Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Discursos Sobre a Cidade

 

.

 

 

A OURIVESARIA DE MESTRE CASTRO

 

Texto de Gil Santos

 

Não há, neste país, vila ou cidade que se preze que não tenha a sua «Rua Direita». O mesmo acontece na urbe de Trajano que deve o seu topónimo actual – Chaves – à evolução fonética da denominação original aquae flaviae que, como se percebe, nada tem a ver com as chaves que abrem as fechaduras das portas e que algum iluminado fez o favor de colocar no brasão da cidade.

 

A origem das «Ruas Direitas» perde-se na bruma dos tempos. Estudiosos há que a explicam o facto de se tratar da rua primogénita e, portanto, a principal; outros crêem que, por se tratar quase sempre da rua mais torta, se crismou ironicamente de direita; outros, ainda, acham que é uma “deformação de «rua directa», que normalmente vai da igreja principal de uma localidade até à saída mais importante (embora existam variações: entre duas igrejas, entre sé e sede do governo local, entre igreja e torre de menagem). O facto de serem ruas antigas faz com que normalmente sejam bastante tortuosas, mas foram em tempos a rua mais importante, ou pelo menos uma das mais importantes, da povoação em causa.»

 

Ora, a nossa Rua Direita, estreita e escura, de facto a mais torta mas a principal da cidade medieval, tem o seu início no Arrabalde e termina no Largo do Anjo, num percurso de uns bons trezentos metros. Ligeiramente inclinada, sobretudo até à igreja matriz de Santa Maria Maior, foi desde sempre uma artéria votada essencialmente ao comércio. De um lado e do outro, quase porta sim porta sim, ainda hoje, há uma loja. Desde sapatarias a papelarias, passando pelas passamanarias, há de tudo nesta rua. Durante muitos anos aqui se localizaram as ourivesarias de referência da cidade: a do velho Castro e a do Belchior.

 

 

O proprietário da primeira era um homem nobre e austero. A qualidade dos seus produtos e a seriedade dos seus serviços eram referências para todo e qualquer comerciante daquele ou de qualquer outro ramo. Muito respeitado e respeitador, mestre Castro não deixava o seu crédito por mãos alheias. Artigo que vendesse teria obrigatoriamente o símbolo da qualidade. Aliás, flaviense que se orgulhasse era portador de um ómega do Castro! Não sei se teve filhos e se estes seguiram o mesmo negócio com o brio de seu pai, sei é que o prestígio daquela loja continua, ainda hoje, a ser uma referência na cidade.

 

A ourivesaria Castro situava-se um pouco antes da esquina da Rua Direita com a Ladeira da Brecha e ao lado da barbearia do Fanhonha. A seguir à sua porta principal, a rua faz uma pequena reentrância por causa da parede da casa seguinte ser meio metro mais saída. Assim formava-se ali um canto ajeitadinho aproveitado como urinol nas noites pouco iluminadas daquela rua da cidade velha. Por isso, em cada manhã era ver mestre Castro de balde na mão a lavar o cantinho do crime, não fossem os clientes ficar mal impressionados com o amoniacal cheiro que vertia daquele canto malfadado. Era uma desgraça! O homem bem tentou que a Câmara resolvesse o problema mas sempre em vão. Que esperasse, que havia obras bem mais prementes!...

 

Para ver se os prevaricadores tinham vergonha na cara e iam mudar a água às azeitonas para outras bandas, cogitou colocar lá um cartaz com estes dizeres:”Aqui só meijam os cães”. Porém, arrependeu-se, sob pena de um dos mijotos poder ser seu cliente e se ofender! Pensou ainda pôr, a suas expensas, uma lâmpada forte que iluminasse profusamente o canto… evitaria assim que ali vertessem águas às claras. Contudo, mal fez contas depressa desistiu da ideia! Dado tratar-se de um espaço público, ainda tentou os serviços de água e luz mas nada feito! Então, como haveria de fazer para espantar aquela imundice? Acho que jamais o conseguiu, pese embora todos os esforços que fez.

 

Conta-se que um belo dia ali teve lugar um episódio caricato cujo relato anedótico correu até aos dias de hoje. Não sei verdadeiramente se teria acontecido e tal qual como se conta, mas que importa? Se não aconteceu, podia muito bem ter acontecido; se não foi ali, podia ter sido num outro sítio qualquer, o que mais importa é que se conta e isso basta para que se registe.

 

Corriam os anos cinquenta e Chaves era diariamente visitada pelas vendedeiras de carqueja que, com os seus burros carregados, vinham, sobretudo do Barroso, ajudar a acender o carvão das braseiras nas manhãs frias de Inverno e os fogões de lenha em que era comum cozinhar-se à época. Ora,a nossa já conhecida Mabilde era de todas a mais castiça vendedeira. Já muito velha na arte, tinha os clientes certos e o produto esgotava-se tão só nas encomendas. De cabeça pregada ao chão, jerico à trela, lenço preto pela cabeça e saia de burel até aos pés, marcava o ritmo da jornada com os passos firmes dos seus socos cerrados, sarroque, sarroque, sarroque sobre os paralelos da calçada. Era frequente vê-la Rua Direita acima, pois quase todas as semanas esgotava o stock da carqueja antes mesmo daquela rua terminar. Era uma mulher dura, pequena como a carriça e sem papas na língua. A rudeza da vida nas serranias do barroso construiu uma mulher sarronca, apenas temente a Deus.

 

Num dia chuvoso de final de Inverno, subia calmamente aquela rua, enroscada numa crossa de palha centeia, quando, ao passar pela ourivesaria do Castro, lhe deu uma vontade incontrolável de urinar. Habituada à solidão dos caminhos, qualquer sítio lhe servia para aliviar a carga. Como àquela hora do dia, e com o tempo que se fazia sentir a rua estava praticamente deserta, não esteve com meias medidas: mirou o canto do Castro e topou-o azadinho para berter augas. Embora naquele tempo já fosse hábito as mulheres usarem cuecas, o que durante muitos anos não aconteceu, como todos sabem, para a Mabilde isso era ainda moda para damas da cidade! Da bainha do saiote para cima e até à boca do mundo, tudo era campo livre. Assim, e sem ser necessário prender o burrito, já de si habituado a vê-la em tais preparos, achegou-se ao dito cantinho, abriu as gâmbias quanto pôde, por mor de não molhar a saia e aliviou-se admiravelmente. Não satisfeita e porque a sangueira que trazia de merenda lhe mexeu com a tripa grossa, rematou com um sonoro e respeitável flato, vulgo, peido! O velhote que ao fundo da loja reparava um relógio sobre a banca, apercebendo-se do sucedido somente pelo sentido da audição, levantou a cabeça, tirou o monóculo e ainda foi capaz de ver a velha vendedeira limpando ao forro da saia, a humidade da poula. Levantou-se de rompante e qual furacão enraivecido assomou à entrada, armado com a tranca da porta e capaz de fazer pagar à infeliz a angústia de tantos anos!...

 

― Ah, sua reca! Então isso faz-se à porta do meu estabelecimento e ainda por cima peidando-se como uma vaca?!... Vai levar com esta tranca nos cornos a ver se aprende!...

 

Com a calma que caracteriza a alma dos barrosões, retorquiu:

 

― Ora essa, meu senhor, então vossemecês homes quando meijam abanam-na, nós bufamos-le!...

 

Perante tão amanhado argumento, Mestre Castro, não foi capaz de fazer mais nada senão ir buscar o balde com que todos os dias limpava aquele cantinho!...

 

A vendedeira seguiu serena o seu caminho, como se nada se tivesse passado!...

 

E não passou mesmo!...

 

Os da cidade têm cada mania!... Begueiro!… ― pensava Mabilde de si para si!...

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:00
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1 comentário:
De Carlos Gonçalves a 6 de Junho de 2008 às 14:34
Olá Fernando.
De vez em quando, venho dar uma vista-de-olhos.
Desta vez regalei-me a ler esta história que achei engraçadíssima, e mais ainda pela formo como é contada. A linguagem favorece-a e torna-a "mais nossa".
Parabéns por relembrares aqui velhos contos que só nos recantos do país se conseguem encontrar e só os seus habitantes conhecem.

Ourigo 1955 (Carlos Gonçalves)


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