Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Das pontes para as pontes de Chaves - Portugal

 

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Ontem, na recolha de fotos para o post de hoje, fui parar à Ponte de S.Roque. O céu limpo e um interessante anoitecer convidavam a algumas fotos e até se esquecia o frio, ou pelo menos, perdoava-se.

 

Sempre que vejo a cidade desde o tabuleiro da Ponte de S.Roque sobe-me sempre à cabeça a ideia de que se um dia for o xerife desta cidade, a primeira medida que tomo é implodir todos os mamarrachos do centro histórico e convido as televisões, as escolas de arquitectura e também as de engenharia, os gabinetes de projectos, os antigos xerifes da cidade, o Alcaide de Verin, o Governador Civil, os empreiteiros e demais entidades oficiais e religiosas. A bancada para assistir a tão nobre evento será montada precisamente em cima do tabuleiro da Ponte de S.Roque, precisamente para se ver e poder notar como depois das cinzas, ressurge uma bela cidade, como sempre deveria ter permanecido. Claro que isto só no sonho é possível, pois nunca serei xerife desta cidade e mesmo que o quisesse ser, não teria nenhum empreiteiro para “apoiar” a minha candidatura.

 

Tudo passa por uma questão de modas e épocas e se as há que servem para melhorar as cidades, outras apenas servem para as destruir ou estragar. Chaves, infelizmente, ao longo dos últimos 100 anos tem apostado mais na destruição e no abandalhamento do que na preservação e planeamento, salvo raras excepções.

 

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Se não fossem os devaneios de antigos xerifes da cidade, com a nossa história e arquitectura centenária e milenária, Chaves já há muito que era património da humanidade, naturalmente e nem sequer precisávamos do estatuto oficial e para isso, teria bastado manter e preservar as muralhas medievais e seiscentistas, mas não, pois a moda de há uma centena e mais anos, cá na terrinha, foi destruir muralhas ou endossar a elas as construções. Em meados do século passado, defenderam-se grandes avenidas rasgadas pelo actual centro histórico afora, que felizmente apenas se ficou nos inícios dessas avenidas, como estava destinado para toda a Rua de Stº António ou para a ligação da Rua Direita às Caldas ou ainda das Freiras até à Igreja Matriz e, foi também debaixo desse pretexto, que se destruí o antigo edifício militar e o Jardim do Bacalhau, mas neste caso, infelizmente, não foi levada a efeito a grande alameda que ligaria o Bacalhau ao Monumento e, em seu lugar, nasceram pelo menos mais três mamarrachos, alguns privados, em troca de um edifício público, de um espaço público e de um troço de muralhas. Enfim, o que sempre faltou por aqui foram cabeças sensatas e verdadeiros amantes da cidade, pois só assim se compreende o caos e anarquia que durante tantos anos reinou em termos de novas construções, mamarrachos e novos espaços, associados ao boom da construção no pós 25 de Abril, em que a moda (que ainda se vai mantendo) é primeiro construir e depois planear, ou melhor, tentar planear, ou melhor ainda – adaptar, remediar e minimizar. O caricato da questão, é que no meio de tanta aberração não há culpados, pois a Lei que às vezes serve para proibir, também serve para permitir ou, simplesmente é omissa. Leis que pela forma como aparecem na praça, não parecem sair de governos e legisladores da democracia, mas antes dos grandes gabinetes de empreiteiros, de advogados ou banqueiros ou feitas a pensar neles.

 

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E lá estava eu em cima do tabuleiro da Ponte de S.Roque a matutar na cidade que os longos tempos de exposição das fotos de hoje me proporcionavam e caí em mim (depois das ideias das implosões) a pensar nas modas actuais dos espaços públicos da cidade, nas novas tendências e arquitecturas dos espaços abertos e empedrados das praças da cidade, tendência que começou nos anos 70 com o empedramento da Praça do Duque (em frente à Câmara), da Praça da República e ultimamente as Freiras…já sei que aos poucos estamos a ganhar as margens do rio, mas este tipo de sentimentos é como a condução de um carro, ou seja, quando mudamos de condução de um carro velho para um topo de gama, habituamo-nos logo à sua condução, mas quando acontece o contrário, notamos logo abismais diferenças.

 

Mas a moda actual parece estar mesmo é nas pontes, só assim consigo explicar que Chaves, uma pacata cidade da província, com um rio que se não fossem as presas do espelho de água quase secava durante a maioria do ano, tenha neste momento (dentro da área urbana) 6 pontes e umas poldras, quando durante quase 9 séculos se governou apenas com uma e, pasme-se, tem mais pontes que o Porto sobre o Douro e muitas mais que Lisboa sobre o Tejo, e neste último caso estamos a falar de duas pontes para 2.000.000 de habitantes, e em Chaves temos 6 para cerca de 50.000 habitantes (e aqui já conto com a população de todo o concelho). A isto chama-se qualidade de vida. Provincianos sim, mas provincianos com qualidade.

 

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Que me dera que fosse mesmo a qualidade o que por cá temos, mas infelizmente não é qualidade, mas antes alguns luxos e falta de visão e de planeamento, pois mesmo assim com 6 pontes estamos pior servidos que Lisboa com apenas 2 e tudo porque a velha ponte nova foi construída a pensar numa vila e não numa cidade e a ponte de S.Roque, embora construída para cidade, falta-lhe acessos e foi mal localizada, complicando o trânsito na margem direita do rio e privilegiando o encaminhamento de viaturas para o cancro do trânsito na cidade que o é o Monumento. Pena que os políticos não cumpram as suas promessas, pois o túnel Neves, se não resolviam os problemas do trânsito no monumento, pelo menos poderiam atenuá-los, ou talvez não, pois agora além de não acreditarmos nas promessas dos políticos, também já se começa a não acreditar nos projectos.

 

Assim, que não se estranhe se num futuro próximo aparecer sobre o rio a 7ª ponte para Chaves que, sem as vias estruturantes da cidade e a sua ligação a elas, também pouco resolverá.

 

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Mas depois de tanto matutar a cidade em cima do tabuleiro da Ponte de S.Roque, resolvi dar uma volta pelo nosso querido Centro Histórico para ver a iluminação de Natal, que embora não haja inovações em relação aos últimos anos, aliás penso mesmo que o armador da iluminação já deve ter um contrato permanente com a ACISAT, por tão repetitiva que é. Mas perdoa-se porque dá o necessário ar festivo à cidade que esta quadra recomenda e, mesmo repetitivo e na ausência de melhor, está bem e fica bem, pena que as pessoas se percam no interior dos grandes centros comerciais, lamentam os comerciantes, mas nós também lamentamos, pois também gostamos de ver as ruas cheias de gente. Mais uma vez são as tais coisas do planeamento mas também com grande culpa dos nossos comerciantes. Numa coisa tem o Sócrates tem razão… pois toda esta gente precisa de formação, mas a sério e sem passar pelas novas oportunidades, que essas, cheiram-me que apenas servem para subirmos nos números das estatísticas europeias.

 

E fico-me por aqui, também nos meus devaneios das quartas-feiras. Afinal, que raio, é dia de feira na cidade e há feijoada em todos os restaurantes (pelo menos nos mais populares) e viva a feijoada, que sempre ajuda na festa!

 

Até amanhã, com coleccionismo de temática flaviense.

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:47
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1 comentário:
De Salvador Silva a 18 de Dezembro de 2008 às 14:14
Como sempre, este post é realista e oportuno e trás à tona a lembrança de erros cometidos ou que estiveram para acontecer, deixando a mensagem de que é preciso pensar antes de agir.
Mas, para além disto, está ilustrado com magníficas fotos (para o autor das quais aqui deixo os meus parabéns) que para mim são causa de muita e até grata nostalgia. Muito odrigado.
FESTAS FELIZES para todos.


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