Terça-feira, 18 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DESENCANTOS.

 

Novas esperanças teve Aurora de rever seu Hernando, ao dia seguinte, quando prosseguiram as homenagens aos heróis da resistência republicana de 1912.

 

Como um raro milagre, Papá consentiu dessa vez que, sob a proteção de tia Margarida, os filhos e as criadas fos­sem ao quartel da Infantaria, que ora se franqueava ao públi­co. Assistiam-se por lá aos exercícios e jogos militares, cuja programação constava de “ginástica sueca, assalto a sabre, luta greco-romana, assalto de baioneta, corridas de obstá­culos e de resistência, saltos à vara e altura, esgrima, saltos a cavalo e concurso hípico” e tinha, como contendedores entre si, os recrutas da Cavalaria 6. Como era de hábito, du­rante a execução dos exercícios, tocava a Banda da Infanta­ria 19. A todos, o que mais deslumbrou foi o desfile dos dois regimentos militares, a entoarem, de modo forte e viril, a marcha “Legenda Dourada”, hino da guarnição de Chaves.

 

A um dado momento, Aldenora inquiriu a irmã – O que tanto os teus olhinhos procuram assim, tão ansiosos, se é que m’o podes contar? – Aurora não respondeu e a outra continuou, ferina, mordaz – Se é um certo mau elemento que vive perto de nós, cá por Chaves, ele acaba de passar por ali com uma rapariga, a lhe encher os ouvidos de risos e perdigotos. E me parece que, de tudo isso, dava-se ela por muito apreciar a corte do finório, pois parecia uma rosa a se entregar ao chupa-flor!

 

Logo a tristeza chegou de tal sorte ao coração de Aurora, que, à noite desse mesmo dia, apesar de mais um dos raros consentimentos de Reis a que as filhas saíssem de casa, não quis acompanhar tia Margarida ao Teatro Flaviense. Nesse teatro, uma comissão de senhoras, na patriótica incumbên­cia de angariar fundos para a Liga de Instrução e Benefi­cência, destinados à assistência das famílias dos soldados mobilizados para a Grande Guerra, ia realizar “um brilhante espectáculo dramático”, com peças que, conforme dizia “O Flaviense”, eram da melhor qualidade.

 

De acordo com o jornal, tudo estava preparado “de molde a poder esperar-se uma noite de encanto, festa verdadeira­mente feminina, com todas as graças e delicadezas que só a mulher sabe dar às obras em que a sua alma vibra superior­mente. São todas elas feitas de mimo e brandura, tecidas n’um enlevo de finura e subtileza. Depois, sendo interpre­tadas por senhoras de reputada inteligência e ilustração e por cavalheiros que muito têm brilhado no palco flaviense, essas obras, de um grande valor literário, hão de ter a so­mar, à graça própria, a segura interpretação que lhes vai ser dada.

 

À manhã do outro dia, a se valer de seu precoce desen­volvimento intelectual, admirável para uma menina de ape­nas 14 anos, Aldenora fez uma verdadeira reportagem do evento, a fim de, mais ainda, espicaçar a irmã – Ai, Aurita, nem calculas o que perdeste, sua parva! Os camarotes es­tavam ocupados pela melhor sociedade de Chaves. Todo o teatro mostrava, ai Jesus, um lindíssimo aspeto! Precisavas ouvir a sinfonia da orquestra, quando começou o espetácu­lo! E quando subiu o pano?! Nem parecia mais o palco velho, feio. Nem aquele! Estava uma riqueza de luxo, de requinte, de beleza! Os atores da comédia “Os Quatro Cantinhos” tra­balharam tão bem, com tanta naturalidade!

 

Prosseguiu, empolgada – Depois o senhor Adriano Coim­bra recitou um poema tão sentido, em que parecia colocar, em cada palavra, as vibrações de sua alma. Gostei muito, também, da comédia “A Missão da Mulher”, uma profun­da lição de moral, que se passa com uma família durante essa terrível guerra que está, por aí, a fazer morrer os nossos pobres rapazes e – concluiu – no final, representaram uma peça de Júlio Dantas, “Rosas de todo o ano”. Que primorosa, minha irmã! Como disse a tia Margarida, foi uma noite de puro e total enlevo.

 

Adveio, então, a fraternal fisgada – Ora, pois, mas que patetice a minha! Não é que já estava a me esquecer de con­tar?! O filho mais novo dessa família que mora aí em fren­te… ele também estava lá, com uma dessas raparigas que andam por aí, assim... como dizer? Tão desgarradas, que até parecem não ter pai nem mãe. Quer dizer, até me faz crer que aquela mulher seja mesmo uma dessas, mas é deveras rica, porque estava muito bem vestida e cheia de joias, da cabeça aos pés.

 

Por fim, a última alfinetada – Aliás, ela é muito mais bo­nita do que muitas rapariguinhas por aí, que ainda não sa­bem nem se arranjar bem diante do espelho. Sabes tu que há rapazes que só gostam de mulheres como ela, mais livres, mais velhas, mais experientes? Esses aí, certamente, jamais vão se interessar por uma menina honrada e de boa família, mesmo que sejam certas tontinhas por aí...

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:33
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