12 anos
Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Discursos Sobre a Cidade



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Texto de Gil Santos

 

 

A MABILDE E A CARQUEJA

 

 

O nevoeiro denso, húmido e gelado, cortava-se à faca. Há semanas que a cidade de Trajano não avesava um raio de sol que fosse. O Astro Rei bem sorria para lá de Izei ou de Casas Novas mas a Veiga estava permanentemente coberta com o manto de uma noiva já estreada. As geadas, naquele Inverno dos anos trinta, pareciam nevões. Não derretiam umas para que outras se lhe sobrepusessem. O bafo expelido pela garganta dos flavienses assemelhava-se às golfadas de fumo dos vulcões, era espesso, plúmbeo. A água, congelada nos canos, não vertia das torneiras de latão pela manhã, e a condensação do vapor de água no interior das vidraças congelava. O ar, de tão frio, cortava como a navalha mal afiada de um barbeiro. O chiasco entranhava-se nos ossos. Quase gelava a própria medula. Ninguém aguentava este inferno de carambelo feito. Das muralhas da Torre de Menagem, antiga parada do dezanove, não se divisava sequer as Caldas, quanto mais a Fonte Nova ou o Santo Amaro. E nem mesmo a bagaceira da tasca do Malgudo servia para nada! As ruas da urbe a partir das ladainhas estavam desertas e o silêncio estrangulava o anoitecer. Salvava-se o rebuliço do jogo do tchincalhão nalgumas tabernas das ruas medievas do centro histórico. Aí se juntavam copofónicos de maduro tinto e jogadores da batota. Nesses casinos, onde as horas eram consumidas entre tintol, cantigas à desgarrada e cigarros Kentucky, planeavam os gandulos as maroteiras e as judiarias. Para além do mais também aí eram organizadas grandes tainadas com as galinhas, os patos e os coelhos que se rapinavam aos mais incautos nos quintais da cidade.

 

Chaves, não sei se por aí terminar a linha do Corgo se por outra qualquer razão que desconheço, foi desde há muito paradeiro de cromos: o TORTUMIL, a SAMORINHA, o CHECHA LEMA, o TCHITCHARRO, o GAITAS, o MANEL TEIXEIRA, a MARIA LANDAINAS, o CUBANO, o NÁNA BICHA, o BETINHO, o CARETO, o CHAMOÍNHA, o próprio JOÃOZINHO PADEIRO e eu sei lá quantos mais! Normalmente eram estes os desgraçados peões das nicas daqueles malandrões.

 

No Inverno, vindas do Barroso pobre, desciam à Veiga mulheres de longas saias pretas e jalecos apertados ao corpo roliço. Encabadas em socos de amieiro, defendiam-se do zimbro com pesadas croças de palha centeia e do frio com grosseiras capas de burel. Acompanhavam-se de burros carregados de carqueja que vendiam de porta a porta para que se acendessem melhor as braseiras. Eram fêmeas rudes, habituadas aos lobos e à solidão dos caminhos. Tementes do divino conheciam apenas as regras que a natureza ditava. A cidade, pouco mais significava do que a oportunidade de obtenção de uns magros cobres que tornassem menos penosa a vida já de si tão dura. Tudo o resto era-lhes indiferente e não tinham papas na língua se fosse preciso espantar a caça!...

 

Pelo fim da tarde e ao início da manhã quem passasse pela Rua dos Gatos, do Poço ou do Correio Velho, deparava-se com inúmeras braseiras assentes nas pedras da calçada de onde se soltavam choinas fumegantes, embrasando o carvão que aqueceria, sob estrados de redondas mesas de pinho compradas na feira e cobertas por camilhas espanholas de contrabando, os cubículos das casas. À volta destas mesas sentavam-se as comadres fazendo na meia a três agulhas, cortando na vida das vizinhas e enchendo as pernas de cabras. O cheiro da carqueja ardendo, misturada com o frio cortante do Inverno, imprimia àquelas ruas estreitas e escuras um ambiente medieval quase mágico.

 

No princípio de uma tarde, igual a quase todas as tardes de Inverno, subia do Arrabalde a rua Direita, por sinal a mais torta da cidade, uma mulherzita de meia idade. Curvada às dificuldades da vida, puxava à rédea, por uma cabeçada de corda de sisal muito gasta, um jumento da sua idade. Com mais de meia carga ainda o pobre do animal, lazarado, seguia rua acima, pachorrento, ao ritmo marcado pela vontade da barrosã. Conhecendo de ginjeira as manhas da dona não ousava contrariá-la sob pena de umas sardinhas assentes no seu pobre lombo já de si tão martirizado. A carqueja, pousando sobre serapilheira no lombo do animal e presa por uma corda à ilharga, dançava embalada pelo balanço das passadas do bicho. A mulher, impávida e serena, confiava cegamente na fidelidade do jumento e nem sequer se dava ao incómodo de abrandar o passo e voltar-se para a trás conferindo o preceito.

 

Era costume neste Largo do Arrabalde, mais tarde dos Quadradinhos, ao pé de um velho quiosque que por ali havia, parar toda a corja da cidade à volta dos engraxadores, velhos depositários de novidades e intrigas. Ora no início dessa tarde e apreciando o espectáculo encontravam-se por ali todos os salafrários da cidade. Quando se fixaram naquele quadro tão pitoresco da mulher do burro e da carqueja logo alvitraram uma oportunidade graciosa de diversão. Não perderam tempo!…

 

Ali por perto sabiam que dormitava, sob um dos arcos secos da velha ponte romana, talvez a curar a carraspana da manhã, o CHECHA LEMA. Era este um homem de meia idade que sem eira nem beira e vindo sabe Deus de onde, gastava as horas do seu dia a esmolar a beber e a dormir. Era um pobre diabo a quem todos conheciam a pancada de que era um militar de alta patente no comando de exércitos invencíveis. Das ruas da cidade fazia a parada dos seus exércitos e em altas vozes proferia ordens de comando curiosíssimas aos soldados fantasma da sua imaginação. Certamente um trauma que lhe ficou da guerra dos dezassete pela Flandres. A trupe decidiu procurá-lo e com a promessa de um copito arrastou-o à pressa rua acima. Sabiam que por natureza não se negava a uma boa brincadeira e muito menos à pinga do Faustino!...

 

Conduziram-no Rua Direita acima e por alturas da ourivesaria do Belchior um dos rapazes tirou d’amodinho a cabeçada do burro e enfiou-a na cabeça do CHECHA LEMA. O jumento foi levado para o jardim do Tabolado onde para seu gáudio foi solto a pastar a erva queimada pela geada. Faltariam ainda uns trezentos metros até às Portas do Anjo onde pela certa se encontraria o próximo freguesa da barrosã. Porém, ali pela farmácia Costa Gomes ao checha lema foi ordenado, por um dos que seguia em procissão, que zurrasse. Assim fez, arrancando um daqueles zurros que não envergonharia qualquer asno no cio do mês de Maio.

 

− Ah rais te fonha no burro que não se cala, arre buuuurro!... − gritava a mulher sem que se voltasse para verificar a que se devia comportamento tão estranho!

 

Claro que à medida que a multidão seguia rua acima vinham à porta das muitas lojas daquela rua comercial os clientes e os patrões para assistirem a este espectáculo inédito. Aquilo era de facto digno de ser visto!

 

O cortejo, de uma boa meia centena de pessoas, chegou enfim às Portas do Anjo. As pessoas, ávidas do final da história, seguiam em mal contido silêncio.

 

− Oh ti Marita, vocemecê quer carqueja? − gritava a vendedeira para um primeiro andar de uma velha casa senhorial numa das esquinas do Largo do Anjo. A D. Marita, uma sexagenária tetraneta de viscondessa, bem disposta e danada para o pagode, quando chegou à janela de guilhotina e se deparou com aquela cena, não se desmanchou e retorquiu:

− Ai é vossemecê Ti Mabilde,!? Bote-me aí dois molhitos que já los pago!

 

A pobre mulher, quando se virou preparando-se para arrear a carga e se confrontou com um mar de gente em trejeitos de gozo e mais um palerma pendurado na cabeçada do burro, passou-se. Não esteve com meias medidas, rapou de um estadulho da acarreta de um carro de bois que por ali estava estacionado e à laia de jogadora do pau estendeu duas sardinhas na espinha do desgraçado lema tombando-o redondinho. Claro que os outros rapazes para acudir ao infeliz, entraram no perímetro do movimento rotativo do fueiro e lerparam pela mesma medida. Cada meia dúzia de lostradas pinava outros tantos pimpões, entre impropérios difíceis de aqui escrever, pelo menos com a terminologia exacta e a mesma raiva com que eram vociferados!... O resto da malta alinhava-se pelas bordas da praça mas mesmo aí não estava muito segura. A mulher parecia possuída pelo demónio e redemoinhava aquele varapau qual Maria da Fonte com a sua fouce. Por onde o grosseiro pau de carvalho passasse deixava marca e o terreiro já tinha espargidos para mais de meia dezena de pimpões.

 

Um dos desgraçados que havia experimentado as carícias do estadulho numas das espáduas e estendido no chão contorcendo-se de dores, para que falasse, foi apertado pela barriga com o varapau aguçado em jeito de lança. Gemendo, mais que falando lá foi capaz de chibar onde se encontraria o burrito. Largando o pau, a barrosã, seguiu aflita a senda da informação, não havendo vivalma que ousasse segui-la. Desceu a rua dos Gatos e seguiu em direcção às Caldas. Junto ao Tâmega lá encontrou o animal regalado pelo descanso e pela pastagem. Também o pobre do bicho foi premiado com duas estadulhadas pelo lombo para que aprendesse!...

 

Durante muitos e muitos anos foi a Mabilde vista por Chaves a vender a sua carqueja, apanhada nas fraldas da serra do Leiranco. Porém, como soi dizer-se, “o medo guarda a horta” e doravante andou ausente dela qualquer perigo.

 

Pudera!...

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:48
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