Sábado, 26 de Julho de 2008

Travancas - Chaves - Portugal

 

.

 

 

Travancas, Chaves, Portugal, o planalto ecológico, a capital da batata. É esta a nossa aldeia convidada de hoje.

 

Pela apresentação já se entende que Travancas é uma das terras do grande planalto de Chaves, com as terras galegas como fronteira a Norte, terra de contrabandistas e guardas-fiscais, vizinha das freguesias de Mairos, Paradela de Monforte, Cimo de Vila da Castanheira, Roriz e S.Vicente da Raia e que seja num único ponto, toca ainda nas freguesias de Águas Frias e Tronco.

.

 

.

 

Travancas é uma freguesia com características únicas, quer na sua paisagem de planalto, com os seus campos sempre verdes e amarelos, numa paisagem que se perde de vista na transição entre o grande vale de Chaves e o mar de montanhas da freguesia de S.Vicente da Raia, que ainda assume um pouco deste planalto.

.

 

.

 

Travancas é sede de freguesia, à qual pertencem as aldeias de S.Cornélio e Argemil, fica a 20 quilómetros da cidade de Chaves e está colada à Galiza, tendo como aldeia mais próxima galega a aldeia de Arzádegos do concellho de Vilardevós, terra dos Guardas-Fiscais, dizem popularmente, porque também era terra de contrabandistas e terra com visibilidade, pois através do seu seio passava-se não só para as terras de S.Vicente da Raia mas também para Espanha, vivendo com (e da) salutar promiscuidade com a Galiza, tal como todas as aldeias da raia, promiscuidade de duas nacionalidades, promiscuidade de guardas, carabineiros e contrabandistas, promiscuidade com alinhados e desalinhados do sistema e do regime, que, como terra de pulo, recebia e hospedava com a cumplicidade e hospitalidade com que o nosso povo tão bem sabia e ainda sabe receber.

.

 

.

 

Com certeza que em coisas de contrabando, das passagens a pulo das “peles”, e da hospedagem de “clandestinos” com pensamentos diferentes do instituído,  Travancas tem muita história e terá (ou teria) muito para contar,, e que seriam dignos de muitos romances ou filmes de encantar, tal como a “Balada da Praia dos Cães”, de Cardoso Pires, que também veio a Travancas buscar um pouco do enredo e personagens.

.

 

.

 

Talvez por ter sido uma aldeia tão importante em termos de raia e contrabando, de Guardas-Fiscais e contrabandistas que tinham por lema estudar e formar os filhos, hoje, com a abolição da fronteira e a extinção da GF, Travancas esteja entregue a alguns, (poucos) resistentes e a muitos (a maioria) de uma população idosa, que embora não seja muito notório no cultivo dos campos, que continuam a ser cultivados com a boa batata e o centeio, Travancas não deixa de ser uma aldeia despovoada e com a sua população envelhecida.

.

 

.

 

Despovoamento que é notório também no seu casario, com muitas casas “esborralhadas”, pouca construção nova e algumas recuperações, dos tais filhos da terra que se formaram e sentimentalmente preservam a casa dos pais, mas só para passagens ocasionais de um fim-de-semana de Inverno, ou-um-ou-outro fim-de-semana quando calha ou o sentimento dita. Claro que na sua gente (formada e não formada)  há filhos da terra que são excepções, tal como o actual  Presidente da Junta, o Gustavo (é assim que é conhecido, pelo nome próprio) um autêntico dinossáurio da política das freguesias que desde o 25 de Abril só não foi Presidente da Junta num mandato e, que tem sido ao longo destes 34 anos de democracia um fiel representante de freguesia, já desde os bem longínquos  tempos de há vinte e tal anos atrás em que o conheci, quando então eu era monitor da DGD, onde podiam falhar todas as aldeias do concelho, mas onde o Gustavo marcava sempre presença com uma equipa de futebol de Travancas com os “putos” da freguesia.  Outro nome que sempre esteve também ligado à freguesia (este formado e médico), é o Dr. Vaz (também é assim que é conhecido de todos, quer na freguesia quer na cidade), actualmente presidente da Assembleia de Freguesia e que sempre manteve uma ligação estreita à aldeia, quer como filho dela, quer como amigo, quer como médico, ao qual todos reconhecem as suas qualidades de homem e médico, com uma forte ligação a povo das aldeias, mas também da cidade.

.

 

.

 

Não poderia passar por Travancas sem realçar estas duas figuras que tão bem a representam e das quais tenho a honra de conhecer, ser amigo e respeitar já há longos anos.

 

Mas mesmo a freguesia estando entregue em boas mãos, não deixa por isso de sofrer dos males das aldeias, o despovoamento. Segundo o Censos de 2001, Travancas possuía 168 habitantes residentes (dados só para a aldeia). Para a freguesia, nos mesmo Censos, Travancas reunia 520 habitantes, contra os 872 habitantes de 1981. Claro que já nem comparamos com dados mais antigos, como os dos anos 60 em que a diferença seriam bem mais acentuada. Mas na análise dos números, o despovoamento da freguesia deve-se principalmente a Travancas e pelo tal “fenómeno” de ter estudado e formado os seus filhos em tempos passados e os mesmos não encontrarem na aldeia qualquer modo de vida compatível com as suas profissões. Aliás a única profissão que ainda por lá prevalece, é a de agricultor e graças a uma agricultura mais extensiva daquilo que é costume no concelho e que está a cargo de meia dúzia de famílias, como por exemplo a família Maldonado, porque a não ser assim, também muitas das suas terras já estariam abandonadas, terras quase na totalidade agrícolas e que se estendem por 12.73 km2 de área, onde a batata é rainha e o centeio marca a sua importante presença e se perdem de vista no planalto e que dão a freguesia a tal paisagem singular.

.

 

.

 

Alguns castanheiros, milho, e gado, além das culturas típicas e de proximidade das aldeias, as culturas das hortas, da cebola, alface, tomates, pimentos, feijão e de tudo quanto a casa precisa diariamente, também se fazem sentir no alinhamento das pequenas e bem tratadas hortas.

.

 

.

 

Travancas é também uma aldeia que conhece o rigor dos Invernos e do frio, da neve (quando toca!) e tudo graças a sua altitude de 900 metros, num extenso planalto que de Inverno assume um aspecto agreste. É a aldeia, que se situa à maior altitude, na região.

.

 

.

 

O Abade Baçal defendia mesmo que o seu topónimo derivava da palavra trabanca, termo espanhol que significa obstáculo ou coisa impeditiva de trânsito. É da mesma origem o termo atravancar. Possivelmente este povoado do alto da serra e do grande planalto impediria o avanço de invasores,  seria ponto estratégico da antiga arte militar e talvez local onde, em tempos passados, se travaram sangrentas batalhas entre mouros e cristãos (dizem os entendidos das universidades públicas ou não).

.

 

.

 

A noroeste da povoação, até há poucos anos, era possível observar vestígios de fossos ou trincheiras, que teriam sido abertos por ocasião da guerra da independência.

 

 

O povoamento primitivo era no local de Palheiros, do qual há pouca documentação ou referências escritas.

.

 

.

 

A sua Igreja paroquial, da devoção a S. Bartolomeu, de linhas muito simples, tem gravado no dintel a data de 1811, que poderá situar a época do último restauro e acrescento. A festa ao padroeiro celebra-se a 24 de Agosto, no entanto é a festa do Sr. dos Aflitos, a festa da freguesia, que reúne mais força e mais tradição, esta a realizar no último domingo de Agosto, junto à capela localizada nas redondezas da aldeia, no meio dos campos de centeio e batata, pacato, calmo e agradável, além da festa natural de Agosto que está associada às naturais férias dos emigrantes e da sua visita à terrinha.

.

 

.

 

E para terminar, só me resta mesmo dizer que sempre que vou para estas bandas, Travancas é ponto de paragem obrigatório, para refazer forças ao caminho, com um café ou uma água que seja, pois nas redondezas não há outro café que seja ou esteja sempre aberto e, publicidade à parte, mesmo porque não tem concorrentes, é o Café Central, que, claro, tinha que ser do Gustavo, o Presidente da Junta.

 

E por hoje é tudo e amanhã cá estarei, com algumas aldeias e outras coisas que merecem destaque neste blog.

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:50
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
9 comentários:
De José Miguel da Rocha a 26 de Julho de 2008 às 09:22
Tenho muito prazer em ser o primeiro a saudar o Snr. Fernando Ribeiro, pelo belo trabalho realizado sobre a Aldeia, para mim muito querida, TRAVANCAS.
Depois das aldeias da minha Freguesia, que é a vizinha S. Vicente da Raia, aquela com que tive mais afinidade foi Travancas, pois residi lá, durante mais de meio ano, (na casa dos avós do Gustavo) para frequentar a Escola e fazer a terceira classe.
Isso contribuiu para se criarem amizades tão fortes e sinceras, que ainda hoje se mantêm, entre aqueles que somos vivos.
Que saudades da Festa do Senhor dos Aflitos, que se realizava no 1º Domingo de Setembro, à qual nunca faltei, desde os 8 aos 26 anos e onde muito me diverti.
Totalmente de acordo com tudo que escreveu, merecidamente, sobre Travancas.


De Sónia Ferreira a 26 de Julho de 2008 às 14:42
Desde já o meu reconhecimento do trabalho efectuado no post "aldeias" e também o agradecimento especial, por hoje a " minha terra " que me viu nascer tão bem descrita no blog.
Ver a aldeia onde nascemos é sempre muito gratificante que nos deixa quase sem palavras.
Travancas sempre foi e será uma aldeia pequena mas muito acolhedora.
Muito obrigada mais uma vez.


De riolivre a 27 de Julho de 2008 às 16:25
Isto de ser filho de guarda-fiscal fez com que, durante algum do percurso das nossas vidas tenhamos, como os e com os nossos pais, também tivéssemos tido o nosso contacto com uma certa forma de nomadismo.
Vem isto a propósito, Fernando, deste post interessantíssimo (como todos, aliás) sobre Travancas. É que tmabém esta bonita aldeia do planalto está asiciada à minha meninice, já porque me acolheu durante algum tempo e, também por aí ter nascido o meu saudoso irmão.
Mas Travancas continua associada à minha vida duma forma muito especial sobretudo por ter em muitos desses fillhos de GF que referes alguns dos meus melhores amigos e que, neste momento me ajudaste a recordar com o carinho que todos me merecem.


De herminio santos a 19 de Setembro de 2008 às 21:57
Congratulo o Sr. Fernando pelo esplêndido trabalho aqui apresentado sobre a nossa tão nobre freguesia de Travancas da Raia.
São de grande valor as imagens que aqui nos apresenta, é através delas que se demonstra o enorme esplendor das paisagens nesta época de Verão e as quais devem ser guardadas em memória para mais tarde recordar.
Um bem haja ao seu magnifico trabalho.
um abraço
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Congratulo o Sr. Fernando pelo esplêndido trabalho aqui apresentado sobre a nossa tão nobre freguesia de Travancas da Raia. <BR>São de grande valor as imagens que aqui nos apresenta, é através delas que se demonstra o enorme esplendor das paisagens nesta época de Verão e as quais devem ser guardadas em memória para mais tarde recordar. <BR>Um bem haja ao seu magnifico trabalho. <BR>um abraço <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Herminio</A> Santos <BR class=incorrect name="incorrect" <a>www.argemildraia.eu</A> <BR>


De Homero TravancasJunior a 24 de Dezembro de 2009 às 18:28
Bom natal para todos Meu avô Adolpho Antonio Travancas nasceu em Tinhela e minha avõ Valentina Teixeira em Bobadela de Monforte Estive visitando a Região em Setembro/1998 e espero voltar em 2011 Belissimo o trabalho na apresentação Abraço paara todos.


De Manuela Anjos Ribeiro Silva a 18 de Fevereiro de 2010 às 15:05
Boa tarde gente de Travancas
Sempre gostei muito dessa linda aldeia, na minha adolecência no verão ia passar uns dias de férias, ainda hoje recordo esses dias maravilhosos, espero visitar Travancas no verão, O meu tio era o Vitor e sou prima do David , Zeca e da Rita . Alguns anos que não os vejo.


De Paulo Sá a 7 de Junho de 2015 às 18:41
Gostaria de contactar um camarada de armas que andou comigo no Regimento de Comandos da Amadora e que era natural daí. Seu nome Jose Luis Pires. Alguém me pode ajudar ?


De Fer.Ribeiro a 7 de Junho de 2015 às 23:00
Olá Paulo

Talvez eu possa ajudar se for o José Luís que estou a pensar. Em que ano fez tropa, ou que idade terá hoje?



De Paulo Sá a 8 de Junho de 2015 às 23:29
Obrigado pela sua atenção

Andou comigo durante o ano de 1984, deverá ter 51/52 anos.
Abraço


Comentar post

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
14


24
26
27
28
29
30


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. O Barroso aqui tão perto ...

. Quem conta um ponto

. Condeixa (Quinta), Casa A...

. Pedra de Toque

. Cidade de Chaves - Um olh...

. Crónicas estrambólicas

. Flavienses por outras ter...

. Cidade de Chaves - Um olh...

. Chaves D'Aurora

. Cidade de Chaves e a Nª S...

. Quem conta um ponto...

. O Barroso aqui tão perto ...

. Pecados e Picardias

. Cimo de Vila da Castanhei...

. O factor Humano

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites