Domingo, 16 de Novembro de 2008

Limãos - Chaves - Portugal

 

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Invariavelmente acontece-me sempre o mesmo, ou seja, marco destino para um lado e acabo noutro.

 

Tarde de Sábado fria mas com sol acolhedor, uma boa oportunidade para os registos dos tons outonais das nossas pequenas florestas. Há que aproveitar as poucas horas de sol da tarde deste Outono que já se apresenta bem frio e a escolha de itinerário não é difícil, pois todo o trajecto da Nacional 314 promete bons tons Outonais. Mas não, não sei se tarde ou ainda cedo, os tons do colorido não são os melhores pelas bandas da 314. Em cima do joelho, mudança de itinerário. A estrada entre Ventuzelos e Vilas Boas pareceu-me a mais indicada e toca vai daí, monte acima onde o raio dos pinheiros nem pintam nem despintam, sempre o mesmo verde, velho e mortiço que nem é bonito nem feio, é pardo repetitivamente durante todo o ano e nem sequer a Primavera ou Outono lhe dão algum brilho. Havia que continuar mais um bocadinho, pois Vidago e o parque do palace dão sempre boas fotos. Despiste meu, pois esqueci-me das obras e de um parque desarrumado, desarranjado e desventrado, mas mesmo assim, valeu pelas fotos da avenida da antiga estação da CP.

 

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Mas ainda não era bem isto que queria, pois pretendia o Outono no seu estado selvagem. Talvez o Rebentão… mas também não. Estava sombrio e pouco convidativo. Nova rota para o itinerário dos tons de Outono. A Estrada de Valpaços pareceu-me bem. Até ao miradouro pouca coisa, mas com as obras e a introdução das barreiras laterais, agora, quase nem há sítios para parar uns instantes que seja. Entre S.Lourenço e S.Julião sempre há qualquer coisa… mas ou eu estava exigente ou então nada despertava o olhar. Definitivamente tinha a tarde de sábado perdida…pensava eu.

 

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Já que estava em S.Julião, aproveitei para dar uma vista de olhos para ver como brincam com os dinheiros públicos e o mal gastam numa estrada que liga duas cidades e que distam entre elas pouco mais de 20 quilómetros – Chaves/Valpaços. Um autêntico disparate e esbanjar de dinheiros públicos, que são nossos, e que mostra bem a “competência” dos que estão à frente dos destinos do nosso país e das nossas regiões. Para fazer mal feito, mais valia não fazer nada e sempre nos poupavam o incómodo e transtorno das obras…. Chaves e Valpaços mereciam uma ligação digna, não só pela proximidade geográfica, mas também pela ligação social que sempre houve entre ambas as cidades, pois Valpaços foi desde sempre (tal como Boticas) o concelho que mais fortes ligações tem a Chaves. É vergonhoso o que se passa nesta empreitada, onde tanta obra há e tanto dinheiro se gasta para tão poucas melhorias, ou nenhumas, como no troço entre Chaves e o miradouro de S.Lourenço. E para rematar penso que os xerifes das duas cidades também teriam uma palavra conjunta a dizer, pois silêncio tem sabor de consentimento.

 

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Bem, mas vamos continuar no passeio de Sábado, pois anda não anda, entro no concelho de Valpaços, mas só por instantes, pois logo a seguir entra-se de novo no concelho de Chaves para a nossa última aldeia, onde por lá tudo é diferente, começando pelo nome: Limãos.

 

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De facto penso que Limãos é caso único, pois deve ser a única aldeia pertencente a um concelho que para se chegar até ela se tem que, obrigatoriamente, passar por outro concelho. Mas em termos de singularidades não nos ficamos por aqui e tal como dizia atrás, começa pelo seu topónimo de Limãos em vez  limões ou limas, mas por aqui, a singularidade é apenas aparente, pois a origem do topónimo parece nada ter a ver com fruta, mas antes com galegos, pois pensa-se que a origem do topónimo terá a ver com uma colónia de indivíduos provenientes de Límia. Talvez assim seja e como costumo dizer, à falta de melhor explicação, esta serve.

 

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Mas em quase tudo Limãos é diferente, começando pela recepção é feita por um “Constantino”, guardador de duas vacas leiteiras e um burro, que mal avista a entrada de estranhos, monta na sua mota imaginária e alinha-se ao lado do carro, como quem vai a bater caminho. A vida de guardadores sempre teve as suas fantasias.

 

Na entrada da aldeia um cão de três patas, logo a seguir o Fernando, único também por ser a única criança já adolescente a frequentar a escola em Chaves, à moda antiga, ou seja (agora de Inverno) sai de casa ainda de noite, bem de madrugada, para regressar a ela, já noite feita, bem avançada, mas em Limãos, é o rei das ruas, não fosse ele o único adolescente por aquelas paragens, ou quase, pois pareceu-me haver um outro que trocou definitivamente os livros pelas ruas e lides de Limãos.

 

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Caso (quase) único também nas construções tradicionais e mais antigas da aldeia, pois por aqui também o xisto (estranhamente ou talvez não) mistura-se com o granito nas construções de pedra. Mais uma aldeia do concelho a juntar às aldeias da freguesia de S.Vicente da Raia, em termos de xisto, claro. Mas dizia eu que estranhamente ou talvez não, pois não é assim tão estranho se olharmos à sua localização em que geograficamente por natureza Limãos tem mais características de terras de Valpaços do que de terras de Chaves, e em terras de Valpaços o xisto como componente das construções já não é tão estranho como por terras de Chaves.

