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Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 7 - Juan Salgado "O Facundo"

 

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O Juan ou D. Juan o “Facundo”
 
Quem conhece minimamente a história da guerrilha antifranquista, conhece nomes que vão sendo ao longo da sua história mais ou menos citados e repetidos como guerrilheiros. O Foucellas, o Fresco, o Gafas, o Bailarin, o Velasco, o Aguirre, o Xirolo, o Ánimas, o Panbarato, o Capitan Fantasma, o Chapa, o Langulho ou Pinche, o Chaval, o Pitaciega, o Tameirón, o Paciência, o Pedrín, o Pedro (Demétrio), o Capitão (Garcia), o Cuñeira, El Liebre, o Rocesvintes, o Quico, o Asturiano, etc, etc, tec, tudo alcunhas de guerrilha, de alguns dos muitos guerrilheiros que actuaram sobretudo na Galiza e Astúrias.
 
Muitos destes nomes de guerrilha não são estranhos às terras da raia seca, mas em Portugal e aqui pela região, falava-se apenas de espanhóis, de atracadores e do Juan, pois era o Juan vestia a pele e o “mal” de todos eles, ou,  foi o escolhido para lhes vestir a pele.
 
Na realidade este Juan não era estranho nas terras da raia flavienses e barrosas, pois ele e o seu pai e irmãos constituíam um grupo músicos gaiteiros que faziam a animação de várias festas das redondezas, além disso, também era contrabandista, isto antes da guerra civil, pois durante esta, integrou o exército nacionalista, onde ficou conhecido pelo hábil manejo de armas ligeiras. Após a guerra regressou à sua aldeia natal de Casas dos Montes, onde uma história de saias, paixões e ciúmes o levam a cometer uma morte, ou aliás, duas, mas a segunda ao que consta, em legítima defesa.
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Estas duas mortes fizeram de Juan um “fuxido” e em 1940, em plena febre do volfrâmio, Juan disfarçado debaixo do nome de José, passa três a quatro anos numa exploração mineira existente entre Negrões e Lamachã (concelho de Montalegre e mais ou menos onde hoje é a barragem dos pisões) numas minas denominadas de Agromonte. Conjuntamente com o “José” que era o Juan, estavam o António de Sousa Pinto (o tal Pinto de Negrões), com interesses na mina, lavrador abastado e presidente da junta de Freguesia e, mais tarde assassinado pela guerrilha, e ainda Vitorino Oliveira do Couto de Ervededo e José Pereira, guarda da mina e mais tarde acusado como mandante da morte do Pinto de Negrões.
 
Trago aqui esta história das minas de volfrâmio e o nome do Pinto de Negrões, porque acho que é aqui que começa o I capítulo dos acontecimentos do Cambedo e que por si só, davam para um blog, além de melhor compreendermos o trajecto do Juan e de como ele era um espanhol, que além de conhecido, era fácil de referenciar…
 
Mas vamos então ao Juan.
 
Juan Salgado Ribeiro (ou Rivera ou Rivero), também conhecido pelo “o Facundo”, Nasceu em Casas dos Montes, Oimbra, na aldeia fronteiriça e vizinha do Cambedo, teria nascido por volta de 1911 e morreu (com cerca de 35 anos) no Cambedo em 20 de Dezembro de 1946, assassinado.
 
Entre o que foi mistificado, mentiras e verdades, dizia-se dele ser galã e namorador incorrigível, músico que tocava cornetim, de família de músicos animadores de festas das redondezas e, fama de atirador infalível.
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Na imprensa nacional e local da época nunca foi referida a guerrilha anti-franquista e quanto aos acontecimentos do Cambedo, os guerrilheiros foram sempre tratados como atracadores e perigosos bandidos aos quais lhe eram atribuídos os mais variados crimes e "estatutos" que nunca tiveram ou ocuparam.
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A partir da morte de Pinto de Negrões, tudo que era acto de bandoleirismo e “atracos” na Raia Seca de Portugal e Espanha era atribuído ao Juan e ao seu grupo.
 
São-lhe atribuídos entre outros, o ajuste de contas com António Aguirre Padrón, chefe da Falange de Vilaza (Verin), a tentativa de assalto da carreira Verín-Ourense da qual resultaram dois mortos, a morte do Pinto de Negrões e o assalto à carreira Braga-Chaves.
 
Apontado como líder ou chefe do grupo do Cambedo e outros grupos, sendo mesmo apontado pelo jornal « O Século» como ex-alcaide de Leão, onde teria desempenhado funções durante a guerra civil, sendo indicado como o “chefe comunista de Leão” e responsabilizado porque “matou e mandou matar cerca de 200 nacionalistas – entre homens, mulheres e crianças”.
 
Teresa Godinho diz ao respeito: “(…) este exorbitar da figura por parte da imprensa, tão controlada e comedida na época, destinar-se-á provavelmente a explicar o vigor da ofensiva e o aparato para capturar um aldeão galego em relação ao qual não resta memória ou registo do desempenho de tão altos cargos e cuja competência política é desvalorizada por quantos o conheceram (…)”.
 
Artur Queirós, num artigo publicado no Jornal de Notícias de 6 de Dezembro de 1987 traça sobre o Juan um perfil de Guerrilheiro Romântico (como interpreta Paula Godinho) « tocava cornetim num grupo gaiteiro e fazia contrabando. A Guarda Civil e a Guarda-fiscal temiam-no porque era considerado um atirador excepcional. (…) Juan Ribero torna-se profundamente temido porque faz acções espectaculares. Pepe da Castanheira, um guerrilheiro do seu grupo, contava que o comandante da Falange em Orense dormia com sentinelas à porta e o Juan foi matá-lo à cama». Em Casas dos Montes (Oimbra), terra de Juan, continua Artur Queirós que « na taberna, os velhos jogam cartas e bebem vinho. Lembram-se de Juan, o que «matava perdizes em voo com a pistola e onde punha o olho punha a bala. Das guerrilhas nada dizem»
 
Conta-se ainda de Juan, que numa passagem do exímio atirador por Vila da Ponte em Montalegre : « Uma vez o Manuel Maneta, criado da casa do Afonso na dita povoação, quando levava a rês a beber viu o grupo do “galego”, do “Ribero” (que o mesmo é dizer Juan!) (…) ficou o Maneta muito aflito visto que já na aldeia se falava do grupo a que, instigados pelas forças policiais, também chamavam «matilha do Juan».
Todavia, o Juan ofereceu-lhe de comer e de beber e advertiu-o de que não dissesse nada no «pueblo». (…) depois de beberem o Juan pediu-lhe que levasse cinco garrafas à pedra que estava no meio do rio e as colocasse com o gargalo voltado para o sítio onde estavam. Seguidamente pegou na pistola que sempre trazia à cinta e, apontado às garrafas, deu cinco tiros. Depois, voltou a solicitar ao Maneta, com muita delicadeza, que fosse buscar as garrafas… qual não foi o seu espanto quando verificou que todas as garrafas estavam sem fundo…logo concluía, quando contava a sua história, que as balas haviam entrado pelo gargalo com uma prodigiosa pontaria que era a do Juan…».
 
Domingos Costa Gomes no livro “O Cambedo da Raia 1946” relata ter conhecido pessoalmente o Juan, também em terras do Barroso, e que este « fazia demonstrações com uma pistola Savage que possuía e verifiquei que era um atirador de elite: a 30 metros, sem apontar, e à maneira dos “pistoleiros” do oeste americano que os filmes mostravam, metia uma bala numa garrafa de cerveja através do gargalo e furava a tiro qualquer pequeno objecto que se atirasse ao ar. Tinha reflexos perfeitos: fazia a barba com navalha, sem espelho e sem fazer o mínimo golpe…»
 
Todas estas enfatizadas histórias à volta de Juan deram-lhe uma auréola de lenda, quase personagem e herói de banda desenhada, mas pondo de parte as histórias, algumas verdadeiras e a maioria de pura fantasia e imaginação (mas não inocentes), sabe-se que o Juan era considerado um «Homem de honra» e que toda a reputação que lhe é atribuída não se conjuga com a de um criminoso, bandoleiro ou atracador.
 
Estórias que o tornam respeitado e, também temido pelo seu comportamento, e sobre ele edificou-se a aura que ainda hoje perdura, a aura de um mito.
 
Sobre o Juan é conhecido como verdade o ser camponês da aldeia de Casas dos Montes (vizinha do Cambedo), ser agricultor, contrabandista e o ser músico e animador de festas com a sua família, ter servido na guerra e após esta ter regressado a Casas dos Montes onde por causa das tais mortes passa à condição de “fuxido” tendo ido trabalhar para as minas de volfrâmio perto de Negrões e que, no fecho destas, continua a sua condição de “fuxido” no Cambedo, onde já estava o Demétrio e onde terá tido os seus primeiros contactos com a guerrilha e aderido a ela. É dado como certo também a sua participação na morte do Pinto de Negrões, pois Juan teria feito parte do grupo de 7 guerrilheiros que o matou, como guerrilheiro ou guia, Juan estava lá. Nos próximos dias ainda voltaremos a esta morte e como ela precipitou todos os acontecimentos até à batalha do Cambedo.
 
Um processo idêntico em tudo ao de Demétrio, vizinho e conhecido do Cambedo desde sempre, quer como contrabandista quer como animador de festas e o “fuxido” que acaba por se tornar guerrilheiro.
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Até na folha de registo de óbito é mencionado a profissão de "Atracador", além de mencionar como dia da morte o dia 21, quando o Juan foi morto dia 20.
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Quase tudo o restante foi inventado sobre o Juan e quis fazer dele um e o “atracador” que convinha para mais tarde justificar o cerco do Cambedo, começando pelas mentiras vertidas na época, antes e após a sua morte, em toda a imprensa e no diz-que-diz do boca-a-boca, começando intencionalmente por lhe ser atribuída a responsabilidade do assalto à carreira Braga-Chaves (que tudo indica ter sido obra da PIDE e de um grupo Anti-guerrilha), atracos e uma série de mortes, quer em Portugal quer na Galiza e tudo isto a suceder após a morte do Pinto de Negrões. Só assim se compreende a fama, quase o mito, que se fez de Juan em terras da Raia Seca.
 
 
Juan agricultor, Juan Músico, Juan Militar, Juan “Fuxido”, Juan gerrilheiro, Juan quase mito e Juan, herói morto de corpo estendido sobre uma carroça, entre Cambedo e Chaves à vista de todos, exposto à entrada do cemitério de Chaves, vestido de gabardina branca, botas altas e com os ferimentos de morte visíveis, para que todos os flavienses vissem o “atracador” e “bandoleiro” morto pelas autoridades e assim, como disse Artur Queirós, «para que a população visse que os heróis também se abatem».
 
 
Quanto ao Juan, por tudo que foi dito a seu respeito, pela maneira como morreu, pela doentia exposição que fizeram do seu corpo morto, foi feito um autêntico mito, lenda e herói da resistência antifranquista, quer de um e outro lado da fronteira, cada vez mais constará nos anais da história. Pela minha parte recordarei como o “bandido” da minha infância passou a “guerrilheiro romântico” que fugiu de um fuzilamento certo em Espanha, para ser assassinado no Cambedo, Chaves, Portugal, em 20 de Dezembro de 1446, ao lado da terra que o viu nascer.
 
 
Lamento não ter uma foto do Juan. Mesmo as que lhe foram tiradas pela Foto Alves no cemitério de Chaves e expostas na montra da Rua Direita, desapareceram ou foram destruídas pelo seu autor, pois ao que me testemunhou o seu neto, teria sido ameaçado de morte pelos espanhóis, talvez por elementos da anti-guerrilha ou mesmo da PIDE.
 
Juan Salgado foi sepultado no cemitério de Chaves, no dia 22 de Dezembro de 1946, no quarteirão nº5, em campa não identificada, conforme consta no livro de registos do Cemitério Velho de Chaves, pág. 32. Hoje já nada existe de Juan.
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Foi aqui, no quarteirão nº 5, que Juan Salgado foi sepultado, em campa não identificada e da qual hoje já nada existe.
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E por hoje é tudo, amanhã já estaremos à porta do Cambedo no dia anterior à Batalha.
 
Até amanhã, com histórias do Cambedo.
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publicado por Fer.Ribeiro às 02:15
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