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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2015

Chaves - Largo Caetano Ferreira

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Chá de Urze com Flores de Torga - 98

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Chaves, 19 de Setembro de 1970

 

Convidado por um colega, lá fomos há pouco os dois a uma aldeia sertaneja acudir a uma parturiente que ficou a meio caminho do acto procriador. Estendida no catre, com a placenta retida no útero e a ponta do cordão umbilical a cair-lhe da vagina, era para toda a povoação a imagem da impotência humana diante do destino. Fez-se-lhe a dequitadura, e o sol da confiança voltou a brilhar nos olhos desiludidos da comunidade. E mais uma vez senti a alegria de ser médico. Graças à «rainha das ciências», não só pude compreender e aceitar durante a vida a minha condição de filho da natureza, ver-me integrado nas suas leis e alicerçar nelas todos os meus valores, como ainda ter o orgulho legítimo de lhe corrigir ou completar de vez em quando as obras.

Miguel Torga, In Diário XI

 

 

Curral de Vacas, Chaves, 24 de Setembro de 1970

 

Hoje vim apenas ver o palco. Qualquer dia virei assistir à representação do Auto da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nestas quelhas esburacadas e cobertas de bosta, ladeadas de postigos por onde espreita a solidão humana sem fartura, sem higiene, sem instrução e sem esperança, sim, é que um Zé qualquer pode carregar dignamente uma cruz divina.

Miguel Torga, In Diário XI

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Verin, 23 de Setembro de 1971

 

Almoço no Parador, com o castelo de Monterrey nos olhos e Portugal no pensamento. A abstração da pátria, possível a um português em qualquer país, é-lhe quase impossível neste. A nossa personalidade individual e colectiva foi modelada de tal maneira de encontro ao perigo raiano, que o simples nome Espanha desencadeia uma girândola de reflexos em cada um de nós. Não +e ódio, como às vezes se julga. É, simplesmente, pânico. Medo terrífico de perder a independência, que sabemos negada no subconsciente dos vizinhos. Homens livres sem contestação em todas as terras do mundo, mesmo que nelas sejamos miseráveis ganhões, aqui, até sentados à mesa dum restaurante nos sentimos súbditos potenciais. E, desde os habitantes às obras de arte, só conseguimos ver em cada grandeza pessoal ou monumental instrumentos virtuais de domínio.

Miguel Torga, in Diário XI

 

 

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Terça-feira, 29 de Setembro de 2015

Crónicas estrambólicas - Latinos pisces

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Latinos pisces

 

Há uns dias, em férias e longe de Chaves, fui a um Ecomarché comprar peixe. Reparei que as tabuletas que identificam os peixes com os nomes e os preços tinham também os nomes científicos dos peixes, em latim, a indicar as espécies. Não percebi qual a utilidade do latim, imagino que seja para evitar confusões entre potas e polvos (para além de haver mais de 10 tipos diferentes de potas e haver mais polvos do que o Octupus vulgaris...) ou entre palocos e bacalhaus (há vários bacalhaus para além do nosso do Atlântico, o Gadus morhua), não sei. Achei piada quando percebi que as rigorosas definições científicas são uma merda para certos efeitos, como a culinária. No início pensei que poderia ser algum empregado a meter água ao escrever os nomes, mas depois vi que não, que os nomes populares dos peixes são, por vezes, mais sofisticados do que os eruditos nomes em latim. O carapau e o chicharro tinham o mesmo nome Trachurus trachurus, mas soube depois (ao ler depois em casa) que o carapau é um chicharro pequeno. Há outros casos assim, o safio e o congro têm o mesmo nome científico Conger conger porque o safio é um congro jovem. A verdade é que agora imagino alguém a pedir no talho Ovis aries e o talhante responder-lhe "Ó homem, mas você quer cordeiro, borrego, ou carneiro velho?!". As coisas que um parolo aprende nos armazéns onde as massas ignaras fazem compras e rezam loas ao deus do consumo.

 

Luís de Boticas

 

 

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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2015

Quem conta um ponto...

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258 - Pérolas e diamantes: O cavalo de Nietzsche e o atropelamento de Barthes

 

Javier Marías, o autor de Os Enamoramentos, tem razão, há na escrita uma incompreensível autodisciplina. “Só quem é um pouco anormal é que se mete a trabalhar numa coisa sem que ninguém lho mande”.

 

Há um provérbio árabe que diz: “Aquele que corre sozinho tem a certeza de chegar ao fim.”

 

A verdade é necessário merecê-la. A vitória mais não é do que uma miragem na cabeça de estúpidos vaidosos. E a mentira é como uma lagarta escorregando nas pétalas de uma flor. Esta é a trilogia do desencanto.

 

Há pessoas que pensam que a realidade e a verdade são coisas diferentes. Eu, metodicamente, duvido. Ou melhor, talvez a verdade não exista, mas, mesmo assim, sei que existe o desejo de a encontrar, seja lá em que sítio for. O segredo está em não desistir.

 

Sou do tempo dos melodramas. Ouvi várias vezes mulheres apaixonadas contar que o cinema lhes provocava uma ânsia de morte. De morte pelo amor. Pela redenção do amor. Contavam a história da Amália, ainda nos seus tempos de vendedora de fruta, quando ia ao animatógrafo ver a Dama das Camélias, e depois de voltar do cais, se pôr de propósito nas correntes de ar para implorar a Deus que, pelo menos, lhe desse o dom da tuberculose.

 

Ai, a poesia, a poesia. Essa fé dos pobres nos poderes ocultos da poesia. Mas os poetas pobres ignoram que os pobres poetas se ajoelham perante os ricos.

 

Somos vítimas dos enigmas. E das verdades. Da verdade dos outros, que é muito diferente da nossa verdade.

 

Para podermos viver com alguma sanidade mental temos de ter daqueles ataques de abstração que nos permitem ver através das nuvens densas da demagogia. Está um tempo para políticos ébrios.

 

E depois sugerem-nos a esperança com palavras doces. A esperança na felicidade, essa ideia tão capitalista que nos persegue a vida inteira. O problema é que não existe alternativa à altura.

 

Já que os homens e as mulheres estão impregnados da sua saudosa infelicidade, pensemos, ao menos, na felicidade das máquinas, ou na felicidade da sua posse. Algum sentimento nos tem de ficar de todo este progresso.

 

A esperança que nos apregoam é como um casarão grande e bem iluminado que cada vez vai ficando mais pequeno à medida que nos afastamos dele, caminhando na desilusão premente que nos acompanha, e nos modela, os dias.

 

Este Portugal que amamos, mais por condição do que por que razão, podia ser como uma pequena casa parecida com as que existem sobre as encostas e possuem as vistas extensas. Mas não. A nossa pequenez é endémica, substantiva. Permanente. As nossas vistas são curtas. Demasiado curtas. Vai um tempo para políticos amblíopes.

 

Afinal, Roland Barthes morreu assassinado, segundo a tese claramente ficcional do novo romance de Laurent Binet. O móbil do crime residiu no facto do semiólogo francês estar na posse da “sétima função da linguagem” que permitiria “convencer não importa quem a fazer não importa o quê não importa quando…”

 

O estranho é que Barthes morreu atropelado por uma carrinha de uma lavandaria numa rua de Paris.

 

A 3 de Janeiro de 1889, em Turim, Friedrich Nietzsche sai de casa. Na rua encontra um camponês que luta contra a teimosia do seu cavalo, que não lhe obedece. O homem perde a paciência e começa a chicotear o animal. O filósofo aproxima-se e tenta impedir a desumanidade dos golpes entrepondo o seu corpo. Perde imediatamente os sentidos. É levado para casa onde permanece em silêncio durante dois dias. A partir daquele trágico acontecimento Nietzsche nunca mais recuperará a razão, ficando aos cuidados da sua mãe e das suas irmãs até ao dia da sua morte, a 25 de Agosto de 1900.

 

Vivemos num mundo precário que teima em nos roubar os costumes e as tradições. Vivemos num tempo onde até as amabilidades são teóricas. Onde as ilusões e as desilusões ocorrem ao mesmo tempo.

 

Cheguei a pensar que o futuro ia estar sobrelotado, afinal parece que vai ficar vazio. É triste assistir impotente ao vazio dos nossos campos e das nossas aldeias que ardem durante o verão e congelam no inverno.

 

Segundo o livro A Demografia e o País: Previsões Cristalinas sem Bola de Cristal, da autoria dos investigadores da Universidade de Aveiro, Eduardo Anselmo Castro, José Manuel Martins e Carlos Silva, na faixa do interior do país que vai desde Trás-os-Montes ao Alentejo, a manter-se a atual tendência da evolução do índice de fecundidade em Portugal e não havendo migrações, as previsões apontam para a perda de aproximadamente um terço da população atual, em 2040.

 

A tudo isto assistiremos sentadinhos e risonhos numa cadeira Eames.

João Madureira

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De regresso à cidade e ao outono

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 Um regresso à cidade e ao outono e com ele, fazemos também o regresso à magia das cores. Boa semana!

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Domingo, 27 de Setembro de 2015

Padre Lourenço Fontes e o Barroso

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Uma das vistas desde o topo da Serra do Larouco

Como sempre aos fins-de-semana trago por aqui o nosso mundo rural, geralmente o flaviense. Desde há muito, também, que para mim Chaves não se limita aos seus limites geográficos de concelho. Entendo antes uma pequena região à qual me sinto pertencer e sinto ser a “minha terra”, composta pelos concelhos vizinhos, incluindo os galegos, e só depois é que vem o restante reino maravilhoso de Trás-os-Montes. Digamos que este meu pequeno território é uma pérola no meio do tal Reino Maravilhoso. Tudo isto para dizer que o meu mundo rural que hoje trago aqui é o do Barroso, mas não só, pois também o Padre Lourenço Fontes tem, hoje, aqui assento.

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Padre António Lourenço Fontes

Pois tudo começa num Congresso de Animação Sociocultural em Murça, no qual o Padre Fontes, também ele um Animador Sociocultural, participou e onde a organização do congresso programou fazer-lhe uma pequena homenagem passando um dia com Ele no seu Barroso. Esse dia foi marcado para 25 de setembro (ontem) e alargado a todos os que quisessem participar. Claro que nem que fosse só por ter o Padre Lourenço Fontes com cicerone e homenageado, uma enciclopédia viva sobre o Barroso, não poderia faltar a este encontro/homenagem, mas também porque sabia de antemão que iria ser um dia bem passado, em boa companhia e na qual iria aprender e conhecer mais um bocadinho do Barroso, como sempre acontece quando temos por companhia o seu embaixador Padre Fontes.

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Padre Loureço Fontes explicando os frescos da capela de N.Srª das Neves em Vilar de Perdizes

O programa era simples e feito à medida de um dia. Claro que tinha de começar por Vilar de Perdizes, terra onde o Padre Loureço Fontes inicia a sua grande divulgação do Barroso: com os autos religiosos, os congressos de Medicina Popular, os jogos populares, etc. Esta foi a terra onde durante meio século o Padre Fontes foi pároco, animador sociocultural, psicólogo, médico, conselheiro…) muito antes ainda de dar luz às sextas-feiras 13 da Vila de Montalegre.

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Rocha em pleno Larouco - A cabeça do cão perdigueiro português

Após a visita a Vilar de Perdizes havia que subir ao Larouco, mas antes havia que visitar o autódromo de Montalegre (já na serra do Larouco) onde à tarde iria decorrer o uma prova do Campeonato Nacional de Ralicross/Kartcross e só depois a subida, sempre comentada que nos ajuda a descobrir a cabeça do cão perdigueiro a caminho do ponto mais alto da serra atingidos aos 1535 metros de altura, de onde tudo se vê e se está mais próximo do céu. Topo também dedicado ao desporto com duas pistas de parapente e nos dois últimos anos final de etapas da Volta a Portugal em Bicicleta.

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Grupo que subiu ao topo ponto mais alto do Larouco - A vaidosa já lá estava

Após o desfrute das alturas do Larouro a inevitável descida para visitar Montalegre e o seu EcoMuseu, o castelo e as ruas do centro histórico de Montalegre.

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Torres do Castelo de Montalegre

O suficiente para se poder chegar à Aldeia de Mourilhe / Hotel Restaurante Rural (Hotel Assobrado) para um almoço dos diabos. E o assombro deu-se com aperitivos: ferradura afumada, presunto dependurada na lareira do inferno, caldo de urtigas malditas, pão que o diabo amassou, vinho excomungado da terra santa, seguido de vitela embruxada acompanhada com batata com murro da bruxa branca. Para sobremesa: Rabanada com mel de bruxa voadora, café negro como o diabo e quente como o inferno. Doce com mel. Licor e chá levanta o pau do diabo. E o programa poderia terminar aqui que já terminava mais que bem.

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Entrada no Hotel Restaurante Rural de Mourilhe para um almoço dos diabos...

Mas embaixador que é embaixador tem de cumprir os seus nobres desígnios de representar e oferecer a sua terra, para além de o corpo pedir mesmo algum exercido para amaciar um almoço embruxado. Uma visita ao convento de Pitões das Júnias caia na perfeição numa pequena viagem comentada pelo cicerone Padre Fontes.

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Alguns participantes assistindo a uma aula do Padre Fontes - Pitões das Júnias

Convento de Pitões, há muito abandonado e maioritariamente em ruínas mas que mesmo assim é digno de ser apreciado, principalmente pela sua envolvência e por poder ser apreciado quer envolto nas suas ruinas quer do cimo do anfiteatro natural de onde se pode apreciar todo o conjunto. Já lá fui umas dezenas de vezes e volto lá sempre com a curiosidade e ansiedade das vezes primeiras. Há magia naquele local.

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Vista geral do Mosteiro de Pitões das Júnias

Para rematar, ou quase, faltava mesmo qualquer coisinha para melhor digerir o almoço dos diabos. Nada melhor que uma queimada de aguardente devidamente “rezada”, de novo em Mourilhe / Hotel Restaurante Rural (Hotel Assobrado).

