Domingo, 14 de Dezembro de 2008

Abobeleira - A Matança do Porco - Chaves - Portugal

 

Associadas às estações do ano vão-se cumprindo algumas das tradições populares centenárias, cada vez menos, é certo, mas algumas sempre vão resistindo mais que outras. Associadas ao Inverno e ao frio, temos uma das tradições mais populares e também importantes, pois dela irão depender o cumprimento de muitas outras tradições que ao longo do ano lhe estão associadas – a matança do porco, do reco ou da ceva, como preferirem.

 

.


.

 

Já lá vão os anos em que cada casa de família das aldeias ou bairros limítrofes da cidade tinham pelo menos um porco para a matança. Casas mais habitadas ou ricas, chegavam a matar até 6 ou mais porcos por ano, pois deles estavam pendentes muitas das refeições a fazer durante o ano, mas também algum rendimento para a família, associados à venda dos presuntos e também algum fumeiro. Com o despovoamento das aldeias, hoje em dia, as matanças são mais escassas e deixaram de fazer parte dos afazeres comuns do dos dias frios de Inverno e de Dezembro.

 

.

 

.

 

Há no entanto aldeias, principalmente aquelas onde o despovoamento menos se fez sentir, que a tradição ainda se mantém, e hoje além da tradição, é também um dia de festa ou de reunião da família.

 

Abobeleira é uma dessas aldeias onde a tradição ainda se mantém, mas além das matanças familiares e particulares, há uma que se vem realizando nos últimos anos, que além de se recriar toda a tradição associada à matança, se transformou também em dia de festa da aldeia.

 

.

 

.

 

Tudo começou há 3 anos atrás quando um filho da terra e seu habitante, o Jorge Carvalho, se lembrou de matar um porco e de convidar toda a população da aldeia e amigos. Claro que nas matanças além dos trabalhos que lhe estão associados e que todos vão ajudando como podem e sabem, há que dar de comer aos convidados e vai daí, que o próprio porco que vai à faca também vai servir de refeição aos convivas, dia fora e noite adentro. Claro que aqui se perde tudo que está associado aos afazeres e tradições que chegam nos dias, semanas e até meses seguintes à matança, mas a intenção é mesmo recriar e manter a tradição do dia da matança, transformando-o num dia de festa da aldeia, de uma aldeia onde ainda há gente e se mantém o espírito de vizinhança e inter ajuda dos seus habitantes, pelo menos entre os seus habitantes de sempre, os naturais da aldeia ou os que por casamento também passaram a fazer parte dela.

 

.

 

.

 

Este ano, além da aldeia e de alguns convidados de honra que já são habituais, o Jorge Carvalho convidou também a blogosfera flaviense para participar na festa, na qual participaram além deste blog, os blogues Cancelas do casal Milita e Domingos Pires, o Reflexos na pessoa do Dinis Ponteira e o Terçolho na pessoa do João Madureira. O Chaves Antiga também teve como representante o flaviense residente, uma vez que os outros elementos e flavienses ausentes andam ocupados nas lides da Capital. Faltou o blog Valdanta, mas motivos de saúde justificaram a sua falta. Amigos da blogosfera flaviense e valdantina esteve presente o A.Cruz, mas faltou o amigo Tupamaro. Faltou também o bom tempo que se quer nestes dias, mas festa é festa e mesmo com muita chuva, vento e frio, o reco foi ao banco, subiu à “trave”, desceu aos potes e foi à mesa dos convivas.

 

.

 

.

 

Mas vamos então recriar um pouco do dia da matança, em particular este da Abobeleira em dia de matança-festa, que sai um pouco do tradicional dado o apressar da descida do porco ao pote, mas que mesmo assim se foram mantendo os rituais da matança do reco.

 

.

 

.

 

 

Ainda o dia está a nascer, bem cedo, em manhã chuvosa mas gelada como convém e já o matador tem o seu naipe de facas afiadas e preparadas para o acto. O reco já anda pela redondezas, ainda à solta.

 

.

 

.

 

De entre os muitos convidados aparecem dois voluntários para irem convidar o porco a dirigir-se ao banco. A teimosia do porco é conhecida por todos e não vai lá por convites, por isso há que lhe apertar o cerco, agarra-lo e levá-lo à força. No banco já o espera o matador (neste caso o anfitrião) onde uma dúzia de mãos imobilizam o reco para que a faca seja rápida e certeira. É nesta fase que os mais sensíveis se afastam para o lado assobiando para o ar e o mais curiosos se aproximam.

 

.

 

.

 

Posto o alguidar de barro de Vilar de Nantes em posição para recolher o sangue que irá dar lugar à primeira iguaria do dia, é altura de espetar a faca. Acto que é certeiro e rápido, pois em menos de um minuto o reco está pronto para os trabalhos seguintes. Entretanto o sangue o seu destino a caminho das mulheres, que o cuidado de não o deixar coalhar, não tardará a entrar no pote que já há muito está na fogueira com a água a ferver.

 

.

 

.

 

No banco, começa de imediato o trabalho de pelar o porco com ajuda de um maçarico (a palha já há muito que caiu em desuso) enquanto meia dúzia de mãos vão raspando a pele queimada e algum pelo que fica. Logo de seguida passa ao banho, continuando-se e apurando-se o resto de algum pelo, com a ajuda de pedras para raspar bem e de uma faca afiada para a barba teimosa.

 

.

 

.

 

“Se queres ver o teu corpo abre um porco” é ditado popular e é também o passo seguinte para as mãos do matador. Um trabalho cuidado e feito com alguma mestria, pois trata-se de abrir o reco para lhe retirar as tripas, e todo o cuidado é pouco, não vá uma das tripas rebentar-se. Parte no banco até que chega a hora de o subir à trave, que na ausência desta, qualquer coisa que o pendure lá no alto, serve.

 

.

 

.

 

Se a tradição fosse cumprida à risca, estava na hora de recolhidas as tripas num alguidar, as mulheres seguirem com elas para as lavarem no riacho mais próximo, pois seriam elas que iriam dar lugar aos futuros enchidos (alheiras, linguiças, salpicões, chouriços). Também aqui se fica a conhecer mais uma das funções do famoso fio azul.

 

.

 

.

 

Esventrado o reco, deveria ficar dependurado pelo menos durante um dia e uma noite, antes de ser desmanchado, para que todo o sangue lhe saia das carnes e o frio torne as carnes mais limpas e com um pouco mais rijas, mas como por aqui o tempo era pouco, a desmancha seria feita umas horas mais tarde.

 

.

 

.

 

Entretanto já algumas horas passaram e havia que dar algum conforto ao corpo. Uma breve passagem pela fogueira para aquecer por fora, servia, mas por dentro, o consolo chegava com o sangue já cozido, temperado com azeite e alho, algum picante, uns pedaços de pão e uns copos de tinto, começavam a acomodar a casa por dentro, mas também as iscas de fígado frito com um preciso molho e logo de seguida os rojões faziam a sua entrada triunfal, quentinhos e loirinhos eram um regalo para a vista, mas muito mais para os estômagos, que já começavam a estar satisfeitos com as primeiras iguarias do dia.

 

Passadas algumas hora chegava o trabalho de desmanchar o porco. Trabalho de mestre que já requer as mãos de quem sabe. Alfredo foi o mestre na arte de desmanchar debaixo do olhar atento de curiosos, aprendizes mas também paparazzis blogueiros que desde a manhã já tinham uma boa centena de fotos batidas onde havia ainda lugar até para um arco-íris enquanto que o reco, nas mãos do Alfredo, aos pouco se ia transformando em febras, costelinhas ou carne para o pote, que nunca saiu do lume e ia apurando carnes para a feijoada da noite.

 

.

 

.

 

Já era quase chegada a noite quando a desmancha acabou. Havia de novo que aquecer os corpos na fogueira enquanto que a feijoada ia apurando e os grelhadores já aqueciam para as febras e costelinhas.

 

Entretanto a festa continuava e já se sabe que não há festa sem música, bombos, concertinas e cantares que iam entretendo a entrada na noite enquanto que na cozinha entre um convívio alegre a feijoada à transmontana ia ficando pronta e ficou momentos depois.

 

.

 

.

 

Salão cheio num espaço que já foi sala de aulas e onde pela certa alguns dos presentes aprenderam as primeiras letras, num agradável espaço que foi transformado para todo o tipo de eventos que a aldeia leve a efeito, com um salão amplo, instalações sanitárias e uma cozinha bem equipada, não faltando um amplo espaço exterior, que a esta hora do campeonato já estava quase abandonado, com a fogueira sozinha e alguns voluntários nos grelhadores, é que a feijoada já fumegava nas mesas e já se sabe que é quentinha que ela entra bem.

 

.

 

.

 

“Merenda comida, companhia desfeita” e como os convidados de honra (Presidente da Câmara, Adjunto e Vereador) pela certa que tinha outros afazeres, abandonaram a sala ao fim do primeiro assalto, faltavam ainda as febras e as costelinhas, mas para essa parte ficou como representante o Vice-Presidente, do qual ficamos a saber que não tem lá muito jeito para tocar o bombo, mas lá vai tendo para ir falando e cumprimentado as pessoas.

 

Os representantes da blogosfera flaviense ainda provaram as febras, mas como ainda tinha de fechar a edição do post de hoje, também regressaram a casa para que as suas reportagens possa estar agora aqui.

 

Ao Jorge Carvalho agradecemos a simpatia do convite, ao povo a Abobeleira a prazer do convívio e fica a promessa que passamos na freguesia pelos reis e para o ano também acietamos convite.

 

Agradecer ainda ao A.Cruz por nos ter servido de cicerone na freguesia, com visita guiada ao núcleo histórico Valdanta e ao á história do Cando. Pena só para o tempo que sem ter ajudado à festa, também não a prejudicou.

 

 

À margem da matança do porco fica link para o post dedicado por este blog à aldeia:

http://chaves.blogs.sapo.pt/278053.html

 

Até amanhã de volta à cidade.

´
publicado por Fer.Ribeiro às 04:57
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
7 comentários:
De A.Cruz a 14 de Dezembro de 2008 às 11:50
Belo e rigoroso trabalho do F.Ribeiro !
Resta-nos agradecer aos amigos da Blogosfera Flaviense a disponibilidade e amabilidade em estarem presentes nesta iniciativa.
Perante o post aqui apresentado e do trabalho que vem sido feito, continuamos a pensar que os Blogs Flavienses, já fizeram mais pela divulgação dos nossos lugares, monumentalidade e tradições que qualquer entidade com esse dever e obrigação!

A.Cruz


De Fernando C. Pizarro Bravo a 14 de Dezembro de 2008 às 16:27
Além de felicitar o amigo Fernando Ribeiro, apenas se me ocorre dizer: Que saudades das matanças que vivi em Bóbeda , Santo Estêvão e Vilarelho da Raia!!!
Ao ver estas imagens, de um antigo costume, lembro que, além da matança do "reco" ,havia lugar para um são convívio e um repasto com sentido comunitário. Cumprimento os convivas e, perdõem mas... invejo-os.
Um bom domingo e. já agora, aproveito para desejar a todos um Santo Natal.


De J. Pereira a 15 de Dezembro de 2008 às 11:08
Que belo trabalho que o Fernando fez. Parabéns.
A matança do é por tradição uma das festas de maior significado no mundo rural transmontano, pois é daí que sai o"governo" da casa para o ano inteiro. Costuma-se dizer cá por Trás-os-Montes de alguém a quem a vida não lhe está a correr lá muito bem:
- Está como que não mata porco.
Isto tem um significado muito profundo, pois deduz-se que a pessoa em questão está triste e sem remedeio.
Quero aqui agradecer ao Jorge Carvalho o convite que me fez para estar presente nesta matança, mas a minha saúde e o estado do tempo não ajudaram em nada. No entanto acho que o Tó Zé (A. Cruz) esteve muito bem por mim e por ele. Bem Haja.
Ouvi aqui falar nos Reis, mas não sei se serão cantados como mamda a tradição pois os mordomos devem ser do Cando e ainda não ouvi falar em ninguém, espero que a Junta de Freguesia, à relação de outros anos chame a si essa tarefa para bem da tradição e das coisas boas das nossas gentes.
Com fotografias "rapinadas" daqui e de outros blogs vou fazer um post para Valdanta
Parabéns a todos.


De Fjr - Barreiro a 15 de Dezembro de 2008 às 11:20
Por favor guardem um bocadinho de sangue para mim. Que saudades que eu tenho destes bocadinhos. Belo Trabalho Fernando.

PS: O rojão da palha é para quem é contra a tradição!!!!


De CARLOS ADAO a 17 de Dezembro de 2008 às 18:55
O MEU OBRIGADO POR ME FAZER RECORDAR ESTA LINDA TRADIÇAO NA MINHA POBRE TERRINHA,UM GRANDE ABRAÇO PELO SEU TRABALHO AO SENHOR F.RIBEIRO E NAO ME POSSO ESQUEÇER DE ESSA GENTE PORREIRA DA ABOBELEIRA QUE EU CONHEÇO BEM PRINÇIPALMENTE O MEU PRIMO JORGE CARVALHO QUE FICOU MUINTO BEM,UM ABRAÇO DE ANDORRA ................


De Raul Ferreira a 25 de Março de 2010 às 02:08
Foi com grande prazer que assisti ao convivio,Matanca do porco nessa linda aldeia que eu ainda considero como minha,e da qual tantas saudades tenho assim como de todos os amigos e familiares que por ai deixei. a todos muita saude sorte e prosperidade deste grande vosso amigo que nunca se esquesse de ninguem. um grande abraco para todos. Raul Pereira Ferreira.


De Anónimo a 6 de Janeiro de 2016 às 15:22
Gostei de ver as tradições da terra do meu avô.
Será que ainda tenho família por lá?
O meu avô chamava-se José Batista e sei que era da povoação da Aboboleira, freguesia de Valdanta, se vivesse teria 112 anos. Nem sei se deixou irmãos e sobrinhos.
Não o conheci mas o sangue transmontano é mais forte do que eu pensava.
Bem Haja para todos e um Bom Ano.


Comentar post

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Fevereiro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9



25
26
27
28


.pesquisar

 
blogs SAPO
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Blog Chaves faz hoje 13 a...

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Maços - Chaves - Portugal

. Discursos Sobre a Cidade

. Flavienses por outras ter...

. Pergaminho dobrado em doi...

. Um pormenor e um apontame...

. Nós, os homens

. Rua Verde - Chaves - Port...

. Cidade de Chaves - O temp...

. Chaves D'Aurora

. De regresso à cidade, com...

. Quem conta um ponto...

. O Barroso aqui tão perto ...

. Loivos - Chaves - Portuga...

. O factor Humano

. Rua das Longras - Pormeno...

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites