12 anos
Segunda-feira, 30 de Setembro de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (57): a escrita e a sede

 

 

Já várias vezes me perguntaram porque escrevo livros sem garantia de publicação. Eu sorrio e fico calado por que nem eu sei bem a razão. Mas partilho da ideia de Gabriel García Márquez de que escrever livros é quase uma atividade suicida.

 

Na opinião do autor de “Cem Anos de Solidão” nenhuma outra exige tanto tempo, tanto trabalho, tanta dedicação comparativamente aos benefícios imediatos.

 

Escreveu ele: “Não acredito que, ao chegarem ao fim de um livro, muitos leitores se questionem sobre quantas horas de angústia e calamidades domésticas custaram aquelas duzentas páginas ao autor ou quanto recebeu pelo seu trabalho […]. Depois desta sombria estimativa de infortúnios é elementar perguntar porque é que nós, escritores, escrevemos. Inevitavelmente, a resposta é tão melodramática como sincera. É-se escritor, simplesmente, como se é judeu ou negro. O sucesso é encorajador, o favor dos nossos leitores é estimulante, mas não passam de meros ganhos adicionais porque um bom escritor continuará a escrever aconteça o que acontecer, mesmo que os seus sapatos precisem de ser remendados e mesmo que os seus livros não vendam.”

 

Mas para tristeza nossa, os portugueses estão muito mais interessados no campeonato nacional de futebol do que com o que está a acontecer ao país. E eu até os compreendo. Enquanto tudo à nossa volta se desmorona, mais vale morrer anestesiado do que cheio de dores.

 

Os nossos políticos andam agora sobretudo entretidos com as informações sobre a altura do primeiro-ministro francês ou sobre o tamanho dos sapatos da senhora Merkel. Apesar de virem para as televisões afirmar que andam especialmente preocupados com a crise.

 

Entretanto, os escritores consagrados relacionam-se não apenas com a compaixão e a caridade, mas, sobretudo com o poder. E, pegando nas suas próprias palavras, igualmente com a responsabilidade, a solidariedade, o empenho e, porque não dizê-lo com toda a clareza, com o amor.

 

Eu a ter que me definir em termos políticos e sociais direi que defendo o sentido da solidariedade, que é o mesmo que a minha avó chamava de Comunhão dos Santos. Isso significa que cada um dos nossos atos nos torna corresponsáveis por toda a humanidade. Ninguém vive sozinho. Todos somos responsáveis por todos. Acho que quando uma pessoa descobre isto é porque atingiu o ponto mais elevado da sua consciência política.

 

Portugal continua a ser um país com uma consciência política reduzida. E ainda vai ficar pior porque os portugueses já não acreditam em nada, a não ser na Nossa Senhora de Fátima. De facto, se a religião nunca nos levou a lado nenhum, a política ainda tornou isto pior. Por isso, é que existe disseminada no tecido social português a atitude do salve-se quem puder e cada um por si. Este é o presságio para a destruição social completa.

 

O pior é que nem o Governo, nem a Assembleia, nem o presidente da República, nem os partidos maioritários se deram conta do descalabro. Todos pressentimos que o abismo está apenas a um passo.

 

Mas a vida segue para uns e termina para outros. No livro “A Casa das Belas Adormecidas”, Yasunari Kawabata escreveu: “Os velhos têm a morte e os jovens têm o amor, e a morte só vem uma vez e o amor muitas vezes.”

 

E o escritor continua a escrever porque, como exprimiu García Márquez, “a vida não é o que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la”.

 

E é também com as palavras de Gabo, ditas numa entrevista a Juan Gossaín em 1971, que termino por hoje: “Sabes, meu velho amigo, a sede de poder é o resultado de uma incapacidade de amar.”

 

João Madureira

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Resultados Autárquicos

Para quem vem por aqui à procura das novidades autárquicas do concelho de Chaves, ficam os resultados para a Câmara Municipal após a contagem terminada:

 

PSD – 9767 votos – 3 Mandatos


PS – 7363 votos – 3 Mandatos


Independentes - MAI – XIII – 3706 votos -  1 Mandato

 

Para mais logo, deixaremos por aqui os restantes resultados.



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publicado por Fer.Ribeiro às 03:00
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Domingo, 29 de Setembro de 2013

Pecados e Picardias

 

Reflexão

 

Adormecemos  com consciência da razão

Desligamos os holofotes de euforia

 não acreditamos, não aprendemos a lição

deixamos a reflexão para um outro dia

 

 há uma incerteza sem vergonha ou pudor

teima em estar presente mas sem nada mudar

joga às escondidas com  alivio e  dor

deixa a reflexão afogar-se, deixa andar…

 

fenómenos coletivos  cegueiras abismais

perduram por aí como o desejo de amar

uma reflexão corre  foge como as demais

 

perdida sem apelação por tanto esperar

então finalmente já sem tempo acordamos

 já  tarde, a reflexão final espera… Vamos. 

 

Isabel Seixas

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:55
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Sábado, 28 de Setembro de 2013

S. Gonçalo para refletir

 

Hoje é dia de reflexão e cada um lá terá os seus modos de melhor refletir. Cá por mim gosto de refletir sozinho e de preferência em contato com a natureza, onde pasmo mais que reflito, isto é, entro em meditação de meditar coisa nenhuma e, mesmo que depois de longa reflexão e meditação não se chegue a nenhuma conclusão, pelo menos valeu pela paz, pela renovação do espírito e saímos desse estado de êxtase, como formatados para uma nova entrada na vida social das obrigações e deveres.




Dizia aqui no último fim-de-semana que a Granjinha tinha sido uma das minhas felizes descobertas e que tinha um lugar especial no coração. Disse-o e não retiro uma palavra, mas estava a referir-me a lugares com gente, com casas, ruas e esquinas, com vida humana, com estórias e história, mas há outros lugares que não os troco por coisa alguma, aqueles onde nós somos apenas nós e,  por estarmos na croa da montanha de uma das do mar de montanhas, estamos mais próximos do céu, menos alcançáveis, mais elevados, grandes. Só nós e a natureza, e,  podem crer,  que não há beleza igual. Claro que isto só se aplica a quem se aplica, pois nem todos encontram nessa beleza, a beleza que os meus olhos erguem. Gostam doutras belezas e com todo o direito de gostar, pois não temos de ser todos iguais e assim, também as nossas belezas são mais nossas.




Pois esse lugar de que vos falo, aqui por perto, só acontece em terras de São Vicente da Raia, em vários locais, mas o meu preferido é mesmo aquele que se eleva sobre o São Gonçalo, visto do lado de Parada a certas horas do dia, ou mais do lado de Orjais noutras horas, e se depois da elevação mergulharmos nas entranhas das montanhas, até onde as águas do Mousse ou do Mente desbravam os seus destinos, então saímos de lá completamente extasiados.    

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 15:00
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As Coisas Boas da Vida

 

Contemplar o romper da aurora

 

O pôr-do-sol é, sem dúvida, um fenómeno de rara beleza e certamente que já todos nós ficámos, pelo menos uma vez na vida, parados a observar os últimos e já débeis raios de sol estirando-se do horizonte. Pode ter sido no campo, no final de um solitário dia de passeio; ou então caminhando pela areia molhada da praia, de mãos dadas com a pessoa amada e a água do mar a roçar-nos os pés; ou simplesmente na varanda de nossa casa, recostados numa cadeira de encosto, enquanto nos entregávamos a uma agradável leitura...


Mas, se o pôr-do-sol nos fascina, o que dizer do romper da aurora? Será que já alguma vez reparámos na sua força e na sua beleza? Provavelmente não, porque a essa hora muitos de nós ainda estão a sorver os derradeiros instantes de sono, ou então já acordados mas a preparar-se apressadamente para sair para o emprego ou para a escola, sem tempo para reparar no que está a acontecer lá fora... A verdade, porém, é que o romper da aurora é, sem dúvida, um dos espectáculos mais dignos e admiráveis de se ver. Nascido do frio e da escuridão, um teimoso sol desponta em cada madrugada e com ele tudo ganha uma nova vida e uma nova luz para depois, uma vez mais, enfrentar o cair da noite. Pode surgir esplendoroso ou encoberto por densas nuvens... mas sabemos que está lá... bem acima de nós...




Aceite o meu conselho. Um dia destes faça a experiência. Levante-se mais cedo, saia de casa, e, se possível, vá para um local elevado e isolado, longe do ruído e da agitação da cidade. Respire o ar fresco da madrugada, concentre-se nos sons e nos silêncios da natureza e depois procure a linha do horizonte e... deslumbre-se. Se puder, para tornar tudo ainda mais perfeito, faça-o em boa companhia. Vai ver que vale realmente a pena.


Experimente e depois diga-me qualquer coisa...

 

Luís dos Anjos



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publicado por Fer.Ribeiro às 00:43
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Sexta-feira, 27 de Setembro de 2013

O Barroso aqui tão perto...

 

GAITA-DE-FOLES COM OLHOS E BOLSA ROTA…

 

Um dia o Prica foi à feira da Venda Nova. Andava ele a ver o toural do gado, esbarra com o Lobete da Coimbró e o Raposo de Salto a marralharem o preço duma vaca.


Chamaram-no para fechar o negócio.


Ora o Prica ficou, por assim dizer, entre o diabo e a mãe. O Lobete era primo; o Raposo, vizinho de porta.


Pergunta o Raposo, que, no caso, era quem vendia:


- Ó Prica, diz lá: a vaca é boa ou não é?


- É boa, é! – responde o Prica em voz alta. E depois, cosendo-se com o primo, em surdina: - Mas abortou há quinze dias…


Mas que o Lobete ouvia mal…


- Que dizes?


- Que a vaca é boa! – repete o Prica, arredondando a voz. E, por entre dentes: - Mas abortou há quinze dias…


- O Quê? – volta o Lobete, pondo a mão em concha atrás da orelha.


- Que a vaca é boa – Grita o Prica. E, voltando costas: - Vai-ta-foder…




Meia hora depois, o Raposo estava direito com ele.


- Vamos beber um copo.


- Obrigado, mas por agora não me apetece – responde o Prica, ainda com a má consciência de ter enfiado o barrete ao primo.


- Não me faças uma desfeita dessas! – insiste o Raposo. – Com um sol destes, quem não há-de ter sede? Cá por mim, estou com um secão que nem me tenho nas pernas. Vamos ali ao Machado, que tem lá um verdinho detrás da orelha.


Realmente estava calor e o Prica sentia a garganta seca. Aceitou o convite.


Estavam eles ao balcão, aparece o Lobete. Atrás do Lobete, vieram outros. Agora pago eu, depois pagas tu, pelo varrer da feira o Prica estava com uma zurca de todo o tamanho. Comprou um quarteirão de sardinhas para levar à patroa, meteu-as entre a camisa e a coiracha e juntou-se aos vizinhos que regressavam a casa. Lá veio vindo, monte arriba, de canto em esquina. À entrada do povo, apeteceu-lhe mijar. Desabotoou a carcela, puxou a cabeça duma sardinha para fora e pôs-se a mijar pelas penas abaixo.


Sentido o mijo nas coxas, começo a gritar:


- Ó rapazes? Quereis lá ver que se me rompeu a veia da urina? Ai a minha desgraça…


E, olhando para a sardinha na mão direita, à luz do luar, benzeu-se com a esquerda:


- Tó, diabo! Há sessenta anos que te tenho, e só agora reparo que tens olhos…

 

Bento da Cruz, In Histórias da Vermelhinha


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publicado por Fer.Ribeiro às 17:00
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Discursos sobre a cidade - Por Isabel Seixas

 

Reflexos do tempo


Claro que vou votar, nem as eleições se faziam…

 

A época é de reflexão e as premissas são areias movediças onde a desconfiança se afoga e vem ao de cima…


Se o teu silêncio histórico te permitisse escolher, se a torre de menagem visse quem te defende mais do que se defende a si próprio, que… Convenhamos também é legítimo…


Hum, Chaves os dias de sol aumentam o calor da expectativa de mudança, nem que seja para o mesmo modelo de gestão autárquica.


Os discursos derivam para o enfatizar os defeitos dos opositores e as virtudes de quem discursa …


Há sondagens estratégicas para induzir subliminarmente o voto e quem as encomenda ganha quase sempre.


Acordas com o hastear bandeiras nos carros com um fundo musical apelativo e ouves cidadãos cantar vitória mesmo predizendo a derrota…


Anda por aí uma esperança de obtenção de dividendos, de curiosidades mas mais ainda de esperança, esperança em recuperar os jardins da nossa saudade, em fazer os teus jardins irradiarem mais consensos…


A tua imagem estrutural é agora discutida ao pormenor e já todos são cirurgiões plásticos que sugerem as tuas operações estéticas como se ao mudar o traje se mude a alma…


Desde os trabalhadores que vivem nas tuas madrugas aos que percorrem as tuas noites , desde as cores das tuas rotundas proclamadas por flores viçosas, os fortes guardam-te nos bastidores da discrição serenos como sereno e quase vazio o Tâmega nas suas águas cansadas de esperar as chuvas sua lufada de ar e água fresca para não estagnar, desde os bustos  que escreveram a tua história, o teu coração bate mais forte da lapa  até à top model…


Conhecemo-nos mutuamente há 42 anos ostento-te com o orgulho de quem Te vive Chaves cada dia,  os teus palcos são inclusivos e abarcam quem te quiser…O meu amor por ti é sempre, a minha vinculação debruada a afeto troca de colo nos teus espaços conforme a fome e a sede dos meus pensamentos, neste retiro de reflexão para ver a quem vais vestir as calças não esqueças esta explosão generalizada de amor por Ti Mulher fatal que todos Te querem governar…


Claro que vou votar, nem as eleições se faziam…


Também o teu povo é soberano e sabe decidir…

 

Isabel Seixas



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publicado por Fer.Ribeiro às 02:48
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Quinta-feira, 26 de Setembro de 2013

O Homem Sem Memória - 171

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

171 – Depois de sonhar com o rio da sua terra, com o sol iluminando as árvores da Clérga, com a chuva regando as terras da ribeira e com o lindo sorriso da sua avó materna, o José foi acordado aos solavancos por um dos seus novos amigos, aquele lhe era mais dedicado.


A cela estava uma autêntica bagunça, fruto do descuido de homens que foram desde sempre habituados a considerar o trabalho doméstico como tarefa exclusivamente feminina. Depois de abrir os olhos com alguma dificuldade, pois tinha abusado um pouco da pinga na noite anterior, o nosso herói foi informado de que um seu ex-camarada insistia em lhe falar. Ele adivinhou logo a identidade do interlocutor e o motivo da conversa. Só podia ser o Graça.


“Deixo-o entrar ou dou-lhe uma boa sova cristã?”, perguntou o apelidado de Jesuíta. “Deixa-o entrar. Eu encarrego-me de lhe bater”, respondeu o José.


