Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Pedra de Toque

 

Sem ti

 

Não percebo nem aceito o teu desaparecimento súbito.


Pareceu-me um milagre que em vez de benesse, carreou tristeza.


Interrogo-me, questiono-me mas não vislumbro explicação.


A tua tez pálida de branca, a tua boca contrastantemente rubra, o teu sorriso que se adivinhava radioso quando a abrias,


Continuam uma obsessão!...


A tua pele ficou e permanece colada aos meus dedos.


Não me canso da tua imagem embrulhada na música que tocas e que nunca ouvi.


Os teus sonhos permanecem agitados dentro de mim.


E quando a noite era desejada e a ansiedade indescritível já feria, chegou o eclipse sombrio.


Sem mais deixaste-me, após uma breve troca de mensagens, agarrado à saudade.


Não sei teu paradeiro.


Não sei se ficaste com alguma coisa dos nossos momentos.


Adorava desvendar os mistérios que povoam tua cabeça e o que estremece bem fundo no centro do teu peito.


Nunca deixei de te ver espelhada nas águas do meu rio.


Creio que também.


Sinto-te ainda quando lanço o meu olhar baço às montanhas distantes.


Gostava que me ouvisses na escuridão do quarto onde te espero.


Que sentisses o meu amor que sobrevive na ternura dos lençóis em que te envolves.

 

Eu vou-me quedando, triste,


Por vezes, momentaneamente feliz,


E dolorosamente, SEM TI!...

 

 

António Roque



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publicado por Fer.Ribeiro às 03:51
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Segunda-feira, 29 de Abril de 2013

Quem conta um ponto...

 


Pérolas e diamantes (35): contemplações e algumas deduções

 

 

Foi num fim de semana que finalmente descobri a destrui… desculpem, a transformação do Jardim das Freiras numa praça rasa com um tanque ao fundo. Afinal o seu destino, ou melhor, a sua função, é converter-se num terreiro militar, numa montra de propaganda das nossas forças militares.

 

Em vez de passearmos em redor dos canteiros de flores, vimo-nos, eu e a Luzia, a deambular entre provectas viaturas do exército português, metralhadoras e pistolas com aspeto de serem já do tempo da primeira guerra mundial. Também contemplámos G3 do período da guerra colonial. Ai que saudades!

 

Observámos ainda pais babados a fotografar os seus filhotes alindados com capacetes militares ao volante de carros de assalto blindados. Foi enternecedor observar crianças a brincarem às guerras, os militares a fazerem de animadores culturais e os pais a servirem de repórteres fotográficos, como se estivessem no Afeganistão dos Pequeninos. Uma lágrima rebelde esteve mesmo para me correr pela face abaixo, mas eu, para não dar parte de fraco, consegui aguentá-la. Porra, um homem não chora.

 

Mas não era disto que hoje vos queria falar, mas sim de mais uma apresentação (acho que já vamos na sétima ou oitava) de António Cabeleira como candidato à Câmara de Chaves. Desta vez veio a terreiro afirmar que é o “candidato da verdade”. Mas era escusado, porque no senhor candidato isso é uma redundância. Todos o sabemos.

 

Desta vez veio comunicar que o seu lema é “Todos por Chaves”. O que quer dizer que também me inclui a mim na sua ideia, no seu lema e na sua vontade. Desde já lho agradeço. Mas tenho de lhe pedir desculpas, pois não consigo acompanhá-lo nem na vontade, nem na verdade, nem no lema. Não consigo, não é porque não queira. É mesmo por manifesta incapacidade para o seguir em tão difícil desiderato. Neste caso, desculpe-me senhor candidato, serão “Todos por Chaves”, menos um. No entanto, desejo-lhe as maiores felicidades.

 

Igualmente afirmou que pretende “unir a família social-democrata”. Então ela está desunida? Má notícia nos transmite. Mas acho que exagera. Nós não acreditamos. Que eu saiba ela está mais unida do que nunca. E, como todos sabemos, o povo unido jamais será vencido.

 

Promete ainda “fazer o melhor possível pelos flavienses”. Disso ninguém duvida. Os doze anos de gestão autárquica do PSD são disso a melhor prova: o centro da cidade é hoje um espaço privilegiado de comércio e turismo, a população residente aumentou significativamente, o nosso tecido industrial amplificou-se como nunca. E até já temos uma fábrica de pastéis de nata no imenso complexo construído em Outeiro Seco. E, como se isto fosse pouco, o Hospital de Chaves aumentou as suas valências, o Tribunal ganhou um estatuto de dignidade que a todos enche de orgulho e o Ensino Superior vai ser substancialmente ampliado, pois a UTAD está a pensar seriamente em transferir os seus melhores cursos para Chaves.

 

Além disso, o senhor candidato é um estratega experimentado, sagaz e audacioso. Ora vamos lá às evidências. António Cabeleira, passa de segundo na lista da Câmara a primeiro. João Batista, atual presidente, passa a candidato a presidente da Assembleia Municipal e António Vicente, o atual presidente da AM, passa para 14º na lista da candidatura do PSD. Basta este pormenor para nos apercebermos que quem mexe assim nas listas, é um jogador de xadrez espantoso.

 

Do resto das suas promessas nem é bom falar, pois elas são tão boas, tão atuais e inéditas, que encheríamos páginas e páginas de jornais e mesmo assim, estamos em crer, não conseguiríamos dar-vos nem sequer uma pálida imagem da sua pertinência e profundidade. 

 

Sobre o combate político, AC limitou-se a criticar o PS por ter levantado “suspeitas sem qualquer sentido” em relação à dívida da Câmara, que para o PSD é de 40 milhões e para o PS é de 50 milhões. A nós, seja qual for a cifra parece-nos uma cratera do tamanho das que a chuva provocou em Marvão. A verdade é que o PS de Paula Barros não veio ainda a público apresentar os seus números. Ao que nos disseram, o “aparelho” partidário anda entretido a compor as listas autárquicas. Pelos vistos não consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

 

Chegou-nos aos ouvidos que foi constituído em Chaves o “Movimento Autárquico Independente”, mas deve ser boato, pois se nem o PSD nem o PS dizem nada é porque não existe. Nós até vimos um cartaz na sua sede. Mas pode tratar-se apenas de uma alucinação. João Neves não era capaz de fazer uma desfeita dessas aos partidos do sistema.

