12 anos
Segunda-feira, 29 de Fevereiro de 2016

Quem conta um ponto...

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279 - Pérolas e diamantes: as sombras eternas

 

Aprendi com Sir Kenneth Sefton Boyd, o amigo do espião perfeito, que não podemos perder o que não temos, nem sentir falta do que nos é indiferente, nem podemos vender aquilo que não é nosso.

 

Bagão Félix garante que não vai voltar à política porque não gosta de “correr na pista dos interesses”. Desinteressou-se. Já não gosta das elites. Talvez porque, na sua perspetiva, pertence à “elite dos valores”. Elite que se encontra em perigo de extinção como o lince da Serra da Malcata, o lobo Ibérico ou o burro Mirandês.

 

Em Portugal, afirma Bagão Félix, “as nossas elites são as elites dos interesses”. São do género a que pertencia um bom cabo britânico de Argylls que, logo após a 2ª Guerra Mundial, quando os russos lhe ofereceram baldes de madeira cheios de caviar, em troca dos seus plum puddings, se queixou, no início do jantar ao seu oficial, que a compota lhe sabia a peixe. Pudera!

 

Contentamo-nos com existir. Existimos a duzentos à hora, mas a vida interior está parada.

 

Alberto João Jardim afirmou recentemente que Passos Coelho acha prestigiante andar debaixo das saias da sra. Merkel. E até confessou que votou sempre no PSD menos nas últimas eleições. E bem lhe custou. Magoou-o lá dentro. Pudera!

 

São Paulo, segundo Teixeira de Pascoaes, foi o intérprete de Deus, por divina graça do remorso. O remorso foi transmitido a Judas, companheiro íntimo de Jesus, tão íntimo que o traiu. Pedro, o eleito, negou-o. Pedro sobreviveu. Judas, mais humilde, enforcou-se numa figueira.

 

Teixeira de Pascoaes acha que o remorso do suposto traidor se converteu em autodestruição. Judas não pôde emendar a iniquidade, como Pedro. “Ofertou a sua vida ao grande crime e o seu nome à inconsciência malévola do mundo. Aquele beijo traidor arde ainda na sombra da noite em que prenderam Jesus.”

 

Foi também Teixeira de Pascoaes que nos avisou que nem a ilusão tem nada de ilusório, nem a realidade tem nada de real. Mais vale assim. Desta maneira ninguém se magoa.

 

Por isso é que Alberto João se atreveu a afirmar que se Pedro Passos Coelho ficar no PSD “leva outra banhada”.

 

Pesaroso, confessou que saiu de bem com o povo e mal com o partido. Acontece sempre assim. “As sociedades secretas estavam interessadas na minha substituição.” Pois!

 

Sensibilizados, citamos-lhe São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé.” Quem não sonha está morto. O mundo, assim como está, não vale nada. É preciso estarmos conforme a nossa fantasia.

 

Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto, diz-se cansado do centralismo de uma persistente mentalidade colonial. Na sua opinião existe “uma certa intelligentsia lisboeta constituída por parolos da província que acampam na capital e que, para mostrarem serviço, têm de parecer mais centralistas.” O seu avô, que era lisboeta, queixava-se sempre disso. Rui Moreira não disse nada sobre outra certa intelligentsia portuense que também despreza o resto do Norte de Portugal.

 

Ele, montado no seu rocinante, não cede à tentação de trocar os bês pelo vês, como talvez preferissem os tais de Lisboa, para quem os autarcas cá do Norte são uns tipos vagamente barrigudos, que fumam charuto, dizem disparates e querem inaugurar um mictório público.

 

Nós, que somos o Norte do Norte, já vimos fazer isso, ou ainda melhor.

 

Mas cá continuamos a viver e a resistir, pois, como os santos, baixamos os olhos para continuarmos a suportar o sol. Não o escondemos com uma peneira.

 

Não podemos terminar por hoje sem uma pitada de cultura. Ou melhor, muito melhor, vamos falar do ministro da Cultura, João Soares. O Expresso definiu-o como europeísta, maçon, agnóstico, apaixonado por poesia e fã das forças armadas. Reparem bem: fã das forças armadas.

 

Durante os últimos anos trabalhou no quadro parlamentar ligado às questões de Defesa e a nível internacional com a OSCE, organização ligada à segurança e cooperação europeia. António Costa, olhando para o seu impressionante currículo, nomeou-o… ministro da cultura.

 

Como escreveu Teixeira de Pascoaes, as sombras parecem eternas… ao luar.

 

João Madureira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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À espera do engraxador

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Para um amigo

 

O primeiro título que me surgiu foi - “Pasmados no Largo dos Pasmados” -, um título bem in, mas o rapaz da bicicleta com a camisola vermelha não se enquadrava lá muito bem no título. Depois pensei em “Coisas de Homens”, ou seja, não pensei lá muito pois o título não tinha nexo nenhum. Que raio, isto de titular uma foto, às vezes, é coisa complicada, principalmente quando se quer um título inteligente. E num de repente aí está ele, o título: “O Homem do Banco, o Homem da Pedra e o Rapaz da Bicicleta com a Camisola Vermelha” – Uhhhhh! Um pouco comprido… talvez despindo a camisola ao rapaz, e eliminando um homem a coisa fiquem mais composta: “O Homem do Banco, da Pedra e o Rapaz da Bicicleta”… Não, este também não, talvez – “ Homens ao sol e o rapaz da bicicleta”, não soa lá muito bem, quiçá - “O Homem sentado, o rapaz da bicicleta e um pasmado” – este tem uma certa musicalidade, além de sentado rimar com pasmado, mas mais uma vez parece-me que o raio do rapaz da bicicleta estraga tudo. Mas há que insistir, nunca desistir, contudo quando as coisas não saem logo à primeira, mais vale deixá-las em banho maria por uns minutos, fumar um cigarro, que quando menos se espera, lá se abre uma nesga de luz que nos ilumina as palavras da coisa. O problema é que estou numa de deixar de fumar e esta solução não seria lá muito boa para a minha causa… já sei, é este e não há volta atrás, além do mais é breve e até tem uma certa intelectualidade, pelo menos para os mais novos, que os mais velhos chegam logo lá: “à espera do engraxador” e tenho dito.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:05
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Domingo, 28 de Fevereiro de 2016

Pecados e picardias

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Pecados e picardias

Pelos doentes que somos

Sexo dos Anjos

 

Vai daí ,

Desse folclore de passos duvidosos

Nascem grupos de amigos preocupados com a essência

E a essência é o cuidado

 

Cuidado com o frio, não dispam os doentes em ambientes gélidos

 

Mas então o governo não mudou?

Não sei… Que eu desse conta, assim nesse aspeto…Ba se calhar precisam de tempo

 

Cuidado com o conforto dos doentes, doentes com gesso num dos membros, com dores

É melhor não ficarem de pé nem muito tempo à espera, podem piorar…

 

Mas então não há lá profissionais de saúde eeeeee segurança e seguranças?

Não sei… Que eu desse conta…

Mas então…

Cuidado com a orientação e acompanhamento dos doentes e famílias nas instituições de “saúde”

Andar perdido agrava toda e qualquer doença

 

Mas então não faz parte das atribuições de quem manda?...

 

 

Não sei… Que eu desse conta…

Vejo muitos doentes mas poucos profissionais, até parece que foram para fora ou não os Há…

 

Mas então… podemos ajudar?

Claro.

 

Vamos a isso?

