Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2014

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

 

QUE CIDADE (DE CHAVES) ESTAMOS CONSTRUINDO?

 

Deixemos-lhes recordar. Nos idos anos 90 do século passado, na febre da planificação e do ordenamento do território [a cargo das autarquias, face à demissão e à nova postura (tardia) do poder central quanto à problemática do território e do seu ordenamento e ao (novo) papel, nesta matéria, das autarquias, (muito embora as críticas e os reparos a fazer quanto aos instrumentos, entretanto postos em prática, no sentido de contribuírem eficazmente para o ordenamento e desenvolvimento harmónico e sustentável do território)], Chaves tinha duas ferramentas de crucial importância susceptíveis de poderem inverter a sua fragilidade face a um poder central todo-poderoso, alavancando propostas catalisadoras não só de uma nova postura ou cultura de encarar o território como de «apostas» (com objetivos e ações) que concitavam o seu desenvolvimento como cidade e concelho. Não era tudo; contudo, sempre representava alguma coisa.

 

Estamos a falar, concretamente, do Plano Diretor Municipal (PDM) e do Plano Estratégico de Desenvolvimento da Cidade de Chaves (PEDCC).

 

Vamos deixar o primeiro e fixemo-nos, embora que muito esquemática e sucintamente, no segundo, esquecendo-nos o(s) diagnóstico(s) entretanto feitos para, tão somente, nos fixarmos, genericamente, nas suas «apostas».

 

Refira-se à cabeça – pois se trata de um facto não tão pouco despiciendo – que este segundo instrumento – PEDCC – foi sufragado (votado), por unanimidade, na Câmara e Assembleia Municipais, sendo na altura Presidente da Câmara Alexandre Chaves e líder da oposição – futuro Presidente da mesma – João Batista.

 

Era um instrumento importante e decisivo para o desenvolvimento da cidade (de Chaves) e do seu concelho, embora os reparos com a sua pouca e ativa participação cidadã de um documento muito técnico, feito por reputados peritos e, por conseguinte, na circunstância, de certa forma, ser «imposto» de cima para baixo, bem assim o falhanço, na sua primeira fase de vigência, da ação do Gabinete da Cidade – um órgão consultivo da Câmara, saído daquele estudo e instrumento – quanto ao papel que poderia ter e desempenhar no aglutinar e «animar» de vontades dos principais agentes, inter, trans e intramunicipais, como atores e animadores fundamentais, em ordem à execução das suas 7 «Apostas» que, naquela altura – e porventura ainda hoje – tinham e faziam algum sentido.

 

Recapitulemo-las:

  • Chaves, município da água e do lazer termal – cidade capital de uma região termal transfronteiriça;
  • Chaves, concelho plataforma de fixação e placa giratória de difusão de recurso turísticos transfronteiriços e internacionais;
  • Chaves, concelho plataforma de suporte de criação de novos empregos, qualificações e com potências ao serviço da animação e da descoberta do Alto Tâmega, região com tradições vivas e susceptíveis de valorização de novos produtos para novos mercados;
  • Chaves, cidade encruzilhada de geometrias variáveis e de relacionamento intra e inter-regional e plataforma de atração de novos instrumentos e investimentos e atividades em termos de uma nova lógica de distribuição;
  • Chaves, cidade centro político, cultural, económico e institucional das relações transfronteiriças;
  • Chaves, cidade centro sub-regional com património e imagem urbanas a valorizar numa escala mais alargada;
  • Chaves, cidade centro de cultura, participação e animação cívica.

Quanto à participação democrática e animação cidadã dos munícipes para o desenvolvimento da sua cidade e do seu concelho, é o que se vê!

 

Dos programas e ações mais relevantes que pudessem dar corpo e algum sentido ao desiderato daquelas 7 «apostas», temos, na atualidade, o Parque Empresarial, e mais outros nomes pomposos com ele relacionado, para os lados de Outeiro Seco e Vilela Seca, que custaram uma fortuna ao (nosso) erário público municipal (e que nem sequer aqui vale a pena fazer o seu triste e desastroso historial) e a criação da Eurocidade Chaves-Verín (uma «habilidosa» fuga para a frente com escassos, poucos, resultados no sentido de corporizar e contribuir para a realização de alguns objetivos das «apostas» constantes naquele instrumento. Ah - já nos íamos esquecendo - a transformação das Caldas de Chaves numa «empresa» municipal!...

 

Entretanto, volvidas que foram quase quatro décadas de poder municipal, que cidade temos e que cidade somos?

 

Atentemo-nos na política de solos urbanos. Volvidos quase quarenta anos de poder autárquico, onde está essa mesma política plasmada na criação de uma reserva estratégica de solos por forma a dimensionar e estruturar as novas funções e os novos equipamentos urbanos, face às novas necessidades da sociedade e da sua cidade, criando novas centralidades? Um olhar mais atento para esta realidade só nos pode trazer uma profunda desilusão e dura crítica quanto à visão e estratégia dos autarcas que elegemos para dirigir os destinos da nossa cidade e concelho. Exemplos? Infelizmente não nos faltam. De uma gestão dos recursos municipais feita de uma forma voluntarista, errática, muitas vezes paranoica, a reboque, quase sempre, da especulação imobiliária, dos puros interesses patrimonialistas e individuais e de uma certa e tacanha mentalidade da nossa «intelligentsia» local.

 

Sem pretensões de sermos exaustivos, comecemos pela Veiga de Chaves. Considerada um «património agrícola nacional», ela é o que aí esta: «rios de dinheiro» gastos em canais de irrigação e nem uma proposta/solução consequente com a sua aptidão agrícola, usada de uma forma rentável do seu solo e com estrutura(s) de distribuição dos seus produtos, capazes de constituírem uma efetiva mais valia e fonte de riqueza para os seus proprietários! Que, por isso mesmo, entraram no «jogo» da especulação dos solos para fins imobiliários, deixando-nos a «manta de retalhos» que aí se vê!

 

Viremo-nos para o primeiro parque industrial da era de Branco Teixeira. E deixemos de lado os considerandos quanto ao imbróglio da constituição dos seus lotes e a «escandalosa» venda dos mesmos. Onde está, neste, aliás como nos outros que se lhe seguiram, qualquer vislumbre de política industrial para o concelho com aptidões transfronteiriças? O que aí vemos, e temos, não passa de uma amontoada, e anárquica concentração, de instalações de empresas que trabalham na área dos vários serviços. E pouco mais!

 

Quanto à estrutura viária urbana, e respetivas ligações às principais redes viárias regionais e nacionais, nem vale a pena falar! Chaves deixou de ser um espaço «aberto» e «arejado». E, circular, em certas horas do dia na cidade, é uma «despaciência» e incomodidade (como é o caso do «cancro» do «Monumento» para uma cidade que, no concerto da rede urbana nacional – e que se quer considerada como cidade-média – deveria ter outros predicados e conter outros atributos. Para além de que entrar nas principais redes viárias (v. g. A24) é o que está à vista!

 

Quanto aos equipamentos urbanos. Vê-se algum sentido e lógica na sua distribuição? Exemplos? Vejamos alguns, como:

  • a inconsequente decisão da localização do espaço da feira semanal;
  • a inconsequente decisão da escolha do espaço para a realização da Feira (anual) dos Santos;
  • a disparatada decisão de localização da feira do gado;
  • a incauta escolha do local para a sede de uma Fundação, dedicada ao mundo da arte e da cultura, num solo considerando «reserva ecológica», porque sita no «leito de cheia» do rio Tâmega;
  • ou o de se «desterrar» a localização das instalações daquilo que não passa de um «aborto» de ensino superior em Chaves para os confins do termo da freguesia de Outeiro Seco, sem se ter a preocupação de ligar este equipamento comodamente à cidade, ampliando-a, e, no seu espaço (urbano) – público e privado – construir mais e melhor cidade (enquanto, por outro lado, o nosso património construído, adquirido pela autarquia, como a Quinta, designada dos «Montalvões», com o seu solar, está em ruína, a cair de velho e sem qualquer serventia!);
  • e tem alguma lógica o colocar-se as piscinas municipais na outrora Quinta do Rebentão? Têm alguma comodidade para a maioria dos residentes da cidade, porventura a grande fatia da população que utiliza aquele equipamento ao ar livre, enquanto outro (a piscina municipal coberta) ocupa um dos espaços mais nobres da cidade? Não haveria, porventura, outras e mais ricas ambições para aquele espaço? Exemplos espalhados por alguns municípios do país não faltam?

Quanto ao aparcamento na cidade. Sinceramente, então aqui nem vale a pena falar, tal foi – e ainda é - a sua errância! Aqui, uma vez mais, se reflete a falta de cuidado, e atempado planeamento, da incúria, de uma gestão autárquica na reserva de solo urbano para, com ela, «cerzir» a cidade. E, a este propósito, vem à colação o Largo do Arrabalde, antessala da sala de visitas que é o nosso Centro Histórico. Para quando o «derrube» daquele «muro da vergonha»? Sabemos que tudo quanto diga respeito à preservação e salvaguarda da «memória» e do património deve-se fazer sem pressas e com critério. Contudo, já não passa, em demasia, do tempo razoável? De trazer aquele espaço ao convívio e partilha dos seus residentes e de quem nos visita?

 

Toquemos agora num ponto sensível a uma certa «intelligentsia» local – o Quartel de Chaves. Abra-se um parêntesis – tenho a maior estima e consideração pelos profissionais que por lá passaram e pelos que, na atualidade, ocupam as suas instalações. Mas, convenhamos, não é disso que, aqui e agora, se trata. Justifica-se, na entrada do século XXI, numa Europa que se quer construída sem fronteiras, e com livre circulação de pessoas e bens, em Chaves, um quartel? Para nos guardar de quem e contra quem? Temos, como país, alguma estratégia quanto à localização de instalações militares? Ditada com que critério? Já não temos na nossa cidade – e não só – suficiente «memória militar» que nos lembre da nossa vocação de «guarda fronteiriça», quer material, quer imaterial, e da nossa função militar de guarda e de proteção do nosso território ao longo da história? Para quê um quartel que nos coarcta as possibilidades de crescimento mais para norte, na continuação da Avenida Nun’Álvares, e porque não lhe dar, por sua vez, àquele equipamento, outras funções tão nobres, compatíveis e mais ajustadas a outras necessidades decorrentes da evolução dos tempos que correm? Esta discussão não pode ser um assunto-tabu. Hoje, como em tudo, tudo está (deve estar) em aberto!

 

Mas regressemos ao Plano Estratégico de Desenvolvimento da Cidade de Chaves dos anos 90 do século passado. É bem certo que, aquele plano, na nossa modesta opinião, por que feito por tecnocratas, e numa perspetiva a «raiar» o neoliberalismo, dá-nos a imagem da (re)construção e organização de uma cidade como se de uma pura mercadoria se tratasse.

 

Estamos com Maribel Mendes Sobreira quando, no seu artigo «Para uma compreensão da cidade», constante do livro «Filosofia e Arquitetura da Paisagem – Intervenções», coordenado por Adriana Veríssimo Serrão, e publicado em 2013, pelo Centro de Filosofia da universidade de Lisboa, nos diz:

“Nunca, tanto como hoje, as questões de valorização, salvaguarda e recuperação do património urbano mereceram tão ampla atenção e preocupação dos vários agentes sociais, numa época em que a globalização dita o mercado, o modo de agir e pensar, as cidades tornaram-se em elementos estéticos de fruição individual e coletiva, «objetos de desejo» mercantilizados”.

 

E mesmo quanto a estes «objectos de desejo» mercantilizados, será que algumas intervenções, ditas estéticas, ou elementos estéticos, de fruição individual e coletiva, não serão «objetos de desejo» de duvidosa mercantilização?

 

Concordamos ainda com Maribel M. Sobreira quando, no mesmo passo, afirma:

 

“Uma ética da cidade terá de passar por encontrar ou reencontrar-se com o seu propósito primordial (…) É necessário uma nova consciência, uma (re)educação, um voltar à origem, onde o lugar era sentido e apreendido como propriedade coletiva, onde cada indivíduo «trabalha» para a concretização da sacralização da Cidade, do lugar que habita (…) Como recuperar a infância perdida da urbe, que no jogo das escondidas se desiludiu com a qualidade de vida da sua própria casa? (…) A ideia de apropriação territorial, no sentido de ocupação física e afetiva do espaço, leva a que um grupo procure o que o caracteriza, para que se possa distinguir do vizinho (…).

 

(…) a degradação do modelo das cidades contemporâneas, advém da falência ético-moral do ser humano por este ter dado primazia aos elementos artificiais que foi conseguindo construir, através da técnica sobre a Natureza. E com isso as cidades foram-se afastando-se da sua relação com a natureza, criando-se paisagens e relações artificiais com o elemento natural, afastando-se do seu propósito, o diálogo com o seu meio (comunitário) ”.

 

Na esteira e suscitação da leitura do artigo «Regeneração urbana e arte pública», 2010, Caleidoscópio, Edição e Artes Gráficas, de Antoni Remesar e Fernando Nunes da Silva, perguntamos:

  • qual o contributo do autarca/político – arquiteto paisagista num tipo de intervenção artística urbana que renuncie «à materialidade extrativa» (referência aos processos com base na escultura) e, mesmo aqui, no que concerne a Chaves, quase nula, para nos apresentar e propor «um paradigma “meio-ambiental” com o uso dos recursos naturais capazes de qualificar o território»?
  • Onde está o «momento expansivo da cidade» que apele à conservação da memória do passado (quer de um passado histórico propriamente dito, quer da sua inserção rural, quer, ainda, e nalgumas facetas da sua atividade industrial, ou seja, a «paisagem integral», o tratamento material, assumindo a cidade de onde vem (a sua memória) e para onde vai (o futuro e a sua sustentabilidade)?
  • Onde está «o duplo movimento de recuperação e de projeção» ao efetivo serviço da dimensão cultural de Chaves?
  • Onde está a regeneração urbana e valorização do rico património histórico e arquitetónico da cidade de Chaves ao serviço da revitalização urbana e da valência turística? Será que a qualidade de vida urbana dos cidadãos flavienses se mede apenas por algum mobiliário urbano numa das artérias principais do seu Centro Histórico e pelo tratamento (incipiente) das margens ribeirinhas do Tâmega?
  • Onde se criou, na cidade de Chaves, espaço público material de vivência/convivência, fruição e participação cidadã dos flavienses?
  • Onde está o comércio, enquanto atividade predominantemente urbana, para além da sua função estritamente económica e funcional, desempenhando uma dimensão social e artística que possa desempenhar um papel chave no planeamento da cidade (de Chaves)?
  • Que papel o comércio (de Chaves), como espaço privilegiado para o estabelecimento de ações cooperativas entre o setor público e o setor privado na compatibilização e alavancagem mútua de investimentos e estratégias organizacionais, deixando de viver algumas das iniciativas públicas quase só «à sombra» do orçamento público autárquico?

Será que o autarca/político – arquiteto paisagista, durante tantos anos de poder e de convivência com o seu correligionário e companheiro/engenheiro, antigo autarca brigantino, não foi reparando em algumas práticas urbanistas por ele levadas a cabo no seu território citadino (veja-se, a este propósito, um dos posts no meu blog «Andarilho de Andanhos», no endereço eletrónico - http://andanhos.blogs.sapo.pt/23234.html)?

 

Será que o autarca/político – arquiteto paisagista se dá conta que sendo o comércio um dos aspetos da alavancagem da cidade de Chaves, em vez de andar ao colo com o representante deste setor (infelizmente como outros no passado, que inauguraram esta prática) não procura construir um novo relacionamento entre o comércio e a cidade, explorando uma nova e moderna política da cidade de Chaves, ao implementar uma nova perspetiva sobre o papel que o comércio pode representar para a coesão da cultura urbana e a qualificação do espaço público (veja-se, à sua escala, evidentemente, o que se fez em Allariz, província de Ourense, na vizinha Galiza)?

 

É na forma de ter (construir) uma cidade que se afere a qualidade (ser) da vida dos cidadãos que ocupam (habitam) um determinado espaço territorial.

 

Passaram-se quase vinte anos sobre a cidade de Chaves, e, ao contrário de outras épocas, que criaram novas e duvidosas centralidades – por isso, hoje em decadência pela sua pobreza arquitetónica e urbana – continuamos cada vez mais pobres, desordenados e endividados.

 

Urje, assim, uma vez mais, um grande, autêntico e decisivo debate sobre a cidade que queremos ter e que cidadãos queremos ser neste cantinho flaviense que nos é dado viver. Porque a cidade e o seu espaço/território não é «coutada» de uns tantos, mas espaço de vida para aqueles que nele habitam.

 

António de Souza e Silva

 

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Quinta-feira, 30 de Janeiro de 2014

O Homem Sem Memória - 188

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

188 – Os tempos que decorreram foram de alívio e medo. Alívio porque o torcionário tinha desaparecido sem deixar rasto e medo porque ninguém sabia o que se passaria a seguir. Tanto o poder como a populaça se estudavam mutuamente. A incerteza cria a desconfiança e o caos.

 

As chefias provisórias foram procuradas na prata da casa. Mas tudo o que é provisório é fraco. E os prisioneiros começaram a pugnar por mais direitos, argumentando que estavam inscritos na Constituição. Responderam-lhes que a Constituição Socialista, que tanto custou a escrever, é para gente de bem, para o povo, não para os traidores. Os traidores são tratados como isso mesmo, como gente que não conhece a razão. A razão do Estado, a razão das ideias, a razão do Partido.

 

Gerou-se muita polémica, a que o José não passou incólume. Mas ele, pelo menos publicamente, não manifestou qualquer opinião. A princípio, os seus camaradas contrarrevolucionários estranharam o procedimento. Até porque sabiam que o José era muito bom na liderança dos processos políticos de massas e sabia falar e argumentar como poucos. Mas todos igualmente sabiam, e o filho da Dona Rosa mais do que ninguém, que pela boca morre o peixe. E ele, pelo menos desta vez, não ia morder o anzol.

 

Sabia que esta direção do campo era provisória e que tinha recebido ordens expressas para amaciar os procedimentos para ver se descobriam os responsáveis pelo desaparecimento do camarada capataz. Se o exemplo vingasse, o poder estava em perigo. Nenhum camarada pode desaparecer assim do pé para a mão e nunca mais ser encontrado. Isso era o caminho para a anarquia. E se os comunistas detestam visceralmente alguma coisa é a anarquia, que é o contrário da organização, da ordem e, por conseguinte, do socialismo e do seu estádio superior, o comunismo.

 

Claro está que aquela gestão de águas mansas num campo de concentração tinha de ser como a chuva de verão. E passadas apenas algumas semanas o sistema de administração endureceu bastante. O novo capataz, tendo um aspeto físico muito diferente do anterior, era nos procedimentos em tudo idêntico ao seu volatilizado camarada. Quando o puseram à prova com a sugestão da trasladação das ossadas do John Cleese para uma campa do cemitério para descansar em paz, limitou-se a afirmar que tudo devia permanecer igual ao que estava, pois essa era a forma de perpetuar a memória do seu antecessor que tão boas provas tinha dado de dedicação à causa revolucionária educando os reacionários nos sãos princípios do marxismo-leninismo. “Os bons exemplos são para ser seguidos”, disse alto e bom som logo na primeira reunião com os prisioneiros.

Escusado será dizer que o José prometeu vingança, pois a ideia de alguém ser capaz de deixar as ossadas do seu estimado amigo expostas aos olhares dos prisioneiros como uma forma de aviso macabro, era-lhe intolerável. Por isso decidiu reunir com o seu núcleo mais próximo para tomarem uma decisão.

 

A primeira proposta foi a de que se devia proceder com este capataz da mesma forma que com o anterior, pois eram duas almas gémeas na insensibilidade e na repressão. Todas as seguintes intervenções foram do mesmo teor, que se devia eliminar o mal pela raiz e fazê-lo desaparecer da mesma forma. Mas o José tinha outra opinião. Não se deviam adotar dois procedimentos idênticos pois seriam logo objeto de suspeita e investigação. Além disso os pobres dos javalis não mereciam serem envenenados com carne de tão fraca procedência. As doses de veneno podiam ser-lhes fatais.

 

Quando questionado, à boa maneira leninista, sobre o que fazer, respondeu que deviam dar-lhe um tiro entre os olhos, precisamente no mesmo sítio onde o torcionário anterior tinha alvejado o companheiro John Cleese. Eles olharam para o José como se de repente tivesse enlouquecido. Pois esse era um tipo de procedimento que de certeza os levaria ao fuzilamento. O José concordou que tudo indicava que sim, mas apenas se depois do disparo e da morte do capataz ficassem ali à espera de que os viessem prender, torturar e fuzilar.

 

O plano do José baseava-se na morte do torcionário, seguida de fuga e evasão, mas uma evasão em grupo, devidamente organizada, com o objetivo de constituírem uma brigada revolucionária, de sentido oposto, que se dedicasse a combater o poder ilegítimo instituído na República Popular do Sul. “A morrer devemos morrer de pé como os sobreiros”, disse com a voz embargada. “E não aguardar fenecer sem fazer nada para inverter este estado de coisas.” No que foi apoiado pelos seus camaradas contrarrevolucionários.

 

O primeiro procedimento foi o de recolherem as armas e as munições que o José tinha vindo a acomodar e a esconder em lugar seguro. Afinal, a sua dedicação ao campo e aos roteiros de caça tinham dado os seus frutos.

 

O dia escolhido para a ação foi o do aniversário da UCP. Decidiram que matariam o capataz na cerimónia oficial. E foi isso que fizeram. Deram-lhe um tiro mesmo no meio da testa quando ele e os seus camaradas convidados mais destacados da região degustavam a carne de alguns dos javalis responsáveis pelo desaparecimento do anterior diretor do campo.

 

Depois do pânico instalado, os prisioneiros sublevados puseram-se em fuga. Na troca de tiros que se sucedeu, alguns dos companheiros do José foram abatidos. Mas foram precisamente esses homens que possibilitaram que a fuga tivesse êxito.

 

Mais uma vez, o José, que era avesso às armas e aos atos violentos, se viu metido numa guerra de guerrilhas.

 

189 – E lá foi o José, mais uma...

 

(continua)

 

 

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Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014

Chá de Urze com Flores de Torga - 22

 

TODOS CRIAMOS O MUNDO À NOSSA MANEIRA

 

I

 

A língua é um dos pilares fundamentais da identidade de um povo.

 

A escrita é uma das formas da expressão da língua.

 

Nas diferentes expressões da escrita, os autores, com a sua imaginação e criatividade, mostram-nos a «alma» de um povo.

 

Mas a «alma» de um povo, tal como esse mesmo povo, não é estática. Flui, é dinâmica. Vive num determinado lugar e num determinado tempo, ou seja, tem um determinado contexto. Possui estórias. E tem uma história.

 

A história do povo português é a da sua inquietude, do seu desassossego e insatisfação. Da pouca terra que a Reconquista foi «pressuriando» até ao mar alto e encapelado das Descobertas e expansão ultramarina. E que, no final de um grande e glorioso ciclo, nos (deve) lembrar que sempre fomos demasiado pequenos, embora a vontade e o querer determinado, de certas épocas, nos tenha feito grandes. E, na hora de retornar a «casa», não nos podemos esquecer do lugar donde partimos: o lindo rectângulo à beira mar plantado, nesta Europa da qual fazemos parte integrante, que anda a desnorte, à procura de um rumo que (também), ativamente, deve contar com a nossa participação como um interpares. Para não continuarmos a sair daqui, continuamente, e ir construindo e enriquecendo outros países, enquanto o nosso, exaurido das suas gentes, cada vez mais, fica pobre, árido, deserto. Nas mãos de uns poucos «abutres», tanto de dentro como de fora portas, sempre à espera de nos «comerem», até ao tutano, os poucos ossos que já temos.

 

A história da nossa diáspora tem tanto de grandeza como de pobreza e miséria.

 

Resta uma língua e uma cultura que espalhamos pelo mundo. Ora dominando, ora assimilando. Mas não perdendo a identidade num mundo cada vez mais complexo, homogénico, hegemónico e global. Onde a diversidade também conta e faz (deve fazer) a diferença.

 

Por isso, não nos repugna qualquer acordo ortográfico. Desde que tolerante das diferentes diferenças e respeitador da matriz essencial que a todos nos une como povos irmãos. Porque, o que deve contar, não é certa gentinha ou gentalha, que em certos períodos da história nos (mal ) governa, mas o Homem Português na sua gesta criadora de «mundos».

 

II

 

E, falando de criação de mundos, vem à colação um artigo inserto na Revista de Pós-graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo/Brasil, vol. 6-nº1, pág.s 56-68, Janeiro/Junho de 2010, de Raquel Terezinha Rodrigues, com o título «Miguel Torga: do singular ao plural».

 

Fala-nos a autora, neste artigo, da obra de Miguel Torga A Criação do Mundo, obra, tal como Torga diz, no prefácio à tradução francesa do livro, ser escrita “temerariamente” na mocidade e que, para ele, é um misto de crónica, romance, memorial, testamento.

 

A A Criação do Mundo é, na opinião desta autora, partilhada por muitos outros, um texto intimista, abrindo espaço para a autobiografia literária.

 

A primeira definição de autobiografia pode ser encontrada no próprio nome: biografia de uma pessoa feita por ela mesma, traduzindo, assim, a sua vida em «grafias» ou «escritas».

 

Segundo Raquel T. Rodrigues, Lejeune define textos autobiográficos como relatos interpretativos que alguém real faz da sua própria existência. E a linha mestra deste movimento (autobiográfico) é a memória.

 

A A Criação do Mundo, de Miguel Torga, traz uma inovação não só na maneira de escrever um texto autobiográfico mas também na forma utilizada para tal. Foi escolhida para a escrita deste texto uma forma não convencional, ou seja, a forma de dizer, como o relato da criação do mundo feito pelas Bíblia. A Bíblia, nomeadamente o Velho Testamento, forneceu os motivos de inspiração para Torga. E talvez seja essa procura constante pelas origens, que a obra evidencia, como diz Raquel T. Rodrigues, que leva Torga a organizar da mesma maneira que o Criador o mundo à sua volta.

 

Assim, a obra é composta por seis dias e, no Primeiro Dia da Criação, há a expulsão desse menino do seu paraíso, o lugar que o viu crescer e aprender as primeiras letras.

 

Não é aqui nossa intenção fazer um resumo da obra. Por um lado, porque poderíamos ser muito redutores do(s) seu(s) diferente(s) conteúdo(s); por outro, trairíamos o objectivo que nos leva a esta escrita: o levar ou incitar o caro(a) leitor(a) a (re)ler efectivamente a obra.

 

Aqui basta-nos ficar com as palavras da sua filha, citadas no artigo pela autora que vimos referindo, quando, a dado passo, Clara Rocha diz que toda a autobiografia é uma auto-interpretação, em que o estilo, ao mesmo tempo que denuncia a intensão de reconstruir o passado, segundo um projecto presente, indica a relação do escritor com o seu próprio passado.

 

Todos nós criamos o mundo à nossa medida. Este mundo, segundo Torga, tem várias facetas e é longo, para uns, curto, para outros, e, ao mesmo tempo, simples e complexo.

 

E são bem verdade as palavras vertidas no final do artigo de Raquel T. Rodrigues quando diz: “A autobiografia, apesar da pretensa relação com a verdade, não pode abranger essa vida na sua totalidade; o que se tem são recortes, pedaços, ainda por cima contidos em texto, que se estrutura a priori na imagem bíblica da criação do mundo e que, diga-se de passagem, não se efectiva, não somente pelo facto de que na teoria criacionista há referência ao Sétimo Dia da Criação mas, sobretudo, pelo facto de ao ver o que criou Torga limita-se a pensar que, embora não tenha sido exactamente como desejou, encerra o ciclo com a possibilidade de remeter para o prefácio, em que diz que, por ele, fez o que pode. Cabe ao leitor dizer se valeu a pena ser visitado”.

 

III

 

Esta obra A Criação do Mundo, e este artigo, trouxe-me à lembrança a leitura de uma outra que fiz neste último verão.

 

A sugestão veio de uma local da revista Visão na qual o psiquiatra Daniel Sampaio recomendava vivamente a sua leitura: Luz Antiga, de John Banville, publicada pela Porto Editora.

 

Trata-se de um romance no qual se medita sobre o amor e a perda, sobre o imediatismo do passado nas nossas vidas presentes e, como se diz na contracapa, “sobre a forma como a imaginação inventa memórias e as memórias inventam o homem”.

 

Na verdade, existe alguma diferença entre a memória e a invenção?

 

António de Souza e Silva

 

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Terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

Intermitências

 

Anestesia

 

Esqueceu o relógio em casa. Deixou também lá o telemóvel. Propositadamente. Não olhou mais para os ponteiros que se atravessam no seu afazer diário. Desconfigurou os números de todos os ecrãs. Apagou os timings da sua mente e deitou fora a agenda. Propositadamente. Desejou, a partir desse dia, anestesiar o tempo.

 

"Já viste as horas!?" Não, não vira. O tempo era a obsessão da sua vida, o que sempre a controlava. A ela e a toda a gente. "Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje". Queria ser anestesista do tempo. "A que horas?". Até à hora da nossa morte.

 

Ao ser anestesista, ia dar tempo ao tempo. Não se ia preocupar com o antes, nem com o agora, e muito menos com o depois. Afinal, o tempo é uma grande anestesia. Deixa passados, presentes e até futuros esquecidos.

 

 Budapeste, Janeiro 2014 - Fotografia de Sandra Pereira

Ela esquecia o relógio em casa. Deixava o telemóvel em casa. Propositadamente. "Não podes viver assim!". Respondia que era anestesista do tempo. Poucos acreditavam. Ninguém confiava. "Com o tempo, vai passar-lhe..."

 

Pouco depois, tatuou um relógio no pulso. Enterrou outro relógio nas costas. Sem ponteiro, números desfocados. Um desafio. Na rua, em qualquer lugar, agora só olhava para o design dos relógios, tudo o mais não tinha sentido. Passava ao lado do tempo...

 

E para quê preocupar-se? Afinal, o tempo é uma grande anestesia.

 

Sandra Pereira

 

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Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2014

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (73): burros de carga

 

Claudio Magris tem razão, do ponto de vista psicológico somos todos conservadores e ainda por cima cegos. Não conseguimos acreditar realmente que o mundo, tal como estamos habituados a entendê-lo, possa mudar. Mas ele muda. Apesar da nossa cegueira.

 

Agora está na moda o discurso sobre o discurso, como se o agricultor preparasse muito bem as alfaias agrícolas, calibrasse muito bem o arado, fizesse um discurso à mulher e aos filhos sobre a melhor forma de amanhar a terra, mas o pão e as batatas não chegassem à mesa. Bem vistas as coisas, o arado não é o objetivo. É o meio. E é disso que nos vamos esquecendo.

 

Por exemplo, aqui na nossa autarquia pensa-se sempre pequeno e a destempo. Andam sempre a errar o tiro e a correr atrás do prejuízo. Mas para o caçador matar um coelho, ou uma perdiz, tem de apontar para um ou dois metros à frente, porque, diz-nos a ciência da caça, só se apontarmos para diante é que podemos atingir os nossos objetivos.

 

Não é pois de estranhar que a capa da “New York Times” tenha dado destaque ao título “Em Portugal, o burro de carga vive de subsídios”, fazendo uma comparação entre o asno do planalto e o destino de Portugal e dos portugueses.

 

Raphael Minder, o autor do artigo, recordou que o burro foi essencial na agricultura durante muito tempo, mas corre agora o risco de extinção por causa do abandono das terras. Por isso Portugal, mais concretamente o seu interior, se encontra ameaçado “pelo declínio da população e com a sobrevivência dependente dos subsídios da União Europeia”. 

 

Tudo isto serve para introduzir mais uma lamentável notícia. A Delegação de Turismo de Chaves, à semelhança da Universidade, da PJ, do Tribunal, do Hospital, vai ser transferida para Vila Real.

 

Ou seja, através de mais uma machadada desferida nos serviços da nossa cidade, comprometendo a sustentabilidade dos nossos espaços termais e a divulgação turística da região, bem assim como pondo em risco efetivo os atuais postos de trabalho existentes na delegação flaviense, vamos ficando cada vez mais pobres e isolados, remetidos à desqualificação, ao abandono e ao definhamento.

 

Falta pouco para nos transformarmos numa vilazinha descaracterizada, rudimentar e triste.

 

Se pensarmos bem, o poder central, em conivência com alguns políticos locais subjugados pela inoperância e pelo servilismo partidário, em apenas meia dúzia de anos levou-nos tudo o que era necessário e estruturante para a nossa cidade e para o nosso concelho.

 

António Cabeleira, o senhor presidente eleito, veio para os jornais afirmar que, numa conversa tida com o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, tinha ficado “no ar” a promessa de que a situação de encerramento da nossa delegação não se concretizaria.

