12 anos
Domingo, 31 de Julho de 2016

O Barroso aqui tão perto... Travassos da Chã

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Desde o alto das serras e das montanhas o nosso olhar vai mais além, vemos outras montanhas e serras, alguns planaltos , e plantadas entre ela(e)s, pequenos aglomerados de casas, aparentemente todas juntinhas, como se estivessem coladas umas às outras. São aldeias que, vistas lá do alto,  parecem todas iguais apenas se distinguindo pelo tamanho do espaço que ocupam.  Ao longe todas iguais mas na sua intimidade todas diferentes, todas com uma identidade própria. Na primeira imagem de hoje,  tomada desde o alto de S.Domingos sobre a barragem dos pisões, da outra margem da barragem conseguimos distinguir algumas aldeias, uma delas é Travassos da Chã. E para lá que vamos hoje. 

 

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Travassos da Chã localiza-se entre a estrada nacional 103 (Braga -  Chaves – Bragança) e a Barragem dos Pisões, não tão próxima da barragem como as aldeias da outra margem, nomeadamente Criande, Negrões e Vilarinho de Negrões, mas igualmente próxima, a partir dos 300 a 400 metros de distância e com estrada até à barragem, com o asfalto a terminar mesmo dentro de água quando a barragem está no topo da sua cota.

 

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Quanto ao topónimo é normalmente grafado como Travassos da Chã, no entanto também aparece como Travaços da Chã, incluindo na página oficial do Município de Montalegre aparece, dependendo do documento,  grafada de ambas as maneiras.  Quanto à origem ou significado do topónimo nas nossas pesquisas nada apurámos.

 

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Como pontos de interesse da aldeia são apresentados pelo Município de Montalegre, o Forno do Povo e um Marco Miliário. No sítio da web do Ecomuseu do Barroso faz-se ainda alusão à Casa do Alto como uma casa de férias. Na nossa visita à aldeia localizámos o Forno e o Marco Miliário, a Casa do Alto passou-nos ao lado, pois aquando da nossa visita não tínhamos ainda conhecimento dela e na aldeia, não encontrámos ninguém que nos pudesse informar. Fomos descobrindo o que descobrimos por conta própria, tal como vai acontecendo na maioria das aldeias.

 

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Estas descobertas por conta própria têm o seu lado positivo, pois não somos influenciados por aquilo que está pré-determinado como sendo de interesse, às vezes, até de interesse duvidoso.  Mas claro que se agradece sempre a referência. No entanto há interesses e interesses. Geralmente aquilo que se aponta como de interesse está diretamente ligado à História, que sem deixar de ter interesse, não se apresenta lá muito interessante para o turista comum, ou para os apaixonados pela fotografia, ou pela antropologia, ou pela sociologia, quer sejam ou não profissionais.

 

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A população das aldeias e os seus usos, costumes e saberes, as característica do falar local, por um lado, a arquitetura típica e tradicional, o enquadramento e a forma das aldeias se aconchegarem ao relevo natural dos locais local  e as paisagens por outro, são bem mais interessantes que uma “pedra” carregada de história, sobretudo se está desenquadrada da sua origem e se a ela não está apensa toda a sua história. Uma conversa com a gente local, ou, por exemplo assistir à amassadura do pão, à entrada do pão no forno, às rezas associadas ao ato de fazer o pão ou esperar pelos aromas à saída do pão cozido são sensações únicas que só à porta do forno se podem viver. Assistir à chegada de uma vezeira à aldeia é uma delícia que não tem palavras para a descrever.

 

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São estas coisas simples e banais do dia-a-dia para os naturais dos lugares que tornam interessantes as aldeias e as caracterizam como únicas e singulares, que embora semelhante à aldeia vizinha, as torna tão diferentes umas das outras. Daí às vezes sairmos tão agradados de algumas aldeias que oficialmente nada têm de interesse,  e de outras, que às vezes até são apontadas como as aldeias mais interessante para visitar, saímos de lá desiludidos pelas expectativas que levávamos antes da visita.

 

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Mas deixemos a divagação sobre as aldeias em geral e vamos ao que nos apontam como de interesse em Travassos da Chã

 

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O Forno do Povo

 

Quanto ao Forno do Povo trata-se de um pequeno forno comunitário. Não pudemos visitar o seu interior mas pelo exterior deu para apreciar a cobertura em lajes de granito, tal como acontece noutros fornos comunitários, de arquitetura mais ou menos idêntica, pelo menos nas aldeias das proximidades da Serra do Larouco. Este forno de Travassos da Chã apresenta-se mais pequeno e de arquitetura mais simples.

 

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O Marco Miliário

 

Marco miliário anepígrafo (sem inscrições)  que, a ser marco miliário,  tudo indica pertencer à Via Augusta XVII do itinerário de Antonino, uma das principais vias romanas que ligava Bracara Augusta (Braga) a Astúrica Augusta (Astorga) passando por Aquae Flaviae (Chaves). Marco miliário que hoje não está no seu lugar de origem, pois segundo reza a história procede das imediações de Travassos da Chã, tendo sido trasladado para esta aldeia mais tarde. Trata-se de um marco semicilíndrico, de granito de grão grosseiro. As suas linhas são toscas e de diâmetro inferior aos restantes marcos miliários conhecidos. Hoje em dia parece estar convertido em “cruzeiro” com o acrescento que recebeu para ter a forma final de cruz. Está localizado fora da aldeia no caminho que nos leva até à margem da barragem.

 

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Casa do Alto

 

Quanto a esta, transcrevemos o que consta no site do Ecomuseu do Barroso:

 

“No ponto mais alto da pequena aldeia de Travassos da Chã, concelho de Montalegre, foi remodelada a Casa do Alto. Orientada a sul, enquadra a paisagem da aldeia, o lago da albufeira do Alto Rabagão com a moldura das Alturas do Barroso.

Na Casa do Alto encontrará a serenidade e paz de um ambiente rural onde a tradição permanece viva e a natureza se mantem intocável, em toda a sua pureza e esplendor

Ideal para passar umas férias longe da cidade ou para uma escapadela de fim-de-semana, a Casa do Alto presenteia os seus visitantes com um magnífico nascer do dia sobre a albufeira e com o despertar da aldeia, com um por do sol deslumbrante e com um céu tão estrelado como hoje é difícil encontrar.

A casa, com capacidade até 10 pessoas, está totalmente equipada, permitindo disfrutar com todo o conforto do tanto que esta região tem para oferecer (…)”

 

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Quanto às nossas impressões pessoais sobre Travassos da Chã são confusas. Por uma lado a aldeia apresenta-se interessante tendo como mais valia as vistas que lança sobre a barragem e os terrenos da proximidade desta, verdejantes, murados com arvoredo nos limites dos terrenos, dando-lhe um ar bucólico, pacato e sereno, que se invejam nos dias quente de inferno como os que estamos a atravessar . O aglomerado da aldeia também é interessante, com um largo igualmente interessante, igreja e casario também de apreciar, mesmo as novas intervenções no casario mais antigo, em geral, embora com alguns pecados não destoam do conjunto. As alminhas tradicionais, talhadas em pedra de granito, também marcam presença na aldeia marcando também assim um traço da cultura portuguesa, pois Portugal é o único país do mundo que possui no seu património cultural, habitualmente à beira dos caminhos, estradas e encruzilhadas, as alminhas, representações populares das almas do purgatório a suplicar rezas e esmolas.

 

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As impressões menos positivas sobre Travassos da Chã estão ligadas ao habitual despovoamento e adivinha-se o envelhecimento da população. Dizemos adivinha-se porque durante a nossa estadia na aldeia só vimos uma pessoa que por sinal era idosa. A maioria das habitações parecem estar desabitadas e muitas estão em mau estado de conservação ou mesmo em ruínas. E vai daí que ver uma aldeia sem crianças, pessoas e animais na rua com as casas de portas e janelas fechadas  e muitas delas em mau estado de conservação ou ruinas não é lá muito agradável de ver, tanto mais  que o enquadramento da aldeia e a proximidade da barragem quase exigem que a aldeia tenha vida e haja alegria nas ruas, mas infelizmente já nos vamos habituando a estes abandonos como um mal geral das nossas aldeias do interior transmontano.

 

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Para finalizar ficam as habituais referências à bibliografia consultada , ou aliás aos sítios da internet, pois na bibliografia consultada apenas encontrámos simples referências à aldeia como pertencendo ao concelho de Montalegre e à freguesia da Chã, não merecendo por isso aqui constar:

 

http://www.ecomuseu.org/index/pt-pt/visite/freguesias/cha/onde-ficar/casa-alto

www.snpcultura.org/

http://www.cm-montalegre.pt/

 

Ficam também os links para as anterior abordagens deste blog ao Barroso e suas aldeias:

 

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Amiar - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-amiar-1395724

Cepeda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cepeda-1406958

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

O colorido selvagem da primavera http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-o-colorido-1390557

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Padroso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padroso-1384428

Pedrário - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pedrario-1398344

Pomar da Rainha - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pomar-da-1415405

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Telhado - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-telhado-1403979

Um olhar sobre o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/2016/06/19/

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

São Pedro - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-pedro-1411974

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 18:05
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Ainda hoje!

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Ainda hoje no "Barroso aqui tão perto" vamos ter Travassos da Chã.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:31
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Pecados e Picardias

pecados e picardias copy

 

Pecados e picardias

 

Coisas que me enervam

 

Já cheira a novo período eleitoral…

Imbuídos dos nossos umbigos, estamos todos preparados para nos lançar à defesa do sexo dos anjos e da lavagem dos pecados em virtudes…

 

Pronto está bem e o outro?oHHHHHHHHHHHh, até parece que foi melhor…

 

Queremos escolher e as opções são tão tão, “olha se votares em nós terás assegurada a pastagem da Maria vai com as outras”, ou vejam-se as “juntas” de freguesias e afins onde se juntam os bons amigos com a mesma “cromática”…E tu com inveja…

Em quem vou votar?...sei lá…

Em mim é que não…como se não me conhecesse…

 

Ressaltam-se virtudes e feitos, escondem-se vícios e não feitos ou malfeitos ou desfeitos e defeitos…

Enfim, vem aí a emergência do sejamos nós mesmo sendo atados…

 

De repente vem a redundância dos mesmos como alternativa à mudança ou será uma espécie de pleonasmo…

 

Só passei para dizer, que são coisas que me enervam…

As campanhas a prometer que não se vai cumprir…

 

 

Isabel seixas

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:29
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Sábado, 30 de Julho de 2016

Redondelo - Chaves - Portugal

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Redondelo outra vez, mas de há tanto tempo que não vem aqui ao blog é como se fosse a primeira vez. Às vezes acontece, sem qualquer razão em especial, acontece, porque o concelho de Chaves tem cerca de cento e cinquenta aldeias e da ronda inicial em que era obrigatório passarem por aqui todas as aldeias, e passaram, o blog passou à fase seguinte de as nossas aldeias passarem por aqui aleatoriamente, um pouco ao acaso, e nesse acaso, algumas vão ficando esquecidas, mas só até um dia, tal como o de hoje com Redondelo.

