12 anos
Terça-feira, 31 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

Ainda antes de terminar o ano quero aqui deixar publicados os últimos três textos e respetivas fotografias do livro "Chaves - Olhares Sobre a Cidade", publicação comemorativa dos dois milhões de visitas ao blog Chaves.

 

Se o tempo e as circunstâncias nos o permitirem, será uma iniciativa a repetir, talvez com uma edição comemorativa dos três milhões de visitas (se lá chegarmos), ou outras edições, das muitas que já são possíveis reunir no conteúdo do blog Chaves. Prometido fica que vamos continuar.

 

Bom 2014!

 

 

Senhoras da aldeia

 

Grito mudo…

Dizer o quê?

cansados,

Sachar cada ano a amargura,

envelhecer  no lenço e avental preto

homens sem alternativa na taberna embriagados…

valham-nos vizinhos na amizade quando perdura

aprender que entre homem e mulher jamais me meto…

 

Grito mudo

Dizer o quê?

Ignorados

Evocar Deus no minuto de medo,

Ajoelhar às aparições dos senhores

Sonhos perdidos na infância nos bosques e prados

Contar o dinheiro a modos de manter o sossego

Ir morrendo na ténue ilusão de dias melhores

 

Grito mudo…

Dizer o quê?

cansados ,ignorados

e a nossa senhora nunca mais apareceu,

no seu manto vermelho de veludo,

não sabemos porquê, será que só ganham o céu

os pobres abandonados?...

 

Isabel Seixas

 

 

Paisagem, património, liberdade!

 

As políticas neo-liberais são adoptadas de forma crescente por muitos governos. Estas correntes, muito orientadas para a livre exploração comercial de todas as “coisas” que sejam passíveis de gerar lucros, estão na base de importantes alterações da realidade contemporânea.

 

A avaliação das paisagens e subsequente ordenamento (pelo valor comparativo ou outro), ou apenas a respectiva inventariação, podem aproveitar para transformar as paisagens, de bem público, colectivo, em bem privado, comercializável.

 

Que direito assiste a alguns na apropriação privada de bens que sempre foram “comunais”?

 

Pretendemos consciencializar para a necessidade de a paisagem (de maior valor) continuar a ser um bem público, livre de concessões e sobre o qual nenhum privado pode colocar um obstáculo ao seu usufruto sensorial por parte de todos. Tal implica que as paisagens urbanas devam ser objecto da atenção de organismos públicos (desde a avaliação, aos planos de protecção ou valorização, gestão e usufruto), ainda que a sua manutenção seja efectuada a expensas dos contribuintes. Esta visão fere as concepções neo-liberais que são neste momento dominantes, mas pensamos que já surgem, também neste momento, visíveis reacções a este modelo totalizante e, tal como em relação a outros modelos político-económicos, a história demonstra-nos que, “a imposição de um único ponto de vista nunca é justificada.”

 

A expressão da resistência à opressão comercial que invade as nossas vidas encontra-se vincadamente expressa por Naomi quando afirma que aquilo que lhe traz amargura “não é exactamente a ausência de espaço real, mas uma profunda ânsia por espaço metafórico: libertação, fuga, algum tipo de liberdade sem condições”, o que é no nosso tempo muito difícil de encontrar. A sensação claustrofóbica provocada pela invasão comercial de todos os espaços (recorde-se a venda de postais e recordações, junto a locais pitorescos), está enunciada na afirmação de que a “maioria de nós aproveita os espaços abertos onde consegue encontrá-los, às escondidas como se fossem cigarros, fora das clausuras”.

 

Como terá sido afortunado Dom Afonso, por provavelmente ter visto as “termas romanas” de Chaves ao ar livre e sem pagar entrada!

 

Francisco Chaves de Melo

 

 

 

 

Aos que ficam

 

Tenham dó! Tenham Misericórdia dos que ficam! Não os zombais, não os julgais! Um dia também chegará a vossa hora de quietude. Quem os viu e quem os vê, diz o povo. Pois assim está bem, pois mal de quem os não vê nem nunca viu!

 

De camisa sempre lavada, cabeça tapada e olhar "fino", são visões de um mundo que foi e já não volta.Tenham dó! Tenham Misericórdia dos que ficam! Um dia também chegará a vossa hora de esquecimento.

 

É de noite, é de noite, diz o povo. Mas enquanto houver esperança, haverá sorrisos. E enquanto houver sorrisos, haverá vida. Tenham dó! Tenham Misericórdia dos que ficam!

 

Sandra Pereira

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 20:57
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Intermitências

 

O Depósito

 

- Deposite aí o seu destino, se faz favor.

 

Quem lhe dera que tudo fosse tão transacionável, imediato e manipulável como o dinheiro! Os anseios seriam facilmente transportáveis e logo efectivados, as vidas seriam mais simples a combinar e a juntar, as rotas mais fáceis de cruzar até chegarem a um mesmo destino. Matemático.

- Deposite aí o seu destino, se faz favor.

 

"Deposito sim, mas não tenho muito tempo", responderia Sir James. E enquanto corre, não dá por nada a chegar. E enquanto sonha, o seu anseio está aí, meses a fio, a seu lado, a latejar, a arrastar-se... quase a rastejar a seus pés...

 

- Deposite aí o seu destino, se faz favor.

 

"Hummm... Hoje em dia já não se pode acreditar em muito", responderia Sir James. Há que pensar muito bem antes de depositar dinheiros, confianças ou paixões sem condições. Depois da tempestade, vem a bonança, depois da bonança, vem o desencanto. Por isso, primeiro, há que fazer bem as contas, analisar a concorrência, testar, duvidar. Matemático.

 

Barcelona, 2013
Foto de Sandra Pereira

 

- Deposite aí o seu destino, se faz favor.

 

"Não, não. Eu quero saber de tudo, quero ter certezas!", responderia Sir James. E enquanto hesita e entrava, não dá por nada a chegar. E enquanto estuda todas as opções e alternativas disponíveis, o seu anseio está aí, meses a fio, a seu lado, a latejar, a arrastar-se... quase a rastejar a seus pés...

 

Um dia, sem qualquer aviso prévio, um raio de sol atinge violentamente a cara de Sir James, obrigando-o a abrir os olhos e a refazer as contas. O seu anseio! Estava aí!

 

É este. E aí deposita o seu destino, sem favor.

 

Demasiado tarde. O depósito já não rende mais. O anseio esteve aí meses a fio, o anseio rastejou-lhe aos pés, pediu mesmo misericórdia para uma vontade entusiasta e viva, para um sentimento voluntarioso e amoroso, para um futuro! Com o passar do tempo, o anseio sentiu-se desprezado, procurou atenuar a dor... refez as suas contas, buscou um depósito para o seu destino...

 

... deixou Sir James angustiado e deprimido por ter falhado o seu próprio destino. Sir James nunca quis estender mais do que um braço, Sir James nunca quis andar mais do que um passo, Sir James nunca quis ver o que estava atrás de um indício, ou até de um simples olhar. É o que dá ser tudo tão transacionável, imediato e manipulável como o dinheiro! "Exijo pré-aviso para o destino que me está destinado!", responderia Sir James.

 

Sandra Pereira

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:50
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013

Quatro noturnas para entrar na noite

 

Para início da noite de hoje, ficam quatro imagens noturnas da noite de ontem.

 

 

Imagens duplamente fresquinhas, quer no tempo em que foram tomadas, quer no tempo meteorológico. Só falta mesmo a neve descer ao vale para vesti-lo de branco.

 

 

E sempre o Rio Tâmega por companheiro, testemunha dos nossos dias, dos nossos momentos,  confidente por vezes. Um bom amigo desde que o respeite, como se devem respeitar os amigos.

 

 

E para o quadro estar completo só falta mesmo a nossa Top Model, mas já está madura demais e num outro patamar para se preocupar com estes esquecimentos e depois, ela sabe bem que é e sempre será a nossa rainha e senhora.

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 18:38
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (70): o trigo e o joio, as pérolas e os porcos

 

 

Como transmontano sempre me senti um pouco como os índios inuítes americanos. E atualmente ainda mais do que nunca. Se os bons americanos, como os úteis portugueses da capital, dependem do sistema, pois são o próprio sistema, os índios americanos, tal como os transmontanos, dependem da ajuda do governo e do álcool.

 

Os inuítes, tal como os transmontanos, são livres mas estão circunscritos a jardins zoológicos para seres humanos aos quais chamam reservas (na nossa dimensão, província), onde estão condenados a repetir a lastimável dança da chuva em frente de um aglomerado de turistas.

 

Afinal ninguém é livre. Somos sempre prisioneiros dos outros e de nós próprios.

 

António Vitorino de Almeida conta na sua autobiografia o que lhe aconteceu quando, ainda jovem, andava a mostrar a sua arte aos portugueses poderosos. Apesar da excelente impressão causada por alguns dos seus recitais, a obtenção de um trabalho fixo, à altura das suas capacidades concretas e que lhe garantisse um ordenado ao fim do mês e uma reforma para mais tarde, ficou na estaca zero.

 

Mas, para seu desalento e desespero, via constantemente determinados lugares serem ocupados por pessoas que não possuíam efetivamente nada que se equiparasse, em termos de habilitações académicas – já para não falar do seu trabalho concretizado como pianista e compositor – com o currículo q ue enviava para os devidos lugares, normalmente sem receber qualquer tipo de resposta.

 

Conta que começou a habituar-se a uma explicação recorrentemente dada em relação à sistemática nomeação dessas figuras cinzentas, apenas mais coloridas, na maior parte dos casos, nos salários que auferiam.

 

Diziam-lhe tentando explicar: “Coitado, tem uma personalidade muito fraquinha e complexada, praticamente nunca passou da cepa torta, falhou em tudo o que tentou, mas é um apaixonado pela arte! E, por isso, achámos bem dar-lhe este apoio… Foi uma questão de humanidade!”

 

De facto, como relata o mestre compositor, o problema não reside no simples ato caritativo – “a alegada questão da humanidade…” –, mas sim no facto muito mais relevante, de que tudo isto faz parte de um sistema infindável, o famoso “círculo vicioso de mediocridade organizada”, dado que o presente protetor já foi ele mesmo protegido e, por isso mesmo, gera novos incapazes com idênticas caraterísticas.

 

E, passado pouco tempo, o tal coitadinho frustrado que dizia amar as artes sem ser correspondido por nenhuma delas, estava transformado numa genuína autoridade, pois todas as deliberações artísticas dependiam agora das suas doutas opiniões, quando não dos seus caprichos, tais como o direito ao trabalho, à carreira e à própria vida de verdadeiros artistas.

 

Para rematar o relato, António Vitorino de Almeida, parafraseando um poema de David Mourão-Ferreira, que acabara de conhecer naquela altura e com quem tinha gravado um “ótimo” disco, cuja matriz parece que desapareceu no incendio do Chiado, escreve que dessa forma “se perpetuava a dramática luta entre os capazes e os capados…”

 

Em Portugal a crise está mesmo a sugerir-nos que façamos como Salazar, que evitava cerimónias públicas em que tivesse de se expor em varandins mas que não descurava a economia doméstica, bastando-lhe o recato do seu gabinete de trabalho, onde a par das decisões relativas aos destinos do país, reservava um tempinho para dar enquadramento a algumas preocupações de tipo caseiro, nomeadamente o elevado preço a que tinham chegado os ovos na capital, razão pela qual escrevia cartas para Santa Comba a solicitar que lhe enviassem uma galinha pedresa com o objetivo de estabelecer regras específicas de contenção de despesas na economia do lar.

 

Nestas alturas lembro-me sempre da parábola bíblica da separação do trigo e do joio. O problema que se me coloca sempre é que não se pode arrancar o joio sem destruir o trigo.

 

O joio é uma erva daninha cujas raízes se entrelaçam nas raízes do trigo, do centeio ou da cevada e não há forma de as arrancar sem arruinar a colheita.

 

E lembro-me ainda, e sempre, sei lá bem por que ordem de razões, do seguinte texto bíblico: "Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda de que eles as pisem com os pés e que, voltando-se contra vós, vos dilacerem." — Bíblia, Novo Testamento, Livro de Mateus, Capítulo 7, versículo 6.

 

João Madureira

´
publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

 

A PONTE ROMANA E O ARRABALDE

 

A velha Ponte Romana edificada há séculos pelos romanos, apesar de algumas alterações, é, indiscutivelmente, o grande monumento da cidade.

 

Para muitos é, por consequência, o ex-libris do burgo.

 

Foram necessárias muitas décadas para a dolorosa construção, pedra a pedra, da ponte, indispensável para a premência de unir as margens do belo Tâmega.

 

Por ela passaram, quiçá, legiões romanas, por elas chegaram homens e mulheres que da veiga e da montanha transportaram viveres, produtos agrícolas para a população da cidade, que fixou naturalmente o epicentro na antiquíssima praça ou largo ainda hoje conhecido por Arrabalde.

 

Aliás, até princípios do século passado, o mercado ou a praça, como então se dizia, localizava-se em pleno Arrabalde, na zona onde hoje se situa o Palácio da Justiça e o espaço defronte.

 

Altaneira, com os dois pilares onde está escrita história, a ponte desemboca no centro onde se instalaram boa parte dos serviços e do comércio.

 

Daqui também se soltam, entre outras, as artérias que nos levam às Caldas de mais virtude, ao Largo do Anjo, às Freiras (que já foram um belo jardim) e ao Jardim do Bacalhau onde falta a pérgola que deixou saudade, pela sua beleza e pela sombra fresca que proporcionava em tardes estivais.

 

Os edifícios que ainda hoje circundeiam o Arrabalde merecem a atenção que os turistas não prescindem de perpetuar em fotos.

 

A arquitetura dos prédios com as suas belas frontarias e inspiradas varandas obrigam a momentos de deleite a quem nos visita.

 

Aguarda-se o balneário romano, achado arqueológico encontrado diante do Tribunal.

 

Bom seria que o museu de que se fala viesse engrandecer o património da cidade e embelezar o Largo.

 

A Ponte Romana e o Arrabalde são nacos de história que dignificam e alindam a nossa nobre cidade, terra de encanto.

 

António Roque

 

 

A geometria da destruição

 

Permanece vazia a casa abandonada. De uma janela avista-se o rio. Cá dentro existe um cheiro intenso a humidade e a afastamento. Lá fora flutuam aromas intensos, cores fortes e olhares desamparados. A aldeia vive agora subjugada na sua geometria de destruição. As sombras e as silvas tomaram conta das paredes. Os insectos rumorejam misteriosos delírios. Toda a ilusão cai esfarelando-se no chão esburacado da sala. O medo é agora insinuante. Nem a imagem dos mortos se fixa nas fotografias amarelecidas. Aquela era a minha porta da infância. Hoje é um abismo de desilusão. Os ângulos da casa reflectem a meticulosa memória das cinzas. A casa atravessa agora o corpo esfíngico dos espectros. A saída secreta é actualmente um espelho de trevas. O silêncio espreita por cima do meu ombro a solidão da folha em branco. Não há escrita. Escrever dentro deste mausoléu é uma impossibilidade manifesta. O avô desfez-se numa alegoria. A avó é uma espiral dorida. O pai é uma tristeza branca. A mãe um reparo inclinado. As arestas das paredes progridem para dentro das palavras. A desolação perfura as memórias que se afundam no tempo do esquecimento. Tento acender o lume, mas os dedos encolhem-se como hélices. A solidão é tão grande que mete medo. A solidão das escadas, a solidão das portas fechadas, a solidão dos caminhos, a solidão da adolescência, a solidão das fechaduras inúteis, a solidão dos besouros abandonados, a solidão dos bancos, a solidão da herança e das árvores e dos sentidos, a solidão das fotografias e dos textos felizes, a solidão dos corpos e dos queixumes nocturnos. A casa abandonada permanece vazia. Mingou muito. A candeia está no mesmo sítio mas apenas serve para as aranhas comporem as suas teias. A varanda estilhaçou-se em mil resíduos de evocações. E o poço inverteu-se. A minha mente procura um rosto. Mas já não tenho certeza de quem. Foram-se as imagens e apenas ficaram os nomes definhados. Recrio a memória catastrófica da morte. Pouco mais há a dizer. A aldeia é uma perturbação da paisagem. A casa cada vez mais se inclina para o abandono. As horas deste lugar são um nada absoluto. Amanhece? Anoitece? Tanto faz.

João Madureira

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:52
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?
Domingo, 29 de Dezembro de 2013

Pecados e Picardias

 

A taverna

 

Véspera de Natal, subúrbios na taverna

clientes bebem sem expressar o espirito

tanta  solidão  a marcar passo com a perna

afogado com vinho o milagre lírico

 

Já nenhum acredita no nascer do redentor

Já perderam a esperança  neles , na vida

E por mais mil desejos  de sonhos paz e amor

Só  vinho ou cachaça tiram  dor da ferida

 

Se passaram o ano a ser espezinhados

Ignorados, na presença são seres humanos

Converter-se na semana, dias  destinados

Por quem e porquê esquecer, cicatrizes, danos

 

A noite, consoada, uma noite qualquer

Sem fé e sem mais nada o que resta é beber…

 

 

Isabel  Seixas in a Taverna

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:30
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Torre de Ervededo - Chaves - Portugal

Edifício da Antiga Câmara Municipal e Cadeia (à direita) e fontanário onde se supõe antigamente ter existido um pelourinho

Como as aldeias nunca serão esquecidas neste blog, hoje vamos até mais uma delas, por sinal uma aldeia cheia de história de tempos em que a sua importância era elevada a sede de concelho, daquele que foi o concelho de Ervededo, hoje freguesia.

 

Trecho de uma rua da aldeia

Fica então uma pequena amostra da Torre de Ervededo que conjuntamente com o Couto de Ervededo e a Agrela constituem a atual freguesia de Ervededo, uma das que escapou da agregação a outras freguesias.

 

Panorâmica composta com cinco imagens

Uma das freguesias que, conjuntamente com as freguesias vizinhas, fazem parte do meu roteiro fotográfico obrigatório o qual aconselho a qualquer amante de fotografia e do mundo rural, razões pelas quais passará por aqui mais vezes com novos motivos.

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:42
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sábado, 28 de Dezembro de 2013

Pedra de Toque

 

O frio chegou à alma

 

O frio passou pelo corpo e chegou à alma.

 

Tudo aconteceu na manhã de 11 de Dezembro quando a amiga Mizé Guimarães, no meu escritório, me deu a notícia que lhe transmitira a filha Joana – o Nadir morreu!

 

Apesar de conhecedor do estado de debilidade e de doença em que se encontrava, o nó rapidamente se trancou na garganta e a alma, dolorosamente, gelou.

 

 

Nadir não foi um amigo qualquer.

 

Ele escancarou-me as portas da cultura, da política, das artes.

 

Com ele aprendi também, eu e outros amigos queridos, a conhecer e a amar a nossa cidade, os seus recantos, as suas gentes, as suas estórias, a sua História.

 

A sua sensibilidade, a sua honradez, o seu sentido de humor (ria feliz até às lágrimas), a sua lucidez, repito, a sua lucidez, alimentaram inesquecíveis horas de convívio, de conversa fraterna e franca, que sabiamente sustentava quando nos saracoteávamos (como ele gostava desta palavra…) pelas ruas da cidade, em passeios intermináveis.

 

 

Conheci o Nadir, de quem já tinha ouvido falar sobretudo à minha avó, que fora muito amiga da mãe dele, no início dos anos 60 e logo ficamos parceiros das voltas e passeatas que, eu e outros, com ele adorávamos manter.

 

Do nosso primitivo grupo, que crismámos de Bisnaus já vários partiram e lá no assento etéreo, receberam certamente o Mestre de braços abertos.

 

Lembro o Carlos Sintra, homem da poesia e da música, o José Carlos Costa, que aparecia em férias e nos falava de jazz, o Eduardo Guerra Carneiro, consagrado jornalista que poetava com mérito e o José Henrique, sabedor de teatro, cronista exemplar, rouxinol de Coimbra.

 

 

O Nadir achava graça ao também saudoso Domingos Costa Gomes com quem por vezes charlávamos e nos ríamos.

 

Dentre os mais chegados dessa “velha guarda”, ainda restamos eu, a Mizé Guimarães, o José Firmino Morais Soares, distinto maestro, o Zé Carlos Carvalho, engenheiro civil e o Luciano Vilhena Pereira, causídico ilustre, todos amigos do peito.

 

O Zé Firmino telefonou-me dia 12, comovidíssimo, lastimando a impossibilidade de vir a Chaves devido a um concerto há muito agendado.

 

Fomos, por conseguinte, desse “team”, quatro os que acompanhamos Nadir, no último passeio até à morada definitiva.

 

O nosso grupo foi associando outros jovens que se renderam ao espirito reinante. Deles falarei noutra oportunidade.

 

 

Apesar de bastante mais velho que todos nós, o Nadir era efectivamente mais novo.

 

Viveu a França do post-guerra e tinha muita coisa para contar já que as novidades, chegavam filtradas pelas teias apertadas da censura.

 

E fazia-o com o seu reconhecido génio, narrando com palavras e gestos as ideias que defendia, ao mesmo tempo que nos ensinava sobre os grandes vultos que conhecera na cidade das luzes.

 

Nós bebíamos-lhe as palavras, o movimento das mãos com que se exprimia, a exaltação com que recordava Marcel Marceau, mimando, Gérad Philipe, representando, Eluard e Áragon, dizendo versos destes enormíssimos poetas.

 

 

Falava-nos dos quadros de Vassareli que admirava, do existencialismo de Sartre, das canções de Piaf e de Brel, que trauteava.

 

As margens do Tâmega eram o seu circuito preferido para, virado para o Brunheiro, declamar os poetas, em especial Pessoa, que ele sorvia sem limites.

 

 

Com Nadir criamos uma cadeia forte e bonita de amizade que, sediada em Chaves, seguia para outras paragens para onde por vezes viajávamos.

 

Lisboa era um poiso frequente.

 

O café Gelo, em plena baixa, era ponto de encontro da rapaziada flaviense.

 

Dali, seguíamos muitas vezes para a cidade castiça, onde procurávamos encantar a noite ao som de uma guitarra, da voz da Cândida Conceição ou da viola baixo do Zé Lobo.

 

Em 1991, o Conselho Directivo da Escola que então adotou o seu nome, convidou-me, com inteira aprovação do Mestre para falar do Nadir – o homem e o flaviense.

 

A Fernanda, boa amiga, entendida em pintura, dissertou sobre a sua obra artística.

 

Esse meu texto longo foi gravado em vídeo. O Nadir viu e sei que gostou.

 

Talvez um dia, em sua memória, porque religiosamente o retenho, o releia ou reproduza.

 

Neste momento quero, porque até aqui não o fiz, realçar o Nadir generoso, solidário, amigo dedicado dos seus amigos, que tive a enorme satisfação de conhecer.

 

Se ele a falar era uma pessoa fascinante, ouvia com delicadeza, aconselhava com inteligência e prontidão e adorava contribuir para a felicidade dos demais.

 

 

O Nadir não foi tão só o extraordinário pintor com reconhecimento mundial.

 

Foi também o esteta, o intelectual, o homem que se comovia com a vida, que preservava um espantoso sentido de humor, um homem que se fascinava com todas as manifestações artísticas.

 

Obcecado pela pintura, bastava-lhe o metro quadrado (como dizia) para trabalhar apaixonadamente.

As mulheres tiveram protagonismo na vida do Nadir.

 

Encontrei-o algumas vezes em paixões fortes, em paixões lindas, em paixões decadentes, em paixões difíceis.

 

Perdia-se por amor ao virar da esquina, ao ritmo de uma valsa ou de um tango, no breve toque de uma mão, na beleza de um gesto indecifrável, no brilho de um olhar quente.

 

Serenou com a Laura, companheira de longos anos até à inevitabilidade, que lhe proporcionou o equilíbrio que a idade foi exigindo, que lhe colmatou a notória inapetência para as coisas burocráticas e lhe deu dois belos filhos, hoje homens feitos.

 

 

Conheci as outras filhas dele que revi no dia do funeral, por quem ele tinha enlevo e admiração.

 

A mim e a todos os amigos de que já falei (e a outros de que certamente me esqueci) a partida do Nadir levou um bocado de nós !

 

Como me lembrou o Zé Carlos Carvalho, ele foi o nosso mestre, o nosso irmão, o nosso “pai”.