 

 João Madureira

 

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Domingo, 28 de Abril de 2013

Desportivo de Chaves regressa à II Liga - As imagens são de Bustelo

 

As imagens são de Bustelo mas a notícia fresquinha é a do Desportivo de Chaves  regressar à II Liga Portuguesa de Futebol ao vencer hoje o 2º classificado, o Ribeirão, por 1-0. Está de parabéns o nosso Desportivo de Chaves.




E agora as imagens, sem grandes comentários para além da informação de serem imagens de Bustelo. Quanto a história de cada uma, pois pela certa que todas as imagens têm uma história para contar, fica ao vosso critério, ao critério da vossa imaginação, das vossas recordações ou até saudades, não o sei, ficam com toda a liberdade do mundo para verem nelas o que cada um quiser.




E mais nada por hoje. Amanhã estaremos de regresso à cidade que se tem mostrado iluminada de sol, mas com um frio de rachar.



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publicado por Fer.Ribeiro às 19:31
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Sábado, 27 de Abril de 2013

Pecados e Picardias

 

Pecados e picardias

 

Apeemo-nos no sonho … Abril e Maio

 

Sonho de Abril, apeemo-nos sem condição,

Ensombre o abatimento da esperança  

do  futuro,  que foge  por temer a solidão,

sintamos evitável  esmorecer a lembrança

 

Apeemo-nos no sonho!... Lutador de Maio.

Adormeçam os remorsos do  nosso futuro

Proíba-se  transformar  o  homem em  lacaio

 Derrubando o medo de saltar esse muro

 

Abasteçamos  as reservas de liberdade

Como os sinos replicam  mortos de saudade

Para  acordar do silêncio  almas lentas

Apeemo-nos no sonho , conquistas sedentas

 

Para  que  Abril continue em Maio

Demos as mãos,  juntos, apeemo-nos no sonho…

 

Isabel Seixas



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publicado por Fer.Ribeiro às 22:51
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Soutelinho da Raia - Chaves - Portugal

 

Como o tempo não tem andado de feição para grandes reportagens nas nossas aldeias, vamo-nos valendo do nosso arquivo para trazer aqui imagens do nosso mundo rural e, felizmente que há aldeias como a de Soutelinho da Raia onde há sempre uma imagem para trazer aqui e, é com gosto que o faço, pois Soutelinho é uma das poucas aldeias que ainda mantém a sua virgindade de aldeia tradicional transmontana, onde se tem reconstruído com gosto e onde felizmente há poucos atentados à sua dignidade. Claro que também sofre do envelhecimento e de despovoamento, aqui não é exceção, mas, embora com muito casario abandonado e em mau estado, é preferível vê-lo assim, pois sempre há a esperança de que melhores dias virão para uma boa recuperação, do que vê-lo transformado numa modernice pirosa que em nada dignificam as nossas aldeias. Claro que as modernices também devem ter lugar nas aldeias, mas em lugar próprio, fora do seu núcleo.



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publicado por Fer.Ribeiro às 04:28
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Sexta-feira, 26 de Abril de 2013

Largo da Madalena

 

 

LARGO DA MADALENA


Secou na praça o fontenário romântico

o silêncio da água fechou a tarde

num aroma de musgo e limo verde.

Apenas se ouve o pânico

de um corvo rouco

poisado na boca aberta

de um santo barroco

do frontão da igreja

escura e deserta.

E o corvo grasna assim seja.

O resto é o ruído da sombra dos muros nus à roda

tece-lhes o tempo o perfil no chão o puro atrito

do eco agudo de um grito

devolvido à nossa boca muda

pelo gosto salgado do granito.

 

Fernão de Magalhães Gonçalves, Andamento, Coimbra : 1984.

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:04
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Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

25 de Abril

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 19:20
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O Homem Sem Memória - 150

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção


150 – Como se os textos não chegassem para a confusão, o acompanhamento musical proposto veio ainda deitar mais achas para a fogueira. Cada sensibilidade partidária, se assim se lhe pode chamar, propunha apenas as canções dos bardos ligados à sua fação política. Nenhuma foi aprovada à primeira. Se um elemento propunha uma canção, por exemplo, do Luís Cília, logo alguém mais ligado à extrema-esquerda argumentava que esse tal de Luís era revisionista, ou social-fascista, quando não as duas coisas ao mesmo tempo. Os membros ligados ao PS não se atreviam a tanto, rejeitavam-no porque as suas canções eram muito chatas e, sobretudo, muito mal cantadas. Numa coisa todos concordaram, com a abstenção compreensível dos membros ligados ao Partido Comunista, o Luís Cília desafinava muito.


Alguém se lembrou do José Barata Moura, mas os desalinhados rejeitaram-no porque, diziam, era muito conotado com as canções dedicadas às crianças. Os mais avisados argumentaram em seu favor que, mesmo assim, quem soubesse ler nas entrelinhas facilmente se apercebia que por detrás das letras aparentemente infantis, encontravam-se mensagens muito adultas. E musicalmente era muito bom.


Os mais basistas contrapuseram que o povo a quem era destinada a peça de teatro não tinha cultura para se aperceber das mensagens encobertas e que se estava a borrifar para a qualidade da música. O povo, lembraram os mais comprometidos com a revolução a todo o custo, detestava a música, classificada pela burguesia, de qualidade. Quanto mais qualidade, menos adesão e por isso menos revolução. E o que atualmente interessava era esclarecer o povo, trazê-lo para o lado da revolução, não hostilizá-lo com merdas pseudorrevolucionárias dos intelectuais pequeno-burgueses, que provocavam a raiva e a ira de quem era pobre e simples.


Aparentemente todos estavam de acordo em que o mais importante era produzir um espetáculo para as massas, para as esclarecer e para as colocar do lado da revolução. Mas já divergiam no nível de qualidade, ou na falta dela, que tinham de dar ao espetáculo. Alguns recusavam-se mesmo a nivelar por baixo o texto – como se isso fosse possível – e a deitar borda fora a boa música e os bons textos de intervenção.


Enquanto os mais basistas defendiam que eram os intelectuais que tinham de descer ao nível do povo, os mais distintos afirmavam que essa ideia era a modos que fascista, pois o povo tem, para que a revolução triunfe, de se cultivar e aprender a apreciar e a desfrutar da verdadeira cultura.


Outros havia, como sempre os houve e haverá, que defendiam que era no meio que estava a virtude. Que o povo, para seu bem e para a sua emancipação, tinha de se elevar um bocadinho, e os intelectuais, também para seu proveito e aceitação, tinham de descer um pouco do seu pedestal e aproximarem-se mais do povo. Porque a cultura sem o povo não presta e o povo sem a cultura também não é lá grande coisa. A melhor solução era unirem esforços e prosseguirem juntos pela mesma senda do progresso e do futuro. A aliança entre os intelectuais tinha de ser feita. Por isso tornava-se necessário escolher bons textos, que fossem ao mesmo tempo de qualidade e simples, bem assim como as canções que também tinham de aliar a simplicidade com a qualidade. Alguém lembrou Fernando Tordo ou Paulo de Carvalho ou Carlos Mendes. Mas a grande maioria levantou a sua voz num coro de protestos tal que se fez ouvir no outro lado da rua. Alarido que teve o condão de ocasionar que vários dos amantes do copo e do petisco, que se encontravam na tasca já nossa conhecida, avisassem o dono da taberna de que se preparasse para trabalhar porquanto a malta do teatro estava para chegar. Alguém discordou da designação, pois, na sua opinião, a malta dos “Canários” era muito mais da política do que do teatro. O teatro para eles era um pretexto para a política. Não sabemos se por causa das avisadas palavras deste último parlante amante da pinga, ou se motivado pela boa notícia de que a passarada das artes cénicas e dramáticas estava para chegar, o taberneiro serviu uma rodada a todos os presentes, junto com o seguinte aviso: “Porque estou de bom humor, esta é por conta da casa, mas é bom que não vos habitueis, porque a vida está cada vez mais difícil. Estamos todos metidos numa grande crise.” Ao que o bêbado mais esclarecido do grupo contrapôs com toda a razão: “Os ricos que a paguem, pois apenas eles é que têm dinheiro. Nós nem para o copo amealhamos.”


E os “Canários” em bando chegaram. Em bando comeram e beberam. E em bando se foram porta fora para mais uma discussão de onde, forçosamente, tinha de surgir a luz. A claridade da reconciliação.


Mas não foi fácil. Rejeitados os cantores festivaleiros, mesmo que comunistas, da fação pró-soviética, alguém se lembrou de sugerir José Mário Branco. O clamor foi igualmente grande, pois os elementos do PC levaram-se dos diabos. Para os revisionistas, o esquerdista era inegociável. Entravam as canções dele e os punhalistas, que constituíam a maioria, se contarmos os independentes por si controlados, iam-se embora, inviabilizando o espetáculo. Falou-se de Francisco Fanhais e a cena repetiu-se. “Esquerdista e ainda por cima padre, era o que mais faltava”, indignaram-se de novo os punhalistas. Alguém se lembrou do José Jorge Letria, mas a maior parte não lhe reconheceu a suficiente qualidade revolucionária. Alguém lembrou, de novo, que para a peça só podiam ser escolhidos cantores de intervenção. “E o Carlos do Carmo?” “Quem?” “O Capachinho Vermelho!” “Esse só canta fado. E o fado é reacionário.” “Nem todo. O «Povo que lavas no rio» é uma grande canção de intervenção…” Novo brado na sala.


Na taberna ao lado, novamente se levantou o moral aos mais resistentes do copo e da noite: “Ó senhor Crispim, vá-se preparando que a rapaziada do teatro vem aí de novo.”


Alguém voltou a discordar da designação, pois, na sua opinião, “a malta dos Canários era muito mais ligada à política, que é uma porca… do que ao teatro, que é uma puta, ou... o teatro é um pretexto para a porca… o que  eles todos querem com todas estas macacadas sei-o eu bem…” e compôs um gesto feio e obsceno na direção da porta.


O taberneiro, para que o bêbedo se calasse com o seu discurso, pois no grupo dos “Canários” militavam algumas meninas de boas famílias, que por isso mesmo não podiam escutar baboseiras deste calibre, resolveu oferecer mais uma rodada de tinto e um pratinho de moelas ao quinteto que tinha resolvido pernoitar na tasca, em troca de comer, beber e calar.


E o bando chegou. E o bando comeu e bebeu. E o bando foi-se embora para mais uma discussão de onde, necessariamente, tinha de brotar a claridade do entendimento.


Voltou-se de novo à discussão de quem era ou não era cantor de intervenção, com possibilidades de vir a ser admitido. Dos poucos que ainda restavam, talvez porque todos os grupos tinham guardado os trunfos para o fim, apareceram os nomes de Sérgio Godinho, o de Adriano Correia de Oliveira e de José Afonso. Todos foram aceites. O Sérgio porque era um esquerdista moderado, que não hostilizava os revisionistas nem os socialistas, o Adriano Correia de Oliveira porque, apesar de ser militante do PC, não hostilizava os esquerdistas e era grande amigo de Manuel Alegre e da esquerda do PS, e o Zeca Afonso devido à sua qualidade, à sua honestidade e à sua militante e esfusiante humildade e também porque sim. Dos esquerdistas, era o único com quem os punhalistas não se metiam, honra lhes seja feita.


Por fim, alguém com mais sentido de humor resolveu questionar os presentes: “E então, não incluímos nenhum cantor de intervenção do PS?” “Mas não tem ninguém”, lembrou a maioria. “Alguém se lembra de algum?” “Eu”, respondeu o José. “O Paco Bandeira!”


A risada foi tão intensa que estamos em crer que foi nessa noite que a enorme trave mestra que sustentava o telhado dos “Canários” sofreu a primeira grande fissura nos tempos da democracia e que lhe viria ser fatal, como mais à frente informaremos. 


Na taberna ao lado, mais uma vez se levantou o moral ao quinteto do copo. E o mais afoito voltou a avisar: “Ó senhor Crispim, vá-se preparando que a rapaziada do teatro vem aí de novo.”


E por aqui nos ficamos, pois o resto podem os estimados leitores adivinhar sem que para isso seja necessária a nossa intervenção. Porque, bem vistas as coisas, o leitor também tem que fazer alguma coisa. N’est-ce pas?


151 – A verdade é que a peça foi escrita, musicada, ensaiada e ...

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:26
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Quarta-feira, 24 de Abril de 2013

Leituras de um olhar

 


 

 

 

 

Com Fio

 

 

Armei em tua mão

Por boa razão

O poder de ferir

 

Tal poder te dei

Agora sei

Ao te sentir

 

E a cada passagem

Com coragem

Bem sei, a esperança

 

Sem mais nada

No fio da navalha

Há só a confiança

 

Assim,

Com fio

Ou sem fio

Confio


Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves



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publicado por Fer.Ribeiro às 02:56
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Terça-feira, 23 de Abril de 2013

Intermitências

 

Contratempo

 

Contra o tempo… "Aconteceu enquanto dizíamos que isso não iria acontecer mais. Que estávamos seguros. E então aconteceu".


Foi mais um contratempo. Ninguém cai num buraco, porque às vezes é preciso andar meio perdido para chegar a um sítio realmente diferente. Mas tu não queres pensar nisso...


Contra o tempo… "Trabalhe duro no emprego de hoje ou trabalhe duro para encontrar um emprego amanhã".


Foi outro contratempo. É a crise do cromossoma Y, ou é a crise do cromossoma X. Certo é que todos precisamos de amigos quando nos espera um espancamento. Mas tu não queres pensar nisso…


Contra o tempo… “Os cientistas anunciam ter descoberto uma forma de ler os sonhos das pessoas ao utilizar aparelhos de ressonância magnética para abrir a porta a alguns segredos da mente inconsciente”.



Xangai, 2008 - Fotografia de Sandra Pereira


Foi de novo um contratempo. Entusiasmo demasiado fácil. Entrar em efervescência. Não olhar além das imagens, para os cheiros, as cores, para as traduções, para os significados, as emoções. Não visualizar o que não é visível. Mas tudo tem solução, tu não queres pensar nisso…


Contra o tempo… um indivíduo só. Porque há sempre um lugar vedado a terceiros. Tu seguias a corrente do receio, do acanho, da cobardia, do seguro, do conhecido. Tu não querias pensar nisso. Tudo tem solução, mas não há ponta de irracional em ti.


Foi apenas um contratempo. Hoje viajas. Foges para bem longe de tudo o que já viveste. Não visualizas o que não é visível, mas queres cheirar, queres ver, queres sentir. Com o estômago e o pensamento a darem voltas e mais voltas… quase até ao vómito. Queres significados. Foste atingido por um relâmpago súbito de (ir)reflexão, e o choque foi tão forte que andaste meio perdido. Temeste muito, tremeste mesmo por ti próprio, não visualizaste o que não era visível, mas viajas… até aterrar de vez. Aos poucos, mudas de aspecto, tornas-te sol ou nuvem. Tudo tem solução.


Contra o tempo…

 

Sandra Pereira



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publicado por Fer.Ribeiro às 04:49
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Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Quem conta um ponto...

 

 

Pérolas e diamantes (34): imagens de uma cidade (III)

 

 

Quando por vezes tive de apanhar o comboio para ir viver durante algum tempo fora da nossa cidade, mal ouvia o barulho da marcha das rodas nos carris, era violentamente tomado pelo sentimento de comunidade e de pertença ao coração de Chaves, como nunca me tinha acontecido antes.

 

Era nos períodos da partida e da chegada que me lembrava, tomado por uma dor ao mesmo tempo absurdamente triste e alegre, da Ponte Romana e sentia dentro de mim o seu tempo antigo, o tempo muito antigo da nossa cidade, a dilatar-se e a preencher-me com a sua figura ancestral e digna.

 

Na cidade havia (há) riqueza, mas conjuntamente pobreza (também ainda a há, e muita), coabitando lado a lado com a nossa grande história. As ruas principais enchiam-se de gente e os bairros metiam-se dentro de si, apesar da sensibilidade evidente das pessoas às novas realidades e às diferentes ideias que chegavam de fora. 

 

Por detrás da sua beleza monumental, era esse o segredo de Chaves: a relação fragmentada, mas duradoura e solidária, da nossa vida quotidiana.

 

As palavras relativas às nossas qualidades gerais, ao nosso espírito gregário, à nossa singularidade enquanto cidade, transformaram-se em discurso indireto sobre a nossa própria vida.

 

Agora, o discurso político e partidário tomou conta do nosso estado mental. Como se lhe pertencesse o núcleo principal da vida da nossa cidade. Mas isso é um embuste. Nós, os flavienses, não os que se dizem, mas os que o são desde sempre e para sempre, constituímos o centro essencial do nosso burgo. Nós mesmos. Não eles, mas nós. Nós os que lhe pertencemos desde sempre e para sempre.

 

Por outras palavras: através da contemplação da nossa cidade, agora quase vencida e acabrunhada, esmagada e triste pelo que lhe está a acontecer, ainda mais triste e acabrunhada do que eu, sinto dolorosamente que alguém tem de lhe deitar a mão para que não feneça debaixo da nossa indiferença.

 

Porque, apesar dos atentados que sofreu, e continua a sofrer, Chaves ainda mantém a sua beleza caraterística, que vagas sucessivas de “bárbaros” não conseguiram destruir. Ainda tem a riqueza da sua história, ainda possui os seus mistérios, que bem podem ser os remédios para os nossos sofrimentos. Talvez tenhamos de amar a nossa cidade como amamos a nossa família. Provavelmente não nos resta outra solução.

 

Numa noite destas, com a cabeça um pouco aturdida por algum vinho, lancei-me de novo numa caminhada pelas ruas mais estreitas e escuras da nossa cidade, para as sentir tremer e dar-me conta da sua tristeza. E senti-me dentro dela como se estivesse num filme antigo de que eu gostava.

 

Não sei porquê, mas senti-me feliz. E foi essa felicidade que quis apanhar para a conservar e poder falar dela como uma possibilidade. Como quem leva à boca um fruto maduro ou como quem acariciava um berlinde quando era criança.

 

Tive então vontade de regressar a casa pelas ruas vazias, sentar-me à secretária e escrever o que estão agora a ler.

 

Mais uma vez volto a citar Joaquim Pessoa: “E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.”

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Domingo, 21 de Abril de 2013

Pecados e Picardias

 

Pecados e picardias


Sim … Mas…


Novos ensaios


O egocentrismo das liberdades…

 

-Mas então não achas o Sócrates um excelente político…


-Acho, nomeadamente no conceito atual de politico.


-Aquela 1ª primeira entrevista foi um Show, que homem… Não achas?


-Acho que tem lata.


- Oh que espirito de contradição, achas estes melhores é?


- Têm ainda mais lata se é isso que perguntas, digamos que é uma lata mais acutilante dada a desfaçatez. Uma coisa reconheço sabem dividir a culpa.


-Ora  ainda bem,   que reconheces que  arcou sozinho com todas as culpas  das politicas  menos populares do seu governo…


- Agora o jogo político é uma espécie  de macaquismo  de imitação, já para não falar das encenações agora todas passiveis de comentários de comentadores “profissionais “ de cada canal das televisões …


- Interessante é também alguns comentadores não terem sentido de autocritica uma vez que já estiveram no poder e também não desenvolveram uma política mais justa e equitativa para a maioria da população.


- Gostava era de ver políticos que despertassem a nossa confiança e  fizessem obras …


- Traduzindo isso em obras, bem sabes que Ele foi o único que operacionalizou os projetos das estradas que agora temos.


Que se preocupou em criar cursos técnicos para validar as competências dos trabalhadores e chamou-lhes novas oportunidades.


- Estou a ver… Que as memórias são tão tolerantes  como a liberdade que renasce, que depois de mim virá quem de mim Bom fará… De facto ele também merece auferir das suas novas oportunidades…

 

Sei que passado um tempo de pranto e animosidade expira  a relutância e regressa

 A serenidade da tolerância ou será já estamos por tudo…

 

 

Isabel Seixas

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:05
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Sábado, 20 de Abril de 2013

Matosinhos - Chaves - Portugal

 

Já lá vão 8 anos que iniciei este blog e, embora ande a percorrer este concelho de Chaves há mais de 20 anos, sinto que há aldeias que ainda não foram aqui tratadas com a dignidade que merecem, não por falta de vontade minha, mas talvez por falta de oportunidades de acontecer o momento certo, talvez falta de inspiração, eu sei lá, por razões que a própria razão às vezes desconhece.




Sinto assim que tenho de me aventurar a mais uma expedição a todas as aldeias, aliás já venho sentido essa aventura há uns tempos atrás, mas acontece que o tempo dos relógios não tem estado de feição para a minha disponibilidade, e assim, vou adiando essas visitas e trazendo aqui imagens de arquivo. Para a atualidade das imagens que vos vou trazendo aqui, resta-me a infeliz consolação de que as aldeias nos últimos anos (e aponte-se para os dois dígitos) pararam no tempo, e tudo vai estando igual ao que era.




Mas sei que há recantos que me escaparam em todas as visitas anteriores às nossas aldeias, mesmo porque o nosso olhar também se vai educando e aperfeiçoando havendo ainda a acrescentar que também a nossa sensibilidade para com as pessoas e os resistentes das nossas aldeias se tornou mais atento e, sobretudo, mais solidário.

 

Para hoje ficam algumas imagens de arquivo de Matosinhos. Esta é uma das aldeias que merece uma visita mais atenta, que fica prometida.



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publicado por Fer.Ribeiro às 16:17
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Sexta-feira, 19 de Abril de 2013

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

 

SONHAR, É PRECISO!...

 

I


Tamara_junior, no último Discurso sobre a Cidade, de 2012, no final do seu artigo, reproduzia a minha preocupação sobre a nossa cidade e o seu futuro. E, falando a propósito deste blog (CHAVES), dizia: «Preocupa-me que Chaves não tenha pelo menos um blog que reflita, seriamente, sobre a sua cidade e do que para ela desejamos. Com efetiva e entusiástica participação dos cidadãos, amantes da sua terra e da sua história. E interessados na construção de um outro futuro. Porque, só assim, creio sinceramente, é que a classe política que temos se poderá vir a regenerar».


Foram exatamente estas as palavras que proferi e que tamara_junior fielmente reproduziu. E, naquela altura, tal como ainda hoje, continuo a acreditar nelas.


Perdi já a esperança de a classe política se regenerar por dentro. Está tão afastada da realidade – e tão sedenta de poder – que não vê que há mais mundo para além daquele que pisam. Que outro mundo é possível. E que ela nada faz – ou porque não sabe ou por interesses firmemente instalados – para o modificar.


Por isso é necessário que, para além das manifestações, dos protestos e movimentos de contestação cidadã, a palavra dê lugar à ação, que esta tome a dianteira e a primazia em cada cidadão em concreto. Que a palavra e a ação do cidadão comece na concreta comunidade onde se inscreve e se insere. Que seja uma efetiva realidade. Porque é necessário tirar as pantufas e o robe e sair do sofá, (que nos prende à televisão e às novas tecnologias de comunicação e informação, amolecendo-nos e anestesiando-nos com entretenimentos que nos infantilizam e notícias e comentários de pseudoperitos, que outra coisa não fazem senão nos baralhar), e calcemos as botas e vistamos o fato-macaco para pôr mãos à obra. Porque há mais vida para além da crise. Porque a crise só se debelará com outra vida, o mesmo que dizer, outra visão, outra postura, outros (s) modelo (s) e, quiçá, outros protagonistas.

 

II

 

Sou filho da dita geração dos «baby boomers» dos anos 60 e princípios dos anos 70. Adolescentes em final de ciclo e jovens que fizeram mover a sociedade de altura com a sua rebeldia, lutando por causas, inventores da era da «paz e amor». Que lutavam por projetos culturais e ideológicos alternativos, já lançados na década de 50. E, se é certo que se viveu uma primeira fase de inocência e até de lirismo nas manifestações socioculturais, e no âmbito da política, é evidente o idealismo e o entusiasmo no espírito da luta do povo. A partir da 2ª parte da época, dá-se já o início de uma grande revolução comportamental, rompendo os modelos conservadores em amplos setores, nomeadamente com o surgimento do feminismo e os movimentos a favor dos negros e dos direitos humanos. É também nesta altura que surgem os movimentos de comportamento como os hippies, com os seus protestos contrários à Guerra Fria e à Guerra no Vietname, a que muitos lhes chamaram de contracultura. Para já não falar da Revolução Cubana, na América Latina.


É, manifestamente, o apogeu dos historicamente designados 30 anos gloriosos, que vão até meados dos anos 70. Que a ninguém deixava indiferente quer na música com os Beatles, os Rolling Stones, The Who, quer com a música de protesto de Bob Dylan, joan Baez, Peter, Paul and Mary; o aparecimento do rock and rol; de Elvis Presley; de Bob Marley; o Festival de rock Monterrey Pop Festival ou Festival Pop de Monterrey, na California, onde se estreia Jimi Hendrix, Big Brother e Holding Company, com Janis Joplin e Otis Reding; o aparecimento do primeiro álbum dos The Doors - «Light my Fire» e, já no final, em 69, o festival de Woodstock; é o aparecimento da televisão a cores; dos filmes de autores como Jean-Luc Godard, Frederico Fellini, Michelangelo Antonioni, Peter Fonda, Stanley Kubrick; das grandes atrizes e atores como, nomeadamente, Jean Seberg, Anouk Aimée, Anita Ekberg, Brigitte Bardot, Audrey Hepburn, Jane Birkin, Catherine Deneuve, Jane Fonda, Dustin Hoffman, Jack Nickolson, Marcello Mastroianni; são os filmes Blowup, Belle de Jour, Easy Rider, Barbarella, entre muitos outros. São os anos (abril de 61) em que o cosmonauta Yuri Gagarin torna-se o primeiro homem a ir ao espaço e em que o primeiro homem pisa a lua (69), Niel Alden Armstrong. São os anos em que, para mim, adolescente em final de ciclo e da minha primeira juventude, morrem 4 grandes ídolos: Marilyn Monroe (62), cinema; John F. Kennedy (63), política; Martin Luther King (63), líder negro pela defesa dos direitos dos negros e Che Guevara (67), executado na Bolívia.


Os jovens desta geração são influenciados pelas ideias de liberdade «On The Road», livro do beatnik Jack Kerouac, da chamada geração beat, que começa a opor-se à sociedade de consumo vigente.


Foia a partir deste caldo e cadinho de movimentos e cultura, essencialmente jovem, que a sociedade saída dos dois conflitos mundiais se estruturou e desenvolveu. E que nos trouxe também até aqui…

 

III

 

Entretanto a sociedade em que crescemos e nos desenvolvemos era, na sua grande maioria, uma sociedade jovem.


Hoje, mais de 1/5 da sociedade em que vivemos é constituída por pessoas maduras, ditas da terceira idade, entre as quais me começo a incluir.


Somos pois nós a geração dos «baby boomers» que constitui uma grande fatia da sociedade que hoje somos. E, neste correr, uma pergunta me assalta: que é feito dos nossos ideais da juventude, dos nossos valores, da nossa luta, da nossa contestação? Como, e porquê, nos deixámos chegar até aqui?


Emprenhámos, fundamentalmente depois da queda do Muro de Berlim, pela sociedade do consumo; tornámo-nos, com a revolução das TIC (tecnologias da informação e comunicação) mais individualistas, narcisos, acomodados. Deixámo-nos embalar num sonho sem valores e completamente hedonista.


Entretanto os corvos, senhores da alta finança e economia mundial, subterrânea e lentamente, foram-nos "fazendo a cama". E, quando pensávamos que estávamos vivendo um sonho, acordámos de um pesadelo.


E agora, que fazer?


Está bem à vista que não é com os tecnocratas e com os políticos que enxameiam todas as instituições que criámos ao longo destas décadas que sairemos desta crise. A chave está nas nossas mãos. Aliás, sempre esteve!


E, a este propósito, duas figuras/personalidades do final da minha adolescência e primeira juventude, estão cada vez, no meu espírito, mais vivas. Uma, Luther King, pela luta pela igualdade e dos direitos dos negros norte-americanos. Com ele, e como ele, «devemos ter sonhos». Porque sem sonho não há vida humana que se preze. Nem que, por esse sonho, tal como ele, se tenha de dar a vida! A outra figura é John F. Kennedy, não tanto pelo seu exemplo de vida, mas sim pelo seu simples e fundamental pensamento político quando, em campanha eleitoral para Presidente dos Estados Unidos, dizia aos seus concidadãos: «não pergunte o que o seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo seu país».