 

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A respeito ainda da sua localização geográfica, em conversa com um dos poucos resistentes de Limãos, dizia-me que por um lado estão bem com Chaves, mas por outro era melhor pertencerem a Valpaços. Como a resposta ao meu porquê daquela afirmação é política, ficamos por aqui.

 

Continuamos com casos únicos de Limãos e chegamos ao fundo da aldeia, onde se localiza a pequena capela sobre cuja beleza os poucos residentes dividem opiniões. Se não fosse pela quase impossibilidade da probabilidade e também humildade da construção,  eu diria que o seu projecto era de Sisa Vieira, mas penso que o projecto saiu de um momento de inspiração de um qualquer arquitecto local, mas que é diferente, lá isso é, e tal como dizia, se há resistentes que até gostam dela e a mantêm tratadinha e arranjadinha, outros há que dizem que a antiga capela, antes dos arranjos, sim, era bonita. Eu louvo-lhe a diferença e a ousadia da arquitectura, mesmo que muito simples e humilde. Mas como a arquitectura é uma arte, que venha outro a seguir e que diga o que se lhe aprouver.

 

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Mais casos únicos em Limãos são as casas que se dividem em dois grupos: as antigas de xisto com componentes estruturais em granito, todas desabitadas e em ruínas; e as novas, algumas habitadas pelos resistentes, outras que esperam pelo verão para mostrar o ar da sua graça e outras só às vezes, quando calha.

 

Caso raro também, é a idade da “patriarca” da aldeia que nem sequer sabe a sua idade. Perfeitamente lúcida, de boa memória, boa agilidade, sem óculos e aparelho no ouvido, dizia-me que lhe deviam faltar dois ou três anos para os 100. Os resistentes confirmaram e o filho dizia-me que a mãe tinha 97 anos. Fugiu-me à fotografia, mas se este blog ainda existir, faço questão de a trazer aqui quando fizer os seus 100 anos, pois pela aparência, ainda vai andar por cá para conhecer os novos presidentes da República e muitos mais governos, ela que já assistiu ao enterro de reis e da monarquia, de duas repúblicas, e muitos presidentes da república e chefes do governo, tantos, que já não lhe chegam os dedos das mãos e dos pés para os contar.

 

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E que mais há a dizer sobre Limãos!?

 

Pouco mais, pois a aldeia é pequena e os resistentes também não são muitos, e quanto às suas lides, são as do costume e ligadas ao campo. Lameiros para o gado, também não muito, mas algum, pois por lá descortinei um cavalo que teve direito a fotografia (a pedido do dono), três burros, duas vacas leiteiras, além do cão de três patas e de alguns gatos, mas ariscos, pois nunca se puseram a jeito para a fotografia e mais depressa desapareciam do que apareciam.

 

Quanto a culturas do campo, também são as do costume, embora a baixa da aldeia esteja destinada a lameiros, mas também há algumas árvores de fruto e castanheiros.

 

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Mas como sempre vamos aos números do despovoamento e aos valores apurados pelo Censos 2001, ou sejam 56 habitantes no total, tendo 2 menos de 10 anos e 14 mais de 65 anos. Comparativamente só tenho os dados totais do Censos 1991 em que Limãos tinha 65 habitantes residentes. Relativamente a perda em 10 anos não foi significativa, mas vamos esperar por 2011 para saber quanto temos de subtrair aos 56 habitantes de 2001.

 

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E graças à procura dos tons de Outono, hoje fomos até Limãos, pena que já tivesse chegado tarde e já anoitecia quando de lá sai. Perde a fotografia, mas mesmo assim valeu a pena e ainda antes de terminar só falta mesmo agradecer os bons momentos de conversa que ontem passei por lá e a simpatia dos seus resistentes e é caso para dizer: Poucos, mas bons, tal como o fio azul, que por Limão também não é excepção.

 

E por hoje é tudo, e quanto a Limãos temos encontro marcado para os 100 anos da “patriarca” da aldeia. Limãos terra única e de singularidades que pertence a Chaves mas que para lá se chegar temos que obrigatoriamente passar por terras de Valpaços.

 

Até amanhã com mais um ilustre flaviense.

 

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:35
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3 comentários:
De riolivre a 19 de Novembro de 2008 às 00:59
OLá meu caro Fernando!
Só vim aqui porque, provavelmente não sabes mas a professora Vera Lúcia (cõnjuge do Américo Peres) é natural de Limãos. Talvez por aí consigas mais algum conhecimento interessante acerca desta aldeia encravada no concelho de Valpaços.
Abraço.
Celestino


De Anónimo a 12 de Dezembro de 2012 às 15:24
Só para acrescentar uma informação sobre a "patriarca" referenciada no post:
Está a 3 meses de completar 102 anos.


De helder a 16 de Agosto de 2014 às 12:30
Hoje vou visitar Limaos...estou muito curioso depois de ter lido o livro "as contrabandistas" do meu amigo manuel araujo.


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