Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Intermitências

 

 

Céu

 

 

Quanto mais mundo conhece, mais perdido se sente. Viveu numa cidade de cada continente. Compreendeu as subtilezas das diferenças culturais. Adaptou o seu soriso - e   estômago - a todos os ambientes. É insaciável, desde os 18 anos, que salta de cidade em cultura, de paladares em climas. Vem pintando a sua vida com todas as cores que cabem na sua imaginação, e quanto mais mundo conhece, mais perdido se sente.

 

Houve um tempo em a gente quis liberdade de escolha, e lutou por ela. E o mundo avançou, e o mundo mudou, e agora o mundo é imenso e o mundo tudo quer e tudo pode. Tem todas as escolhas e os destinos na sua mão. Basta querer.

 

 

Fotografia de Sandra Pereira - Monasterio de Montserrat, Catalunha, Espanha, Julho 2014

 

Ele nasceu nesse mundo. Quis conhecê-lo e experimentá-lo todo para saber onde era o céu. Antes, todos sabiam onde estava o céu, bastava erguer os olhos e via-se Deus, de qualquer lugar do mundo, mesmo do mais isolado, mesmo do mais esquecido, mesmo do mais pobre. Depois, veio o tempo em que a gente escolheu, e ganhou também liberdade para duvidar, e ele, quis confimar com os seus próprios sentidos onde estava o céu. E então partiu.

 

Procurou o céu em cima, procurou-o em baixo, a norte e a sul, à direita e à esquerda, procurou-o também no centro. Aos poucos, o mundo foi cabendo todo nele e é agora parte dele. E quanto mais o conhece, mais perdido se sente. Não encontra o céu. A cada escolha, apercebe-se que afinal o céu deve estar noutro lado...

 

... e quando às vezes regressa ao antes, às raízes, aos que nunca saíram do lugar e sempre souberam que o céu era a casa de Deus, encontra compreensão. "Pelo menos", encolhem os ombros os que escolhem amar este e o outro mundo, "o céu está no meio do peito de um Homem de fé".

 

Sandra Pereira

 

 

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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

Quem conta um ponto...

 

208 - Pérolas e diamantes: Mudança

 

Pelo menos numa coisa estou de acordo com o guru do “conservadorismo” português, João Pereira Coutinho: “Na generalidade, os políticos são maus porque os portugueses não exigem melhor.” Basta olharmos para o governo da Nação para nos inteirarmos da qualidade, e da validade, do argumento. Então se o aplicarmos ao nosso concelho, temos que concordar que é tão verdadeiro que até dói.

 

De facto, basta olharmos para os líderes das diversas listas concorrentes às últimas eleições autárquicas para admitirmos que o argumento lhes assenta como uma luva. E nesta comédia trágica, os partidos, e não só eles, valha a verdade, têm também a sua dose de responsabilidade. Nalguns casos, parece mesmo que em vez de terem optado pelo candidato mais credível, apenas se empenharam em escolher uma sua caricatura. Como se em vez de levarem a sério a política autárquica, apenas se entretivessem em contar uma boa anedota.

 

Mesmo assim, há por aí muito boa gente, na qual me incluo, mesmo pedindo perdão pela imodéstia e pelo atrevimento, que coleciona várias e distintas cicatrizes nas costas feitas pelos pretensos amigos. As minhas, por exercício de estilo, exibo-as com orgulho.

 

Por isso não é de admirar que o país, e a autarquia, já agora, estejam de rastos. O pão e o circo para entreter os nativos deu no que deu.

 

Como sempre, os portugueses hão de protestar, mas tarde e a más horas.

 

Está claro que a nossa representação parlamentar também sofre do mesmo vício.

 

João Pereira Coutinho, relativamente ao nosso sistema eleitoral, refere que se torna necessário acabar com o “voto de cabresto”, uma expressão brasileira que identifica um tipo de sufrágio existente nos partidos com representação parlamentar.

 

Ora esse tal voto de arreio consiste em engrossar listas de deputados com “nulidades avulsas” que depois de eleitos fazem figura de corpo presente na Assembleia da República e, mesmo em matérias que não são estruturantes para o partido, votam sempre como manda o cabecilha. Mesmo que em causa estejam os legítimos direitos e interesses dos eleitores da região que elegeram filho, ou filha, tão ingratos.

 

Convém não esquecer que o governo que faz questão em nos desgovernar foi eleito propagandeando que não existia um problema com a moeda única, dizendo sempre que o problema com as Finanças Públicas se devia à má governação interna e à atitude passiva dos portugueses relativamente aos novos desafios, apostando até à exaustão na narrativa da austeridade a qualquer preço. Mas o que o atual estado da nossa economia demonstra é que com a austeridade não chegamos a lado nenhum.

 

Além disso, a boa gestão das Finanças Públicas não é uma questão de esquerda ou direita. Esse foi chão que já deu uvas.

 

E é uma mentira hedionda a tese propalada por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas de que para os portugueses garantirem o futuro dos seus filhos têm de abdicar do seu presente.

 

Isso não é verdade nem nas famílias e muito menos nas sociedades.

 

Estes argumentos falaciosos não são sequer negociáveis. No fundo, o que está atualmente em jogo é, sobretudo, uma questão política. É preciso, é urgente, é necessário, mudar de rumo. E isso implica mudar de política. Ou seja: temos de mudar de governo.

João Madureira

 


 

PS – Para podermos fazer uma ideia concreta de quais são os buracos financeiros que vão ser tapados pelo empréstimo de 20 milhões de euros negociado pela CMC com os bancos, que os flavienses vão pagar com língua de palmo durante os próximos 14 anos, mais uma vez solicitamos ao senhor presidente da CMC, mais aos seus distintos vereadores, nos quais incluímos necessariamente o catavento político João Neves, que aprovem uma auditoria independente às contas da nossa autarquia. Quem não deve não teme. E à mulher de César não lhe basta ser séria, tem de parecê-lo. Assim vamos todos conseguir dormir um pouco mais descansados.

 

 

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Domingo, 28 de Setembro de 2014

Pecados e picardias

 

Sem encontrar o caminho

de volta

A rapariga seguiu a estrada

Sem olhar para trás,

Uma força no olhar, um trilho

De revolta

ao encontro  do tudo e do nada

nos horizontes da paz.

 

Sem parar  para ver

se o caminhar era perto

sem andar a correr, sem temer o deserto

sem culpa sem vergonha, sem perdão,

sem se comprometer com o sim ou com o não

 

a rapariga deitou-se na berma, prostrada,

apertava-lhe o espartilho,

primeiro era o pai depois foi a vida,

o mal era o cansaço, e era o trilho

e o tudo junto mandou-a para a estrada.

 

A rapariga, além de muda ia calada

Isso não se faz, levantou-se da berma e da madrugada

Fez-se ao caminho, a ver se encontrava a paz…

 

Isabel seixas in sentidos

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Adães - Chaves - Portugal

 

Hoje vamos fazer uma breve passagem por Adães, com mais três imagens das suas ruelas.

 

 

 

Uma aldeia por onde gosto de passar sempre que vou para aqueles lados da montanha, no entanto nem sempre paro para colher imagens e, a razão é muito simples, Adães é complicada de fotografar, pois além das suas ruas estreitas e curvas a aldeia desenvolve-se num declive que não permite grandes habilidades ou boas condições de luz, ou então, sou eu que não as encontro.

 

 

 

Mesma assim, de vez em quando, lá vou fazendo uns cliques e lá vai saindo alguma coisa. Curioso é que a vista geral da aldeia como quem entra nela vindo de Stª Leocádia,  essa sim, é bem fotogénica, mas hoje não há vistas gerais, essas, ficam para uma próxima oportunidade.

 

 

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Caminhada ao longo da raia

Para os que gostam das caminhadas aqui fica a divulgação de uma que vai acontecer entre algumas das nossas aldeias da raia.

 

Mais informações (fornecidas pela organização) ficam a seguir ao cartaz do evento:

 

 

No próximo dia 05 de Outubro (Domingo), Galegos e Transmontanos, além de conviverem  e caminharem em território raiano, vão saborear um passeio de índole histórico-cultural, que liga três povos ex-promíscuos, cujo percurso, de caminhos e carreiros estão ladeados por paisagens bucólicas, que o tempo e os locais  estimaram.

 

Esta caminhada tradicional, com mais de 20 anos, este ano, dispõe de dois percursos:  

   

1 - 22 Km, para os mais arrojados e profissionais;

 

2 - 14 km, de dificuldade média baixa, com mais tempo para o convívio, curiosidade pela natureza e património cultural.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:47
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Sábado, 27 de Setembro de 2014

Pedra de Toque - Abraça-me

 

Abraça-me

 

Quando a noite cai

O amor habita os sonhos

Enquanto as bocas se entreabrem

À espera.

 

Doí saber

Que a pele esfria

Quando a alva desliza para dentro das paredes do quarto

E encontra a solidão.

 

Os anos intensos

Já pesam nos corpos

Refreando anseios.

 

Chovem estrelas cintilando nos olhos!

 

Mas por doce milagre

O amor rejuvenesce.

 

Abraça-me

 

António Roque

 

 

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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2014

Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

 

 

Conceções de ideal urbano pré-construídas em modelos de cidade compacta

 

 

Em Chaves, como em outros locais, os fenómenos de suburbanização e periurbanização resultaram da “expulsão” da cidade de população pelo efeito conjugado do forte crescimento demográfico, registado no concelho na década de 90 do século XX, do êxodo rural e da má qualificação[1] do sítio inicial da cidade.

 

 

Este tipo de fenómenos propiciou o desenho de sistemas de polinucleísmo urbano, sistemas que unem “cidade e campo num vasto conjunto, na escala da região, organismo de múltiplos centros mas funcionando como um todo”.[2] Referindo-se mesmo virtualidade a este sistema de “estruturação urbana que conservaria as vantagens das pequenas aglomerações ao mesmo tempo que, rivalizaria com as grandes metrópoles”.[3]

 

 

 

Como é óbvio, as novas ideias surgem geralmente para dar respostas a novos questionamentos. Assim, a degradação urbana e, por essa via, a degradação da qualidade de vida dos urbanos, conjugada com o importante desenvolvimento dos transportes[4], e ainda os diferenciais de custo de solo levaram à necessidade de pensar soluções de residência fora da cidade compacta. Soluções de residência geralmente unifamiliares. Assistiu-se, por conseguinte, à “explosão da cidade” lançando fragmentos que se dispersaram no território. Na realidade, embora em espaços diferentes, ainda hoje se verifica o fenómeno referido, já que aos fatores que o despoletaram a explosão, se juntam os recentes processos de dispersão industrial[5] e disseminação das redes de comunicação e informação que, pela contínua melhoria das acessibilidades e redes logísticas de transportes, possibilitam o distanciamento entre os locais de produção e consumo, e os locais de residência e convívio social.

 

 

É óbvio que esta visão não está isenta de críticas, dado que, não é possível iludir o contínuo crescimento das cidades compactas, quer em efetivos populacionais quer ainda no seu número. Desta forma os fenómenos de dispersão, muitas das vezes, não representam mais que o ordinário crescimento centrífugo das cidades consumindo a periferia, em consonância com as diferentes fases do ciclo[6] de urbanização, desurbanização e rurbanização definidos por P. Hall e Van de Berg, referenciados por Gonzalez.[7] É de conveniência referir também que parte da preocupação que expressam se prende com a necessidade de travar o processo de desconcentração[8], o que permite antever conceções de ideal urbano pré-construídas em modelos de cidade compacta e, porque não dizê-lo, pouco flexíveis[9] ou talvez apenas se trate do tempo que o “novo” demora a ser enquadrado nos cânones.

 

Francisco Chaves de Melo


[1] As cidades apresentaram nos últimos 50 anos um rápido desenvolvimento extra-urbano ao mesmo tempo que se verificou a crescente decadência do seu interior e a nefasta obsolescência do ambiente suburbano e do edificado.

[2] MUNFORD, L. (1965) A cidade na história.

[3] Idem

[4] Em velocidade, capacidade de carga, especialização e conforto.

[5] “os empreendimentos económicos e produtivos - e os capitais - migram em busca de novas vantagens locacionais. (...) A mobilidade de capitais e de empreendimentos, capitaneada pela re-localização dos segmentos económicos de alta tecnologia, repercute na projecção de novas áreas e regiões e no declínio de outras, geralmente aquelas de industrialização baseada no antigo modelo fordista de produção em massa.” In ALBAGLI, Sarita (1998)

[6] A ideia de ciclo também se encontra em escritos mais atuais. Estes referência o aparecimento de um novo paradigma, o paradigma informacional em substituição do paradigma comunicacional. O cruzamento de diversos fluxos é central nesta nova conceptualização. Para André Lemos existem assim, “neste espaço de fluxo três fatores: a des-espacialização, o descentramento e a des-urbanização”, que são responsáveis por transformações nos processo e formas de povoamento. “O primeiro refere-se à ênfase no tempo das trocas, no fluxo de informações que transforma os lugares em espaços de fluxos. O segundo, que se refere a perda do centro, significa que, no espaço de fluxos, todos os lugares são equivalentes, acarretando a desvalorização de lugares antes tidos como centrais, como praças, monumentos ou ruas. O terceiro fator lida com à perda cada vez maior de uso da cidade pelos cidadãos. Isso significa que o fluxo pelas ruas, praças, avenidas e monumentos se fazem, agora, na lógica da consumação e do trabalho, fazendo com que os cidadãos fujam do caos urbano, seja refugiando-se em espaços paradisíacos privados (shoppings, condomínios fechados, guetos), seja fugindo para espaços periféricos dos grandes centros.” LEMOS, André (2001) – Cibercidades.

[7] GONZÁLEZ, Xosé dir. (2001) Planeamento estratéxico e mercadotecnia territorial

[8] hoje, no nosso país, o “lápis azul” das administrações centrais mostram a mesma preocupação, quando limitam os perímetros urbanizáveis de cidades vilas e aldeias, pois chegaram á conclusão  que, se fosse ocupada a capacidade construtiva contida nos PDM’s, haveria capacidade para albergar vários milhos de novos residentes.

[9] Por vezes nova visões encontram limites difíceis de transpor. A este respeito Manuel de Forn refere que “en las ciudades más avanzadas, estabilizadas en población y con alta calidad de vida, hay crisis de imaginación y comprensión”, acrescentando ainda que “el imaginario físico tradicional no es suficiente para abordar los cambios.” FORN, Manuel (2002)  Claroscuros de los planes estratégicos.

 

 

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Quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

Vivências - Pastéis de Chaves em Leiria

 

Pastéis de Chaves em Leiria

 

Domingo, nove horas da manhã. Como já vem sendo hábito desde há alguns meses estaciono junto ao estádio municipal e espero por dois amigos flavienses, dos tempos em que andava na Escola Secundária Dr. Júlio Martins (já lá vão mais de 20 anos!), e que reencontrei quando me mudei para Leiria. O propósito deste encontro semanal é o de fazer uma caminhada, mais ou menos demorada, dependendo da nossa vontade, a qual acaba normalmente com um café numa esplanada da cidade. É um momento de encontro, de conversas animadas, e também, por vezes, de recordações da nossa cidade e dos tempos que lá vivemos até um dia a vida nos ter levado para outras paragens.

 

Os meus amigos chegam, cumprimentamo-nos, trocamos umas primeiras impressões e falo-lhes da notícia que vi na véspera num jornal da cidade: a abertura de um novo espaço no centro histórico da cidade, cujo principal produto é o pastel de Chaves… “confecionado com o segredo da massa folhada e a receita original, com carne de vitela” (assim era anunciado na notícia). A ideia de por lá passar agrada-nos a todos e já antecipamos mentalmente o prazer de nos sentarmos e nos deliciarmos com um saboroso e estaladiço pastel de Chaves e um café. Iniciamos a nossa caminhada pelas margens do Rio Lis, atravessamos a cidade e, a dada altura, invertemos a marcha para regressarmos ao local de partida, fazendo um pequeno desvio para irmos ao tal espaço. Já passa das dez da manhã quando chegamos ao local e, para nosso desalento, nos deparamos com a porta fechada… Ali ao lado, na praça, vários outros cafés e esplanadas se nos oferecem para uma pequena pausa, mas nós queríamos mesmo era um pastel de Chaves… Esperamos mais uns minutos e, como o estabelecimento não abre, seguimos caminho, inconformados e comentando que teremos de voltar num outro dia (e sem grande demora!) para provar os pastéis e averiguar se são realmente como os da nossa terra… e, quem sabe, em conversa, descobrir se por detrás deste espaço não estará também um(a) flaviense como nós…

 

Luís dos Anjos

 

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O Barroso aqui tão perto... Olas de Santa Marinha

 

Vamos lá outra vez até ao Barroso aqui tão perto e, o de hoje, é mesmo bem perto. Escondidinho como convém, aumenta a gratidão da descoberta e a devoção à magia da natureza.

 

 

 

Olas de Santa Marinha em plena raia entre terras de Vilar de Perdizes  e a Galiza faz jus ao topónimo, pois o “santuário”  faz a receção do sítio e as olas lá estão, bem ao fundo, com as suas quedas, redemoinhos e penedio ao longo de uma boa centena de metros, que ao penetrá-los se sente o consolo estar num paraíso, onde tudo se esquece para viver o momento.

 

 

 

Claro que para viver em plenitude estes sítios e momentos, temos de entrar dentro deles reduzidos à nossa simplicidade, só assim os teremos por inteiro, com todo o tempo do mundo, aliás por lá o tempo e as horas não existem, antes, isso sim, momentos, sons, perfumes, tudo num grau de pureza que é quase impossível de quantificar, mas, repito, temos que entrar dentro deles reduzidos à nossa simplicidade.

 

 

 

Depois há que ir pasmando aqui e ali, também pelo caminho convém deixar-nos envolver pelos matizes, pela arte da natureza em cobrir tudo de cor, em colónias de espécies e degradês que ora se perdem nos azuis do horizonte distante, nos verdes que explodem  do nada ou nos pormenores que nascem logo ali diante de nós, como de uma tela se tratasse e estivesse ali exposta para apreciação.

 

 

 

Também como sempre, uma coisa é a fotografia e aquilo que nos atraiu o registo, composto aqui pelas palavras que a alma nos dita, e outra coisa é viver estes sítios e momentos in loco, pois os nossos olhares e momentos são sempre pessoais e quase sempre intransmissíveis. São nossos. Os vossos, podem sempre ir além daquilo que vos deixo, como também podem ficar aquém. A vida é assim mesmo, mas uma coisa é certa, o Barroso fica mesmo aqui ao lado e está sempre à espera de ser descoberto e sempre disposto a surpreender-nos.

 

 

 

Até mais logo, ao meio dia, com as “Vivências” de Luís dos anjos.

  

  

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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

Chaves, uma imagem com chuva

 

 

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Chá de Urze com Flores de Torga - 53

 

Coimbra, 11 de Março de 1985

 

Continua o entremez político. A mediocridade, a avidez e o desplante instalaram-se a todos os níveis de governação, e Deus nos acuda. Mas não é a degradação da classe dirigente que mais me aflige. Nunca alimentei ilusões a seu respeito. O que verdadeiramente me mortifica é o desinteresse, a indiferença com que o país assiste ao espetáculo. Não se vislumbra o mínimo sinal de indignação. É um alheamento passível, sem um resmungo, sem uma impaciência. Há horas colectivas más. Esta, para nós, é uma delas. Enquanto durou a ditadura confiávamos no futuro. Embora subjugados, éramos subversivos em pensamento. Tínhamos a esperança na vontade e a liberdade na imaginação. Agora, que fizemos a mais arbitrária revolução da nossa história, ficámos frustrados e desmotivados. Parecemos mortos a representar a vida no palco da nação.

 

Miguel Torga, in Diário XIV

 

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Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Crónicas Estrambólicas

Suponho que hoje ainda vamos ter por aqui mais uns “Estratos” da Rita, mas enquanto eles não chegam e como por aqui, ultimamente, o que é ocasional virou a moda, inauguramos hoje mais uma crónica de um autor que há muito vem colaborando com o blog, precisamente em “Crónicas Ocasionais” mas às quais decidimos dar nome numa rubrica própria, que acontecerá ocasionalmente. A crónica passará a ser intitulada por “Cronicas Estrambólicas” e a autoria é do Luís de Boticas. Fica então a primeira, desta nova série:

 

 

As Intermitências Do Pimba

 

Em 2040, Portugal era o país mais intelectual do mundo. A aplicação de políticas de excelência com uma aposta muito forte na educação e o regresso em massa dos cérebros que tinham emigrado, transformou Portugal num país extremamente refinado. A população era composta por 95% de licenciados (80% deles tinham também um doutoramento) em universidades locais, que estavam classificadas como as melhores do mundo, ultrapassando as americanas e inglesas. A população vivia um estilo de vida intelectual com dedicação fanática. Os livros esgotavam rapidamente, os jornais de qualidade nunca eram suficientes e os espectáculos de artes eram muito procurados. As televisões abriam de manhã com concertos de ópera ou jazz e as tardes eram preenchidas por debates profundos sobre artes ou ciências, sempre com grande sucesso de audiências e muita competição entre os canais (aos Domingos à tarde, quando a SIC passava uma ópera do Mozart, a TVI não se ficava atrás e passava outra do Vivaldi). Apesar disso, os resquícios da cultura pimba dos anos 10’s preenchiam completamente a programação da RTP 2, que tinha a pior audiência de todos os canais. Nesse canal (altamente subsidiado pelo estado) podiam ver-se coisas como concursos de música pimba, noticiários de 2 horas com bastante coscuvilhice, 7 novelas diárias, etc. Este era o canal dos pimbalectuais, gente que adorava o pimba, mas que estranhamente se apresentava como os antigos intelectuais, com óculos redondinhos e aparências cuidadosamente descuidadas. A classe intelectual, para contrastar, vestia-se como as donas de casa do antigamente. O estado subsidiava fortemente a cultura desta minoria pimbalectual. Enquanto os espectáculos de ópera e jazz esgotavam rapidamente, os concertos de música pimba sobreviviam apenas porque eram subsidiados. O teatro de revista também vivia à custa do estado, ao contrário dos teatros que passavam peças de Shakespeare ou Becket, tão concorridos que as pessoas passavam noites nas filas para as bilheteiras enquanto se entretinham a ler coisas como o Guerra e Paz ou o Quixote. O futebol também perdera toda a popularidade e os estádios tinham sido vendidos a companhias que os enchiam com multidões fanáticas que assistiam aos espectáculos do campeonato nacional de dança contemporânea, onde actuavam dançarinos idolatrados, pagos em milhões, que faziam vender três jornais diários dedicados exclusivamente à dança contemporânea e ao ballet, com mais um ou outro artigo sobre valsas. Os pimbalectuais detestavam toda esta cultura popular intelectual que era fortemente publicitada por todos os meios de comunicação social. Durante o verão, acontecia o descalabro, todas as vilas e aldeias tinham festas e festivais de jazz e clássica onde os intelectuais dançavam elegantemente e com entusiasmo. Do outro lado, os pimbalectuais zurziam e desdenhavam (em crónicas na revista Maria e em debates no canal 2) de todo este mainstream das multidões intelectuais, com um desprezo especial pelos dançarinos pagos em milhões. No meio desta confusão intelectopimbactual, havia um pequeno grupo completamente desorientado: os hipsters. Estes já não sabiam o que fazer e apareciam nos bares da moda com tangas de pele de leopardo, lanças na mão, etc. Não sabendo já onde se posicionar, pelo sim e pelo assim-assado, passavam exclusivamente música obscura chinesa nos seus bares fora de moda.

Luís de Boticas

 

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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Quem conta um ponto...

 

207 - Pérolas e diamantes: Rui Veloso e Arquimedes

 

Ainda em pleno verão deparei-me com uma notícia que me deixou triste e ainda mais apreensivo. Rui Veloso, o rosto mais conhecido da música popular portuguesa, em entrevista ao DN, decidiu anunciar que vai parar de cantar e tocar.

 

Por vezes, parar até pode ser uma boa decisão, se o objetivo for, por exemplo, refletir, descansar ou até mudar de rumo. Ou de ramo. Mas não foi este o caso.

 

Rui Veloso apontou como principias razões desta sua travagem a fundo, a desilusão com o país, a falta de respeito pela cultura e o desprezo pelos profissionais do setor, em detrimento dos milhares de candidatos à fama enaltecidos e promovidos pelos concursos televisivos.

 

Também na música as pessoas começam a preferir as imitações ao original.

 

Apesar de atualmente termos muito mais acesso à informação do que no passado, é preocupante que, como cogumelos venenosos, seja a desinformação a proliferar nos meios de comunicação social.

 

Nos dias de hoje, tudo se nivela por baixo: a governação do país, a gestão das autarquias, o debate político.

 

A semelhança entre os principais atores políticos, especialmente entre os do apelidado arco da governação, é intrigante.

 

Aos portugueses custa-lhes entender as trocas azedas de palavras, pensando que correspondem a ideias e sentimentos divergentes, e depois vê-los a jantar e a passar férias juntos.

 

Rui Veloso confessou que há um caldeirão em que os mestres estão misturados com os analfabetos e que não gosta dessa sensação. Nem ele, nem nós. Verdade seja dita.  

 

Convém no entanto lembrar que, certa manhã, quando estava a tomar banho, o matemático Arquimedes descobriu o princípio da impulsão.

 

No entanto, apesar da sua excecionalidade, ainda hoje lamentamos o facto de ter sido assassinado posteriormente por um soldado.

 

Cada um tire daí as suas conclusões, se for capaz.

 

Por hoje termino com o sábio conselho do mordomo Jeeves, um personagem dos melhores livros de P. G. Wodehouse: “Se me permite a sugestão, senhor, e embora isto não venha constituir mais que um paliativo, tem-se verificado que o vestir de um fato de soirée costuma trazer um efeito estimulante para a moral.”

João Madureira

 


 

PS – O livro Poder e Mudar, de Gustavo Cardoso, começa com o seguinte facto histórico: Na época da Grande Depressão, um sociólogo vai entrevistar um conjunto de pensadores europeus. Embora o mundo esteja à beira de uma guerra mundial e à beira da catástrofe, quase nenhum percebe que vive o momento antes do passo para o abismo.

 

Descontadas as necessárias diferenças, é bem possível que estejamos num momento de rutura e que precisemos de meditar.

 

Mais uma vez, e para que os flavienses não fiquem com a impressão, incorreta por certo, de que o acordo estabelecido entre o PSD de António Cabeleira e o vereador eleito em nome do MAI, não foi a derradeira tentativa para que a prometida, e devida, auditoria externa às contas da CMC não vingasse, aqui fica mais uma vez o nosso apelo ao senhor presidente da autarquia flaviense, e aos seus distintos vereadores, incluindo necessariamente João Neves e João Moutinho, para que, em nome da transparência e do bom nome da Câmara de Chaves, aprovem uma auditoria externa às contas da CMC.

 

Passaríamos todos, com certeza, a dormir um pouquinho mais tranquilos.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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De regresso à cidade trazendo de arrasto o dia de ontem

 

De regresso à cidade trazendo de arrasto o dia de ontem em que a fé e as freguesias desceram à cidade com os seus oragos.

 

 

 

Missa campal no Jardim Público seguida de procissão pela Madalena, Ponte Romana, Rua de Santos António acima, Rua Primeiro de Dezembro, Largo do Anjo, Rua Direita Abaixo, Praça da República para terminar na Praça do Duque em frente das nossas mais imponentes igrejas com a singularidade dos seus estilos.

 

 

 

Também o Bispo de Vila Real marcou presença, bem como as Bandas Musicais do concelho, o povo das freguesias e algum da cidade, o suficiente para encher quase por completo a Praça do Duque.

 

 

Como festa religiosa, parece-me estar completa, sendo notório o trabalho decorativo que cada freguesia dedica ao seu orago para a cidade viver a festa em apenas duas a três horas, o tempo suficiente para a missa campal e a procissão. E tão depressa se faz como se desfaz. Para a festa ser completa, falta-lhe o lado pagão, do bailarico, a banda no coreto, o foguete no ar e as barracas do costume. Assim, fora do religioso, só mesmo a Marcha de Chaves tocada pelas bandas e cantada por todos os presentes, pelo menos por aqueles que lhe conhecem a letra.

 

 

 

Com ou sem festa completa, é notório que a fé ainda move multidões  e que o povo continua a ajoelhar ao passar da procissão. E assim se passou mais um dia dedicado à Nossa Senhora das Graças.   

 

 

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Domingo, 21 de Setembro de 2014

Pecados e picardias

 

Sem sombra de pecado

 

Vulgar  original

Seguimos a passo com passado

Indiferentes

A quem nos faz sinal

 

Há instantes

Compadeceu-se o velho do jornal,

Lembrou-se do que era antes

Arrependido sem ter feito nenhum mal

 

Envelheceu no tempo,  ficou escondido

À mostra, no monte dos vendavais

Sente que sobra , que já  pesa, sem obra

Sem saber como aguentar mais

 

Pior só nas noticias

Em que há mortos de repente

Talvez as últimas caricias

Sejam frio que não se sente

 

Sem sombra de pecado

Não haverá trevas

Nem um Deus que seja invocado

Nem o inferno

Precisa de chamas…

 

Isabel Seixas

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:59
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