Domingo, 6 de Abril de 2008

Bolideira - Chaves - Portugal



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Hoje vamos até à Bolideira.

 

Quando se fala da Bolideira temos que falar da Pedra da Bolideira que, por terras flavienses, é tão famosa como o Papa no Vaticano. E tal como o Papa, também por aqui toda a gente ouve falar dela, mas nem toda a gente a conhece pessoalmente. Então, hoje, para quem não conhece, vou apresentar-vos a pedra da Bolideira além da própria aldeia da Bolideira.

 

Comecemos pelo termo Bolideira.

 

Cá pelas nossas terras, como aliás por todo o Norte e um bocadinho por todo o nosso Portugal interior, trocamos os vês pelos bês. Começamos logo em bebés por ouvir essas trocas quando se começa a tomar o leite da “Baquinha”. Toda a nossa aprendizagem de criança foi feita à base da observação com um “Bê” isto e “Bê” aquilo, com um “bem” cá, ou aqui, enquanto nas nossas dietas alimentares a “bitela” nunca se desprezava e de adultos, sempre acompanhadas por um bom copo de “binho”. Enfim, o Bê faz parte da nossa linguagem como o ar faz parte da nossa respiração e, sinceramente, não vejo nenhum mal cultural nisso, antes pelo contrário, pois o bê faz parte da nossa identidade de “bimbos” como os “mouros” nos chamam, os mesmos que depois de sair das suas terrinhas, facilmente esquecem o que é um engaço.


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Com a Bolideira, penso eu, que se passou o mesmo que com a troca dos vês pelos bês, pois a bem dizer, Bolideira deveria ser Bulideira, pois tudo indica que o termo da aldeia virá da sua famosa pedra que é conhecida por bulir. Mas tal como o “binho” não me incomoda desde que seja do bô, também a Bolideira não me incomodada desde que a pedra bula, e até hoje continua a bulir.

 

Tive o prazer de conhecer esta pedra da Bolideira desde muito cedo. A partir de aí, sempre que passo por lá, a paragem é obrigatória, quer vá sozinho ou acompanhado, para não falar das inúmeras vezes que levei lá alguém para a conhecer e conhecer o fenómeno de um simples mortal conseguir bulir uma pedra, que segundo os cálculos, rondará as trinta toneladas. Fotograficamente falando, também cada uma das vezes que por lá passo, a vou fotografando, aliás são bem notórias as diferentes estações do ano em que as fotografei no presente post. Mas ia eu dizendo, que paro sempre por lá. Gosto do vento nas faces durante o Inverno e até de aproveitar as sobras da pedra bolideira que bule durante os infernos de verão. É sempre um lugar calmo, onde a natureza se ouve na sua plenitude, com o chilrear da passarada, o ladrar distante de um cão, ou até a presença de uma cabra solitária, como no caso de ontem.


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Gosto de parar por lá e tomar um pouco calmaria, sozinho ou acompanhado, tanto faz, o que interessa mesmo é ir por lá de vez em quando, já outros, melhor seria que por lá nunca tivessem indo, pois se alguém houve que teve a ideia de por lá fazer um parque de lazer ou descanso, com mesas e pedras de granito, também não faltou (infelizmente como sempre) mão criminal que as destruísse. Enfim, infelizmente também já vamos estando habituados a este tipo de atitudes e estupidez.

 

Bolideira ou bulideira da pedra que bule!, mas afinal onde é que a podemos encontrar!? E a aldeia!? Será que por lá só há  pedra e nada mais!?


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Pois quanto ao haver por lá alguma coisa, há sim senhor, meia dúzia de barracões, penso que uma oficina, e duas a três casas. Gente que a habite, penso que já não há, mas até nem é um caso de desertificação, pois penso que nos melhores dias da aldeia da Bolideira nunca foi habitada para além de uma ou duas famílias, mas sempre teve a sua importância, pois era terra de passagem obrigatória de muita gente e de todas as aldeias de montanha da Castanheira e do planalto das freguesias de Travancas, S.Vicente, Roriz, Cimo de Vila, Sanfins, Tronco e Bobadela, para não falar do pessoal de Lebução e restantes terras de Valpaços e Vinhais. A Bolideira funcionava como um entreposto da boa batata que se produzia  em toda esta região que era obrigada a passar pela aldeia. Mas também isto, são rosários de um terço do passado.


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Hoje a Bolideira, para além da presença física dos armazéns e das casas abandonadas (excepção para a oficina) é apenas um cruzamento na estrada cheia de placas indicativas e uma aldeia de passagem, mas, pode-se orgulhar  sempre da sua pedra que para além de bulir, inspira muitas mentes pensantes da cidade, intelectuais e políticas. Afinal pedregulhos há-os por todos os lados e nem sequer é preciso ir à Bolideira. Mas mesmo assim, vale a pena ir por lá para conhecer a verdadeira e genuína pedra de bulir.


Agora a lenda:

- Conta que o fenómeno do bulimento da pedra foi descoberto um dia (em data imprecisa)  quando um pastor apascentava os seus animais e reparou que um carneiro ao coçar os chifres na pedra a fazia mexer. Para confirmar o que seus olhos viam, o pastor resolveu colocar uma pequena vara de giesta entre o penedo movediço e um outro que estava fixo na base. Confirmou então que essa vara arqueava quando empurrava o penedo.


Lenda é lenda, o facto é que a tal vara está sempre lá para que um fenómeno físico de equilíbrio se verifique e nos faça pasmar como crianças.


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A aldeia, ou lugar, ou cruzamento, ou entreposto, ou a pedra que bule, pertence à freguesia de Bobadela e fica a 18 quilómetros de Chaves, na E.N. 103, entre Chaves e Bragança, ou Vinhais, ou Lebução, tanto faz, pois a 103, desde Braga até Bragança, passa por estas e muitas mais terras, para além de ser um das principais vias de ligação de muitas aldeias à cidade de Chaves e para a Europa, pois é a mesma 103 (mas barra ou traço cinco) que nos leva até à fronteira.


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E por hoje é tudo, no próximo fim-de-semana teremos por aqui mais duas aldeias. Até lá, vamos passando pela cidade de Chaves, os olhares, os discursos e até alguns desabafos sobre ela, a minha e nossa mui nobre cidade que tantos amam e alguns desprezam ou maltratam e exploram.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:32
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4 comentários:
De blogdaruanove a 6 de Abril de 2008 às 15:47
"Cá pelas nossas terras, como aliás por todo o Norte e um bocadinho por todo o nosso Portugal interior, trocamos os vês pelos bês." Caríssimo: As pessoas do norte não trocaram absolutamente nada nesse aspecto. Aliás, se alguém trocou alguma coisa (do ponto de vista da evolução fonética e linguística) foram as pessoas do sul. É certo que, por exemplo, hoje escrevemos "cavalo" mas não devemos esquecer que, para além da forma latina "equus" (na qual radica a forma feminina "égua" e palavras como "equestre", "equídeo", "equitação", passe a liberdade de derivação nas classes gramaticais...), também coexistia a forma "caballum". Aliás, em Espanha ainda hoje existem as palavras "caballo" e "caballero"... Além disso, as pessoas do norte conservam na sua articulação uma das regras fundamentais da linguística - a lei do menor esforço. Com efeito, do ponto de vista da fisiologia e da articulação fonética, é muito mais fácil pronunciar uma consoante bi-labial (neste caso, [b]) do que uma consoante lábio-dental (neste caso, [v]). Seria interessante ouvir a opinião do vosso suposto assesssor cultural sobre este assunto, uma vez que sobre a datação de sepulturas antropomórficas apresenta opiniões muito discutíveis... Saudações!


De José Miguel da Rocha a 6 de Abril de 2008 às 20:18
Mais um dos muitos e bons trabalhos a que o Snr . Fernando Ribeiro já nos habituou.
Como hoje é domingo, só agora tomei conhecimento e ainda bem, porque assim pude apreciar, e gostei, o comentário de Ruanova ".
Sobre a Fraga Bulideira , (creio que é assim que todos pronunciamos embora se escreva Bolideira ) a melhor que tenho a contar, é que, das várias vezes que tive o gosto de a apresentar a pessoas conhecidas e visitantes que me acompanhavam, quando lhes dizia que aquela grande e tão pesada fraga "mexia", pensavam que era para me rir delas se tentassem fazer bulir o monstro e por isso tinha que primeiro ser eu a fazê-lo.
Quanto ao local Bolideira , foi dos mais movimentados do Concelho de Chaves, sobretudo nas décadas de 40 e 50. Armazenamento (em silos) de batata de semente de boa qualidade, cruzamento de passagem, 2 vezes por mês, 18 e 28, para as feiras do Castelo e talvez o apeadeiro mais movimentado da carreira Chaves/Vinhais, propriedade do Snr Teodoro e antes do Snr . Santiago, pois era ali que os passageiros das aldeias que constam na placa de sinalização, vinham tomar o transporte que os levava e trazia de Chaves.
Não posso esquecer de mencionar o Snr . CARLOS, dono do único estabelecimento que lá existia e que tantas vezes beneficiei do seu apoio.


De Anónimo a 25 de Maio de 2011 às 14:51
A Bolideira , foi de facto, em tempos idos um lugar muito movimentado, quer pelas pessoas que alimentavam os seus negócios diários nas feiras, quer pelos ranchos de pessoas, homens e mulheres que prestavam serviços nos múltiplos silos das batatas que aí eram implantados. Os silos foram fonte de emprego e rendimento para muita gente, que ao serem cavados e amanhados com a palha de centeio e posteriormente enterrada as batatas neste fomentavam a mão de obra local e sazonal. alguém pode descrever este assunto com mais pormenor?
A pedre Bolideira é um fenómeno da natureza que dá nas vista pela sua imponência e que qualquer menino com jeito a pode mover ou bulir. Esta pedra é interessante, pois dizem os antigos que já foi inteiriça e após ter rachado continua a mover-se, bulir, tal não é o encaixe natural que a sustenta. Mas o Sr. Carlos e os seus filhos têm muitas histórias para contar sobre esta pedra, há pormenores interessantes, como por exemplo se repararem numa das fendas rachadas apresenta uma planta do pé, lembrando um gigante que ali passou. Bem hajam.


De Anónimo a 12 de Maio de 2016 às 17:24
Saúdo todos os que comentaram e reproduziram as suas opiniões;
A pedra Bolideira tem uma historia não muito antiga, que remonta ao tempo da pastorícia dos anos mil e oitocentos e tal. O Sr Carlos e seus filhos diziam que alguém avaliou a pedra em 100 toneladas e que era de facto inteira, tendo rachado por força da natureza, e mesmo assim continua a mexer, tal é o seu ponto central. Se observarmos bem a fenda rachada apresenta uma planta do pé humano.
Os silos eram grandes extensões de terreno cavados à mão com uma profundidade de metro, sendo revestidos com palha a fim de se aguentar abatata todo o outono e e às vezes o inverno.


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