Mal entrou na cela, o Graça, mais pálido e deprimido do que era costume, agradeceu-lhe a deferência e perguntou-lhe se estava bem de saúde. Ele disse que sim. Que estava sereno e em paz com a sua alma. “Agora tens alma? Nasceu-te tarde”, aferroou-o o Graça. “Tenho-a desde que nasci. Ou mesmo um pouco antes. Nunca te esqueças que falei dentro da barriga da minha mãe.” “És um ungido. Voltaste ao cristianismo?” “Sim e não.” “Contigo nada é certo. Por que voltaste atrás?” “Porque me apeteceu.” “Acreditas de novo em Deus e na vida eterna?” “Não sei. E tu continuas a acreditar numa sociedade sem classes, no fim da exploração do homem pelo homem e no triunfo do comunismo?” “Claro que sim.” “Então andamos os dois enganados. Mas de certeza que não foi por isso que vieste falar comigo?” “Não. Vim para saber da tua resposta. Voltas à organização do Partido?” “Não.” “Porquê?” “Porque não me apetece.” “Olha que isto é uma coisa séria! Não brinques com o fogo?” “Eu já não acredito na revolução. Basicamente, já não acredito em nada.” “Não me leves a mal, mas acho que as tuas novas companhias são uma má influência.” “A minha mãe dizia-me o mesmo de ti e dos teus camaradas.” “E tu achas que somos todos iguais?” “Essa pergunta vinda de um comunista tem a sua piada. Afinal George Orwell tem razão: todos os homens são iguais só que uns são mais iguais do que outros. E vós, os comunistas, sois os mais iguais de todos.” “Não brinques com as palavras…” “Eu não estou a brincar. Estou a falar muito a sério.” “Mesmo que não seja pelos ideais, volta ao Partido.” “Se não acredito porque hei de voltar?” “Pois, pela nossa amizade.” “Esse foi o meu erro. Confundir a amizade com a política. Eu posso deixar de ser comunista, mas nunca deixarei de ser teu amigo.” “A mim não me é permitido tal atitude.” “Só te autorizam a ser amigo de comunistas?” “É mais ou menos isso. Se ainda fosses socialista ou outra coisa pelo estilo, ou até mesmo reacionário bem-intencionado, tudo bem. Mas é determinantemente proibido a um comunista organizado dar-se com um rachado.” “Não sabia que existiam reacionários bem-intencionados.” “É uma maneira de falar. Podes ser socialista ou mesmo reacionário, mas rachado é que não.” “Mas eu não sou rachado.” “Ai não que não és!” “Eu não traí ninguém. Limitei-me a sair da organização.” “A designação de rachado é o Partido que a atribui. Tu nisso nem és tido nem achado. E rachado uma vez, rachado para sempre. Esse, para os comunistas, é um pecado mortal. Literalmente. Numa sociedade socialista eras imediatamente fuzilado por alta traição. Comunista uma vez…” “Comunista para sempre.” “Nada na vida pode ser encarado como definitivo, a não ser a morte.” “O comunismo pode.” “Porque é a morte…” “Da sociedade capitalista…” “Não. Porque é a morte espiritual do ser humano e a morte da liberdade individual.” “Isso é uma blasfémia. Como podes afirmar uma coisa dessas?” “Pois porque o sei.” “O comunismo, em nome da liberdade suprema, institui a repressão absoluta.” “És um anticomunista primário…” “O que tu queres dizer é que sou um pecador.” “De certa forma, sim.” “Afinal, o cristão és tu.” “Eu sou apenas um simples militante revolucionário.” “Tu és apenas um pau mandado. Mas eu perdoo-te.” “E quem és tu para me perdoares?” “Sou teu amigo.” “Se o és, tens de voltar ao seio do Partido…” “Como se ele fosse uma mãe. Mãe só há uma.” “Voltas ou não voltas?” “Não.” “É definitivo?” “Sim.” “Sabes que me colocas numa situação delicada.” “Como assim?” “Quem foi que te levou para o Partido?” “Foste tu.” “Quem foi que te controlou estes anos todos?” “Foste tu. Mas o que é que isso tem a ver com o resto.” “Tudo.” “Eu sei que tudo tem a ver com tudo, mas não estava a colocar a conversa numa perspetiva filosófica.” “Falando a sério, o Partido diz que se não regressares à organização a culpa é minha e por isso terei de sofrer as consequências.” “Mas tu não tens culpa rigorosamente nenhuma. A culpa têm-na os outros.” “Mas eles pensam o contrário. O Partido é que define quem é culpado ou inocente. Definiu que se não regressares às nossas fileiras és um rachado e deliberou que eu sou o culpado de tudo.” “E o que é que te pode acontecer. Mandarem-te para a Sibéria?” “Essa tem piada, mas eu não me consigo rir. A situação é muito séria. Ou regressas, ou expulsam-me.” “Achas que é honesto eu ir outra vez para uma organização que não respeito e da qual desconfio profundamente?” “Não sei. Não quero pensar nisso. Estás na prisão tal como eu. Que diferença te faz entrares ou não entrares na organização.” “Eu estou preso fisicamente, mas a minha vontade e o meu pensamento continuam livres.” “E isso serve-te de quê?” “Nem te respondo.” “Regressas ou não?” “Não. Dessa maneira salvo-te da mentira. Tu merece-lo.” “Obrigado senhor abade. O cadafalso aguarda-me. Reza-me pela alma.”


Nesse momento entrou na cela o Jesuíta e perguntou se estava tudo bem ou era necessária a sua intervenção. “Bofetadas já lhe chegam as que leva dos guardas prisionais nos interrogatórios. Dá-lhe mas é uma sandes de presunto e um copo de tinto, antes de ir embora. E que Deus o acompanhe.” “Assim farei, irmão”, respondeu o Jesuíta. “Obrigado pelo matabicho”, disse o Graça. E rematou: “Este é o último desejo do condenado.” O José: “Quem morre pela revolução, morre feliz.” O Graça: “Vai-te foder.” “Igualmente.” O Jesuíta para o Graça: “Ou te calas, ou dou-te umas lambadas que te fodo.” “Não te atrevas a tocar-lhe…”, avisou o José.

 

172 – Andava o José atarefado a organizar ...

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Carlos Gonçalves em exposição Lumbudus

Aqui no blog, termina hoje a exposição virtual “Barroso”, de Carlos Gonçalves, com as últimas duas imagens. Entretanto a exposição continua, em papel, no Polo da UTAD de Chaves/Escola de Enfermagem, que estará patente ao público até ao próximo dia 9 de outubro.





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publicado por Fer.Ribeiro às 02:23
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Quarta-feira, 25 de Setembro de 2013

Ocasionais - "A Árvore da Saudade"

 

“A ÁRVORE da SAUDADE”

 

Agora é o Setembro a roubar o calor de Agosto.


Os tempos andam mudados.


Depressa ficarão trocados.


Mas o luar de Agosto, na MINHA ALDEIA, ainda é o mais lindo do mundo!


Igual, igual, só o de Janeiro, em noites claras a prometerem frio e frio de geadas fortes e tremulentas.


No “Largo do Carvalho”, em Agostos já tão distantes, depois da ceia, juntavam-se algumas das poucas pessoas da MINHA ALDEIA para apanhar o fresco enquanto conversavam sobre a vida.


 A meia dúzia mal contada de jovenzitos que por lá havia por ali se reunia. Inventavam inocentes e amigas brincadeiras. Mas dedicavam bastante tempo a cantar, deitados num tufo de erva ou numa pera ainda quente do calor do dia.


Olhos postos no céu, encantava-os o brilho das estrelas. E entusiasmava-os quando delas havia uma chuva,


E cantavam.


O «rouxinol da Granginha» trinava os seus enlevos e as peregrinações dos seus sonhos pelas rotas românticas com que mapeava o seu dia de amanhã.


Naqueles luares de Agosto (e de Janeiro) pensava nela.


E, fechando os olhos, enviava-lhe rosários de beijos.


Ao abri-los lá estavam eles caídos do céu feitos estrelas a brilhar com tanta ternura!


A Requeta, a Amélia  e a Tia Maria do Campo, a Tia Aurora, a Tia Augusta e a Laurinda, a Alice do Treno, a Tia Olinda, a Teresa do João Carteiro enchiam o Luís da Tia São de vaidade.


Diziam, umas para as outras, mas olhando de soslaio e certificando-se de que o recado chegava ao destino:


-“Quem bem canta este rapaz!”.


E, claro, clarinho, as cerejas, os melões e melancias, as maçãs, os figos; uma chouriça e outra linguiça, e mais uma abada de chícharros do quintal ou do Vale da Cabra ou do Vale Coelho ficavam garantidinhos cá para o rapaz!


Como foram, e ainda são, minhas amigas as pessoas da MINHA ALDEIA!




Até, mais tarde, a srª Prazeres e o sr. Manuel, habitantes tardios, me enchiam de mimos   -  um saco de batatas, um cabo de cebolas, um molho de chícharros, outros de vagens, uma abada de pimentos, melancias do Pedrete, uma saca de feijão, uns cachos de uvas docinhas!…


E na Páscoa calhava-me sempre o folar da minha perdição!


Então feito pela Laurinda, no forno da Nídia!....


Porém, hoje, a MINHA ALDEIA está vestida de saudade!


Trataram-na mal : os ingratos, os moinantes e os politicastras!


A MINHA ALDEIA era linda!


Foi o altar onde os Povos mais antigos celebravam as suas divindades.


Nela, até os Cristãos quiseram vincar a sua supremacia sobre os Mouros!


E, hoje, os cristãos-pagãos, sem-vergonha e sem respeito pela História e pelos símbolos sagrados de um Povo e de um Povoado, além de votarem ao abandono e manterem enterradas as relíquias de um Passado digno, honrado e ilustre ainda têm o atrevimento de lhe causar intencionais danos!


