12 anos
Quarta-feira, 10 de Maio de 2017

Cidade de Chaves, uma imagem, um pormenor

1600-(43092)

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:42
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Cartas a Madame de Bovery

cartas-madame

 

Minha cara Madame de Bovery (1)

 

Conhecemo-nos há demasiado tempo e bem para que seja necessário eu fazer-lhe qualquer nota introdutória ou dar-lhe alguma satisfação deste meu propósito. Sei que nunca me questionaria sobre essa ausência, mas não posso deixar de o fazer.

 

Ambas somos reféns de uma educação que sempre colocou em segundo plano a liberdade individual e autónoma do pensamento, a decisão do livre arbítrio ou o simples manifestar de sentimentos, ainda que estando eles cobertos de razão. Sempre nos foi dito o contrário disso, que importa mais a razão e que só secundariamente e em casos muito específicos lhe podemos colocar o véu das emoções.

 

Começo então. Há muito tempo que sentia em mim esta vontade de lhe escrever e o facto de só agora o fazer e de ter coincidido com o post mortem do Comendador não é, ao menos de forma consciente, conto consigo para mo fazer ver à sua maneira e questionar a minha, como um substituto da alma ou uma pretensa forma de sublimar a minha solidão. Aceito bem que possa estar enganada, porque a recente partida do Comendador me não deixou indiferente e o que neste momento me surpreende, repare, mais do que preocupa, é o estado de alma ou de espírito em que me encontro.

 

Era fácil, talvez simples, chamar-lhe vazio, um sentimento de ausência, um inconformismo pelo já não estar! Tudo isto se adequava, do meu ponto de vista, a este presente que hoje vivo, mas não sinto nada disso e o que sinto não lho sei transmitir pela linguagem escassa e precária das palavras. Apesar disso, vou tentar.

 

É uma paz muito grande! É como se tivesse partido também com ele o meu desassossego. Ora isto é incompreensível! Então agora que me falhou o interlocutor para o meu agitado debate de ideias, pontos de vista e raciocínios ou diferentes ângulos de visão e perspectiva, é que me veio a quietude, a tranquilidade, o sossego?! E isto leva-me, literalmente transporta-me, para um pensamento estranho: simbolizaria o Comendador, em si mesmo, o meu próprio problema?! Uma sombra que só existe porque há simultaneamente um corpo?!

 

Tem toda a razão, já me ocorreu isso mesmo, se não será antes ou em vez disso aquele sentimento de que falávamos no outro dia: o desapego! Como se houvesse coisas cuja existência só é real quando estão relacionadas com outras e que quando as partes que de alguma forma as constituem se desintegram, morresse também com elas a intenção, o propósito, a razão de ser, a sua própria existência! Poderemos chamar a estas coisas reais ou elas são unicamente o produto, o resultado, a consequência de tudo o que ficticiamente as rodeia, a que apenas o nosso imaginário apela!? O ninho da águia sem a águia, que significado tem?

 

Sim, pergunto-lho a si porque a sei disponível para este tipo de coisas a quem, mais do que as questões intimamente relacionadas com o ser humano, lhe é grato o tema das relações humanas. É também verdade, não lhe colocaria a questão se eu mesma tivesse resposta para ela, ou colocar-lha-ia de outra forma!

 

Digo, quando a identidade do ser humano se molda pelas circunstâncias em que ele próprio vive e das quais significativamente depende, tem sinónimo em personalidade mais frágil?! Ou estamos, em sentido oposto, não contraditório, a falar de inteligência adaptativa, elasticidade mental, maturidade cerebral, sabedoria de vida, flexibilidade neuronal, sinapses conversíveis, emoções de substituição, compensações subversivas, raciocínios de alternância comportamental, etc. ou estamos tão-somente a falar de novos neurotransmissores, cuja actuação nos receptores está ainda por definir!? É por aqui?

 

Recuemos um pouco. Quando sentimos a falta do que deixámos de ter é porque isso era importante para nós ou simplesmente porque estávamos habituados a isso e é da mudança que temos receio e à qual nos não conseguimos adaptar?! Não, não fui completamente honesta quando falei no “simplesmente” habituados, porque é de facto muito custoso deixar hábitos, criar outros ou perdê-los sem ter novos! Acha verdadeiramente que os hábitos se podem substituir? Somos capazes disso? Com que intenção o fazemos? É sempre a de preencher um vazio? Será mesmo necessário este processo? Como caracterizaria este mecanismo: é primário, instinto de sobrevivência ou é um processo mais elaborado, com pressupostos estratégicos bem definidos? Há consciência nisto?

 

Recuemos mais um pouco. Antes de ter, temos necessidade disso? É no conhecimento das coisas que está a necessidade delas? Há quem diga o contrário, que as coisas surgem depois da sua necessidade: o fogo, a roda, a luz... a economia!

 

Sim, o processo é dinâmico! Dizemos sempre isto quando não sabemos responder às questões e achamos que elas não podem ficar sem resposta. Seria fácil se não soubéssemos isto ou se fossemos capazes de o ignorar, ainda que o soubéssemos! Nenhuma de nós é capaz disto, de fingir. Claro que sim, mas não chega, fica-nos a consciência disso por resolver!

 

Hoje, enquanto caminhava junto ao rio, veio-me à memória aquela sua frase que sempre me faz sorrir e instintivamente procurei uma pedra que, à semelhança das pessoas que vêm pelo rio abaixo aos trambolhões sem encontrarem uma pedra que as detenha, pudesse deter os meus pensamentos! Mas nada, a corrente era forte, o rio transbordava do leito pelas recentes cheias e arrastava tudo com ele, sem dó nem piedade. As águas eram turvas, pastosas, térreas, lamacentas e o meu pensamento espelhado nelas era de uma clareza aflitiva: o Comendador tinha partido e eu não sentia absolutamente nada, nem sequer culpa por causa disso!

 

Mais do que paz, subiu-me nesse momento pelas veias até à cabeça uma sensação de liberdade a ponto de ter falado: queres ver que eu estava presa?! Era por isso, minha cara Madame de Bovery, que de vez em quando me mandava entregar flores e doces, como se existissem grades nas minhas janelas, através das quais eu contemplava este nosso mundo?!

 

A senhora sabia e tentou dizer-mo de uma forma tão discreta e sublime que eu nunca percebi! Hoje, deixo-a aqui, não com os seus, mas com os meus pensamentos! Vê egoísmo nisto? De quem?

 

Com um abraço desta sua amiga

Maria Francisca

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:10
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Maio 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9


25
26
27

28
29
30
31


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Abobeleira em três imagen...

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Um olhar com a marca Chav...

. Cartas a Madame de Bovery

. Cidade de Chaves - Um olh...

. Chaves D'Aurora

. Quem conta um ponto....

. Pecados e Picardias

. Pedra de Toque

. Avelelas - Chaves - Portu...

. O Factor Humano

. Cidade de Chaves - Um olh...

. Discursos sobre a cidade

. Silhuetas com a marca Cha...

. Fugas - Por terras do Alt...

. Cartas a Madame de Bovery

. Cidade de Chaves, um olha...

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites