Sexta-feira, 31 de Maio de 2013

Uma imagem daquilo que vamos tendo de melhor

 

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Quinta-feira, 30 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 155

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

155 – Mas a sua carreira cinematográfica não acabou no “Trinta e Um”, era o que mais faltava. Além disso, um verdadeiro artista nunca se rende.


O José podia não ser um bom apreciador de cinema, nem sequer ter as qualidades suficientes para ser ator, mas sabia ler e interpretar as críticas cinematográficas bem melhor do que os filmes. Decidiu-se então pela realização. Já que não podia entrar nos filmes, podia, pelo menos, escrevê-los e realizá-los.


A oportunidade surgiu-lhe com a criação de um grupo dedicado à sétima arte por parte de um estudante da Escola Superior de Cinema que se encontrava em Névoa a cumprir o serviço militar e que se ofereceu para ministrar no Liceu umas aulas sobre o nobre ofício dos filmes a um grupo de interessados.


Depois de algumas abordagens, mais ou menos teóricas, apostólicas e romanas, o monitor desafiou os participantes a escreverem um guião. Dependendo da sua qualidade, ficou decidido que os mais interessantes iriam ser objeto de estudo e alguns podiam mesmo vir a ser subsidiados.


Foi o que o José quis ouvir. Era chegada a sua oportunidade de brilhar. Logo ali se formaram dois grupos: o dele e o dos outros. Iria sempre ser assim a sua vida: ele e os outros, ou os outros e ele, que, para o caso, tanto monta. Ou para sermos mais objetivos e rigorosos teremos de escrever: serão sempre os Outros contra Ele.


O grupo de cinema era misto, mas as raparigas limitaram-se a fazer o papel de observadoras, ficando a ver onde a disputa ia dar. No final, dependendo do grupo ganhador, as raparigas seriam agraciadas com o galardão da sua escolha para entrarem nos filmes subsidiados.


Basicamente, o grupo do José ficou constituído por ele e por meia dúzia de colegas da sua turma do Liceu. Ele encarregou-se de tudo. As colegas ficaram à espera. Naqueles tempos as raparigas ficavam quase sempre à espera. Ao contrário dos tempos que correm, em que cada vez são mais atrevidas.


O outro grupo era maioritariamente constituído por rapazes, quase todos parvos, gabarolas e um que outro craque de futebol ou proprietário de muitos discos de música rock, dois sinais de distinção juvenil que as raparigas adoravam e os paspalhos admiravam e cobiçavam. Resumindo: era o José contra o mundo e arredores. Mas a sua fibra de revolucionário solitário veio ao de cima.


Isolou-se em casa e pôs-se a escrevinhar uma ideia que pudesse ser colocada num filme de cerca de dez minutos, que era o tempo que durava a fita das três bobines de filme a cores Super8 com que poderia vir a ser obsequiado.


 Escreveu, rescreveu e até “trescreveu” um argumento, mas não lhe agradou. Rasgou-o com toda a convicção. Começou então a ler com o propósito de que a inspiração lhe chegasse através dos livros. Mas a inspiração, essa traidora, teimava em nem sequer se abeirar dele. Mas o José, filho da Dona Rosa e do guarda Ferreira, não desesperou. Era o que mais faltava. O José não era de desesperar. Desesperar jamais. Por isso continuou a ler livros e algumas revistas de qualidade. Pelo meio assistiu a mais umas tantas aulas do grupo de cinema.


Basicamente, o grupo rival andava a ser ajudado pelo monitor a desenvolver um argumento baseado na “Barbarela”. Uma coisa mexeruca, sem tino, nem originalidade. O monitor tentava puxar a história para o picaresco, os elementos do grupo teimavam numa abordagem ainda mais pirosa, como se isso fosse possível. Uma coisa entre o folhetim “Simplesmente Maria” e a longa-metragem “A Piscina”. O José, a meio da discussão, riu-se discretamente, como era seu timbre e feitio. Foi o bastante para se virarem para ele e o desafiarem a elaborar uma ideia melhor. Ele fê-lo. E tão bem que o monitor pegou nela e desenvolveu-a como se fosse sua. Situação que se irá repetir ao longo da sua vida: ele a ter as ideias e os outros a apropriarem-se delas e a utilizá-las como se fossem suas.


A personagem principal continuava a ser uma rapariga tipo “Barbarela”, mas o José tinha-a transformado numa espécie de loba má que persegue o casaquinho vermelho, um rapaz tão ingénuo e tão virginal que até parecia santo, que vivia com o avô rico e que morria de amores verdadeiramente platónicos por um seu amigo pobre e feio, falsamente modesto e muito gozão. Basicamente, a história desenvolvia a ideia de uma rapariga trintona, a loba má (um misto de “lobimulher” e vampiro), que tomava conta do avô que tinha uma mansão na floresta, tentava comer o casaquinho vermelho e abusar sexualmente do tal rapaz pobre. Só que, a meio da história, os seus intentos eram descobertos pelos sete descendentes dos sete anões da Branca de Neve (que agora trabalhavam sob as ordens de uma descendente da alva personagem dos contos dos Irmãos Grimm, que se bronzeava compulsivamente nas praias do Norte de Portugal), que raptavam a loba má e a levavam para um circo onde a apresentavam, em noites de lua cheia, a um público previamente selecionado e cheio de dinheiro, ávido por extravagâncias e aberrações deste género. 


O monitor, entusiasmado, tentou passar a pequena história para o cinema, mas depressa chegou à conclusão de que a ideia era muito avantajada para um grupo de rapazes que mal sabia distinguir um plano de um contraplano, um fundido de um encadeado, e muito menos pronunciar Ingmar Bergman ou Akira Kurosawa sem se enganar. 


Por isso deu-se por satisfeito com o dramalhão. Limitando-se o filme a reproduzir imagens pouco criativas do corpo, decorado com um biquíni, de uma rapariga loira e de olhos azuis que frequentava o Liceu, que acaba assassinada por uma morena e de olhos castanhos, que frequentava a Escola Industrial, à beira da piscina do Aeroclube, enquanto o namorado da loira, agora craque da equipa de futebol de Névoa, que tinha sido namorado da morena, quando era estudante repetente do Liceu, dança na discoteca, também do Aeroclube, com uma mulata filha de um retornado proprietário de uma ourivesaria que, insinua-se, abriu com o rendimento dos diamantes que contrabandeou de Angola para Portugal em bisnagas de dentífrico com proteção de chumbo para não serem detetados pelos aparelhos dos aeroportos.


O filme esteve para não ser realizado porque no grupo existiam dois galos para o mesmo poleiro. Um, curiosamente, era o namorado da rapariga loira escolhida para entrar no filme; e o outro, também curiosamente, era o namorado da morena. Como os dois ambicionavam ser, ao mesmo tempo o realizador e o ator principal, o monitor teve de se impor e distribuir o mal pelas aldeias. O namorado da loira, por sorteio, ficou com a tarefa de realizador e ao namorado da morena tocou-lhe o papel de galã. Quem amuou foi o namorado da mulata, que ficou de fora a rachar lenha. Mas não se deu por vencido. Exigiu que para a sua namorada entrar no filme a dançar agarradinha ao namorado da loira, que na verdade era namorado da morena, ele tinha de participar, quanto mais não fosse, como cameraman. O que foi aceite pelo monitor, mas com o voto contra do realizador que também desejava ser ele a manipular a câmara, pois o namorado da mulata era um desastre no manejo de material mais sofisticado do que um lápis, mas mesmo para esse tinha de pedir ajuda, sobretudo para que lho afiassem, senão era rapaz para reduzi-lo a aparas sem conseguir escrever uma palavra que fosse.


A rodagem da curta-metragem correu sem sobressaltos. Isto até ao momento da filmagem da cena da dança na discoteca entre a mulata e o futebolista, o tal que era namorado da morena. Aí foi o cabo dos trabalhos. Quando o realizador, que era o namorado da loira, dizia “ação”, logo o cameraman, que era namorado da mulata, se virava para o ator principal, que fazia de futebolista e era o namorado da morena, e lembrava que devia usar a sua namorada como atriz, mas que não devia abusar.


E avisava: “Porque, apesar do cinema ser cinema, é sempre muito difícil a quem vê, e sobretudo a quem participa nas cenas, distinguir a realidade da ficção, diferençar o que é real e o que é imaginário, apartar o trabalho da paixão, o fingimento do sentimento e… alto lá, não a apertes tanto, não a beijes assim, não a apalpes… faz antes que a apalpas… não a beijes, faz que a beijas… não a… não… corta… corto… vou cortar… cortei.”


E o realizador, o tal que era namorado da loira, afirmou perentório: “Mas aqui quem manda cortar sou eu.” E o cameraman: “Mas a namorada é minha.” E o ator, que fazia de futebolista e que era namorado da morena: “Ninguém te quer a namorada para nada.” E a namorada do cameraman: “O ciúme mata o amor.” O realizador: “Isso não está no guião. O filme é mudo.” O cameraman: “Dizes isso porque a tua namorada só faz de assassina e ao único a que se tem de agarrar é à navalha de ponta e mola.”


Depois de uma pausa, voltou-se ao trabalho. E o realizador, o tal que era namorado da loira: “Ação.” E o cameraman: “Não te meneies tanto, Manuela. Parece exagerado. Parece que estás a gostar.” E o realizador: “Ainda bem que o filme é mudo, senão em vez de um drama seria uma comédia.” E o cameraman: “Corta… corto… vou cortar… cortei. Parece que em vez de dançar estão a… estão a…” E a namorada do cameraman: “Na minha terra é assim que se dança.” E o cameraman: “Pois na minha não é. E ou o filme acaba aqui ou acaba o nosso namoro.“


Para abreviar, podemos relatar aos nossos estimados leitores que o filme foi para diante e que a sua dimensão plástica melhorou significativamente. Nisso teve toda a responsabilidade o José, que acabou por ser o escolhido para servir de cameraman.


No final, aconteceu tudo como na vida real. A mulata enamorou-se do seu colega de trabalho e a sua namorada, em ato de vingança, apaixonou-se pelo primeiro cameraman.


O José ainda pensou fazer desta rodagem o guião para o seu filme. Mas desistiu por causa dos direitos de autor. Os seus rivais não lhe perdoariam o plágio da realidade. E ele não era homem para plagiar. Copiar, sim. Plagiar jamais.


156 – Foi na banda desenhada que procurou também a ...

 

(continua)

 

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Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

Leituras de um olhar

 


 

 

Longe e tão próximo

 

Ali, onde se perde o olhar,

Como se ali fosse o infinito,

Distantes os braços esguios

Se abraçam apenas no olhar

 

Apontam um rumo natural

Como se o céu beijasse

E ao longe  de quem vê

Aproxima quem é distante

 

Assim, olhar o infinito

Encurta a visão

Porque o tempo não pára.

 

 

Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves

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Terça-feira, 28 de Maio de 2013

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Segunda-feira, 27 de Maio de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (39): roleta russa seguida de inauguração

 

E os factos caíram-nos em cima como uma peste negra. Os factos, não as dez pragas do Egipto. Mas os factos. Os cortes nos salários, nas pensões e nas despesas sociais. Cortes e mais cortes para fazer frente ao que o PM apelidou de emergência nacional, ou seja, para sermos simples e claros, o estado a que o país chegou pela sua mão e pela do inenarrável Gaspar.