 

E que orgulho nós temos em termos sido muito amigos de um flaviense de gema (assim se assumia), de um homem genial de uma grandeza humana incomensurável.

 

A memória dele, perene, vai, como ele gostaria aquecer a saudade que permanecerá na alma.

                       

 

Querido amigo, fica com Pessoa.

 

Deixo-te com aquele poema que soltavas na direcção das serras que nos circundam e que tanto amavas.

 

“ Na sombra Cleópatra jaz morta.

Chove.

Embandeiraram o barco de maneira errada.

Chove sempre.

-------------------------------------------------

E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto –

Todos nós embalamos ao colo um filho morto.

Chove, chove.”

 

António Roque

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 16:22
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 27 de Dezembro de 2013

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

 

DAS NOVAS SOLIDÕES AO RENASCER DAS CINZAS...

 

Era suposto nesta rubrica, e nesta quadra, falar um pouco sobre o espírito natalício e da «família» flaviense. Porventura se formos ao passado, com certeza, aí encontraríamos alguns temas ou episódios que não só marcaram uma época como também esta terra. Mas o que mais importa agora é realçar o presente - o aqui e agora - da terra onde vivemos.

 

Infelizmente, nada de novo, por mais que me afinque e me esforce, encontro. Nenhuma particularidade ou especificidade referente a esta quadra aqui vejo, a não ser os mesmos «clichés» ou lugares-comuns.

 

Vivemos num reino que, se assim continuar, deixará de ser cantado como maravilhoso. Porque uma terra em que faltam as suas gentes, faltam-lhe também os olhos para ver as maravilhas da sua natureza para, assim, puderem continuar a aclamá-la.

 

E Chaves, desde há um certo tempo a esta parte, não passa de um ponto minúsculo, sem significado específico, no contexto do território a que chamamos Portugal.

 

De um Portugal imerso em profunda crise não apenas económica e financeira mas, e principalmente, de identidade.

 

Vivemos num mundo completamente submerso nas tecnologias da informação e comunicação (TIC). Que deveriam ser apenas instrumentos, auxiliares da comunicação para nos aproximarmos, mais em profundidade, uns dos outros. Mas não passamos de simples reféns, diria mesmo, escravos, desses mesmos instrumentos. Por elas - e com elas, as TIC - não se constrói efetivamente nenhuma relação humana séria, estável e duradoura. Temos a sensação que elas nos ajudam a projetarmo-nos pelo mundo inteiro, como uma extensão infinita de um corpo, o nosso, tão limitado e circunscrito a um território tão exíguo, como aquele em que vivemos, dando-nos a ideia que somos, mesmo, do mundo. Pura ilusão. Se bem refletirmos, tudo é tão frágil, volátil. E nós tão pequenos! Em tamanho e, dramaticamente, já na alma.

 

Como indivíduos, vivemos num canto de sereia, embalados por gadgets que não passam disso mesmo - simples instrumentos. Nem sequer brinquedos são. Porque os brinquedos, para além de recrearem a vida, tinham e têm uma função socializadora, integradora, num determinado contexto histórico e numa específica comunidade.

 

Por isso não admira que o espírito natalício se ressinta e sofra com este «caldo de cultura» em que vivemos. Tudo não passa de uma ilusão: que estamos em todo o lado, com todos os amigos em contacto connosco. Todavia, se bem refletirmos, estamos sós. Numa solidão que dói. Basta pararmos um pouco para refletir. E depressa nos damos conta que andamos «anestesiados». Ou, pior ainda, que este tipo de cultura nos está transformando em robots.

 

Num mundo em que imperam os media, ditando as suas leis, e em que a globalização transforma a maioria dos territórios, como o nosso em que vivemos, num «zé-ninguém», faltam-nos a força, a coragem cívica suficiente para, como pessoas e sociedade, proclamarmos bem alto que somos pessoas e que basta de tanta manipulação, abuso e espetáculo mal representado.

 

Por outro lado, dizemos que, esta quadra é a festa da família, que estamos em família, mas... puro engano! Estamos confinados às quatro paredes daquilo a que chamamos um «lar», mas nós, a maioria de nós e, principalmente, os nossos jovens, verdadeiramente, não estamos aí.

 

Fala-se muito, também por isso mesmo, por estes comportamentos «ausentes», de uma «geração rasca».

 

Mas que é feito das gerações que os precederam, os educaram, tornando-os «enrascados»? Em que princípios e valores firmaram as suas vidas? Nós, os mais velhos, em que mulheres e homens nos transformámos ao longo destas últimas décadas?

 

Dois grandes pensadores do século passado e dos princípios deste século dizem: um, Bauman, que criámos uma sociedade líquida, fluída, ao contrário da sociedade sólida que se formou com os primórdios da revolução industrial; outro, Lipovetski, que erigimos o sujeito à categoria divina, transformando-o num puro narciso, para quem não há limites, balizas.

 

Não se pretende, como é evidente, um regresso ao passado. A história não é circular. E os avanços científicos e tecnológicos estão aí para ficar. Mas devem estar ao serviço do Homem, da Sociedade. Com os pés bem assentes na terra e não na «nuvem», como de entes virtuais se tratasse.

 

Não somos apenas um número que serve a montagem de um espetáculo de circo, que tanto proliferam pelos nossos media. Não somos share de audiências para animar um mundo que alcandorou a «mercadoria» ao «estrelato».

 

Somos seres humanos carentes de afetos. E, acima de tudo, cidadãos que devem, todos, estar empenhados na construção de uma sociedade mais justa, equitativa, equilibrada e solidária. A partir da construção da polis, espaço-território confinado, onde nosso corpo se movimenta. Onde as verdadeiras e autênticas relações humanas aí efetivamente acontecem.

 

Bem gostaria de celebrar nesta altura uma polis (cidade) de Chaves à altura dos pergaminhos da sua longa e secular história. Orgulhosa das suas gentes e das suas tradições. Distinguindo-se, como no antanho, das terras lugares-comum da grande massa de localidades sem nome, sem orgulho e sem história, transformadas em não-lugar, ou apenas lugar de passagem.

