Quarta-feira, 1 de Março de 2017

Cartas ao Comendador

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Meu caro Comendador (14)

 

Lembra-se daquela nossa conversa, subitamente interrompida, em que falávamos de nostalgia?! O senhor a dar uma gargalhada franca e eu sem perceber o que se passava, por estar a misturar os três marcos do tempo: passado, presente e futuro?! Pois, com as limitações que tenho e que honestamente assumo, entendi agora! Continuo a louvá-lo por me “obrigar” a retomar a consciência sempre que o meu pensamento anda perdido, divaga, vagueia e em vez de me chamar tolo, como seria vulgar entre os mortais, o senhor remete à suposta inteligência que me reconhece eu ter! Agradeço-lhe por essa atitude! Quantas vezes duvido disso mesmo, quando no relacionamento social não encontro par e apenas conflito! Só o senhor para me fazer entender, mais do que isso, aceitar, que nem todos temos as agulhas aferidas no mesmo sentido ou no momento certo e que a dificuldade reside não na limitação da comunicação entre pares, mas tão só no facto de estarmos em horas diferentes no mesmo local! Como é que eu haveria de perceber isto sem que fosse o senhor a dizer-mo?

 

Já uma vez falámos disto e não chegámos a conclusão nenhuma por estarmos de acordo: quem diz o quê? Se fosse outro a dizer-mo, eu nem sequer o ouvia, mas, posto que é o senhor, eu dou a isso uma importância extrema! Bem me conhece, instalada a questão dá-me conforto colocar-lha. Porque é que eu hei-de reconhecer como supremo aquilo que é o senhor a dizer-mo quando se fosse um outro eu não gastaria sequer dois segundos a escutar? Voltemos mais atrás. As mesmas coisas têm para mim critérios diferentes dependendo da consideração que eu tenho por quem emite essas opiniões! E, está mesmo a ver qual é a dúvida, se eu me engano? Ou, o que não é o mesmo, se eu me deixo enganar, porque a relação que tenho com quem se manifesta dessa forma é uma relação estreita? Lá estamos nós outra vez a misturar as coisas, a ter critérios de ponderação diferentes para as mesmas coisas por existir um sentimento de base a toldar-nos a razão! Como é que isto se contorna? Ou será que podemos deixar assim?

 

Já discutimos bastante sobre a emotividade e o raciocínio! Como é que nos livramos desta dupla? O senhor e eu sabemos que esta questão não é fácil e se bem que alguns de nós passem ao lado disto, por defeito de alguns, naqueles que nos valem a pena, esta questão é fundamental! Estamos aqui, entregues a quem? Era tão mais fácil pertencer à generalidade!

 

Começamos a perceber o facilitismo e a conveniência do ser idêntico a, do pensamento colectivo, e não conseguimos, talvez por deformação de base, seja ela genética ou de formação, aceitar que, ainda assim, é o sermos diferente de, uma vantagem! Nas circunstâncias habituais, digo, nas mais das vezes, isso é entendido como um handicap!

 

Mas, vale-me o senhor! Chegados aqui, pergunto-lhe se a ambiguidade é para si um acréscimo ou um défice!? Digo, mais precisamente, se o critério interior que temos de permitir a uns tudo e a outros nada, é uma conquista nossa, racional e ponderada ou um desvio comportamental?

 

Nesta fase da nossa vida, quando alguém nos aborda, independentemente do que nos queira dizer, nós já temos a resposta! Rapidamente vamos ao arquivo, apelamos à memória e emitimos pareceres que não têm às vezes rigorosamente nada a ver com quem está à nossa frente ou sequer com o que nos é dito!

 

Estamos militarizados, talvez a palavra seja forte, mas neste momento não encontro outra para ilustrar esta atitude quase formatada de nos defendermos sem que haja ninguém a atacar-nos!

 

Sim, concordo novamente consigo, é um reflexo! Ao longo da nossa existência fomos confrontados com situações que exigiram da nossa parte uma reacção, uma decisão, uma atitude, uma resposta e, por culpa disso, ficámos naturalmente treinados a ponto de agora, quando alguém nos faz um louvor, uma festa, um elogio, seja o que for, nós reagimos desproporcionadamente! A pessoa que emitiu esse gesto não entende a nossa reacção e acha-nos desajustados, inadaptados, esquisitos! Alguns de nós fogem neste momento, outros ficam. Os que ficam têm ainda uma oportunidade, os que fogem renunciaram a ela sem ter consciência disso!

 

Eu continuo aqui, sem distinguir o bem do mal e o mau do bom! Tenho por sistema não julgar ninguém sem que o próprio mo explique, mas na maioria das vezes o outro não sabe ou não quer. A quem não sabe, eu permito-o, a quem não quer, eu não entendo!

 

Nada disto seria grave nem teria qualquer implicação não fosse esta cruz de ter um pensamento activo que julga o passado e as consequências dele no futuro deixando por viver o presente, o único que interessa! E, sendo isto em mim consciente, o problema é plural: porque faço isso e o que me impede de fazer o contrário disso?

