12 anos
Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013

Semana do Cravelho - 4

Stª Ovaia

 

Vale de Zirma

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:30
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O Homem Sem Memória - 138

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

138 – Na sua terceira semana como camarada diretor e professor da Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa, José Ferreira, filho do Guarda Ferreira, neto, pela parte da mãe, de Rosa Cantarinha, do Zé do Canto e da Maria do Cântaro, decidiu finalmente pôr os seus camaradas pioneiros a escrever. Tinha de alternar a cantilena do Manifesto, a entoação do Hino do Partido, da Internacional, além de outros rituais, com a escrita livre e criativa. Necessitava de dar espaço à imaginação. Bem vistas as coisas, os camaradas pioneiros eram crianças como as outras, mesmo não parecendo.


Mas temos de ser honestos, pois a isso nos obriga a realidade: os exercícios propostos foram imediatamente motivo de polémica. Desde logo porque os destinatários eram crianças. E as crianças, como todos sabemos, nunca se cansam nem de correr, nem de gritar e muito menos de fazer perguntas. Então se a tudo isto juntarmos a ideologia comunista, temos uma longa e incrível história de controvérsias intermináveis. Nisso os comunistas são tão puros como as crianças, nunca se cansam de questionar.


A polémica instalou-se mal o camarada professor José propôs que naquele dia a maior parte da aula iria ser ocupada com a elaboração de um texto livre. Até aqui tudo bem, pois os camaradas pioneiros acenaram com as cabecitas em sinal de concordância. A controvérsia sobreveio quando sugeriu o tema: “O que eu quero ser quando for grande”. A camarada pioneira Lídia, como comunista coerente, como já vimos atrás, contrapôs que o título tinha aspeto de ser um pouco reacionário, pois em nada diferia dos temas indicados pela sua ditadora professora primária. O camarada professor José tentou argumentar que não era o título de uma obra o que definia a sua orientação ideológica, mas antes o seu conteúdo. “Mas pode sugerir”, argumentou de novo a camarada pioneira Lídia. “Lá poder pode, mas…”, intentou responder o camarada professor José, no que foi prontamente interrompido pelo camarada pioneiro João que não perdia uma única oportunidade de se opor à camarada pioneira Lídia: “Aqui não há mas nem meio mas, na escola de pioneiros comunistas o camarada professor manda e nós obedecemos…” A camarada pioneira Lídia ia começar a argumentar de novo quando o camarada pioneiro Luís se meteu de premeio e disse que o problema não era o tema sugerido mas antes a contradição implícita na sua denominação, pois um texto proposto não é livre, mas antes regulado. E tudo o que é regulado obedece a um princípio, tem uma orientação, leis próprias, regras definidas… “Ó camarada professor”, objetou o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel, “ponha mas é ordem nisto. Tanta confusão por causa da merda de um texto.” “Cuidado com a língua, camarada pioneiro Miguel”, lembrou o camarada professor José. Mas ainda estava a olhar com cara de camarada dirigente Estaline na direção do ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel, quando o camarada pioneiro João contra-atacou: “Merda de texto deve ser o que tu vais escrever, pois só dás erros e não consegues construir uma frase com princípio, meio e fim.” “Silêncio. Respeito. Ordem”, gritou o camarada professor José. “Ordem revolucionária”, acrescentou o camarada pioneiro Luís. Então fez-se silêncio. Logo de seguida a camarada pioneira Lídia pôs o dedo no ar e começou de imediato a falar: “Voltando ao texto proposto, eu continuo a achar que não é livre, pois…” Neste momento o camarada professor José ergueu-se da cadeira de um salto e disse com voz de dirigente: “Ora vamos lá a ver se nos entendemos. Eu quando sugeri um texto livre sobre o que cada um quer ser quando for grande, foi com o propósito de vos dar oportunidade de poderem escrever livremente sobre a vossa determinação em virem a ser, no futuro, uns revolucionários exemplares. A liberdade do texto tem tudo a ver com a possibilidade de cada um o redigir por sua conta e risco. Além disso, toda a liberdade é condicionada. Ninguém é totalmente livre.” “Nem no comunismo?”, perguntou o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel. Mas o camarada professor José não lhe respondeu. “A liberdade conquista-se, não se dá nem se recebe, luta-se por ela e ganha-se. Assim têm os camaradas a possibilidade de, a partir de um texto sugerido, se libertarem libertando o texto, libertando as palavras e as ideias e emancipando o proletariado.” “Então quer dizer que quando o camarada professor sugeriu o tema apenas estava a pensar na dimensão social, na prática política e não no que cada um pode vir a aspirar a ser profissionalmente. É isso?”, questionou-o a camarada pioneira Lídia. “O que é que o resto da turma acha?”, perguntou muito democraticamente o camarada professor José. Mas a maioria da turma manteve-se calada, como sempre. Apesar de ser constituída por pouco mais de duas dezenas de camaradas pioneiros, apenas quatro falavam. Nisto a escola já estava dar os seus frutos, pois tornava nítido quem poderia vir a ocupar os cargos de dirigente da classe operária do futuro. Bem, da classe operária não, melhor será dizer da sua vanguarda, pois assim é que está certo. Porque uma coisa é ser dirigente da classe operária, nos sindicatos, outra bem diferente é ser dirigente da sua vanguarda, no Partido. Apesar do silêncio, o camarada professor José tornou a perguntar: “O que é que o resto da turma acha?” Ao que o camarada pioneiro João respondeu: “Acho que a turma não acha nada, como sempre. São uma cambada de burros.” “Veja lá como fala, camarada pioneiro, a linguagem e o tratamento protocolar definem a personalidade de um líder”, avisou-o o camarada professor. “Desculpe camarada José, mas eles não são camaradas burros, são apenas camaradas reacionários”, disse o camarada João. “Camarada pioneiro João vá já de castigo para o fundo da sala decorar as páginas trinta e nove a cinquenta do Manifesto. E hoje fica sem recreio.” “Outra vez o socialismo reacionário? Já não há quem aguente. Eu vou fazer queixa ao meu pai.” No fundo da sala, o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel começou a rir-se como um perdido e a camarada pioneira Lídia também deu um ar da sua graça. Apenas o camarada pioneiro Luís veio em defesa do seu companheiro: “Não é justo castigar um camarada apenas porque diz a verdade. Eles podem ser camaradas, mas também são muito burros. Isso todos o sabemos. Novamente o camarada professor José se levantou de um salto apenas e gritou na direção do provocador: “Já lá para o fundo decorar o segundo capítulo do Manifesto, «Proletários e Comunistas».” E lá foi o camarada pioneiro Luís para um canto da sala a resmungar alto que também ele ia fazer queixa ao seu pai. Mais uma vez o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel se riu e a camarada pioneira Lídia também.