 

Infelizmente, lenta e inexoravelmente, tal como a grande maioria das pessoas hoje em dia, estamos sofrendo de um mal muito comum a quem já perdeu a esperança - a solidão.

 

Portugal, e particularmente a nossa cidade e concelho de Chaves, precisa de mulheres e homens que, com uma nova visão, inebrie as suas gentes. Lhes restitua a esperança e não as espolie. E, juntos, com coragem, sejamos capazes de nos tornar bem visíveis no mapa do território que é Portugal, fazendo jus à história das gentes que construíram esta terra e a projetaram para além das suas fronteiras.

 

É, assim desta forma, que vejo, como um novo (re)nascer, o verdadeiro espírito natalício, e o próximo ano 2014 que se avizinha, em Portugal e na nossa querida Aquae Flaviae.

 

António de Souza e Silva

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:26
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

Os Resistentes

“Os meus heróis não são heróis à força, são seres modestos, pessoas realmente humildes, com tanta humildade que alcançam a heroicidade e universalidade. (…). O meu herói é um homem vulgar, que dá tudo o que tem dentro de si”

 

Miguel Torga, In entrevista ao JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 26.Jan.1988

 

O meu herói também cabe dentro do herói de Torga, mas hoje, em vez de herói, mesmo sem perder um pingo da sua heroicidade, quero chamar-lhe antes - resistente. O meu herói é um resistente. Vive no campo, na aldeia, é rural. É um resistente da montanha, vive com um pequeno punhado de outros resistentes iguais a si. Resiste às portas fechadas das casas abandonadas, resiste ao silêncio das ruas sem crianças. O meu herói é aquele que, por entre o seu mar de montanhas, resiste às noites frias de inverno, resiste ao inferno do verão e sempre resistiu ao convite da partida enquanto se despedia dos filhos que sabia não regressarem mais. O meu herói resiste à solidão, resiste ao desprezo dos senhores das cidades, resiste à dor e à doença e,  enquanto tiver forças,  resiste ao chamamento da terra. Prefere servir-se dela para lhe receber as sementes que mais tarde irão fazer o pão com que resiste à fome e no fundo, bem lá no fundo, o meu herói resistente apenas vive a vida que lhe deram para viver, a única que sabe viver,  e vive feliz, com ela, e com um pouco de nada.

Fernando DC Ribeiro

 

 

Um país que acaba…

 

Aqui… ruas estreitas e vazias, pedras gastas pelos passos dos Homens

Algures… avenidas largas, luzes e gentes sempre apressadas

 

Aqui… casas fechadas de gentes que sonharam outras vidas

Algures… prédios sem história cheios de gente anónima

 

Aqui… o silêncio, o cantar do galo, o toque do sino da igreja

Algures… o bulício, o barulho, o trânsito

 

Aqui… terras abandonadas que outrora deram pão e vinho

Algures… terras arrasadas para novas ruas e avenidas

 

Aqui… um café, idosos em silêncio, um jogo de sueca

Algures… uma esplanada, mesas e toldos coloridos, conversas animadas

 

Aqui… um fontanário a lembrar vivências de outros tempos

Algures… um jardim sufocado entre arranha-céus

 

Aqui… cantos e recantos por onde crianças felizes correram e brincaram

Algures… crianças que crescem entre quatro paredes

 

Aqui… histórias de famílias e tradições centenárias que se perdem

Algures… vidas simples, vazias, rotineiras

 

Aqui… um país que acaba

Algures… um outro país que começa?

 

Luís dos Anjos

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

A desertificação do interior é uma coisa que põe certas pessoas malucas, doentes. Mas podemos olhar para este problema de outra maneira. Para isso, basta lembrar a lei das sesmarias. Essa lei, de 1375, foi feita para impedir que o pessoal bazasse do interior para as cidades, onde iam trabalhar como artesãos. Imagino que aquela frase que estou farto de ouvir, a agricultura já não dá nada, venha desse tempo. Já no ano de 1500 a população portuguesa era de 1,5 milhões. Como a actual população em Trás-os-Montes é de 350.000, em 1500 seria uns 60.000. A população aumentou durante muito tempo e actualmente é maior do que há 100 anos. Por isso, que se foda, temos tanta gente como tínhamos em mil novecentos e qualquer coisa, temos mais do que noutros tempos. Há aldeias que estão a ser abandonadas, que não têm mais do que 100 anos.

 

Já agora, que é que estes pacóvios estão a fazer atrás-do-torgo? Estão a apanhar altas secas em aldeias e aldeolas onde não se vê ninguém, em que o pessoal só tem 3 ou 4 vizinhas para quem olhar, onde não há um bar para beber um copo, etc. Seria fácil distribuir estes tristes por Lisboa e Porto. Não têm que sofrer pelas burrices dos antepassados. Que culpa temos nós que uns malucos, há 10.000 anos, se tenham lembrado de ir montar as tendas para os Cornos das Alturas, a 1200 m de altura? Não estariam bêbados? Vão montar uma aldeia num sítio onde não há nada, longe de tudo, obrigados a pastar uns porcos e umas cabras no meio de neve? Podiam ter escolhido o Algarve ou qualquer sítio entre Porto e Viana, onde há espaço suficiente para os 100 malucos que vivem nas Alturas. Temos nós que continuar a aturar esta merda? Que se foda, que se foda a etnografia! Vamos mas é bazar daqui, vamos desertificar esta merda. Eu só preciso de levar o banco de matar o porco e a caldeira para as chouriças. O concelho de Boticas só tem 4000 habitantes, por isso basta fazer um condomínio fechado com umas 4 torres, metemos umas cortes para os porcos e já está! E até poupávamos dinheiro ao país. Porque tem que vir pessoal fazer centenas de quilómetros para trazer duas cartas, montar quilómetros de fios eléctricos para aldeias de 20 pessoas, etc. Devia haver subsídios para o apoio à desertificação do interior, o país só ganhava com isso.

 

Vamos lá bazar daqui para fora, vamos deixar de ser burros, vamos para a praia, para o quente, e como há-de assim, as batatas já vêm de Espanha e já, que se foda. Viva a desertificação do interior! Desertificar, já!

