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Sexta-feira, 17 de Março de 2017

O Factor Humano

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10 contos de reis, sem notas - 3

 

A vida é de cada um

 

Era o meu doente mais idoso e, de alguma forma, o mais distinto. Idade para ser o meu avô, gosto pela conversa pausada. Educação extrema, só se sentava depois de eu o fazer. Chapéu por vaidade ou hábito, bengala por necessidade, embora mantivesse um andar digno, subtil e graciosamente equilibrado por aquele bastão elegante.

 

Algumas tragédias na sua vida, a morte acidental de um neto, o falecimento de um filho com cancro, a morte da mulher, após demência precoce prolongada.

 

Mantendo sempre a cabeça levantada, gostando de conversar sobre tudo e nunca procurando promover a pena ou a compaixão por ele.

 

O senhor A. vinha sempre à consulta acompanhado por uma senhora, bastante mais nova, na casa dos cinquenta anos, roupa humilde, quase sempre silenciosa. Não se comportava como familiar, tratava-o com uma consideração expectável na relação com os mais velhos.

 

Escassas palavras comigo, o estritamente necessário para esclarecer o circuito da consulta e das análises e para clarificar a toma dos remédios. O senhor A. tinha uma doença crónica que inspirava alguma preocupação, mas não limitava a sua autonomia, nem a sua capacidade física.

 

Apesar das referidas agruras da vida, na sua conversa pausada havia alegria e firmeza, temperadas por quase 90 anos de experiências.

 

Um dia apresentou-se sozinho na consulta. Não comentou porquê e eu respeitei a reserva. Pareceu-me mais triste, mais calado, mas na altura não valorizei.

 

Na vez seguinte, de novo veio só, ainda mais cabisbaixo, menos falador. Confrontei-o com a sua tristeza e a ausência da senhora. Com um suspiro prolongado tentou ser reservado e arrumar o assunto. Mas eu insisti. Pareceu-me então ficar aliviado para poder falar e explicar-se: " sabe doutor, a senhora que costumava vir comigo, a Dona G., era quem tomava conta de mim e me fazia companhia", e prosseguiu de forma subtil, que a senhora não era apenas uma simples governanta, mas desempenhava um papel mais profundo na sua vida. A tristeza era que, filhos e netos, o tinham alertado para os interesses da tal senhora. Que ela teria segundas intenções, subentendendo-se avidez pelo seu dinheiro...

 

Ele tinha decidido aceitar e por isso tinha-a afastado. Contrariado, daí a sua tristeza.

 

Não resistir em interferir: " Mas alguns dos seus filhos ou netos tem problemas económicos?". " Felizmente não doutor, estão todos muito bem na vida. Bons empregos, boas casas, dinheiro...".

 

Fiz então a pergunta inevitável. " E o senhor gosta da tal senhora? Sente-se bem com ela?". "Sinto, é com ela que estou feliz, com a sua companhia", respondeu-me de forma sentida.

 

Fiz-lhe então um desafio, que muitos considerariam desadequado. "E porque não os manda dar uma volta e chama outra vez a senhora G. para ao pé de si?", expressando-lhe que o dinheiro e a riqueza eram dele e essas decisões só a ele diziam respeito. A sua vida era uma escolha só dele.

 

Abriu-se num sorriso e despediu-se mais animado.

 

Na consulta seguinte, veio de novo acompanhado. Algo de subtil se tinha dado entre os dois, parecendo agora mais libertos.

 

Pouco depois mudei de hospital para uma cidade distante, deixando de ser seu médico. Durante 3 anos, não me faltou um telefonema natalício dos dois, simpático e agradecido.

 

Sempre achei que eu é que devia agradecer a oportunidade de me ajudarem na minha maturação como médico.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:50
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