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Padre fontes a elaborar a queimada de aguardente

E foi assim, um resumo bem resumido de tudo que se passa na companhia do Padre Lourenço Fontes, um embaixador do Barroso. Em conversa com um dos docentes da UTAD que se juntaram a esta homenagem, concordámos em que o Barroso ficará para sempre marcado por duas épocas, a do antes Padre Fontes e a do depois Padre Fontes.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 05:15
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Pecados e picardias

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Taverna

Sentiu a porta a abrir
Espreitou da cozinha
Entrou o homem íntegro
Nem de propósito, a sorrir…
Como se soubesse da Bertinha
Sorrui-lhe também num ímpeto
 
-Bom dia madrugou
-Bom dia d. Bertinha, nem por isso
-O que vai ser? O mesmo de sempre?
Assentiu com a cabeça estava contente
A sandes de presunto um bom petisco
O apetite acordou como tinha previsto
 
A visão da integridade
Um homem de verdade
Fiel à família
Fiel Ao trabalho
Longe da quezília
Sem saber… voluntário
 
Assim é que é
Sem se meter com ninguém
Fazia a sua vida
Olhando até
O descaramento com desdém
Missão cumprida
 
Incorruptível
De bem com a vida
A vinda à taverna
Era sempre bem-vinda
Simplesmente apreciar
O vinho sem se sentir refém
 
Gostava da Bertinha
Mulher trabalhadora e séria
Sempre disponível a servir
Sem ser a qualquer preço
Sempre que podia mostrava-lhe apreço
 
- Ó Bertinha este está Bom
- Pois abri agora o garrafão
- É sabe bem ás vezes está desquebrado
- Só se for quando é servido pelo Gerardo
Riu e assentiu ela tinha razão
Ela riu também, cúmplices no tom
 
Ficou a pensar Nele
Mesmo depois de sair
Pensou no Gerardo sabia bem
Que não gostava de o servir
Seria uma espécie de ciúme
Por não conseguir ser assim também

 Isabel Seixas

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:46
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Sábado, 26 de Setembro de 2015

Fernandinho - Chaves - Portugal

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Há coisa de 10 anos atrás, quando iniciei o blog, uma das aldeias que tinha mesmo curiosidade em conhecer era Fernandinho. O curioso topónimo chamava a atenção. Da primeira vez que lá fui fiz uma visita breve à aldeia e quase sem parar fui direto até ao alto da aldeia, até à capela, onde, aí sim, parei. Desfrutei da paisagem e olhares que desde esse local são de longo alcance, entrando mesmo pela Galiza adentro e terras do Barroso, o que é de realçar, pois Fernandinho já fica no limite do concelho de Chaves na proximidade dos concelhos de Valpaços e Vila Pouca de Aguiar. Para além da paisagem e da apreciação da capela, simples mas interessante, com uma localização privilegiada, pouco mais vi ou me chamou a atenção na aldeia.

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Como sei que as primeiras impressões nunca são definitivas, em 2008 fiz nova investida na aldeia. De novo subi à capela para a rever, mas depois desci mais vagarosamente para uma recolha de imagens mais pormenorizada. Aí sim consegui um pequeno conjunto de imagens que já podia dar a conhecer um pouco da aldeia, não muito, pois a aldeia também não é grande, mas o suficiente para deixar alguns dados sobre a aldeia e até brincar um bocadinho quando dizia “(…)no recreio da escola, encontrei por lá um velho “doutor”, já russo do pelo e muito distraído, pois continua à espera do professor e ainda não se apercebeu que naquela escola já não se aprende nada(…). Referia-me a um velho burro que pastava no recreio da escola.

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Também nessa altura, quanto ao topónimo, dizia: “ (…)pensa-se que deriva do nome próprio de Fernandinus da idade média, mas pelas pesquisas que fiz sobre a aldeia, não há praticamente nenhuma documentação.(…). Dúvidas mas também a esperança de conseguir mais imagens levaram-me uma terceira vez a Fernandinho, e ainda bem que lá fui, pois desta vez o fator humano fez a diferença, não só pela simpatia da receção e acolhimento mas por esclarecer algumas dúvidas e, até, conseguimos novas imagens, mesmo porque o dia de névoa (embora em maio), não iria facilitar aquilo procurávamos.

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Por mero acaso, na entrada da aldeia, demos de caras com alguns rostos conhecidos. Um pastor que já tínhamos fotografado mais vezes noutras paragens e dois rostos que nos eram familiares da cidade, além de mais o nosso blog não era estranho a um deles que me informou logo que, se ia à procura do velho doutor esquecido na escola, já ia tarde, pois já tinha morrido… mas acrescentou logo que a hipótese que tínhamos levantado quanto ao topónimo da aldeia também não estava correto, pois o topónimo Fernandinho devia-se ao fundador da aldeia, o que construi aí a primeira casa e deu origem ao restante povoado, o Padre Fernandinho. Eis a diferença de entrarmos nas aldeias e andarmos por conta própria, e a de parar para conversar com os residentes e naturais delas.

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Conversa que nos abriu o apetite para outras visitas e descobertas que surgirão quando tivermos oportunidade para tal, mas também para ficarmos a conhecer melhor a história dos locais e as suas gentes, os seus problemas, alegrias e estórias, mas também a hospitalidade do nosso mundo rural.

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Claro que tínhamos de terminar a conversa no rés-do-chão de uma casa tradicional, ou seja, será o mesmo que dizer na adega, onde a pinga é sempre boa e a bucha ainda melhor.

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Não fosse a noite e os nossos afazeres e ainda lá estávamos, mesmo à distância dos 4 ou 5 meses em que a visita aconteceu e se quase sempre agradecemos a receção desta vez não podemos mesmo esquecer de o fazer, pois além das dicas preciosas que contribuíram para esclarecer algumas coisas que tinham ficado pendentes, temos de agradecer a hospitalidade e a visita à adega – obrigado!.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:04
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Pedra de Toque - Os Indiferentes, Os Desinteressados

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OS INDIFERENTES, OS DESINTERESSADOS...

 

São os que passam incólumes, sorridentes e alheados ao lado da hecatombe, do desastre.

 

As notícias que revelam a miséria, a presença de crianças com fome, o enorme número de casais desempregados, as falências a aumentarem, as instituições de solidariedade social a não terem mãos a medir face aos carenciados e desempregados.

 

Todas estas novas e muitas mais que anunciam o flagelo, não deveriam deixar indiferentes as pessoas minimamente atentes.

 

Mas o desinteresse, a indiferença, acontecem.

 

O que me incomoda de sobremaneira.

 

Ainda há quem se preocupe neste cenário de tragédia e drama com o supérfluo, com o luxo, com a moda, com a futilidade.

 

Ainda há quem viva do espavento, do exibicionismo constante.

 

Outros permanecem obcecados com minudências, com colecionismos caros, mas nunca lhes é ouvida qualquer palavra para com os que sofrem, para com a indispensável justiça social que os desprotegidos necessitam com premência, muito mais do que com caridade.

 

Dói-me verificar como assistem impávidos ao cortejo da desgraça que corrói vidas, que provoca aflição e que motiva revolta que tantas vezes conduz ao suicídio.

 

As amizades que vão acontecendo online nas redes sociais, quando são demonstrativas desse alheamento perante os valores supremas da solidariedade e dignidade humanas, bem como do não empenhamento cívico, não podem ser senão para desfazer.

 

Sem arrependimento é o que eu faço, cada vez mais, com um simples “click”.

António Roque

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:21
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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2015

Chaves - Rua da Misericórdia

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:53
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Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

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“Impulsos secretos da vida”

 

Chega o Outono! Por cá deve ser tempo farto, tempo de colheitas. Também deve ser tempo de prazeres ancestrais.

 

Ao contrário do Verão, que pertence ao litoral, ao mar, o Outono é do interior, da montanha!

 

Assim, porque me falta o engenho para expressar o profundo apego ao Outono, partilho uma leitura que, essa sim, o enaltece. Que exuma o prazer e o sentir próprio desta estação na nossa terra.

 

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(…) Na caça também cumprimos certas regras cava­lheirescas e práticas, respeitamos os animais selvagens, na medida em que as condições o exigem numa determinada região, mas a caça ainda representa um sacrifício, um vestígio deformado e ritual dum acto reli­gioso ancestral que é dos tempos do nascimento do homem. Porque não é verdade que o caçador mata para obter a presa. Nunca tinha matado só por isso, nem sequer nos tempos primitivos, quando isso fora uma das poucas possibilidades de se alimentar. A caça era sempre acompanhada por um ritual, ritual tribal e religioso. O bom caçador era sempre o primeiro homem da tribo, uma espécie de sacerdote. Naturalmente, tudo isso se desvaneceu com o passar do tempo. Mas os rituais, numa forma mais enfraquecida, permaneceram. Talvez nunca na minha vida gostasse tanto de nada, como dessas madrugadas, das manhãs de caça. Uma pessoa acorda quando ainda é noite, veste-se de uma maneira especial, de maneira diferente dos dias restantes, põe rou­pas práticas e cuidadosamente escolhidas, toma o pequeno-almoço de outra forma, fortalece o seu coração com aguardente e come um pouco de carne fria no quarto iluminado por uma lanterna. Gostava do cheiro das roupas de caça, o pano estava impregnado do aroma da floresta, da folhagem, do ar e do sangue derramado, porque se levavam as aves abatidas atadas à cintura e o sangue sujava a jaqueta de caça. Mas o sangue é sujidade?... Não creio. É a substância mais nobre que existe no mundo e quando o homem queria dizer ao seu Deus algo importante, algo inexprimível, fazia-o sempre oferecendo um sacrifício de sangue. Também gostava do cheiro a metal e a óleo da espingarda, o cheiro a ranço e a cru das peças do couro. Gostava disso tudo - diz quase com vergonha, como um velho que confessa uma fraqueza. - E depois sais da casa para o pátio, os teus companheiros de caça já estão à tua espera, o sol ainda não nasceu, o guarda-caça segura os cães pela trela e relata em voz baixa os acontecimentos da noite. Sobes para a carruagem e partes. A paisagem começa a despertar, a floresta estica-se, como se esfregasse os olhos com movimentos sonolentos. Tudo exala um aroma tão puro, como se regressasses a uma outra pátria que foi a tua pátria no início da vida e das coisas. Depois a carruagem pára à beira da floresta, desces, o teu guarda-caça e o cão acompanham-te em silêncio. O ruído da folhagem húmida é perceptível apenas debaixo da sola das tuas botas. As trilhas estão cheias de pegadas de animais. E tudo começa a viver à tua volta: a luz percorre o céu sobre a floresta como se um engenho secreto, o mecanismo misterioso do teatro do mundo, entrasse em funcionamento. Os pássaros também se põem cantar, um veado atravessa o atalho, longe, a trezentos passos de distância, e tu escondes-te entre a folhagem densa e ficas atento. Vieste com o cão, hoje não vais à espreita de veado... O animal pára, não vê, não cheira nada, porque o vento sopra de frente, porém sabe que o seu destino é iminente; ergue a cabeça, vira o pescoço tenro, o seu corpo fica tenso, durante alguns instantes mantém-se diante de ti, numa postura magnífica, imóvel, como um homem que estaca desamparado perante o seu destino, impotente, porque sabe que o destino não é fortuito, nem um acidente, mas a consequência natural de circunstância correlacionadas, imprevisíveis e dificilmente inteligíveis. E nesse momento lamentas não ter trazido a tua arma de fogo. Tu também te deténs, no meio da folhagem densa, estás dependente nesse instante, tu, o caçador. E sentes na mão o tremor que é tão antigo como o homem, a disposição para matar, essa atracção proibida, a paixão que é mais forte que tudo o resto, o impulso que não é bom, nem é mau mas é um dos impulsos secretos da vida: ser mais forte que o outro, mais hábil, ser um mestre, não falhar. É isso que sente o leopardo quando se prepara para saltar, a serpente quando se ergue entre as rochas, o abutre quando se lança de mil metros de altura, e o homem quando contempla a sua vítima. (…) in Sándor Márai – As Velas ardem até ao fim.

 

Francisco Chaves de Melo

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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2015

Flavienses por outras terras - António Carvalho

Banner Flavienses por outras terras

 

António Carvalho

 

Nesta crónica do espaço “Flavienses por outras terras” vamos até à Alemanha, um país de grandes escritores e de músicos famosos. Nomes como Goethe, Günther Grass, Bach ou Beethoven comprovam a longa tradição de uma vida cultural de elevada projeção.

 

É lá que vamos encontrar António Carvalho.

Mapa Google + foto - António Carvalho.png

 

Onde nasceu, concretamente?

Nasci em Vila Real, mas com 5 anos fui viver para Chaves com os meus pais, que eram naturais de Vila Nova de Veiga. Residimos no Largo de Santo Amaro por muitos e bons anos.

 

Nos tempos de estudante, em Chaves, que escolas frequentou?

Frequentei a Escola Primária de Santo Amaro (1969-1972), o Ciclo Preparatório, na Escola Industrial (1973-1974) e o Liceu Fernão Magalhães (1975-1982).

 

Em que ano e por que motivo saiu de Chaves?

Em 1983 ausentei-me de Chaves apenas durante o período escolar. Primeiro para Lisboa, depois para Vila Real, para a UTAD. Mais tarde saí definitivamente de Chaves em 1991 para trabalhar em São João da Madeira, mas visitava assiduamente a cidade e os meus pais. Finalmente, com o falecimento da minha mãe, em 1995, só espaçadamente visito Chaves e Portugal. Desde 2006 vivo no estrangeiro.

 

Em que locais já viveu ou trabalhou?

Para além de São João da Madeira, vivi e trabalhei em países como a Inglaterra, Dinamarca, Noruega e Alemanha.

 

Diga-nos duas recordações dos tempos passados em Chaves:

São muitas e boas as recordações que tenho de Chaves. A maior de todas, e aquela que mais nostalgia me proporciona, foi o tempo que passei nos escuteiros. Fui escuteiro do CNE desde 1970 (ainda no tempo em que a nossa sede era na Torre de Menagem - Castelo) até 1981. Depois, formei o meu Grupo de Escoteiros em Chaves da AEP, Grupo 86, que esteve ativo desde 1983 até 1990. Esses tempos foram maravilhosos e cheios de aventuras.