 

São os tais 4,8 mil milhões de euros que Passos fingiu querer discutir, mas vai impor sem apelo nem agravo. Sem diálogo. E sobre o desemprego, nem uma palavrinha. Sobre retoma nada vezes nada. E outro tanto sobre esperança e futuro. PPC apenas foi capaz de embrulhar o seu miserabilismo num preâmbulo vergonhoso relativo ao Documento de Estratégia Orçamental, vulgo DEO.

 

Sem o menor pudor, ou sequer respeito pelos portugueses e pelos sacrifícios que lhes tem imposto de forma despudorada, o líder do Governo, e do PSD, diga-se de passagem, nada diz sobre a agiotagem dos mercados financeiros e sobre a roubalheira dos bancos respaldada pelos seus consórcios internacionais.

 

Por isso é que o DEO é um enorme embuste. Porque assenta em pressupostos errados e objectivos inatingíveis, mas, sobretudo, porque o documento ignora de forma deliberada a nossa realidade social, mesmo à beirinha da rutura.

 

Por isso é que hoje o país está tolhido pelo medo, pelo desalento e pela humilhação. O medo de se perder o emprego, de se regredir de forma definitiva na escala social, de se ver de um dia para o outro sem um mínimo rendimento que permita manter um nível de vida digno.

 

Todos já percebemos que os últimos anos da vida ativa que nos vai tocar viver serão sempre a piorar.

 

Mas, como se isso fosse pouco, o Governo resolveu praticar a política do terrorismo de Estado. E se Bin Laden odiava judeus e americanos, PPC odeia, com a mesma fé fundamentalista, os reformados e os funcionários públicos. Por isso os persegue, humilha e vilipendia, acusando-os de serem os responsáveis pela crise das finanças públicas e pelo desemprego dos jovens, tentando, dessa forma deplorável, colocar uma geração contra outra.

 

No fundo, trata-se de lançar o pânico sobre os reformados e os funcionários públicos e incutir o ódio geracional nos jovens.

 

Aos funcionários públicos propõe-lhes o jogo da roleta russa, que é a tão propalada mobilidade especial, apontando-lhes um revólver à cabeça e dizendo-lhes que têm de apertar o gatilho e esperar que a bala não esteja nessa câmara do tambor.

 

Nicolau Santos tem toda a razão quando afirma que o que pretende PPC, e o inenarrável Gaspar, mais não é do que reduzir o Estado a uma função meramente assistencialista, declarando dessa forma guerra aos portugueses.

 

Mas eu acompanho-o no desígnio de que há de chegar a altura de os portugueses varrerem o Governo para o caixote do lixo da História.

 

Por falar em Governo, não quero terminar esta crónica sem me referir à inauguração do comicamente apelidado “Centro de Artes Criativas de Chaves” pelo secretário de Estado do Desporto e Juventude e desde já afirmar que a propaganda política deste jaez deve envergonhar quem dela se serve de forma tão despudorada.

 

Mas o que mais me indignou (e eu, apesar de tudo, ainda me indigno com coisas destas, coitado de mim) foi o dandy governativo, que puxando de um provocador e postiço sorriso “pepsodente”, ter afirmado que o Estado gastou na recuperação do edifício mais de um milhão de euros e que de imediato fez uma coisa que não é habitual, entregando a gestão deste património a uma associação juvenil.

 

Mas o senhor secretário de Estado esqueceu-se de dizer toda a verdade: é que a referida associação pode ser juvenil, mas também é, e por inteiro, constituída e dirigida exclusivamente por militantes e simpatizantes da JSD.  O líder da dita associação é líder da JSD e foi candidato pelo PSD à CMC. E, até aposto, que vai sê-lo de novo e num lugar tido como elegível.

 

E isso é indigno de um Estado de Direito que deve tratar todos os jovens por igual. Lembram-se dos “jobs for the boys”? Bem prega Frei Tomás!

 

João Madureira

 

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Domingo, 26 de Maio de 2013

Pecados e Picardias

 

Aguardemos

 

Há uma onda de desconfiança dos eleitores perante os futuros candidatos às eleições autárquicas.

Oiço de forma sistemática o “são todos iguais querem é poder”…


O descrédito é uma espécie de desilusão que se instala após expectativas goradas.


Acreditamos nas pessoas candidatos sem considerar o enredo social a que vão ser submetidos após ganhar as eleições face às promessas feitas durante a campanha.


Formam-se castas/Partidos que vão gerir os dinheiros públicos em função  de interesses supostamente de todos os cidadãos…


É curioso que há um discurso transversal de pluralismo democracia e partilha, embora com o decurso do mandato se observe nas atividades desenvolvidas pelos  municípios uma participação ativa dos seus congéneres partidários e uma ausência sepulcral dos cidadãos militantes de outros partidos.


É pena dado que há atividades interessantes, de valor cultural e pedagógico  no âmbito da cidadania que só são acessíveis aos partidários dado haver um clima surdo de rejeição dos cidadãos de outras ideologias.


Vigora o triste e obtuso paradigma se não estás comigo és contra mim, dissimulado nos discursos de inclusão.


Se os candidatos amassem Chaves, como dizem, fariam uma coligação  entre  todos, limariam as arestas e far-se-iam representar  por personalidades com trabalho feito e comprovado, além da  vontade de  encetar um projeto comum para colmatar as necessidades prementes da população.


Poupar-nos-iam os encontros pungentes onde as acusações são o mote para mascarar a fragilidade dos programas e planos de ação para  resolução de problemas da cidade  para melhorar e manter a qualidade de vida população.


Aguardemos então que nos surpreenda uma vaga de iluminismo dessa massa crítica que se propõe governar nestes quatro anos vindouros de forma “descomprometida” de interesses individuais ou partidários…

 

Isabel Seixas



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Sábado, 25 de Maio de 2013

Emcerramento do I Congresso Internacional de Animação Sociocultural - Gerontologia e Geriatria

Conferência de Encerramento do Padre Lourenço Fontes

 

Capa do livro do Congresso

 

Encerrou hoje em Boticas o I Congresso Internacional de Animação Sociocultural – Gerontologia e Geriatria. Claro que quando estes assuntos são tratados em congresso por especialistas, as conclusões são sempre positivas e novos horizontes são abertos na resolução dos problemas e temas debatidos. Seria impossível trazer aqui todas as intervenções e mesmo as conclusões, e depois elas estão todas reunidas em livro, mas há uma intervenção que quero deixar aqui na íntegra, não só pelo seu autor ser uma autoridade aqui na região, a nível nacional e internacional, mas também por ser feito de toda uma cultura vivencial  no terreno junto e entre a nossa gente. Refiro-me ao Padre António Lourenço Fontes e à sua conferência de encerramento deste Congresso Internacional intitulada “O Envelhecer nas Terras do Barroso” que, com a devida vénia e autorização do autor de seguida reproduzo[1] :


Padre Lourenço Fontes


Envelhecer em Barroso  


Há uma arte de envelhecer, viver com regras ditadas pela tradição, da sabedoria popular barrosã. Vamos dar uma olhadela aos ditos e provérbios que andam de boca em boca e marcam a conduta geral de novos e velhos. Já que ditos velhos são evangelhos.


São muitos e valiosos os valores positivos,  apreciados pelas famílias dos nossos idosos e pela sociedade que os rodeia.


Velhos são os trapos, para dizer que ainda tem muito para dar. Quem de novo baila bem, de velho jeito lhe tem. Bailar cantar faz bem: quem canta seu mal espanta. Gostam de contar, cantar, rezar, ser ouvidos, orgulham-se até do sofrimento passado. Dizia uma idosa desgostosa da vida de emigrante: en France rien chante, au Portugal, tout le monde chante.


É triste ser velho, dizem em desabafo. Um velho triste é um triste velho. Para muitos é a única idade que não se recorda, nem deixa saudades. Bocage escrevia: já Bocage não sou, à cova escura, meu estro vai parar desfeito em vento…


São o equilíbrio e estabilidade da família, pelo saber de experiencia feito. Os avôs são pais duas vezes, além da genética, passam a tradição, a cultura barrosã, os contos, as lendas, as artes e ofícios, as rezas e mezinhas, a medicina ervanária, o cancioneiro e jogos infantis, a religiosidade popular, aos netos. Sentem-se válidos, com gosto e ilusão pela vida. Quem corre por gosto não cansa.




Têm o seu lugar de destaque na família, na mesa, e na comunidade da aldeia e é cabeça de casal, representa a família, conforme as posses ocupa o seu tempo, na agricultura, vai coas vacas, apoiado no cajato, com a rês, leva o burro a comer, vai à erva para os porcos de ceva, torna a água aos lameiros, vai à feira e as festas da sua devoção, cumpre promessas aos santos, vai aos velórios e funerais, cuida das campas dos seus.


 O velho tinha razão. Atrás de mim virá, quem bom de mim fará. Serve de consolação para os mais velhos quando,  reconhecidos. O velho e o menino vão para onde lhe fizerem carinho.


Envelhecer e viver no mundo rural Barrosão, na casinha pobre, mas cheia de memórias e vivências, com o seu pé-de-meia, a reforma poupada, para o fim da vida, ou para amimar filhos e netos, com nova ou velha profissão, prolonga a vida e dá-lhe sabor.


Hoje o telefone, substituiu as cartas, muitos não sabem ler.  O Ipad com o skype, facebook aproxima os avós dos netos e filhos distantes mantendo a proximidade e companhia, se iniciados e ensinados a descobrir esta nova tecnologia.


 Gosta de regressar vivo ou morto ao seu torrão natal, onde é estimado, chorado e sufragado, onde repousam os antepassados. Ruim é o pássaro que não volta à sua ribeira.  


São os idosos os mais resistentes povoadores, animadores e defensores enraizados, heróis vencedores, combatentes na agricultura, defesa do ambiente, educadores, moradores, conservadores de cultura popular, jogos, medicina, religiosidade popular, que merecem carinho, dedicação, atenção, na esperança de um futuro promissor de bem-estar com a natureza, a família. Em aldeias desertas restam eles guias turísticos, de rostos e mãos enrugadas, alvos de fotógrafos e cineastas, jornalistas. São enciclopédia aberta, inédita, neste Barroso  antigo, velho, paraíso a descobrir.


Cada idoso que morre é uma biblioteca que se enterra, e perde, se não for registada. Mais velho que a sé de Braga, diz-se para valorizar o saber do idoso. O diabo sabe muito, porque é velho



ASPETOS NEGATIVOS


A ameaça de maus tratos, a doença, a solidão, o abandono, a pressão para fazer testamento, escritura, doação, ou venda de bens, o perigo da braseira, de caírem ao lume de morrerem sem amparo, são muitas vezes pressões que aceleram o fim, o desgosto de viver, lágrimas de desconforto. Chegam a pedir a Deus que os leve, desabafam dizendo que são um estorvo, que já não servem para nada.


O que o berço dá a tumba o leva. Acabadas as obras da casa diz-se: ninho feito, pássaro morto. Velho mudado é velho enterrado. Alguns mudam cada mês, andam à roda pelos filhos, ou estranhos, muitas vezes no estrangeiro desgostosos, fechados, onde não conhecem nada e ninguém. Pedra mudada não cria musgo. Nem sempre se adaptam ao novo ambiente, às noras, ou sogras.   Filhos criados, trabalhos dobrados . São muitas vezes os únicos moradores na aldeia, no bairro.


Lembramos a lenda do filho que leva o velho ao monte e ao deixá-lo lhe dá a capa, o velho lhe diz: leva metade da capa, para quando fores velho te trouxerem para o monte.  Filho és pai serás como fizeres assim toparás. Casa de pais, escola de filhos. Cada um sair aos seus não é pecado.


Quem faz testamento, antes que morra, merece com uma cachaporra. Os novíssimos do velho são 4: Muita tosse, pouca posse, pingar-lhe o nariz, não saber o que diz. Cabra manca não tem sesta, e se a tem pouco lhe presta. Burro velho, erva tenra. Burro velho não aprende línguas. Burro velho não toma andadura e se a tem pouco lhe dura. Velhos ao canto.  Homem velho, mulher nova, filhos até à cova. Casamento e mortalha no céu se talham.


Em toda a Europa na terceira quarta da quaresma serrava-se a velha, avó. Em Vilar de Perdizes mantemos o ritual que consiste num cantar um responso em latim de noite à porta das avós, terminando com ruídos de latas, serras, gritos. Em Tourém é de dia que os rapazes da escola vão atormentar cada velha ate lhe darem uma pouca de palha que simboliza a velha e vão queimá-la com barulho de muitos chocalhos que abanam com gritos e choros: minha velhinha... Em S. António de Monforte os homens fazem sair de casa as avós, que vão todas juntas pela manhã passar o dia fora da aldeia, no monte Pitorca, só regressando à noite.


Muitos são vítimas do abandono dos filhos, emigrados ou não. É melhor ser cão na vila, que velho em muitas aldeias, criticam algumas famílias. Outros ficam-lhes com as magras reformas, em troca ou promessa de cuidados, usando as economias dos pensionistas para combater a crise atual e o desemprego de filhos e netos.


O cancioneiro Barrosão está cheio de romances, cantigas referindo-se aos defeitos e valores do idoso.

 

Hei-de amar-te até à morte

Até depois de morrer,

Até debaixo da terra,

Meu amor podendo ser.

 

Do tempo que já passou

Do tempo que já  lá vai.

Minha mãe já se não lembra,

Quando namorou meu pai.

 

Eu  casei-me com um velho

Hei-de me fartar de rir

Fiz-lhe a cama alta

Onde não possa subir.

 

Casei-me com uma velha

Por causa da filharada.

Pega o diabo da velha

Traz-me dez duma ninhada

 

Minha sogra morreu ontem,

O diabo vá com ela.

Deixou-me a chave da adega

O vinho bebeu-o ela…

 

Eu hei-de morrer cantando,

Já que chorando nasci

Não tenho porque chorar

Chore o diabo por ti.

 

Bocage poeta de sonetos brilhantes, confessou:


“Já Bocage não sou, à cova escura, meu estro vai parar desfeito em vento… eu me arrependo…. Oh se me creste gente impia, rasga meus versos crê na eternidade.


Citando Camões, grande Camões…só terei paz na sepultura.

 

Padre António Lourenço Fontes



[1] As imagens de ilustração são da responsabilidade do blog

 

 

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Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

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Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 154

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

154 – Acabada a fase do teatro começou a do cinema, também conhecida como o ciclo do “Trinta e Um”. Estava escrito nas estrelas, o José tinha de ser artista.


Já tinha experimentado a poesia com algum sucesso, o teatro com algum sacrifício e iniciava agora o seu ciclo cinematográfico. A partir daqui, apenas lhe faltava tentar a prosa, pois para a música não tinha jeito nenhum, apesar de possuir bom ouvido. Talvez desse um tocador medíocre de bombo ou um sofrível tangedor de ferrinhos, mas para o resto dos instrumentos era tosco de todo.


Podemos afirmar que a sua aproximação ao cinema já tinha sido iniciada há alguns anos atrás, quando, numa eira da sua aldeia, assistiu à projeção do “José do Telhado”, não do filme mudo realizado por Rino Lupo, em 1929, mas sim ao dirigido por Armando Miranda, em 1945; ou quando chorou baba e ranho ao assistir, no Café Terra Fria em Montalegre, ao “Amor de Perdição” de António Lopes Ribeiro, realizado em 1943. Também não é despicienda a visualização em televisão de várias películas, nomeadamente do “Feiticeiro de Oz”, de Victor Fleming, com a, para sempre, menina Judy Garland. Como viu o filme a preto e branco, nunca mais esqueceu a feiticeira que voava na vassoura e que se ria como uma louca. Essas imagens farão parte de muitos dos seus sonhos, ou, melhor dizendo, de maior parte dos seus pesadelos. Na sua condição de operário da construção civil, na já referida época missionária, José assistiu a muito filmes de cobóis e de kung fu.


Depois do 25 de Abril assistiu a três filmes fundadores da sua suposta personalidade artística: “Lawrence da Arábia”, de 1962, filmado por David Lean; “A Filha de Ryan”, de 1972, também da autoria do mesmo realizador; e o “Último Tango em Paris”, igualmente de 1972, realizado por Bernardo Bertolucci, a que assistiu no meio de centenas de espanhóis que faziam excursões para verem filmes deste género em Portugal, pois em Espanha Franco proibia-os de passarem nas salas de cinema.


Depois destes incidentes cinematográficos, dedicou-se a ler crítica de referência que o encaminhou para a cinematografia de Godard, Bergman, Fellini, Pasolini, Antonioni, Kurosawa, Fassbinder e Visconti.


