Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Discursos Sobre a Cidade

 

 

Éramos jovens e a nossa paixão pela cidade dispersava-se muitas vezes pelos seus inúmeros pormenores.

 

Portões de ferro forjado, vidraças coloridas, caixilhos de janelas, clarabóias e até pátios interiores. Todos os detalhes, por mínimos que fossem, nos entusiasmavam e serviam para longas conversas, que de tão longas entravam pela madrugada dentro. Chegámos até a ter o iniciático hábito nocturno de percorrer as ruas de olhos quase fechados, olhando apenas para as nossas palavras e para as nossas ideias, porque toda a cidade parecia já estar dentro de nós.

 

Certa vez, contudo, ocorreu um episódio que nos trouxe particular preferência pelas varandas e sacadas da cidade.

 

Havia o nosso velho argumento consensual de as sacadas serem um espaço que pretendia consagrar um estatuto social diferenciado, e de distanciação, e as varandas um espaço comunitário por excelência, um espaço contíguo onde conversas e afectos se desenvolviam e nutriam. Argumento originado pelas características da minha casa, que tinha uma sacada na frente e uma varanda corrida nas traseiras, parecendo continuar todas as outras. Eu e o Nuno gostávamos  bem do aconchego da varanda, muito  mais discreta que a sacada, e em momentos de maior nostalgia romântica, frente ao pôr-do-sol, só lamentávamos que não houvesse nenhuma menina nas varandas mais próximas.

 

Foi a partir da sacada, no entanto, que conheci a Isaura. Uma vizinha que se mudara para o lado, para o prédio cuja varanda chegava aos limites do meu, deixando-nos a poucos metros um do outro, para conversas mais íntimas. Foi desta minha sacada que o Nuno viu a Isaura e a conversou para outros encontros.

 

A Isaura viera viver para um quarto alugado a uma velhota resmungona que não queria ouvir falar de visitas em casa e muito menos de namorados ou pretendentes das meninas que lá passaram a viver. Com três quartos nas traseiras do segundo andar, alugara-os estrategicamente, deixando o seu no meio, para melhor garantir a virtude e os bons costumes.

 

A verdade é que, ao fim de algumas semanas, o Nuno arranjara maneira de se esgueirar familiarmente para o quarto da Isaura quando a velhota saía. A porta da entrada ficava entreaberta e a vizinhança não desconfiava nem prestava muita atenção porque o vira sempre entrar para minha casa, na porta ao lado. Com o tempo, até começou a passar lá algumas noites. Quando a situação se complicava, refugiava-se no guarda-vestidos do quarto durante algumas horas.

 

Mas a velhota começara a andar desconfiada, olhando de soslaio para a Isaura, pois sabia que ela andava de conversa com o Nuno. E numa soalheira manhã de inverno, quando a roupa pendurada parecia ter sido engomada pela geada, fui encontrar o Nuno nas traseiras da minha casa, na varanda, tiritando e em trajos menores, a praguejar desbragadamente.

 

"Então o guarda-vestidos?", perguntei desconcertado. Depois de se aquecer e de se recompôr foi-me respondendo: "Já lá estava o namorado da Lúcia, que só tem a cama e uma cómoda no quarto... E a maldita da velha não larga a porta, dizendo que há-de apanhar o malandro à saída! Mas deixa estar que eu trato dela... Tens aí uma roupa que me emprestes?"

 

Vestiu-se e saíu sorridente, dizendo-me: "Vai até à sacada!" Daí a momentos lá estava ele, na rua, a bater à porta do lado. Quando a velha veio abrir, pôs o ar mais simpático e educado que conseguiu, perguntando-lhe: "Bom dia! A Isaura ainda está em casa ou já saíu?" Atónita, a velha deu uns passos para fora, sem saber que dizer. Eu aproveitei para ajudar à festa, lançando-lhe de cima um irónico: " Bom dia, Nuno! Hoje madrugaste..."

 

A velha, completamente atordoada, foi chamar a Isaura, coisa que nunca teria feito antes, e nós desatámos a rir à gargalhada.

 

A partir de então, durante alguns meses, divertimo-nos a observar a vizinhança que partilhava a proximidade das varandas corridas e a imaginar o que aconteceria em algumas delas, altas horas da noite...

 

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publicado por blogdaruanove às 00:07
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