Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

Discursos Sobre a Cidade - Por Isabel Seixas

 

Um grande amor… Chaves

 

Perguntam-me da tua alma

Lembro-me de irreverência

Palmilho os teus circuitos

Regresso no tempo ao miradouro

Jardim de namoro

Onde corriam beijos

calêndulas nos campos

e a paisagem de luzes

alumiava  nos carros os casais

em rezas, abraçados nos bancos …

 

Perguntaram-me do teu coração

Lembro-me de amor

Palmilho as tuas veias e artérias

Regresso no tempo ao castelo

Miradouro  de pasmo

olhares ao teu corpo

onde corriam desejos

e a paisagem das termas

ostentava o Tâmega

com casais nas bermas

a benzer as águas…

 

Isabel Seixas, in Chaves Musa Inspiradora

 

 

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Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

O Homem Sem Memória - 192

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

192 – Triste sina a do José. Na República Democrática do Norte era considerado um intelectual infiel à tradição, ateu e arrojado comunista e na República Popular do Sul era visto como intelectual, católico fundamentalista, traidor e perigoso reacionário. E disto não se conseguia libertar.

 

Como nada tinha a confessar acerca da sua traição, porque, bem vistas as coisas, ele não traiu coisa alguma, nem ninguém, nada confessou aos seus carrascos. Por mais porrada que lhe dessem, ele não podia confessar o inconfessável. O José ou tinha traído tudo e todos ou não tinha traído ninguém.

 

Ao fim de mais algumas sessões de tortura revolucionária marxista-leninista, os verdugos nada conseguiram sacar ao intrépido transmontano. O oposto sucedeu com os seus companheiros de aventura contrarrevolucionária. Esses confessaram tudo e mais alguma coisa. Sobretudo a traição à revolução proletária nacional e mundial. Confessaram ainda desvios ideológicos, furtos de propaganda reacionária que liam às escondidas, uma que outra relação homossexual, orações ditas ao deitar e ao levantar, a bênção do pão, rir de piadas contra o Partido, rir de piadas contra Alberto Punhal, rir por rir, falta de fé revolucionária, fraqueza ideológica, roubo de comida nos armazéns do povo, aventureirismo, esquerdismo, direitismo, titismo, trotskismo, maoísmo, snobismo, intelectualismo e alcoolismo.

 

O José foi definhando, tal qual as suas ideias. Afinal o Manifesto Comunista era um bom livro para limpar o cu, as obras completas de Lenine eram úteis para acender a fogueira nas noites frias de inverno e toda a obra escrita do camarada Alberto Punhal era ideal para forrar gavetas, embrulhar tremoços e azeitonas ou castanhas assadas.

 

Tanta palavra bonita proferida para nada, tanto ideal criado para coisa nenhuma. Tanto sacrifício inútil, tanto sangue derramado em vão. Só quem pretende dizer verdades absolutas é que consegue mentir absolutamente. E foi isso o que o José disse quando foi levado a tribunal: “Só quem se convence que é dono de toda a verdade é que consegue fabricar a mentira absoluta.”

 

Por tal ousadia, e por ter traído a revolução e arregimentado uma pequena sublevação contrarrevolucionária, foi condenado à morte por enforcamento. Apesar das confissões completas, os seus companheiros de desgraça foram despachados com a mesma sentença.

 

A República Popular do Sul, nas palavras dos seus máximos representantes revolucionários, não se podia dar ao luxo de gastar chumbo com tão ruins defuntos. Uma corda bem utilizada dava e sobrava para enforcar a dúzia de reacionários que ousaram desafiar a serena força revolucionária da RPS.

 

Convenhamos que esta narrativa, se assim lhe podemos chamar, até merecia um final dramático deste tipo. Mas nem tudo o que é bom para os livros acaba por acontecer na realidade.

 

No dia anterior ao da data marcada para o enforcamento do José, a RPS propôs à República Democrática do Norte uma nova troca de prisioneiros. Ao que apurámos, os membros da Comissão Política do Comité Central do clandestino Partido Comunista do Norte tinham sido presos enquanto decorria uma reunião deste máximo órgão dirigente.