 

Disse-me uma vez, o senhor lembrar-se-á certamente disso, que só há uma atitude sábia: viver cada dia como se fosse o último e eu, péssimo aluno, faço exactamente o contrário: vivo cada dia como se fosse o primeiro! O primeiro de muitos que não tenho a certeza de ter, mas em que tenho a necessidade absoluta de acreditar, porque só isso poderá justificar a lentidão com que atinjo os objectivos ou as metas que idealizei para mim no útero materno, desconhecendo na altura as dificuldades do mundo real para o qual um dia havia de nascer, antes ou depois do tempo!

 

Sempre um abraço, deste seu amigo

 

José Francisco

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 16:30
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E venha a Páscoa que o Carnaval já lá vai

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Venha então a Páscoa que o Carnaval já lá vai. Aliás cá na terrinha se não fosse tradição gastronómica associada ao Carnaval, nem dávamos por ele, isto se nos referirmos só à cidade de Chaves. Agora se quisermos presumir e dizer que somos da eurocidade Chaves-Verin, aí a cantiga já é diferente, pois ali ao lado os nosos irmáns galegos, não brincam com o carnaval  ou entroido, levam-no a sério, ou seja, brincam muito e divertem-se ainda mais com ele, e não é coisa para um dia, mas praí uns 15 dias de loucura.

 

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Talvez seja por esta falta de tradição do carnaval em Chaves que é uma das festas que a mim, pessoalmente, pouco ou nada me diz, a não ser pelas iguarias que vão à mesa e seria um dia como outro qualquer.

 

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Venha pois a Páscoa que, verdade se diga,  é outra das festas que também nada me diz, isto se é que podemos considerar a Páscoa uma festa. Claro que há as iguarias ligadas à Páscoa, como o folar e mais recentemente por força da publicidade comercial os chocolates. Também aqui como não sou lá grande amante do folar nem dos chicolates, a festa da mesa também me passa ao lado, ainda pra mais que hoje em dia, folar,  há-o  todos os dias nas padarias da cidade e ainda por cima é caro comó coiso! Mas o que chateia mesmo é que agora começa aquela cena do jejum, uma chatice. Está claro que ninguém me obriga a jejuar, mas que remédio eu tenho, pois como não cozinho as minhas refeições, tenho que me render àquilo que põem  à mesa ou está disponível na ementa, mas com um bocadinho de sorte temos uma bacalhoada e a coisa fica mais composta.

 

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E tudo se comporia se a seguir à Páscoa tivéssemos por cá uma grande festa, mas nada, desde o Natal (festa que eu gosto) até à Feira dos Santos, cá na terrinha em termos de festas é como é um grande deserto que temos de atravessar, quando muito há umas sardinhas acompanhadas de uns copos e umas modinhas musicais populares lá para o S.João e S.Martinho, mas em pequenas festas de amigos ou familiares, e mais nada. Se não fosse pela abundância de grandes superfícies comerciais e armazéns dos chineses, Chaves seria uma tristeza ou como diz o meu amigo escritor, seriamos uma “Crónica triste de névoa”, cheia de macambúzios deprimidos.

 

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Ah!, ainda ao respeito do parágrafo anterior e dos nossos sítios de diversão, temos a vantagem de estarem abertos aos sábados e domingos, senão o que seria de nós aos fins-de-semana, desejosos e ansiosos pelas segundas-feiras para irmos trabalhar, pois enquanto estamos ocupados não pensamos nessas coisas que só acontecem nos tempos livres ou tempo de lazer, como o pessoal das ciências humanas gosta de chamar. Um direito, dizem!

 

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Já quase pareço um queixinhas. Agora a sério, a verdade é que não necessitamos nada dessas coisas de festas de rua onde se mistura de tudo, com gente a tresandar a suor, bêbados, os casas de cinema com gente a comer pipocas e fazer barulho que nem deixam ver um filme, ou teatros para nos armarmos em intelectuais quando toda a gente gosta de cinema, ou concertos musicais onde só vão putos bêbados e drogados com música de furar os tímpanos, foguetes no ar que só poluem a atmosfera e assustam os passarinhos…

 

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Para quê querer isso tudo se agora temos tudo em casa, o que quisermos, sentados comodamente no nosso sofá. Basta ter um televisor, um computador e uma ligação à internet et voilá, ora estamos a ver um bom filme, a assistir a um bom concerto musical ao vivo com a vantagem de podermos ir comentando com os mais de mil amigos que temos no facebook, além de muita mais coisa que se pode fazer, que eu bem sei. Convém é ter umas bejecas no frigorifico, não vá dar-nos sede a meio da noite… Ah! ainda com a vantagem de que em casa, onde houver mais gente além de nós, não somos obrigados a assistirmos todos ao mesmo, pois cada um no seu sítio, com  a sua televisão, o seu portátil, tablet ou até telemóvel, desde que haja Wi-fi, e está tudo resolvido e se tivermos filhos daqueles que ainda nos obedecem, de vez em quando podemos mandar-lhes uma mensagem para o telemóvel do género: “ Vai ao frigorífico e traz-me uma cerveja que não quero interromper o filme”, ou então se formos mais responsáveis, uma do género: “ vê se te deitas que amanhã tens de te pôr a pé cedo”. Uma vez mandei esta à minha filha e ela respondeu-me: “ Ó pai, acordaste-me, já estava a dormir!”…

 

E com esta me vou!

 

As fotos são do Domingo Corredoiro de Verin.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:58
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