 

Depois, recordo com saudade e carinho os tempos do Liceu, dos jogos de futebol, voleibol, e das semanas culturais no final de cada ano letivo. As tardes de cinema no velhinho Cine Teatro, na rua de Sto. António (lembro-me de estar na “bicha” para tirar bilhetes para o filme “Hair” aquando da primeira vez que foi possível vê-lo em Chaves).

 

Outra boa recordação (eu sei que deveriam ser duas, mas não resisto a partilhar esta) - os momentos de pesca, tanto no Rio Tâmega como no Mente, Rabaçal, Mousse, Terva e Beça com os grandes amigos Pité, Miguel, Mário Melo, Chico, Couto, etc. Tempos em que íamos pescar de bicicleta e tudo era fácil – sem telemóveis lá planeávamos as coisas e regressávamos sempre a horas.

 

Proponha duas sugestões para um turista de visita a Chaves:

As belezas naturais e arquitetónicas. Chaves é extremamente rica em Castelos e Fortes, bem como peculiares e fantásticas Igrejas, únicas em Portugal.

 

Depois, a inigualável gastronomia – os pastéis de Chaves, o presunto, os peixes do rio (quando é possível na 1ª presa), e os fantásticos restaurantes que existem espalhados e pincelados pelo vale de Chaves.

 

Estando longe de Chaves, do que é que sente mais saudades?

Do Liceu, dos Escuteiros e dos Acampamentos, do Açude, das verbenas no Jardim Público.

 

Com que frequência regressa a Chaves?

Uma vez por ano, sempre que é possível, mas procuro ter essa preocupação de anualmente visitar aquela que designo com orgulho “a minha terra” ou, em Inglês, “my hometown”.

 

Gostaria de voltar para Chaves para viver?

Se ouvir o que a razão me diz, diria “não”, não gostaria de voltar para Portugal, nem para Chaves em particular, por razões óbvias, quer políticas, quer económicas quer até mesmo de perspetivas de futuro.

 

Se der ouvidos ao coração, diria “sim”, porque Chaves foi a cidade onde cresci, fui adolescente e casei. Viu-me crescer e eu vi-a desenvolver-se, vivi momentos muito bonitos e tenho muita nostalgia desse período. Por isso, sem dúvida que gostava de poder voltar a viver em Chaves, percorrer essas belas ruas e beber essa água das termas. Quem sabe, pode ser que me acolha nos últimos anos da minha vida... Mas as probabilidades são, na verdade, muito reduzidas.

Fotografia António Carvalho e Alemanha.png

O espaço “Flavienses por outras terras” é feito por todos aqueles que um dia deixaram a sua cidade para prosseguir vida noutras terras, mas que não esqueceram as suas raízes.

 

Se está interessado em apresentar o seu testemunho ou contar a sua história envie um e-mail para flavienses@outlook.pt e será contactado.

Fotografias com fundo branco - António Carvalho.p

 

 

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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2015

Chá de Urze com Flores de Torga - 97

1600-torga

 

Verin, 17 de Setembro de 1969

 

O gosto que o homem tem de atravessar fronteiras!

 

A alegria que traz estampada no rosto um amigo a quem vim mostrar uma nesga de Espanha! Nunca tinha saído de Portugal. E parece que cresceu por dentro em duas horas mais do que em todos os anos que tem.

 

Quando se transpõe um vedado nacional com tal alvoroço e proveito, é a virtualidade da participação na feira do mundo, retesada dentro de nós, que, finalmente revelada, se expande e rejubila. Se não houvesse outros argumentos a favor da fraternidade humana, basta este.

Miguel Torga, In Diário XI

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 Casa do Escudo - Verin - Galiza

Chaves, 18 de Setembro de 1969

 

Foi pena que não mandassem hoje, juntamente com os elogios que chegaram pelo correio, a convicção para os receber.

Miguel Torga, In Diário XI

 

1600-(43124)

 

Chaves, 14 de Setembro de 1970

 

Perdi os óculos e não posso trabalhar. Mas, embora aparentemente arreliado, no íntimo todo o meu ser agradece aos deuses o contratempo. Obstinadamente rebelde a compromissos de qualquer ordem — políticos, económicos, profissionais, religiosos, literários e outros —, tornei-me naturalmente um marginal, o que não significa de maneira nenhuma um desertor cívico. E tive de me cumprir individual e socialmente, a exercer uma medicina só arregimentada ao escrúpulo e ao dever, e a empilhar páginas de prosa e de poesia na mesma solidão e disciplina. Penitências duras, diga-se com singela verdade, porque nunca consegui dormir tranquilo sobre uma prescrição que fiz ou um golpe que dei, e, quando escrevo, a caneta, em vez de deslizar no papel, saibra dentro de mim. Por isso, sempre que as circunstâncias justificam a moina do médico e do letrado, até os neurónios se espreguiçam felizes dentro da caixa craniana. Fico inútil no mundo, de boa consciência.

Miguel Torga, In Diário XI

 

 

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Terça-feira, 22 de Setembro de 2015

Intermitências

800-intermitencias

As ruelas

 

As ruelas dão-lhe friozinho na barriga. As ruelas são belas, as ruelas são desconhecidas, as ruelas dão vontade. Às vezes vão dar a uma grande luz, outras vezes vão dar a outras ruelas, mas sempre há um raio de luz ao fundo delas, nem que muito ténue.

Ibiza, Ilhas Baleares, Setembro de 2015.jpgIbiza, Ilhas Baleares, Set. de 2015 - Fotografia de Sandra Pereira

O pior são os becos. Escuros, sinuosos, misteriosos, dão receio. As ruelas não. São fascinantes, mas ela nem sempre se aventura pelo seu caminho recto, muitas vezes polvilhado de esquinas. Às vezes sente vontade, outras vezes medo, de se perder nelas. E quanto entra nas ruelas apenas sussurra. As palavras ditas em voz alta tornam-se medonhas, de tão incómodas, inúteis e vazias que são. Ela respeita as ruelas, sente a sua força e a sua alma, quer muito cuidar delas.

Tarragona, Espanha, Setembro de 2015.jpgTarragona, Espanha, Set.de 2015 - Fotografia de Sandra Pereira

Ela sussurra nas ruelas. Ela detém-se nas ruelas. Ela contempla nas ruelas. Cada esquina, cada detalhe, lhe parecem maravilhoso e incrível. E quando olha para o céu que lhes envia alguns raios de luz, percebe um sentido. Não tem ninguém com ela, mas não se sente só. Depois de abraçar as ruelas, ela já não quer mais sair desse lugar. Como se algum Santo as tivesse cruzado e deixasse o seu rasto de amor.

 

As ruelas dão-lhe friozinho na barriga. Sente a sua sabedoria e eternidade, mas não sabe se a sua mortalidade a permite ficar aí para sempre. Então ela respira fundo e vai, levando dentro de si toda a presença e o fluir da existência humana.

Sandra Pereira

 

 

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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2015

Chaves na TSF

1600-15432

Raramente Chaves é notícia nacional e quando o é, quase nunca é pelas melhores razões, mas há sempre exceções. A TSF hoje foi uma dessas exceções, com dois diretos feitos a partir de Chaves e que marcou o arranque do programa «Eleições 2015 - Tenda de Campanha», que se propõe percorrer os 737 Km da Estrada Nacional nº2, a começar precisamente em Chaves, no Km 0 e a terminar em Faro, no Km737. A curiosidade e interesse desta tenda de campanha é de não ser feita com políticos mas antes com os naturais e residentes ao longo da Estrada Nacional. Gente anónima, gente ligada à cultura local, às letras, à música, às estórias dos lugares, aos imprevistos, à terra, ao berço. Gente dos lugares a falar dos seus lugares.

en2-mapa.JPG

tsf-eleicoes.JPG

Esta viagem será conduzida pelos profissionais da TSF que estamos habituados a ouvir todos os dias na rádio. Pedro Pinheiro e Fernando Alves, com o apoio técnico de Joaquim Pedro, à hora de almoço e jantar vão estar na estrada e lugares, aldeias, vilas e cidades por onde a Nacional 2 passa, com transmissões em direto para a TSF e que,  como não poderia deixar de ser, começou hoje em Chaves, à hora de almoço no Km 0 para depois se juntar à mesa da esplanada do Celeiro com uma conversa entre alguns flavienses, para falar dos seus encantos e desencantos sobre a cidade, dos projetos, das ausências, perspetivas de futuro, frustações e medos, despovoamento rural, centro histórico, etc. Pena não se ter todo o dia para poder mostrar, a todo o Portugal, Chaves e as suas aldeias por inteiro. Mas sobre a conversa e os intervenientes, nem há como seguir o link, onde está lá tudo, incluindo a gravação desta primeira sessão:

 

http://eleicoes.tsf.pt/o-quilometro-zero/

 

1600-tsf-km0 (10)

A sessão da hora de jantar mudou-se para o Hostel Casa da Ponte-Cambedo, não por mero acaso, mas pela sua localização adossada à Ponte Romana e por ser um bom exemplo, recente, de uma reconstrução do nosso casario mais degradado e simultaneamente um bom exemplo de empreendedorismo com a instalação de um hostel. A conversa e intervenientes estão neste link:

 

http://eleicoes.tsf.pt/casa-da-ponte-cambedo/

 

1600-tsf-km0 (19)

Da nossa parte – Blog Chaves – só nos resta agradecer à TSF o profissionalismo de Pedro Pinheiro, Fernando Alves e Joaquim Pedro, bem como o convite para fazermos parte destas tertúlias sobre a cidade, não só pela participação mas também porque o Blog já há muito que adotou como seu símbolo o marco do Km0 da EN2, também ele uma marca com a marca Chaves.

 

 

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