Se antes saía do cinema um pouco embrutecido pela pouca qualidade dos filmes a que assistia, a partir das suas leituras de cineclubista passou a selecionar tanto os seus filmes que apenas ia aos que eram alvo das melhores críticas em revistas da especialidade, ainda mais densas do que os filmes de que falavam. Agora via-se e desejava-se para conseguir manter-se desperto até ao fim de um filme. E quanto melhores críticas tinham os filmes mais ele adormecia quando os via. Claro que começou a pensar, e com razão, que era muito estúpido e também ignorante.


O José bem perseverava na leitura das críticas e fazia os possíveis por se manter atento e desperto durante a projeção dos filmes. Mas, santo deus, adormecia quase sempre. E o pior era que o filme ainda nem sequer tinha chegado a meio. Por isso passou a ir ao cinema sempre sozinho, porquanto os amigos deram em lhe chamar pretensioso e convencido pois, apesar de falar muito bem dos filmes que programava ir assistir, nunca os conseguia ver até ao fim. Nem ele, nem os amigos, que o insultavam por os ter convencido a assistir “àquelas merdas”.


Eles, os ignaros, saíam a meio do filme fazendo um alarido enorme. Ele, o erudito, o devoto, ali se deixava ficar entre o sono e a qualidade intrínseca daquelas obras-primas da sétima arte que esvaziavam salas e punham as plateias aos gritos e às patadas no chão e nas cadeiras.


Vendo-o assim triste e abandonado, quer pelos amigos, quer pela sua imperfeita sensibilidade cinematográfica, Francisco, um seu colega de Liceu, resolveu convidá-lo para ir até ao “Trinta e Um”, pois andava a fazer ensaios para escolher atores e atrizes para rodar um filme em super 8. O José, um pouco envergonhado, disse-lhe que era um mau ator. O Francisco perguntou-lhe porque tinha tentado o teatro se não tinha as qualidades exigidas. Ele respondeu-lhe que se desenrascava a fazer de figurante. Foi então quando o Francisco atirou a matar: “Tens uma linda cara e um cabelo comprido que me fazem lembrar Jesus Cristo. Além disso, a representação no cinema é diferente da do teatro. Aparece lá, que logo vemos.”


E o José apareceu no “Trinta e Um” com a sua carinha larocas, o seu cabelo comprido e ondulado, os seus olhos carinhosos e o seu magro corpo de modelo. Francisco apresentou-o à malta e ofereceu-lhe qualquer coisa de beber. Depois passou um charro, ou dois, pela sala, mas o José, quando viu chegada a sua vez, agarrou na prisca e colocou-a nas mãos do seguinte elemento sem a levar aos lábios. Começou logo a ser olhado de lado. Quem rejeita partilhar um charro não é parceiro à altura de acamaradar, especialmente entre a gente das artes. Dar uma passa no charro cria identificação com o grupo ou coisa pelo estilo.


Alguns colegas do Liceu começaram logo a dizer à boca pequena que o José era o típico punhalista, não fumava maconha e criticava quem o fazia. Ali a malta era toda antirrevisionista. Tudo esquerdista da melhor linhagem. Tudo bom filho da burguesia. Por isso todos antissistema capitalista. Todos bons maoistas. E riam-se muito depois de dar uma passa na prisca. Todos se riam menos o José, que começou a pensar que troçavam dele. Depois de muito se beber e de muito se chupar nas priscas de liamba, o Francisco começou os ensaios. Tudo muito felliniano, muito circense, muito maneirista. O José saiu-se mal como o caralho. Não se conseguia descontrair e por isso não se mexia direito nem falava que se ouvisse.


Não foi chamado a entrar no filme. Mas Francisco não deixou de o convidar para o “Trinta e Um”. Ele não rejeitou a oferta, pelo menos lá podia observar boas fotos, ler livros interessantes e ouvir música de qualidade.


O único elemento com quem conseguiu acamaradar foi um rapaz que se apelidava de poeta e que escrevia quase em transe, provocado não por qualquer apelo divino, mas antes pela cerveja e uns ácidos excitantes que misturava com muita erudição e habilidade. Depois de engolir uns comprimidos e de beber duas ou três imperiais, subia ao “Trinta e Um”, pegava num caderno e numa esferográfica e escrevia até que o efeito lhe passasse. Por vezes saíam-lhe coisas com alguma qualidade que ele recitava para o José, ou ainda para o Francisco, quando este se encontrava a sós observando fotografias ou visionando filmes por si realizados.


O seu novo amigo também não entrava nos filmes do proprietário do “Trinta e Um”, pois, apesar de ser um bom poeta, era feio como as igrejas. O José por vezes brincava com ele, dizendo-lhe que se o Francisco fosse um adepto de Pasolini tinha com toda a certeza o papel principal, pois, na sua opinião, o Pasolini escolhia para os seus filmes sempre as criaturas mais feias que lhe apareciam pela frente. O poeta ameaçava-o sempre entre um sorriso e uma gargalhada: “Qualquer dia dou-te um beijo na boca para te calar.”


O Francisco falava muito com bonitas raparigas e algumas vezes com alguns rapazes lindos que por ali apareciam. O José invejava-lhe a sorte. Até ao dia em que soube que o Francisco, como bom artista de vanguarda, tinha uma inclinação para ser um amigo e cúmplice das meninas, mas uma teimosa cisma em namorar com os rapazes.


A última vez que entrou no “Trinta e Um”, foi uma tarde em que encontrou o Francisco sozinho de avental e espanador do pó na mão a escutar músicas da Gloria Gaynor e a dançar com uns trejeitos um pouco afetados para o seu gosto de comunista punhalista e de ex-seminarista assumido.


“Não queres dançar comigo”, perguntou-lhe o Francisco. Liberta-te desses preconceitos burgueses e da rigidez ideológica do marxismo-leninismo. Vem, solta-te, dança comigo, despe-te…”, mas não disse mais nada pois o José saiu do “Trinta e Um” como se fosse um diabo a abandonar o corpo de um possuído depois de ter sido expulso por um exorcista da força e do carisma do padre Fontes.


155 – Mas a sua carreira cinematográfica não acabou no “Trinta e Um”, era o ...

 

(continua)

 

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Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

Leituras de um olhar

 


 

 

Amizade

 

Ele, perdido por achar

Escondido no alto do monte:

Quem à claridade o vê

Confunde-o com o vento,

Quem na escuridão o escuta

Quer ver a luz e o rumo

 

É pequeno, à luz do dia

E grande na vastidão da noite…

 

Também poderia ser assim

Mas sucumbe-me o desejo:

Só quando o Mar bravo afasta e atormenta

Quer ele encontrar um porto seguro

Quando manso e claro

Por mais alto que esteja é ignorado



Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves



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Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Quatro Lumbudus em Bragança

 

Inaugurou ontem dia 20, na Galeria Flor do Passarinho em Bragança, uma exposição de fotografia intitulada “ A Exuberância do Barroso”. Os 4 fotógrafos convidados – Dinis Ponteira, Fernando Ribeiro, João Madureira e Nordeste AFL -  são todos da LUMBUDUS - Associação de Fotografia e gravura, com “sede” em Chaves.

 

A exposição está patente ao público até ao dia 10 de junho.

 

Não ficam todas, mas fica uma mostra de uma foto de cada autor:







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Intermitências

 

A Perfeição

 

“A perfeição é um círculo. Onde há anseios. Vontades. Receios. E onde há estátuas móveis. Hoje estalam as nossas origens, e ninguém repara. Os estilhaços espalham-se pelo mundo fora. E você, onde estará amanhã?


Não tema. Nunca alcançará aquilo que tanto imaginou. Alcançará algo totalmente diferente: muito melhor, ou muito pior. Não tema. Se não a encontrar, se continuar perdido, estará mais perto do que os que julgam saber o que querem e para onde vão.


A perfeição é um círculo. Não tente fugir. Gire sempre: rápido quando é convidado, devagar quando deixa de ser bem-vindo. Verá que é violento, mas, no fim de contas, fácil”.


1)    Já conhece a teoria. Não a usa. Não procura a perfeição, nem sequer sabe defini-la, mas preocupa-se sempre muito com o amanhã. Isso quer saber sempre.

 

2)    Não conhece a teoria. Usa-a sem saber. Procura a perfeição em qualquer situação, mas não se lembra do momento em que esteve mais perto de alcançá-la. Tem muito para oferecer. Isso quer dar sempre.

 

“A perfeição é um círculo. Você está forçosamente dentro e precisa de girar, comunicar. Sempre. Interagir, criar conexões e, se necessário, cortar ligações. Recorde-se que para girar dentro dela, primeiro, apenas é necessário aliar-se à natureza, ao básico, o único elo essencial ao Homem. Depois, vem o Ser. Em qualquer caso, não adianta exceder-se demasiado: trata-se de um círculo desumano, onde não existe amanhã.


Barcelona, Maio de 2013 - Fotografia de Sandra Pereira


Não tema. Conte a sua história imperfeita.”


1)    Conta-a ao divino.

2)    Junta-a em teses.

3)    Muda-a constantemente.

4)    Tenta esquecê-la.

5)    Ignora-a.

 

“Continue o teste. Não acerte na resposta, tente antes acertar na ciência ou na arte de bem girar dentro do círculo da perfeição. Faça contas ou invente. Sempre com técnica, é ela que hoje faz girar a roda do mundo, das sociedades, das coisas. Lembre-se também que tudo está em permanente construção (amontoado por partes) ou em evolução (divido por fases). Entretanto, estalam as nossas origens, e ninguém repara. Os estilhaços espalham-se pelo mundo fora”.


1)    Faz contas.

2)    Inventa.

 

“Lembre-se: a perfeição é um círculo, onde há estátuas móveis. Que importa saber onde estará amanhã? Não tema.


Continue o teste”.


 

Sandra Pereira



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publicado por Fer.Ribeiro às 02:14
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Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (38): implosão e amizade

 

No momento em que escrevo esta crónica está a chover e o dia teima em manter-se triste e cinzento. Também eu estou triste porque sinto a pátria a implodir perante a inépcia de uns e a arrogância de outros. Sinto que o Governo da Nação é um mal sem cura, pois apenas consegue sobreviver da desgraça alheia, alimentando-se do desespero das pessoas, perseguindo e aniquilando classes sociais, direitos estabelecidos e expectativas legítimas. Criando uma tal mol humana de desempregados que é já uma calamidade social da qual talvez nunca conseguiremos recuperar. 

 

Quem serviu o seu país com lealdade não sabe quanto tempo mais será capaz de aguentar sem ser levado a fazer um protesto radical que ponha definitivamente cobro a este atentado à liberdade e à coesão social e política. Este Governo está a por tudo em causa, até a fé.

 

Já não temos fé nem na autoridade, nem na verdade e muito menos nos políticos. Chegamos ao ponto em que questionamos toda e qualquer instituição. Já ninguém acredita em nada. Nem no protesto.

 

Dizem que ele é inútil. Também Cristo protestou e por isso morreu na Cruz. Será que foi inútil o seu sacrifício? Protestar é agora uma obrigação que temos para connosco mas, sobretudo, para com os outros e para com a sociedade em geral.