 

Caros Amigos e concidadãos Flavienses

 

Falemos então de Suporte Básico de Vida

 

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Hoje 28 de Fevereiro de 2016, às 21 horas, faremos a nossa tertúlia de angariação de fundos para quem mais precisa, no café avelã junto à ponte pedonal das Termas /Caldas rua do tabulado Chaves.


Agradecemos a vossa presença e ou divulgação deste evento, porque queremos contribuir para a promoção da saúde e a prevenção da doença.

Esperar por melhores condições de saúde através do compasso lento da austeridade pode por vezes ser perverso...


Como cidadãos agradecemos o contributo dos flavienses  nas nossas tertúlias, vamos prosseguir com o nosso contributo através do conhecimento  cientifico e da educação para a saúde de todos desta vez com a colaboração da Sra. enfermeira Sara Ribeiro que tem um Mestrado em emergência e catástrofe é enfermeira especialista em enfermagem médico cirúrgica e trabalha no serviço de urgência do hospital de chaves.

 

Isabel Seixas

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publicado por Fer.Ribeiro às 18:00
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Os domingos de Vidago, em três imagens

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:03
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Sábado, 27 de Fevereiro de 2016

Uma aldeia do concelho de Chaves

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Costumo começar estes posts sobre as nossas aldeias do concelho de Chaves com o título da aldeia. Hoje propositadamente não o faço, embora alguns pela primeira imagem que vos deixo identifiquem de imediato a aldeia em questão, estou certo que a grande maioria não a identificará, alguns porque nunca ou raramente por lá passaram, outros, muitos, porque embora até passem por lá amiúde, não e esta a imagem que têm registada na memória. Como tudo e todas as coisas, são identificáveis pelas imagens que vamos registando na memória e se a mesma coisa lhes for dada de uma perspetiva diferente, a nossa memória nada terá em arquivo que a possa identificar.

 

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E se a primeira imagem era uma vista geral sobre a aldeia de hoje, a que vos deixo agora é da sua intimidade, que é como quem diz do seu miolo, centro ou casco histórico. Se a primeira era difícil de identificar para muitos, esta muito mais difícil será, pois só quem está habituado a entrar na intimidade da aldeia é que a identificará. Tudo isto acontece porque esta aldeia embora atravessada diariamente por muita gente, a imagem que essa gente tem da aldeia, é aquela que vê desde a estrada que a atravessa.

 

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Mas hoje vou levar a minha até ao fim. Vou deixando algumas dicas e imagens sobre a aldeia em questão, mas não vou dizer qual é. Os mais perspicazes, logo na na primeira imagem, ou em todas, já têm muitas respostas, mas para o mais distraídos vou deixar mais algumas. É uma aldeia de montanha com um vale no seu sopé. Vale que de inverno costuma ter a companhia do nevoeiro. A aldeia é atravessada por uma Estrada Nacional e em tempos não muito distantes, pelo menos até ao terceiro quartel do século passado, era lá que se localizavam as “máquinas de lavar roupa” da cidade, roupa que após lavada era transportada em burros até a cidade. E prontos, como se costuma dizer por cá, os mais velhotes já sabem de que aldeia se trata, tudo por causa do burros. Pois burros carregados de roupa branca vinham desta aldeia, burros carregado de leite vinha de Outeiro Seco, burros carregado de carqueja vinham das nossas aldeias do Barroso, entre outros burros que vinham carregados de outras coisas de outras aldeias. Até eu que não sou assim tão velhote e que para a idade da reforma ainda me faltam uns bons anos, me lembro dessas desses burros de carga e das suas cargas, inclusive, já crescidote tive muitas vezes que esperar pelo burro do leite para tomar o meu pequeno almoço. Ia rematar o parágrafo com “bons velhos tempos”, mas não, apenas eram tempos diferentes.

 

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Eu sei que neste dia muitos vêm aqui para ver as suas aldeias, outros para descobrir novos motivos, pois hoje, para quem é da aldeia pela certa que já identificou, para quem não é de lá, fica o desafio da descoberta e, quem sabe, um convite para quem em vez de passar o fim de semana pasmado, sentado num sofá em frente à televisão, ou na mesa de um café a lamentar-se pelo Sporting e o FCP terem sido eliminados das competições europeias, avance para o nosso terreno à descoberta daquilo que é nosso, de carro ou até a pé, pois a uma ou duas horas de caminhada (a pé) a partir da cidade, sem grandes esforços, podem fazer verdadeiras descobertas, dignas de documentários de uma qualquer televisão, se para aqui estivessem virados e Trás-os-Montes não ficasse tão distante (embora tão perto) para quem decide. Mesmo assim, de vez em quando o cinema e a literatura, entre outras artes, de vez em quando, ousam em vir por cá. Ontem mesmo estreou um filme em Lisboa sobre o Cambedo, há pouco dias atrás andou por Chaves a rodar-se um filme de jovens universitários e brevemente iremos ter o lançamento de um romance com estórias cá da terrinha, que na devida altura daremos conta aqui no blog.

 

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Para hoje ficam então cinco imagens de uma aldeia de Chaves, que hoje não digo qual é. Descubram-na ou partam à descoberta dela, mas para os mais novos, para os que já não se lembram dos “burros da roupa lavada”, apenas lhes digo que é uma aldeia onde ainda se pode fazer jus, saboreando-o, ao famoso presunto de Chaves.

 

 

 

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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2016

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

A SEMENTEIRA DO BERBIGÃO

 

O Jacolino Farragatcho nunca tinha visto o mar. Ouvira falar dessa imensidão de água salgada ao mestre Matos na escola de Adães, mas nada mais do que isso. As únicas águas salgadas que conhecia eram as do alguidar onde a mãe demolhava o bacalhau e as do pote de três pés onde faziam o caldo. De resto, imagens do oceano, só as que vinham no livro da 3ª, contudo, eram tão fracas que pareciam da poça do Pado que o povo do Carregal usava para regar as hortas. Muita água junta só mesmo a da tal Poça, ou a do tanque do Frederico onde a canalha no verão lavava as catotas do inverno.

 

O Jacolino bem ouvira o Nano da 4ª a declamar este poema de Pessoa:

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 

mas, também não o entendeu, nem ninguém, nunca, lho explicou.

 

A bem dizer, o mundo do Farragatcho reduzia-se ao termo do Carregal e aos horizontes que vislumbrava desde o Brunheiro, para os lados do Larouco, do Alvão e da Padrela. O Larouco tinha-o como sendo a burra preta do Gripino deitada num lameiro, o Alvão como a cabeça do touro do Farruco, falho da cornadura, a Padrela, ali em frente, como uma bruxa douda que lhe tolhia os raros dias de sol nas invernias.

 

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E se do mar apenas tinha a imaginação, pouco fértil, diga-se de passagem, então daquilo que lhe podia pôr na mesa, é que nem pela cabeça lhe passava. Mesmo as arganas do bacalhau, que ralas vezes avezava, eram para o Jacolino apenas ossos, finos, de algum animal mítico que teria caído numa salgadeira, como as pás e os presuntos do reco que matavam pelo Natal. Sabia ele lá bem que o bacalhau nascia para lá do Larouco, era um animal de sangue frio que respirava por guelras e pastava nos lameiros de água gelada da Terra Nova!

 

Boa te vai!

 

Para ele o que interessava, verdadeiramente, era o que lhe enchia a pança: pão, batatas e caldo. Não é que desprezasse um ou outro doce que alguém lhe trouxesse da festa do Fernandinho. Aliás, pelava-se por eles, mas rilhava-os poucas vezes. E também gostava da meia sardinha que lhe tocava uma vezita por ano! Mas afinal não tinha tempo para se habituar a estes mimos, por tão raras serem as vezes que lhes tocava.

 

Jacolino, como quase todos os do seu tempo, deitava-se com as galinhas, pois a candeia não podia estar acesa muito tempo que o petróleo não se colhia nas corgas do Belão! Tinha de se comprar ao azeiteiro que vinha ao Carregal uma vez por mês. E era caro!

 

De resto era trabalho, fome e porrada!

 

Vida dura a de Farragatcho!

 

Em casa enfardava quase todos os dias de um pai tirano. Na escola, quando ia, de um professor velhaco como as cobras. Pelo caminho, dos amigos, pois era o bombo da festa. Mas, verdade seja dita, o moço tinha catchaceira. Quando apanhava, oupava como o sapo e não se ouvia daquela boca um único lamento ou dos olhos vertia uma lágrima que fosse! Contudo, dentro de si mesmo jurava vingança.

 

- Um dia - pensava - habeides de as pagar todas, filhos dum cão!...

 

O pai? Deixassem-no mijar na biqueira dos socos!...

 

O professor Matos? Deixassem pintar as cerejas na cerdeira da Sainça!...

 

Os amigos? Deixassem-nos pousar! Um de cada vez haviam de cair como os melros na esparrela!...

 

Era costume aparecer pelo Carregal, de mês a mês, a Gertrudes Mafarrica com a mula carregada de caixas de peixe que ia buscar à estação do Vidago e que vendia pelas aldeias, desde a ribeira ao planalto. Normalmente o Carregal era a última povoação da ronda e por isso sobravam as sardinhas mais ordinárias e moídas.

 

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Ora, uma ocasião, na sua ronda, esgotou-se-lhe o stock de peixe e para o Carregal sobrou apenas meia caixa de berbigão em saldo. Quem quisesse fazer gosto ao dente, com aquela fruta do mar, tinha uma oportunidade única de aproveitar o preço baixo e comprar umas conchinhas para a caldeirada.

 

Vinha mesmo a calhar porque a mãe do Jacolino andava de desejos e há muito tempo tinha pedido ao marido umas ameijoas para cozinhar à Bolhão Pato. Nunca as comera, mas ouvira a comadre dizer que eram de trás da orelha. Já que não podiam ser ameijoas, que fossem as primas berbigonas! Importante era que o rebento não nascesse com o céu-da-boca aberto por insatisfação daquele desejo. Faltasse o pão para a ceia, esta oportunidade, o extremoso marido, não podia perder.

 

Mal ouviu a gaita rouca da peixeira a anunciar a sua chegada à eira, foi-se à mesinha de cabeceira e botou a mão a cinco marréis.

 

Comprou dois quilos.

 

Nem ele nem o filho andavam de menino, mas, que se cosesse, também eram filhos de Deus!...

 

Foi todo contente para casa com a encomenda. A mulher ficou feliz e mandou-o à horta colher umas cebolas novas, uns pimentos e umas malaguetas para o guisado. Foi num pé e veio noutro. A Luísa Boubela não sabia como cozinhar o berbigão mas o que interessava? Guiava-o como quem faz carne guisada! Fez então um estrugido com muita cebola e pimento, botou-lhe cinco malaguetas e quando lhe pareceu apurado, juntou-lhe quatro tiras de presunto. De seguida espetou no pote os dois quilos de berbigão que ia mexendo com uma colher de pau.

 

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O cozinhado exalava um cheiro divinal! Um odor que desconheciam de todo. Salivavam como cães! E a sorte da mãe é que o raparigo não estava para nascer. Se estivesse, viria mais depressa só para apreciar o cozinhado da mãe!

 

Quando o achou pronto, vazou-o num alguidar de barro. As conchas, mais fechadas do que abertas, nadavam num caldo saboroso de cebola e pimento. Cada um por si lambia, chupava o molho sonoramente, molhava cibos de pão na calda, enfim, um forrobodó!

 

O Jacolino, primeiro, achou que também as conchas eram de comer, mas depressa se deu conta que de comer era só o miolo, as cascas eram só de lember.

 

Consolaram-se!...

 

No fim do lauto repasto cada um tinha à sua frente um merouço de conchas. O Jacolino pensava:

 

- Que desperdício, carne tão boa e tanta carapaça inútil!...

 

Entretanto, o Adelino Beiças, que na aldeia era pior do que as coscuvilheiras, passando na rua e cheirando-lhe a coisa estranha, para não jurar falso, foi-se inteirar da novidade. Entrou na cozinha e deparou-se com o espetáculo das conchas vazias sobre a mesa. Se fosse servido que bebesse sequer ao menos um copo e comesse um cibo de pão, berbigão já não havia. Aceitou o copo e molhou um miolato de centeio fresco no alguidar para, pelo menos, sentir o gosto da coisa!

 

Gostou!

 

Raivoso, por não ter tido direito a quase nada, quis vingar-se contando uma história, rebuscada, sobre a origem do berbigão! Uma história do arco-da-velha que acabava com a sementeira das cascas e com uma colheita prolífera no ano seguinte.

 

O Jacolino que experimentasse num cantito da cortinha, que ele ia ver!

 

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No dia seguinte não perdeu tempo, foi-se à leira e fez uma lavoura que se podia ver! Semeou as cascas do berbigão em sulcos que abriu com uma sachola de ganchos como se fossem para semear batatas. Regava a cultura todos os dias como devia ser, sachava-lhe as ervas daninhas logo que elas deitassem orelhas e apreciava as beiças do Adelino a arreganharem-se cada vez que passava pelo caminho da capela e lhe perguntava pelo renovo!

 

Passaram muitos anos e o Jacolino, ainda hoje, tem esperança que aquelas plantas nasçam e frutifiquem em berbigões para satisfazer os desejos da mulher que anda prenhe.

 

Porém, não há maneira!

 

- Deve ser da puta da terra que só sabe dar batata, centeio e castanha neste bendito Planalto do Brunheiro!

 

Gil Santos

 

 

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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2016

Filme "O Silêncio" do Cambedo - Estreia hoje

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Vista geral do Cambedo desde a fronteira com a Galiza

 

I

Hoje às 18H30, no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, estreia o filme “ O Silêncio”, de António Loja Neves e José Alves Pereira. A notícia até poderia passar à margem dos nossos interesses se “O Silêncio” do filme não fosse o do povo do Cambedo, aldeia do nosso concelho.

 

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Só lamento que Lisboa ainda continue tão distante e não poder estar presente para a estreia, mas espero um dia poder vê-lo, e de preferência aqui, em Chaves, com o povo do Cambedo por companhia.

 

Cambedo e acontecimentos de 1946 que desde que os descobri têm sido para mim uma paixão.

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Cambedo, casa destruida em 1946 com Arlindo Espírito Santo

 

II

Já o contei aqui no blog, mas nunca é demais repetir aquilo que em nós desperta paixões. Tudo começa nos anos 60, era eu um puto no decorrer dos meus 6, 7 ou 8 anos. Em casa ainda não havia televisão e se de verão as noites convidavam a brincadeiras de rua com os putos da minha idade, durante o inverno recolhíamos à família reunida à volta do conforto da lareira. Invariavelmente depois de se falar de tudo um pouco os meus pais faziam regressos ao passado de Montalegre, sobretudo a histórias reais do tempo da Guerra Civil espanhola e do pós guerra. De vez em quando de entre essas histórias comentavam-se crimes de sangue, mortes, assaltos, medo…era sempre o Juan e o bando dele que atormentava essas histórias. O Juan, nesses filmes, era sempre o mau da fita. Com o tempo cresci, a televisão apareceu em casa, a lareira foi substituída por aquecedores e o conto de histórias foi ficando esquecido por outros interesses. Passados 20 anos alguém me fala de um livro com o conselho de que o deveria ler, porque era muito bom e falava do Barroso. Dava pelo título de “Lobo Guerrilheiro” de autoria de Bento da Cruz. Comprei o livro e pus-me a lê-lo e só não o li de uma assentada porque outras obrigações mo impediram, mas regressei à leitura no dia seguinte para a concluir. Então não é que todas as histórias que eu tinha ouvido em puto à lareira estavam ali reunidas recorrendo ao romance como fio condutor e elo de ligação entre elas. Histórias verdadeiras contada quase tal-e-qual a minha mãe as contava, com uma exceção – o Juan – que no “Lobo Guerrilheiro” despia o papel de mau da fita para ser mais uma vítima da guerra civil espanhola, um bode expiatório dela. E é aqui que me surge o Juan e o Cambedo juntos quando no “Lobo Guerrilheiro” se fala da morte dele no Cambedo. Nesta altura já estava eu nos meus vinte e poucos anos e fiquei surpreendido por em Chaves nunca ter ouvido falar na morte do Juan no Cambedo e muito menos dos acontecimentos de 1946 decorridos nessa aldeia – uma vergonha… como me repetia um dos seus habitantes.

 

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Demétrio "O Pedro" o único guerrilheiro que sobreviveu no Cambedo em 1946

Preso pela PIDE e enviado para o degredo durante mais de 20 anos

após libertado refugiou-se me França

 

 

III

 

Iniciava-se o ano de 2005 e na ressaca de uma passagem de ano, numa volta pela internet descobri um anuncia que dizia: “Faça aqui o seu blog em três passos”, e fiz. Dei-lhe o nome de “Chaves, olhares sobre a cidade” e comecei a aventura que ainda hoje dura. Com o tempo senti a necessidade de alargar os olhares do blog às aldeias do concelho de Chaves, na qual também estava o Cambedo e de novo vem o Juan à baila e os acontecimentos de 1946 dos quais eu ainda pouco sabia. Claro que a minha abordagem ao Cambedo não podia ser leviana. O que por lá eu supunha ter acontecido era sério demais. Assim tive que encontrar uma porta de entrada na aldeia, não porque a desconhecesse, pois já lá tinha estado por várias vezes, mas porque sempre que lá estive nunca ninguém me comentou os acontecimentos de 1946 , nem eu os abordei porque nem sequer tinha matéria para iniciar uma conversa sobre o assunto. Comecei então por reunir todos os livros que pude sobre a guerrilha antifranquista e no entretanto arranjei um passaporte de entrada – O Sebastião Salgado – que por coincidência tínhamos muitos, e bons amigos, em comum. Mas desde logo me pôs à vontade para me dizer que não era a pessoa indicada para me falar do assunto, “daquela vergonha”, pois à data dos acontecimentos ele rondava os 10 anos de idade e tinha uma imagem deturpada dos acontecimentos. Mas havia pessoas na aldeia que sabiam coisas e que havia um trabalho publicado sobre os acontecimentos de autoria de Paula Godinho, que viveu na aldeia durante uma longa temporada, falou com pessoas envolvidas na primeira pessoa e fez um trabalho sério sobre o assunto.

 

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 Mulheres do Cambedo, uma delas ferida com um tiro em 1946

 

Deixo agora esta fotografia que bem poderia intitular de “As sombras do Cambedo” que vão muito além dos silêncios e que servirá de mote para concluir, pois hoje o que interessa mesmo é o filme “O Silêncio”. Então na visitas que ia fazendo à aldeia pouco ou nada consegui para além de algumas fotografias, pois a grande maioria dos atuais habitantes eram todos crianças na altura dos acontecimentos e pouco sabiam ... Os que sabiam ou já tinham morrido ou estavam fora… mas iam-me dizendo que as pessoas ainda tinham vergonha de falar daquilo. Posteriormente fiz algumas tentativas de saber alguma coisa do outro lado da Raia, em Casas dos Montes, aldeia galega a três quilómetros do Cambedo e terra natal do Juam, mas se no Cambedo preferiam os silêncios em Casas dos Montes sente-se que é proibido falar de tal coisa, nem sequer conheciam o Juan…, mas o referido trabalho de Paula Godinho, publicado na Revista História, os restantes livros e muita documentação que fui retirando da imprensa da altura dos acontecimentos e ao longo dos anos, foi dando para começar a esboçar um trabalho mais sério sobre a aldeia do Cambedo e os acontecimentos de 1946. Aliás com o burilar da documentação fui-me dando conta que além dos silêncios havia também muitas sombras sobre o assunto e muita coisa ainda por esclarecer. Mas passados dois anos e meio de trabalho senti-me então em condições de fazer uma abordagem séria ao Cambedo e aos seus acontecimentos, trabalho que além de publicado neste blog, entendi que deveria ter um espaço próprio e aberto no tempo para reunir e divulgar toda a informação possível – é o Cambedo-Maquis que em 22 de agosto de 2007 eu anunciava estar em construção para em dezembro do mesmo ano começar as publicações a sério de modo a fazer coincidir a história dos acontecimentos com o seu dia de aniversário.

 

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Rua Principal do Cambedo - Ao fundo casa destruída com os bombardeamentos de 1946

 

IV

Curiosamente o blog Cambedo-Maquis proporcionou outras surpreendentes descobertas, algumas delas que ainda não amaduraram para virem a público. Trata-se de outras faces da história que hoje passados 70 anos sobre os acontecimentos são contada pelos netos dos envolvidos nos acontecimentos, de ambas as partes e de como os a descoberta do Cambedo vai fazendo luz nas suas memórias. Mas também alguns historiadores locais me vão dizendo que “aquilo” não foi bem como se conta. Certo, certo é que em Chaves pouco se tem contado sobre o assunto e se alguma coisa se vai dizendo sobre ele é graças a trabalhos como o da Paula Godinho, de Bento da Cruz, do filme que hoje se estreia em Lisboa, de outros documentários e trabalhos que a imprensa nacional de vez em quando se lembra de fazer, sem esquecer alguns galegos que tudo têm feito para dar luz aos acontecimentos e que já tiveram a coragem de reconhecer a dor do Povo do Cambedo e pedir-lhes perdão, coisa que do lado português nunca aconteceu, nem sequer por parte do município de Chaves que lá, no Cambedo, é como se nada tivesse acontecido ou como já alguém uma vez me disse, foi “uma coisa que para a história de Chaves não tem importância nenhuma”

 

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 Homens do Cambedo que em  1946 eram crianças com cerca de 10 anos

 

V

 

Para terminar ficam as palavras de Paula Godinho sobre o filme “O Silêncio”:

 

No comovente filme de António Loja Neves e José Manuel Alves Pereira "O Silêncio", um homem desfia um sofrimento longo, a partir dum acontecimento que viveu com 16 anos e que lhe mudou a vida. Trata-se de Arlindo Espírito Santo, que viu grande parte da sua família ser presa em Dezembro de 1946, na aldeia de Cambedo da Raia, no concelho de Chaves, encostada à Galiza. Ali decorreu um episódio sangrento e tardio, ainda em resultado do golpe franquista em 18 de Julho de 1936.