Um exemplo de vida e uma lição política que andaram, e ainda andam, tão arredados do nosso pensamento e da nossa ação, durante décadas, de nós como cidadãos.


Porque se é certo que a política e os políticos são imprescindíveis nas nossas sociedades democráticas, não menos certo que, sem uma verdadeira cidadania, com cidadãos verdadeiramente atuantes e participativos (que não só nos momentos eleitorais) não se constrói sociedade, não há política digna desse nome.


Confiámos demasiado, e durante muito tempo, num estado provedor do Bem-estar social, deixando-o “engordar” demasiado e ser palco de demasiados protagonistas/oportunistas que dele se serviram (e, infelizmente, ainda servem), enquanto nos acantonávamos numa atitude passiva, reivindicadora apenas de direitos e sem quaisquer preocupações de caráter solidário e cívico, que completassem e suprissem as falhas que um estado que se quis todo omnipresente e omnipotente sempre apresenta e não pode suprir. Os resultados estão bem à vista!


Por isso, há que mudar de rumo. Há que voltar a sonhar que uma outra sociedade é possível. Enquadrando, nos seus devidos termos, o papel que cabe ao estado, às instituições da sociedade civil e aos cidadãos. Num diálogo que se deve fazer com caráter de urgência mas, simultaneamente, com a necessária e profunda reflexão que o tema e a situação exige.

 

IV

 

E quem fala do papel do estado – ou da sua redefinição – o mesmo se passa com o das autarquias locais.


Não vale a pena voltar a falar da vergonhosa pseudo-reforma das autarquias que se quedou, simplesmente, na extinção de algumas freguesias. A este tema, já noutro local - http://zassu.blogs.sapo.pt/2655.html - teci algumas considerações.


Queria agora falar das eleições autárquicas que, a passos largos, se avizinham. E gostaria de, a este respeito, formular um conjunto de questões, divididas em quatro temas:

  • Que cidade de Chaves queremos para o futuro, ou seja, com que cidade sonhamos para vivermos e, no futuro, para os nossos filhos? Alguém nos apresentou alguma visão na qual acreditemos e que seja capaz de nos galvanizar e que seja suscetível de nos mobilizar, como flavienses, na sua prossecução? Qual é o discurso reinante dos partidos do arco do poder municipal em Chaves? Promessas? Obras? Empregos? Mas que promessas? Obras para quê e com que dinheiro? E empregos: para quê, com que finalidade, e para quem?

 

  • Falando do mundo rural, parte integrante e essencial da própria natureza flaviense e da sua urbe. Tem sido a nossa ação perante esta parte significativa do nosso território eficaz, no sentido da construção de um mundo rural com efetivo significado para as gentes que nele habitam? Temos a preocupação pela preservação da identidade e da memória de um mundo que foi a razão de ser (e porventura ainda continua a ser) a grandeza da nossa cidade? Que relação intergeracional estabelecemos com as suas gentes? Temos promovido a cidadania ativa e participativa ou, pelo contrário, temos para com estas pessoas uma solidariedade benevolente e pouco promotora da participação da sua população idosa na construção de uma outra comunidade com nítidos proveitos também na construção de uma sociedade flaviense mais dinâmica, quer sob o ponto de vista cultural quer social?

 

  • Que papel efetivo têm, na construção da cidadania e desenvolvimento flaviense, as suas instituições de caráter cultural, recreativo, social, assistencial e económico no concelho? Primam por uma dinâmica própria, autónoma, e as suas ações e atividades refletem o espírito de partilha e de construção de uma sociedade que se quer verdadeiramente livre, democrática e desenvolvida? Ou, pelo contrário, na sua maioria, as suas ações e atividades outra coisa não são, ou representam, senão o braço estendido de um poder tentacular assente nos senhores detentores do poder autárquico e, como tal, dependentes política e financeiramente dele?

 

  • Qual é o perfil dos candidatos que estão prestes a se apresentarem a liderar o nosso concelho? São pessoas idóneas, honestas, honradas, competentes e capazes de pôr a sua terra acima dos interesses do seu partido ou dos seus próprios interesses? São pessoas autossuficientes que acreditam, pela sua ação e influência, serem capazes de desenvolver e mudar o município? Ou, pelo contrário, são pessoas simples e humildes que acreditam só ser possível a mudança e o desenvolvimento se todos nela participarmos como munícipes/atores e, não passando eles (ou elas), e a sua ação, de uma singela, embora importante, intermediação na construção de uma cidade e de um território municipal feito mesmo por todos?

Eis aqui, pois, um conjunto de questões que, reputo, essenciais em termos da dinâmica eleitoral autárquica que se avizinha. Porque estas são as questões que, na minha opinião, são as que importam na hora de escolher um programa (que deve ter necessariamente uma visão e um horizonte credível do que queremos e que, por isso mesmo, desejamos partilhar), uma equipa e um (a) líder.


Será nesta linha pela qual se pautará a minha escolha e, consequente, a minha opção…


E acredito – porque ainda não me esqueci daquilo que foram os feitos da geração que me acompanhou no final da minha adolescência e primeira juventude e que me fizeram homem para a vida – que, no palco da cidadania, seja possível corporizar-se uma nova visão, com novos princípios e novos valores que levem a pôr em prática uma nova metodologia de abordagem e de participação democrática na construção de uma sociedade flaviense moderna, mais desenvolvida, justa e equitativa, no contexto e conserto do território nacional, fazendo jus à sua longa e gloriosa história milenar.


Aprendi, ao longo da vida, que ninguém desenvolve ninguém a não ser nós próprios. Por isso, hoje – ainda mais que nunca – SONHAR, É PRECISO!...

António de Souza e Silva



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Quinta-feira, 18 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 149

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

149 – Foi com a exposição sobre a URSS que o José iniciou o que podemos denominar como o seu ciclo dos “Canários”, que era a modos como um teatro antigo, que tinha sido sede social e sala de ensaios de uma banda filarmónica já extinta e que atualmente albergava uma pretensa associação de âmbito cultural.


Além de servir de espaço para sessões de esclarecimento das forças de esquerda, o salão tinha condições suficientes para apresentar peças de teatro ao público, pois possuía um palco, uma sala razoável para a assistência mais comum e até balcão para o público mais relevante.


Foi durante o tempo que durou a exposição que tiveram início os ensaios para a peça de teatro que um grupo de sócios e amigos dos “Canários” resolveu levar para a frente.


O primeiro passo – pois até a mais longa marcha começa com ele, como muito bem disse Mao Tsé-Tung, ou Mao Zedong –, foi definir o perfil dos elementos que podiam pertencer ao grupo de teatro. A direção da associação decidiu que apenas podiam ser admitidas pessoas comprometidas com a cultura, o que queria significar que apenas estavam em condições de pertencer ao grupo militantes ou simpatizantes de esquerda, pois a gentalha de direita abominava a verdadeira cultura. O que levantou de imediato uma outra questão: onde começava e onde terminava a esquerda.


Para uns, os elementos ligados ao PCP, a esquerda começava no MDP e terminava muito próxima do MES. Para os esquerdistas, a esquerda começava no MES e terminava um pouco além da UDP. Para os moderados e independentes, a esquerda começava no PS e terminava no MRPP.


Depois de todos os argumentos ponderados, verificou-se que se fossem apenas admitidos os elementos de esquerda considerados pelo PCP, a peça a representar tinha de ser um monólogo e se fossem aprovados os elementos de esquerda admitidos pelos maoistas, a peça escolhida tinha de ser um diálogo com não mais de duas personagens. Isto se viesse lá de baixo um encenador, pois o único conhecido por estas bandas era militante do PS.


Devido aos factos, que não aos argumentos, venceu a proposta que considerava de “esquerda” todos os partidos à esquerda do PS, incluindo-o obviamente. No entanto, houve ainda uma última discussão sobre se o MRPP podia, ou devia, ser considerado um partido de esquerda.


Apesar dos argumentos a favor serem relevantes e os contra não serem desprezíveis, a maioria votou a favor da decisão de que o MRPP, embora utilizando como símbolo a foice e o martelo e de os seus poucos militantes cantarem “A Internacional” na sua versão oficial, era um grupelho de direita. Chegando mesmo alguns dos participantes na reunião da direção dos “Canários” a apelidá-los de provocadores e agentes da CIA.


Depois de contactados os elementos que interessavam para a constituição do grupo, foi convocada uma reunião para definir qual a peça a escolher. Foram apresentadas diferentes ideias e também alguns fragmentos de vários textos. Depois de diversas leituras das peças sugeridas, instalou-se o impasse. Não havia maneira de todos se porem de acordo acerca da peça a escolher, ou porque era difícil de compreender, ou porque era pouco revolucionária, ou porque era chauvinista, ou esquerdista, ou maoista, ou tendencialmente social-democrata, ou revisionista, ou outra coisa qualquer. A verdade é que cada tendência tentava impor a peça que em reunião partidária tinha decidido apresentar aos restantes elementos do grupo. Eram tantas as propostas como as sensibilidades partidárias, excluindo o PS, pois aos seus militantes tanto se lhes dava como se lhes deu. Eles achavam-nas todas boas.


Vendo que não se chegava a acordo, o encenador propôs então uma reflexão revolucionária, o que muito estranhou aos elementos mais revolucionários do grupo, que a princípio ficaram fulos por não terem sido eles os mentores da ideia, o que veio demonstrar, por incrível que pareça, que até as invenções mais revolucionárias podem vir daqueles que não são revolucionários.


A ideia era que, dado que nenhum dos textos lidos, discutidos e comentados, tinha colhido o voto maioritário, ou melhor, unânime, dos elementos do grupo, o melhor mesmo era todos participarem na escrita de uma peça. Depois de a proposta ter sido aprovada por unanimidade e aclamação, foram comemorar para uma taberna típica mesmo ali ao lado. Comeram, beberam e cantaram noite fora. E durante o fim-de-semana resolveram dedicar todo o tempo a redigir o texto.


Escusado será dizer que cada um tentou impor a sua tendência ideológica que não sendo substancialmente diferente, exceção mais uma vez feita para os militantes e simpatizantes do PS, era pícara em pormenores: nos nomes dos dirigentes, nos lugares onde se passavam as cenas, nas citações, nas bandeiras, nas palavras de ordem, nos heróis tombados, nos heróis erguidos, nos punhos que se levantavam quando se gritava a favor do socialismo, na definição das políticas agrárias, no tipo de reformas, no tipo de greves, no âmbito das nacionalizações, no controle operário, na aposta ou não na autogestão, no tipo de autogestão, na ocupação das terras ou das casas, na necessidade ou não de uma revolução armada, no tipo de ensino, no tipo de associativismo, no tipo de unidade sindical, etc.


Muitas vezes se insultaram por causa de uma vírgula posta fora do lugar, por causa de uma canção sugerida, por causa de um poema escolhido, por causa de uma pretensa citação que indiciava uma alusão encapotada a Alberto Punhal ou a outro dirigente partidário. Por causa de uma discussão acerca de um pormenor comezinho, um militante do PRP-BR ameaçou mesmo ir buscar a G3 que trazia no carro para impor a sua versão numa cena qualquer.


Estava visto que um texto coletivo era ainda mais difícil de fazer do que a própria revolução. Isto apesar da tão propalada unidade na ação, tão ao gosto dos discípulos de Punhal.


Resumindo e concluindo, o texto que dali saiu foi de uma mediocridade confrangedora. Podemos dizer que abordava quase todos os tópicos revolucionários que se viviam na altura, mas sem aprofundar nenhum. Era uma mistura de palavras de ordem dos vários partidos, com cenas tão neorrealistas que, estamos em crer, até os mais acérrimos defensores do neorrealismo as abominariam por neorrealistas.


150 – Como se os textos não chegassem para a confusão ...

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:32
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