Afinal concretizou-se. E o senhor presidente disse lamentar. Não disse “combater”, ou “contestar”, disse “lamentar”. Não disse “lutar” ou “insurgir-se”, disse “lamentar”. Como se a Câmara de Chaves fosse um muro de lamentações e ele um rabino ortodoxo.

 

Os flavienses elegeram um autarca que em vez de lutar pelos nossos direitos, apenas se lamenta. Em vez de agir, lastima-se. Em vez de atuar, suspira.

 

Mas também, temos de reconhecer, o poder autárquico que resultou das últimas eleições é uma fantasia. É uma ilusão. É um equívoco.

 

Com o senhor presidente a fazer de mestre-escola, a atual vereação camarária faz-me lembrar as palavras de Galvão de Melo, proferidas ainda antes do 25 de abril e que lhe custaram uma punição disciplinar, relativas à frota de submersíveis: “A Marinha Portuguesa possui apenas três submarinos e todos eles inoperacionais. Tem um que só sobe, um que só desce e um terceiro que nem sobe nem desce.”

 

Está visto que os políticos são cada vez mais atores que representam interesses alheios. Só que a nós calharam-nos logo os mais deslavados e incaracterísticos.

 

Um dia, ainda criança, o meu filho mais novo disse-me com o seu ar brincalhão: Pai, quando for grande quero ser político. Eu perguntei-lhe: Para fazer o quê? Ele respondeu-me com toda a sinceridade: Para não fazer nada!

 

Como naquela altura ainda andava iludido com a política, tentei fazer-lhe ver que não era bem assim. Ele, depois de toda aquela explicação, olhou para mim, sorriu… e foi brincar.

 

Chegado aqui, apenas me resta confessar que, tal como o ex-comissário Ledru-Rollin, do livro de Gustave Flaubert, “A Educação Sentimental”, a política só me trouxe desilusões e tormentos. E a explicação é a mesma. Tal como o senhor ex-comissário “pregava a fraternidade aos conservadores e o respeito das leis aos socialistas”. O homem foi tão bem compreendido que “uns tinham-lhe dado tiros e os outros trazido uma corda para o enforcarem”.

 

A mim não chegaram a tanto. Mas estou em crer que vontade não lhes faltou. Ou lhes falta. Mas o que tem de ser tem muita força. E a prestidigitação e a mentira em política não costumam durar muito.

João Madureira

 

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Domingo, 26 de Janeiro de 2014

Almorfe - Chaves - Portugal

 

Passei montes de vezes por esta placa que mesmo meio disfarçada por entre a vegetação sempre foi bem visível e, de cada vez que passava por ela ia dizendo – tenho de ir ali. Pois o tempo foi passando e Almorfe ia ficando sempre na placa, pois um ou outro destino iam sendo sempre mais fortes que aquela viragem à direita. Contudo chegou um dia em que já tinha percorrido todas as aldeias do concelho, algumas mais que uma vez, e Almorfe continuava a zeros. Pois foi mesmo nesse dia que me decidi, propositadamente,  de vira os meus destinos para aquela que era a última aldeia do concelho a ser registada fotograficamente pela minha objetiva. Era o dia 20 de outubro de 2007, precisamente às 16 horas. Com a era do digital é fácil sabermos por onde andamos, a que horas e em que dia…

 

 

Confesso que depois desse dia só mais uma vez passei por lá, em dia de neve, para um registo muito rápido, mas tenho de voltar lá, pois no meu arquivo apenas contam vinte e pouca fotografias mas apenas com meia dúzia de motivos.

 

 

Na realidade também não devem haver muitos motivos diferentes daqueles que registei em 2007, pois se há aldeias pequenas, Almorfe é uma delas, mas pela certa que há pormenores e, sá sabemos que no que toca a pormenores singulares, as nossas aldeias são uma mina de ouro por explorar. Há sempre um pormenor à nossa espera.

 

 

Um dia destes volto por lá. Para já ficam quatro imagens de aquivo,  das tais vinte e poucas fotos que registei há uns anos atrás.

 

 

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Pecados e picardias

 

 

A Taverna

 

A taverna cheia de odores

Os melhores…idílicos sabores

Alimento da libido …das papilas

Escrutinando prazeres essas meninas

 

Prazeres frequentes obrigatórios

Guardados nas subtilezas da cozinha

Transformados em aromas invocatórios

Da inteligência da cozinheira dona Bertinha

 

Nesta hora da refeição …tanta gente

Como sentia a solidão… presente

Tinha de servir rapidamente o prato do dia

Era a pressa do retomar o trabalho do dia a dia

 

Desde a manhã  a trabalhar …

Já começava a sentir o cansar

Mas hoje ia ser um dia diferente

Vinha o javardo e ela ia estar presente

 

Os homens…

Ignoravam  as  mulheres…sempre

Mas ela estava lá fazendo-se ausente

E às ordens…

 

Pensavam que ela não existia

O homem esse… para ele era a criada

Nunca demonstrava ver o seu ar de cansada

Nem a solidão que transmitia

 

Quantas vezes sonhava com a liberdade

Aquela de não ter de fazer nada

Quando a vida lhe desagradava

A vida de solteira …que saudade

 

Sentia o peso da dureza do dia  a dia

Sempre que fazer as compras e o comer

O cansaço tirava-lhe agora a alegria

Que em tempos a sua face transmitia.

 

O homem à noite já nem a procurava

Ia para a cama já ela estava deitada

Fazia que dormia embora acordada

Aquela nostalgia até de madrugada

 

Mas hoje ia ficar a pé até tarde

Queria ver o que o javardo trazia

Perceber qual o motivo de euforia

O que na sua presença provocava alarde…

 

O javardo não lhe saía da cabeça

Mal  podia esperar pela noite

Olhou para a comida na mesa

Acabou de almoçar à pressa…

 

O homem pouco comeu

Ela sabia que estava agitado

Sabia o que aconteceu

Tinha a cabeça no passado…

 

Perdeu a noção do tempo

Em que se tinham desencontrado

Onde ficou todo o alento

E o entusiasmo? Tudo acabado…

 

E a culpa ? De quem foi?

Sua …Dele…da vida

Agora unidos pela rotina

Acostumou-se, já nem dói…

 

Tinha de lavar a loiça

Preparar as merendas

Para ela era pouca coisa

Aguentava… até as contendas…

 

Fez pataniscas de bacalhau

Colocou-as dentro do balcão

Polvo com molho de colorau

Estufou moelas com açafrão

 

Hoje a excitação evitava o cansaço

Queria descobrir de uma vez por todas

O que se passava quando ele chegava

Há algum tempo que desconfiava

 

Apesar do movimento da tarde

Sentiu que ia custar a passar

Tinha mesmo que disfarçar

A ansiedade dor que arde

 

No fundo nunca se conformou

Com as desditas de ser mulher

Até consigo própria barafustou

Por se render à falta de poder

 

Mas um dia percebeu com clareza

O poder que tinha …à mesma

Quando o homem  perdia o olhar

Em regaços proibidos…de tocar

 

 

Isabel Seixas

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Sábado, 25 de Janeiro de 2014

Samaiões - A Ruralidade versus Urbanidade de uma aldeia

 

Então vamos lá mais uma vez até às nossas aldeias, até à nossa ruralidade, no caso, a aldeia de Samaiões.

 

Começo pela dúvida de se vamos, ou não, até à nossa ruralidade, isto é, se para ir até à ruralidade de Samaiões chegamos a sair de qualquer urbe e, isto, poderá ter dois sentidos que deixo aqui ao vosso critério em duas questões: 1 – Saímos realmente de uma urbe para entrar na ruralidade?; 2 – Será que precisamos de sair da urbe para entramos em Samaiões?

 

 

Pois na realidade hoje e sempre, quer na anterior freguesia de Samaiões, quer agora na atual freguesia a que Samaiões pertence (Madalena/Samaiões), sempre teve como uma das fronteiras a freguesia de Santa Maria Maior, ou seja, a freguesia do coração da cidade onde a urbe tem e sempre teve o seu centro histórico, e daí poder-se considerar uma freguesia urbana ou se quisermos ser mais precisos, uma freguesia periurbana.

 

 

Estamos explicados, ou quase, pois desde início que não prescindi do termo ruralidade de Samaiões, porque de facto a aldeia de Samaiões, pese a proximidade da cidade, é em tudo rural  e pouco ou nada difere de uma das nossas aldeias de montanha, até no despovoamento, envelhecimento da sua população e abandono do casario rústico tradicional.

 

 

Não quero com o discurso anterior desprestigiar a aldeia de Samaiões, antes pelo contrário, pois é uma aldeia única, com todas as características rurais quase inalteradas e a um passo da cidade, ou seja, poderia, ou poderá ainda ser uma aldeia que é o sonho de muitos – viver a ruralidade dentro (ou quase) da cidade.  

 

 

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Pedra de Toque - A Geração "Orpheu"

 

A GERAÇÃO DO “ORPHEU”

 

Há poucos dias, o meu estimado sobrinho Henrique Souza de Azevedo, um jovem e brilhante diplomata, pelos vistos interessado nas coisas da arte, o que me apraz registar, postou no seu mural do face, um extraordinário quadro de Amadeo de Souza Cardoso, o pintor nascido em Manhufe – Amarante, em 1887.

 

Amadeo, que morreu muito jovem a 14 de Novembro de 1918, tão só com 31 anos, ceifado pela pneumónica, com a sua curta obra modernista, conseguiu abalar o provincianismo reinante na época, o que lhe valeu algumas afrontas nas exposições que levou a cabo no Porto e em Lisboa, pouco antes do seu decesso.

 

Cozinha da Casa de Manhufe, c. 1913, óleo sobre madeira, 29,2 x 49,6 cm de Amadeu de Souza Cardozo

 

Amadeo, juntou-se a outros nomes de elevada grandeza no mundo das letras e das artes que, reunidos na revista “Orpheu”, publicaram textos e reproduziram pintura e desenhos.

 

Logo, os dois primeiros números da revista, editados em 1915, tinham, entre outros, textos de Almada Negreiros, de Mário Sá Carneiro e de Fernando Pessoa, que usou o seu heterónimo de Álvaro de Campos.

 

Também Amadeo, como Santa-Rita Pintor, integraram a geração do Orpheu mas durante pouco tempo, porque a morte os levou em consequência da referenciada epidemia.

 

Sá Carneiro não conseguiu suportar a depressão que o atormentava e em Paris, com 26 anos, num quarto de hotel tomou estricnina e despediu-se tragicamente da vida deixando uma obra poética ímpar e ainda hoje extremamente lida e apreciada.

 

Mário de Sá Carneiro

 

Fernando Pessoa, o genial Pessoa, o homem que foi Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Bernardino Soares (quiçá para além de outros muito menos conhecidos), deixou-nos em 1935, aos 47 anos num fim de vida extremamente difícil e fisicamente degradante.

 

Ficou contudo, para nós e para o mundo, uma genial obra, sobretudo poética, a cuja qualidade se renderam e rendem homens e mulheres de todos os continentes.

 

Foi Almada Negreiros, com quem julgo me cruzei uma ou outra vez nas ruas de Lisboa, o intelectual da “Orpheu”, de maior longevidade.

 

Retrato de Fernando Pessoa, 1954, óleo sobre tela, 201 x 201 cm, de Almada Negreiros

 

Partiu aos 77 anos, em 1970, um ano após se ter dado a conhecer ao povo português numa entrevista a Raul Solnado, no saudoso programa televisivo Zip-Zip.

 

A sua clarividência, a sua cultura, o seu discurso simples, escorreito e profundo, permitiram um momento superior de televisão que ficou certamente na memória de todos aqueles que tiveram o privilégio de o ouvir.

 

Dramaturgo, poeta, escritor, ensaísta (o Manifesto Anti-Dantas, entre outros textos) e sobretudo pintor, deixou painéis, frescos (Gare Marítima da Rocha de Conde de Óbidos) e inúmeros quadros e desenhos.

 

Almada Negreiros -- Auto-retrato

 

 

Amigo de Fernando Pessoa, imortalizou o poeta que muito admirava, no célebre quadro em que este está sentado à mesa do restaurante Irmãos Unidos.

 

A geração do Orpheu não foi uma ínclita geração, mas foi um conjunto de personalidades eivadas de talento desmedido, que ficaram e ficarão para sempre nos compêndios da cultura e da arte portuguesas.

 

António Roque

 

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Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

A CAPELA DE FORNELOS

 

Não fora a sua humilde capelinha, construída em honra da padroeira Nossa Senhora da Assunção e Fornelos, no toutiço do Planalto, seria um ignorado povoado, ausente de expressão relevante, na imensidão quase desértica do altiplano do Brunheiro. Numa pesquisa toponímica, percebemos que o seu nome derivou da palavra latina furnellus, que significava fornos pequenos. Agora, notícia de fornos, por ali, só mesmo os de cozer o pão. De outros não avezamos novidade nem memória. Todavia, nem duns nem doutros rezará esta redação.

 

Corria o ano de 1760, cinco anos volvidos após o fatídico terramoto que arrasou Lisboa e os Algarves, no dia de Todos os Santos. No termo deste segundo terço do séc. XVIII, haveria em Fornelos apenas duas casas: a do padre Zé, oriundo de Água Revés e que veio pastorear as ovelhas de Santa Leocádia, e a dos antecessores da tia Miquelininha.

 

Da lavra das courelas do clérigo trataremos depois. Por agora, ariquemos os linhares da Miquelinina, para mais tarde lhe mondarmos o renovo.

 

É curioso perceber que é, sobretudo, a partir do casal desta senhora que a aldeia cresce, já em finais do século seguinte. De facto, a tia Miquelininha era uma respeitada solteirona que herdou, dizem que de um padre, as leiras mais mimosos do lugar. Sem descendência que lhe garantisse a lavra, contratou um criado em Loivos, de nome Manuel Ferreira Borges, mais conhecido por ceboleiro, por vir do sítio onde a terra dá mais cebolas do que penedos! Na flor da idade, o serviçal, apesar da casca grossa de seu berço, detinha invulgares predicados: era honrado, sério e bom trabalhador e o melhor é que assobiava quase tão bem como trina o rouxinol nos silvados. Quando lavrava a cortinha da Ginjeira, contígua à casa, esmerava-se tanto na harmonia que a senhora sua ama se sentava na pedra da janela, fingindo bordar, somente para o ouvir. Ora, aqueles silvos em tom menor começaram a bulir com o coração da dama, ao ponto de as lavouras, aos serões, começarem a ser outras! A coisa estava a ganhar proporções perigosas. Para evitar o falatório e o consequente escândalo de uma senhora, prendada, se dar a um criado, ela mandou-o ao Brasil para que se polisse. Esteve em Alagoas, a servir, durante cinco anos. Quando regressou vinha de fraque, de cartola e mala de crocodilo. Já não era vergonha casar com um brasileiro! O nó foi dado na matriz de Santa Leocádia, mas com voto de castidade para calar o povo. Não sei se do cumprimento escrupuloso do voto, ou se de outra coisa qualquer, a verdade é que nunca alcançaram filhos. Como a idade ia avançando, para amparo da velhice foi pedida, emprestada, uma sobrinha catraia ao seu irmão, também ele ceboleiro, que tinha ido servir para o Porto e aí constituído família. Esta menina, com apenas cinco anos, Albertina Borges, haveria de ser a minha avó materna. Herdou o vasto casal da Miquelininha, mas teve de aturar os anciãos até ao final de suas vidas.

 

 Fornelos

Mas tornemos à vaca fria!

 

Ora, uma aldeia com padre e sem capela, era como um ninho sem pedrinhas! Mas para que Fornelos a avezasse, era preciso dinheiro e consentimento da vetusta Archidiœcesis Bracarensis, de cuja autoridade eclesiástica dependia esta região. De notar que a paróquia de Santa Leocádia, que inclui o lugar de Fornelos, pertence ao arciprestado de Chaves e à diocese de Vila Real, somente desde 22 de Abril de 1922.

 

O tal padre Zé tinha uma criada, a Clotilde Zidéria, que desde a missa nova lhe aconchegava a mesa e o cobertor de papa, nas noites geladas do Planalto. Mulher tesa, esta Zidéria, tinha pelo na venta, como se dizia. Assucava, semeava e sachava como qualquer homem e, quando preciso fosse, até alombava, do pátio para o palheiro, com as sacas de cem quilos de sal que comprava em Carrazedo para as salgadeiras. Era natural da vizinha aldeia de Adães, de uma família modesta mas destemida.

Mal a Zidéria se deu conta do sonho de seu amo e da precisão do povo, logo idealizou forma de conseguir a capelinha. Meteria pés ao caminho até Braga, a fim de clamar pelos Pintos e pela autorização ao Arcebispo. Contudo, a empreitada dava pelos peitos a uma mula! Ir tão longe, por tão maus caminhos, sujeita a tantos perigos, sozinha e à pata, não era saga para qualquer um! Levaria uma boa semana a chegar lá e, se o Arcebispo não estivesse com as pernas abertas para a receber, a jornada poderia redundar num fracasso difícil de tragar. Mas, como quem não arrisca não petisca, planeou a saída de forma a estar na Roma portuguesa em plena Semana Santa.

 

Naquele ano, a Páscoa calhava a 6 de abril e a Semana Santa decorria a partir de 31 de março. Por isso, saiu de Fornelos a 24 de março, uma segunda-feira. Ajeitou uma pequena trouxa que encabou num varapau, preparou a roca e o fuso para se entreter pelo caminho e fingir aos malfeitores que era de alguma aldeia próxima. Enrolou-se numa capa de burel e, encabada nuns socos serrados, fez-se ao caminho. Não o sabia, contudo, por essas aldeias, não faltaria quem lho ensinasse, quem lhe matasse a fome e quem lhe emprestasse um palheiro para pernoita. Medo, medo, só dos lobos e das almas penadas nas encruzilhadas. Dos primeiros salvá-la-ia o cipó, das segundas as Ave-marias. Seguiu, então, por Matosinhos até Loivos e chegou pela noitinha ao Vidago. Aí pernoitou. No dia seguinte dormiu nas Boticas. A terceira pernoita fê-la em Salto. No quarto dia de viagem, atravessou o Regavão pela ponte da Misarela e dormiu em Ruivães, num palheiro da casa do Capitão-Mor. Depois, pela ponte do Saltadouro, a mesma onde anos mais tarde os franceses haveriam de pagar com centenas de mortos as pilhagens e as violações de segunda invasão, seguiu até Salamonde onde pernoitou pela quinta vez. No dia seguinte, pernoitou já em terras de Lanhoso e no domingo, dia 30, arribou, pela tardinha, à cidade de Braga.

 

 Fornelos - Rua Principal (EN 314)

Deslumbrou-a a engalanação para a Semana Santa. Nunca tinha visto cidade tão grande, tão bonita e tão pia. Também, a bem dezer, só conhecia a vila de Chaves!.. Procurou onde era a Sé e o Paço Arquiepiscopal, residência oficial do Arcebispo. Depois do reconhecimento, acolheu-se num albergue para peregrinos de Santiago. No dia seguinte, cedo, dirigiu-se ao Largo do Paço e procurou a entrada principal da residência arcebispal. Ao tempo, ocupava o cargo D. Gaspar de Bragança, desde 1758.

 

Permita-se-me que saia aqui do rego, para falar um pouco desta figura.

 

O infante D. Gaspar de Bragança, nasceu em Lisboa, a 8 de Outubro de 1716 e faleceu em Braga a 18 de Janeiro de 1789. Foi um dos filhos ilegítimo do rei de Portugal D. João V, nascido de uma relação com a religiosa Madalena Máxima de Miranda. Foi o segundo dos Meninos de Palhavã. Com apenas 42 anos de idade, foi nomeado Arcebispo Primaz de Braga, sucedendo ao seu tio D. José de Bragança, também ele filho bastardo de D. Pedro II rei de Portugal. A talho de foice, refira-se que D. João V tinha um fraquinho por freirinhas. Visitava, com certa frequência, o convento de Odivelas, onde alimentava o espírito, mas sobretudo a carne com as suas amantes monjas. Dessas incursõess, nasceram os tais Meninos de Palhavã: D. António, filho de Luísa Inês Monteiro que veio a ser cavaleiro da Ordem de Cristo; D. Gaspar, Arcebispo de Braga e D. José, filho da Madre Paula de Odivelas que exerceu o cargo de Inquisidor-mor. O povo chamava aos zorros Meninos de Palhavã, por residirem no palacete com o mesmo nome e que o rei mandou edificar, propositadamente, para os acolher. Hoje está aí instalada a embaixada de Espanha.

 

Tornemos à lavoura!

 

Ao chegar ao Largo do Paço, Zidéria dirigiu-se à porta principal e pediu ao porteiro que lhe permitisse a fala com sua eminência o Arcebispo. Claro está que o seu aspeto andrajoso deve ter provocado o enxotamento para mais de três léguas abaixo de Braga! Contudo, como mulher corajosa que era, ateimou, ao ponto de mamar duas labrestadas para desistir por aquele dia. No seguinte, compôs-se como pôde, mas recebeu do mesmo. Dando-se conta que por ali não chegava ao Arcebispo Primaz, tratou de indagar pelas tascas das redondezas quando é que ele rezava missa na Sé. Soube que era costume fazê-lo pelas onze horas da quarta-feira da Paixão. Neste dia, alguns anos mais tarde, passou a organizar-se em Braga, a tradicional procissão da Burrinha. Pregou-se no templo, assistiu à eucaristia e esperou pelo final da cerimónia. Tirou as medidas à entrada da sacristia e quando lhe pareceu, investiu direitinha à autoridade, sem que cónego ou acólito a pudessem deter. Pensando o sacristão que seria seu propósito esganar o Arcebispo, pegou na tranca da porta e levantou-a para lhe partir os cornos! Não teve tempo porque Clotilde caiu aos pés do clérigo de joelhos clamando pia e humildemente uma oportunidade de lhe chegar à fala. Perante tão inaudito propósito, D. Gaspar, acedeu a recebê-la em audiência na tarde desse mesmo dia, uma vez que, no fim daquela missa, já se fazia tarde para atacar o peru assado que o esperava para o almoço.

 

Capela de Fornelos

 

Zidéria comeu à pressa uns rojões com farinheira numa qualquer taberna de S. Marcos e nem escoucou a tijela do verdinho para ir tomar vez à porta do Paço. O porteiro, avisado, já não a escorraçou. Seriam umas quatro da tarde quando recebeu recado para que ela entrasse. Subiu prestes a escaleira e de corredor em corredor, arrastando os pesados tamancos pelo sobrado encerado, lá chegou aos aposentos de despacho do Arcebispo D. Gaspar.

 

Não era para qualquer um!

 

O vigário quis ouvir, pausadamente, a sua estória. Comoveu-se tanto com a sua coragem, mas sobretudo com a sua fé, que não só acedeu ao pedido de autorização da construção, como ofereceu o próprio projeto e grande parte dos fundos necessários para que Fornelos tivesse a dita cuja. Porém, não se ficou por ali. Ordenou que arranjassem aposentos, comida e roupa decente para aquela heroína. Também a convidou a assistir às cerimónias da Semana Santa que teriam lugar nos dias seguintes e prontificou-se a pô-la em casa com escolta e cavalo. Que fosse pelos papéis e pelo dinheiro no sábado de manhã!

 

Zidéria nem queria acreditar. Rebentava de contentamento. Naquela noite, correu quantas tascas havia em Braga. Bebeu e comeu quanto pôde e sabe-se lá para que outras folias teria dado aquela alegria esfusiante!.. Bem vistas as coisas, até que as merecia e ao mais ninguém a conhecia! O padre Zé que tivesse paciência, para si haveria de bondar!

 

Bota e bira! Foi até lhe chegar com um dedo, da Falperra ao Sameiro e do Sameiro à Falperra!..

 

No dia seguinte, não se segurava nas canetas! Só por fé conseguiu assistir ao resto das cerimónias.

 

À noite, naquela quinta-feira Santa de 3 de abril, assistiu, compenetrada, à procissão do Ecce Homo, popularmente designada por Procissão do Senhor da Cana Verde, a recordar Pôncio Pilatos dizendo aos Judeus: eis o homem, quando lhes mostraram Cristo coroado de espinhos, com uma cana verde nas mãos a imitar um cetro. Extasiada ficou quando, à frente, descalços e encapuçados, viu caminhar os farricocos, vestidos com balandraus e uma corda atada à cintura, outra a cingir-lhes a testa e a cabeça, sobre uma espécie de capuz com dois buracos para os olhos. Perguntou quem seriam aquelas almas do diabo! Explicaram-lhe que eram os homens dos fogaréus, por transportarem um cabo de madeira, na ponta do qual balançava uma bacia de cobre com pinhas a arder. Porém, o que mais a impressionou foi o soar das matráculas, que, após o silenciamento dos sinos, na intenção de chamar os fiéis ao culto ou a lembrar-lhes a confissão e a penitência, os farricocos faziam soar com grande estardalhaço.

 

Aquilo metia medo!

 

A noite de quinta-feira foi outra desbunda! Mas, desta feita, teve de ser com hereges. Os crentes da cidade não se davam a excessos, nestes dois dias santos.

 

Na sexta, assistiu à Procissão Teofórica do Enterro do Senhor. Comoveu-se com a manifestação de fé e o recolhimento dos minhotos. Os irmãos da Misericórdia e de Santa Cruz, encapuçados, arrastavam compridas varas. Os cónegos da Sé, ostentavam, taciturnos, tochas acesas na mão envergando mantos negros, com caudas muito compridas seguras por caudatários, que impediam que arrastassem pelos charcos e pela estrumeira das ruas. Também seguiam crianças, vestidas de anjinhos, com símbolos alusivos à Paixão e outras representando figuras de santos. Mas o que mais a comoveu foi ver a Senhora das Dores com as sete espadas cravadas no peito. Nesta procissão também seguiam os farricocos, porém com as matráculas silenciadas e os fogaréus apagados. Correram-lhe bágoas nos olhos ouvindo o comovente silêncio à passagem da procissão, apenas interrompido, a espaços, por uma voz que entoava:

 

- A el libitum lamentabile, heu, heu, Domine, heu, salvator noster! - Evidenciando o sentido de fé e a penitência deste povo sofrido e temente a Deus.

 

A procissão recolheu-se e com ela a Zidéria. O Sábado ia ser duro no regresso a Fornelos.

 

Manhã cedo estava pronta para partir. Recolheu a autorização de construção, o projeto de arquitetura e os Pintos em ouro. D. Gaspar de Bragança havia sido generoso, ofereceu vinte Pintos para a respetiva construção e a exigência de apresentação de contas após obra feita.

 

Zidéria, montada num portentoso alazão e acompanhada por dois fogosos cavaleiros, chegou a Fornelos passados três dias, toda croncha!

 

Claro está que mal o padre Zé e o resto da aldeia tomaram conhecimento do que Clotilde havia conseguido, ficaram esfusiantes por poderem contar com uma capelinha e uma padroeira.

 

Logo trataram de ajeitar o terreno. Não custou muito tempo nem dinheiro, pois foi oferecido pela casa da Miquelilinha. Com o projeto de arquitetura concluído, havia, tão só, de se encomendar a obra. A tarefa foi entregue ao pedreiro Horácio do Carregal que já havia dado provas de grande mestria noutras obras por outros lados.

 

No início de 1761, iniciou-se a abertura dos caboucos para os alicerces. A pedra haveria de ser cortada na pedreira de Santa Leocádia. A madeira nos soutos de castanheiro bravo que abundavam por ali. O colmo, para a cobertura, colhido da melhor palha centeia que os malhos estarrincassem na eira da aldeia. O trabalho de talha entregue a dois experientes marceneiros de Braga. As pinturas e a folha de oiro da talha dourada, ao mestre Carrapiço, também ele de Braga e indicado pelos marceneiros. Os santos e as santas, encomendados aos santeiros da rua do Souto.

 

Aos poucos foi sendo levantada a obra e, à medida que crescia, embora lentamente, ia mostrando toda a sua dignidade. Ficou prontinha a inaugurar em 1772. Da sua arquitetura destacam-se, com particular interesse, quatro elementos: o frontão triangular sobre a porta principal, os pinoucos de pedra que encimam cada uma das arestas frontais e dois buracos ventiladores frontais, um de cada lado da entrada principal. O mais simples de tudo é o campanário, com um pequeno sino, também ele encomendado à oficina de João Ferreira Lima e José Rodrigues na cidade de Braga.

 

A inauguração realizou-se com pompa e circunstância. A Zidéria fez das tripas coração para que o próprio D. Gaspar estivesse na primeira missa. Mas, não tendo sido possível, conseguiu Francisco Pacheco Pereira, um cónego do cabido da Sé, o mais célebre pregador da época. Francisco fez um sermão de se lhe tirar o chapéu. A Clotilde afirmava, a pés juntos, que chegou a ver lágrimas de emoção verterem-se das pedras do templo, pasme-se!..

 

De facto, não será demais afirmar que a capela de Fornelos foi, e é, o edifício mais bonito e mais nobre da aldeia. Justifica-se, pois nele vive Cristo, acompanhado de sua mãe, a Senhora da Assunção, nome da Virgem Maria em alusão à sua assunção aos céus.

 

Muita da minha meninice foi passada nesta terra de minha mãe, em brincadeiras dominicais no adro desta capela.

 

Há tempos, conversando com um tio meu, nado e criado em Fornelos, soube de duas curiosas passagens que, relacionadas com o tema em apreço, não quero deixar de trazer à liça.

 

Contava-me que nos anos quarenta, a rapaziada da aldeia, para lá do chincalhão do fite, do rou-rou, da reca e do pião, em pouco mais ocuparia as horas, raras, de ócio. Contudo, começava nessa altura o vício de jogar à bola, o que se fazia na estrada em frente à capela e com uma bola de trapos. Ora, para além de ser de curta duração, a bola era impraticável quando chovia, por ficar enchupiçada em água e lama. Portanto a rapaziada, sonhava com uma bola de capão. O pior era arranjar dinheiro para a comprar. Acordaram numa estratégia: dali até ao verão, cada um dava cinco tostões por semana para a bola. No verão, o Horácio costumava ir com a família a banhos à Póvoa de Varzim. Aí compraria a bola de couro.

 

 Capela de Fornelos

Assim foi.

 

Quando, no fim de agosto, regressou, a dita cuja fazia as delícias da ganapada. Aquilo eram jogos de Benfica contra Sporting quase todos os domingos. Ora, um belo dia, um pontapé mais vigoroso levou a bola a estilhaçar uma vidraça da janela da sala do Ti Madeu que botava para a estrada. Janela essa que ficava mesmo em frente à capela de Fornelos. O pior de tudo é que a bola ao bater no vidro, não só o esmigalhou, como entrou sala adentro, escacando, também, um santo Antoninho de barro, empenho de sua sogra, a Lavradeira. A bola entrou inteirinha mas foi devolvida ao relvado em pedaços, retraçada pela navalha de enxertar do Ti Madeu. Aquilo foi a maior ofensa que alguém lhes podia ter feito! Para verem, o Nano chegou a dizer que antes queria que a Senhora da Assunção caísse do nicho e se esmoucasse todinha, do que ter a sua bola em fanicos!..

 

A vingança não se faria esperar!

 

Dias mais tarde, dois dos mais afoitos, numa noite chuvosa, encafuaram-se na capela, pela porta lateral que quase sempre estava destrancada. Iam munidos, cada um com sua fisga, e os bolsos cheiinhos de bodrelhos. O Horácio ficou no ventilador da direita, o Marcelino no da esquerda. Começaram a disparar à vez sobre as vidraças da sala do Ti Madeu. Do lado direito era cada cabalhão sua mioca, do esquerdo cada tiro cada melro! Às primeiras fisgadas, o Madeu ainda veio à estrada para ver se descobria quem lhe estava a escacar os vidros. Mas, não vendo ninguém e não sonhando sequer que as pedradas pudessem vir do lugar santo, tornou as culpas às almas penadas do outro mundo e foi pedir ajuda à bruxa da Amoinha.

 

Os rapazes ficaram sem bola. O Madeu sem as vidraças da janela! Quites!

 

A festa da padroeira tem lugar a 15 de agosto. Raro é o ano em que não se faz festa rija em sua honra. Desta vez, estávamos em 1957. Fornelos contratou a música de Loivos para animar a procissão e o bailarico e o padre Salgado para a missa e o sermão. A missa solene decorreu com a capela quase a abarrotar. Da aldeia estavam todos, mas quem a atacava verdadeiramente eram os convidados vindos de outras bandas para encher as bentas, na casa dos amigos, de marisco do Planalto que é o leitão!

 

O padre Salgado, durante a celebração e antes da oração dos fiéis, fez uma pausa longa e despropositada. O silêncio, quase absoluto que daí resultou, foi quebrado pelo estampido de um repimpado flato, vulgo peido, imediatamente seguido do eco de uma valente estalada!

 

- Ah, seu cara de carvalho (tudo declarado), atão isso faz-se na missa? Num tens bergonha!?

 

Fora o Madeu que, não tendo sido capaz de cerrar as belbas aos gases da fermentação da feijoada do dia anterior, se deixara ir, como um boubelo! Porém, não se descompôs. Pregou as culpas, e uma tremenda lambada, no focinho do catraio Nano, que, estando ao seu lado, pagou as favas sem qualquer proveito!

 

O padre Salgado, corado, precipitou-se para a oração dos fiéis. A Virgem Senhora, sem que ainda hoje saiba ao certo quem se peidou, perdoou a ofensa a Fornelos por ser o dia da sua festa anual!

 

Abençoado povo que pariu tão azada obra!..

 

 

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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

O Homem Sem Memória - 187

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

187 – Quando o José entregou a peça de caça ao camarada Punhal pensou seriamente em matá-lo pois se o fizesse o poder comunista podia soçobrar. Mas também considerou que o poder podia fortalecer-se e tornar-se ainda mais repressivo. Imitações de Alberto Punhal, para pior, havia-as no Comité Central aos pontapés. Então sorriu para o camarada Punhal e o camarada Punhal também sorriu para ele. Tinha muito tempo para pensar. Tempo e sol.

 

Podemos explicar que o José, apesar de saber que Alberto Punhal é que era o verdadeiro instigador de todo o processo revolucionário, que o mesmo é dizer, de todo o aparelho repressivo comunista, não lhe tinha um ódio mortal. À sua maneira, Alberto Punhal era até uma pessoa sedutora. Sabia manter a distância como ninguém, mesmo parecendo que estava próximo, estava longe. E o contrário também era verdadeiro.

 

Mas o seu autêntico inimigo mortal era mesmo o camarada capataz. Foi ele que matou o seu amigo com um tiro na cabeça e depois o ofereceu aos cães para o devorarem. Quem assim procede é um autêntico assassino, um torcionário sanguinolento, uma hiena execrável.

 

Se existisse Deus, talvez a urgência de o matar não fosse tão premente. Nessa hipótese, o carrasco comunista iria bater com os costados no inferno eterno. Mas a ausência de um Deus juiz e punidor deixava tudo nas mãos dos homens.

 

Uma besta sanguinária daquelas apenas possuía o direito inalienável a morrer. Na ausência de uma justiça divina só subsiste a justiça dos seres humanos. Que não sendo muitas vezes justiça nenhuma é a única forma de punir quem prevarica. 

 

Pode-se dizer que a justiça que implica a morte da pessoa que transgride é radical. Mas para radical, radical e meio. E quem com ferros mata com ferros deve morrer. Além disso, a sentença foi decidida em reunião democrática com todos os elementos da resistência que tinham sido torturados e humilhados pelo camarada capataz. E foi unânime. Todos votaram na pena de morte.

 

Depois de decidida a sentença, os esforços foram todos canalizados para a elaboração de uma estratégia operacional que implicasse a morte do energúmeno e o seu total desaparecimento. Sem cadáver não havia prova física do delito.

 

O José dedicou-se de corpo e alma ao treino com a arma soviética que o camarada Punhal lhe tinha oferecido. O camarada capataz, a princípio ainda levantou algumas dúvidas sobre o assunto. Não lhe agradava mesmo nada ver um dissidente daqueles a fazer pontaria sobre quem lhe apetecesse. E foi isso que transmitiu aos seus camaradas da UCP. Todos concordaram com ele. Com a reação não se brinca. Mas quando a proibição de uso de arma por parte do José chegou aos ouvidos do camarada Punhal ele levou-se dos diabos e deu ordens expressas para que a arma lhe fosse de novo entregue e com plena autorização de a utilizar como muito bem lhe apetecesse. Argumentou que quem tem medo da reação deve comprar um cão. Ao camarada capataz apenas lhe sobrou a solução de enfiar a indignação no bolso. A partir desse dia, o José não mais se deslocou pela herdade sem ser na companhia da espingarda soviética. Acompanhou muitas vezes o camarada Punhal nas suas caçadas e teve-o muitas vezes na mira telescópica da sua arma. Mas nunca disparou.

 

Durante alguns meses, ele e os camaradas reacionários, que lhe eram próximos e fiéis, dedicaram-se ao estudo minucioso das deslocações do camarada capataz pela herdade. Estudaram-lhe os percursos e as rotinas. Elaboraram de seguida um plano que incluía o seu encontro com a morte. Ou melhor, fizeram com que a morte marcasse encontro com ele. Definiram o local e a hora. Puseram-se no lugar do destino. Ou melhor, colocaram lá o José, com a espingarda bem apontada.

 

Tudo aconteceu num dia de abate de árvores, junto de um monte onde o camarada capataz possuía um lamaçal vedado destinado à criação de mais de vinte taludos javalis. Era aí que ele se entretinha nos momentos em que não torturava, nem trabalhava.

 

Os porcos-bravos eram um mimo de carne. Redondos e ágeis, mexiam-se com uma ligeireza felina. E comiam de tudo. Muitas vezes o seu dono lançava-lhes uma galinha viva para por à prova a agilidade dos animais e punha-se a contar os segundos que o pobre galináceo aguentava vivo. Escusado será dizer que durava poucos. Muito poucos mesmo. Depois do sacrifício, punha-se a rir como um desalmado. Que era aquilo que verdadeiramente era. Também experimentou com coelhos e o resultado foi o mesmo. Os javalis pareciam lobos. Experimentou ainda com cordeiros, cães e até burros pequenos. Tudo o que entrava na cerca era devorado. Um dia resolveu por à prova a agilidade dos seus javalis introduzindo na cerca um gato. Naquele dia os javalis perderam por uma unha negra. Mas perderam. Desenlace que teve origem na desatenção do javali que se encontrava no sítio onde ficava a única saída para o felino. Safou-se o gato, mas o javali não. Nessa mesma noite foi morto e dado a comer aos outros seus companheiros de curral. 

 

O José e muitos dos seus companheiros assistiram a alguns destes inúteis rituais de cretinice. E não foi em vão, como mais adiante veremos.

 

Mas recuemos um pouco até ao momento da espera do José. Então lá está o nosso amigo estendido no chão com a arma apontada a uma curva do caminho. As motosserras cortam as árvores fazendo um barulho ensurdecedor. O camarada capataz desloca-se na direção dos trabalhadores. Mal o veem aproximar, aumentam a intensidade do trabalho, do qual resulta o aumento do barulho. Depois observam-no a cair ao chão como se fosse uma árvore derrubada. Quatro trabalhadores deslocam-se na sua direção, pegam nele e levam-no para um lugar escondido. Nunca mais ninguém o viu.

 

O seu desaparecimento foi muito comentado e alvo de muitas especulações. Houve sessões de tortura por parte dos seus apaniguados para tentarem averiguar se alguns dos suspeitos do costume sabia alguma coisa. Mas ninguém deu com a língua nos dentes. Como o cadáver não apareceu, deram por encerrado o caso. As chefias foram mudadas. Nesse dia houve festa na UCP. Os convivas foram brindados com a carne dos javalis do camarada capataz. Apenas meia dúzia de prisioneiros, incluído o José, evitou comer carne assada no espeto.

 

Entre eles tiveram a seguinte conversa: “Os javalis estavam tão bem treinados que nem os ossos restaram”, disse um. Outro comentou: “Apenas sobrou o coração. Os recos não conseguiram meter-lhe o dente. Era duro como cornos. E o José rematou: “Admiro-me como tinha coração.”

 

188 – Os tempos que decorreram foram de ...

 

(Continua)

 

 

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Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014

Chá de Urze com Flores de Torga - 21

 

Há dois dias atrás o S.Sebastião levou-me até ao Barroso e,  passei ou estive em algumas terras que Torga trilhou ainda eu não tinha nascido. Conforme ia passando ou estando nalgumas dessas terras, iam-me vindo à lembrança algumas palavras escritas nos Diários de Torga, inspiradas em, ou nessas mesmas terras. Uma delas foi Alturas do Barroso, palavras que, algumas,  já passaram neste blog e que as tenho sempre presentes quando entro numa aldeia, principalmente naquelas em que entro pela primeira vez ou que não conheço tão bem como outras.

 

Alturas do Barroso, 27 de Junho de 1956

 

Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.

Miguel Torga, In Diário VIII

 

 

E relembrando as palavras de Torga os meus olhares tentam adivinhar,  olhar aquilo que Torga olhou e o levou ao registo, pois uma coisa é ler as suas palavras e outra é, in loco, vivê-las e senti-las. Claro, se a sensibilidade do momento ou do olhar o permitirem, só assim entenderemos a plenitude das suas palavras.

 

Alturas do Barroso, 21 de Setembro de 1969

 

A paz destes barrosões, sentados no combro de uma lameira a guardar a junta de bois! Parecem sonâmbulos a apascentar a eternidade.

Miguel Torga, In Diário XI

 

 

Há dois dias atrás, também eu em Alturas do Barroso, subi com os passos pesados a que a neve obrigava até ao alto onde foi erigida uma capela e de onde se vê toda a aldeia. Penso ser aí o “tecto do mundo português” a que Torga se referia em 1991 nos seu Diário XVI, no mesmo registo onde Torga aborda a relação, a referência e proximidade “quase orgânica” que este povo tem com os seus mortos. Ao descer do alto da capela, entrei na aldeia com a avidez de caçar imagens em dia de celebração de S.Sebastião. Numa das ruas, ainda muito antes de me cruzar com uma velhota totalmente vestida de preto,  ao ver-me de câmara fotográfica na mão, muito antes de a levantar à posição de mira, foi-me avisando que não queria fotografias porque estava de luto. Mais uma vez vieram-me à memória as palavras de Torga e fiquei a “tremer de vergonha”.  

  

 

Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da Igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repetidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

Miguel Torga, in Diário XVI

 

 

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Terça-feira, 21 de Janeiro de 2014

...

 

Flagrante delírio

 

Do armário do quarto do fundo, escolhi o lenço da cor da terra e do Outono. E o Cristo, nas minhas costas, a olhar-me da cruz. Em cada divisão, um Cristo como garante de rigor e ordem, numa espécie de regime pidesco em que não acredito.

 

Pela janela via o fumo do fogo que aquecia mulheres, potes e caldeiros. Cada uma, seu lenço e eu seria uma delas. Discípula e aprendiz de uma ciência que não cheguei a compreender.

 

Na cozinha velha, que um dia foi casa, cheirava a lume, carne, pão, alho. E tripas. As que se encheram e as outras que vos servem, em tantos tempos, de coração.

 

Bacia, funil e tripa escolhidos pelo meu tamanho serviram de instrumento. Faltou-me pegar na linha. Nunca aprendi a atar.

 

Estrelo um ovo e grelho uma alheira da Luísa. Em cada cibo vos encontro. Ali, na cozinha velha, em frente do lume. Não me vedes. Estou no banco corrido enxergando-vos as costas. Ré, em flagrante delírio, condenada à memória.

Rita

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Festa comunitária do S.Sebastião - Barroso

 

O Transmontano tem muitos traços culturais comuns que nos diferenciam dos minhotos, dos alentejanos ou dos algarvios, por exemplo,  mas por muito que esses traços nos tornem iguais no ser transmontano e por vivermos atrás dos montes, por detrás de cada monte ou conjunto de montanhas, há uma realidade que é singular, própria de quem habita os sopés dessas montanhas, singularidade que se revela até nas pequenas diferenças dos contornos das montanhas, dos pequenos vales e da paisagem, no ar que se respira, na luz…em suma, há traços culturais que diferenciam os transmontanos das outras províncias, mas entre nós transmontanos também há traços que nos diferenciam uns dos outros.

 

 

Ontem lá fui eu em peregrinação até ao S.Sebastião do barroso, não por devoção ao santo mas por devoção à tradição e a um traço da cultura barrosã – o comunitarismo -  que ainda vai resistindo por lá e, como era conduzido sem ter de me preocupar com a estrada, ia deitando com mais atenção o olhar à paisagem e é escusado, mal se sai do concelho de Chaves a paisagem transforma-se, o ar torna-se mais frio e como diria Torga, sentimo-nos mais próximos do céu onde até as montanhas mais altas vestem a pureza do branco para dar mais luz ao inverno.

 

 

O destino era, como já vem sendo hábito no 20 de janeiro, as festas comunitárias do S.Sebastião do Couto de Dornelas e das Alturas do Barroso e tal como também vem sendo hábito gostamos de chegar lá logo pela manhazinha para assistir ainda à montagem da mesinha do S.Sebastião que por sinal só é mesinha no nome, pois é bem comprida. Mas gostamos de a ver ainda sem vivalma a marcar o lugar ou à espera que venha a vara para saber onde vai cair o pão, a caçarola de arroz e as carne de porco, gostamos de visitar que já anda há dias a trabalhar para a festa e que passou as últimas noites em claro na cozedura do pão, o arroz e a carne estejam prontos para todos os forasteiros logo após a missa do meio-dia.

 

 

Desta vez o S.Pedro, talvez arrependido pela zanga do último ano quando mandou que chovesse durante todo o dia, mandou cancelar a chuva ou então seriam influência do Bispo de Vila Real que este ano coloriu a festa com a sua presença e a bênção do pão. Foi-se a chuva mas ficou o frio e também aqui, no frio,  se notam as tais diferenças de que falava no início, pois o frio do Barroso, embora muito mais frio que o nosso frio do vale, sente-se menos e é mais fácil de suportar.

 

 

Mas vamos à festa em que nada há a acrescentar às edições anteriores. A tradição mantém-se. Rezada a missa, benze-se o pão que começa a sair para a longa mesa, e quase que em simultâneo a toalha de linho vai-se desenrolando ao longo da mesa, a vara mede onde deve cair o pão, em cima deste vem pousar a caçarola de arroz e a lado a carne, o S.Sebastião vai acompanhando os trabalhos enquanto os fiéis lhe beijam os pés e lhe dão uma esmola. Depois é só sacar da navalha, puxar do garrafão e saborear os sabores que também aqui são do Barroso, únicos. Quem já se deliciou com a iguaria, sabe do que falo, os potes fazem milagres e os minhotos sabem-no, pois os autocarros não se enchem só de boas intenções.   

 

 

“Merenda comida companhia desfeita” diz o povo e no Couto de Dornelas é uma realidade, pois aqui a promessa paga-se em duas frentes e a outra fica a uns tantinhos quilómetros de distância e bem mais próximo de céu, a neve do último nevão de há dias é uma testemunha disso mesmo, ainda nos cantos mais sombrios ou nas elevações mais elevadas.  O próprio nome da aldeia não engana – Alturas do Barroso e mais alto que a aldeia, ali nas redondezas, só mesmo os Cornos do Barroso como se estivessem por ali de sentinelas a separar o Barroso de Montalegre do Barroso de Boticas.

 

 

Aqui a mesa ao longo da aldeia é substituída por um salão, e o arroz e carne de porco, substituídos por uma feijoada, mas tal como no Couto de Dornelas não há forasteiro que saia da aldeia sem um prato de feijoada, um pão e um copo de vinho. O S.Sebastião aqui não percorre a mesa mas está à entrada do salão num florido altar improvisado. À porta, do lado de fora, há sempre música e bailarico ao som das concertinas, de preferência, as mesmas que no Couto de Dornelas deram música aos cantares e desafio.

 

 

Mas a festa não se faz só pelo Barroso, pelas paisagens, pelas iguarias e pela música, pois estas festas também são lugares de encontros de amigos, alguns que não vemos há muito, outros há meses, outros só lá, outros que atravessam todo o Portugal para dizer presente, mas também há surpresas de outros amigos que aparecem por lá por não terem resistido à tentação de satisfazer a curiosidade de ver a festa, amigos que trazem amigos e que, depois de serem picados pelo bichinho da festa, passam à promessa de regressar todos os anos.

 

 

O regresso a casa ora se faz pelo Barroso de Boticas ora pelo Barroso de Montalegre. Este ano calhou ao de Montalegre pois o Deus Larouco também ele vestido de branco,  apelava a um olhar e nós fomos lá olhá-lo.

 

E é tudo. Para o ano, por esta altura, contamos estar cá de novo.

 

A meio-dia teremos aqui os "Estratos" da Rita.

 

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Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2014

Quem conta um ponto...

 

 

Pérolas e diamantes (72): Orçamento, o buraco negro camarário

 

 

No dia 18 de dezembro, a maioria laranja da Assembleia Municipal de Chaves aprovou, de forma inerte e amorfa, provavelmente o pior e o mais enganador Plano de Atividades e Orçamento da Câmara de que há memória em tempos de democracia. A verba inscrita no falacioso documento ronda os cerca de 60 milhões de euros.

 

Para o senhor presidente trata-se de um “orçamento equilibrado e tem nas funções sociais o seu maior valor de investimento, sendo quase de 50 %”.

 

Cerca de 50%, dizemos nós, é a ficção, e a fixação, de tal montante por parte de quem elaborou o orçamento. Desde logo porque é irrealista, principalmente no que diz respeito à previsão da receita com a venda de património.

 

Ou seja, parte substancial da despesa orçamentada está prevista ser coberta com o recurso a receitas extraordinárias, obtidas nomeadamente com a venda de edifícios e terrenos, no montante de cerca de 7 milhões e meio de euros.

 

Mas sabem os caros leitores quanto é que a Câmara de Chaves realizou de receitas de capital com a venda de terrenos e edifícios no ano de 2012 (pois sobre o ano de 2013 a autarquia fechou-se em copas, o que indicia que o montante apurado pode ser ainda mais baixo)? Uns míseros 290 000 euritos.

 

Se fizermos bem as contas, pensamos que nem que seja descoberto petróleo nos terrenos camarários, ou destapado um tesouro valiosíssimo nas paredes de algum edifício pertencente à autarquia, o município conseguirá arrecadar verba tão avultada em venda de património.

 

Além disso, todos sabemos que nas atuais condições de mercado imobiliário, este “milagre das laranjas” é pura e simplesmente impossível.

 

A tudo isto, e pegando nas palavras do senhor presidente António Cabeleira, ainda se vem juntar a diminuição, desde 2010, de cerca de 2 milhões de euros de receita que o Estado deixou de transferir para a Câmara.

 

Como se isso não bastasse, as receitas do município também têm vindo a diminuir no que diz respeito às taxas urbanísticas, pois o volume de obras em construção decaiu substancialmente e o imposto de transações baixou para cerca de um quinto, devido ao facto de não se venderem casas e muito menos lojas.

 

Mas o grande buraco, o enormíssimo rombo deste orçamento, está nos cerca de 18 milhões de euros, cerca de um terço do total orçamentado, que se vão gastar para pagar a dívida às empresas Águas de Portugal e à Resinorte.

 

Sendo assim, uma pergunta se impõe: Como é que a dívida cresceu a um nível tão elevado? Pois porque durante alguns anos a Câmara de Chaves, vá-se lá saber por que carga de água, deixou de pagar os bens e os serviços a quem lhos fornecia. 

 

Todos nós, durante esse tempo, pagámos mensalmente a água que consumimos bem assim como a recolha do lixo. Sendo assim, por que razão a Câmara deixou de honrar os compromissos que celebrou em nome de todos os munícipes?

 

A dívida, que nos envergonha a todos, é da inteira responsabilidade de quem geria a autarquia. Mas a culpa, na nossa terra, morre sempre solteira. E no fim quem paga estes atos de má gestão somos todos nós. E a dobrar. Primeiro na conta do recibo, depois em impostos, através do orçamento camarário.

 

A dívida é de caloteiros arrogantes. E responsabiliza-nos a todos. E nós sem culpa nenhuma. Além dos 18 milhões de euros ainda vamos pagar juros sobre esse montante e ainda mais juros sobre esses juros. Juros em cima de juros até à falência total.

 

Mas ainda estamos para saber de que forma a Câmara conseguiu arranjar dinheiro para financiar a “Chaves Viva”, a “Voz da Juventude” e a “Chaves Social”, as verdadeiras “incubadoras” de “jobs for de boys” laranjas e afins. 

 

A Câmara de Chaves faz-nos lembrar aqueles nobres falidos que, não pagando o que devem, vivem com um pé na ostentação, como é o caso da Fundação Nadir Afonso, e outro na miséria, como é o caso do Centro Histórico, que está em ruínas.

 

Toda esta triste situação me fez lembrar uma passagem do livro de Afonso Cruz, “Para onde vão os guarda-chuvas” (que na nossa realidade bem poderia denominar-se: “Para onde vai o nosso dinheiro…”).


“Que resultados ridículos, pensou. E que deprimentes que são os números, sempre tão exatos, a dizerem-nos tudo com precisão, um mais um igual a dois e por aí fora, sem qualquer originalidade. Com licença, se os números fossem uma coisa boa, existiriam na natureza e andariam a pastar pelos campos, mas Alá sabe melhor, pois criou o mundo e a paisagem sem números nenhuns. Só existem na nossa cabeça e nas faturas e nos recibos, todos incisivos, muito abstratos, a olharem para nós de cima, parecem camelos, que Alá os corrija e lhes ensine a humildade. Se fossem alguma coisa de jeito, andariam a pastar como as cabras.”

 

Sim, de facto, o que dava mesmo jeito a António Cabeleira, e à sua “entourage”, é que os números, esses apóstatas, fossem pastar como as cabras.

 

Sobre a fantasia de cerca de 50% do orçamento ser para funções sociais, como afirma o senhor presidente, lembrei-me de outra passagem do mesmo livro de Afonso Cruz. Um pedinte pergunta à personagem principal, Fazal Elahi, o que é o altruísmo. Ele responde que é assim como dar dinheiro aos pobres indigentes. Ao que o pedinte, depois de olhar para as moedas com que foi presenteado, responde: “O altruísmo deve ser uma coisa muito pequena.”

 

Com esta Câmara, e com este Governo do PSD, vamos ficando cada vez mais como Badini, o poeta mudo do mesmo livro (que recomendo vivamente). Começamos a estar habituados a que a nossa vida tenha o som entre um insulto e uma porta a fechar-se.

 

Se calhar está na hora de pormos um pé entre a porta e a soleira. Os meus amigos dirão, e farão, o que mais lhes aprouver. Mas não digam que não foram avisados.

 

João Madureira

 

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