Falo-vos da GRANGINHA, uma das pérolas da NORMANDIA TAMEGANA.


Não perdoo a bandoleiros e ningres-ningres políticos, como Alexandre Chaves e João Baptista, ex-presidentes de Câmara, nem ao reles «pavão de Castelões» o desdém com que atenderam o lamento de jovens estudantes e o seu contributo, e o desinteresse e intencional esquecimento, de uns e outros, em relação à importância do testemunho histórico que é a GRANGINHA e os necessários e urgentes cuidados que merece a CAPELA!


Hoje, lá só já é minha a árvore da saudade,


À sombra dela, celebro a chorar o bem, o amor e a amizade que lá colhi em abundância.

 

E se, no Alto do Campo ou no Alto do Cando, lá fizerem, um dia, um cemitério, que os meus restos mortais mereçam aí um cantinho!
 

M., 14 de Setembro de 2013

 

Luís da Granginha

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:30
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Chá de Urze com Flores de Torga - 8

 

Se Miguel Torga fosse vivo o mais certo era que na presente data estivesse por cá, em Chaves, como fazia religiosamente todos os anos durante o mês de setembro e desde que a fonte das águas das caldas começaram a fazer parte do seu roteiro obrigatório das fonte votivas, “integrado no ritual terapêutico dos mais anos”, como ele disse por cá um dia.

 

Se não fosse por Torga já não estar entre nós e pelos seus escritos no diário serem datados, diria que tinha andado esta semana por cá, de tão atuais que são as suas palavras. Ficam quatro registos do seu diário.




Chaves, 14 de Setembro de 1977 – É uma tristeza verificar que a política se faz na praça pública com demagogia e nos bastidores com maquinações. E mais triste ainda concluir que não pode ser doutra maneira, dada a natureza da condição humana, que nunca soube distinguir o seu egoísmo do bem comum e vende a alma ao diabo pela vara do mando. A ambição do poder não olha a meios, pois todos lhe parecem legítimos, se eficazes. E teve e terá sempre uma máscara cativante para afivelar nas tribunas cívicas e um baralho viciado para jogar nos corredores do senado.

Miguel Torga, In Diário XIII

 

Chaves, 12 de Setembro de 1966 – Parece um pesadelo. Chega-se a qualquer terra do país, descasca-se uma aparência humana, às vezes até próspera e suficiente, e é fatal: mais um falhado a juntar ao grande rol da nação. E o pior da desgraça é que nenhum dos malogrados reconhece as responsabilidades que tem no malogro. Todos sossobramos[1] porque o barco social meteu água. Nem sequer nos passa pela cabeça que às evidentes culpas do meio, que, de resto, ajudamos a criar, é preciso juntar às culpas do nosso próprio temperamento de obstinados no caminho da íntima frustração. Abúlicos diante de outras empresas onde o esforço seria mais bem empregado, só nessa somos tenazes e persistentes. Chega a ser aflitivo o denodo com que procuramos o nirvana da falência, a paz morta da abdicação do espírito. Procedemos na vida como alguém que forçasse as portas de uma cadeia, não para sair, mas para entrar.

Miguel Torga, In Diário X

 


Miniatura do artista flaviense Mário Valpaços


Chaves 23 de Setembro de 1966 – Só há uma lepra humana pior do que o despotismo: a cobardia. A cobardia individual ou colectiva, a que recua diante da força ou diante dos factos. De maneira singular ou plural, aberta ou encobertamente, a vida faz-nos sempre a mesma exigência: o exercício quotidiano da coragem do risco. E quando o medo nos tolhe, e nos negamos a essa prática salutar, perdemos, como parcelas ou como soma, aquela mínima dignidade que distingue a pessoa da rês e o grupo da manada.

Miguel Torga, In Diário X

 

Chaves, 10 de Setembro de 1969 – Este políticos, grandes ou pequenos, ao nível de capital ou de vila, são curiosos! Actores singulares, que em vez de servir se servem, é a própria megalomania que representam no palco da vida, a recitar em voz alta as palavras que adivinham no pensamento dos espectadores que hipnotizam. Naturezas ávidas de palmas e vivas – e de morras, se não puder ser doutra maneira -, no fundo, as ideias, o bem público, a pátria e o mais em que se louvam para atingir e conservar o poder, não lhes interessam. É o espectáculo da sua positiva ou negativa hipertrofia pessoal que os seduz. A multidão cá em baixo, rasteira, embasbacada, fremente de entusiamos ou de indignação, e eles a pairar no meio dela, grotescos e sorridentes, a gesticular como gigantones.

Miguel Torga, In Diário X

 

 



[1] - Respeitou-se a grafia que consta na edição do Circulo de Leitores - 2001, Diário X – Pág. 975

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:26
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Foto(s) do Dia - Carlos Gonçalves em Exposição Lumbudus

 


 

Continuamos com a mostra das fotos sobre o Barroso,  que Carlos Gonçalves tem em exposição no Polo da UTAD de Chaves/Escola de Enfermagem, ainda patente ao público até dia 9 de outubro.