 

António Chaves

 

 

TÃO PERTO E, CONTUDO, TÃO LONGE…

 

A vida é toda ela cheia de surpresas. E, não raras vezes, prega-nos muitas partidas. Adolescente deixámos a Fraga do Marão. Aquela serra, tão eloquentemente cantada por Teixeira de Pascoaes, e que tanto nos protege como nos oprime. Quando jovens, nossa maior tendência é o sentido da liberdade. Tal como proclama José Régio, no seu célebre poema, «amamos o Longe e a Miragem» …

 

Chaves, e a sua veiga, era o nosso «vem por aqui»! Campo aberto, farto. E o convívio com aqueles que, no antanho, constituíam a nossa mesma realidade, a mesma cultura, num território com que todos nos identificávamos e que, sem dúvida, muito antes dos romanos, que lhe chamaram Gallaecia, integrava já uma outra cultura, bem mais ancestral, toda nossa – a castreja. E a cultura celta com quem, ainda hoje, muitos de nós, mais nos identificamos.

 

Mas, volvidos tantos séculos, e após várias e profundas peripécias, embora herdeiros do cadinho de uma cultura comum, seremos os mesmos? Fazemos parte, é certo, da mesma Ibéria de que tanto fala Torga. Mas a diáspora e a epopeia dos Descobrimentos modificou-nos. Profundamente!

 

Hoje estamos mais de acordo com José Mattoso e Suzanne Daveau – não foram as pessoas, a cultura e a geografia que nos uniu. Somos, positivamente, uma manta de retalhos de tudo isso. O que nos uniu como povo foi o poder (político) que não a mesma realidade, vivida e partilhada.

 

Perdidos numa Europa sem pátrias, onde reina a ditadura dos monopólios e o poderio das multinacionais, após a epopeia das Descobertas, e habituados ao parasitismo daquilo que apenas se encontra sem esforço e trabalho, ainda não conseguimos encontrar um desígnio que a todos nos mobilize para a construção de uma nova gesta, que nos orgulhe, uma vez mais, de ser português. Reforçando ou criando hoje, a um outro nível, a nossa verdadeira identidade.

 

O Reino Maravilhoso, de que tanto Torga nos fala, é muito sui generis. Muito diverso. Da fronteira do então reino da Galiza até ao sul do Douro, todos nos apelidamos de transmontanos. Mas somos, de norte a sul, muito diferentes. Apenas nos identifica o amor profundo ao nosso berço. E a ele, invariavelmente, muitos de nós, exauridos pela labuta diária na diáspora que nos levou a criar riqueza noutros povos, e num rito de homenagem aos nossos antepassados, à boa maneira celta, regressamos na hora próxima do passamento.

 

Olhamos para o povo, que aqui vemos a nossos pés, integrando uma das aldeias da freguesia que nos acolheu, e à qual nos habituámos a estimar. E um sentimento profundo de nostalgia nos assalta. Porque, em frente, estão as serras que nos separam do berço onde nascemos!

 

Aprendemos a amar esta terra flaviense! Mas o coração e a alma estão para além daquelas serras envoltas em bruma de nuvens… Afinal de contas, apesar de tão perto, contudo, estamos tão longe!..

 

António de Sousa e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 17:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

O Homem Sem Memória - 183

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

183 – A partir do momento em que os dois amigos se recompuseram, o sósia do John Cleese nunca mais contou uma anedota ou sequer falou. Dava dó vê-lo. Parecia um morto vivo. Ensimesmando, olhava para o infinito como se esse fosse o seu destino. Olhava para as pessoas como se fossem de vidro transparente e examinava o amigo como se ele habitasse um planeta diferente. O gulag alentejano estava a matá-lo inexoravelmente, tirando-lhe o fundamento de viver, sugando-lhe a vitalidade, apagando-lhe a memória e destruindo-lhe a razão de ser. O José bem que tentava animá-lo, distraí-lo, conversar com ele sobre tudo e sobre nada. Mas o sósia do John Cleese apenas sorria como se fosse idiota. Davam muitos passeios nos poucos momentos livres, o José falando e ele escutando como se fosse um gravador.

 

O sósia do John Cleese gostava de se deitar no meio do chão e contemplar o céu azul. E sorria sempre, como se fosse tolo de todo. De noite, mal adormecia, começava a gemer como se estivesse a ser torturado. Gemia e balbuciava. Tremia como se estivesse no meio da neve. O José cobria-o com o seu cobertor e fazia-lhe festas como se fosse uma criança carente. O José começou de novo a escrever, mas só o fazia na presença do amigo. Como se ele fosse a sua inspiração. E de certa maneira era-o. O sósia do John Cleese parecia-se agora com um Woody Allen mudo, protagonizando um filme dramático em que ninguém falava, como se fosse um filme onde apenas se ouviam os sons da natureza, como se os seres humanos tivessem perdido o dom da fala. Essa foi até uma das ideias que o José desenvolveu num dos seus contos. O comunismo tinha conseguido construir uma sociedade onde os seres humanos tinham deixado de falar pelo singelo facto de não existirem diferenças de opinião. Como todos pensavam da mesma maneira, falar era pura e simplesmente inútil.

 

O José lia-lhe os seus contos e o sósia do John Cleese limitava-se a escutar e a sorrir. Nesses dias, o seu amigo mudo dormia sem gemer, como se estivesse em paz.

 

Nos dias em que eram obrigados a assistir às sessões de esclarecimento feitas pelos ideólogos do Partido, o sósia do John Cleese sofria tanto durante o sono como se estivesse a sofrer choques elétricos contínuos.

 

O seu estado de apatia era tal que já nem se queria vestir, ou lavar, ou sequer comer. Mas o José, sabendo que se o apanhassem despido o castigavam severamente, nunca o deixava sair da camarata sem roupa. Por vezes, alguns dos capatazes, vendo-o tão absorto e apático, sovavam-no para o espevitar. Mas ele nem se mexia. Ali ficava a apanhar porrada como se fosse de borracha. Quando se cansavam, deixavam-no estendido no chão como se fosse um cão acabado de atropelar.

 

Uma noite, depois de ser severamente espancado, foi levado para a camarata inanimado. Passou toda a noite de olhos abertos como se fosse uma estátua. De madrugada levantou-se, vestiu-se, passou cerca de dez minutos a olhar para o José, como se ele fosse seu filho, acariciou-lhe as mãos, fez-lhe uma festa na cara, beijou-o na testa e saiu.

