Quarta-feira, 3 de Maio de 2017

Cidade de Chaves - Ponte Romana

1600-(45873)

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:26
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Cartas ao Comendador

cartas-comenda

 

Meu caro Comendador (Post scriptum) (23)

 

 

O Comendador foi hoje a enterrar. Nem mal nem bem, nem mau nem bom! Acontecem estas coisas a quem está vivo e depois deles partirem fica em nós, a eles sobreviventes, uma espécie de nostalgia, nem bem isso, um arrependimento do que com eles não vivemos embora estando e do que com eles vivemos sem ter estado! Qualquer coisa de muito ténue e ao mesmo tempo decisivo e determinante, como se nos viessem parar às mãos as cinzas de uma incineração que nem pedimos, nem forjámos, nem quisemos e que talvez por isso não omitimos! Fica em nós um misto de lamento, dor e sofrimento pelo que não dissemos, pelo que não fizemos, pelo que não sentimos e, em oposição a isto, pelo que dissemos, fizemos e sentimos!

 

Por um momento a nossa vida para. Enquanto o corpo desce, sustentado por cordas que seres humanos seguram entre as mãos e alternando forças o deixam descer, enquanto não vêm outros com pás colocando ou repondo a terra que os seus corpos há-de cobrir, visita-nos um sentimento estranho de tomada de consciência: então era para isto que estávamos destinados?! Qual é agora a surpresa? Estávamos fartos de o saber, durante anos sabíamos e soubemos que um dia isto ia acontecer, mas acreditávamos que quando isso fosse já estaríamos, ao menos moralmente, preparados! Como se isso fosse possível!

 

Hoje, enquanto o canto gregoriano ecoava na igreja de Santa Clara, presentemente em obras de restauro, eu procurava nos bolsos do casaco um qualquer objecto que, junto consigo, o fizesse acompanhar ao Paraíso. E perguntava-me: o que diria Deus quando o senhor lá chegasse? Bateria por certo à porta antes de entrar, como ditam as regras da boa educação, até aí eu sabia, mas que diriam do outro lado? “Sim, entre!” ou apenas “Sim!” Entraria o senhor neste segundo caso ou aguardaria que de forma explícita lhe fosse concedido entrar ou ainda, dizendo melhor, que oficialmente se formalizasse o convite?

 

Bem sei, não passam de pormenores estas minhas questões, mas os dois sabemos como elas ou a resposta a elas é importante no estabelecer e desenvolver das relações humanas! Concordará talvez comigo se eu acrescentar: a pobreza das relações humanas!

 

“Sim, entre!”, é qualquer coisa que se diz quando se está seguro e se não teme qualquer invasão de privacidade por ela estar assumidamente bem guardada! Já o simples e isolado “Sim!”, reflete alguma insegurança no pronunciar de quem o diz e deixa algum constrangimento em quem espera do outro lado pela resposta. Instala-se a dúvida: devo ou não entrar!? E neste silêncio que dista a pergunta da resposta passa, às vezes, inutilmente a vida!

 

“Sim, entre!” É a única coisa que nos devia ser permitido dizer a quem tem a confiança de nos bater à porta. Nunca é atrevimento bater, mas sempre será arrogância o não permitir entrar.

 

Se a questão é ou foi de atrevimento, teremos depois tempo de o analisar! No momento, devemos ter abertura para receber seja o que for ou seja quem for que se nos dirije porque devemos por sempre a hipótese que a pessoa que o faz, pode precisar de nós e nós estamos cá também para isso ou deveríamos estar.

 

Mas falamos de Deus, um ser que não é terreno, do qual nem sequer sabemos se tem sentimentos posto que na ausência de um corpo, com que sentirá ele? Com o Espírito, o Santo? É com o espírito que se sente e que se tem as emoções? Na verdade Ele não precisa disso para nada! E pode perfeitamente bastar-Lhe a percepção dos sentimentos porque as pessoas que são muito inteligentes conseguem substituir umas coisas pelas outras e dar-lhe a mesma finalidade. Nem sempre nem nunca! Em tudo há excepções!

 

Mas, dizem as más-línguas, que Ele gosta de ser avisado e saber quem está, antes de abrir a porta.

 

Ironia das ironias, para não dizer injustiça consumada! Ele que sempre surge do nada, a todos nós, sem aviso prévio, sem consulta, sem perguntar se pode, sem as melhores notícias! Toma-nos de assalto, ceifa-nos a vida e da vida, não nos dá uma segunda oportunidade, não nos perdoa nem mesmo quando lhe suplicamos, não nos ouve quando imploramos, não nos estende a mão quando choramos ou a seus pés nos ajoelhamos e quer educação e respeito da nossa parte!? Então não é com o exemplo que se ensina? Não é dando-nos ao respeito que somos respeitados? Sim, o Todo-poderoso pode dar-se a estes luxos, mas está na nossa liberdade poder julgá-Lo, ou não! Quem é que Ele pensa que é, acaso Deus?! Quem faz Dele isso? Nós, sem nós Ele não é ninguém! E é esta lógica universal que é toda como nossa!

 

Perdoe-me estes devaneios, afinal é do dia do seu funeral que estou a falar, mas o senhor conhece-me e sabe que não é por mal, começando a pensar nem os tambores africanos me impedem o concluir das coisas ainda que, nas mais das vezes, isso não seja de todo sinónimo de ter encontrado a verdade ou nem sequer de seguir uma lógica ou até de ser racional! Dedução apenas, associação de ideias, como quem instintivamente come cerejas, umas atrás das outras, mas que só decidiu comer a primeira!

 

Estranhei o facto de que, enquanto o caixão descia, eu não sentir qualquer remorso ou inquietação por não cumprir com o seu último desejo, do qual eu era o único e fiel depositário e com documento escrito! Ao contrário, senti uma espécie de libertação ao ter consciência de não poder decidir sobre a minha vida, mas poder fazê-lo sobre a sua morte! E a circunstância foi exactamente esta: que diferença é que isso faz?! As promessas têm, ou deveriam ter, garantia vitalícia e, com tudo o que estava a acontecer, eu não sentia que se tratasse de nada disso!

 

Ainda que de início a ideia me tenha parecido perversa, como se de alguma forma eu me estivesse a apropriar de uma coisa que não era minha, embora o caso fosse apenas o tratar-se do manifestar de uma vontade, instantes depois ignorei-a com uma facilidade e ligeireza que de novo me preocuparam e perguntava-me intimamente: o que diabo se passa comigo para não dar importância nenhuma àquilo que, em determinada altura, me chegou a parecer um elogio que, vindo de si, contava sempre a dobrar! E foi crescendo em mim um sentimento estranho a que não sei dar nome, que vacilava entre a indiferença e o desprezo, mas que não era nem uma coisa nem outra porque eu seria incapaz das duas! Seria?!

 

Quando dei por mim estavam já as pás a alisar o terreno, o Sol estava forte nesse dia e eu senti uma tontura tão aguda que teria mesmo caído ao chão, no mesmo que o cobria, não fosse alguém que reparava em mim ter-me segurado com firmeza pelo braço! Demorei anos a compreender a sua atitude e não me refiro a uma em particular ou isolada, refiro-me à que tinha perante a vida!

 

Passa também por aí ou sobretudo por aí este sentimento anacrónico que hoje me invadia. Em determinada fase da nossa vida temos absoluta necessidade de que os outros nos compreendam, para aprovar depois, os nossos actos, mas não é absolutamente necessário que assim seja!

 

É no dia, exactamente no dia, em que prescindimos disso que se torna em nós claro a gratuidade com que até aqui vivemos! Dar satisfação de quê, a quem? Nunca isso nos foi claramente pedido e, ainda que o tenha sido, porquê? E, sim, levo ao limite, ainda que tenhamos uma qualquer necessidade inexplicável de responder a isso, para quê?

 

Foi isso que eu hoje percebi enquanto o que agora morto se substituía ao que foi vivo em si! A morte de um Deus! Parasita em todos os sentidos!

 

Esta mudança de estado físico foi-se entrando em mim numa permeabilidade que por certo eu permitia, mas da qual não me dava conta. Dou-lhe agora conta disso a si, embora em mim eu tenha a dúvida com que sempre ficarei de se isso adianta alguma coisa para o bem entender das coisas! Dessas e de outras, posto que agora me refiro a todas! O senhor tinha a resposta a isto e nunca ma fez saber, esperou que fosse eu a descobri-la para que não pudesse esquecê-la. E, sei agora que teria sido importante na altura tê-la comigo quando não a tinha e que agora, que a tenho, não me faz diferença nenhuma!

 

Chegámos a horas diferentes ao mesmo sítio, porque partimos de pontos diferentes, talvez até do mesmo ponto, mas de outro pressuposto!

 

Tenho hoje como verdade, nunca absoluta porque a isso me não atrevo, de que o presente nunca será vivido no tempo certo, adequado ou ajustado a ele, porque a realidade nunca a esse tempo é conhecida! Vagueamos entre o extremo do que queremos e aquele do que nos achamos com direito a ter e nunca, é verdade isto, conseguimos determinar o tempo, o espaço e com quem isso pode acontecer! Dá pena, anos depois, ver essa verdade surgir à nossa frente quando já não podemos fazer com ela nada!

 

O corpo dentro do caixão desceu às profundezas da terra e não tive ocasião de lhe dizer em vida, embora as oportunidades não faltassem, de que o que queremos, sentimos e desejamos está sempre aquém da nossa realidade física!

 

Há certamente uma forma, um como e um tempo certos para isso, e nunca poderei compreender como tão sábio que era e foi, o senhor nunca conseguiu encurtar a distância, travar o momento, indicar-me o caminho, dizer-me por onde eu devia ir ao meu encontro! Não o sabia!

 

A desilusão está aí.

 

Paz, neste dia, à sua alma.

 

Do seu para sempre amigo

José Francisco

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:22
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
14

20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Chaves D'Aurora

. Cidade de Chaves e a Nª S...

. Quem conta um ponto...

. O Barroso aqui tão perto ...

. Pecados e Picardias

. Cimo de Vila da Castanhei...

. O factor Humano

. Chaves - Um olhar...

. Ocasionais

. Chaves D'Aurora

. De regresso à cidade

. Quem conta um ponto...

. O Barroso aqui tão perto ...

. Cela - Chaves - Portugal

. Cidade de Chaves - Um olh...

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites