar, quem criou o criador de Deus? E quem criou esse outro criador? E assim sucessivamente. Nesta dúvida metódica podemos escavar até ao infinito do princípio. O infinito também como princípio é uma boa hipótese de trabalho. Um princípio infinito é uma ideia poética quase tão profunda como Deus, se não for ainda mais. Mas não quero pensar muito nisso senão dói-me ainda mais a cabeça.)


“E a terra era sem forma e vazia…” (Com estas palavras fica provado que Deus podia ser um bom progenitor mas era um mau oleiro); “e havia trevas…” (E como é que Deus via no meio de tanta escuridão? Teria visão de Super-homem?) “sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus…” (Então Deus tinha um espírito ou era um Espírito? Seria um ser em dois, ou dois em um? E a ser assim para que precisava Deus de um Espírito. Ou esta expressão não passa de um eufemismo. Mas se a bíblia foi inspirada, escrita, por Deus, porque raio se deu a este tipo de ambiguidades?) “movia-se sobre a face das águas…” (Aqui está uma expressão de singular carga poética. Disto gosto, da veia poética de Deus.)


“E disse Deus: Haja luz. E houve luz.” (Esta imagem de Deus como um vulgar eletricista não me cativa. É demasiado humana para fazer parte da criação do mundo. É vulgar. E Deus, que é único, não pode ser por definição, e condição, vulgar. Deus só pode ser extraordinário. Para ordinários estamos cá nós.)


“E viu Deus que era boa a luz…” (Ora aqui está uma enorme contradição, ou, se quisermos, uma infeliz redundância. Deus, porque o é, só pode criar coisas boas. Ou seja, se foi ele que criou a luz, ela só podia ser boa. Ou seria que mesmo ele desconfiava dos seus poderes? E ainda mais: mesmo antes da criação, Deus já tinha definido o bem e o mal. Ou seja, já tinha decidido criar homens bons e homens maus, já nos queria por a lutar uns com os outros. Fica pois provado que Deus era preconceituoso. E não me venham com a treta de que ele ainda não tinha conhecimento desses conceitos. Não podemos esquecer que a princípio era o verbo, ou seja: a palavra. A carne é posterior. E não nos podemos esquecer que Deus é, por definição, omnisciente e omnipotente. Ele, já naquela altura, tudo sabia. Ora isso não abona muito a favor de um Deus que é por definição um ente supremo e bom. Ou ainda melhor do que bom: ótimo.); “e fez Deus separação entre a luz e as trevas…” (Lá está ele a separar coisas que são por definição antagónicas. Se existiam trevas, e Deus criou a luz, estas duas realidades já estavam à partida separadas e por isso não necessitavam de ser apartadas. Uma só existe em função da outra. Deus, logo de início, mostrou-se redundante.)


“E Deus chamou à luz Dia; e às trevas Noite…” (Lá está Deus com a mania de nomear tudo. De explicar tudo. Só ainda não se deu ao trabalho de explicar a origem do universo. A sua origem. O nosso destino. O sentido de isto tudo. Para ele deve ser simples. E se assim as denominou, fê-lo em que língua?)


“E foi a tarde e a manhã o dia primeiro.” (A tarde e a manhã? Ou será a manhã e a tarde. Ou será ainda que a ordem substantiva não interessa a Deus? Ou será ainda que Deus confundiu a sucessão da sua luz? Primeiro o Sol a nascente, depois o astro rei a poente.)


“E disse Deus; haja uma expansão…” (Haja uma expansão, não será que disse “haja uma explosão?” Sempre era mais interessante do ponto de vista narrativo. E dava um filme do caraças nas mãos de Cecil B. DeMille.)


A partir daqui, e até à página 58 do caderno, quase tudo é ilegível.


Aí abandonou o trabalho sobre o “Velho Testamento” e apenas ia na segunda página da Bíblia. A muito, mas mesmo muito custo, ainda conseguimos decifrar a seguinte frase: “Abandono aqui este registo cruel porque não entendo porque Deus, depois de criar Adão a partir do barro e de criar a Eva a partir de uma costela de Adão e de colocar uma serpente a servir de Diabo, ainda condena a mulher a parir com dor. Pensar que condenou a minha querida avó a este tormento dá-me vómitos. Já sobre a minha mãe não sei bem o que pensar e….” que Deus o perdoe, acrescentamos nós sem grande convicção, mas com um sentimento muito sofrido. 


116 – E presumivelmente melancólico avançou ...

 

(continua)

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:00
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