 

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 Sargento Cruz, um dos rostos do filme e que em 1946 integrava o exército que bombardeou o Cambedo

Fotos retiradas do Evento no facebook do filme “O Silêncio”


A aldeia, cercada pela Guardia Civil, pelo Exército português, pela PIDE e pela GNR, foi atingida com vários tiros de morteiro no dia 21 de Dezembro. Dois guerrilheiros morreram, um provavelmente por suicídio para evitar a captura, uma criança foi ferida e foram destruídas várias habitações, porque ali se haviam refugiado desde a guerra civil alguns galegos até este momento de perseguição final ao seu grupo, em 1946.

 

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Arlindo Espírito Santo, um dos rostos do filme e que em 1946 (então criança) vivia com a família na casa em frente onde se abrigavam Demétrio e Garcia - O Pai. agente da Guarda Fiscal, após os acontecimentos foi expulso da mesma.

Fotos retiradas do Evento no facebook do filme “O Silêncio”

 

 


A povoação de Cambedo da Raia perderá por mais de um ano 18 dos seus habitantes, presos no Porto preventivamente, até ao julgamento, que teve lugar em Dezembro de 1947. Por longo tempo este assunto permaneceu interdito, com os fascismos ibéricos a imporem a sua versão. Os habitantes de Cambedo arrastaram por dezenas de anos a reputação de malfeitores ou de acoitantes de criminosos, labelo que as autoridades lhes colaram. Alguns não indicavam a aldeia de nascimento em documentos, mas antes a sede de freguesia, para evitar o opróbrio que lhe estava associado. Em Dezembro de 2006, numa acção cívica levada a cabo por um conjunto de intelectuais galegos, resgatou-se a memória da solidariedade raiana e com ela a auto-estima local. Foi então aposta uma placa no centro da aldeia: “En lembranza do voso sufrimento (1946-1996)”.

 

1600-cambedo (149)

 

O filme recolhe o depoimento das pessoas da aldeia que ficaram 50 anos obrigadas ao silêncio, sem poderem falar deste episódio trágico.

 

Fica também um link para o evento onde poderá acompanhar o lançamento de “O Silêncio”:

https://www.facebook.com/events/1655215854743899/1655252561406895/

 

 

 

 

 

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Flavienses por outras terras - Cristina Barreira

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Cristina Barreira

 

Nesta crónica do espaço “Flavienses por outras terras” vamos até aos Estados Unidos da América, mais concretamente até à cidade de Marlboro, no estado de Massachusetts, na Costa Leste.

 

É lá que vamos encontrar a Cristina Barreira.

 

Mapa Google + foto - Cristina Barreira.png

 

Onde nasceu, concretamente?

 

Nasci em Santa Maria Maior, mas cresci na aldeia de Curalha. O meu pai é da aldeia de Bóbeda e a minha mãe da aldeia de Curalha.

 

Nos tempos de estudante, em Chaves, que escolas frequentou?

 

Frequentei a Escola Primária de Curalha, do 1º ao 4º ano. Depois, a Escola Secundária Dr. Francisco Carneiro, nas Casas dos Montes, do 5° ao 9° ano, e a Escola Secundária Dr. Júlio Martins, do 9º ao 12° ano.

 

Em que ano e por que motivo saiu de Chaves?

 

Saí no dia 1 de Junho de 2007. Sem condições financeiras para poder frequentar a universidade e também sem sucesso em busca de trabalho, não tive outra opção a não ser abandonar a minha terra natal.

 

Em que locais já viveu ou trabalhou?

 

Sempre morei em Curalha, junto com os meus pais. Durante as férias da escola trabalhei no Café Frade, em Curalha, (durante a manhã) e no Hipermercado Modelo (turno da tarde até ao fecho).

 

Diga-nos duas recordações dos tempos passados em Chaves:

 

Os belos jardins sempre coloridos e a fantástica gastronomia flaviense.

 

Proponha duas sugestões para um turista de visita a Chaves:

 

A nossa cidade é cheia de história e tem um pouco de tudo para oferecer. As minhas sugestões seriam as Termas de Chaves (não esquecendo a área de lazer junto ao Rio Tâmega mais o Castelo), assim como o Forte de São Neutel e de São Francisco. Visitar a cidade na época dos Santos também seria uma ótima opção, uma vez que a cidade fica mais movimentada.

 

Estando longe de Chaves, do que é que sente mais saudades?

 

Sem dúvida, a saudade da família. Depois, a saudade dos amigos e da aldeia, da cidade. A saudade da gastronomia flaviense também faz o coração bater mais forte um pouco! Saudades do galão e dos pastéis da “Carlton”, saudades do presunto e do folar do João Padeiro (se bem que a minha mãe faz um folar muito bom e o meu pai cura um presunto que fica uma delicia), saudades (e que saudades!) de jantar no restaurante “O Manco” e de comer um prego no “Calhambeque”, na hora do almoço. Enfim… saudades de ser Flaviense em Chaves!

 

Com que frequência regressa a Chaves?

 

Desde que vim para os Estados Unidos ainda não regressei a Portugal e já lá vão mais de oito anos, mas os meus pais, um dos meus irmãos e o meu sobrinho já vieram aqui no verão.

 

Gostaria de voltar para Chaves para viver?

 

É muito difícil responder a esta pergunta, pois se a minha cidade pudesse oferecer o que eu tive de procurar longe, sem dúvida que eu jamais deixaria a minha terra. Quem sabe um dia eu volte para Chaves, mas por agora, da forma que a economia e o mercado de trabalho portugueses estão, não está nos meus planos voltar. Mas apesar de longe, Chaves está sempre no meu coração.

 

Marlboro.png

 

O espaço “Flavienses por outras terras” é feito por todos aqueles que um dia deixaram a sua cidade para prosseguir vida noutras terras, mas que não esqueceram as suas raízes.

 

Se está interessado em apresentar o seu testemunho ou contar a sua história envie um e-mail para flavienses@outlook.pt e será contactado.

 

Rostos até Cristina Barreira.png

 

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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016

Ocasionais - Aí por CHAVES

ocasionais

 

“Aí por CHAVES

 

- Para os mais descuidados ou com cego fervor amoroso

a quem esperam que lhes faça o «tal jeito, ou jeitinho,

esclarecemos não estarmos empenhados no restauro do Passado,

mas, sim, comprometido com o respeito ao Passado.

O Futuro nunca é a continuidade,

tampouco uma versão alargada, do Presente.

Luís da Granginha

 

 

Escangalhado de riso, Hermes entrou pela messe dos olímpicos deuses, com uns papéis na mão.

 

Zeus havia-o encarregado de consultar o mapa das festividades da NORMANDIA – TAMEGANA, para a época da «Quaresma».

 

O presunto que Zeus tinha encomendado na ‘Feira de Vinhais’ do ano passado tinha morrões, e ele andava desgostoso.

 

O apetite e as saudades de uma chouriça de Morgade, de uma linguiça de Lamachã, de uma alheira de Valdanta, de um salpicão de S. Vicente da Raia, de um paloio d’ Abobeleira, de uma sêmea de Lebução, de uma fatia (ó menos) de pão centeio de Castelões (ele até está a pensar em mandar fazer um forno igual àquele e outro, ao de Tourém!) de um «trigo de quatro cantos», de Faiões; bem, isto para disfarçar a secura com que anda por já há tanto tempo ‘inda não meter o dente num «Pastel de CHAVES” e num «carolinho de Folar do de Chaves» … ou do de Valpassos, tudo isto está encriptado na ordem de Zeus a Hermes.

 

Zeus até disse ao seu assessor que estava na altura de ir ver com os seus próprios olhos um dos célebres e fantásticos “Autos da Paixão”, de CURALHA, de BUSTELO ou de CURRAL de VACAS e que não queria perder a Festa da Srª das Brotas, tão falada (e suspirada) nos Blogues Flavienses!

 

Tinha chegado ao Olimpo uma remessa daquela célebre «pomada de Quio”.

 

Na messe, os «compadres» de Hermes estavam a «entornar».

 

Mal Hermes, levantando a papelada, disse vir falar de CHAVES, todos arrebitaram as orelhas.

 

Poséidon pôs cara séria, pois tinha feito transbordar as águas do Tamega, o riacho do Caneiro, e barulhentas as águas do Ribelas.

 

Hades, franziu a «brancelha», ainda não ia muito tempo que tinha encharcado os céus do Brunheiro até ao Larouco de uma névoa, que fazia “Triste aquela Cidade”.

 

Ares pôs um ar de desconfiado, pois julgou ter sido descoberto numa falcatrua (Eleições autárquicas de 2013) em que jogou a favor ora de «pavões», ora de «cotovias».

 

Hefesto, esperava os agradecimentos por ter posto a sua forja a dar algum calor neste Inverno agora realmente começado, em meados de Fevereiro de 2016. Esperava até, que aquela papelada que Hermes levava na mão fosse uma carta-discurso com as mais deliciosas laudas tecidas pelo «pavão de Castelões», e já pronunciada e divulgada na «Sinal TV» e nos «jornalecos» flavienses, pelo maravilhoso trono dourado com que tinha premiado aquele pantomineiro.

 

Dioniso, que tinha despido a sua pele de raposa para a oferecer ao «Tonho Cabeleira» no dia da sua coroação como «predizente de cambra», ficou na expectativa de ir receber um daqueles papeluchos como convite para mais uma «feireca» medieval, animada com as «concertinas de Venda Nova».

 

Perseu esperava que uma daquelas folhas A4 trouxesse a relação dos sacripantas de CHAVES a quem iria cortar a cabeça ou pôr-lhes diante dos olhos a cabeça de Medusa (já que eles eram uns estupores de «olhos abertos», mas uns grandes cegos porque «não queriam ver»)!

 

Hermes descansou-os.

 

A risota escangalhada devia-se a que, na pesquisa, topara uns «Tratados» [Post(ais] de Blogue], escritos por um “Tucídides” e por um “Ésquilo” Flavienses   —   um tal Fernando Ribeiro e um tal Sousa e Silva   -   da «Descoberta» de uma “πTorga”, que torna o «Labirinto de Creta» uma brincadeira de crianças! Agora, na pesquisa, outro «labirinto» com umas setas a respeito da «Rota d’Água”!

 

- “’Inda bós não sabendes do túnel, secreto e enfeitiçado, a passar por baixo do rio, com uma quantidade enorme de minas-ratoeira, que liga(va) o “CASTRO de CURALHA a VILELA do TÂMEGA”! - disse Hermes, já visitante antigo da NORMANDIA –TAMEGANA.

 

- “βende βós, os labirintos que não deβe haβer em CHAβES”! – sublinhou Hermes.

 

Razão tinha Zeus quando escreveu para aquele seu amigo de longa data e com quem tem tido umas “CONVERSAS”   -   disse-lhes Hermes.

 

E lembrou-lhes o que Zeus dizia:

……….,

 

- “Aí por CHAVES, esses «pavões e lalões» do aviário do “Tony Cabeleira”, afamado «pavão de Castelões», «bimbos» políticos» e «poneyzinhos-de-Tróia» flavínios passeiam-se e exibem-se com todo o ar de quem acaba de patentear a sua mediocridade, a sua incompetência e a sua ruindade moral como sublimes qualidades!

 

Aí por CHAVES, na «política caseirinha», a «habilidade» é superior ao conhecimento.

 

Aí por CHAVES, a excepção do homem, do Flaviense, de excepção é cada vez mais uma excepção ….. e um espanto!

 

Pobre Democracia   - a tal, ao que parece, sempre «jovem para todo o sempre democracia portuguesa»   -   que, afinal, não tem feito mais do que afastar as competências e as excelências!

 

A fixação no poder e a necessidade doentia de ser poderoso fazem muitas vezes com que cheguem ao poder aqueles cujo vazio interior é o maior”.

 

Aí por CHAVES, «opositores» (dos principais Partidos) são farinha do mesmo saco: medíocres, cegos de ambição fazem uma «oposição» suave e doce aos «galináceos» do «pêpêdê», e, assim, perpetuam-se nessa «sombra», nessa «babuje»!

 

Aí por CHAVES (bem, na verdade, por aí, por aqui, desde o Minho ao Algarve, e pelos Açores, as Berlengas e a Madeira), até parece que a sabedoria é que é coisa supérflua; e a esperteza, vital!

 

E a «CIDADE”, e o Município, e os Flavienses lá vão «cantando e rindo» pelos caminhos do decaimento, da perda de prestígio, de qualidade de vida e de vida com qualidade!

 

CHAVES «não vai » com esse Executivo Camarário!

 

Mais parece que o propósito do «pavão de Castelões» e do seu bando é mais de impedir o desenvolvimento do Município do que criar melhores condições de vida para os Flavienses!

 

Escolas, Tribunal, Hospital, Infantários, Centros Sociais, Comércio, Indústria, Agricultura e Turismo apoiados, Património Histórico e Cultural bem conservado; vias municipais cuidadas e seguras; paisagens protegidas; rios e ribeiros não poluídos; um Museu com dimensão e riqueza ajustadas à História; e administradores intelectualmente inteligentes, competentes, dedicados, empenhados e leais para com todos os Munícipes são um direito e não um favor que os Flavienses reclamam!

 

Desde sempre que companheiros e vizinhos desse «pavão» se aperceberam da sua mediocridade pretensiosa com grandes ambições. Passa a vida a confundir o essencial com o acessório, o principal com o secundário.

 

É um falhado!

 

Não sabe qual é a primeira tarefa de um Presidente de Câmara: gerir a instituição com vista à missão para a qual foi concebida.

 

Não sabe porque o seu inútil tutor também o não sabia!

 

No «pavão» salientam-se bem as «obliquidades do astuto e os soslaios dos impotentes».

 

Dos milhões de átomos que compõem o «pavão de Castelões», bem como os «pavõezinhos de aviário» da sua ninhada politicastra, dá para ver, sem microscópio, à luz do dia e mesmo à «luz da noite» que os mais notáveis já pertenceram a Nero, a Judas, a Bórgias, a al Capone, a Efialtes.

 

As boas ideias para o Progresso de CHAVES morrem de solidão na cabeça desse «pavão».

 

O que esse farsolinha (o tal «pavãozeco» de Castelões) sabe fazer é só o «FAZ-DE-CONTA».

 

Se Ortega y Gasset viesse a CHAVES deitaria às mãos à cabeça e reescreveria: «todos aqueles que ocupam cargos no Executivo Camarário de CHAVES deviam ser «saneados» «ad ӕternum» da vida pública e proibidos de meter o bedelho fosse no que fosse: porque eles acabaram de confirmar o seu nível de incompetência!

 

Nem para porteiros da antiga serventia da “Canelha das Longras” seriam admitidos, carago!

 

O que se tem passado na administração do Município de CHAVES é que «Alexandres e alexandrinos», «Baptista e seus lalões», «pavão, pavões e lalõezinhos»   -   com «penas ou com cabeleira»   -   pouco mais têm feito do que cuidar dos seus gostos, dos seus interesses, das suas conveniências, dos seus poleiros: conduziram e continuam a conduzir os destinos do Município às guinadas, sem plano, sem visão e sem esperança para os Flavienses.

 

A mentalidade feudal dessa trupe que se arregimentou em CHAVES tem de ser varrida.

 

Essa gentalha disfarça o seu reaccionarismo com pinceladas coloridas de aberrantes «modernidades».

 

Se esses administradores autárquicos tivessem algum grau de decência social, bairrista, regional, preocupar-se-iam em reparar em CHAVES os pecados de Lisboa.

 

Os «tugas» - flavienses- continuam a votar em cabeleiras e cavacos, pavões e coelhos, pedro e paulos, porque acreditam que a MEDIOCRIDDE é mais segura para garantia dos seus interessezinhos!

 

O culto da incompetência é a religião oficial dessa vossa Democracia”!

 

……….,

 

Dioniso, levantou-se do coxim e disse:

-Pois vamos lá a um “Auto da Paixão», a uma “Srª das Brotas” ou à ““πTORGA” de Curral de Vacas, que, eu parece-me, que por lá há umas variedades de «pinga» muito especiais e, então, quem leva os «Kilix» para oferecer aos flavienses “Blogueiros – Pitorgueiros” sou eu. E espero trazer de lá uns bons pichorros de Barro de Nantes, olarilóléla!

 

M., 19 de Fevereiro de 2016

Luís Henrique Fernandes

 

 

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Chá de Urze com Flores de Torga - 119

1600-torga

 

Chaves, 28 de Agosto de 1993

 

A indiferença da natureza! Revejo lugares que há anos me são familiares e onde, num poema, numa frase ou num simples estremecimento emotivo, cuidei que qualquer cousa de mim permanecia e ficaria identificado. E em nenhum deles há resquícios sequer de que por ali passei. Ou então sou eu, que, de tão desfasado do mundo, me vou perdendo de vista até nos Tabores das minhas passadas transfigurações.

Miguel Torga, in Diário XVI

 

Chaves, 30 de Agosto de 1993

 

Israel e os Palestinos vão finalmente entender-se. A paciência de Job não teve limites mais uma vez. E mais uma vez venceu as tentações do diabo.

Miguel Torga, in Diário XVI

 

1600-douro-acima (148)

 

Chaves, 31 de Agosto de 1993

 

O primeiro-ministro britânico veio passar as férias ao Doiro, nas quintas de um patrício. Tem comido bem, bebido melhor e passeado. Até figos vindimos provou e saboreou, dizem os jornais. Os nossos velhos donos dão, como sempre, sinal na hora própria. O melhor de tudo o que temos, culinária, paisagem, conforto, mar, sol e cordialidade, já estava ao seu serviço no Algarve. Faltava o Doiro. Depois de feitoria de rapina, promovido também , na cara de quem nele consome a vida e a esperança a trabalhar de sol a sol para meia dúzia de vorazes e adventícios patrões, o éden de lazeres. E começa agora. O coitado do Forrester, ao menos, desenhava mapas bonitos da região, que explorava como bom comerciante, e saldou-lhe a dívida de parasita afogado no cachão da Valeira ao peso dos dobrões. Este barão actual espaireceu num rebelo motorizado, sem risco e sem passaporte restrito, apenas com licença magnânima da CEE, que lhe disse que sim, que aproveitasse, que isto agora é baldio, comunitário, multinacional, e deles, Ingleses, com particular direito. Em que feliz dia futuro a «chaga do lado de Portugal», que desde a infância me obsidia, deixará de sangrar?

Miguel Torga, in Diário XVI

 

 

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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2016

Intermitências

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O Impossível

 

“Vida dura e injusta, mundo complexo. Desculpa. Parece impossível.”

 

Não queria acreditar. Olhou-me nos olhos e indignou-se:

 

“Impossível? O impossível apenas demora um pouco mais de tempo a cumprir-se. Não te habitues a rotinas. Não te habitues a coisas inúteis ou em excesso: pesam muito e atrasam-te no caminho. Não te habitues ao impossível. Percorre todos os caminhos, mesmo os errados. Falha, aceita e segue. O único impossível é viver com medo.

 

O Impossivel.jpg

Ubatuba, Brasil, Dezembro 2014 - Fotografia de Sandra Pereira

 

Impossível? O impossível apenas demora um pouco mais de tempo, mas não te habitues a pensar que vais viver para sempre. Da-te conta que estás presente neste mundo.”

 

Sandra Pereira

 

 

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Chaves - Carreiros Urbanos

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5 - Chaves, era uma vez um comboio…

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Memórias

 

Em boa verdade, apenas no início da década de oitenta, altura em que completei dezoito anos e fui continuar os meus estudos para Coimbra é que, conscientemente, me apercebi da existência de comboios regionais, rápidos, foguete, intercidades, de linha férrea larga, etc., tendo então inferido que o comboio liderado pela sua máquina a vapor, e que servia a minha cidade natal, era uma autêntica relíquia.

 

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 CP0185 – Locomotiva: CP E207, Data: 1973, Local: Pedras Salgadas, Portugal, Slide 35 mm

 

1 - A primeira, e única vez, em que tive o privilégio de nele viajar, e da qual me lembro perfeitamente, tinha apenas cinco anos. Foi um dos dias da minha existência em que mais madruguei. Embora não possa precisar a hora exata, estimo-a entre as 4 e as 5 horas da madrugada.

 

Acompanhando a minha mãe, com o entusiasmo e excitação de menino pequeno que ia fazer uma longa viagem, para conhecer novas terras e novas gentes, apanhei o comboio na belíssima estação de caminhos-de-ferro de Chaves, ainda noite cerrada, rumo a Coimbra e à sua universidade, onde iria assistir à cerimónia (vulgo, rasganço) da formatura do meu pai na faculdade de direito.

 

Daquela viagem, desde Chaves até Peso da Régua (primeiro local de transbordo do comboio, sendo o segundo no Porto), recordo o cheiro a carvão, o apito estridente e o fumo lançado pela locomotiva, bem como o característico barulho que fazia de cada vez que, em qualquer estação ou apeadeiro, parava e arrancava, nalguns troços a velocidade muito lenta, e a beleza das paisagens que ia vislumbrando à medida que o dia clareava.

 

Da Régua em diante, lembro-me apenas que os comboios melhoravam gradualmente em rapidez e conforto, mas já não havia apito, cheiro a carvão, fumo, nem os lamentos de pouca-terra... pouca-terra...

 

Face à “idade dos porquês” que atravessava, comecei a disparar perguntas, tendo-me a minha mãe explicado que o comboio que partia de Chaves funcionava a carvão e a automotora que saía da Régua, e o comboio do Porto, funcionavam a eletricidade. Questão após questão, e respetivas respostas, com uma certeza fiquei: o comboio de Chaves era diferente dos outros.

 

Apreendi mais tarde, quando cheguei à idade de ver filmes de índios e cowboys no cineteatro, que o nosso comboio, por muitos apelidado de Texas, era um verdadeiro cavalo-de-ferro.

 

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 CP0032 – Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm

 

2 - No ano de 1984, convidei dois condiscípulos, um natural de Coimbra e outro de Paços de Ferreira, para virem passar comigo uns dias de verão a Chaves, cidade que não conheciam. Optaram pelo comboio, meio de transporte que usavam habitualmente para se deslocarem, sem nunca suspeitarem que da Régua até Chaves iriam circular num com máquina a vapor.

 

Quando os fui esperar ao apeadeiro da Fonte Nova, perto da casa onde na altura habitava, apesar de cobertos de gotículas de suor vinham a rir-se a bandeiras despregadas. Contaram-me que tinham, inocentemente, perguntado ao revisor onde ficava o bar do comboio, e que este, julgando que estavam a mangar com ele, lhes terá respondido em tom azedo: “Bar? Deem-se por felizes se o comboio não empanar até Chaves, que ontem estivemos parados duas horas na linha devido a uma avaria”.

 

Confessaram-me que apreciaram a beleza da paisagem, que se sentiram noutro mundo ao viajarem naquele comboio e que não estavam arrependidos da opção que tomaram mas, dado o desconforto e morosidade da viagem, o regresso iria ser feito de autocarro.

 

Ainda hoje, quando esporadicamente nos encontramos, aqueles amigos relembram com saudade a viagem no comboio até Chaves que, com toda a certeza, não deixarão de contar aos seus netos.

 

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 CP0071 – Locomotiva: CP E211, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm

 

3 - Mas a lembrança que imediatamente me assalta quando se fala na extinta linha e comboio a vapor que serviram Chaves até 1990, que julgo ser a primeira recordação da qual tenho ainda uma ténue memória, e que pelo significado que tem para mim guardei deliberadamente para o fim, reporta-se ao momento em que, perto dos meus três anos de idade, conheci o meu pai.

 

Por imposição do regime fascista do Estado Novo, quase logo de seguida ao meu nascimento nesta cidade de Chaves, o meu pai, após ter aqui concluído o cumprimento do serviço militar, foi chamado, e obrigado, a partir para Moçambique, dizia-se que para defender as nossas colónias no ultramar.

 

Assim fui crescendo, aprendendo a caminhar e a falar, com a noção de que o meu pai estaria lá para um lugar chamado “tropa”.

 

Próximo dos meus três anos, recebi a notícia, dada pela minha mãe e pelos meus avós maternos, com quem vivia, que o meu pai ia, finalmente, chegar da tropa.

 

Chegou. Fomos todos esperá-lo às Pedras Salgadas.

 

Foi a primeira vez que vi o meu pai.

 

E o comboio.

 

Durante os vários anos da minha meninice, vá lá saber-se porquê, repetia a cada passo: “A tropa é má... o comboio é bom”.

Francisco Preto

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http:outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2016

Quem conta um ponto...

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278 - Pérolas e diamantes: a concisão da insinceridade

 

Vendo a guerra de guerrilhas terrorista, bombista e malabarista a alastrar pelas cidades da Europa e a campanha contra o Daesh a alastrar no Médio Oriente, lembro-me de um provérbio Abecásio que diz: “Se a água se incendiar, como é que se pode apagar?”

 

Os abecásios e os georgianos tiveram uma guerra civil há bem pouco tempo, de contornos um pouco sinistros. A implosão da URSS continua a fazer tremer a terra com as suas réplicas.

 

A escola e a cultura da guerra está impregnada na matriz da humanidade. Na Abecásia, quando nasce um menino, os parentes oferecem-lhe um punhal de ouro. Ao lado do punhal penduram um chifre para o vinho.

 

Os abecásios bebem o vinho pelo corno, como se fosse um copo, por isso apenas o podem pousar na mesa depois de o engorgitarem até ao fim. É o alibi perfeito para a borracheira. Depois é só pegar no punhal. O ouro exige mais ouro. A guerra mais guerra. E a borracheira, nova borracheira.

 

Olga V., no livro O Fim do Homem Soviético – um tempo de desencanto, de Svetlana Aleksievitch, conta que um dia os georgianos e os abecásios bombardearam uma jaula de macacos. À noite, os georgianos perseguiram alguém pensando que era um abecásio. Quem mais poderia ser? Feriram-no. Ele gritava, como é natural. Por seu lado, alguns abecásios descobriraram-no e logo pensaram que era um georgiano. Quem mais poderia ser? Perseguiram-no, dispararam contra ele. Quando amanheceu viram que se tratava de um macaco ferido. Tanto abecásios como georgianos declararam uma trégua e foram salvar o macaco. “Se fosse um homem matavam-no… Eles andam como zombies. Acreditam que estão a praticar o bem. Mas será possível praticar o bem com uma metralhadora ou um punhal?”

 

Isto é Kusturica em estilo puro… e duro.

 

Então vamos lá encher de novo os chifres e beber. Vai a cima e vai abaixo, vai ao centro e bota baixo.

 

Por isso é que os homens e as mulheres para semente rareiam.

 

Na Rússia de Putin apareceram uns cartazes que foram muito além da imaginação ao poder do Maio de 68: “Vocês nem imaginam quem nós somos.” Ou este que traduz o bloqueio democrático da nossa sociedade: “Eu não votei nestes patifes, votei noutros patifes.”

 

É mesmo verdade, não existem revoluções de veludo. O campo de batalha é sempre ocupado pelos saqueadores.

 

Gritámos nas ruas que o povo é quem mais ordena. Qual o quê! Os comícios são espetáculos políticos baratos. O circo é bem mais interessante.

 

O povo nunca decide nada, são os indivíduos ilustres aqueles que dispõem as peças do xadrez político a seu belo prazer. Na partição do brinde, eles ficam constantemente com o bolo e a nós toca-nos sempre o buraco, que é ainda menos do que a fava do bolo-rei.

 

Não faz sentido mudar de governo se nós próprios não mudarmos.

 

A grande tese de Darwin não se baseia, como erradamente muitos pensam, na ideia de que são os mais fortes aqueles que triunfam. Darwin chegou à conclusão de que os vencedores da luta pela sobrevivência são os seres mais capazes de se adaptarem ao meio ambiente. São os medíocres aqueles que sobrevivem para perpetuarem a espécie.

 

O filólogo russo Sergei S. Averintsev disse que construímos as pontes sobre os rios da ignorância, mas que, entretanto, as torrentes mudaram o leito dos rios.

 

O futuro, por mais que nos custe a admitir, é absolutamente imprevisível.

 

Perguntaram um dia a Nabokov porque é que juntava os problemas de xadrez com os poemas. Respondeu que os problemas são a poesia do xadrez, pois exigem do compositor as mesmas virtudes que caraterizam toda a arte digna desse nome: originalidade, invenção, harmonia, concisão, complexidade e uma esplêndida insinceridade.

 

Para completar o ramalhete, eu acrescentar-lhe-ia a arte da política, desde logo pela sua admirável “insinceridade”.

 

O meu sonho foi idêntico ao do original escritor, pois sempre ambicionei vir a ter uma longa e excitante carreira como obscuro conservador de lepidópteros num grande museu.

 

Sei que falhei, mas foi por pouco. Mas as borboletas continuam aí à mão de semear.

João Madureira

 

 

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De regresso à cidade com duas imagens

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De regresso à cidade com duas imagens, uma ainda do mundo rural por onde andei este fim-de-semana passado, a outra, a dum pôr-do-sol com a cidade de Chaves na penumbra à espera de entrar na noite.

 

1600-miradouro (252)

 

 

 

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