 

Vivemos num mundo de mentira e arrogância, onde até um Governo eleito democraticamente se acha no direito de perseguir e amedrontar todo um povo. Ainda nos é difícil de compreender esta necessidade de vingança, esta sanha neoliberal, esta afronta aos trabalhadores, esta perseguição sem quartel aos funcionários públicos e aos reformados. 

 

A sociedade ocidental lidou com o comunismo e conseguiu vencê-lo. Agora é imperioso lidar com o capitalismo e domesticá-lo. E a seguir, como muito bem disse John Le Carré, temos de ir saber onde está a esperança, pois neste momento não a conseguimos encontrar. Tal como ele, também nós continuamos à procura da esperança para entender onde é que os nossos filhos e os nossos netos irão viver. É triste chegar a velho e perceber que pouco ou nada muda.

 

O nosso primeiro-ministro, e o seu ministro das Finanças, tal como Thatcher, apaixonaram-se pelo dinheiro, como uns velhos avarentos. E não desistem de tudo privatizarem. Qualquer dia até privatizam o ar que respiramos.

 

Os nossos ministros, especialmente o nosso-primeiro e o seu alter-ego Vítor Gaspar, são como os ministros que povoam o último romance de Le Carré: incompetentes. É muito difícil saber como agir face a tanta ignorância e incompetência ministerial. Afinal, como é que se procede perante a estupidez? Le Carré dá uma pista: “Talvez a esperança esteja apenas naquilo que cada um de nós pode fazer.”

 

Olhando para quem nos dirige, seja no Governo Central, seja nas autarquias, tudo indica que a incompetência é uma espécie de cultura. Parece que alguns rapazes, que nada mais fizeram na vida do que furar dentro dos partidos do poder, resolveram meter-se na política para preencherem o seu vazio, a sua inépcia e as suas frustrações. E agora somos nós os que vamos pagar as vacas ao dono.

 

Definitivamente, os nossos políticos não estão à altura da gravíssima situação histórica em que vivemos.

 

Como lembra o filósofo francês Gilles Lipovetsky, vivemos na era do vazio e na sociedade da decepção.

 

Antes de terminar, aqui deixo um aviso à navegação. Eu nunca compreendi “esse” medo de ficar sozinho. Nisso penso o mesmo que o Pedro Mexia: “Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar. E há, digamos, dez pessoas de quem gosto, dez pessoas sobre quem não me engano, e dez pessoas é um mundo.”

 

E depois o mundo volta a encher-se de pessoas.

 

João Madureira

 

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Domingo, 19 de Maio de 2013

Pecados e Picardias

 

A dor

 

Já deixamos fugir vazios, sonhos antigos

Agora talvez seja melhor não prometer

Sabes a dor de os imaginar perdidos

Tira-me o sono e a vontade de viver

 

E quando a culpa, que  nos fica, é  vergonha

Fugimos também de nós, cheios de rancor

Pode ser que  reste um de nós que ponha

Um  voltar atrás como nos filmes de amor

 

Sabes a dor de os ver ir, para lá de nós

Como um destino que deixamos acontecer

Traz  o medo de mesmo juntos, ficarmos sós

 

Com  inércia da vontade  a esmorecer

E  encontros adiados a evitar a dor

Talvez sejam tempos de esperas, meu amor…

 

Isabel Seixas



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Sábado, 18 de Maio de 2013

Mairos e Torga

 

A neve não é de hoje, mas até podia ser pois a lareira está acesa e lá fora o frio diz-nos que por ai à volta, nas serras mais altas, há neve de certeza, embora maio já caminhe para junho. Mas a razão desta primeira foto é para trazer aqui umas palavras de Torga, que pela certa foram inspiradas ou mesmo escritas na proximidade desta imagem.

 

Mairos, Chaves, 1 de Setembro de 1989


Quanto mais chegado a Espanha, mais eu gosto de Portugal. Nestas terras raianas a pátria sente-se nos pés. Quando ela acaba, o piso é outro.


Miguel Torga, in Diário XV

 


Palavras de Torga que irão passar por aqui muitas vezes. Lá para o próximo mês este blog fara uma pequena remodelação. Entrarão novos autores, imagens de outros fotógrafos e Miguel Torga terá aqui um espaço semanal. Já que a cidade não presta a devida homenagem àquele que sem qualquer dúvida é o maior poeta de Portugal, este blog irá trazê-lo aqui todas as semanas com aquilo que ele dizia de nós e, podem crer que não há ninguém que melhor nos conheça ou conheça Portugal como ele conheceu.




Mas Torga e alterações ao blog só para junho e já quando ele caminhar para julho, entretanto vamos mantendo o blog como até aqui, mas pode ficar desde já prometido que o mundo rural flaviense continuará a ter aqui lugar aos fins-de-semana.



Entretanto hoje vamos mais uma vez até Mairos e com alguns dos seus motivos de interesse, como o interessantíssimo peto que penso nunca aqui ter trazido. Mas nunca é tarde e se não fosse hoje seria para uma próxima vez.




Ficam também mais palavras de Torga. Palavras que ao serem lidas se transformam em imagens que tive a sorte de ver e de viver, por isso também mais sentidas “que nem podem imaginar nem a fundura, nem a santidade”, mas sobretudo palavras que são documentos:

 

Mairos, Chaves, 4 de Setembro de 1990


Despeço-me supersticiosamente da paz do planalto em restolho. O sol morre nos confins dos horizontes, as charruas dormitam, cansadas, à beira dos caminhos, manadas de vacas arrastam placidamente o amojo a caminho da ordenha, e o meu silêncio apreensivo como que cumplicia os companheiros  numa comunhão cósmica de que não podem imaginar nem a fundura, nem a santidade.


Miguel Torga, In Diário XVI



 

Miguel Torga, in Diário XVI

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publicado por Fer.Ribeiro às 19:33
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