Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

Chaves, em dia de chuva molha-tolos!



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Eu sei que tenho andado por aqui meio cinzento. Solidariedade com o tempo de chuva, com o Inverno, talvez. Mas não tarda ai a Primavera, e na Primavera tudo em nós desperta.

 

Hoje que trago aqui alguns contrastes, curiosamente esteve um dia cinzento, estúpido, daqueles que aparentemente temos um céu escuro, carregado de água e apenas molhou tolos. Um dia sem qualquer contraste, desinteressante até. Um daqueles dias em que apetece estar em casa, à lareira, de pantufas e sem fazer nada. Enfim, um dia pasmado.

 

Mais que contrate é a contradição dos dias.


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Então hoje resolvi entrar nos contrastes da cidade. Apenas contrastes de luz de um dia da cidade. Falta-lhe o amanhecer, eu sei, mas não podemos ter tudo. Apeteceu-me contradizer o dia e deixar também um pouco da noite parda de Chaves.

 

Estou num daqueles dias em que me apetece escrever (com modos de quem fala), sobretudo divagar nas entrelinhas de uma conversa também parda, como se pudesse falar, falar, falar e não sair do cinzentismo das palavras, ou seja, não dizer nada. Mais um contraste portanto, pois o que a mente me dita, transforma-se em devaneios pelas letras do teclado que tenho à minha frente. E chegamos ao virtual.


 

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Tudo é virtual. Em Chaves também tudo vai sendo virtual. Aliás em todo o nosso querido Portugal tudo é virtual. Tão virtual são as coisas (apanhem toda a amplitude de coisas) que até o virtual é uma virtude. Não sei porque raio neste país até o virtual é da família da virtude, pelo menos na forma.

 

Pelas manhãs já se vai substituindo o tradicional bom-dia por um Tudo bem!?. A resposta é invariavelmente a mesma: Tudo bem!. Ontem, resolvi propositadamente trocar o “tudo bem?” por um “Bom-dia!” e recebi como resposta: Tudo bem! . Contrastes da contradição, diria eu, pois todos sabemos quem ninguém gosta de lamechices e lá vamos aviando as pessoas com um “tudo bem”.

 

Sinceramente que não me apetece dizer nada daquilo que estou a dizer, pois apetecer mesmo, apeteciam-me outros devaneios que até nem são devaneios…….. definitivamente desisto por aqui enquanto ainda me resta alguma luz.

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Sempre encontrei conforto nas palavras dos poetas. Torga é para mim um grande poeta, que fez poesia dos dias simples, vividos pelos passos dos lugares que percorria. Era Transmontano que vivia Trás-os-Montes à distância de umas centenas de quilómetros e que como qualquer emigrante não dispensava espraiar por estas terras o verdadeiro significado dos seus dias e que nunca dispensou também uma visita à nossa cidade, mais que na procura de um conforto das nossas águas quentes estou em crer que procurava aqui um conforto espiritual em que a revolta das coisas simples vêm ao de cima. Torga era simples, era Transmontano, era transparente e descarregava nas palavras intensas a revolta dos dias. Lamento que Torga já não esteja entre nós. Cumpriu uma vida, mas simultaneamente sinto-me feliz, por Torga e por ter “desistido” dos seus passos no tempo certo em que uma montanha esconde o sol dos dias e nos deixa apenas com o pardo de uma noite de Inverno em que nunca sabemos como o dia vai nascer.

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Passo as palavras a Torga, com as quais me despeço com um até amanhã, em Chaves.

 

Que cada um leia o que quiser ler nas suas palavras.

 

 

Chaves, 31 de Agosto de 1987

 

Sabe tanto de mim como o poeta que quando nos encontramos sinto-me transparente.

 

Miguel Torga, In Diário XV

 

 

Chaves, 1 de Setembro de 1987

 

Sim, acredito na acção nefasta das pragas. Se a bênção tem efeitos benéficos, por igual lógica a maldição tem de os ter maléficos. Os numes do absurdo podem todos o mesmo.

 

Miguel Torga, In Diário XV

 

 

Chaves, 2 de Setembro de 1983

 

Disse-lhe:

- As coisas boas esquecem. As más é que não. É que só elas deixam cicatrizes.

 

Miguel Torga, In Diário XIV

 

 

 

 

 

Aos do costume, este blog disse nada!

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:42
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1 comentário:
De João Martinho a 20 de Fevereiro de 2008 às 17:41
deixem-me cair em esquecimento pois as palavras são filhas do tempo o trabalho filho da alma e assim seus dias vão passando, assim vou aprendendo algo mais sobre a terra dos sonhos aqui consigo dia a dia.
Porque não podemos escolher as nossas palavras como escolhemos uma peça de roupa, uma musica conforme o estado de espírito daquele dia, conforme o modo como nos soa naquela hora?
Escolho palavras apenas porque servem o meu divagar ou então porque não servem mas são as mais indicadas para tal serventia.
As palavras vossa excelência já as conhece , a diferença vai estando no modo como eu as vou conhecendo ou como lhe vou dando a conheçer , e ai transformam-se em expressões, por vezes afirmações, outras duvidas e quase sempre em desabafos, invariavelmente escritos pela discrição do silêncio, pela comodidade que é a falta de exigência de resposta. Bem sei que o dia ta meio cinzento, bem sei que as ruelas estuam sempre presentes nestes dias de amargura e pergunto-me porque será? seu porquê, mas aqui a interrogação pois posso ate estar enganado ... Sei que à um Poeta que tem sempre lugar no seu ser de O Medico e Poeta Dr. Adolfo Correia Rocha acabo com uma frase dele também

Miguel Torga

"O HOMEM é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós."

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