 

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Vamos lá então até Redondelo, com imagens de arquivo de há seis e oito anos atrás, imagens intemporais, algumas, outras haverá que não resistiram ao tempo passado, essas, ficarão para memória futura, tudo graças à fotografia.

 

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Também para memória futura temos aquilo que é fotografado, apanhado em registo. Um carro de bois, já sem bois e sem a função de ajudar nos trabalhos do campo. Uma fonte de mergulho hoje em dia substituída pela água canalizada que entra nas casas, um tanque com lavadouros, também eles substituídos pelas máquinas de lavar. Tempos modernos com ganhos na comodidade das famílias mas com perdas no convívio e na socialização.

 

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O mesmo se passa com as casas que foram lares de famílias,  que foram importantes enquanto o foram, abrigos que abrigavam quem quis ou pôde ser abrigada por elas, mas que também não tiveram a força de prender gerações com novos quereres ou obrigados a outros destinos.

 

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Enfim, a nós que fazemos o presente feito de muitos passados, resta-nos ir registando estes momentos em fotografia,  que poderão ser documentos num futuro em que façam o presente feito de passados.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:01
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Sexta-feira, 29 de Julho de 2016

Chaves, uma imagem

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publicado por Fer.Ribeiro às 16:10
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Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

As cerejas do Planalto

 

Maio é o mês do ano que mais me chaldra, não só por representar o pino da primavera, em que a natureza mostra o máximo vigor da regeneração, como ainda porque foi neste mês que respirei pela primeira vez em terras de Santo Amaro. Além do mais, é o mês em que a Virgem Maria se mostrou aos pastorinhos na Cova da Iria. Mas é também o mês dos burros, por ser a época em que as fêmeas se levantam à cria! É ainda o mês das maias, tempo em que as giestas exibem as suas cores, pintando de amarelo e branco as poulas que, ao longo do ano, se mostraram tristes e cinzentas.

 

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Maio é também conhecido por ser o mês das cerejas. Mas só se for nas terras mais macias da ribeira, porque, a bem dizer, o mês das cerejas na meseta fria era mais o junho e, o mais das vezes, o julho. E era bom que assim fosse, pois enquanto os donos dormiam a sesta, a rapaziada pendurava-se nos galhos das cerdeiras e enchia o fole. O pior é que o fruto quente tendia a amolecer a tripa e era muito comum, por via disso, andar-se de leque por este mês.

 

Ora, é precisamente à volta das cerejas do Planalto que se escreve a estória de hoje.

 

Cerdeiras, no Planalto do Brunheiro, é coisa rara e preciosa. Quem avezar cerejeira que medre, pode dar-se por muito feliz e acarinhá-la quanto possa, pois somente nos recantos mais merozinhos é que ela se dá e frutifica que valha a pena.

 

No pátio da farta casa de lavoura, tinha a família Morgado de Fornelos uma vetusta cerejeira que o ciclone de 15 fevereiro de 1941 cortara pelo trepo. Antiga e de respeitável porte, a árvore era aneira. Tanto frutificava, abundantemente, num ano, como no outro nem os melros alimentava. Era uma árvore centenária que algum antepassado, de quem já se perdeu a memória, teria plantado, em boa hora. A verdade é que no ano em que lhe desse para produzir, constituía um espetáculo de beleza impar. Uma farturinha!

 

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Contudo, a cerdeira era altaneira e não se oferecia por dá cá aquela palha. Era necessário arrojo para lhe montar os galhos mais altos e alcançar-lhe as repas, onde as cerejas eram mais carnudas e reluzentes! Só com a ajuda do sacho do cebolo é que se conseguiam derrear as galhas mais carregadas e colher as melhores cerejas francesas, rubras, carnudas e de sabor intenso.

 

Na casa dos Morgados, uma única pessoa era capaz de tal empreitada. Tratava-se do João Ranzinza, de Vale do Galo, que veio servir ainda com as calças rachadas no rabo. Fisicamente era talhado para o efeito. Parecia uma levandisca de galho em galho, catando as cerejas para uma cesta que descia por uma corda para vazar e subia para tornar a encher. No entretanto, Ranzinza aproveitava para atestar o bornal. Oportunidade única, dada a penúria da época!

 

Muitas das vezes, as cerejas do pátio dos Morgados serviam para pagar favores aos senhores da cidade. Ao médico, pela disponibilidade de uma consulta, ao veterinário, que salvara um boi galego empertigado ou uma vaca afogada e ao advogado que dera bons conselhos sobre um caminho de serventia ou a torna da água no Lameiro Grande!

 

A matriarca da família, oriunda da Invicta, tinha por lá muitos parentes que aproveitavam a fresca do Planalto para passar férias no verão. Vinham no comboio até Chaves e depois subiam os dezassete quilómetros do macadame da encosta do Brunheiro alapados nos bancos corridos montados pelo Soqueiro no carro de bois que se disponibilizava para o transporte até Fornelos, lugar limite do concelho de Chaves, sito nos Cornos do Planalto.

 

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A primavera daquele ano de finais da década de trinta foi muito molhada. A canabeque, semeada em março, apodreceu na terra e teve de ser replantada em abril. O centeio, que se segaria no verão, estava tolheito. Chovera desalmadamente desde março e até ao S. João. Não fosse uma pequena trégua no mês de abril, que permitiu que as flores da cerejeira polinizassem, e não se enxugaria uma cerejinha que fosse. Mas, apesar de tudo, a coisa correu bem e, contrariamente ao que era previsível, foi um ótimo ano de cerejas.

 

Do Porto, costumava vir de férias para Fornelos o Antenor, um velho guarda-freio da Carris, já aposentado, pai da matriarca de Fornelos. Contador de estórias, poeta do improviso e cantador à desgarrada que acompanhava à rabeca, era um homem polido e de grande sapiência. Muito considerado pela idade avançada, o facto de ser tripeiro também lhe conferia um estatuto especial no Planalto. Por isso, os seus conselhos e os seus desejos eram sempre muito bem acolhidos. Vinha a ares, consolidar a cura, milagrosa, de uma tísica que o ia chimpando, mas igualmente com o cheiro nas cerejas do pátio, fruto que ele tanto apreciava. No Porto, lerpava as cerejas de Resende que chegavam a S. Bento no comboio a eram apregoadas pelas ruas da cidade. Todavia, vinham, quase sempre, carregadinhas de bitchos e, além do mais, custavam os tostões que faziam falta para a sêmea. As de Fornelos eram de borla e à tripa forra!

 

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Nesse ano, chegou a meados do mês. A cerejeira do pátio estava pojante. Carregada de pérolas rubras, parecia o andor do S. Caetano pejado de notas de vinte mil-réis. Tentadora, para o comum dos mortais, para o velho Antenor constituía uma espécie de Éden que o levaria, por certo, ao êxtase.

 

No dia seguinte à chegada, pela manhã, solicitou os favores do Ranzinza para lhe encher uma cesta da meia de cerejas. Levaria uns dois quilos, mais ou menos.

 

João, depois de ir tocar a cria ao Belão, subiu à cerdeira. Usou uma escada enquanto não pôde abarcar o tronco, depois foi a pulso. Pendurou ao cinto o tal sacho do cebolo para alcançar os galhos mais finos e colher os melhores frutos. Ranzinza era muito solícito e o amigo Antenor agraciava-o, quase sempre, com dois ou três tostões para tabaco.

 

A cesta ficou cheia em menos de um Padre-nosso.

 

O Antenor esperava a fruta no cimo das escaleiras de perpianho, sentado num velho banco de carvalho. A cesta de vime, cheia, caiu-lhe no colo e ele nas cerejas!..

 

Pediu para que o criado se sentasse ao seu lado, não para as partilhar, mas para dois dedos de conversa atualizando novidades.

 

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Comeu, comeu e comeu. Foi até lhe chegar com um dedo!

 

Regalou-se!..

 

Havia sobrado uma única cereja no fundo da cesta. Antes de a emborcar perguntou:

 

— Ó rapaz, as cerejas terão mourrões?

 

Que não, as cerejas do Planalto não costumavam ter a carne. Mas que a olhasse!

Abriu cuidadosa e demoradamente a última cereja e topou, junto ao caroço, um anafado mourrão branco a rabiar!

 

Virou-se para João e comentou:

 

Fosca-se, Ranzinza, olha se me dá para comer esta!..

 

— Ó amigo Antenor, não teria problemas, os mourrões das nossas cerejas são limpinhos, pois são criadinhos cá em casa!

 

Desta vez os tostões da gorjeta quedaram-se no porta-moedas de couro ensebado do Antenor e o João a ver navios, ao longe, cruzando os horizontes das serras do Barroso!

 

Gil Santos

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:27
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Quinta-feira, 28 de Julho de 2016

Chaves, Capela da Lapa

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Eis uma imagem daquilo que a cidade de Chaves vai tendo de melhor, a par do património arquitetónico militar, com os dois fortes, e restos das muralhas medievais e seiscentistas, sem esquecer a torre de menagem, acrescentando ainda o património da arquitetura religiosa com a Igreja de Stª Maria Maior, Igreja da Misericórdia, Igreja S.João de Deus e capelas da Stª Cabeça, Stª Catarina e Capela da Lapa, entre outras.

 

A imagem de hoje é da Capela da Lapa,  construída no Século XVIII, com localização privilegiada.  Ouro sobre azul se não fossem as funções de casa mortuária que ao longo das últimas dezenas de anos lhe é destinada sem ter o mínimo dos mínimos de condições para tal. Hoje em dia é vergonhoso para a cidade de Chaves dizer que tem como casa mortuária a Capela da Lapa. Os que partem e os entes queridos que se associam à sua partida mereciam/merecem um pouco mais de dignidade num ato tão nobre.   

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 22:46
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Flavienses por outras terras - Rogério Coelho

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Rogério Coelho

 

Nesta crónica do espaço “Flavienses por outras terras” vamos até ao centro do país, mais concretamente até Coimbra, a cidade dos estudantes.

 

É lá que vamos encontrar o Rogério Coelho.

 

Mapa Google + foto - Rogério Coelho.png

 

Onde nasceu, concretamente?

Nasci na aldeia de Faiões.

 

Nos tempos de estudante, em Chaves, que escolas frequentou?

Frequentei a Escola Primária de Faiões, até ao 4º ano, depois a Escola Nadir Afonso, do 5º ao 6º ano, a Escola Dr. Júlio Martins, do 7º ao 9º ano, e por fim, do 10º ano ao 12º ano, o Liceu Fernão de Magalhães.

 

Em que ano e por que motivo saiu de Chaves?

Saí de Chaves no ano de 2003 para ingressar no curso de Geografia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

Em que locais já viveu ou trabalhou?

Desde a saída de Chaves, em Coimbra.

 

Diga-nos duas recordações dos tempos passados em Chaves:

Separaria as vivências em Chaves em duas grandes recordações. Os tempos passados em Faiões, onde qualquer terreno ou caminho público eram o melhor dos estádios, e bastava para isso um grupo de amigos, uma bola e duas pedras a servirem de baliza.

 

Por outro lado, destacaria os tempos vividos enquanto estudei no Liceu Fernão de Magalhães, onde pertenci a uma turma bastante pequena e muito unida, onde se fizeram amigos para uma vida. Foram três anos a estudar lá e considero que aí se formou boa parte da minha personalidade.

 

Proponha duas sugestões para um turista de visita a Chaves:

Sem dúvida a beira-rio da cidade, começando pelas nossas Termas. Provar um copo de água quente e desfrutar de toda a zona ajardinada que ladeia as margens do Tâmega. Conhecendo relativamente bem o país, diria que as nossas margens do Tâmega são, sem dúvida, algo de que todos nos devíamos orgulhar. Depois, destacaria uma visita a Faiões para ver a sua Escola Primária, um edifício cada vez mais reconhecido como sendo a mais bela escola primária do país e que talvez devesse ser mais valorizada e promovida. O potencial é cada vez mais notado e reconhecido, até mesmo pela comunicação social nacional, com reportagens recentes na televisão pública RTP.

 

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Estando longe de Chaves, do que é que sente mais saudades?

Saudades do ritmo de vida da nossa cidade, as recordações de que o tempo em Chaves ainda passava de forma lenta. Saudades de que a maior preocupação em relação aos horários era a de apanhar o autocarro na hora certa para a cidade para estudar.

 

Com que frequência regressa a Chaves?

Normalmente regresso a Chaves a cada um ou dois meses, é sempre o porto seguro, o local para voltar às raízes e onde sentimos que é a nossa verdadeira casa, o local para carregar baterias.

 

Gostaria de voltar para Chaves para viver?

Quem sabe um dia não acontece? Apesar de trabalhar com Tecnologias de Informação e Comunicação e ter a noção que neste mundo é um pouco indiferente onde se vive para o desenvolvimento de negócio, a verdade é que na prática a mão-de-obra está concentrada nas maiores cidades do país e as oportunidades comerciais tendem também a centrarem-se nesses polos de atração. Apesar de todas as ferramentas de comunicação do século XXI, a verdade é que as decisões, na sua grande maioria, são ainda tomadas olhos nos olhos. Talvez por isso, ainda esteja distante o dia em que possa pensar de forma séria em voltar para Chaves.

 

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O espaço “Flavienses por outras terras” é feito por todos aqueles que um dia deixaram a sua cidade para prosseguir vida noutras terras, mas que não esqueceram as suas raízes.

 

Se está interessado em apresentar o seu testemunho ou contar a sua história envie um e-mail para flavienses@outlook.pt e será contactado.

 

Rostos até Rogério Coelho.png

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Julho de 2016

Cidade de Chaves - Os anjos da Madalena

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Pena tanta beleza estar lá no alto sem permitir ser devidamente apreciada.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:10
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Quente e Frio!

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III

 

Comido o «mil-folhas» e bebido o «pirolito» do “Aleo”, o “Rapaz da Terra Quente” e o “Rapaz da Terra Fria” tomaram o caminho da casa onde tinham quarto alugado.

 

Espreitaram para o “Pompeia”, pararam para ler as capas das Revistas, no “Bragança”, dobraram a esquina do “Santoalha” e, quando leram “Parreco” na cumieira de uma porta, riram-se ambos ao mesmo tempo, olharam um para o outro e foi então que perceberam que levavam o mesmo caminho.

 

Bem, um, o “Rapaz da Terra Quente”, morava perto do “Macário”, na Rua do Rossio; o outro, o “Rapaz da Terra Fria”, perto do “Areias”, à entrada da Ponte.

 

A montra do “Real” era a mais moderna da cidade. E até ganhava às da Rua Direita, mesmo à do “Castelo” ou à do “Rendeiro”!

 

Ambos dois” param para ver a montra da frente, andar à volta e cobiçar as camisas!

 

1600-vila-real (74)

 

Pelas escaleiras da Capela Nova desciam duas cachopas, vestidas de igual, de cor trigueira, e cheias de graça.

 

O coração do “Rapaz da Terra Quente” deu um salto!

 

O coração do “Rapaz da Terra Fria” deu um pulo!

 

Ficaram sem fala.

 

Nem o barulho do Latoeiro, a deitar uma asa a um cântaro; nem as provocações do Miguel ao «Birtelo», que levava um recado, ou as do Dionísio ao «Zé d’Abaças», que levava uma encomenda, interromperam a contemplação em que ficaram aqueles dois!

 

Sem dizerem palavra, seguiram-nas. Tinham virado à direita e subido a Rua das Pedrinhas.

 

Lá no cimo da rua, elas entraram por uma porta viradinha para o “S. Pedro”.

 

No Largo, e no pequeno Miradouro, estudantes da Escola Comercial e Industrial misturavam-se com Bombeiros.

 

Chegados ao “Largo de S. Pedro”, pararam frente ao escritório do “Cabanelas”. Continuando sem voz, fizeram que olhavam para a Igreja, para a montra do “Amândio”, sempre muito colorida com pares de meias e camisas, e, de esguelha, para a porta e janelas da casa onde «desapareceram» as suas visões.

 

Enfeitiçados, desceram a Rua Cândido dos Reis.

 

Pararam na esquina da “Casa Calado”.

 

Olharam um para o outro. E com um aperto de mão, a dar uma ajuda ao desaperto da voz, despediram-se com um «até amanhã» cheio de cumplicidade subscrita pelo olhar.

 

(continua)

 

 

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Terça-feira, 26 de Julho de 2016

Cidade de Chaves - Uma imagem com janelas e varandas

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Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

3 - PÉRIPLO

 

Com um grito contido, Aurora deixou o pretume do café ainda quente escorrer pelo chão da cozinha. Transformaram-se em cacos de pétalas as flores de uma bela chávena, perfeito exemplar das porcelanas de Vista Alegre, que a tia Hortênsia trouxera de presente para Mamã, em algum Dia de Reis. Olhou por entre névoas d’água para os olhos de Zefa de Pitões, a ama querida, ainda estarrecida pelo que a pobre menina acabara de confessar – Que hei de fazer, minha boa Zefa, que hei de fazer?! – e, sem dizer mais um ai, desceu correndo a pequena escada e galgou o pomar.

 

Zefa ainda esboçou um gesto para detê-la, a oferecer o avental que lhe enxugasse as lágrimas, como tantas vezes fizera quando a sua menina era miúda. Sabia, porém, que ela agora já se fizera mulher. Sabia, também, que o peso desta condição, desde os tempos que se perderam nos idos da Humanidade, caía sobre a jovem como um volumoso e cruel fardo de perdas e danos.

 

Qual Mater Dolorosa de um messias que apenas se anunciava, mas já se o percebia agarrado à mãe, como se fosse à cruz, a rapariga apoiou-se no frondoso chorão, atravessou por entre as macieiras e pés de laranja, chegou até ao portão dos fundos, deu a volta e, encostando-se ao muro externo da propriedade paterna, a Quinta Grão Pará, deteve-se na primeira estação de sua pessoal via crucis – Pelo bom Deus, que a tudo há de perdoar... o que fizeste, Aurora, o que fizeste?! Não obraste sozinha, por certo, mas... – Considerava, em sua mente confusa e abalada, diante dos escarpados alicerces de sua formação judaico-cristã, cair para si mesma a maior parte da culpa, esta angustiante sensação de sujeira íntima e cuja expiação acompanha os pretensos pecadores por todo o porvir.

 

1600-11174

Caneiro - Ribeira do Caneiro

 

Nuvens prenunciavam uma tormenta prestes a desabar, mas nenhum raio enviado por Thor, ou algum outro deus dos celtas, alanos, suevos, godos e visigodos, impropriamente chamados de Bárbaros e aqui habitantes, por algum ou por muito tempo, seria mais implacável do que os tormentos que lhe iam n’ alma. Apressou os passos, quase a correr pela Rua (então Estrada) do Raio X, assim chamada por fazer um X com a Avenida D. João I, sem nem dizer bom-dia aos poucos transeuntes amanhecidos. A seguir, tomou essa Avenida e, diante da pequena ponte sobre o Ribeiro do Caneiro, com suas águas a chilrear por entre os pedregulhos, parou para cumprir a sua segunda estação de suspiros e ais:

 

– Que tens na cabeça, Aurora, que sejam bem mais do que esses fios de ovos dourados, que te não fazem toucinhos- do-céu nem barrigas-de-freira? Que estranhas lêndeas se depositaram em teus miolos enovelados e te enchem de preocupações? Que factos são esses que amargam a saliva de tua boca silente, como nozes colhidas bem verdinhas ou vísceras de fel em uma sardinha mal estripada?! – Comparou, então, os pingos de tristeza que lhe desciam à face com o singelo fio d’água no ribeiro. Este ia dar ao Tâmega. Os fios de seus olhos, no entanto, a que rio e a que mares iriam desaguar? Em que turbilhão de ondas impossíveis de serem desfeitas iriam se desfiar?

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

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Segunda-feira, 25 de Julho de 2016

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

Como se escreve um haiku

 

Tenho uma vida tão ocupada, mas gosto tanto de poesia, que a leio em voz alta enfiado no carro enquanto as escovas cilíndricas da lavagem automática fazem o seu serviço. Leio Herberto Helder, Al Berto, António Ramos Rosa, Fernando Echevarría, Fernando Pessoa, etc., tendo como música de fundo os sons mecânicos da estrutura metálica que vai e vem fazendo chuva e depois insiste novamente soprando forte ventania na chapa metálica do meu bólide. Pode não parecer logo à primeira vista, mas um carro a brilhar também tem a sua poesia.

