Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

Sexta de Lamentos, Chaves é uma cidade porreira...

 

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E enquanto não chegam os “discursos sobre a cidade” vamos a mais um lamento.
 
 
Pois o lamento de hoje vai para os negócios e os políticos, ou melhor, só para os negócios, pois os políticos já fazem parte desse lamento.
 
Desde já aviso também que hoje não sei muito bem o que vou dizer, pois começo por não perceber nada do que se passa à minha volta, ou não quero perceber.
 
Antigamente, cá pela terrinha, negociava-se principalmente nos dias de feira. Negociava-se o presunto, as batatas, as cebolas, o vinho, as couves, a madeira, os pipos, os bois, as vacas, ovelhas, cavalos e burros, chinelos espanhóis, bacalhau, bananas e todo o tipo de contrabando, terrenos de cultivo, moeda estrangeira, leite de Outeiro Seco, roupa lavada de S.Lourenço, carqueja dos montes, carvão, petróleo ao litro, vinho ao quartilho e tudo era vendido a granel nuns sacos de cartão tosco. A roupa era feita de encomenda, sapatos e botas passavam muitas vezes pelos sapateiros, sapatilhas eram só para a ginástica, e havia na cidade três grandes centros comerciais: A rua de Stº António, a Rua Direita e a Madalena. Havia ferreiros, alfaiates, sapateiros, tanoeiros, ferradores, albardeiros … e toda uma gama de profissões espalhada pela cidade e bairros da cidade, onde havia também sempre um local de convívio e mercearia, que geralmente era a Taberna num dois em um. Havia emprego para toda a gente e só não trabalhava quem não queria.
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Sou da geração de 60, portanto não foi há muito tempo que estas coisas eram assim. Aparentemente tínhamos de tudo, mas todos sabemos que a vida não era fácil, e havia muitos pobres que mal ganhavam para comer e viver, alguns remediados, os ricos alinhados do costume e a política resumia-se ao que Lisboa ditava, e, ou se estava alinhado com o regime e tiravam-se alguns dividendos ou então era-se comunista, e a estes só restava irem dentro, ou para fora, mas deviam ser muito poucos, pois as Aldeias estavam cheias de gente, as ruas da cidade habitadas e aos Domingos as igrejas abarrotavam de fieis.
 
Claro que não tenho saudades desse tempo, pois com o 25 de Abril ganhou-se a Liberdade, o direito ao voto e o poder de decidir e não há nada como sermos livres, podermos decidir que manda em nós em Lisboa, na cidade e na freguesia, dizer o que pensamos, escolher uma profissão ou estudar até a exaustão. Pode não haver empregos, porque há falta deles, mas podemos decidir livremente e aprendermos uma profissão, e quando há um emprego à vista, não é como antigamente em que a cunha estava institucionalizada. Agora há estágios e depois os concursos e entrevistas para os gajos (ou gajas) mais porreiros pá, que é como quem diz, os mais competentes.
 
Antigamente havia os que davam para os estudos e estudavam e, conforme as possibilidades, assim tiravam o seu curso comercial, industrial, do Liceu e uns tantinhos iam a Doutores, Advogados ou Engenheiros e cada um lá se ia arrumando conforme as habilitações. Os que não estudavam, cedo começavam a perceber que o corpo servia para outras funções, como carregar baldes de massa, empunhar uma enxada ou com sorte entrar como aprendiz de barbeiro, alfaiate ou ficar atrás de um balcão.
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Hoje toda a gente estuda e toda a gente tira o seu curso superior e, se não o conseguir em tempo útil, terá sempre (em qualquer altura) uma nova oportunidade. E diga-se que é também um dos dons da democracia e dos novos tempos, pois a ignorância é sem dúvida alguma um dos males que mais nos aflige e Portugal já não é país de analfabetos, o único senão, são as expectativas que se criam a quem estuda a sério. Mas pelo menos somos cultos e até dá gosto chegar ao café e dizer: Então como vai Sr. Doutor, tudo bem!? Olhe quando puder tire-me um cafezinho!
 
Mas o meu lamento de hoje vai mesmo para os negócios.
 
Os Jornais da terrinha, hoje realçam na primeira página:
“Chaves vai ter hospital privado a partir de 2009” ou “ Hospital privado em Chaves estará pronto em 2009” e realçam que terá maternidade e serviço de urgência 24 hora por dia. A Voz de Chaves acrescenta uma entrevista sobre o nosso Hospital e estado da nossa saúde, com a nossa deputada que zela pelos nossos direitos em Lisboa e que à pergunta:
 
O Facto de acompanhar ( a Chaves, claro) o Ministro da Saúde, Correia de Campos, foi um indicador claro da sua visão sobre este assunto?
 
À qual respondeu:
 
- Fui acusada pelo Dr. Manuel Cunha de que “andei de braço dado com o Ministro a encerrar o Bloco de Partos”. Eu acompanhei de facto, o Ministro, por um dever institucional e, também, por convicção de que a reorganização de serviços que está a ser feita ser no sentido de melhorar o nível da oferta e da qualidade dos serviços de saúde… e blá, blá, blá… ou seja, posso concluir que concorda com a abertura do hospital privado (a conclusão é minha).
 
Pois em 2009, pela certa,  que no Hospital privado teremos sem dúvida um melhor atendimento, partos acompanhados de música clássica, simpatia e gente competente. O problema e ter dinheiro para pagar esses serviços, e essa “saúde” que segundo a nossa constituição, deveria ser garantida a todos e por igual. Faço daqui uma humilde proposta de cidadão comum – Mudem de constituição. E atenção que estes negócios de saúde são de um Governo Socialista, ou seja, não são negócios de interesses nem de cunhas, são apenas negócios porreiros, para gente porreira.
 
Em Chaves também tem florescido muito essa política dos negócios porreiros para gente porreira. Amanhã mesmo abre o Casino de Chaves, um negócio porreiro de gente porreira, com dinheiro porreiro, mas esse, curiosamente até poderá ser uma mais valia para a cidade e para o turismo da região. Claro que para isso há que ter, por parte dos reponsáveis (de um e outro lado),  uma abertura para a cidade, pois corre-se o risco de todo esse potencial sair da A24 para o casino e do casino para a A24, não tivesse o casino direito a um acesso à auto-estrada quase privativo.
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Mas os negócios porreiros, com a desculpa de arranjar alguns empregos (embora tivessem mandado muitos mais para o desemprego) já há muito que povoam Chaves e parece que vai haver ainda mais. Falo-vos das médias e grandes superfícies da malta porreira dos grandes grupos e dos grandes negócios de Portugal. Contando por alto, Chaves tem pelo menos 10 desses negócios todos virados para o consumo, que faz com que todos os dias ainda fechem lojas, mercearias, mini-mercados e outras casas de comércio tradicional e dos pequenos negócios tradicionais, quer na cidade quer nas aldeias. Já não é só o betão que rende por aqui, os negócios porreiros dos grandes grupos já descobriram que em Chaves ainda há algum ouro para explorar, e quando a mina esgotar, não há problemas – Fecha-se o negócio, e ala para outras paragens mais rentáveis, porque viver em Chaves, cada vez é mais caro, e cada dia que passa, há novos “tesos”, por isso não admira que Chaves cada vez seja mais uma terra de partida sem regresso, principalmente para os mais jovens e recém formados que em Chaves terminam a servir a uma mesa de café, ou com sorte, numa caixa de um negócio porreiro.
 
Eu avisei no início deste post que hoje não sabia muito bem o que ia dizer, pois começo por não perceber nada do que se passa à minha volta, na cidade ou, nem quero perceber, uma coisa já fui aprendendo e, pelo sim pelo não, vou ensinando aos meus filhos como se é um gajo porreiro, para um dia mais tarde terem um emprego porreiro, para na minha velhice poder ter direito a um lar porreiro. São estes os valores que agora além de se ensinarem às crianças, se exigem das crianças: O porreirismo! …pá!
 
Até amanhã, pá! Um dia porreiro, pois vamos até mais uma aldeia de Chaves.
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publicado por Fer.Ribeiro às 03:32
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1 comentário:
De Salvador Silva a 18 de Janeiro de 2008 às 16:44
Não saber o que dizer, mas dizer o que sabe e deve. Parabéns. Abraço, Salvador Silva.


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