Quando o camarada professor José se sentou, a camarada pioneira Lídia aproveitou para voltar à liça: “Relativamente ao texto livre sugerido, penso que se por exemplo o camarada pioneiro Miguel quiser escrever que quando for grande quer ser trolha para poder vir a inscrever-se no sindicato e depois passar a organizar greves, manifestações, etc.” “E quem é que te disse que o camarada pioneiro Miguel quer vir a ser trolha? Lá pelo facto de o seu pai ser operário isso não quer significar que ele lhe queira seguir os passos”, contrapôs o camarada professor José. “Mas não é uma honra ser operário? Pois se é uma honra…” ia a continuar a camarada pioneira Lídia, mas o seu camarada professor interrompeu-a com voz autoritária: “Lá uma honra é, mas também é muito cansativo.” “O que é que o camarada professor quer dizer com isso?”, questionou-o a camarada pioneira Lídia. Mas o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel não lhe deu tempo de responder: “Acabem lá com a porra da conversa de uma vez por todas.” O camarada professor José, já com a paciência a desmoronar-se, avisou: “Tento na língua.” Então o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel indagou: “O que foi que eu disse de mal. Apenas pronunciei a palavra «porra».” “E tu sabes o que significa porra?”, perguntou o camarada professor José. “Eu não”, respondeu o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel meio embasbacado. “Eu sei”, disse a camarada pioneira Lídia, “a minha mãe explicou-me quando eu, por acaso, li essa palavra num soneto do Bocage.” “E a tua mãe deixa-te ler poesia erótica do Bocage.” “Não. Mas eu leio na mesma. «Porra» quer dizer pilinha.” Toda a turma se riu, menos o camarada professor José. Um camarada pioneiro dos que sempre estavam calados, desta vez resolveu falar: “Não é pilinha que se diz, mas sim «piroca».” Mais risos. E um outro contrapôs: “Não é «piroca» é «pélis».” Ainda mais risos. Ao que o camarada pioneiro João, mesmo de castigo, corrigiu: “Não é «pélis», mas sim «pénis»…” “ou «falo»”, sugeriu o Luís. Foi então que o riso tomou conta de toda a turma. O ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel, com a sua arrogância proletária verdadeiramente filha… do proletariado e intrinsecamente provocatória, levantou-se do lugar e gritou bem alto a sua má criação: “Não é nada disso, «porra» é «pissa».” Depois ouviu-se ainda mais alto: “E a palavra escreve-se com um «cê» de cedilha ou com dois «ésses»”. 

 

139 – Foram os textos que salvaram ...

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 08:10
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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013

Semana do Cravelho - 3

Mairos

 

Bustelo

 

Bustelo

 

Cimo de Vila da Castanheira

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:30
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Leituras de um olhar

Já o tinha anunciado e hoje é o dia de inaugurar uma nova rúbrica, não como estava pensada, mas com mais um desafio de juntar leituras a um olhar.

 

Os olhares são de António Tedim, as leituras podem ser todos nós, mas o Paulo Chaves vai dar-lhe palavras.

 

António Tedim, da Maia, Porto, é membro da Portografia e amante da fotografia. Paulo Chaves, é de Chaves, profissional e amante da palavra. Curiosamente, não se conhecem e o blog Chaves apenas fará a ponte entre os dois.

 

Vamos lá então, a rúbrica dará pelo nome de “Leituras de um olhar” e estará aqui todas as quartas-feiras.




 






Terra

 

Este é o bocado que amo

Nele dou a vida e nesta morte eu vivo

 

Por ele eu clamo como quem acredita

Por ele eu sigo como caminho a haver.



(Olhar de António Tedim, Palavras de Paulo Chaves)



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publicado por Fer.Ribeiro às 04:05
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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2013

Intermitências



A palavra certa

 

Palavra certa só há uma. Ela acredita. Uma só palavra pode mudar todo o sentido das coisas.


Em cada momento, só existe uma palavra certa. Toda a sua vida tem sido procurá-la, dar um passo em frente para ver o seu efeito, dar outro atrás para substitui-la. No fundo, exprimir nada mais que a mais pura das verdades.


Ela procura, experimenta, quer muito exprimir a palavra certa para ser o mais justa possível com o que é, mas nunca lhe sai a palavra certa para o momento. Às vezes, sai uma encapotada. A palavra subentendida que, no fundo, quer ser entendida, a palavra de duplo sentido que, no fundo, só tem um sentido. Ela bem sabe, essa é cobarde, é uma semiverdade apenas alcançada pelos mais atentos e ousados, mas mesmo que não seja a palavra certa, pelo menos só chega a quem interessa.


Ela emociona-se com as palavras certas que lê nos livros, com as palavras certas que ouve nos filmes, com as palavras certas que sonha. Daria tudo para sentir o mesmo. Seriam as pessoas e as suas vidas mais interessantes se fossem perfeitas?


Ela muda de lugar. Em nenhum momento acha a palavra certa. Ela muda de pessoas. E no momento em que mais se aproxima, menos acha a palavra certa.


Rende-se. Como toda a gente, ela não emociona ninguém com palavras. Como toda a gente, ela vive através da palavra que ilude, que é a certa para o momento, mas não a verdadeira.


Olhar certeiro só há um. Ele acredita. Um só olhar pode mudar todo o sentido das coisas.


Em cada momento, só existe um olhar certo. Basta substituir “palavra certa” por “olhar certeiro” para, no fundo, exprimir nada mais que a mais pura das verdades.


Fotografia de Sandra Pereira


Ele procura, experimenta, quer muito lançar o olhar certeiro para ser o mais justo possível com o que é, mas nunca lhe sai o olhar certeiro para o momento. Também ele vive com o olhar que ilude, mas não se rende. A vida é só isso mesmo: tentar, errar e voltar a tentar. Seriam as pessoas e as suas vidas mais interessantes se acertassem sempre?


Um dia, ele achou que, quase sem dar por isso, acabara de lançar um olhar certeiro. Não se entusiasmou, já não era a primeira vez. Ela desviou o olhar.


Ele aproximou-se. A uma certa distância…Ouviu a boca dela murmurar uma palavra, mas continuava a desviar o olhar.


Ele aproximou-se mais. Ela barrou-lhe o caminho com o olhar. Ele deu um passo atrás, pronto para substituir o olhar certeiro. Ela disse: “Fica”.


Fora o olhar certeiro para o momento. Fora a palavra certa para o momento.


Ele tentou lançar mais olhares certeiros. Ela tentou exprimir mais palavras certas. Para cada momento. Para todos os momentos.


Cedo compreenderam que afinal não houvera olhar certeiro, nem palavra certa. De novo, tudo não passara de um momento que ilude. Seriam as pessoas e as suas vidas mais interessantes se fossem sempre verdade?

 

Sandra Pereira



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publicado por Fer.Ribeiro às 08:30
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Semana do Cravelho - 2

Assureiras de Baixo

 

Cambedo

 

Castelões

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:07
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

Semana do Cravelho - 1

Iniciamos hoje uma nova semana temática  - A semana do cravelho.

 

Em Sanjurge

 

É sem qualquer dúvida uma das peças mais usuais nas antigas portas do mundo rural, e não é só coisa nossa, cá da terrinha ou de Trás-os-Montes, mas uma peça que se repete por esse Portugal interior rural, mas também aqui ao lado na Galiza.



Em S.Cornélio


Cravelho, carabelho  ou ferrolho, é conhecido pelas três nomeadas. Pessoalmente, apresentaram-mo como ferrolho. Desde criança que o conheço por esse nome, no entanto,  desde há muito que também sei, que o ferrolho diz respeito ao fecho de ferro. Carabelho é talvez o termo mais popular pelo qual é conhecido em muitas das nossas aldeias, no entanto o termo correto é Cravelho, que deriva do latim clavicula «pequena chave». Mas seja qual for a nomeada, a função é a mesma, fechar as portas para que elas não fiquem escancaradas à entrada de um qualquer animal, apenas isso…


Em Stª Marinha


A par do cravelho, também com o sentido de guardar, proteger e dar sorte vê-se em muitas portas a ferradura. Dizem os que acreditam nestes talismãs que a ferradura simboliza a energia e a sorte e é utilizada precisamente para atrair energia positiva, a boa sorte e a fortuna. No entanto no meio rural é mais utilizado para proteger as casas, os que as habitam e os animais. Também são por vezes utilizadas nos estábulos para garante da boa saúde e fertilidade dos animais, mas, avisam os entendidos na coisa que a ferradura não pode ser uma qualquer, pois tem de ser de burro, senão não tem efeito.


Em Carregal


Trouxe aqui a ferradura pela curiosidade de se fecharem as portas com um simples cravelho que basta deslizar para a porta se abrir, sem qualquer chave ou outro artefacto  que impeça a sua abertura, pois a ferradura, está lá para proteger os  da casa da gente má – Entre quem vier por bem… Era com esta simplicidade de valores carregados de boa moral que se vivia no mundo rural. Hoje, pelo-sim-pelo-não, mais vale mesmo ter uma fechadura, e das boas.



Em Castelões


Pois ao longo desta semana irão passar por aqui alguns cravelhos, carabelhos ou ferrolhos, que fui recolhendo nas nossas aldeias,  mas também  vão ficar algumas das portas que os acolhem.



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publicado por Fer.Ribeiro às 23:27
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Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (22): enganos e desenganos

 

«Na verdade, quando considero qualquer sistema social do mundo moderno, não vejo neles, assim Deus me perdoe, senão uma conspiração dos ricos, para servirem o melhor possível os seus interesses, sob o pretexto de organizarem a sociedade. Procuram todos os tipos de habilidades e artimanhas, em primeiro lugar para manterem a salvo os seus lucros mal adquiridos e, em segundo lugar, para explorarem os pobres, pagando-lhes o menos possível pelo seu trabalho.»

 

Sabem quem escreveu isto? Não, não foi Karl Marx ou outro perigoso socialista do mesmo calibre. Foi Sir Tomás Morus (Thomas More) no seu livro “Utopia”, publicado, imaginem só, em 1516. O mundo, afinal, passados quase cinco séculos, continua o mesmo, um lugar pouco recomendável para gente boa, honesta e trabalhadora.

 

Desenganemo-nos! Os usurários e os ricos continuam idênticos e a utilizarem as mesmas receitas de sempre. E os seus lacaios também não enganam ninguém. Pedro Passos Coelho e os seus colegas de Governo continuam a ser os capatazes que fazem o trabalho sujo. 

 

O relatório terrorista do FMI afinal é um embuste. E dizemos que é um embuste porque, mesmo tendo a chancela dessa instituição capitalista, é, na prática, da autoria de 10 ministros e cinco secretários de Estado que colaboraram na sua elaboração.

 

Ou seja, o relatório é do Governo, sustentado, à falta de parceiro mais credível e menos agiota, pelo FMI. Por isso é que está eivado de orientações e preconceitos ideológicos contra o Estado, sobretudo contra o Estado Social, que o primeiro-ministro e o seu ministro das Finanças tanto detestam e pretendem destruir.

 

Mas a história já vem de longe e nem sequer é surpresa, pois todos estamos lembrados de Pedro Passos Coelho ter anunciado a famosa “refundação” do memorando, em Novembro, que mais não era do que a explicitação dos dados preliminares deste estudo, como agora se vê. E o mais curioso é que quando lemos o estudo do FMI, não encontramos nele nada que seja novo em relação à velha ideia de desmantelar o Estado Social ou condená-lo à morte.

 

Por detrás disto tudo está a velha tática de lançar o barro à parede para ver se pega. Apresenta-se o pior cenário possível para depois recuar um pouco para dar uma sensação de vitória à oposição. Ou seja, é uma estratégia de labregos para labregos. É a técnica dos vendedores de banha da cobra: começam por pedir um dinheirão pelos seus produtos para no final os deixarem por um preço razoável. Vivemos num tempo em que o valor das palavras se perdeu.

 

Paulo Portas veio, com a suas falinhas mansas de chefe dos escuteiros, dizer que “há sintomas de desalento e desânimo na sociedade portuguesa, que é preciso contrariar com sensibilidade”.

 

Ainda estava o homem a pronunciar estas palavras quando um senhor chamado Moedas, em direto na televisão, veio dizer, com um sorriso tolo estampado no rosto, que o relatório do FMI está “muito bem feito” e que teve o contributo do Governo. Foi o bastante para que os ânimos no PSD se incendiassem, tendo Carlos Carreiras, um autarca muito próximo do primeiro-ministro, pedido a demissão do tal senhor Moedas que, para mal dos nossos pecados, é secretário de Estado adjunto do PM.

 

Além disso, o famigerado relatório do Governo, com a chancela do FMI, é desonesto. Intencionalmente desonesto, o que é ainda mais grave. O ministro Mota Soares afirmou mesmo que parte de “pressupostos errados”. O reitor da Universidade de Lisboa, António Nóvoa, afirmou que os autores do documento utilizaram o que na universidade se ensina os alunos a não fazer: “Partir de um preconceito, de uma teoria, e depois mobilizar os números para a defender.”

 

Segundo o mesmo catedrático, os senhores que elaboraram o relatório do FMI “põem os dados que lhes interessam e quando isso não acontece não os citam e isso é inaceitável.” Mentiram sobre o valor das propinas, mentiram sobre a percentagem do produto interno bruto gasta na despesa com a educação, distorceram os níveis de literacia dos nossos jovens de 15 anos nos testes PISA, fizeram comparações ardilosas, outras incorretas e outras ainda completamente desfasadas da realidade atual. Mas não são apenas os dados da Educação que estão viciados e desatualizados, os da Saúde sofrem do mesmo mal.

 

No relatório tudo tem uma intenção: o de reduzir praticamente a zero a rede social do Estado. Pondo o povo português no dilema de morrer na forca ou atravessado pelo gume de uma espada. Ou, como disse Jerónimo de Sousa, tendo toda a liberdade para poder escolher a árvore onde vai ser enforcado.

 

Todo o documento está eivado de uma sanha ideológica contra os funcionários públicos, os desempregados, os reformados e os pensionistas. E convém também dizer a verdade toda: O Estado detém funções que exigem qualificações que o setor privado não pode fornecer, como são os casos dos militares, forças de segurança e magistrados.

 

No Estado laboram dos profissionais mais qualificados do país. Nos setores da Saúde e da Educação, abertos já à iniciativa privada, muitos dos profissionais que trabalham fora da Função Pública auferem ordenados muitas vezes semelhantes ou mesmo mais elevados do que os funcionários públicos. E todos sabemos que a escola pública e os hospitais públicos, salvo raras exceções, fornecem mais e melhores serviços do que os privados.

 

Mas o mais chocante disto tudo é que a proposta do Governo limita-se a apostar apenas numa via de sentido único: a do empobrecimento das pessoas e das famílias, a da falência da proteção social, reduzindo-a ao assistencialismo. Falta pouco para assistirmos ao regresso do jogo da canastra e do bodo aos pobres.

 

A divulgação do relatório do FMI serviu apenas uma estratégia: a do terrorismo social. Primeiro incute-se medo, muito medo, porque tudo é passível de acontecer: reduzir reformas, aumentar os despedimentos na função pública, diminuir o subsídio de desemprego, cortar ainda mais nos vencimentos, aumentar ainda mais as taxas moderadoras para níveis incomportáveis para a maioria dos portugueses e, para terminar, a bomba de neutrões, o despedimento de uma assentada de 50 mil professores. Depois tenta-se dourar a pílula, aliviando aqui e ali a carga. Mas pouco para não nos habituarmos mal.

 

Para não parecer desonesto de todo, o Governo de Pedro Passos Coelho veio com a ficção política de querer dialogar com os parceiros sociais e os partidos políticos da oposição, nomeadamente o Partido Socialista, que distingue como um “partido do arco da governação”. Afirma que pretende debater as funções do Estado e a sua reforma. Mas tudo isso é fogo de vista. O governo do PSD/CDS apenas deseja cortar a torto e a direito na despesa do Estado cerca de 4 mil milhões de euros, que foi o montante que negociou com a troika na sequência da quinta avaliação da derrapagem orçamental de 2012.

 

Mas uma pergunta se impõe: Porquê 4 mil milhões e não cinco ou seis mil milhões, ou outra quantia qualquer? Como chegou o Governo a este número sagrado? Este é um mistério insondável que nem Pedro Passos Coelho, nem Vítor Gaspar, nem o PSD nem o CDS, e muito menos o FMI, se deram ao trabalho de esclarecer.

 

Pedro Passos Coelho disse para quem o quis ouvir que o relatório do FMI não é a Bíblia do Governo. Talvez não seja a Bíblia, mas é bem possível que seja o seu Alcorão. Os fundamentalistas têm destas obstinações.

 

João Madureira

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

O Comércio

 

um conto de José Carlos Barros

 

(conclusão)

 

[14. João Ventura]

 

A chegada de Carmen foi de tal modo importante que já nem lhe sei dizer, assim à distância, se foi ela, a emigração, a televisão ou a guerra colonial o que mais transformou a Vila nos últimos anos até a deixar irreconhecível. Não falo dos camiões a descarregar vigas de cimento e perfis de alumínio e dos edifícios pacóvios ou dos loteamentos que avançaram contra os muros antigos das propriedades e as árvores de fruto. Não falo do ostensivo abandono da terra. Não falo da descoberta dos empréstimos bancários como modo de vida. Falo de algo mais profundo que parece ter começado a ruir a partir desse dia em que o doutor Magalhães abriu as portas a uma rapariga supostamente muito jovem e, assim o espero, deslumbrante. Porque, por esse tempo, a beleza era um crime. Carmen, que só muito raramente se deixou ver a atravessar a varanda ou no canto do pátio onde cresce a sempre-noiva, não permitiu nunca que alguém pudesse adivinhar-lhe o rosto escondido por um lenço, descaído até aos ombros, nem o desenho do corpo, diluído por entre roupas negras e largas. Repare como, de um modo geral, é ponto assente a pouca beleza da moça. Assim o fizeram correr as guardiãs da moral, as defensoras dos costumes, os paladinos das virtudes antigas. Carmen atravessara a fronteira. E a fronteira foi sempre uma vil e insinuante sombra derramada sobre os telhados da Vila. Era do outro lado da raia que chegavam os perigos ou a ameaça. Ou o que se desconhece. Foi por aí que chegaram os sete mil e quinhentos soldados de Napoleão que dormiram na Vila e seguiram caras ao Porto deixando atrás de si um rasto de medo e destruição. Foi por aí que chegaram homens e mulheres fugidos à ignomínia de Franco. Mesmo quando o futuro é que estava em jogo, e atravessar a fronteira significava fugir à desgraça, era ainda o choro de quem ficava que marcava os desígnios dessa esperança. Com a chegada de Carmen, como vê, tudo mudou. Desmoronou-se, sobretudo, o castelo impenetrável da moral. Ou, enfim, estilhaçou ligeiramente. A Vila, e só por isso já seria importante você ter começado por aqui com perguntas, voltou a acreditar nas palavras do Vasco. E começou a acreditar que a rapariga, afinal, talvez até pudesse ser deslumbrante. E que da beleza não vem propriamente mal nenhum ao mundo.  Não é um crime. O que significa que, num certo sentido, a Vila pode voltar a acreditar em si mesma. Só é preciso que este mistério, contra as suas indagações e a má-língua do mundo, verdadeiramente permaneça.

 

 

[15. Doutor]

 

O Sousa garante-me que posso confiar na sua discrição. Pois bem. Esclareçamos de vez este mistério. Sente-se, a conversa será longa. Uma parte da história já você conhece. Numa noite chuvosa de mil novecentos e sessenta e sete, depois de ter atravessado a fronteira e correr caminhos de montanha quase desertos, Carmen, cansada e incógnita, chegou à Vila. Como terá oportunidade de ver, e apesar dos seus quase quarenta anos, é duma beleza perturbante. Tínhamos combinado que. Quer dizer: nós tínhamos sido apresentados por. Mas vamos por partes. Vasco, completamente bêbado, regressa a casa e encontra-a deitada no chão. Inconsciente. Nem sei como conseguiu trazê-la nos braços e mantê-la erguida à entrada da porta. Eu estava a dormir, não terei acordado logo. Foi então que. Mas sente-se. A conversa, como lhe digo, será longa.

 

José Carlos Barros

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:08
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Domingo, 27 de Janeiro de 2013

Semana do S.Sebastião da Vila Grande - Couto de Dornelas - 7

Para rematar a Semana das festas comunitárias do S.Sebastião da Vila Grande no Couto de Dornelas, ficam os olhares de António Tedim.

 

António Tedim é um fotógrafo amador natural da Maia, membro da Portografia – Associação Fotográfica do Porto,   e da fotografia diz apenas ser um apaixonado. Paixão que já o levou a ser premiado dezenas de vezes em Portugal, Espanha, França e Alemanha.

 

Aos amantes de fotografia, recomendo ter o António Tedim debaixo de olho, cujo trabalho poderá ir sendo visto no seu blog:


http://www.antoniotedim.blogspot.pt/

 

Ou no facebook:


https://www.facebook.com/antonio.tedim.7

 

Retomando uma antiga colaboração, a partir da próxima quarta-feira António Tedim marcará também presença assídua neste blog Chaves com uma imagem semanal.






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publicado por Fer.Ribeiro às 12:30
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Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

 

 

O Comércio

 

um conto de José Carlos Barros

 

 

(continuação. terceira parte)

 

[12. Sousa]

 

Pois como te hei-de dizer. O Magalhães nunca tocou no assunto. Não ia insistir. Só te posso dizer que a Carmen é de uma beleza perturbante. Não me admiro que o Vasco se não recomponha da visão daquela noite antiga em que a diz ter encontrado desfalecida no meio da rua. Ele é um romântico, já deves saber. Pois acontece que a Carmen, inexplicavelmente, não aparece à janela ou à varanda senão a esconder o rosto e vestida de negro da cabeça aos pés. Riem-se quando o Vasco a descreve. Como é que ele diz? Deslumbrante. As pessoas riem-se. Pois desculpar-me-ás, o assunto é delicado. Bem vês, o próprio Magalhães foi cauteloso quando falou contigo. Calculo que também não tenha tocado em nada que respeite ao passado político. É um homem magoado. Lutámos juntos, conspirámos, arriscámos, tínhamos ideais. Não gosto de dizer ideais porque a palavra remete para a abstracção das utopias. O que nos movia eram coisas muito concretas. A injustiça, a arbitrariedade, a desumanidade disfarçada por uma capa filha da puta de bons sentimentos. Era tudo gentinha excelente. Praticava actos de caridade, rezava a Deus pela saúde dos pobres. Não é que tivéssemos ideais, portanto. Lutávamos por coisas concretas e sabíamos que não haveríamos de mudar o mundo. Nem queríamos mudar o mundo: esperávamos apenas conseguir mexer um cibo nos seus eixos. E incomodávamos. Isso é certo. Mas agora já tudo parece estranho, ridículo. A sacristia venceu-nos. E as pessoas esquecem. Sobretudo o que não chegaram nunca a aprender. O fascismo, por aqui, foi sobretudo silêncio. Não era nada de propriamente palpável, material. Era apenas silêncio. A guerra colonial era um pano muito largo de silêncio quando não era exaltação dos valores pátrios. A emigração era silêncio. A iniquidade era silêncio. A injustiça era silêncio. Fodeu-se tudo em deixa-andar. E quando se foi a ver já nem havia jovens e ficaram apenas os velhos como restos do rame-rame. Repara: até o grupo de futebol acabou. E o doutor Magalhães, claro, sempre incompreendido e a ficar do lado dos vencidos da vida. Porque nada mudou entretanto. O grande sonho desta gente toda passou a ser varrer para debaixo da mesa as migalhas da ruralidade como quem se livra de um incómodo ou de uma vergonha. O sonho passou a ser o comércio e o terciário: abrir um café ou arranjar um emprego nas finanças. E ter uma conta no banco e ter direito a crédito. Um dia esta merda vai dar um estouro que nem uma castanha. Mas ninguém liga. E o doutor desistiu. Com fama de empedernido, insensível, espalha-brasas. Já imaginas o quanto lhe custará falar destas fronteiras mesquinhas que o separam de um povo que tanto julgou amar e por quem se dispôs a arriscar tudo.

 

 

[13. Vasco]

 

É isso, depois de tantos anos, que procuro. O voo dos pássaros no princípio da manhã, os bois sonolentos atravessando a ponte do moinho do Cubo, a avenida de plátanos e seus muros de pedra solta, mulheres regressando à Vila com maçãs e nozes. Procuro o que não existe. A mata de carvalhos a meio do Padrão, as cobras d água caçando peixes nos remansos de Requeixe, as flores d Abril dos negrilhos, os amentilhos dos amieiros debruçados sobre os leitos estreitos dos rios. Como podemos viver tanto tempo com este peso insustentável das ausências. Pergunto. Ninguém responde. Procuro o vinho enterrado nas adegas frescas de saibro e paredes de granito, o choro e o riso, as feiras antes do plástico, os ourives de filigrana, os comerciantes de fazenda e os seus jogos simples de esconder e mostrar. Procuro as raparigas impacientes a galgar os atalhos com roupas novas, o salgueiro na curva da ribeira do Fontão e do mundo. Procuro, portanto, o que não existe nos intervalos de procurar o sinal ou o símbolo de tudo o que se perdeu. Alguém me segreda o nome de Carmen? Por sobre as pedras e a urze, por sobre o alecrim e o odor antigo da terra quando começa a chover, eis que chegam as máquinas e o comércio atravessando campos de cultivo, hortas e lugares. Por sobre as linhas do cadastro, como num movimento em falso, ergue o silêncio muros de cimento, nomes de traição. Chama-se Carmen, assim o dizem. Assim mo dizem a mim, eu que pela primeira vez, deslumbrante, a ergui nos braços contra a chuva e a sombra e contra o que ameaçadoramente regressa com a noite. Ou se perde com a noite. Não tenho lugar nem palavras para esse refúgio. Desde então, simplesmente, a procuro como se a procurasse em mim, em alguma parte de mim, eu que procuro apenas o que não existe. E por isso, em rigor, Carmen, assim se chama, não existe. Ela que, deslumbrante, ficou em casa do facultativo para assistir ao fim de todas as coisas. E para dar um nome a tudo quanto se perdeu. Às romarias, ao acordeon, à avoadinha e aos campos de poila, à banda de música no coreto de madeira, a quanto participa da invenção do mundo. Carmen. A que regressa do outro lado da fronteira para morrer sem rosto e sem nome, indecifrável, e sem fronteiras, do outro lado do mundo.

 

(conclui amanhã)


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Agrações - Chaves - Portugal

 

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Sábado, 26 de Janeiro de 2013

Semana do S.Sebastião da Vila Grande - Couto de Dornelas - 6

Vamos a mais três olhares sobre a festa comunitária do S.Sebastião, na Vila Grande do Couto de Dornelas. Hoje os olhares de João Madureira, fotógrafo associado Lumbudus, professor, escritor, poeta, cidadão. Autor do blog Terçolho (http://jmadureira.blogs.sapo.pt/ ) tem galeria fotográfica no Reflexos: 

http://www.reflexosonline.com/reflexos.php?gp_utilizador=10936


e no Podium Foto:

http://joaomadureira.podiumfoto.com/,


no Facebook pode ser encontrado aqui: https://www.facebook.com/joao.madureiraii?group_id=

 

João Madureira é também colaborador do Blog Chaves com duas rúbricas, uma às segundas-feiras – “Quem conta um ponto …” e outras às quintas-feiras – “O homem sem memória”

 

 

 

Ficam as imagens:

 

 

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 15:00
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Pecados e Picardias

 

Pecados e picardias

 

vejo

Vejo a última terra na vala dos sonhos

Sinto no grito mudo nascer a dor da alma,

Sorrisos ténues espalhados nos escombros

Aguardam  os lábios  vermelhos que os salva

 

Vejo também trincheiras no teu olhar distante

Nesse horizonte perdido na luz do luar

Onde renasces sem hora a cada instante

Já sem medos , livre, determinado a lutar

 

Vejo  lábios beijar  sorrisos sérios

Antes oprimidos nos seus mistérios

Vejo a criança de cravo vermelho na mão

 

Vejo : sonhos, trincheiras, sepulcros de solidão,

Vida, no horizonte do luar liberdade,

  Legislar para todos  solidariedade.

 

Isabel  Seixas



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publicado por Fer.Ribeiro às 14:57
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Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros - Continuação

 


 

O Comércio

 

 

 

um conto de José Carlos Barros


(continuação)

 

 

7. [Acúrsio]

 

Sim, trabalhei por lá uns seis ou sete meses. Foi há tanto tempo, já correu tanta água nos rigueiros da serra. Seja como for. Podia contar-lhe coisas terríveis. Como tratava a desgraçada da esposa, por exemplo. Bem, sim, não foi coisa que tivesse visto. Dizia-se, sabia-se. E das raparigas que lá iam para isso, claro, falava-se à boca pequena. Eu mesmo me recordo de uma moça que chegou aí a coberto da noite e do segredo que envolveu a casa. Eles fechados no consultório e a dona Maria escondida no quarto a rezar pela salvação do mundo. Era o que se dizia. Aqui houve dois ou três casos, mas as raparigas deixavam-nos vir. Quem não tivesse posses ou um bom amparo. Isto é como tudo.

 

 

[8. Custódio]

 

As pessoas, na Vila, perderam a memória. O que é normal. Não há memória individual que sobreviva à amnésia colectiva. À Vila foram chegando pessoas de vários lugares e por diferentes razões. Para trabalhar nas finanças ou na caixa, chefiar o posto da guarda ou montar um negócio de reclame luminoso por cima da vitrina larga. Não tinham por aqui raízes fundas. Quanto aos outros, os que tinham raízes, foram aos poucos procurando livrar-se delas como quem se livra de um incómodo. Até absolutamente nada distinguir uns e outros. Por isso mesmo encontrará agora toda esta gente tão babada com os partidos de Lisboa, por exemplo. E tão distantes do que verdadeiramente lhes pertencia ou podia pertencer-lhes. Procure-os no reservado do café bebendo vinho branco de marca a acompanhar pratinhos de cigalas. São poucos os resistentes. Procuram, nostálgicos, o que não existe. E também eles já começam a comer cigalas e também eles começam a nem procurar. E apenas se embebedam e fazem filhos que depois desaparecem daqui para longes terras ou arranjam um emprego na conservatória ou na secretaria da câmara. Agora as fronteiras. Sei lá se as fronteiras existiam, sei lá se as fronteiras existiram. Hoje sei que não existem. Nem as verdadeiras nem as outras. As simbólicas. Desde logo porque somos todos iguais e as fronteiras marcam lugares de diferenças. Vamos todos perdendo a memória e vamo-nos todos perdendo por dentro de nós mesmos como se já nem pudéssemos encontrar-nos num livro de regressos. Olhe-me essa gente do reservado do café a comer marisco congelado e a beber vinho de marca depois de ter vendido as vinhas. Se não estou a exagerar? Sim. O mais certo é que esteja a exagerar e que entre mim e o mundo se tenha já erguido uma inultapassável barreira de gelo e incompreensão.

 

 

[9. Mário]

 

A raia sempre foi um lugar mágico e recorrente. Um lugar de refúgio e protecção. Um lugar de sonho. Para procurar o amor ou fugir ao fascismo ou simplesmente à desgraça a que o mundo rural votou fervorosamente os seus filhos. A raia sempre foi um lugar por onde se transportaram ilusões difusas. Um lugar virado ao sonho mas também um lugar de desgraças. Por ali fugiram tantos emigantes não se sabe de quê. Alguns morreram ou desapareceram entre o comércio de passadores sem escrúpulos e esses caminhos que lhes eram estranhos. Mas agora me interrogo. Onde quererá você chegar com estas conversas sobre a raia? Acha que isso atrasa ou adianta à história do Vasco e da galega que se amantizou com o doutor?

 

 

[10. Pedro Mendes]

 

Não acredite na teoria dos acasos. Carmen veio parar aqui por razões políticas. Para isso serviu a fronteira tantas vezes. Podia contar-lhe muitos casos. Desde a guerra civil. Mas também depois, e então sobretudo em sentido inverso. Agora essa história dos desmanchos e da boa-vai-ela por terras de Espanha. Trocaram-lhe as voltas à narrativa. O doutor Magalhães nunca se alheou da política. Certamente que, por razões políticas, a protegeu. Como acreditar que é ao calhas que alguém vem parar a um sítio destes? Já havia história. Só podia haver. Claro que é isso que corre. Que um acaso a levou a casa do doutor. O acaso de mais uma tosga do Vasco. A encontrar uma rapariga deslumbrante, desfalecida, no meio da rua, às duas ou três da manhã. Ou talvez não. Digo eu. O certo é que o próprio destino tem os seus quês quanto a uma coisa ser consequência de outra como se não pudesse ser de outro modo. Que sabemos nós? Fale com o Sousa. O Sousa acompanhava-o nessas andanças. Verá como a história é diferente da versão de vão de escada que lhe contaram. Não quer dizer, enfim, que não houvesse muito vinho e espanholas de salero fácil à mistura. Lá de quando em vez. Mas eram outras as razões essenciais que os moviam. Nas casas de ambos dormiu muito fugido ao fascismo. Repare como a palavra já parece estranha. Soletre devagar. Fas-cis-mo. Esquecemos tão depressa. E depois essas tretas da mulher do médico. Uma beata de fundo de sacristia feita com o padre e as guardiãs da moral. Posso indicar-lhas a dedo, uma a uma, ainda. Todas juntas não fazem uma. A lançarem boatos desses. Nunca compreenderam, não podiam compreender. Acontece que o facultativo. É curioso. O Vasco diz sempre facultativo. O doutor deve ter deixado correr o boato dos desmanchos. A história acabava por lhe ser favorável. Justificava as movimentações estranhas a meio da noite, por exemplo. Esta é que é a verdade. Fale com o Sousa, o doutor pouco lhe haverá de adiantar. Ou nada. Ficou seco. Desiludido com o rumo que as coisas tomaram, com o rumo que as coisas tomavam. Mesmo em setenta e quatro, enfim. A verdade, de qualquer modo, é que Carmen nunca saiu de casa, não permitiu nunca que ninguém lhe visse o rosto por inteiro. Que pretende ocultar, ou revelar, com este mistério? Ninguém sabe. Penso que ninguém virá a saber. Nem você. Há sempre qualquer coisa que se não desvenda nunca, não acha? Um segredo, um mistério, o avesso de uma evidência permanecem para além do que sabemos e para além de todas as indagações.

 

 

[11. Júlio France]

 

Lembro-me de quando rapavam fome e não tinham uma leira e não amanhavam emprego. Nessa altura eu não era ainda o passador sem escrúpulos mas a tábua de salvação no meio da tormenta. Davam-me prendas, prometiam favores, convidavam-me para apadrinhar os rapazes e dar-lhes o nome. Empenhavam-se, é certo. Mas essas casas que vê agora a erguer-se com telhados suíços, esses carros lustrosos em que regressam, esse nariz erguido a pedir rodadas de grades, é a mim, e a outros como eu, que devem. Porque também nós arriscávamos o futuro. O nosso e o dos nossos. O mesmo com o contrabando, não lhe escondo que fiz muito. Contrabandeávamos as coisas mais incríveis, até enxadas e foices. Mantas e calçado, café e tabaco, cacau e perfumes baratos. E por isso, você não é desse tempo, as raparigas, nos bailes, nas festas, nas bodas, cheiravam todas ao mesmo perfume. Certa vez a minha mulher andou quase três horas em redor da capela de S. Caetano com um saco de contrabando à cabeça. Como se fosse o centeio de uma promessa grande. Eu andava seguido. E então com a guarda republicana a espreitar de um lado e os negociantes a espreitar do outro. Duma outra vez, em princípios de vida, impingiram-me uma remessa de sapatos todos do mesmo pé. O que passei para os vender, na feira da Vila, nos largos das aldeias, com artes e maroscas que só eu sei. Agora, eu que fui preso, que andei fugido pelos atalhos dos montes, sou corrido de passador sem escrúpulos. Por esses mesmos que livrei da desgraça dos trabalhos do campo. Por esses que vê de porta aberta no comércio, de espadinha com cromados puxados a parafina, de casa forrada de azulejos, de esposa no cabeleireiro duas vezes à semana a fazer mises.

 

 

(continua amanhã)



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publicado por Fer.Ribeiro às 01:03
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