 

 

 

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Terça-feira, 24 de Setembro de 2013

Intermitências

 


Não há paciência para contos longos


 

Acredita em tudo. Conta tudo. Mas sabe que nada é para sempre.


A ela, não quiseram contar-lhe toda a verdade. Era demasiado. Esconderam parte dela em sorrisos forçados, em caras divertidas. Ela desconfia que não existe ninguém que conte toda a verdade. Mas ela acreditou em tudo.


Quis ser ela própria. Acreditou. Contou. Confiou. Na mais pura das verdades, sem subterfúgios de poetas e artistas, sem fingimentos. Com os seus gestos, disse: "o que vês... sou eu". Mas ninguém viu.


E ninguém ouviu o que ela contou. Mais uma vez esconderam-lhe toda a verdade, corrompendo a que ela tinha contado. Por receio ou desconfiança, ninguém contou, ninguém correspondeu.


Fotografia de Sandra Pereira


E ela entregou tudo o que tinha dentro de si. E ela confiou.


Tentou não acreditar mais, tentou não contar mais, mas de repente já não sabia quem era, ou quem agia na vez dela. Ela desconfia que ninguém quer ver que um herói é aquele que age como um homem, que arrisca contar sempre toda a verdade, que acredita nela, porque não há outra.


Como nos contos que todos lêem. Com ou sem final feliz.


Ninguém ouve o que ela conta. E ela desconfia que um conto será sempre um conto, não importa o que conte dentro dele. E hoje, hoje, a vida, o mundo são curtos. E hoje, hoje, não há paciência para contos longos.

 

Sandra Pereira



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Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (56): urge reformar o sistema político

 

Basta andar um pouco por esse concelho fora para nos apercebermos que as pessoas estão frustradas e ofendidas com este governo e, sobretudo, com esta gestão autárquica. Estão indignados com os abusos desta Câmara gerida por um PSD em desagregação. O nosso povo quer ordem, tranquilidade, progresso e uma sociedade genuinamente democrática. Não este arremedo de gente que não governa nem deixa governar.

 

De facto, em Portugal, como muito bem refere José Miguel Júdice, “não há uma sociedade civil. O Estado fez a sociedade, não foi a sociedade que fez o Estado.” Daí estes caciques de província gerirem as instituições públicas a seu bel-prazer, distribuindo benesses, empregos e obras apenas pelos apaniguados.

 

É visível na nossa sociedade um gosto mal disfarçado pelo autoritarismo. Somos ainda impotentes como povo. Gostamos de gritar, mas depois ficamo-nos pela impotência. E essa é a pior das limitações.

 

Apesar dos sinais, os processos de gestão autárquica na nossa terra nem sequer chegam a ser de repressão evidente. Basta-lhe meter medo. A coragem continua a ser considerada uma coisa de inúteis.

 

Adaptando as palavras de Trotsky à dimensão da nossa realidade, podemos escrever que não é verdade que o poder come os seus filhos. O poder come os seus filhos bons. Os filhos maus comem o poder.

 

Os dirigentes políticos quase sempre chegam ao poder não se zangando com ninguém. Ascendem rastejando, intrigando, prometendo, penhorando e trocando promessas por mentiras. Por isso é que quando aparecem no cimo já não possuem nenhuma disposição psicológica para agirem em conformidade com as suas ideias e os seus princípios. Passam apenas a ser teimosos.

 

A política necessita de pessoas capazes de arriscarem tudo na base das suas convicções. Por isso é que é necessário acabar com as lógicas de conservação do poder pelo poder e eliminar a perniciosa influência mafiosa dos aparelhos partidários. Como diz José Miguel Júdice: “É preciso acabar com estes partidos.”

 

Por razões de compromisso político, livre e publicamente assumido, vi-me na curiosa e estimulante situação de falar com as pessoas no sentido de as estimular a votarem na diferença e na independência políticas. Resumindo, na Mudança.

 

Rodeado pelos amigos do MAI percorremos os bairros e ruas da cidade e calcorreamos os caminhos das nossas aldeias. Fizemos uma campanha devagarinho, como convém a quem realmente se interessa por ouvir a gente do nosso povo.

 

É um trabalho apaixonante e ao mesmo tempo comovente. Percebe-se que existe uma nova pobreza escondida e envergonhada. Está a perder-se a coesão social.

 

Para satisfazer clientelas, a lógica política dos partidos tradicionais fez com que se desperdiçassem recursos públicos em projetos mirabolantes e, quando não, estúpidos. Por isso o nosso país definhou. Por isso a nossa cidade atrofiou.

 

Mas temos que acreditar que através do desenvolvimento económico as cidades podem voltar a ser um fator de crescimento. Chaves pode transformar-se num polo competitivo e criar emprego.

 

Mas emprego verdadeiro e sustentável, pois não podemos fazer como António Cabeleira e João Batista que apenas garantiram emprego municipal à sua fação do PSD.

 

A despesa pública tem de ser contida, mas não na base de cortes cegos, normalmente maus e pouco eficientes.

 

Há conjuntos de empresas semipúblicas que contratualizam com o Estado com a nítida intenção de o prejudicar. Os swaps são disso exemplo paradigmático. Ou seja, existem em Portugal grupos falsamente estatais que à primeira vista parecem estar nas mãos de privados, mas, no fundo, continuam a dominar o Estado, com evidente prejuízo para todos nós.

 

Por isso é que já todos percebemos que a primeira reforma necessária não é a do Estado, mas sim a do sistema político.

 

Uma democracia não pode viver sem partidos. Nós não somos contra os partidos. Achamos é que, como diz Rui Moreira, eles necessitam de levar um cartão amarelo. Pois o regime, tal como o conhecemos, corre o risco de implodir.

 

A maioria dos municípios, incluindo também o de Chaves, está falida. E o nosso vice-presidente tem ainda a distinta lata de vir prometer mais obras e mais tachos aos seus apaniguados.

 

Por isso acredito que os cerca de cem movimentos independentes que concorrem a estas eleições autárquicas podem forçar uma reforma do sistema político.

 

Assim o povo queira tomar nas suas mãos o seu destino.

 

João Madureira

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Coisas simples e pequenas

 

Embora com a minha ausência devidamente justificada, não tenho estado bem comigo porque prometi  trazer aqui algumas palavras de 15 em 15 dias e não consegui cumprir. Mesmos que os motivos que me levaram a tal possam servir de desculpa, nunca há desculpa para uma palavra dada. Fui educado assim e assim terei de morrer – a palavra vale tudo, ou seja a verdade, ou seja, o cumprir a promessa.


Mas mesmo havendo motivos para não poder ter estado aqui,  também a actual situação de estarmos em plena campanha eleitoral me castrava a liberdade de dizer o que tenho a dizer sobre a cidade de Chaves, não vão as más línguas pensar que estou a apelar ao voto a um em detrimento de outros, logo eu que não voto em nenhum. Mas mesmo assim, não resisto a deixar aqui umas breves palavras, isentas, sobre a atual campanha e toda a propaganda que lhe está afecta, a que está visível nas ruas, e a que anda por aí espalhada em panfletos e revistas.


Comecemos pelas palavras que se vão vertendo nos panfletos e revistas, todos  eles com a lengalenga do costume, de tudo prometer e reprometer aquilo que o povo quer ver prometido e que nunca foi nem será cumprido, porque já é mais que sabido e provado que promessa de político não é para cumprir. O que interessa é chegar lá, ao poder, depois logo se vê o que se poderá fazer de acordo com os interesses dominantes dos que verdadeiramente dominam porque têm dinheiro para comprar aquilo que querem e dominar. Claro que há excepções, mas em  Chaves está à vista que não o tem sido.




Mas o que mais impressiona é a luta e ganância pelo poder.  Vale de tudo para o alcançar. Despidos de pudor e moral, não há princípios ou doutrinas que sustentem a corrida ao poder. Com as ideologias  perdidas nos fundos de uma gaveta qualquer que já nem se sabe qual é, os partidos servem apenas como o meio mais fácil de participar na corrida, principalmente os dois que vão alternado no poder, e se num não houver hipótese de se estar entre os que se impõem então despe-se a camisola e veste-se outra de outra cor, ou da mesma cor mas de outra equipa, que agora as cores já de pouco valem ou interessam. E quem diz mudar de equipa também diz mudar de terra, de concelho para poder continuar no poder que a Lei lhe veda, não fosse o tuga especialista em contornar tudo aquilo que parece incontornável – há sempre uma maneira de. E quando todas as equipas se esgotam, forma-se uma, só assim se explica a proliferação dos ditos Movimentos Independentes feito com gente filiada nos dois partidos do arco do poder  e que não foram selecionados para a equipa do respectivo partido de filiação.


Mas também os candidatos parecem querer esconder as suas origens na propaganda eleitoral, fazendo impor a pessoa ao partido, gerando a confusão da identificação partidária, ou do símbolo partidário. Também já lá vai o tempo em que o símbolo e a cor identificavam a léguas os candidatos e os partidos. O vermelho para os partidos de esquerda, o laranja para o do centro e o azul para os de direita. Agora é tudo azul e quanto a esquerdas, centros e direitas, só os mais pequenos vão respeitando as tendências, e só porque lhes dá jeito. Tanto faz ser do PC, do CDS, do PSD, do PS ou Independente, o azul é a cor da moda propagandística e o símbolo do partido – a foice e o martelo (que raramente se vê), o punho fechado que já tentou ser rosa, as três setas viradas ao alto e a bola ao centro, aparecem bem pequenino, disfarçado atrás de sorrisos falsos e rostos (às vezes)  atraentes de Photoshop. Quanto ao  ovo kinder que o chefe do movimento independente já usou quando se candidatava pelo PSD, também vai aparecendo, mas esse tanto faz que apareça como não, não tem qualquer significado, quando muito poderá fazer crescer água na boca aos gulosos que gostam de chocolate.

 

Assim, em Chaves, vote em quem votar, vai votar no azul.


A.Adolfo

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:16
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