12 anos
Quarta-feira, 5 de Abril de 2017

Cartas ao Comendador

cartas-comenda

 

Meu caro Comendador (19)

 

Estou melhor sim, se bem que em mim, o senhor conhece-me, estas afirmações do “melhor” são sempre polémicas: Melhor em relação a quê? Ao dia de ontem, ao de anteontem, ao ano passado? Mas, regressando à sua pergunta, ainda não consigo chorar, se bem que o mecanismo de formação das lágrimas esteja agora claramente desobstruído. Os olhos já conseguem humedecer-se perante alguma emoção e já se conseguiu formar aquilo a que eu chamaria um início de lágrima, uma lágrima bebé, que só não se desprendeu e rolou livremente pela face por uma questão de tensão superficial. Sabe como são estas questões da física, acabou por ser reabsorvida! Mas deu para perceber que tendo dado início ao fenómeno, numa situação mais emotiva, talvez mais íntima ou relacionada comigo, acabará por acontecer. Não digo que esteja curado relativamente a isso, sabe que nestas coisas da alma, eu não me precipito. Mas começo a ter ideias. Hoje mesmo, acordei com uma fantástica que lhe vou contar.

 

Após estes anos todos, pensei em regressar ao teatro! Verdade. Reunir um grupo de amigos e voltar ao palco. Os textos seriam escritos por mim, obviamente. E digo obviamente, não porque reconheça, sem dúvida, que escreva bem ou tenha talento, mas porque a motivação da ideia é essa mesma: a minha necessidade das coisas que tenho para dizer.

 

O difícil será reunir os antigos amigos, porque ao longo destes anos já todos eles arranjaram outros empregos, correctamente dizendo, arranjaram empregos, pois que aquilo que nós tínhamos era mais uma actividade que um emprego!

 

O senhor estaria disposto a contracenar comigo? Não se ria, tenho que começar por algum lado e em nome da amizade que temos, é por si que tenho de começar. Há tantos temas que tenho na cabeça! Gostava de lhe expor alguns e que me ajudasse a escolher os melhores. Multiplicam-se na minha cabeça, como se estivessem latentes durante anos ou hibernados e de repente, com o chegar da Primavera, começassem todos a germinar.

 

Hoje mesmo, enquanto tomava banho, um banho prolongado, comecei a pensar o que aconteceria, como reagiria eu, se de repente a alma me saísse por um dos orifícios naturais do corpo e se encaminhasse, arrastada pela água, para o ralo da banheira!

 

Questionava-me então sobre qual seria a minha reacção: se instintivamente levaria o pé a tapar o ralo para a não deixar fugir ou se, ao contrário, me manteria calmamente estático, imóvel, deixando-a ir, vendo nisso a oportunidade única de arranjar uma alma nova!

 

Foi então que comecei a pensar seriamente sobre isso. Se seria possível com a consciência construir, ou elaborar se preferir, uma verdadeira alma nova! E a resposta veio-me em segundos. Eu não precisava de fazer absolutamente nada, a consciência, de forma autónoma e à medida da sua necessidade, ou da minha, perante as situações que encontrasse no seu dia-a-dia iria construir uma alma completamente nova e outra, a que o meu corpo apenas daria guarida, como se dá a um hóspede a quem se alberga numa noite fria em véspera de Natal e a quem se não pode dizer não, porque o nosso coração não deixa.

Que acha da ideia, parece-lhe ridícula ou, ao contrário, ela faz-lhe algum sentido e não o choca nem por um segundo?

 

Para ser honesto, como sempre sou consigo e com o resto do planeta, a sua carta não me surpreendeu nem por um instante. Às vezes, ideia maluca, parece-me que eu e o senhor fazemos ambos parte de um mesmo ser!

 

Terá de concordar comigo que as nossas divergências não são muitas. Aqui e ali uma ou outra aresta por limar, mas no fundamental a gente entende-se. Há até alturas em que o senhor percebe melhor o que eu digo do que eu próprio, quer dizer, consegue dar forma às minhas palavras, ao meu pensamento e é por isso que a ideia da peça de teatro não me sai da cabeça. E foi para mim tranquilizador a forma positiva como a acolheu e as ideias que me deu. Genial! Não esperava outra coisa de si, tenho de lho dizer.

 

Não, não se preocupe com o guarda-roupa. De acordo com o contexto escolhido, será todo desenhado por mim. A sua elaboração será da minha inteira responsabilidade. Conheço a pessoa certa para transformar as minhas ideias e desenhos em realidade. É uma pessoa com iniciativa, capaz de acrescentar palmo e meio às ideias traçadas, vive o que faz, nada mais do que isto é necessário para que as coisas tenham sucesso.

 

A dificuldade maior está em arranjar personagens, os actores, mas é cedo ainda para pensarmos nisto! Primeiro eu tenho de lhe apresentar os textos e em função deles e da sua escolha pensamos depois nas pessoas adequadas a eles, que lhe parece?

Têm de ser naturais, não podemos vestir uma maça de limão, apesar da cor ser a mesma, não chega. Sabe como eu sou em relação aos pormenores. Nada pode falhar, o mínimo seria para mim um desastre. O senhor é na mesma, por isso compreende-me bem.

 

Também temos de pensar na sala, lembrou bem. O senhor tem a mesma tendência que eu: começar pelo fim! É uma forma de fazer as coisas, às vezes o fim “condiciona” o princípio. Condiciona no sentido de poder ser uma ajuda ao desenrolar da acção. Mas, concordará comigo, é a acção em si que, primordialmente, condicionará o resto e dou-lhe um exemplo: se precisar-mos de um céu, a sala terá de ser ao ar livre!

 

Tem razão, podemos pintar o tecto da sala de azul e desenhar-lhe umas nuvens, colocar-lhe até um Sol em cartão. Sim, peço desculpa. No teatro, o inverosímil é possível. Às vezes esqueço-me, vivo tanto o teatro, sinto-o tanto que penso que estou na vida e que a sala de espectáculos não é senão a realidade em que vivemos! Ainda não vivi o suficiente para distinguir os palcos! Perdoe-me a imaturidade. Tenho consciência dela, nem tudo está perdido! Ria-se! Ria-se à vontade! Eu também me rio!

 

Sim, ficará para mais tarde essa decisão, hoje já não são horas.

 

Com a amizade de sempre,

 

José Francisco

 

 

Guardar

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Abril 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9


29

30


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Abobeleira em três imagen...

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Discursos Sobre a Cidade ...

. Flavienses por outras ter...

. Cartas ao Comendador

. Chaves D'Aurora

. 25 de abril, Sempre!

. O Barroso aqui tão perto ...

. Quem conta um ponto...

. De regresso à cidade - Ru...

. O Barroso aqui tão perto

. Pecados e Picardias

. Assureiras de Baixo - Cha...

. Pedra de Toque

. O factor humano

. Cidade de Chaves - "Arreb...

. Ocasionais

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites