Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

Discursos Sobre a Cidade

 

Nascido flaviense, ali mesmo a dois passos da Igreja Matriz, na Casa de Saúde do Dr. Mário Carneiro, cedo passei a viver em Viana do Castelo. Regressei a Chaves já no fim da infância, com os olhos cheios de mar e a imaginação deslumbrada com toda a alegria de entre Minho e Lima.

 

Conhecendo já a região, achei-a estranha. Não encontrava ali a agitação das Festas da Senhora da Agonia, nem os gigantones, nem a contagiante alegria dos infindos arraiais minhotos. E o mar, aquele mar líquido e hipnotizante, havia-se transformado e solidificado num obstáculo intransponível. Em Viana havia um altar que celebrava a costa e glorificava o mar – o monte de Santa Luzia. Aqui havia um gigante que guardava o vale e cercava a cidade – o Brunheiro.

 

Andei perdido durante alguns meses. Até que um dia compreendi que a cidade já estava dentro de mim e que a Rua de Santa Maria, onde vivia a minha avó, era o centro do meu pequeno mundo.

 

Nas manhãs caiadas e soalheiras de verão, era ali que me encantava com o trinado dos canários e pintassilgos e me animava com a vozearia das vendedeiras. Depois de longas noites a brincar por entre a conversa das vizinhas que vinham sentar-se na rua, ao fresco, os pregões matinais e a plumagem dos canários contrastavam alegremente com as palavras quase ciciadas da noite, que por vezes perpassavam por cima de nós, entre sacadas e varandas, como zilros.

 

Era dali que partia para quase todas as minhas aventuras. Longos recolhimentos, silenciosos e solitários, no misterioso quarto da ama, vasculhando velharias esquecidas, ou barulhentas brincadeiras na varanda interior, zaragateando com o Luís e o João enquanto jogávamos às latinhas em pistas improvisadas.

 

Era ali que decidia e planeava, à última hora, maravilhosas e divertidas aventuras na Galinheira ou intrépidas deslocações ao distante Açude.

 

Muitas vezes, as aventuras acabavam por nada ter de maravilhoso ou emocionante. Mas não havia lugar para o desânimo, porque outro dia se seguiria àquele. Esse sim, certamente cheio de surpresas e de verdadeiras maravilhas.

 

Era essa uma idade em que eu tinha todo o tempo do mundo e em que todas as pessoas que viviam nesse meu mundo eram eternas.

 

E é disto que eu creio que todos nós temos, ou teremos, saudades. Saudades das alegrias e dos tempos despreocupados do nosso passado. Saudades do tempo em que não éramos nós que tínhamos de ser adultos. Saudades de nós mesmos, num tempo em que éramos outros.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:38

editado por blogdaruanove em 16/07/2010 às 21:48
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