 

Mas não é de lavagens automáticas que vos quero falar hoje. A bem dizer, hoje não sei bem do que vos quero falar. E seguramente também não é do meu carro. Podia falar-vos de política, mas não tenho vontade. O que por aí abunda mais são comentaristas políticos, chorões e aldrabões. As televisões estão cheias deles. Há muito quem comente e pouco quem faça. E nas lavagens automáticas também se comenta muita coisa, mas faz-se pouco. São as máquinas quem faz o trabalho árduo. E essas possuem a rara virtude de nada comentar. Limitam-se a fazer o seu serviço com qualidade. Nas estações de serviço comenta-se o futebol, o preço da gasolina e o tempo. Podemos mesmo dizer que Portugal é um país de comentaristas e pessoas que lavam os seus carros nas lavagens automáticas.

 

As pessoas que vão às estações de serviço gostam muito de comer bolos e beber café. Gostam especialmente de natas, mas também se deleitam com queijadas, croissants, madalenas ou bolas de berlim. As pessoas quando comem, sobretudo bolos, ou bolachas, ou torradas sem manteiga, também têm muita poesia. Especialmente as que comem muito e não engordam. Essas são pessoas afortunadas. Por isso podem ler poesia à vontade pois não lhes provoca efeitos secundários. Não sei se sabem, mas a poesia provoca muitos efeitos secundários. Sobretudo a boa. A outra dá ressaca ou provoca azia.

 

Quando vou a uma lavagem automática, por vezes ponho a música alto para experimentar o som da aparelhagem do meu bólide. E ela tem um som que inebria. Eu comprei o meu bólide, que é um carro sport cheio de genica, por causa, sobretudo, da aparelhagem. Aquela aparelhagem tem muita poesia, é a modos que um poema do Al Berto repleto de vitalidade e sublimação. Depois também gosto de contemplar as gotas de água a deslizar pelo vidro traseiro do meu bólide. Muitas vezes pego na minha Nikon de bolso e fotografo o vidro pejado de linhas sinuosas desenhadas pelas gotas de água sopradas pela maquineta.

 

A minha Nikon de bolso também tem muita poesia. Comparo-a aos poemas haiku. E aqui vos deixo um de minha autoria: No carro sujo / a água / escreve. E é disto que hoje vos vou falar, da poesia haiku e da nobre arte de a escrever.

 

À primeira vista o poema de apenas três versos parece pequeno. E é pequeno. Todos os poemas haiku são pequenos. Têm todos apenas três versos. Mas isso não quer dizer que não deem muito trabalho a escrever. A poesia é um trabalho árduo. O seu resultado pode parecer singelo, mas não é. Chamo no entanto a vossa atenção para o facto de que o que a seguir se dá conta pode ser o resultado (e foi) de muito mais trabalho do que aquilo que parece. Posso dizer-vos, sem comprometer a minha discrição, que fiz dezasseis cortes, dois acrescentos e cinco revisões.

 

Agora, se estão dispostos à explicação, façam o favor de me seguir. Para escrever o meu haiku comecei por: O meu carro preto e sujo / quando está na lavagem automática a apanhar com a água / fica como se tivesse sido escrito. Convenhamos que assim não fica lá grande coisa. É muito extenso. Há palavras a mais em todos os versos. Então temos de o trabalhar.

 

Desfazemo-nos logo no primeiro verso do pronome possessivo e do primeiro adjetivo, pois os dados relativos ao proprietário da viatura e à sua cor (não a cor da proprietário, bien sûr, mas sim a do bólide) não interessam ao leitor, nem importam à qualidade do poema, nem aproveitam à excelência da linguagem poética, por isso vão fora. O primeiro verso fica então: O carro sujo

 

No segundo verso decido-me por um corte radical (ou melhor será dizer, uma barrela) e fica apenas o nome final que é o elemento fundamental. Então ficamos apenas, e só, com o artigo definido e o nome: a água… Mais um pouco e era harakiri (腹切り) puro, ou Seppuku (切腹). Mas a arte está em saber o que cortar e quando parar.

 

Relativamente ao terceiro verso decido-me mesmo pelo Seppuku (切腹), ou harakiri (腹切り), por isso vai todo à vida e substituo-o pela forma verbal escreve. Sendo assim temos: O carro sujo / a água / escreve.

 

Ficando deste modo, o artigo definido “o” do primeiro verso tem de ser combinado com a preposição “em” para dar lugar à preposição mais artigo “no”.

 

Sendo assim, a versão final fica desta forma: No carro sujo / a água / escreve. 

 

Podem os amigos leitores comentar que o único adjectivo também podia ir à vida. E até podia, sim senhor. Mas para a água escrever algo que se veja, o carro, na minha perspectiva, tem de estar sujo. E essa foi a razão por que deixei na terceira posição o adjetivo a adjetivar o que tinha de ser devidamente adjetivado.

 

E por hoje é tudo. 

 

João Madureira

 

 

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Domingo, 24 de Julho de 2016

O Barroso aqui tão perto... Pomar da Rainha

1600-pomar-rainha (2)

montalegre (549)

 

Nas minhas incursões ao Barroso, Pomar da Rainha calhou no meu caminho em maio passado. Embora as fotos sejam um bom auxiliar de memória, há coisas que não se podem fotografar, tal como o frio ou o calor, o vento, os aromas, os sons e as sensações que os lugares provocam. Por estas razões, para memória futura, vou apontando num pequeno bloco essas coisas que as fotos não registam. Como maio já lá vai e desde que fui a Pomar da Rainha já visitei mais de duas dezenas de aldeias do Barroso, fui ver (ler) as notas que tinha no meu bloco sobre esta aldeia.

 

1600-pomar-rainha (4)

 

Pois no tal bloco sobre a aldeia apenas consta:

- 2 cães, um preto e um castanho;

- Zero pessoas

- 1 touro barrosão e muitas vacas barrosãs entre outras raças,  sozinhas pela rua acima e sozinhas entraram para a pastagem;

Isto foi o que de mais importante decidi registar nos cerca de 40 minutos que estive em Pomar da Rainha, pois tudo o resto está em fotografia.

 

1600-pomar-rainha (13)

 

Notas que pouco ajudam à feitura deste post e que apenas descrevem os instantes em que estive no Pomar da Rainha, uma pequena aldeia da freguesia de Salto do concelho de Montalegre. Pois embora não tivesse encontrado pessoas na aldeia, é notório que a aldeia é habitada, não muito, mas esse é um mal comum a todas as aldeias por onde vamos passando. Quanto ao gado à solta, é também coisa comum no Barroso, mas este que vimos por lá não andava propriamente à solta, antes tivemos a sorte de assistir a um dos seus itinerários entre pastos ou entre a corte e o pasto. Quanto aos donos, embora não os tivéssemos visto, pela certa que andavam por perto.

 

1600-pomar-rainha (9)

 

Sobre o pomar e a rainha, também não os vimos, nem o pomar nem a rainha e tão pouco sabemos a origem do topónimo. De gente nobre do reino, nas redondezas, apena temos conhecimento de Leonor de Alvim que esteve casada com Nuno Álvares Pereira, os pais da mulher do nosso duque D. Afonso, o mesmo que tem estátua em frente ao edifício da Câmara Municipal (de Chaves) e ao lado de onde teriam sido os Paços do Duque, junto à Torre de Menagem. Mas isto é apenas um aparte que aprofundaremos quando passarmos pela aldeia de Reboreda, também da freguesia de Salto, e apenas a cerca de 3,5 quilómetros (em linha reta) de Pomar da Rainha. Daí, mas apenas sou eu a supor, que talvez até haja alguma ligação entre D. Leonor de Alvim ou D. Nuno Alvares Pereira ou D. Afonso e o topónimo de Pomar da Rainha.

 

1600-pomar-rainha (43)

 

Mas nestas coisas da História as coisas valem o que valem e não sendo eu historiador, as minhas suposições não têm qualquer valor. Por outro lado, as suposições de um historiador, tipo José Hermano Saraiva, passam logo à História, tal como aconteceu com o Camões e Vilar de Nantes… mas isto é outra estória.

 

1600-pomar-rainha (23)

 

Vamos lá a Pomar da Rainha, uma pequena aldeia às portas de Salto rodeada de terras aparentemente férteis, pelo menos a jugar pelo tamanho de um espigueiro que registámos em fotografia. No entanto hoje em dia, a maioria dos terrenos férteis do Barroso estão dedicados a pastagens, o que,  se por um lado agricultura fica a perder, por outro,  ganha-se na qualidade das carnes da vitela barrosa e na gastronomia do Barroso.

 

1600-pomar-rainha (29)

 

Estamos também bem longe do Alto Barroso. Aqui em terras onde o verde é predominante, o que não é de admirar, pois a freguesia de Salto está “enclavada” entre o concelho de Ribeira de Pena, terras de Basto e Vieira do Minho.

 

1600-pomar-rainha (41)

 

Pois a freguesia de Salto é um dos outros Barrosos ao qual eu me referia no último post de “O Barroso aqui tão perto”, com características próprias e bem diferentes das outras pequenas regiões barrosãs dentro do Barroso, principalmente do Alto Barroso.

 

1600-pomar-rainha (22)

 

E é tudo por hoje, pois também sobre o Pomar da Rainha nada encontrei nas minhas pesquisas. Apenas referências à aldeia como sendo da freguesia de Salto. Assim, na ausência de palavras sobre a aldeia, privilegiamos as imagens para, pelo menos, termos uma ideia sobre como é o Pomar da Rainha. Sem pomar e sem rainha.

 

1600-pomar-rainha (56)

 

Como já vem sendo hábito, ficam os links para as anterior abordagens ao Barroso, hoje sem referências a consultas, não por ausência de consultas, mas por ausência de conteúdos nas mesmas.

 

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Amiar - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-amiar-1395724

Cepeda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cepeda-1406958

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

O colorido selvagem da primavera http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-o-colorido-1390557

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Padroso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padroso-1384428

Pedrário - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pedrario-1398344

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Telhado - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-telhado-1403979

Um olhar sobre o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/2016/06/19/

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

São Pedro - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-pedro-1411974

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:54
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Sábado, 23 de Julho de 2016

Castelo de Monforte - Chaves - Portugal

1600-castelo-monf (39)

 

 

 

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