 

Quando se realizou a chamada da manhã, já o sósia do John Cleese ia longe, perdido no meio dos chaparros e do barro das planícies. Alertado, o camarada capataz decidiu realizar uma caça ao homem. Da UCP ninguém saía sem a sua autorização. Arrearam-se devidamente os cavalos, foram-se buscar os cães e empunharam-se as armas.

 

O camarada capataz liderou a busca ao homem. Do alto da sua cavalgadura olhava a campina em brasa através dos seus binóculos. Não se apressou nem um bocadinho. Sabia que a planície era inclemente e as fontes de água eram escassas. Além disso, o homem em fuga estava muito debilitado. Lia-se-lhe nos olhos que esta perseguição foi pensada para servir de exemplo aos outros prisioneiros.

 

Não foi preciso muito tempo para lhe darem com o rasto. Mas não se precipitaram na perseguição. Deixaram-no andar, andar, andar. E sofrer. O camarada capataz limitava-se a observá-lo de longe com os binóculos. Se via que se estavam a aproximar demasiado, ordenava que se parasse. Tinham que cansar a presa e deixá-la sofrer. Muitas vezes apontou a carabina com mira telescópica na direção do fugitivo e fez pontaria ao centro da sua cabeça. Mas no momento de premir o gatilho hesitava sempre. Considerava que era ainda cedo para abater a peça de caça. Ainda não tinha dito nada a nenhum dos vigilantes, mas a sua decisão já há muito que estava tomada. O fugitivo iria regressar à UCP morto para ser exibido como um troféu de caça, ou nem isso. Os reacionários, porque ideologicamente mancos, à semelhança dos cavalos, também se abatem. Especialmente os que gostam de contar anedotas para ridicularizarem a revolução, as suas conquistas e os seus dirigentes. Uma coisa, identicamente, o fugitivo tinha decidido, não se deixar apanhar vivo. A morte era melhor do que o cativeiro. E também sabia que o camarada capataz lhe tinha um ódio de morte. Sabia que se lhe desse um pretexto qualquer o líder da UCP o aniquilava com todo o prazer. Também fora por isso que tinha fugido. Decidira morrer. Por isso deixara de falar, especialmente com o seu querido amigo José. Tinha de cortar os laços que os ligavam. O José ainda era muito novo para morrer. Ainda podia ser reabilitado e ter uma longa vida à sua frente. Ele não. Ele já não acreditava em nada. Nem no socialismo, nem no comunismo, nem na liberdade, nem na igualdade, nem na fraternidade, nem na bondade humana, nem em Deus, nem no Demónio. E muito menos nos homens. Sobretudo não acreditava nos homens.

 

Adivinhando que estava ser observado pela mira telescópica da arma do camarada capataz, resolveu terminar com a farsa. Parou de repente, mesmo em cima de um penhasco, virou-se na direção dos seus perseguidores, sorriu e contou a sua última anedota a plenos pulmões: “A professora pergunta aos alunos: “Quem é a vossa mãe e quem é o vosso pai?” Responde um aluno: “A minha mãe é a República Popular do Sul e o meu pai é Alberto Punhal.” “Muito bem”, diz a professora. “E o que queres ser quando fores grande?” “Órfão.”

 

Mal acabou de pronunciar a última palavra, o camarada capataz pegou na sua carabina e depois de fazer pontaria pronunciou as seguintes palavras: “Esse foi o teu último desejo. A ti, reacionário, eu te condeno à morte por fuzilamento.” E disparou um tiro certeiro no meio da testa do fugitivo. Logo de seguida os vigilantes libertaram os cães que foram no encalço da presa abatida e começaram-na a devorar.

 

Alguns dos camaradas vigilantes benzeram-se como por instinto. O camarada capataz virou-lhes as costas e comentou: “Nunca mais vos libertais dessas crendices. De uma coisa podeis ficar cientes a partir de hoje: “Quem brinca com o Partido pode acabar na barriga dos cães, ou nem isso. Que vos sirva de exemplo.”

 

184 – O José estava ...

 

(continua)

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013

Chá de Urze com Flores de Torga - 18

 

Natal

 

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. «Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser» - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

 

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

 

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

 

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

 

Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

 

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

 

Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

 

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

 

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

 

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.

 

- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também.

 

Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

 

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

 

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.

 

- É servida?

 

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

 

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

 

- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

 

Miguel Torga - Natal in Novos Contos da Montanha

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 22:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 24 de Dezembro de 2013

Feliz Natal

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 18:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Estratos

 

A insatisfação é constante sem espaço em formulários. O sonho também.

 

Cabem na vida de todos os dias. A todas horas e em cada minuto que as preenche.

 

Estudos não científicos comprovarão que hoje haverá um momento em que a insatisfação tenderá para zero e o sonho para infinito.  As previsões foram divulgadas esta terça-feira pela associação mundial das certezas que não existem.

 

Acredita-se que a explicação para o fenómeno esteja num crescimento exponencial dos sonhos, no último mês de 2013. A hipótese da fé estar também a contribuir para estes valores não está descartada, de acordo com a mesma fonte.

 

Chaves, pela sua localização geográfica, foi o local escolhido pela BIS (Brigada Internacional do Sonho) para monitorizar, neste estudo inédito, os desejos de todo o mundo. A informação foi divulgada em exclusivo ao blogue lê.

 

Por tratar-se de um equipamento recente, ainda pouco testado, teme-se que uma concentração elevada de desejos (ou sonhos) dos flavienses possa influenciar as conclusões do estudo.

 

Pela minha parte, espero inflacioná-las. Feliz Natal.

 

Rita

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 14:39
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

11
15


26
27
28
29
30


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Abobeleira em três imagen...

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Pecados e Picardias

. Calvão, Chaves, Portugal

. Freiras - Versão 3

. Discursos Sobre a Cidade

. Coisas do meu baú - A man...

. Flavienses por outras ter...

. Novidades...

. Cartas a Madame de Bovery

. Imagens frescas para dias...

. Chaves D'Aurora

. Quem conta um ponto...

. O Barroso aqui tão perto ...

. Bustelo - Chaves - Portug...

. Ilumina-me, poesia de Ant...

. O Factor Humano

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites