Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Discursos Sobre a Cidade - Ser Padre é melhor que ser Doutor, por Gil Santos.

 

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SER PADRE É MELHOR QUE SER DOUTOR

 

Texto de Gil Santos

 

 

Sacudindo o pó fino e seco da rodeira, ralas gotas de água soltavam-se grossas de uma trovoada de Maio. No ar pairava um odor agridoce a terra molhada. Os sabugueiros, na orla dos lameiros, vestiam-se de noiva imaculada com as suas alvas flores. A carriça, de Jou para Jales, ocupava-se acarretando musgo verde para os buracos das paredes, na azáfama da construção dos sete ninhos a que Deus, por castigo, a obrigou. As borboletas pejavam o ar com as cabrioladas formas dos seus voos, aparentemente, confusos. A giesta, piorneira, enchia-se da beleza icterícia das suas flores amarelas, vivas, cheirosas. A vida brotava em cada rincon mais escondido. A luta pela perpetuação das espécies escraviza as criaturas de Deus na procura de parceiros para acasalar. Era um tempo de renovo, de renascimento, de alegria, o fim da letargia invernal feita de gelo e solidão.

Nesse fim de tarde, do S. Caetano, advogado das coisas más e dos males desconhecidos, descia a encosta a Maria Antonieta e o seu homem José da Taleta, mais conhecidos por mouchos. Regressavam de pagar uma promessa que, pela fé cega que tinham nos favores do santinho, cumpriram por antecipação, isto é, pagavam adiantado.

Este casal, de muitos teres, era conhecido pela citada nomeada porque quem olhasse, mesmo desatentamente, para o José, não deixava de o identificar imediatamente com a figura noctívaga do bufo real, o maior e o mais potente dos mochos: uns olhos expressivos, enormes, de íris castanha muito clara quase amarela, um cabelo farto, penteado para trás e com uns penachos na parte superior da cabeça à laia das orelhas do mocho, um nariz de meio arco e um tronco agarrado quase directamente à cabeça, como se o pescoço fosse um prolongamento natural do tronco. De facto um quase perfeito moucho. Para além das óbvias diferenças entre o bicho bufo e o Taleta, a que mais se destacava era a de que o pássaro, à noite, caçava ratos para comer e o Taleta ratas para sobreviver!

O José, todas as noites, depois da lauta ceia, com a desculpa de que ia pensar os bois, deixava a mulher de poulo a fazer na meia e cozia-se às sombras das paredes, correndo, nos arrabaldes da cidade, as capelinhas das amantes à procura da felicidade que lhe negavam em casa. O seu maior sonho era ter um menino barão, legítimo ou não, mas que por um lado herdasse a fortuna que amealhou e por outro o ajudasse, nas feiras da cidade, no negócio da venda dos produtos agrícolas que produzia na Veiga. No entanto, não havia maneira do dito cujo ver a luz do mundo. Dava até impressão que as mulheres com que se dava eram, afinal, todas machorras, incluindo a legítima. Por muito que o desgraçado fizesse por isso, e se fazia, não havia maneira de nenhuma pegar. Não restava senão a solução divina que, para além da posse humana, fizesse as mulheres emprenharem de vez. Já havia, inclusivamente, dormido com a esposa, uma noite, ao relento na Ponte da Misarela no Rebagão onde se dizia que o diabo auxiliava a emprenhar a fêmea renitente que por lá pousasse. Mas infelizmente, por muito que para isso se esforçassem, nunca resultou. Ia para velho e a única esperança que parecia restar era um milagre do bendito S. Caetano. Esse, tinha a certeza, haveria de lhe valer, não o deixaria ficar mal certamente.

Contudo, dizem que os santos não conseguem fazer milagres sem uma ajudinha dos mortais!...

Ora, era então do cumprimento desta bendita promessa que regressavam. A Taleta vinha montada numa mula cega de um olho, que não dando para o trabalho da lavra servia, sequer ao menos, para o transporte dos donos. Era puxada à rédea pelo José que caminhava à sua frente. O sol, por entre as nuvens carregadas da trovoada, emprestava àquele cenário um ambiente propício a que o milagre acontecesse, sendo preciso, tão só, fazer por ele. O chão, molhado pelos grossos pingos de chuva que a espaços caiam, secava quase imediatamente. O José começou a perceber que a solidão daqueles caminhos que do S. Caetano conduziam à cidade, poderia muito bem ser o cenário da sua felicidade.

– Oh Taleta parece que a mula manca! - Atirou o José matreiro.

– Manca agora! Pr’ó qu’eu peso! - Respondeu a Taleta longe das intenções do marlante!

– Tu não vês que manca, desarreia-te para lhe vermos a pata da frente! – insistiu o moucho

O José, aproveitando um penedo azadinho que dava pelos peitos da mula, encostou-a e fez apear a mulher. Prendeu a besta a uma giesta, pela cabeçada e ajudou a mulher a descer do pedregulho. Quando a apanhou no chão, traçou-a pela cinta e pregou com ela, de costas, numa cama fofa de fanenco na borda do caminho. A Taleta, nem pestanejou pois também ela acreditava que a benzedura, ainda fresca, do S. Caetano, não só permitia, como abençoava a junção dos fluidos!

Assim foi, por milagre e pela hora boa, a Taleta emprenhou! Agora o milagre, para ser completo, só precisava de trazer um filho barão!

E não é que trouxe mesmo!

Daí a nove meses nasceu um rapaz como um chouriço! O mouchinho era o azeite da almotolia daquela casa, a luz dos olhos de seus pais! Cresceu como a flor mais preciosa de um jardim real. Nada lhe faltava, nem mesmo a fidelidade que o pai moucho guardava à sua mãe desde que o pimpolho nasceu. O velhote tinha já tudo o que desejava e os bois bem podiam passar agora sem ceia!

O cachopo passava a vida na escola da rua do Poço, nas aulas do mestre Joaquim, onde era um belíssimo aluno. Um dia aconteceu até uma coisa caricata resultante da aprendizagem na aula de Ciências da Natureza. O professor explicou aos meninos que o verdadeiro nome daquele buraco que todos os seres humanos têm ao fundo das costas não se chamava, de facto, rabo ou cu, como todos diziam, mas antes ânus, como mandava a sapatilha. O moço, admirado, quando chegou a casa apressou-se a dar a novidade à sua mãe, quase analfabeta:

– Oh mãe, sabes como se chama o cu da gente? – Perguntou, espevitando a curiosidade da progenitora.

– Não, não sei. Diz lá! – respondeu a mãe como quem não quer a coisa!

– Chama-se ânus, ensinou-me o professor! – Botou o puto com ar doutoral!

– Ânus?!! Anda meu bruto, o professor a gozar contigo e tu nem dás conta!

 

O resto do tempo passava-o brincando com os meninos e as meninas da sua idade. Desde muito pequeno e sem que isso preocupasse alguém, mostrava uma inclinação desmasiada para as bonecas e para o resto dos brinquedos das meninas. Já grandinho e naquela idade em que os rapazes as detestam, era vê-lo alegre e contente a brincar às casinhas e aos caldinhos com elas. A coisa estava a ficar feia!

Um parêntesis: os santinhos por muito milagreiros que sejam nem sempre são capazes de milagres perfeitos!...

É claro que à medida que o mouchinho foi crescendo, aquele jeitinho de Adelaide foi-se reforçando e por mais que seu pai se esforçasse por o ignorar lá teve um dia de engolir a dolorosa verdade.

– Oh Taleta o nosso rapaz é paneleiro!?

T’arrenego diabo, tu és maluco home, pode lá ser!

– É o que te digo mulher, o rapaz atraca de popa! Olha que desgraça a nossa! Temos de o pôr a estudar que ele para a terra não tem estaleca! Que desgosto!

Da escola da rua do Poço foi para o seminário de Vila Real. Aí estudou durante os anos que precisou para rezar missa nova na igreja da Madalena uns anos mais tarde.

 

O seu pai moucho se por um lado era feliz por ter um filho padre, por outro era infeliz por lhe ter calhado uma flor de estufa na rifa. Para espalhar as mágoas, todas as manhãs em que se olhava ao espelho, enquanto fazia a barba, rezava as mesmas ladainhas de sempre para conforto da alma. Rezas sem um sentido lógico aparente, serviam por um lado para espiar as mágoas que lhe feriam a alma e por outro demonstravam que o desgosto começava a fazer com que o velhote começasse a fechar mal a gaveta:

– À custa de trabalhos e canseiras mourejando nos campos e tocando burros às feiras foi assim que juntei uns pintos que estão lá ao fundo do baú.

Tu, que és único e o mais inteligente vou botar-te ao latim para fazer de ti gente. Hoje ser padre é melhor que ser doutor!

Um jovem velho, sentado num banco de pedra feito de pau, lendo um jornal sem letras à luz de um candeeiro apagado, calado assim dizia: Já viste um macaco morto, depois de morto, olhar para ti?

Oh filho ingrato que tanto tens desprezado os teus pais, vai para um convento e morre frade!

A Taleta já não o podia ouvir!

 

José morreu como um passarinho. Sentado num banco do Jardim Público, apagou-se feliz como a chama de uma vela à qual faltou a cera. Passou os últimos anos de sua vida derringando polaina pelos jardins da cidade, pela casa das amantes onde fora tão feliz e vivendo dos rendimentos do Panrrelha.

Foi encomendado aos céus por seu filho já cónego do Cabido da Sé de Braga! Entrou directo no Reino dos Céus não precisando sequer que o S. Pedro fizesse as habituais contas entre o deve e o haver!

Faz hoje parte do coro de anjos que entoam laudes aos santinhos milagreiros.

E que prazer o dele quando calha a vez ao bendito S. Caetano!...

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:00
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