 

A primeira pergunta que os dirigentes do Norte fizeram aos seus congéneres do Sul foi quem é que eles tinham para trocar. Os camaradas ficaram embasbacados, pois além do José, que eles consideravam o maior reacionário da república popular, pouco mais tinham para oferecer, talvez uns frades missionários e algumas freiras misericordiosas. Os restantes, nas suas palavras, ou foram reabilitados ou estavam mortos. Mas como todos sabemos que na RPS ninguém se reabilita por impossibilidade teórica marxista-leninista, apenas nos resta a segunda hipótese. 

 

O presidente do Norte argumentou que era como trocar um porta-aviões por um barco de pesca artesanal de Sines. A sua primeira decisão foi a de rejeitar a proposta, mas alguém mais avisado fez-lhe ver que se os comunistas do CC fossem enviados para o Sul, deixavam de ser um problema para o Norte. Gente desta estirpe só pode trazer complicações. E das grandes. Como todos são intrépidos comunistas, que se arranjem lá uns com os outros. Mas o presidente do Norte fez-lhe ver que a moeda de troca era o José, que, por sua vez, já tinha sido trocado e que nem assim se conseguiu dar bem com os ares do Sul, que, ao que dizia, eram os seus.

 

Ponderados os prós e os contras, o presidente do Norte, homem pragmático e pouco dado à política, e muitos menos à ideologia, pois nem sabia o que isso era, aceitou, mas com uma condição, a de o prisioneiro escrever as suas memórias. Está claro que a condição foi estabelecida com os seus legítimos representantes na República do Norte: a sua família, ou mais concretamente, a sua mãe, que nestes, como noutros acontecimentos, foi sempre quem pôs e dispôs. Desta forma foi o nosso herói salvo da morte por enforcamento.

 

Mal chegou à sua terrinha, em muito segredo, para os cidadãos do Norte não se inteirarem das contradições do regime democrático nestas trocas e baldrocas, foi logo encaminhado para a casa da sua mãezinha, a Dona Rosa, que quando o avistou ao longe desmaiou, como era seu feitio. Mal deu acordo, carregou-o de beijos e prometeu engordá-lo como se fosse, com vossa licença, um reco. Prometeu e cumpriu.

 

Quando o José recuperou as cores, a sua mãe, numa bonita tarde de sol, enquanto o seu pai fumava um cigarro, os seus irmãos mais novos estudavam em casa e ele coçava a barriga ao sol como um verdadeiro ex-preso político, resolveu apresentar-lhe a fatura da sua libertação: a escrita das suas memórias.

 

Ainda hoje se comenta o grito que então se ouviu lá no bairro, bem maior do que o do Quincas quando, por engano, em vez de aguardente bebeu água: “Mãe, eu matei a minha memória. Eu sou um homem sem memória.” E continuou a coçar a barriga ao sol como se fosse um burguês em férias.

 

 

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Um momento da Praça do Duque

 

 

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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Chá de Urze com Flores de Torga - 25

 

Todos nós temos os nossos livros de mesinha de cabeceira. Lá em casa, na mesinha de cabeceira dos meus pais estava sempre a “Missão Abreviada” do Padre Manuel do Couto. Penso que era lá que a minha mãe ia procurar o consolo e as respostas para os seus dias. Gostaria de ter a fé da minha mãe e encontrar o consolo e respostas aos meus dias numa única missão abreviada qualquer, mas cada um vê o mundo com o seu olhar e uma missão abreviada talvez não chegue para os meus desassossegos.

 

A minha mesinha de cabeceira esteve sempre reservada aos poetas, nenhum em especial, mas vais sendo ocupada com aqueles que mais gosto e que mais consolo e respostas dão aos meus dias. Nos últimos anos a maioria do consolo e as respostas aos meus dias têm-me sido dados pelos Diários de Torga, que, com a brevidade das leituras de mesinha de cabeceira, leio e releio, e, mesmo que não encontre o consolo, têm sempre a profundidade de me darem algumas respostas aos meus dias.

 

Pois vai ser com essa brevidade que partilho aqui a minha leitura de mesinha de cabeceira de hoje:

 

Lisboa, 22 de Outubro de 1965

 

É uma dor de alma ver uma terra bonita como esta a servir de cenário a tanta coisa feia.

Miguel Torga, In Diário X

 

 

Coimbra, 10 de Dezembro de 1965

 

Cartas do ofício. Lá me esforcei, e lá foram algumas. Mas cada vez as escrevo com menos convicção, e dia a dia vou deixando mais no tinteiro. Quem as espera quer o que não posso honradamente dar-lhe. Na maioria dos casos, o que vai só leva descontentamento onde chega. Que o diga a fúria de certas ressacas… E acabo por concluir que o melhor ainda é ficar-se a gente pela crua sinceridade do silêncio.

Miguel Torga, In Diário X

 

Vila Real, 24 de Dezembro de 1965

 

Estou sentado no café a comparar o redil citadino que tenho à volta com um acampamento de ciganos que vi esta manhã. Que mundo desencantado, o dos sedentários, e que universo maravilhoso o dos nómadas! Num, a desumanidade convivente; no outro, a humana confraternização. Lá, uma nação de saltimbancos livres e felizes; aqui, um conglomerado de infelizes e peadas solidões.

Miguel Torga, In Diário X

 

 

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Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Intermitências

 

Hedonismo

 

A festa só ainda agora começara, mas ele não esperou. Antes de sair apenas disse: "Valorizo demasiado o meu tempo para fazer o que não me apetece". Saiu.

 

Choveram olhares, comentários, intrigas, invejas, aplausos. Um verdadeiro festival de emoções reaccionárias que ele sempre procurara despertar.

 

O que lhe dera naquele momento?

 

Tudo. Simplesmente recusou o nada. Recusou continuar a viver de aparências. Libertou a fera. Libertou-se do parecer. E feriu sensibilidades.

 

Budapeste, Janeiro 2014 - Fotografia de Sandra Pereira

 

Se se sentia mais livre?

 

Nada. Simplesmente não se pode ter tudo. Vivia no contraditório. Não evitava consequências.

 

A festa só ainda agora começara, mas ele não esperou. Saiu pela porta grande.

 

Ela chorou, mas não disse nada. Sabia que nunca iria alcançar tudo e resignou-se continuar a viver no nada. Para ela, a festa não iria terminar nunca.

 

Se se sentia triste?

 

Nada. Simplesmente via-se a ela própria reflectida nele. A festa não iria terminar nunca e ele seria sempre convidado.

 

Sandra Pereira

 

 

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Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (76): Eles comem tudo…

 

Foi ao ler uma crónica do saudoso Manuel António Pina que a inquietação tomou conta de mim e não me tem largado da mão. O cronista escreveu que “hoje o estalinismo já não manda ninguém para a Sibéria; quando muito manda para o desemprego”, e agora sem subsídio.

 

Estes neoestalinistas (lembro Durão Barroso na Comissão Europeia, Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e Nuno Crato no Governo pátrio), afirmando-se atualmente social-democratas, ou democratas-cristãos, andam a vender Portugal a patacos.

 

De facto, o Governo odeia o Estado, sobretudo o que se designa por Estado Social. Os reformados são um empecilho, os desempregados são uns calaceiros que apenas pretendem receber subsídios, os cidadãos que auferem o Rendimento Social de Inserção são uns malandros, os que ficam doentes e recorrem aos hospitais ou aos centros de saúde são uns fingidores e as empresas públicas são única e exclusivamente um sorvedouro de dinheiro do Estado. E as que o não são toca a vendê-las rapidamente, e a preço de saldo, antes que os socialistas voltem ao governo e volte tudo à estaca zero.

 

Aos reformados, é bom que venha por aí alguma epidemia que os leve desta para melhor. Os desempregados devem é ir procurar emprego onde o há, lá fora. Os doentes que se curem enquanto trabalham ou morram no seu local de trabalho, como antigamente.

 

Perplexo com este estado de coisas, fui à procura de informação. Tudo o que nos está a acontecer tem de ter uma explicação plausível.

 

Bastou procurar um pouco e descobri um livro que fez alguma luz nestas imensas trevas do neoliberalismo desenfreado que desabou em cima de nós como uma trovoada devastadora, levando tudo à sua frente.

 

Esta candeia em forma de livro é do economista norte-americano Joseph Stiglitz, que ganhou o prémio Nobel pela sua teoria das assimetrias de informação, onde evidencia os efeitos nefastos na sociedade quando alguns indivíduos têm acesso a informação privilegiada e outros não.

 

Em “O Preço da Desigualdade”, Stiglitz afirma que a política formata o mercado, mas que atualmente a política é feita pela elite financeira, e pelos seus homens de mão, que apenas garante os seus interesses.

 

Depois de algumas décadas de neoliberalismo. Estamos agora à mercê de um grupo de cartéis que persuadiram os políticos de aviário da generosidade da desregulação, da inevitabilidade, e da vitalidade, das privatizações, da necessidade da destruição das leis de trabalho e da aposta numa globalização sem limites e sem regras, utilizando o monopólio do poder para apenas aumentar os seus lucros.

 

Daí o rendimento das classes médias ter vindo a diminuir, criando, ainda por cima, um sentimento de insegurança que desconheciam. Bagão Félix fez as contas e apurou que, enquanto o Governo diminui os impostos sobre os lucros, por exemplo, um casal em que cada elemento aufira entre 800 a 1000 euros, paga de taxa marginal de IRS com sobretaxa cerca de 50%. Ou seja, metade do rendimento vai-se em impostos.

 

Joseph Stiglitz refere que a distorção de utilização de fundos públicos é outra das questões pertinentes que interessa analisar. A título de exemplo, recorda que em 2008 foram injetados na companhia de seguros AIG cerca de 150 biliões de dólares de dinheiro público, isto é, dos contribuintes, que é um valor superior ao dinheiro gasto em auxílio aos pobres entre 1990 e 2006. Está claro que ele refere-se aos EUA, o seu país. Mas se pensarmos bem, por cá aconteceu o mesmo em relação ao BPN.

 

Por isso é que diz ser urgente injetar moralidade neste capitalismo financeiro que nos domina com base na globalização, pois os atuais níveis de desigualdade começam a ser intoleráveis. Stiglitz defende um regime de mercado livre, pois só ele pode beneficiar a sociedade, mas diz que necessita de ser regulado pelo Estado e ter a sua supervisão para se manter funcional.

 

No fundo, o livro é um forte contributo para o debate que urge fazer, especialmente em Portugal, onde a austeridade excessiva conduziu a uma destruição da economia interna e ao sufoco da classe média, que é a trave mestra que sustenta a democracia.

 

E para verem como ele tem razão relativamente aos efeitos perversos quando alguns indivíduos têm acesso a informação privilegiada, deixem que vos lembre o caso do advogado, e ex-ministro, José Luís Arnaut.

 

Lá diz Bagão Félix com a argúcia que se lhe reconhece: melhor do que ser ministro é ser ex-ministro. Mas se a isso ainda lhe juntarmos o trabalho com os bancos que trabalham com ministros da nossa cor política, fica a canção completa. Bem cantam os Galandum Galundaina: “Nós deiqui i bós daí, / Sodes tantos cumo nós; / Mataremos um carneiro, / Los cornos son para bós.”

 

Este destacado militante do PSD trabalhou já para o Estado, para as empresas vendidas pelo Estado e para as empresas compradoras das empresas do Estado. Arnaut foi decisivo nas privatizações da EDP, REN, ANA e mais recentemente nos CTT, empresa da qual a Goldman Sachs comprou 5%, tornando-se a maior acionista. Arnaut foi assessor da Goldman Sachs, que, por seu lado, foi responsável pela venda de swaps tóxicos a empresas públicas.

 

Ainda todos nos lembramos do que o governo, o PSD e o CDS disseram das empresas de raiting, das corretoras internacionais e dos bancos com capital especulativo.

 

Apesar disso, o Governo do PSD/CDS contratou a Goldman Sachs para sua assessora na emissão de dívida pública.

 

E, ó coincidência das coincidências, a Goldman Sachs contratou agora Arnaut para um lugar de topo.

 

Por isso é que o Serviço Nacional de Saúde não tem dinheiro para atender os doentes em risco de vida e os despacha de Chaves para Lisboa de ambulância, esperando que a sorte do doente seja o que determina a fronteira entre a vida e a morte. 

 

Portugal está a saque. Os vampiros voltam a atacar pela calada, agora instalados nos gabinetes dos partidos do Governo, nas sedes dos bancos e das seguradoras e das empresas de assessoria onde proliferam os Relvas, os Arnautes e outros que tais.

 

João Madureira

 

 

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Cidade de Chaves - telefones de parede de rua

 

Tenho andado a rebuscar fotografias antigas. Antigas, mas não muito, pois já são da era do digital, mas vou encontrando quase como perdidos registos de algumas delícias de outros tempos, como os telefones de parede de rua. Desde puto que acho piada a estes telefones, principalmente quando tocavam e quando os telefones não eram assim tantos, mas mais piada é eles terem resistido ao tempo.  Não sei se ainda existe algum. Este da foto tem registo de 2008, talvez ainda esteja por lá e seja mais uma das coisas pelas quais passamos todos os dias sem dar por ela.

 

 

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Domingo, 23 de Fevereiro de 2014

Pecados e picardias

 

A taverna

Tarde 4

 

Entraram os da construção civil

Pediram cerveja de barril

Pão com azeitonas pimentos do vinagre

Sentaram-se à mesa com grande à-vontade

 

Cansados do trabalho árduo

Gozam descanso merecido

Esquecem depressa o fardo

De mais um dia esquecido

 

Na taverna sentem a vida

Num constante renascer

Devem vitalidade à bebida

Ao convívio o prazer

 

Falam de tudo o que gostam

Dos filhos e de outras mulheres

Até entre eles apostam

Qual o que tem mais afazeres

 

Encontraram ao fim da tarde

Antes de ir para casa

A compreensão dos amigos

Todos querem um grão na asa

 

Pediram bolos de bacalhau

Uma segunda rodada

A conversa estacionou

Na antevisão da noitada

 

Já sabiam do javardo

Que noite se afigurava

Para passar um bocado

E sair de casa à socapa

 

Mas hoje deitava a tarde

Tinham de arranjar desculpa

Diziam que era o trabalho

Calavam as mulheres…sem culpa

 

Já estavam de olhos brilhantes

Com pensamentos comuns

Com imagens perturbantes

Desejos de urubus

 

Hoje nem vai passar o tempo

Tal a ânsia do momento

Ilusões de que é a vida feita

Do sabor a pecado que a deleita

 

Isabel Seixas

 

 

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Sábado, 22 de Fevereiro de 2014

Aldeias de Chaves - Adães

E na nossa voltinha de fim-de-semana pelas aldeias de Chaves, hoje vamos mais uma vez até Adães, e não será a última vez, pois ainda temos por lá uma promessa para cumprir,  além de eu sentir que nunca consegui transmitir em imagem o aconchego desta aldeia.

 

 

De facto Adães é uma aldeia muito aconchegadinha, aproveitando o relevo natural do terreno resguarda-se numa pequena encosta da montanha com o casario muito juntinho, só se dá por ela (aldeia), quase, quando se entra nela. Exceção para quem vem de Santa Leocádia, pois daí começa-se a desenhar a umas centenas de metros antes.

 

 

Quanto ao resto – o habitual – aldeia que também conhece o despovoamento e o envelhecimento, mas mesmo assim, é uma das aldeias onde há sempre gente nas ruas.  

 

 

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Pedra de Toque - A pele

 

A pele

 

A pele protege,

a pele guarda em segredo

os recantos do teu corpo.

 

A pele esfria,

a pele arrepia

com o silêncio dos teus olhos.

 

A pele é dor,

a pele é calor

que esquenta nos teus beijos.

 

A pele respira,

a pele transpira

nos soluços da paixão.

 

A pele é pudor,

a pele é tremor

quando te abres aos sonhos.

 

A pele estremece,

a pele ruboresce

quando o sangue te percorre.

A pele seduz

sempre que me cheira a corpo

e se converte em manta que aconchega.

 

A pele é seda

quando te procuro

no desfiladeiro íntimo,

onde desaguam

todas as humidades do mundo.

 

O céu está limpo

de branco transparente,

como a tua pele.

 

Quando na minha pele,

a tua pele gera fogo,

vira amor.

 

Quando se sente de mais,

a tua pele é um abraço eterno!

 

                                  António Roque

 

 

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Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

Cidade de Chaves - Centro Histórico

 

 

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Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

 

Em todos os poemas há/ a casa

 

José Carlos Barros

 

 

Em todos os poemas há
a casa. Para que tudo possa começar
onde deve começar. No pátio
e na escaleira da entrada. Na porta
pintada de verde com o forro de zinco. Nos retratos
a sépia pendurados nas paredes
da sala. Na pedra da lareira. Nos corredores
a dar para a sombra dos quartos. Na varanda.
O mundo é uma repetida enunciação.

Depois vem a luz do verão. A luz intensa
que em vez das palavras
desloca os objectos. Uma travessa
de cerâmica. Um pote de ferro. O assador
das castanhas. A luz que fica agarrada aos vidros
das janelas. A luz que espalha nas traves do soalho
os losangos de haver muitas
afastadas vozes misturadas
às folhas dos álamos jovens.

E o inverno. Para que a tempestade
traga de longe o rumor do vento nos arames
das vinhas. Para que uma sombra possa repetir
todas as sombras
que o labirinto da idade abateu
sobre os corações desabitados.

Em todos os poemas há
a casa. Porque a casa é também o lugar
das viagens: numa manhã dos meses de junho
alguém fala do tempo antigo das mulheres do rio
de janeiro como se a sede
pudesse matar-se com a água do cântaro
arrumado ao lado do escano.

Uma fotografia guardada num álbum
de fotografias. Numa das salas da casa.
Numa das gavetas da cómoda
que não sabemos se alguém
vai abrir. O poema. A desvalorizada moeda.
Onde havia uma casa
e o verão e o inverno
subiram um dia a escaleira de pedra.

 

 

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Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

Cidade de Chaves - Pormenores que nos passam ao lado

Não exagero se disser que passei por esta porta uns milhares de vezes e as contas são boas de fazer – quatro vezes por dia durante uns bons anos  - e o curioso é que durante todo esse tempo nunca dei por ela. Uma porta comum se não fossem os pormenores de belezas que hoje já não se fazem.  Propositadamente não digo onde ela se localiza para que, tal como eu, um dia tenha o prazer de a descobrir e atentar nos pormenores e se calha, também tal como eu, já passou por ela milhares de vezes sem nunca a ter visto.

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O Homem Sem Memória - 191

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

191 – “Por favor, mãe… Não, não, não me batas mais. Mãe. Não. Não fui eu quem roubou as maçãs à Dona Quinhas”, gritava o José momentos antes de abrir os olhos e ver que quem lhe dava bofetadas não era a Dona Rosa mas sim os esbirros de Alberto Punhal.

 

“Torcionários. Reacionários. Filhos da…” “Toma, toma, toma, toma mais esta e esta e ainda mais esta. Esta é por Lenine, esta por Marx, esta por Estaline, esta por Punhal e esta por mim e mais esta e esta e ainda mais esta. Tu cansas-me… E esta pela revolução que tu queres trair, besta reacionária…” “Reacionário és tu, filho da…” “Toma, toma, toma lá mais esta e esta, filho de uma cadela burguesa. Esta é por Marx, esta por Lenine, esta por Fidel, esta por Punhal, e mais esta por…” “Para, para, que o matas à lambada. Usa os processos, mas a modinho. Usa mas não abuses destes reciclados métodos ecologistas de tortura. As ordens são para obrigá-lo a confessar, não para o matar. Pelo menos para já. E as ordens são para ser cumpridas. Afinal vivemos num estado de direito socialista, a caminho do comunismo, ah, ah, ah... O preso tem os seus direitos… ah, ah, ah...” “Quais direitos, qual caralho! O direito deste cão reacionário é levar porrada. Porrada e mais porrada. Onde já se viu um transmontaneco de merda vir para aqui fazer pouco de todos nós. E do Partido. Enquanto eu puder, aqui na nossa terra ninguém brinca com a revolução, nem com as suas conquistas. Traz a vergasta que o vamos açoitar até confessar.” Pausa. “Reacionário, filho de uma cadela burguesa…” “Reacionário és tu, filho da…” “Toma, toma, toma, toma mais esta e ainda mais esta. Esta é por Fidel e esta por Che e esta por Lenine e esta por Marx e ainda esta outra por Estaline e ainda mais esta por Punhal… Traz lá a merda da vergasta, que já me começam a doer as mãos.” Pausa. “Reacionário, filho da…” “Toma, toma, toma lá mais esta e mais esta e mais esta e ainda mais esta. Esta por Lenine, esta por Marx e mais estas todas pelos revolucionários de cujos nomes agora não me lembro... Tu cansas-me… E não confessa, este filho de uma cadela reacionária…” Nova pausa, pois o prisioneiro voltou a desmaiar. “Foda-se, estou esgotado. Agora é a tua vez, meu trotskista de merda.” “ Não me chames isso nem a brincar.” “Olha, olha. Continua sem sentidos. Será que está morto?” “Morto não está porque ainda respira. Mas já não lhe falta tudo.” “Este filho de uma cadela reacionária não confessa nada.” “Pudera, tu, além de ainda não lhe teres feito nenhuma pergunta, nem sequer o deixas falar.” “Não vês que ele mal abre a boca insulta-me logo.” “É a sua tática.” “Talvez a sua tática o leve à morte.” “E achas que ele se importa?” “Ninguém gosta de morrer. Isso eu sei.” “Mas observando a maneira como ele se aguenta, penso que deves estar enganado. A forma como te provoca leva-me a pensar o contrário.” “Deixa-te de filosofias baratas e passa-me aí o vergalho.” “Com o vergalho não. Isso não. As ordens do camarada diretor são para obrigá-lo a confessar, não desancá-lo com porrada até à morte. Se lhe malhas com o vergalho, o pobre do homem não aguenta. O vergalho é para usar muito a modinho. E por especialistas. Exige muito treino e outra tanta sabedoria. Nas mãos de um brutamontes como tu é uma arma letal.” “Com as mãos já não consigo mais. É a tua vez.” “Não, não é. Então não sabes que eu é que estou escalado para fazer de torturador bom. Tu malhas e eu observo. Também quem mandou gabares-te ao chefe de que tens umas manápulas de gigante. Mais a mais, alguém tem de estar atento para ouvir a sua confissão. Afinal é isso que todos pretendemos. Olha, olha, está a acordar de novo. Vamos voltar ao trabalho.” “Eu não posso mais, já não sinto as mãos. Só continuo a tarefa se for com o vergalho.” “Não insistas, como chefe desta brigada de tortura proíbo-te de usares tal arma.” Pausa. Afinal o José não chegou a despertar, como o torturador bom tinha sugerido. Cansado de esperar, o torturador com manápulas de gigante, foi-se ao José e de novo o começou a esbofetear com toda a determinação revolucionária. E o José: “Não, mãe, não fui eu que roubei os rebuçados ao azeiteiro. Não me batas.” “Eu não sou a tua mãe. Sou um dos muitos camaradas que traíste. Tu traíste-nos a todos. Confessa. Toma, toma, toma, toma. Esta é por Lenine, esta é por Marx, esta é por Punhal, esta por Ho Che Ming…” “Não é Ho Che Ming é Ho Chi Minh…” “E a quem é que isso interessa? Porque não vens tu continuar a tarefa a ver se ele confessa.” “O que queres que ele confesse?” “Não te armes em intelectual. Queremos que confesse a sua traição. Afinal ele é um traidor. Traiu o Partido, os camaradas e a revolução. Não existe pior traição. Ele tem de confessar a sua traição.” “É aí que te enganas. Ele pensa que não traiu nada nem ninguém. Ele pensa que os traidores somos nós.” “Essa é a sua maior traição. Vai lá buscar o vergalho. Ele vai confessar, e de joelhos, como os católicos.” “Não insista no vergalho.” “Toma, toma, toma, toma lá mais esta, reacionário, traidor da classe operária, traidor da revolução, traidor do marxismo-leninismo…” “Reacionário és tu. Tu é que devias confessar a tua traição. Torcionário, reacionário, filho da…” “Toma, toma, toma. Esta é por Fidel, esta por Lenine, esta por Marx, esta é pelo seu amigo de quem agora não me lembra o nome, mas que também tinha barbas e era um comunista retinto, esta é por…” “Deixa lá, que o prisioneiro voltou a desmaiar. Vou chamar o médico e mandá-lo para a cela. Amanhã é outro dia.”

 

Depois da visita do médico da prisão, o José deu acordo de si e, virando-se para os torturadores, disse: “Até amanhã, camaradas.” “Além de traidor e reacionário é provocador. Isto só de vergalho é que lá vai.” “Estou que nem com isso”, concluiu o torturador bom já pronto a deixar de o ser. 

 

192 – Triste sina a do José. Na República Democrática do Norte era considerado um ...

 

(continua)

 

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Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2014

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