12 anos
Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Ribeira de Sampaio de há 20 anos e de hoje - Chaves - Portugal

 

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Hoje apetece-me fazer tudo ao contrário.
 
As fotos a cores são fotos de há 20 anos e, a P&B as fotos de hoje. É assim que vejo esta pequena aldeia.
 
Desde miúdo que gosto de andar pelos nossos caminhos à descoberta. Às vezes de nada, outras, entrava por caminhos sem saída e algumas vezes descobria pequenos tesouros e pequenos paraísos.
 
Há coisa de 20 anos, num passeio de moto, resolvi entrar por um caminho, localizado logo a seguir ao Miradouro de S.Lourenço. De início senti que seria um caminho até à serra, talvez atalho para a Cela, sem esperança de encontrar o que quer que fosse. Como sempre, as aparências iludem, pois logo ali, a uma centena de metros, senti-me entrado no paraíso e espantado com a beleza e serenidade do local, tanto, que custava acreditar que existisse um lugar assim. Instintivamente, nem sequer parei, mas antes virei, e a todo o gás desci montanha fora até ao vale para ir buscar um instrumento já então precioso, embora analógico – a máquina fotográfica. De novo serra acima e, aí sim, aproveitei todo o fim de tarde para fazer algumas fotos e desfrutar do local. Sentia-me um puto a desfrutar da minha nova descoberta.
 
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Tinha descoberto a Ribeira de Sampaio, três ou quatro casas, dois moinhos, uma belíssima ponte de um arco, a ribeira com a sua água cristalina, o grande castanheiro… e tudo era perfeito e puro. Era um sonho que vivia acordado e sonhava também com melhores dias para aquela Ribeira. Infelizmente a realidade foi isso mesmo, um sonho, apenas um sonho de há 20 anos, pois volvido ao local, a Ribeira que conheci, já não existe.
 
Penso que aqui, para ilustrar as minhas palavras, nem há como comparar as imagens de há 20 anos com as de hoje. Está lá tudo escrito.
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Mas mesmo assim a Ribeira de Sampaio merece umas palavras de honra.
 
Ainda no último fim-de-semana falava aqui das Ribeiras da Ribeira, a de baixo e de cima a do Pinheiro e a das Avelãs. Pois a Ribeira de Sampaio (aldeia) é a primeira ribeira a montante da Ribeira de Palheiros (ribeira de água), situa-se em plena Serra do Brunheiro, entalada entre duas encostas desta serra, precisamente por onde a ribeira (de água) desce a grande velocidade degraus de rochas e pequenas cascatas. Pois foi precisamente esta ribeira e as suas águas que deram origem ao nascimento da pequena aldeia, com os seus moinhos e as famílias (duas ou três no máximo), que se instalaram junto a eles. Aliás as águas desta ribeira deram origem (segundo documentação) a cerca de 50 moinhos ao longo do seu percurso … um aparte e outro sonho.
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Se cá pela terra houvesse ideias turísticas, o traçado desta ribeira poderia dar origem a um interessantíssimo percurso pedonal de montanha, com origem onde ela desagua, ou melhor no Tabolado com o atravessamento das poldras (se estivessem lá todas) e pelos velhos caminhos e carreiros que as gentes das Ribeiras utilizava para se deslocarem ao longo dela… apenas um aparte que não passa de sonho, pois ideias turísticas são coisas que não medram por cá.
 
A Ribeira de Sampaio era assim constituída por três ou quatro casas e dois moinhos, hoje completamente em ruínas, mas que há vinte anos ainda existiam. Tem junto à aldeia uma belíssima ponte, de um só arco e muito antiga, talvez medieval. Também esta, hoje, embora ainda se mantenha de pé e, penso que em bom estado, está quase completamente tapada por heras e outra vegetação que ocultam toda a sua beleza. Mas para já ainda existe. Quanto aos males que a vegetação e as heras lhe estão a fazer, ignoro-o, pois a ponte quase nem se consegue ver. O mesmo se passa com a construção que está junto a ela e que aos poucos vai sendo comida pelas silvas.
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Ribeira de Sampaio, terra de antigos moleiros com moinhos sempre a trabalhar, quer de dia quer de noite, pois a agricultura era farta e o povoamento das aldeias também, e era precisamente aqui que começava a nascer o pão de muito sustento.
 
Ribeira de Sampaio, fica a 8 quilómetros de Chaves, pertence à freguesia da Cela e penso que actualmente é habitada por uma família que é responsável (mas não culpada) por algumas alterações da antiga Ribeira.
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Conclusão com uma análise breve e um lamento.
 
A Ribeira de Sampaio foi sem dúvida alguma (para mim) o local mais bonito interessante e paradisíaco que conheci do concelho. Um olhar atento de gente responsável, teria classificado e preservado o local e o casario, os moinhos e a ponte, pois era todo este conjunto que valia, não só pela sua beleza, mas também pela história dos moinhos, da farinha e do pão. Poder-se-ia ter transformado numa aldeia museu rica em todos os aspectos, mas principalmente históricos e turísticos. Falhou a visão e a atenção, o interesse por pequenas coisas e locais que poderiam ser grandes e atractivas. Mais uma vez falharam as políticas para preservar um tesouro, que hoje não passa de deprimente e que penso já ser tarde para ser possível qualquer ideia ou recuperação. A velha Ribeira de Sampaio dos moinhos e moleiros morreu. Paz à sua alma!
 
As fotos de hoje são as possíveis, desde as fotos de há vinte anos da era ainda analógica e as inevitáveis perdas das digitalizações, até as de hoje, digitais com alta tecnologia.
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E por último um aviso à navegação. Este blog vai interromper durante 15 dias a dedicatória às aldeias e também à cidade, tal como vem sendo feita, pois a partir de dia 12 e até 23 de Dezembro será dedicado única e exclusivamente à aldeia do Cambedo e aos acontecimentos de 1946 nessa mesma aldeia. Será por assim dizer a primeira grande reportagem deste blog, dedicado a uma aldeia, às suas gentes, à sua história e aos seus lamentos, e podem crer que há muito a lamentar.
 
Assim, ainda teremos dois dias de cidade mas a partir de quarta-feira, é o Cambedo que vai passar por aqui.
 
Até amanhã em Chaves.
´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:48
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5 comentários:
De Tupamaro a 9 de Dezembro de 2007 às 14:07
“AH! Descobri”!

Foi aqui, no Lugar destas Fotos - ««Ribeira de Sampaio há 20 Anos»» - que o Xico Lloyd Artesão bebeu a inspiração para a «Fallingwater House» (isto é que é falar à maneira!)!!!

Tupamaro


De MAR a 15 de Dezembro de 2007 às 05:29
Conheço bem a Ribeira de Sampaio pois foi palco de muitas vivências da minha infância. As transformações descritas no post vivi-as de uma forma lenta assistindo periodicamente à degradação sistemática da Ribeira dos anos 60.
As causas dessas transformações não são alheias a desertificação e ausencia de dinamicas locais que infelizmente não são exclusivas desta localidade. Mas, nesta Ribieira esses factores até foram os menos determinantes. A realidade é que a Ribeira foi vandalizada por um "residente" que andou a inventar, a construir onde a lei o proibe e mesmo a invadir propriedade alheia. As denuncias cairam em saco roto e a autarquia flaviense andou "distraída" e em jeito de cumplicidade contribuiu para o fim deste espaço outrora paradisíaco.


De VIRIATO DE MEDEIROS a 23 de Junho de 2008 às 08:31
Désolé, je ne puis répondre qu'en français, je suis né dans cette Ribeira de Sampaio le 1er août 1964, arrivé en France en octobre 68, j'y ai laissé mon coeur, et lors de chacun de mes congés, je me ressource auprès des vielles pierres qui restent de la petite maison où je vîns au monde. même si aujourd'hui j'abite le village de Sao-Lourenço, situé un peu plus haut, Ribeira, mon âme est à tout jamais à toi...


De Anónimo a 4 de Junho de 2008 às 01:47
Eu vivo em ribeira de sampaio em chaves e apesar de estar desertificado continua de tirar a respiração.. É um lugar escondido que pouca gente conhece. Talvez seja por isso que me agrada tanto


De Thiago Gomes a 25 de Setembro de 2010 às 12:19
Meu avô paterno é natural da Ribeira. Ainda irei conhecer este lugar!


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